Das Varias Linguas

De volta a Londres e como sempre sao tantos os topicos, sao tantos os eventos, que eles acabam sermpre parecendo que nao sao nenhum. Minha vida é sempre dividida por eventos quase que totalmente opostos. Sou tocada por coisas incrivelmente contraditorias.

A vida as vezes parece um acaso total. Noutras parece que o acaso total tem sua vontade propria que nos traz a um ponto na vida que parece fazer todo sentido. Seria todo sentido, ou seria so um mecanismo da nossa mente de criar explicacoes post hoc? Pois é, é assim que eu vivo ultimamente: em meio a duvidas incrivelmente cognitivo-filosoficas.

Quando fui estudar no Estados Unidos em 2001, poucos dias antes das torres gemeas cairem, fui para estudar cinema. Tinha ganhado uma bolsa, e confesso que foi um total acaso, ou seria destino? Acabou que eu fui passando de departamento em departamento até me formar em antropologia. Acho que muitas dessas escolhas sao determinadas pelas pessoas que conhecemos. Conheci 3 professores que me tocaram muito Mustapha, Marroquino e prof de estudoes “post-coloniais”, Pugliese, Americano e professor de Historia, e Fiorini, Brasileiro e professor de antropologia. Minhas escolhas meio que foram sendo tomadas pela motivação e admiracao que eu tenho por esses 3 professores. Com dois dele ainda mantenho contato. Em comum acho que todos tinham um senso de etica invejavel. Do Pugliese eu aprendi a olhar a tudo como parte de um longo processo historico, do Marcelo Fiorini aprendi sobre os mundos, e as nuances escondidas, do Mustapha eu aprendi sobre justiça, sobre feminismo, como nossos conceitos dizem muito mais sobre nos mesmos do que sobre o que caracterizamos.

Acabou que depois fui para Holanda e la encontrei dois outros professores que me tocaram Gerd, professor de Guerra Civis, e Oskar, professor sobre Violencia Politica. De Gerd eu aprendi que para conseguir mudancas no mundo precisamos falar a lingua de quem vai nos ajudar, lembrando de Mustapha eu sabia que ajudar, e resolucao esta na nossa mente, ligado intimamente com nossas concepcoes de socidades ideais. De Oskar eu aprendi a questionar nocoes sobre violencia, sobre politica.

Enfim, eis que eu chego a LSE, para estudar Cognicao. Antropologia da Cognicao que é muito a parte de tudo que eu fiz antes. Eu deixo de olhar exlusivamente para o mundo, e comeco a buscar os “constraint” cognitivos. Eu me rebelo a principio. Estudar concepcoes religiosas a partir de processos cognitivos me desestabliza, eu que tinha acabado de ir buscar em todo o mundo metafisico uma maneira de me curar. Me desestabliza, pq no fundo eu sou tudo isso. A cientista cognitiva, a antropologa, e a mulher que tem buscas meta-fisicas. Penso em abandonar meus estudos varias vezes. E dessa vez entra uma professora na minha vida. Rita.

E começa mais um ano e quase parece que eu sou cientista cognitiva de formacao, pq eu nao paro de ler sobre ToM ( theory of Mind), autismo, meta-representacoes. Acabo sendo tao empenhada em tudo isso, que minha supervisora me convida para fazer parte da sessoes privadas com os palestrantes que vem fazer parte dos seminario de cultura e cognicao da LSE. Assim, que essas semanas eu estive na situacao surreal de estar tendo encontros com mais 2 estudantes e os maiores especialistas do mundo em congicao. As minha perguntas a Susan Carey, professora de psicologia de Harvard sao tao cognitivas que quando eu parto até me assustam. Como é mesmo que eu cheguei aqui? Realmente nao sei.

Pela primeira vez no entanto tenho me sentido mais no lugar. Numa conversa com meu flatmate, ateu mas que parece ter uma fé na ciencia para mim parecida com religiao eu percebo isso. Eu nao tenho tanta “fé” na ciencia. Eu admiro o que o processo cientifico propoe. Mas o projeto cientifico assim como o artistico, ou o religioso é humano e por isso também politico e economico. As linhas e paradigmas que se seguem são uma das muitas outras possibildiades que poderiam existir. O progresso cientifico é possivel, creio, pela mesma razao que é possivel o processo artistico. É por causa daquilo que o Puglise me fez perceber la atras, que tudo que existe é resultado de um processo historico. E essa acumulcao de “conhecimento” é possivel pela nossa capacidade cognitiva de criar, mas mais importantemente como explicam Tomasselo, e Csibra, de transmitir conhecimento, e de ter uma pedagogia natural, ou seja nos seres humanos aprendemos, copiamos.

É claro, que eu nao estou propondo que religiao e ciencia sejam a mesma coisa. Eu reconheco, é claro, que a revolucao cientifica, permitiu um acumulo e organizacao de informcao, verificacao nunca antes imaginado.. (Mas quem é cientista sabe que o sistema de conseguir grants, de ter que publicar papers, é muito mais realidade do que busca de “verdades”). Acho, no entanto, que essa batalha Dawkiniana contra a religiao como raiz de todo mal um pouco cansativa. Eu nao sou religiosa, mas tenho que reconhecer cientificamente tanto por estudos sobre efeito placebo aqui, e como estudos sobre meditacao, e ate mesmo com religiosos que o poder da fé é “materialmente” verficavel. A ciencia, a religiao, os Estados, (eu imagino que qualquer instituicao humana) pode ser usada para o mal ou bem.

Cada vez mais vejo o mundo povoados por diversas linguagens. Musica me toca quando eu ouco de uma maneira distinta de quando eu toco, e ainda distinta de quando eu leio, e eu posso pensar nela matematicamente, e se eu fosse fisica talvez pudesse ate compreende-la em paramentos fisicos. Para musica eu ainda prefiro permanecer no ambito do emotivo. Na antropologia, eu sei que muitos ambitos sao possiveis, ultimamente, os processos de aprendizado me interessam muito. Nao ignoro os materiais nem os politicos. Tenho que fazer uma escolha, e por enquanto é essa para os mini processos que quero olhar. O que me cansa um pouco é essa ideia das pessoas que querem aplicar uma lingua a tudo. Imagino que matematicos possam talvez explicar quase tudo em equacoes, mas o que realmente ganhamos com issso? Coerencia? Consistencia?

Pensando nas pessoas queridas da minha vida, percebo que ha muitas maneiras de olhar para o mundo. E talvez essa maneira “customized” que eu esteja adotando seja incrivelmente ocidental. Ou talvez nao. Talvez seja simplesmente humano, ser capaz de entreter muitas vezes concepcoes muitas vezes completamente contraditorias. De fato, eu nao sei o como eu cheguei até aqui, mas aqui estou e trajetoria me parece fazer enorme sentido. Talvez ela faça, talvez seja só meu cerebro criando essa sensaçao de sentido. Mas será que faz alguma diferenca ?

Tao Longe Tao Perto*

Estou no Brasil. Passei o Reveillon numa casa repleta de mulheres fenomenais. Falamos, falamos, falamos muito. Foi um encontro desses transformadores. Encontro de pessoas de diversas areas, que em comum tem duvidas existenciais, uma vida academica intensa, uma vida artistica muitas vezes desestabilizante e nenhum medo de ir aos lugares mais escondidos de dentro para vasculhar, procurar as muitas das nossas inconsistencias.

Nos encontramos ali, em meio a outras mulheres mais jovens ainda comecando suas buscas e transbordamos. Numa caminhada pela praia visitamos o funcionamento celular, a caixa de Schrödinger, mundos paralelos, o mundo vivido na imaginacao, e até Goethe. Nenhuma desses assuntos visitados foi visitado com intuito de provar nada, ou de usar o conhecimento para se distanciar do outro. Nao, Sabrina minha amiga fisica, matematica e compositora, falou de fisica para nos explicar sua musica, Laura, neurologista falou de celulas, e sistemas neurologicos porque era sua linguagem de entender o que para nos todas é a mesma busca. Goethe recitado por minha tia, foi recitado nao para mostrar que ela leu Goethe, mas porque naquele exato momento nada cabia melhor do que aquelas palavras. E ali nos todas nos sentimos encontradas. Buscando na linguagem de especialidade do outro resposta para a busca que é de todos nós.

Algumas manhas depois da partida das minhas amigas acordei uma vontade incontrolavel de ler o blog da Gabi, que esta morando na India. Queria saber o que estava acontecendo com ela no final de ano la em Bangalore. Para minha surpresa quando cheguei ao internet cafe, e consegui em meio a jogos de video game, calor, e barulho abrir o blog dela , o titulo do seu ultimo post eraConfissoes de Estrangeira. Li o post, e tocada soube que eu tinha vindo ali para busca-la. Pois eu mesma, pela vida que levei acabo me sentindo estrangeira em todos os lugares do mundo.

Emocionada com o post, deixei uma mensagem sabendo que isso de se sentir estrangeira quando vem acho que fica para sempre. Percebendo que eu ali na minha casa de praia, o lugar mais comum a minha vida, a casa que voltei desde que nasci ( diferente das minhas supostas casas fixas), me sentia estrangeira. Estranha. Fora de lugar. Tao perto e tao longe de todos os lugares. Expliquei na mensagem, que tinha vindo busca-la, porque eu buscava alquem que estivesse longe pois estranhamente é no estranho que eu me sinto mais em casa.

É onde a casa interna vai se formando mais claramente, nao tao determinada pelas convencoes do lugar. De acordo com Maurice Bloch uma das coisas que nos faz humanos e nos separa dos outros antropoids é a nossa capacidade de viver na imaginacao, nas comunidades imaginadas. As regras em si nao fazem sentido se nao forem aceitas por muitas mentes. É essa nossa habilidade de pensar meta-representacionalmente, de atribuir simbolos, status, papeis que nos torna humano. Por exemplo, um chimpanze nao percebe a diferenca entre a agua benta e a agua comum, essa diferenca está na nossa capacidade de conceber o simbolico. Os “reais” so tem valor no Brasil pq coletivamente aceitamos isso, cruzando a fronteira eles ja nao valem mais nada.

Cruzar fronteira tem disso, evidencia muito de quanto nos vivemos no invisvel, no mundo criado na mente coletiva. E eu soube lendo o blog da Gabi que ali sozinha, meio que alem de tudo, de todos os codigos, ela nao “estava” estrangeira, e sim estava se descobrindo estrangeira. Porque nao ha como cruzar tudo isso e imaginar que permancemos os mesmos. nao da. E com essa enormidade de liberdade de observacao, de alegrias repentinas e inexplicaveis por ver o rosto da moca de burqa, por conseguir estar “not tempo das coisas” para se emocionar com o o detalhe, vem tbm um enorme sentimento de solidao.

O que faltou eu dizer, é o que percebi depois quando recebi uma mensagem da Laura, agradecendo pelo nosso encontro na praia. A minha mensagem a Gabi devia ter continuado, pois na verdade eh no encontro com esses outros estrangeiros do mundo que me sinto em casa. Com os que sabem nao no intelecto mas na alma o que eh eh isso. O que eh ter um desejo, ou uma duvida, ou algo que eh dificil de dividir com a maioria do mundo que nao passou por essa vida de se des-enraizar…. É no encontro com os que sabem que o preco dessas buscas é muitas vezes altissimo (e incompreensivel para a maioria das pessoas) mas que para nos os estrangeiros é única opção. E ironicamente, percebi que o Bloch tem razao, que o social é permeado de viver no imaginario, pois é só nessa outra “comunidade imaginada” ( a dos estrangeiros) que nos sentimos menos sos.

Richard- II

Pergunto ao Rcihard se ele tinha estado na Guerra. Ele confirma com a cebeça e um sim mais para dentro que para fora. E eu sei dentro de mim que ele nao quer realmente falar sobre o Vietna, mas que ele estava sozinho e que queria simplesmente conversar. Quem me conhece sabe, que eu converso com todo mundo. Entao começo uma conversa longa com Richard, fazendo perguntas sobre a vida dele, sobre a viagem dele, sobre seus aviões, seus curativos na perna. No começo confesso que por caridade, mas eventualmente, eu passei de fato a querer o Richard muito bem.

Ele beirava um pouco o autismo. Todas suas camisas eram iguais. Compradas na Tailandia na sua quarta viagem, tinha pago não sei quantos Bhats. Ele sabia. Eram boas pois eram do tipo que ele lavava na pia torcia e secava. Ele me explicava com sua voz quebrada, grave, lenta, e os gestos que acompanhavam algumas palavras de ação (torcer, lavar). Richard gostava de aeromodelos e andava sempre com sua revista sobre avioes na mão. As sete da noite ia num bar beber sua cerveja e conversar com suas “ladies friends” me convidaria mas o lugar nao era de fino trato. As 8:30 usava a internet por uma hora, as 9:30 voltava a um outro bar para tomar a segunda e ultima cerveja do dia. Com Richard tudo era assim, ritualístico e explicado. De maneira muito educada.

E eu fui aprendendo tudo sobre a vida dele. Mora sozinho en Darwin na Australia numa boarding house. Constroi tudo que ele precisa, tudo no quarto dele eh em cima de rodas. Faz 12 minutos de abdominais, descansa um e meio depois mais 9 minutos e descansa um e meio, entao 20 flexoes, e descansa 1 minuto. Para poder fazer tudo isso, no quarto quarto minusculo onde ele mora Richard empurra todos os moveis para um lado ( e eu vejo mais uma vez ele fazer a mimica da operacao), levanta a cama, para fazer seus exercicios, empura os moveis para o lado oposto. Nao é muito o que ele tem: Uma comoda, uma banco, uma estante e a cama. Foi piloto na guerra. Pergunto se ele tem amigos, e ele responde que tem as pessoas do boarding house, mas nao sao exatamente amigos, vivem bebados. E o Richard so bebe quando vem a Tailandia prefere economizar esse dinheiro o ano todo.

Convido-o para se juntar a nos para jantar. Ele fica confuso tem que ir beber sua cerveja as 7. Gavin diz a ele que ele pode ir beber depois do jantar, nos o acompanharíamos. Ned faz perguntas sobre o aeromodelos, todos meus amigos de Mut Mee se empenham como eu em faze-lo sentir se bem-vindo. Ele vem. E me agradece muito. E quer no levar no bar. Aceitamos. Assisto ele fazer elogios as “mocas” do bar. Galanteador, um gentleman. Quer pagar todas as nossas bebidas. Ele nao tem muito mora numa boarding house. Junta dinheiro o ano inteiro para vir a Tailândia. No dia seguinte toma café conosco, e pelos próximos 12 dias que eu fico ele se junta a nos. Não como imposição, sempre como convidado que vai ficando mais querido por todos.

Richard- I

Ja que eu mencionei o Hans, deixe me contar sobre o Richard. Na Mut Mee pousada onde eu passei muito tempo em Nong Khai ha mesas num jardim de onde se ve o rio Mekong. Sao cobertas por “cabaninhas” de palha e ali sentam se todos os guests. O sistema é para la de informal. Cada quarto tem seu caderninho. Quando voce quer beber alguma coisa, pega na geladeira e anota no caderninho. Quando quer comer escreve no caderninho e leva a mesa da cozinha. Ai voce senta e umas das mocas que trabalham na cozinha vem trazer. O sistema é informal, o lugar é pequeno, e eu falo muito. O que resultou em eu conhecer quase que todo mundo hospedado. Algumas pessoas como eu, vinham para passar um dia e iam ficando, cativado pelo charme do jardim, pelo Mekong e pelos outros viajantes. A Mut mee é tão aconchegante que um pequeno vilarejo de viajantes que ficaram se formou atras da guesthouse. Todo dia tem meditacao as duas da tarde, tem uma livraria, bicletas, e uma bar barco cheio de almofadas flutuando no Mekong. Nada disso faria muita diferença para mim se não fossem as pessoas. As pessoas que trabalham na Mut Mee, que se mudaram ha anos para as casas de tras, e os viajantes são pessoas com quem eu me identifiquei muito.

Quem nunca viajou por um longo tempo talvez nao saiba, mas quando vc fica vaijando por meses de repente encontrar lugares que parecem “casa” é o que há de mais valioso. No sentido, de que como tem-se tempo ja nao viaja-se naquela sangria desatada de ver um milhao de coisas todos os dias. Para-se e contempla-se o presente, as pessoas, seus costumes. Isso aconteceu para mim primeiro em Nong Khai. Nong Khai cidade de passagem para os turista. Parada entre quem ta saindo da Tailandia para entrar no Laos. Eu, e muitos ficamos.

Assim, que todas as manhas quando eu ia me sentar na longa mesa de Madeira para pedir meu musli tropical eu encontrava outros viajantes. Começavamos conversas infidaveis, sobre destinos, pessoas, politica, musica… e um certo dia enquanto eu ouvia o Gavin, meu amigo canadense, contar sobre seu encontro com o “Sultao de Brunei” no Vietnã, um senhor velho de camisa azul e shorts, curativo na perna, disse de uma maneira meio estranha ( uma fala meio devagar, meio quebrada) mas enfatica que ele nunca iria ao Vietnã. Eu olhei para o lado, para o seu rosto e soube de cara, o Richard tinha estado na guerra.

Pitanga em Pé De Amora

Eu continuo em Sao Paulo e ontem foi a festa surpresa do meu quase primo. Quase porque na verdade ele é primo do meus primos, mas ele cresceu comigo, entao ” it feels like” primo mesmo 🙂 Enfim, minha quase tia, mãe dele, organizou a festa. Festa que deixou os dois muito emocionados. E sabe como é, relacionamentos são sempre dificeis. Pais e filhos então. Nos esperamos por lá, 65 pessoas, sem saber se ele apareceria. E se no caso dele aparecer se ele odiaria. Mas ele apareceu e ficou de fato surpreso, chocado, estarrecido, emocionado. Bem no final da noite, ele ainda parecia flutuar meio perdido.

Minha quase tia, chamou um grupo que ela gosta muito para tocar. O Pitanga em Pé de Amora. Eu já moro fora tempo o suficiente para não conhecer ninguem. Então não me surpreendeu nunca ter ouvido falar deles. Ela tinha me dito que seria uma roda de samba, entao eu fui mentalmente pensando em outra coisa. Eis que chega um grupo composto por 4 meninos e 1 menina, todos jovens. E os instrumentos em display ja mostravam que a minha ideia pre concebida estava errada.

E eles comecaram a misturar samba, choror, jazz valsa, xotes, frevo, clarineta, flauta, escaleta, violao, tambor, trumpete e eu senti aquela saudade que só a música é capaz de causar em mim. Assim como no ano passado quando eu passei noites ouvindo no Bip Bip em Copacabana, a velha e nova geração do rio tocando samba, choro, chico. Uma saudade que vem de lugares inexplicaveis dentro de mim. Eu acho que é a musica o que me faz mais brasileira. Eu não sou nacionalista. Não acho que eu me identifique mais com um brasielrio do que um turco, um chines, ou uma eslovaca. Acho que as pessoas sao iguais no mundo, em toda sua diferenca sao capazes dos mesmos atos de altruismo e crueldade, dos mesmos sentimentos. E oque me liga a uma pessoa é o sentimento que eu sinto em relação a ela, e este não é definido por nação. Mas a música, talvez ainda mais que a lingua, me faça me perceber mais brasileira.

Não que eu não sinta saudade de ir no Smalls em NY ouvir Jazz, passar tardes a fio tocando, ouvindo meus amigos do mundo a fora tocando a musica deles. Eu sinto saudade do meu ano de faculdade de música, de ouvir meus talentosos amigos musicos de NY, eu me emociono quando ouco musica do Mali, ou classica, ou um milhao de outras coisas. No entanto, tem alguma coisa que acontece quando o ritmo é sincopado de maneira brasileira. Tem alguma coisa internalizada dentro de mim, é como assistir um senhor argentino dançar tango, sem grandes acrobacias, mas aquele amor, aquele ritmo internalizado na respiracao.

Eu ja viajei muito. Eu ja morei em muitos lugares e eu posso dizer que eu me sinto em casa e fora de casa quase que em todo canto. É um sentimento comum a alguns dos meus amigos que tiveram o mesmo tipo de vida. Meus grandes amigos, as pessoas que eu sinto que dividem o que é de precioso estão espalhados por continentes. Eu nunca morei numa casa o tempo suficiente para criar vinculos com o material. Agora a música. A música é outra coisa. Ela toca no amago. E ela desliza dentro de mim, visitando todos os cantos, e vai fazendo um caminho so dela. E quando eu encontro essa musica que me é estranhamente familiar, a musica brasileira, ainda que misturada com a musica do mundo, tocada de maneira tao brasileira, ai nao da, ai ela tem acesso a lugares que as outras nao tem. Os lugares privados dentro de mim. E aí me dá uma saudade. Dessas de quem se sente assim um pouco “Pitanga em Pé de Amora.”

Concurso de Ingles- II

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No famigerado dia da “speech competition”, meu segundo dia no vilarejo, acordei e me arrumei com roupas locais ( uma vendedora apareceu na minha escola no dia anterior com blusas tailandesas), e me preparei para ir ao tal concurso. Nesse dia eu ainda nao tinha minha rotina, eu ainda nao estava adaptada o suficiente para prestar atencao no todo. Eu estava ainda muito mais centrada em mim. So com a minha catarse no funeral da mãe da professora que eu sairia de fato de mim para poder observar o tempo, e ver o vilarejo passar. Nesse dia, eu ainda nao sabia o que fazer, o que estava errado, que linhas invisiveis de regras eu estava quebrando, e quão sério isso seria. Olhando para tras eu percebo que eu ainda não sabia nada. Nada sobre as crianças, nada sobre a Horm, ou Ban Nonpho, e de certa fomar, eu estava em “total denial” disso. Em “total denial” que era tudo diferente, que apesar de eu ser de pais tropical, apesar de eu ter estudado antropologia, toda aquela mudança me afetava. Como é engraçado isso. A sensação concreta que eu ja os conhecia. Eu olho para o passado, para esse segundo dia, com o que eu sei de todos eles hoje, e é tão dificil realmente saber o que eu pensei, porque minha categorias estão formadas. Eu penso nessas lembranças do passado com o carinho que eu sinto hoje. Eu tentarei no entanto, sabendo que é impossivel, escrever como eu me senti naquele dia.

Fazia calor, como quase todos os dias, e nem o calor eu consigo realmente lembrar. Ele fica teorico na memoria. Quando eu penso no ar oco e solido e parado ao mesmo tempo. Eu lembro do calor melhor. So a palavra “calor” é vaga. Enfim, eu que tinha pavor de motos, subi numa pequena scooter junto com Horm, Tangmo e Tanoy, e no maior estilo sudeste asiatico nos transportamos para escola do distrito de Khon Kaen para a famosa competicao. Senti meio que desespero naquela rodovia, 4 pessoas numa lambretinha, carros e caminhoes passando a volta. Cheguei a uma escola muito grande, muito diferente da minha escolinha primaria rural que abrigava 50 alunos. Essa devia ter centenas de alunos. Fui levada a sala onde seria a inauguracao e apresentada a dezenas de professores de ingles. Alguns falavam inlges bem, uma professora da escola mais chique do distrito era uma perfeita britanica. Outros mal conseguiam se comunicar. Logo percebi que em matéria de entusiasmo e alegria ninguém chegava aos pés da Horm.

Todos quiseram tirar fotos comigo. Eu sentei por horas a fio sem entender nada. Tanoy, 12 anos, mais comportada. Tangmo, 9, pegou minha mão. Eu que não sabia que issso não era tão comum, fiz carinho nela. Ela colocou a cabeça no meu colo, e eu percebi que todas as pessoas a volta me olhavam. Depois de muita e muita espera, discursos em Thai era hora do almoço. Eu não quis comer. Eu era Jeh ( vegetariana), então as crianças que em dois dias já sabiam disso nao me trouxeram comida. Trouxeram frutas. Eu agradeci. E na tamanha confusao, eu acabei nem vendo a Tangmo fazer o discurso dela que tanto praticamos. Vi Tanoy, vi ela me olhar meio perdida quando nao lembrava de uma palavra. Tudo tao desorganizado. Tudo informal.

De repente, como quem nao diz nada de importante, Horm, me conta que Tangmo tinha sido segunda na competicao. O que para minha minuscula escola era o equivalente a um nigeriano ganhar medalha nas olimpiadas de inverno. Eu fiquei super feliz. Tiramos fotos dela recebendo o diploma. A Tangmo, que tinha so 9 anos, que morava com os avos, que era super pobre. Eu pensei na Tanoy. Estaria ela desapontada? Perguntei a Horm, e ela me responderia a frase que ficaria claro para mim que eu tinha escolhido o lugar certo. Que por sorte eu tinha caido na casa de alguem que tinha valores que eu admirava.

“Non Chu, Claro que nao. Ela sabe que é muito dificil. Ela fica feliz de vir aqui, de passar tempo com voce. E eu não estou preocupada se elas ganham ou não, eu só quero que elas tenham momentos de alegria. A vida deles é dura sabe?”

Eu não sabia naquele dia. Aquela frase era emblemática de como seria o meu tempo lá. De como a Horm, vivia a vida dela. De como toda a bagunça da escola, ou as regras incompreensiveis para mim eram reflexo dessa filosofia. Os momentos de alegria na vida das criancas eram fundamentais. E a alegria não vinha de momentos muito especiais, mas do banal, do dia-a-dia. Não de ganhar a competição, mas de ir até lá, de passar a noite na casa da professora aprendendo coisas com a Farang ( estrangeira), de jogar banco imobiliário sem ter nenhum vencedor ou perdedor.

A Máquina

Faz exatamente uma semana que eu cheguei a sao paulo. Cheguei e fui direto ao hospital para fazer meu exame. Uma ressonancia magnetica do meu cerebro. Ha dois anos eu cheguei e fui direto para ficar la internada. Eu confesso que já não me lembro tão bem. Quando eu me esforço eu lembro de não querer mais que a enfermeira na minha segunda ressonancia injetasse mais contraste em mim. Doia. Eu lembro de pensar, chega nao quero mais fazer isso. Do meu olho encher de lágrimas. Querer parar. E perceber que ao contrário de tudo na vida que eu podia simplesmente ir embora, dessa vez eu tinha que ficar. Eu lembro de acordar no meio de uma noite me sentindo envenenada por tanto remedio sendo injetado dentro de mim. Lembro ouvir zunido enlouquecedor na minha cabeça, tocar o cabelo e sentir um som metalico, dormir sentido que meu cerebro revirava. Lembro de chamar a enfermeira e falar para ela parar com aquilo. De insistir para eles falarem com o medico. Me esforçando agora, eu me lembro claramente de pensar ” nossa, será que é isso. isso é ser doente? será que eu vou ter que aprender a viver assim? Lembro deles voltarem e desligarem o aparelho, e de eu esperar que parando o remedio eu melhorasse. Melhorou.

Depois eu lembro só de coisas melhores. Do monte de visitas. Da doçura das enfermeiras e enfermeiros. De ver em seus olhos pena de me ver ali no andar de neurologia. Um andar cheio de pessoas uns 40 anos mais velhas que eu. E logo em seguida de me sentir tao bem que eu fazia yoga e deixava os medicos e enfermeiras perplexos com os meu asanas. Ter que esperar por dias eles descobrirem o que eu tinha. E partir de la sabendo que eu tinha tido um processo de desmielinizacao. Tendo que torcer para que isso não acontecesse mais. Que fosse um episodio unico e isolado, e não cronico. Se meu sistema imunologico continuasse a lutar contra meu cerebro, caracterizaria-se entao, esclerose multipla.

Esse ano eu voltei pela terceira vez ao mesmo hospital, para fazer a ressonancia com a mesma senhora, no mesmo lugar. O ano passado meu exame tinha mostrado otimos resultados. Este ano eu estava com mais medo. Afinal eu tinha tido aquele pequeno curto circuito 🙂 E demora uma eternidade esse exame. Especialmente dentro de mim. Sabendo que aquela maquina esta olhando dentro para ver o que eu nao vejo. Aquela maquina que vai decidir se eu to bem ou nao. Ainda que eu me sinta pessima, ou otima, é aquela maquina que vai dar o veredito. Entao, eu fico la dentro e enquanto eu fico imovel o mundo passa dentro de mim. Oscilando entre a total calma e o total desespero desencadeado por nao lembrar o nome do monge budista, ou melhor o bodisatva tibetano que eu conheci na India. Sua Santidade o Karmapa. Incrivel como um pensamento desencadeia uma serie de reacoes dentro do meu corpo. E eu vou da total imobilidade interna, a um verdadeiro desespero. E entao eu foco no meu amigo Maciek, polones yogi, o simbolo para mim da paz. E eu paro. E vou para minha casa. Sem nem saber como me sinto. Tenho que esperar 3 dias para pergar o resultado.

E quando chega o dia eu vou la. Pego meu exame para levar ao meu medico. E como sempre abro imediatamente. Ouvindo os protestos dos que estao ao meu lado. Mas ninguem, ninguem tem mais direito a ver esses resultados do que eu. Ninguem. E eu olho tudo, e meu olho ja desliza sabendo onde buscar. No final, na conclusao eu leio depois de muito bla bla bla que eu nao entendo, que meu exame nao mostrava nova alteração. Eu choro. Nao desesperado. Um choro de alivio. De quem nem sabe direito que essa faca pendurada em cima da cabeça causa tanta ansiedade. Um choro de alivio de quem sabe que a faca continua lá mas mais distante. De quem quer viver a vida, conhecer o mundo, de quem quer descobrir e explorar todos os seus limites. Encontrar-se de verdade. E eu agradeco a maquina por convencer a todos que eu posso fazer tudo que eu quero. E percebo que ironicamente sou eu quem mais precisa da confirmacao da máquina.

O concurso de Ingles- I

Logo no primeiro dia que eu cheguei a Ban Nonpho ( a escola que eu voluntariei no pequeno vilarejo rural da Tailandia), Horm, minha anfitria me pediu para ajudar duas meninas, Tanoy e Tangmo se prepararem para o concurso de ingles. Deixa eu começar do começo afinal muitos que vem aqui nesse blog não receberam todos os e-mails que eu mandei da Asia. O meu vilarejo tinha mais ou menos 100 casas. Da minha casa, eu nao via nenhuma dessas outras 100. A casa era de madeira, simples, não havia agua corrente, nem ventiladores, os banhos eram de cuia, o calor desesperador, e eu nao entendia absolutamente nada do que ninguem alem do Hans, e um pouco a Horm falavam.

Logo no meu segundo dia eu cheguei a Ban Nonpho. A pequena escola rodeada por arrozais, assim como o resto das casas. A pequena escola aberta para quem quisesse entrar ou cruza-la por qualquer razao, e a qualquer hora. A escola onde a minha ideia de “disciplina asiatica” se desmoranaria. Nesse primeiro dia, eu ainda nao sabia nada disso. Nao sabia que seria tudo uma grande bagunça entao quando Horm veio me pedir para praticar com Tangmo eu peguei o papel e fui praticar. Um pequano texto. Ou melhor 4 pequenos textos. “Me” “My family” ” My school” “Food”. Eram pequenos “speeches” escritos pela propria HOrm, que apesar de ser professora de ingles fazia varios erros.

O papel me foi entregue, e Tangmo veio comigo. Comecou a recitar o tal texto que tinha em algumas partes coisas escritas em Tailandes. Ela 9 anos, sem falar quase nada de ingles. Eu 27 com um texto que eu mal entendia sem falar nada de Thai, ou Lao. Sentamos e ela comecou a repetir, uma vez atras da outra, fazendo sempre os mesmos erros, eu sempre perguntando o que era as mesmas palavras em Tailandes, esperando que Horm reaparecesse alguma hora para dizer que ja estava bom. Nesse altura eu ainda nao sabia que as classes de alunos eram abandonadas ao deus dara de acordo com a vontade do professor. Entao, fiquei la com Tangmo espeando que logo, logo a Horm voltasse.

Nao sei quanto tempo se passou, mas o calor desesperador ajudou a aumentar a sensacao de exaustao. E eu queria perguntar a Tangmo se ela nao queria descansar. Ela nao me entendia. Eu nao a entendia. Entao ela comecava tudo de novo. Os mesmos erros, as mesmas palavras que eu nao sabia o que eram por horas a fio. Quando de repente eu achei que eu ia matar a menina de cansaço resolvi ir procurar a Horm que estava praticando com a Tanoy. Para minha surpresa elas nao estavam na classe, a classe estava abandonada com os alunos dentro fazendo sei la o que. Procureu numa outra sala. Ainda nao me sentindo muito dona dos meus passos, ainda nao sabendo o meu caminho, sendo olhada sem parar por todas as pessoas, ainda sem saber que atos meus poderiam estar transgredindo as normas.

Encontrei a sala da frente. E dentro vi Horm e Tanoy deitadas no chao debaixo do ventilador rindo, gargalhando. Era assim que elas estavam praticando. Brincando. Descansando. Nao hesitei, exausta que estava fui até elas e me deitei, tive um acesso de riso. E lá ficamos um bom tempo.

“Non Chu, the girls will come sleep over tonight so that you can help them practice!” me disse a Horm.

“Como assim? Elas ja nao estao exaustas? ”

“Que isso Non Chu, elas adoraram poder vir dormir na minha casa e passar mais tempo com voce.”

Naquele dia eu ainda achava que para Horm elas deviam vir porque eu ia auda-las com o ingles. Depois eu compreenderia que as prioridades de Horm eram bem diferentes!

Hans- parte III

Eis que um dia, muitos dias depois da nossa viagem ao Laos para trocar o visto do Hans, ele vem me confidenciar que nao iria mais pagar os 15 mil Bhat. Sua ex-mulher, estava cobrando 40mil Bhat para dar o divorcio e ele nao tinha dinheiro.

Horm ficou furiosa. Segundo ela, isso nao se faz, “ if you love someone, you must support her.” Tentei de varias formas perguntar a ela se isso nao era prostituicao, mas ela me explicou que nao que nao tinha nada a ver. “If you love someone you must support them.”

Para falar bem a verdade, enquanto o Hans estava pagando a Ooum, eu na minha praticidade entendia. Afinal, a vida é dura num vilarejo rural na Tailandia. Para minha, surpresa , no entanto, quando ele deixou de paga-la e explicou que eles precisavam terminar, Ooum disse que nao, que gostava dele, que queria continuar com ele mesmo sem o dinheiro.

Esse foi o primeiro encontro que eu tive com essas relacoes, dificeis para mim de categorizar. Na verdade, as coisas sao muito mais complexas. Eu no comeco ficava totalmente irritada com os homens europeus com meninas tailandesas. Penetrando aos poucos tanto o mundo dos homens ( um mundo muitas vezes de homens solitarios, as vezes crapulas as vezes vitimas, as vezes os dois, as vezes nenhum), como os das mulheres Tailandesas (que muitas vezes tem muitos “maridos ocidentais” e que falam disso numa boa..as vezes crapulas, as vezes vitimas as vezes os dois, ou nenhum…:) fiquei menos “judgamental”. Quem sou eu para saber quais sao as necessidades de uma pessoa? Não é nunca tão claro assim. A necessidade financeira as vezes se mistura com verdadeiro carinho, ou quem sabe com uma maneira menos judeo-crista de experienciar sexualdiade.

Eu não quero fingir aqui que o turismo sexual em Bangkok, Pattaya, Phuket etc..não seja depre, e que nao deva ter mil vertentes de abusos. Por esses lugares ve se de tudo. Alias foi a primeira vez que eu achei que era mais facil viajar sozinha como mulher do que como homem. Os homens sao literalmente agarrados pelas ruas. Ha tambem os famosos shows de ping pong e sexo, as massagens com “happy ending”, e sem duvida nenhuma um milhao de abusos.

Mas há tb um outro lado. Os das pessoas que estao buscando uma vida melhor. Que estao buscando amor. Ou como meu amigo, Richard, um senhor de 73 anos que eu conheci em NK, estao procurando se sentirem mais humanos. Mas essa é uma outra estória.