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Sobre julietafalavina

Eu escrevo da minha vida, e agora sobre a minha recuperação da saúde .

Dos mistérios dos detalhes- Kalaw

Acordo antes das seis e olho lá fora e o sol brilha. Levanto e me senti tão bem que penso que não é boa ideia fazer nada. 

Café da manhã ainda não está servido então resolvo ir procurar meu novo guia. Também está fechado. Então resolvo andar um pouquinho pela cidade que está acordando.

Tem caminhões militares na rua. E ninguém parece preocupado. Volto para tomar café da manhã e sou a primeira.


De repente a intrigante família de um japonês com uma Burmeses e filhos chega. O pai só fala japonês, a mãe só fala Burmes e inglês e as meninas falam Japones e Burmes e um pouco de inglês. Tinha tomado café dos lados deles ontem e ficado encantada do tudo que se faz sem a mesma língua.

Encontrei as mulheres de Singapura. A menina me disse para não andar hoje. Para descansar e ir no Spa. Falei que o tempo estava maravilhoso.
E não é que o tempo volta a ficar coberto e resolvo pedir informações de massagem local e me contam de um massagista daqui. Para completar o confronto ele vem no hotel.

Chega um senhor e ele fala inglês e das minhas perguntas me conta que não é tradição de Burma fazer massagem mas ele aprendeu com o Avô através do caminho do Karatê.

Quem me conhece sabe que eu não digo não para nenhuma massagem. E já tive muitas diferentes. Das boas ou maravilhosas no Sul e norte da Tailândia, das Japonesas no Brasil, das Indianas na Índia e fora de lá. Chinesa, no Laos, no Camboja, no Marrocos. Enfim eu amo massagem.

Portanto, já tive feita por mulher, homem e até criança. Das discretas e as na vertente bem sexuais. Das do caminho no tantra. E pela minha experiência em Yoga, tantra, e praia nudista eu aceito qualquer uma e observo.

Essa hoje foi extremamente diferente. Se eu fosse tímida teria abandonado e achado que ele me tocava tanto na bunda e na virilha por desejo. No entanto, eu já tinha me intrigado quando estava de olho aberto e vi que ele fechava o olho e parava a minha circulação da perna esquerda. Na direita  ele passou mais tempo. Ia apertando em cantos mais específicos e de repente estacionava. Segurava por um tempo então eu perguntei “oque o senhor sente?”
“Que está bloqueado.”
Aperta mais um pouco e quando solta sinto o sangue pulsar fico impressionada. Conto para ele que tinham  enfiado um cateter ali faz 2 meses. Desse momento, em diante, na minha concepção de vida ele é médico.

Me vira pouco e basicamente segue a minha circulação. Pega pontos que não sabia que tinha. Como me impressiona ver que não importa o quanto eu ande, faça yoga eu sempre desconheço um pouco meu corpo.

Os pensamentos flutuam na minha mente enquanto ele toca tão intimamente e profundamente o meu corpo. Penso ” tudo bem se for sexual, eu não ligo.”
E percebo que no fundo à associação é porque eu penso nisso. Percebo o pensamento e fecho meus olhos e paro de analisar. Então eu de fato nao posso contar mais nada. Eu quase dormi enquanto ele me vasculhava, e me soltava ainda mais.

Nem sei explicar a parte de lado, ou sentada. Ou das dores. Tudo que sei é que esse senhor me disse que tenho muita sorte e eu concordei.

E quando ele partiu eu pensava que ele parecia o Lao Tse que aparecia e desaparecia e que provavelmente eu não o veria nunca mais.
Ele me falou uma frase ” o que está em tudo mas não sai do lugar?”
Eu disse a energia. E ele disse uma palavra que não entendi. 
“É a estrada.” 
E eu digo que tem lugar que nao tem estrada mas energia está em tudo..
Ele concorda mas escrevendo aqui me dou conta … É o caminho. Tao. Realmente ele é um Lao Tse.

Montanhas e Francisco

Estou no topo de uma Montana. Num restaurante aberto e vejo flores e montanhas e tomo chá. Faz neblina e eu as vezo , como as gotas, vejo com prazer. Não faz calor, não faz frio e às micro gotas mantém tudo isso tão verde.


Kimanhê tem 21 anos e faz 5 horas que estamos andando e conversando. Na verdade ele fala bem inglês. E a minha impressão de que tudo se transforma pelo respeito fica ainda mais forte hoje.


Foi agora buscar comida nesse restaurante, onde estamos que fica no topo da montanha e o restaurante ainda é Indiano. E eu já paro de escrever para conversar e comer com ele.  Escrevo o resto do hotel.

De fato parei sentei, falamos e comemos. Chapatis com sei lá oque. Estava muito bom. E mangas doces e banana e tomei mais chá.
Andamos por plantações de gengibre , laranja, arroz, e tantas outras coisas que estavam ali naquelas belas montanhas. E das quais ele foi me contando.


Passamos por dois vilarejos e ainda vi mais lugares budistas, pequenos aprendizes de budismo. A árvore que Kimanhê me explicou era a árvore Budista.


Kimanhê falava bem inglês e fico sabendo pelos 19 km de caminhada que ele é um estudante de direito. Está no quarto ano. Falta mais um. Sim ele sabe de tudo. E sua desconfiança do sistema parece mais fundamentada. 

Ele me explica que escolheu estudar a distância. Dois meses a cada ano vai à universidade e depois apenas tem que mandar cartas. Achei bem útil esse sistema.

Contou que muitas leis estão mudando e eu disse que isso devia anima-lo pois os advogados do passado vão estar ultra-atrapassadissimos. Ele se formava nos tempos novos. Ele ficou feliz.

Explicou da confusão que havia com uma província na fronteira com Bangladesh. Tem vontade de conhecer o Nepal.

Me ensinou mil coisas na língua de Burma. 

“Myanmar Lo Kiotéla. Nenê”

Mais ou menos não sei falar a língua de Myanmar, só um pouquinho 🙂

Ele me mostrou um lugar que tinha agrotóxicos e não eram vegetais orgânicos. Contou que não bebe, não fuma, não come tabaco porque tudo isso destrói a sua saúde.

Contou que no campo as casas colocam o banheiro para fora da casa. Ele prefere assim. Viver no campo. 

Eu fiquei maravilhada quando perguntei da Banana flambada que tinha comido. Ele me explicou.

“Queimada com álcool e mel. É um prato típico daqui.”


Adorei porque tinha adorado ontem e pensava que era só em lugar de turistas. Ele me explicou que sua mãe sempre faz.

Ele é sobrinho do dono da agência Green Discovery. E o tio é neto de um inglês que já faleceu e portanto o tio que conheci hoje fala inglês perfeito. 

A única coisa triste do dia foi ficar sabendo que que  Kimannhê ( que se escreve diferente , e eu coloco assim para lembrar como se pronuncia) parte hoje para uma outra cidade. Portanto resolvi amanhã ficar aqui e depois de amanhã ir ao lugar que ele me disse que era bonito e eu teria que ir com um outro guia. 

Por agora me sinto perfeita. Nem se quer fiquei ainda cansada. Amanhã já aprendi onde fica o lugar da massagem. Isso que eu farei! Já que meu hotel está pago até dia 14. Dia 13 outra caminhada e no 14 vou para Inle Lake.

Enquanto andava uma hora senti o exato lugar que entraram no meu corpo para fazer a angiograma. Na minha virilha direita. Senti e pensei no meu amigo Francisco da escalada.

Francisco me disse uma vez que ele tinha esclerose múltipla e que se eu tivesse não deveria ficar apavorada. Sei que uma parte minha ficou.

Depois um dia ele me contou que ter esclerose múltipla o fazia fazer escalada todos os dias. Ficar parado é privilégio para quem nao tem nada. Um dia parado e tudo se estagnava nele. De uma certa forma hoje quando senti a veia por onde entraram no meu corpo eu entendi acho que melhor o Francisco.

Quando não temos certeza do amanhã vivemos o dia de hoje plenamente. E na verdade ninguém devia não fazê-lo. E muitos se prendem pelo medo da coisa mais comum que há: a impermanência de tudo na nossa vida.

Então Francisco eu te agradeço hoje. No final a sua esclerose e a minha vasculite cerebral nos libertou. Desejo a todos que se libertem de medos e das inseguranças que são 90% do tempo desnecessárias. Eu agradeço a todos porque me sinto tão viva. Tão bem. Tão privilegiada. Que só posso agradecer.

Com amor, Ju

Kalaw, as crianças e o meu primeiro dia em Shan.

Acordo as 4 da manhã porque ontem dormi as 8. Cedo demais e fico na cama e falo pelo face talk com minha avó que adorou meu ultimo post e o lugar que estou ficando e me informou que seu IPad quebrou.

Na hora do café saio para passear. Chove e graças ao conselho e o presente utilíssimo da minha mãe tenho otimo casaco de chuva e guarda-chuva. Meus pais ainda que de filosofias diferentes da minha também gostam de viajar e caminhar e são cento e cinquenta mil vezes melhores caminhadores que eu. Hoje mesmo me mandam fotos. Estão andamdo e subindo pedras na Itália.

Minha mãe nasceu em 47 e está subindo pedras. E eu tomando chá 🙂

Saio passeando e nem penso primeiro em entrar nas lojas. Paro na frente de uma escola porque vejo muitas crianças rindo . Passo quase 15 minutos olhando e uma hora uma menina diz “Hello”. Começo a dar olas e mais criança vem me ver. Eu fico do lado de fora fazendo sinais para as crianças que depois de muita vergonha quando uma diz “Hello”mandam beijos.


E eu lá debaixo de um guarda-chuva digo “umbrella ” e elas repetem e mandam dessa vez são beijos voadores. Elas têm uns 6-7 anos. Não tenho coragem de entrar porque não vejo a professora. 

Sei que ficamos ali brincando por quase uma hora. Eu mostro um dedo e elas sozinhas sabem contar até 10. Elas sabem dizer “goodbye” e fico mostrando partes do rosto e os nomes e elas repetindo. Realmente não dá para explicar como é divertido e me lembra eu dando pseudo-aula de Inglês em Isaan.  Essa foto debaixo é de Isaan.

Isaan é a província mais pobre da Tailândia. Na verdade antes era Laos por isso até meu pouco Tai era inútil e lá só a Horm que falava um pouco de inglês. Lá eu fiquei um mês e foi a minha primeira vez no sudeste asiático em 2009 sem poder falar bem com ninguém. Foi maravilhoso.

Engraçado pensar nisso enquanto eu faço quase igual o que fiz com as crianças de Isaan. Isso me resgata o passado e o princípio do meu amor pelo Sudeste asiático. Resgata em mim a memória da menina Australiana jovem que ia a Birmânia e lembro que foi lá em Nong Kai que me deu vontade e vocês sabe nunca dava certo.
Não sou supersticiosa e mesmo 3 sendo o meu número favorito eu não decidi que não era nessa vida. Quando deu muito errado na terceira vez. Tentaria a quarta.

Quando paro debaixo de chuva dando risada com as crianças que falo para ficarem cobertas eu me sinto grata que não tenha dado certo antes. Hoje eu estou consciente de cada ato que me é dado. Antes não seria tão especial como agora.

Sinal de aula começar. Mando beijos voadores e ando ainda mais. Como estão felizes essas crianças. Vou andando e entro em mercado de comida, de flores, de Tamei e Long Ji e esses são feito à mão e são dessa província Shan.

Compro mais Tamei e Long Ji. Um casaco para minha avó, e uma blusa. Uma bolsa. Eu que nunca compro nada viajando fico encantada por essas coisas feitas à mão. O vendedor me dá de presente o símbolo daqui. Aqui naturalmente tem Pagodas, mas também tem Mesquita e para minha surpresa um templo Sikh. E eu caminho vestida como uma mulher daqui.

Ando ainda mais e tem um milhao de agências. Escolho a esmo uma agência. O menino parece desanimado. Não confia nesse governo .. Mas falo tanto com ele que ele me conta dos turistas. Tudo que eu já sabia. Aqueles que pensam que dinheiro compra tudo.

Decidi que fico aqui até dia 14 aqui em Kalaw. Amanhã vamos caminhando para uns vilarejos. Caminhada de poucas horas e voltamos e se tudo transcorrer perfeitamente nos outros vilarejos também vamos caminhando nos dias seguintes. 


Ou seja estou estacionada para dormir no meu belo hotel. O guia se chama Kimá Inhê ( como eu aprendi)

Dele eu aprendi ” Tuijátá-uãtá-patê”

Foi um prazer te conhecer. 
Graças ao meu livrinho vermelho e ao senhor Win ele sabe dizer Julieta. Na língua daqui é assim:


E um dos grupos tradicionais de Shan vejo numa foto se veste assim.

Direita e Esquerda, caminho a Kalaw e a culpa

Essa história vai ser da viagem ônibus de Mandalaypara Kalaw. Antes de ir penso nos três ônibus que tomei. Só no aberto não passei frio. Pergunto ao atendente do hotel e ele diz que não faz muito frio. Pergunto se é aberto, ou se tem Ar condicionado.

” claro que tem AC.”
“Obrigada vou levar mais roupa.”
” não precisa não faz muito frio.”

Como sou super friorenta eu coloco calça comprida e coloco meia calça de inverno que é a que eu usei no avião e todas as noites pois sem ar passo calor, com Ac passo frio e ventilador também. Saio de manga curta e coloco nas minhas duas bolsas blusa de manga cumprida, malha , lenço e meia.

Desse lado do mundo, muito dos carros são estilo britânico o motorista senta do lado direito. Lembro que com quinze vi a primeira vez na Austrália e me deixou até enjoada a curva ao contrário. Depois fiquei acostumada. Vendo alguma foto que postei o André reparou isso.

Agora em Burma todos que eu tinha visto eram assim menos esse. Nessa minha van o motorista está do lado esquerdo. Fico tão intrigada e resolvo olhar mais carros. E não é que tem dos dois tipos aqui. Intrigante.
Percebo isso quando tenho que colocar meia, blusa, lenço e casaco. E percebo que sou a única ocidental. Tinha colocado meu lenço na cabeça e dormido. Acordo quando o ônibus já tinha pegado todos seus passageiros e já estamos na estrada.

Todo mundo está com véu na cabeça. E está dormindo. Não estão de véu porque são muçulmanos. Estão com frio. 

Acordo bem na hora que estamos para parar. Então posso ver meus companheiros de viagem. 
Somos 9 passageiros e o motorista. Tem um monge, 4 mulhere de Tamei, e eu de calça. 3 homens de Long Ji, um de calça. E o motorista eu não sei. Quase todos estão de chinelo.
Paramos vamos ao banheiro. E vejo que vamos comer. Olho um prato de uma senhora e tento perguntar em Burmes e ela sabe falar inglês. Digo que quero o mesmo.


Vem arroz com batatas, vegetais, é um milhão de coisas que não sei o que é e como e acho maravilhoso porque é apimentado. Antes de eu pedir algo para beber a senhora me traz um bule e eu mais uma vez fico radiante.

Todas as vezes que almoço em restaurante com a minha avó e pedimos uma caipirinha e um chá. Trazem o chá para minha avó e para mim a caipirinha. Rimos e trocamos. Minha avó me explicou há séculos que chá é uma planta específica, que hortelã não é chá é hortelã. 

“O certo é você pelo menos saber que é uma infusão de várias folhas. Não precisa pedir porque fica muito pedante. Mas chá é a folha do chá.”

Pois é dessa infusão que me trouxeram eu não tenho a menor ideia o que seja. Sei que gosto dela porque gosto de agua quente. Lembro que foi no Sahara que o guia me disse que era bobagem beber água gelada. Não sei se é por falta dela ou não mas a sua explicação era:  Água gelada esfria o seu corpo e em segundos o seu corpo tem que gastar muita energia para se esquentar. No deserto não podemos perder energia assim.

Seja qual é a razão, sei que faz anos que prefiro não beber nada gelado e preferencialmente quente. E pelo Brasil é meio difícil de explicar isso. Comecei a beber água quente na China com minha amiga Pet que é de lá. Aqui nem preciso pedir. Tudo isso, bebida, comida por 1000 kyiat. Menos de 1 dólar.

A estrada está linda. Estamos dando voltas e mais voltas numa montanha toda cheia de árvores. Difícil de tirar fotos. Curva atrás de curva. E eu encanta quando percebo que o menino de trás abre a janela. Um local abalado e eu super bem.

Eu penso em emprestar a ele tagger balm ( creme de cânfora) e me lembro que já dei para seu Win que tava com dor no braço. Ele ficou tao feliz de usar que eu dei a minha. Senhor Win não tem muito dinheiro para comprar eu acho. Nem eu vi por aqui como vejo na Tailândia. Para esse menino do ônibus pelo menos tenho papel higiênico para ele se limpar e ele me agradece muito. 

De repente o ônibus para e vem um menino me perguntar se já tenho hotel. Digo que não e ele me aponta um barato de 10 dólares. E eu pergunto do hotel na minha frente ? 
“Custa 30 dólares. ” 

Ele me diz que tem internet , tem café da manhã. Nem vou procurar outro. Pego de cara esse e me dão um quarto lá em baixo por preço baixo. Vejo que a internet não é no porão. E o primeiro está lotado. No terceiro a internet não funciona. 
Ela me troca pela terceira vez e diz que esse custa 40. Eu digo que vou embora. Essa é a primeira vez que algo assim se passa. Eu me espanto. Ela diz que faz 30 e quando me traz ao quarto fico espantada. O quarto é umas dez vezes melhor que todos os outros. E agora já até sei que a internet é veloz!

Tem cama, cadeiras, televisão, frigobar, abajur, penteadeira, águas, um bule eletrônico, chás diferentes. No banheiro tem até banheira, chuveiro, secadora. Deve ser o melhor hotel daqui. Quando abro a cortina vejo a avenida, a Pagoda, as montanhas e os passantes. Que lugar lindo.


De fato, se existem muitas vidas eu estou sendo presenteada de uma maneira que só um budista entende. Ao mesmo tempo leio que os tão presenteados do Morumbi querem aplaudir a polícia que matou uma criança de dez anos. 

O que será que se passa conosco? Diante de tantos privilégios não apenas somos indiferentes aos outros mas temos a audácia de não reconhecer que tudo que temos vem pelo menos dessa vida de boa educação, de amor, de bom material genético, de boa alimentação?

Eu já até passei a acreditar em outras vidas. Não por medo mas pela gratidão e reconhecimento de algumas pessoas que vejo por poucos segundos e sinto que as conheço faz tempo. 

Então eu sento aqui para escrever. Ligo meu bule elétrico. Sinto me feliz de poder fazê-lo ainda que num telefone e sem editar, por nem saber fazê-lo. 

Ainda que meus pais e eu sejamos tão diferentes eu sou grata por eles terem me feito por objetivos tão distintos tão forte. Meus pais fizeram o que eles achavam que era o melhor. No entanto, quando embarquei sozinha eu fui a cada dia me descobrindo mais. Sou grata ao André o homem dos atos que mal me lê. E agora. Eu já nem ligo mais. Sou grata por ele saber e apoiar eu ser assim como sou. E acima de tudo sou grata a minha avó Lucia que sempre permitiu o outro ser quem ele é. Sempre apoiou.

Aos 91 aprendeu a me ligar sozinha de face talk, de um Whatsapp para saber como eu estou e contar que gostou muito do senhor Win. E me perguntar porque só no 21 pode falar comigo. Então eu entro nesse maravilhoso hotel graças à minha avó. Me eximo da culpa pensando na minha avó. E indo bem a fundo reconhecendo que podia ficar no lugar mais barato mas hoje eu não preciso. E me eximo mais fortemente quando isso não me torna uma pessoa deslumbrada, egoistas e indiferente a todos. E quando vou mais a fundo percebo, que não tem jeito, eu sinto um pouco de culpa, mas também gratidão.

Senhor Win me leva ao Jardin Botânico 

Nem sei por onde começar de um dia tão perfeito. Talvez do ônibus simples que é uma história sozinha. Como tinha escolhido o método mais barato senhor Win me leva ao ônibus aberto.

Desses que tem na Ásia e acho que na Venezuela. Difícil de explicar . É como se fosse dois bancos um na frente do outro. As costas para a estrada é aberto. Chegamos e esperamos ficar lotado. De coisas e pessoas. 

Quando se está totalmente lotado ainda aparece mais uma mãe com duas pequenas crianças. Assim fica claro os valores daqui. O menino de no máximo um ano senta numa caixa e a mãe distraída não vê. O homem desconhecido ao lado se aperta e pega a criança e coloca ao seu lado. Ninguém reclama de falta de espaço.

Eu claro peço para tirar fotos e eles dizem sim. De repente uma menina fica muito intrigada com senhor Win e ele me explica que ela trabalha para os koreanos e quer saber como é que ele fala inglês tão bem. Ela fala Burmes, Chinês e Koreano.

Bom de cara ele me explica que não é só a China e a Tailândia que investe aqui mas também a Korea e o Taiwan. E de cara pergunto a mesma pergunta que a Menina tinha perguntado ao senhor Win. 

” Meu pai era tradutor dos ingleses durante o império inglês. Eu estudei matemática mas o que eu amo é a língua inglesa. Meu pai me ensinou aos quatro anos.”

Fico impressionada. Eu na verdade nem sabia onde íamos. Eu tinha concordado porque gosto do senhor Win. Nosso pequeno ônibus vai subindo uma bela montanha, parece uma serra. E eu amparada tenho duas bolsas. Casaco de chuva , guarda chuva e uma blusa de frio. 

Conforme vamos chegando vou vendo uma cidade colonial, casas europeias que agora pertencem aos chineses. O lugar é muito bonito pelas casas e pelo verde e por ser no alto de uma serra.

Até então nunca tinha perguntado ao senhor Win onde iríamos e ele me avisa que é num jardim botânico. Minha mãe que ama jardins botânicos teria ficado encantada. Aquele jardim inglês com os detalhes da Ásia. 

Há Lagos, árvores, cisnes , pássaros. Chineses e Burmeses. De ocidental só tem eu. Tem lugar para tomar chá e café. Comer . Se eu já não tivesse me inundado na micro parada da comida local comeria no entanto sento e converso com seu Win e tomamos chá e café.

Tiro meu livrinho de anotações para escrever tudo que eu pergunto e ele responde. É realmente tem coisa demais para eu contar então vou focar no ponto: a jovem democracia.
1948 a junta tomou o poder e os britânicos partiram. Em 2011 houve eleições que deu poder por votação ao General Thein Sein. De cara todos sabiam que era fraudada a eleição. Mudava de cor de verde militar para falsa democracia.

Em 2016 ganha por enormidade Tinkyaw que senhor Win diz é honesto, simples, filho de um escritor famoso. Ele fundou com a Su Ki o partido da liberdade.
” Por isso falamos e eu digo que nossa democracia é jovem.”
Fico emocionada ouvindo senhor Win contar. 

” Julieta você deve ter sido muito boa nas suas outras vidas porque seus sonhos se realizam. Acho que você deve ter nascido na Birmânia antes.”

Digo para ele que quando como na Ásia eu penso isso. Conto dos Tibetanos. E ele me conta dos Theravada.

” Julieta faz 3 dias que nos conhecemos. Seu número favorito é o dia está perfeito.”

De fato, conto a ele que minha avó tinha dito que eu tinha tanta expectativa de vir que talvez me decepcionasse. No entanto, todos os dias eu me sinto grata. Todos os dias eles me parecem perfeitos. 

Sem duvida queria que o André estivesse aqui. Eu olho as coisas pensando que ele gostaria. Sem duvida sinto saudade da minha avó mas me sinto feliz.

Saber que eu cheguei aqui junto com a felicidade do povo me inunda ainda mais de alegria. 
Amanhã parto para Kalaw e depois para o lago Lake. Se não escrever é porque não têm internet. De qualquer maneira se desaparecer até o dia 21 só se preocupe no dia 21.

Estou feliz e me sentindo muito bem.

Já me sentindo em casa em Mandelay.


Hoje é o sétimo dia 🙂 O meu plano era ver o palácio real. Era porque resolvo pelo menos dizer bom dia ao senhor Win.

Ando livremente e tenho anotado que é na rua 31 com a 84. E vou virando e virando e vendo uma loja atrás da outra de telefone, eletrônico, comida, roupa etc e tal.  Vou pedindo se posso tirar fotos das pessoas. Todas dizem sim. Mostro para elas depois.
Estou na Mandalay antiga. Para ser honesta não tirei fotos da parte nova. Fico encantada com a parte antiga, o trânsito maluco de motos, pessoas e ônibus. E a cada esquina me perguntam se quero um táxi. 

E eu sorrio, digo ” Minga Lá Bá”. Um bom dia, tarde noite. Faço gestos que gosto de caminhar. Eles sorriem e me perguntam para onde é que vou e se tenho destino digo e eles sempre me ensinam o caminho.

“Tchê Su Bê”

E não é que estou hesitando se vou primeiro  ao palácio ou ver seu Win e ouço “Julieta”

Estou passando perto deles e nem sabia. Fico radiante. É tão bom ser reconhecida. Então começa mais história. E eu desisto de ir no palácio porque senhor Win me explica que é bonito por fora, 10 dólares para entrar num espaço militar. 


Ele me explica que ele está de jejum no dia de hoje mas que os meninos  estavam me esperando chegar. Eu fico tão inundada de felicidade que abro meu post e traduzo o que eu escrevi e ele fica muito feliz e diz que de errado só o nome do irmão da Su Chi que se chama Au San U e não Au San Ku 😉

Os meninos vem me falar do Dunga, robaldinho, e eu digo que gosto do Messi. E ele mal entende inglês menos ainda eu torcer para a Argentina 🙂

Senhor Win me diz para lavar as mãos já que vou comer como eles. Sento e acho que vou ganhar todo peso que perdi doente e mais um pouco pelo tanto que gosto da comida.

Falamos de política. “A democracia é jovem aqui.” E ele vai me surpreendendo mais e mais quando fala que do lado do capitalismo parece para ele que só existe para os ricos, e o mundo financeiro. “A China não é perfeita , nem é os EUA mas pelo menos tem mais equilíbrio dois lados poderosos.

Eu também percebo que a Tailândia e a China seja lá por qual interesse permite que agora aqui todos possam saber do resto do mundo. 

” A democracia é jovem mas agora nos falamos mais e temos esperança.”

Senhor Win perdeu a mãe com 84 anos e no último ano morou com ela. Tão caro foi o tratamento que ele agora mora com os monges. 

Se oferece para me levar para ver os lugares bonitos. Sugiro maneira barata e ele consulta um menino que diz para irmos de ônibus. 

Concordo e pergunto quanto eu dou para ele ser meu guia. ” Nada.” Insisto a comida, o transporte faz dois dias que como aqui!!! 

“Julieta , ótimo. Você gosta do meu país, você fala com as pessoas. Quero que se lembre bem daqui. Vamos tomar sorvete hoje as 7?”

Concordo é claro. E amanhã embarcamos para o topo da montanha do lado e eu pago a comida para ele. Amparada por seu Win que sabe de um tudo e volto para esse hotel. 

“Senhor Win vamos e voltamos e no outro dia eu vou para Kalaw e Inle Lake. Quando voltar fazemos o que o senhor achar boa ideia.”

” Sorvete as 7 e agora você devia fazer uma siesta. Importante depois de comer.”

Chove torrencialmente e eu coloco meu guarda chuva e vou para a sorveteria mesmo assim. Chego 5 minutos antes. Se não tiver lá eu entendo.

Mas nem ele , nem eu temos medo de chuva. E ele me encontra só para beber água. Está de jejum hoje 🙂 E amanhã devemos estar com saúde perfeita.

Pergunta se preciso comer. Digo que não. Diz para eu trazer um casaco de chuva, um guarda chuva e me explica a rota. Conto a el a história do russo. Ele também leu Dostoyevski. 

Julieta amanhã eu vou te contar a minha história. 

Como eu gosto do Senhor Win!

Mandalay- Semhor Win e Lone Lone.


Obrigada pelos que me escreveram dizendo que estão lendo o meu nao parar de tentar contar. 
Hoje é dia 6 na Birmânia. Eu que sou dos números tenho que começar pelo inusitado fato de eu gostar do número 9 e 3. 3 que é 3x 3 ou 3+3+3 🙂

Então cheguei em Yangon no quarto 9 tirei foto e fiquei feliz. Em Bagan me colocaram no quarto 702. Que são 3 números que dão 3. E aqui em Mandalay me colocaram 102. O 3 🙂

Bobo né? Mas para mim é mágico assim como todo encontro que tenho. Hoje era o dia de encontra com minha amiga da sorveteria que é escrito por ela Lome Lome. Já tinha me adicionado. E já marcamos  para as 5.

Eu acordo e saio andando sem rota. Olhando as coisas que o André ia gostar de ver. Falando com tantas pessoas. Sou eu , né?

Vejo pessoas sentadas na rua e comendo. Pergunto se posso tirar uma foto. Não só posso como também sou convidada para comer a comida local.

Não hesito, me sento no chão e descarto a colher quando vejo que eles comem com a mão. Senhor Min me diz que é apimentado. Fala inglês perfeito. É professor. E eu digo que amo Pimenta. 

Acho que faz anos que não como uma comida que me dá tanto prazer. Peixe, molhos, arroz, temperos, e eu como de um tudo. No princípio por educação, normalmente não gosto de arroz, depois da primeira colherada vejo que tem gosto de Ásia .Abandono a colher e como como eles, ou seja com a mão . E repito 4 vezes!!!! 

Eles se impressionam que eu como as 3 pimentas puras.
Quando conto que sou Brasileira os meninos se encantam e trazem a revista do futebol 🙂

Senhor Min me dá uma aula. Para quem não sabe da Birmânia vamos lá, eu anotei oque ele me disse:

Esse país se chamou Burma, Birmânia até 1988 e então com a revolução da Junta vira Myanmar. Tem 14 estados e divisões. Tem mais de 100 grupos culturais.

 
 
Antes disso foi colonizado pelo Reino Unido e em 1948 eles ganham a independência do Reino Unido.

Em 1947 o General Aung San é morto com apenas 32 anos e deixa dois filhos.

Aung San Su Ch e Aung San Koo.

De acordo com o que me diziam o filho era a favor da Junta. De acordo com senhor Min ele mora nos EUA e não se interessa com a política daqui. 

Com a revolução de 88 a Su Chi que estudou em Oxford volta para Birmânia e fica 6 anos em prisão doméstica.

Em 2011 teve eleições que senhor Min também acha que não foi realmente real dando poder por “votos” a Junta.

Senhor Min me contou que tem eleição em 2020 e que ele tenta manter esperança.  Acredita des-acreditando.

Me explica que o nome Aung San ( família pai), Su ( mãe) Chi ( avó).
Falamos de muitas coisas e ele me convida para mostrar um lugar esta noite. E eu não posso aceitar porque já tenho hora marcada para as 5 🙂

Fica para outro dia e eu volto a pé correndo para não perder o meu horário.

As 5 Lone Lone está aqui na sua moto 🙂 Ela me leva para conhecer a cidade toda de moto e conhecer o shopping. Me leva para uma lanchonete moderna e eu tento rapidamente pagar… Em vão!

 Insisto para que me deixe levá-la para comer amanhã. Ela concorda. Vamos ver se dá certo.

Passeamos no shopping moderno. E ainda que eu não goste de shopping fico encantada com os Tamei feito à mão. Não tem jeito vou vendo tantos que experimento mais e compro. 

Lome Lome tem vida mega ativa. Aula de inglês 7 às 8 da manhã diariamente. Sua família tem loja de roupas de monges onde trabalha de manhã.

A tarde ela é corretora. Passamos por várias casas e ela tira uma mala de dinheiro para pagar o chefe. Não entendo muito bem. Só sei que ela está feliz de me ver e eu de conhecê-la. 

Ela tem 38 e não é casada e nem nunca teve namorado. É muito ativa , divertida e passamos um dia de gargalhadas tentando nos entender.

Ela tira uma foto da gente comendo e já coloca no facebook e o senhor Win também. E eu também. A cada segundo vou gostando mais desse país.
Até hoje Su Chi, ou Su Ki é a esperança de todos que conheci. Até achei que as pessoas falaram comigo livremente e não como teriam me dito que seria.

Minha avó me liga aqui no meio da madrugada e eu não paro de pensar que a internet faz coisas incríveis. Minha avó aos 91 consegue sozinha me ligar do Brasil falar comigo na Birmânia, meus pais falam pelo WhatsApp da Sardenha , o André do Peru e Lone Lone do outro lado da cidade marca um encontro e eu acabo de voltar vendo que ela já me tagged no Facebook.

 
Os que pensam da inutilidade dos breves encontros que fiquem com isso. Eu fico na profundidade da alegria e gratidão do agora. O templo muçulmano me faz lembrar nos meus amigos palestinos, marroquinos, turcos. E senhor Win me faz pensar na aceitação e na impermanência de tudo. Pronto tenho que ver os dois de novo. E estou ótima aqui. 

Mandalay, a Internet e o caminho da evolução.

Acordo as 4. Tinham me dito que o ônibus saia as 5. Arrumo tudo e vou lá fora mas não tem nenhum funcionário. Deixo a chave na mesa e a conta por sorte já paguei.
Quando é 15 para as 5 eu saio do hotel. O senhor que aluga motos está lá. Ele não fala muito inglês e eu nada da linha local. Ou quase nada . Ele pega o telefone e liga e me diz para esperar. 
Terra do mistério completo. Eu lembro que tinha comprado uma lata de batata frita lá na estrada de Yangon. Já que não vou tomar café como uma. Aparece um outro senhor da Birmânia . Tampouco é o meu táxi para me levar à rodoviária. Ofereço batata para os dois. Eles dizem não e eu insisto e tiro umas da lata e ofereço.

Eles aceitam e eu me pergunto se aceitaram por educação. Comem rápido e eu ofereço mais e não é que eles pegam a lata e tiram mais algumas. Eu fico encantada pelo tanto que vai se percebendo sem usar língua.

Devem dizer não porque é batata cara da marca americana. Dizem por respeito. E ele liga pela segunda vez ao suposto taxi. E chega uma vã aberta. Eu fico super feliz. Um dia lindo está começando. Dou o resto da lata para ele. Me dizem para ter uma boa viagem.

Venho na tal meio aberta Van. O rapaz me leva e quando vou pagar me diz que não precisa. Insisto. Tenho dúvidas e ele diz que não precisa. Será que eu já paguei? O onibus é simples. Ainda assim me dão garrafa de água. Ônibus que parece local. Vai pegando gente nas ruas deixando no próximo vilarejo. 

Do meu lado senta uma menina e então eu fico com uma certeza Huawei, telefone chinês, é possível a todos. Ela não fala inglês e entende que quero tirar foto e diz sim. Ela também entra no seu facebook. Aliás todo mundo nesse super simples ônibus está no Cel .

Param numa barraca e entram e a honestidade que encontro aqui me emociona. Como na Tailândia vem pedaços de manga num saquinho e noutro sal é uma forma de pimenta. A moça me diz 300 kyiat. Diz que são dois sacos e eu quero um e entendo que ela quer 600. Digo só um. Como e quando acabo e ainda estamos parados eu resolvo que queria mais.

Saio quando vou comprar mais uma escolho outra menina. A primeira insiste para eu comprar dela. Ou melhor eu acho. A segunda diz 200 um saco. 300 dois sacos. Eu pego um. Só então entendo que seu desespero é porque já paguei 300. Tenho direito do segundo dela. Eu já tinha dito não achando que era só interesse. Percebo-me tão mais falha. E eles sempre tão honestos. Fico desesperada que brasileiros não venham e se aproveitem disso. Por agora sabem só de poucos e ronaldinho.

Escolho um hotel barato e aparece um taxista. Ele me diz que é moto. Parece tão boa pessoa que digo sim. Coloco mochila nas costas e pergunto se aqui pode ter moto. 
“Sim , em Yangon não “.

Segundos na moto e vejo famílias numa pequena moto. Como me lembro é na Tailândia. Chego no hotel e durmo e penso. Acho que já vi muito. Volto para Tailândia. Queria que o André tivesse aqui. Durmo e saio para andar.

Era umas 8 da noite. Todo mundo fala comigo. E meu pior me visita. Querem me vender algo. Querem sei lá o que. Então sou abordada por um ocidental. Eu vejo um lugar de sorvete e digo que vou lá.

Ele vem junto. Rosto de mais velho. Cara do autor do livro que saiu da prisão e fugiu para India. Senta comigo. E eu falo. Ele observa e eventualmente me conta que é Russo. Pergunto se ele mora lá ? Ele me diz que as vezes lá, às vezes na Tailândia.

Tem um rosto desgastado. E eu conto para ele que saí do hospital faz 3 semanas. E ele me conta que faz um tempo que teve um acidente. Não quer explicar. Diz que das coisas horríveis vem coisas boas. Ele na Tailândia, no hospital conheceu sua nova família nesse mundo. 

Na minha mente tenho quase certeza que ele é possível traficante de drogas ou mulheres. Não me abalo. Pergunto a ele do meu livro favorito, os irmãos Karamazov. E ele me diz que tem pessoas que não gostam. Ele leu.

Conto da parte do livro de quando Dimitri diz a Alyosha que no caminho da evolução só quem passou por ódio , medo, dor etc está à frente. Conto de dona Fátima e fico verdadeiramente emocionada. Pergunto seu nome. E é Alexei.

“So you are Alyosha” ( Alyosha é um dos apelidos de Alexei 

Para quem não leu, Alyosha é o irmão quase santo. Então esse estranho Russso, que não parece nada com os meus amigos Russos que conheço na sua inteira integridade, pede a conta. Pede desculpa e diz que está se sentindo mal. Paga seu sorvete a mais e quando volta o troco ele desapareceu.

O garçom Daqui fica desesperado. Eu digo que pode ficar para ele. Ainda mais desesperado. Pego na minha mão. Olho para o menino e dou para ele. Ele se intriga, sorri e aceita.

Fico sozinha e aquele sentimento já vi demais se desmancha. Sempre se pode ver mais e da próxima vez o André vem junto. 
Uma menina me olha e eu digo boa noite. Ela fala um pouco de inglês. Senta comigo. Sua mãe aparece. 

Peço conselhos e nas nossas micro palavras ela escreve tudo num papel. Pergunto se tem facebook e fica super feliz. Somos amigas de face agora. Digo para ela pegar meu contato pois não é sempre fácil achar alguém. Ainda não achei a Daiene. Apenas encontrei a Elena porque tinha seu e-mail.
Ontem conheci duas irmãs de 20 e 24, Valeria e Luciana. Pai argentino e mãe Brasileira. Falamos e nos deliciamos em Bagan. Uma fotógrafa e uma estilista. Encontramos os engenheiros e eu posso até ler meu post para eles 🙂 não devem ter ficado felizes.

Concordamos que língua não é fundamental. É fundamental para conversas filosóficas, e não comum a tantos. 

Um birmanês se apresenta e diz que é cristão e eu digo que sou budista. Vejo muitos muçulmanos da Birmânia hoje aqui em Mandalay. Nas pouquíssimas palavras Song da sorveteria já me adicionou… 

Minha amiga Michal me diz que tudo está diferente. Nos vínhamos em 2012 e ela cruzou a Ásia para me ajudar de pé quebrado. Quando ela veio não tinha internet. Seu irmão veio e tem. Ela estava decepcionada, eu acho.

Penso muito nisso. E hoje tenho certeza que o tempo deve avançar para todos. A saudade dos hábitos antigos podem sim voltar para umas férias pequenas. Para o estilo de vida alguns poucos.

Na internet está a capacidade de nos inundarmos de informação e des-informaçao. Hoje sei que pessoas pobres têm seus telefones com internet. Sei que acorda desejos de compra que não é bom. 

Ainda assim acho que é no mínimo justo que as opções sejam para todos. As informações para todos. Ainda seja muito mais fácil para alguns.

A internet é espaço de tudo. Abandono os pensamentos antigos antropológicos daqueles que querem tudo como no passado mas viajam como eu, tirando fotos, telefones. Todos esses usam computadores, câmeras, telefones e internet.

Nada tem que ficar estagnado para a admiração dos poucos que podem. Em qualquer sociedade tem conflitos dentro dela.

Acho que Alexei ficou tocado por eu  pensar em Alyosha. Livro que ele conhece tão bem. E eu não fiquei nenhum pouco preocupada com seu passado. Eu penso sempre no presente. E que presente. E concordo com o Dostoyevski e com o Alexei às vezes precisamos perder muito para dar valor a coisa mais importante que existe… Para mim é a nossa humanidade, seja lã em que passo dela você esteja. 

Todos têm que poder pelo menos tentar entrar na estrada de evolução. 
Sem duvida a Internet, os Chineses aqui, eu e os outros podemos estar despertando na sociedade da Birmânia corrupção, falhas etc e tal. 

Ainda assim um pai que protege muito um filho o deixa dependente. Ninguém é pai filosófico de outra sociedade. 

Todos somos falhos. Num caminho de pensamento livre podemos cair profundamente. Já caí muito e levantei mais forte.  A cada dia me percebendo mais falha mas sem carregar culpa e sim consciência de que cada ato tem consequência. E eu me sinto muito grata pela minha vida. Por todas as pessoas que troquei palavras, olhares, abraços.  

Da Beleza da Humanidade de alguns.


Chegouei a Bagan ontem a tarde e aproveitei a piscina. Depois jantei com três engenheiros. Um americano, um alemão e um búlgaro. 

Passamos horas debatendo o Tesler e eles sempre eram de uma visão a vida de cada um é insignificante. Reconhecendo seus privilégios por documentos e cor. 

E eu reconhecendo o meu privilégio de não me sentir tão diferente de ninguém. De sim ter mais direitos que muitos e debatendo que mesmo dos ricos do capitalismo a fAlta flutua. 
E não é que eles me convencem de ir com eles de manhã bem cedo de moto ver os templos pagodas etc .

Eu sou a primeira a estar aqui. Eu nem sei andar de moto. Pego a menor e eles saem correndo. O Búlgaro para mais para me ajudar. E os outros desaparecem. Estou eu lá indo sozinha quando aparece Paulkyi.

Ele me vê perdida e pergunta o que busco. Eu digo que não é nada e ele me diz que pode me acompanhar. Eu explico que não quero dar trabalho.

Ele vem comigo e me dá uma aula de esculturas, de buddhas, de tudo. E eu conto da minha família e ele me conta da dele. E me convida para conhecê-los.


Conto da Leila e coloco a carta que escrevi para ela num Buda que vi por acidente . Ele se diz que posso por lá. Foi monge três vezes. Por esses lados enquanto lá viram do exército aqui eles viram monges.
Conta me que sua família é de 5 gerações aqui. E quando pergunto o que faz me diz que é pintor. Peço para ver e ele diz que sim, não é esforço dele. Sou eu que quero ver. 
Oferece de me mostrar até sua família e eu tenho necessidade de tomar café da manhã. São as 5 e não tinha comido.

Trocamos o contato e ele me mostra seu vilarejo e me pergunta se quer que ele me trague no hotel. Eu digo que não. Eu dou conta.
Me perco um montão mas com a chave do hotel todos me ajudam. Vejo todo o vilarejo. 
Na hora de me despedir pergunto ” como te agradeço?” E ele me diz eu que agradeço você tem um bom coração. Insisto mas ele nega a necessidade.

Ele estava de boné do Brasil e na hora de dizer adeus eu queria gritar para o Americano como é triste a visão do mundo que ele tem. 

Para ele a dona Maria sente minha falta pela comida não pelas palavras. Para ele esse homem queria me cobrar e eu até achava mais do que justo pagar. Mas não , na profundidade da humanidade á coisas que valem bem mais que uns reais. Ele me ensina a saber não cair.


São as palavras. É o respeito pelo o outro. É se reconhecer similar e não privilegiado por coisas materiais. 

Partindo de Yangon

Eu acordo quase 5am. A mala já está pronta. Posso tomar banho, pagar a conta. 7 mil kyat. Pelos dois almoços, jantar, garrafas de água, coca colas, e chás. Na conta considerando 1000Para o kyat da 7 dólares. Conta exagerada deve dar uns 5. Conto 1000 pq sei que é fácil e assim acho que gastei muito mais do que gastei 🙂

Hoje pego as 8 um ônibus para Bagan. Café da manhã as 6. Taxi até o ônibus as 7. E dizem que chego lá às 5 da tarde. Tento um hostel que também tenha net e que não seja muito extravagante. Não apenas por economia mas porque as pessoas são mais legais nesses e agora minha avó até sabe me ligar pelo face talk 🙂


Pronto hora de café. Todos limpando tudo muito cedo. E eu agora vou comer e é hora de partir de um lugar que já gosto.


Conto da viagem depois 🙂 de lá!