Concurso de Ingles- II

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No famigerado dia da “speech competition”, meu segundo dia no vilarejo, acordei e me arrumei com roupas locais ( uma vendedora apareceu na minha escola no dia anterior com blusas tailandesas), e me preparei para ir ao tal concurso. Nesse dia eu ainda nao tinha minha rotina, eu ainda nao estava adaptada o suficiente para prestar atencao no todo. Eu estava ainda muito mais centrada em mim. So com a minha catarse no funeral da mãe da professora que eu sairia de fato de mim para poder observar o tempo, e ver o vilarejo passar. Nesse dia, eu ainda nao sabia o que fazer, o que estava errado, que linhas invisiveis de regras eu estava quebrando, e quão sério isso seria. Olhando para tras eu percebo que eu ainda não sabia nada. Nada sobre as crianças, nada sobre a Horm, ou Ban Nonpho, e de certa fomar, eu estava em “total denial” disso. Em “total denial” que era tudo diferente, que apesar de eu ser de pais tropical, apesar de eu ter estudado antropologia, toda aquela mudança me afetava. Como é engraçado isso. A sensação concreta que eu ja os conhecia. Eu olho para o passado, para esse segundo dia, com o que eu sei de todos eles hoje, e é tão dificil realmente saber o que eu pensei, porque minha categorias estão formadas. Eu penso nessas lembranças do passado com o carinho que eu sinto hoje. Eu tentarei no entanto, sabendo que é impossivel, escrever como eu me senti naquele dia.

Fazia calor, como quase todos os dias, e nem o calor eu consigo realmente lembrar. Ele fica teorico na memoria. Quando eu penso no ar oco e solido e parado ao mesmo tempo. Eu lembro do calor melhor. So a palavra “calor” é vaga. Enfim, eu que tinha pavor de motos, subi numa pequena scooter junto com Horm, Tangmo e Tanoy, e no maior estilo sudeste asiatico nos transportamos para escola do distrito de Khon Kaen para a famosa competicao. Senti meio que desespero naquela rodovia, 4 pessoas numa lambretinha, carros e caminhoes passando a volta. Cheguei a uma escola muito grande, muito diferente da minha escolinha primaria rural que abrigava 50 alunos. Essa devia ter centenas de alunos. Fui levada a sala onde seria a inauguracao e apresentada a dezenas de professores de ingles. Alguns falavam inlges bem, uma professora da escola mais chique do distrito era uma perfeita britanica. Outros mal conseguiam se comunicar. Logo percebi que em matéria de entusiasmo e alegria ninguém chegava aos pés da Horm.

Todos quiseram tirar fotos comigo. Eu sentei por horas a fio sem entender nada. Tanoy, 12 anos, mais comportada. Tangmo, 9, pegou minha mão. Eu que não sabia que issso não era tão comum, fiz carinho nela. Ela colocou a cabeça no meu colo, e eu percebi que todas as pessoas a volta me olhavam. Depois de muita e muita espera, discursos em Thai era hora do almoço. Eu não quis comer. Eu era Jeh ( vegetariana), então as crianças que em dois dias já sabiam disso nao me trouxeram comida. Trouxeram frutas. Eu agradeci. E na tamanha confusao, eu acabei nem vendo a Tangmo fazer o discurso dela que tanto praticamos. Vi Tanoy, vi ela me olhar meio perdida quando nao lembrava de uma palavra. Tudo tao desorganizado. Tudo informal.

De repente, como quem nao diz nada de importante, Horm, me conta que Tangmo tinha sido segunda na competicao. O que para minha minuscula escola era o equivalente a um nigeriano ganhar medalha nas olimpiadas de inverno. Eu fiquei super feliz. Tiramos fotos dela recebendo o diploma. A Tangmo, que tinha so 9 anos, que morava com os avos, que era super pobre. Eu pensei na Tanoy. Estaria ela desapontada? Perguntei a Horm, e ela me responderia a frase que ficaria claro para mim que eu tinha escolhido o lugar certo. Que por sorte eu tinha caido na casa de alguem que tinha valores que eu admirava.

“Non Chu, Claro que nao. Ela sabe que é muito dificil. Ela fica feliz de vir aqui, de passar tempo com voce. E eu não estou preocupada se elas ganham ou não, eu só quero que elas tenham momentos de alegria. A vida deles é dura sabe?”

Eu não sabia naquele dia. Aquela frase era emblemática de como seria o meu tempo lá. De como a Horm, vivia a vida dela. De como toda a bagunça da escola, ou as regras incompreensiveis para mim eram reflexo dessa filosofia. Os momentos de alegria na vida das criancas eram fundamentais. E a alegria não vinha de momentos muito especiais, mas do banal, do dia-a-dia. Não de ganhar a competição, mas de ir até lá, de passar a noite na casa da professora aprendendo coisas com a Farang ( estrangeira), de jogar banco imobiliário sem ter nenhum vencedor ou perdedor.

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