A Máquina

Faz exatamente uma semana que eu cheguei a sao paulo. Cheguei e fui direto ao hospital para fazer meu exame. Uma ressonancia magnetica do meu cerebro. Ha dois anos eu cheguei e fui direto para ficar la internada. Eu confesso que já não me lembro tão bem. Quando eu me esforço eu lembro de não querer mais que a enfermeira na minha segunda ressonancia injetasse mais contraste em mim. Doia. Eu lembro de pensar, chega nao quero mais fazer isso. Do meu olho encher de lágrimas. Querer parar. E perceber que ao contrário de tudo na vida que eu podia simplesmente ir embora, dessa vez eu tinha que ficar. Eu lembro de acordar no meio de uma noite me sentindo envenenada por tanto remedio sendo injetado dentro de mim. Lembro ouvir zunido enlouquecedor na minha cabeça, tocar o cabelo e sentir um som metalico, dormir sentido que meu cerebro revirava. Lembro de chamar a enfermeira e falar para ela parar com aquilo. De insistir para eles falarem com o medico. Me esforçando agora, eu me lembro claramente de pensar ” nossa, será que é isso. isso é ser doente? será que eu vou ter que aprender a viver assim? Lembro deles voltarem e desligarem o aparelho, e de eu esperar que parando o remedio eu melhorasse. Melhorou.

Depois eu lembro só de coisas melhores. Do monte de visitas. Da doçura das enfermeiras e enfermeiros. De ver em seus olhos pena de me ver ali no andar de neurologia. Um andar cheio de pessoas uns 40 anos mais velhas que eu. E logo em seguida de me sentir tao bem que eu fazia yoga e deixava os medicos e enfermeiras perplexos com os meu asanas. Ter que esperar por dias eles descobrirem o que eu tinha. E partir de la sabendo que eu tinha tido um processo de desmielinizacao. Tendo que torcer para que isso não acontecesse mais. Que fosse um episodio unico e isolado, e não cronico. Se meu sistema imunologico continuasse a lutar contra meu cerebro, caracterizaria-se entao, esclerose multipla.

Esse ano eu voltei pela terceira vez ao mesmo hospital, para fazer a ressonancia com a mesma senhora, no mesmo lugar. O ano passado meu exame tinha mostrado otimos resultados. Este ano eu estava com mais medo. Afinal eu tinha tido aquele pequeno curto circuito 🙂 E demora uma eternidade esse exame. Especialmente dentro de mim. Sabendo que aquela maquina esta olhando dentro para ver o que eu nao vejo. Aquela maquina que vai decidir se eu to bem ou nao. Ainda que eu me sinta pessima, ou otima, é aquela maquina que vai dar o veredito. Entao, eu fico la dentro e enquanto eu fico imovel o mundo passa dentro de mim. Oscilando entre a total calma e o total desespero desencadeado por nao lembrar o nome do monge budista, ou melhor o bodisatva tibetano que eu conheci na India. Sua Santidade o Karmapa. Incrivel como um pensamento desencadeia uma serie de reacoes dentro do meu corpo. E eu vou da total imobilidade interna, a um verdadeiro desespero. E entao eu foco no meu amigo Maciek, polones yogi, o simbolo para mim da paz. E eu paro. E vou para minha casa. Sem nem saber como me sinto. Tenho que esperar 3 dias para pergar o resultado.

E quando chega o dia eu vou la. Pego meu exame para levar ao meu medico. E como sempre abro imediatamente. Ouvindo os protestos dos que estao ao meu lado. Mas ninguem, ninguem tem mais direito a ver esses resultados do que eu. Ninguem. E eu olho tudo, e meu olho ja desliza sabendo onde buscar. No final, na conclusao eu leio depois de muito bla bla bla que eu nao entendo, que meu exame nao mostrava nova alteração. Eu choro. Nao desesperado. Um choro de alivio. De quem nem sabe direito que essa faca pendurada em cima da cabeça causa tanta ansiedade. Um choro de alivio de quem sabe que a faca continua lá mas mais distante. De quem quer viver a vida, conhecer o mundo, de quem quer descobrir e explorar todos os seus limites. Encontrar-se de verdade. E eu agradeco a maquina por convencer a todos que eu posso fazer tudo que eu quero. E percebo que ironicamente sou eu quem mais precisa da confirmacao da máquina.

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