Pitanga em Pé De Amora

Eu continuo em Sao Paulo e ontem foi a festa surpresa do meu quase primo. Quase porque na verdade ele é primo do meus primos, mas ele cresceu comigo, entao ” it feels like” primo mesmo 🙂 Enfim, minha quase tia, mãe dele, organizou a festa. Festa que deixou os dois muito emocionados. E sabe como é, relacionamentos são sempre dificeis. Pais e filhos então. Nos esperamos por lá, 65 pessoas, sem saber se ele apareceria. E se no caso dele aparecer se ele odiaria. Mas ele apareceu e ficou de fato surpreso, chocado, estarrecido, emocionado. Bem no final da noite, ele ainda parecia flutuar meio perdido.

Minha quase tia, chamou um grupo que ela gosta muito para tocar. O Pitanga em Pé de Amora. Eu já moro fora tempo o suficiente para não conhecer ninguem. Então não me surpreendeu nunca ter ouvido falar deles. Ela tinha me dito que seria uma roda de samba, entao eu fui mentalmente pensando em outra coisa. Eis que chega um grupo composto por 4 meninos e 1 menina, todos jovens. E os instrumentos em display ja mostravam que a minha ideia pre concebida estava errada.

E eles comecaram a misturar samba, choror, jazz valsa, xotes, frevo, clarineta, flauta, escaleta, violao, tambor, trumpete e eu senti aquela saudade que só a música é capaz de causar em mim. Assim como no ano passado quando eu passei noites ouvindo no Bip Bip em Copacabana, a velha e nova geração do rio tocando samba, choro, chico. Uma saudade que vem de lugares inexplicaveis dentro de mim. Eu acho que é a musica o que me faz mais brasileira. Eu não sou nacionalista. Não acho que eu me identifique mais com um brasielrio do que um turco, um chines, ou uma eslovaca. Acho que as pessoas sao iguais no mundo, em toda sua diferenca sao capazes dos mesmos atos de altruismo e crueldade, dos mesmos sentimentos. E oque me liga a uma pessoa é o sentimento que eu sinto em relação a ela, e este não é definido por nação. Mas a música, talvez ainda mais que a lingua, me faça me perceber mais brasileira.

Não que eu não sinta saudade de ir no Smalls em NY ouvir Jazz, passar tardes a fio tocando, ouvindo meus amigos do mundo a fora tocando a musica deles. Eu sinto saudade do meu ano de faculdade de música, de ouvir meus talentosos amigos musicos de NY, eu me emociono quando ouco musica do Mali, ou classica, ou um milhao de outras coisas. No entanto, tem alguma coisa que acontece quando o ritmo é sincopado de maneira brasileira. Tem alguma coisa internalizada dentro de mim, é como assistir um senhor argentino dançar tango, sem grandes acrobacias, mas aquele amor, aquele ritmo internalizado na respiracao.

Eu ja viajei muito. Eu ja morei em muitos lugares e eu posso dizer que eu me sinto em casa e fora de casa quase que em todo canto. É um sentimento comum a alguns dos meus amigos que tiveram o mesmo tipo de vida. Meus grandes amigos, as pessoas que eu sinto que dividem o que é de precioso estão espalhados por continentes. Eu nunca morei numa casa o tempo suficiente para criar vinculos com o material. Agora a música. A música é outra coisa. Ela toca no amago. E ela desliza dentro de mim, visitando todos os cantos, e vai fazendo um caminho so dela. E quando eu encontro essa musica que me é estranhamente familiar, a musica brasileira, ainda que misturada com a musica do mundo, tocada de maneira tao brasileira, ai nao da, ai ela tem acesso a lugares que as outras nao tem. Os lugares privados dentro de mim. E aí me dá uma saudade. Dessas de quem se sente assim um pouco “Pitanga em Pé de Amora.”

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