— Dr. Miau, será que eu posso marcar uma consulta com você? Confesso que estou tão angustiada… ou melhor, nem sei explicar. Mas descobri que existe o Dr. Miau, um animal que ajuda a mente de tantos gatos.
— Claro, é um prazer receber sua visita. Como você se chama?
— Me chamo Mitaka, mas pode me chamar de Mita. Sabe, tenho um sentimento tão vazio… ou melhor, duro. Nem sei dizer se estou mal, nem se estou doente. É mais um peso de estar onde estou.
— Eu entendo esse sentimento, ainda mais com esse seu nome que é extremamente belo. Você sabe a base do seu nome?
— Não. Quando cheguei e encontrei uma casa tão linda, perto da natureza, onde podia me esconder de tudo… mas me viram e me chamaram de Mitaka, que às vezes virou Mita. Senti aquilo dentro de mim.
— Que belo é o seu nome. Ele significa impermanência. A tradução mais direta é ‘impermanência’ ou ‘não-eternidade’.
— Nossa, Dr. Miau! Por isso você é tão famoso. Eu passo pelo mundo e sempre me contaram do senhor, quase como alguém que consegue enxergar o interior do outro.
— Mita, você consegue perceber como o enxergar o outro no momento do outro funciona como um espelho do que o outro também passou? Na nossa impermanência, a beleza está justamente em entender que esse fluxo de sentimentos não precisa ser fortalecido ou alimentado na nossa mente. Mas qual é, de fato, esse sentimento que você sente?
— Não sei… Talvez eu tenha uma dúvida sobre essa minha existência, ou sobre o motivo de estar vivendo neste lugar e não no outro de que gostava.
— Mas será que, se eu voltasse para morar lá, não seria o mesmo sentimento? Sabe, Mita, eu também morei em tantas casas, ruas, países, buscando ajudar os meus pacientes, e sempre me identifico. Talvez eu saiba que sinto saudade de voltar ao último lugar que busquei, que já não era como antes. Quase como se nem fosse valorizar. Por isso o seu nome é tão belo.
— Nossa, Dr. Miau, faz todo o sentido. Bem quando eu estava me sentindo super bem, inventam de me levar para outra casa, outro país… e quando voltei lá, senti que não era mais como antes. Aí senti saudade de onde estava e queria sair de novo e voltar para aquela outra casa.
— Sim, Mita. O termo também é definido como ‘momentaneidade’, indicando que tudo muda de momento a momento, num fluxo contínuo de transformação. É um dos ‘quatro selos’ do budismo (‘todos os fenômenos condicionados são impermanentes’) e um tema fundamental para a reflexão espiritual.
— Que interessante, Dr. Miau! Sabe, eu era de ficar em casa, e de repente tinha que sair e ficar um tempo numa outra casa. Aí, quando estou bem, já me seguram, me metem numa caixa e me colocam num carro preso. Me deixavam numa outra casa e me dava uma enorme insatisfação, embora me deram comida boa. Aí, quando estou bem, me adaptavam. Mas logo quando estou bem de novo, me carregam outra vez, bem quando estou nessa nova casa. Passam dias e já me carregam para voltar à casa de que gosto. Me dá um ódio! Me sinto presa e me carregam para voltar à casa onde morava… mas quando chego lá, nada é igual, não gosto como antes e nem ganho mais as comidas de que gostava. Ai, que raiva!
— O que sinto é profundo, me faz lembrar o mar que vai e vem. E eu gostava de ficar parada, indo e voltando. Mas hoje me sinto pensando: por que estou aqui? Quase como se aquele mar que vinha com o Sol… aquilo não tem nada das coisas materiais, não existe. Até se meu nome é impermanente, eu sempre ia e voltava.
— Eu entendo, Mita. A natureza é a coisa mais bela que vejo, e essa impermanência também às vezes vai e volta, até como um rio. Eu entendo esse sentimento. Acho que é a melhor maneira de meditar e observar o nosso vazio.
— Verdade, Dr. Miau. Me fez lembrar quando estava escutando que na meditação eu não sigo os pensamentos. É isso?
— Exato, Mita. Quando você inspira, respira, segura e solta… e vêm os pensamentos.
— Exato, Dr. Miau. Mas o que eu faço para parar esse pensamento?
— Ótima pergunta, Mita. No começo, estamos focando na respiração e não vemos o pensamento. Mas quando você se dá conta de que ele está lá, aí você tenta parar. Tento fazer uma separação entre a mente e a consciência.
— Dr. Miau, sendo honesta… é muito fácil falar isso. Mas como você faz?
— Você está certa, Mita. É difícil e fácil ao mesmo tempo.
— Mas o que você consegue achar fácil?
— Ah, Mita… acho que começou quando eu fiquei preso num barco. Me tiraram da Austrália e me tiraram da natureza, e eu nem tinha o que fazer. Quase preso no barco e na minha mente. No começo quis até pular do barco, mas nem disso eu podia fazer. Ali me lembrei das aulas que escutei de um Bicho-Preguiça.
— Nossa, Dr. Miau! Tinha outros animais no barco?
— Sim, mas ele veio da África e me fez aprender a ficar parado. Talvez, quando ele se sente ameaçado, ele prefere não batalhar contra si mesmo. Aquilo me ensinou a tentar não batalhar dentro de mim.
— Pode me ensinar de uma maneira que eu consiga?
— Claro. Vamos começar só observar a respiração, sem esperar nada. O comum é vir um pensamento e a gente não seguir. Se quiser, crie um nome para ele; isso ajuda a identificar o pensamento para que ele não nos domine. Se vier o tédio, aceita. Se vier a preocupação, aceita. Só tente se identificar .










