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Sobre julietafalavina

Eu escrevo da minha vida, e agora sobre a minha recuperação da saúde .

Hans- parte II

Fiquei morrendo de pena da Oum. Ela é uma dessas pessoas que não dá para imaginar o que está pensando. Quieta, reservada, e por não falar ingles, ficava dificil de saber o quanto ela entendia das nossas conversas. Um riso escapado aqui e ali mostrava que um pouco ela entendia mas o quanto era esse pouco nao dava para saber. Nesse dia, ela não fez cara de nada, meio que inalterada, nao demonstrou tristeza, nem alegria. E na verdade veio para o nosso ( meu e Horm) quarto conversar. Nao sei como conversamos, rimos muito, eu fiquei fazendo minha yoga enquanto elas conversavam, e de repente o que para mim pareceu do nada, Ooum levantou, me disse boa noite, e saiu.

No dia seguinte, no cafe da manha, (os Thai comem comida mesmo de manha. Sempre arroz e mais alguma carne) nao notei nenhuma diferença na maneira como Hans e ela se tratavam. Nao eram mais afetuosos, nem intimos. Entao aliviada decidi que nada tinha acontecido. Quando chegamos a proxima cidade, Non Khai ( cidade que eu considero minha casa na Tailandia, onde eu acabaria voltando mais 3 vezes!!!) na recepcao da Mut Mee ( a guesthouse onde eu sempre fiquei) Horm fez uma confusao louca ( o recepcionista era americano), e acabou por me pedir para falar com ele, e dizer que eu tava no quarto do Hans. Tudo isso assim, na frente do cara.

Não sei quanto tempo passou, mas de repente, Hans veio me contar que estava junto com a Ooum. “Hans, mas como assim? e toda nossa conversa????” Ela me explicou, que depois de alguns dias, “totally in love” ele resolveu contar para a Horm, e que a Horm contou para a Ooum, e que aparentemente a Ooum ” tbm estava in love”. Eu fiquei em choque de imaginar que minha anfitria, uma professora de escola, mais velha, trabalhando de cupido, numa estoria onde envolvia duas crianas pequenas, mais um policial! A estoria culminou quando ele me disse que porque ele estava “in love” ele agora tinha que sustentar a Ooum pagando 15000 Bhat ( mais ou menos 300 libras, salario de um professor na Tailandia) por mes.

“Hans, deixa eu ver se eu entendi, voce paga para dormir com ela?”

“I support her becuase I am in love with her”

“Ta, mas se ela nao dormisse com voce, voce nao pagaria?”

Meio quieto, ele concordou. “So that is basically prostitution?”.

Deixa eu abrir um parenteses aqui para explicar, que eu nao tenho NADA contra prostituicao em si. Ou melhor, que eu nao tenho nada contra adultos que decidam prostituir-se, ou adultos que resolvam ir a prostitutas. Inclusive tenho amigos dos dois lados da moeda. A questao chave para mim é que as pessoas envolvidas o facam por que querem, e nao porque sao obrigadas por terceiros ( no caso de trafico humano). Veja, que eu nao incluo aqui nem se quer as causas economicas porque eu acho que autonomia, e empoderamento são questões para lá de complexas. As minhas perguntas ao Hans, eram portanto puramente de carater antropologico, e para tentar entender um pouco melhor o lugar onde eu estava vivendo.

“Yes. I guess so.”

A segunda razao pela qual eu estava curiosa era mais egoista. Era porque eu queria saber se nos estavamos correndo o risco do marido descobrir e aparecer com revolver e espada la em casa. Para descobrir isso, fui perguntar a Horm.

“Horm, o marido da Ooum sabe?” ela disse que nao. Eu ainda sem conseguir acreditar como isso era possivel perguntei a ela de onde o marido da Ooum ia achar que ela estava ganhando 15 mil!!! Bhat!!! ( muito dinheiro para um/a Tailandesa no campo) de repente do nada. E entao veio a resposta que me chocou:

“De voce!”

Hans- parte I

Assim que eu cheguei a Chumpae, a cidadezinha mais proxima do vilarejo onde fui voluntariar, eu fui recebida por Horm, minha anfitriã, Hans, um dinamarques, Nari, uma advogada Tailandesa, e Neem, uma menina de 15 anos que era a coisa mais fofa que eu ja vi! Assim que eu cheguei eu nao entendi muito bem,a que titulo o Hans ali. Eventualmente me foi explicado que ele e Horm eram amigos de longa data. Como tinham se conhecido? Por um site de relacionamentos. O romance nunca rolou mas ficaram amigos.

Hans chegou a Tailandia, acho que uns dois meses antes de mim, e logo no aeroporto encontrou a sua futura esposa. Assim de um futuro muito breve, nao levou nem uma semana para eles se casarem. Quando eu o conheci ele estava se separando. Eu achei a estoria meio patetica, e ja fui formando na minha cabeca a ideia ” tipico europeu meia idade que vem procurar mulher novinha na Tailandia”. Hans era meio fechadao, meio resmungao, mas acabou se abrindo e me contando que na Dinamarca ele era sozinho. Bebia todos os dias, e que queria ser um homem feliz, e achou que tinha encontrado a mulher da vida dele. Eu ouvi tudo respetiosamente, e com uma certa pena. Entao ele me explicou que a a Nari a advogada, uma mulher jovem e bonita, estava apixonada por ele. Ele nao estava entao nao podia engana-la. Eu fiquei totalmente perplexa nao conseguindo imaginar como uma mulher super bacana, bem sucedida, inteligente e bonita como a Nari pudesse estar apaixonada pelo Hans. Das muitas coisas que eu nunca entenderia na Tailandia!

Os dias se passaram e eu fui ficando cada vez mais proxima do Hans afinal de contas ele era a unica pessoa que falava ingles de fato. Um dia, na cumplicidade que foi nascendo Hans resolveu me fazer uma confissao: “Jules, I have to tell this to someone or I will burst!!! I am in love with Oum!!!”

Bom, eu quase cai pra tras. A Oum era a secretaria da Horm, minha anfitria. Uma moca que fazia de tudo para a nossa casa. A Ooum, tinha 28 anos, 2 filhas e era casada com o policial do vilarejo! Quando o Hans me disse isso, eu meio que perdi o folego e disse muito calmamente: ” Hans, PESSIMA ideia. Isso nao eh amor, voce nao consegue nem falar com ela.. E ela eh casada com o POLICIAL!!! Pelo amor de deus esquece isso. Alem do mais voce passou horas me contando quao traumatizado vc tinha estado com seu nem se quer acabado casamento. Take your time.” Diante das minhas sabias palavras Hans nao teve muita opcao a nao ser concordar. E a vida seguiu calmamente no meu vilarejinho.

Eis que um dia, fui informada que teriamos que ir ao Laos para que Hans trocasse de visto. Achei otimo, e sem perguntar muitos detalhes arrumei minha mochila. Como iriamos? De carro! Que carro? o do marido da Ooum. Quem dirijiria?A propria Ooum. Assim que entrei percebi que no banco de tras havia uma enorme espada estilo “ninja”. Perguntei o que era aquilo e eme explicaram que pertencia ao policial. Me deu um certo arrepio na espinha sentar ali com aquela espada, mas sem muita opcao sentei, e a viagem comecou. Uma longa viagem ate o norte da Tailandia. Assim que chegamos a primeira cidade onde dormiriamos, fomos informadas pela Horm que eu dormiria com ela, e a Oum…. dormiria o o Hans.

Um Encontro Inesperado

Perdemos o trem em Bruxelas. Essa é a primeira vez na minha vida que perco um meio de transporte afinal todo mundo sabe que eu adoro “me transportar” 🙂 Estavamos voltando de Maastricht onde fui passar meu aniversario. E como todo mundo que me conhece, ou acompanha esse blog sabe eu ADORO fazer aniverario! Nao vou explicar mais uma vez pois ja expliquei o porque nesse post aqui e nesse outro aqui.

Este ano, como nos outros, parei, confesso que uns minutos atrasada, mas parei numa curta e breve meditacao porque nos tinhamos que buscar o irmão do Haiko na estação de trem. Normalmente, eu gosto de parar mais tempo, refletir no ano que passou, ou simplesmente parar numa meditacao de agredicmento. Dessa vez nao deu. Tudo corrido demais, tudo muito diferente do que eu queria para o meu aniversario. Eu queria mais silencio, mais calma. Fomos ate a estacao, buscamos e Titus, e juntos, Haiko, Titus, minha sogra, e Amanda, uma amiga de infancia, andamos pela cidade. Confesso que eu nao estava gostando tanto do meu aniversario este ano. Paramos entao num café onde eu secretamente nao queria parar, eu morrendo de fome pedi uma sopa que veio cheia de alecrim a erva que eu mais detesto. Sabe quando tudo ta dando meio errado?? Nada de extraordinariamente errado, mas tudo meio fora de lugar, tudo meio fora de como eu tinha imaginado, e funeral de imaginacao é sempre o mais duro. Enfim, eventualmente resolvi ir ao banheiro, e assim que eu estava saindo uma senhora de meia idade, veio me perguntar de onde eu era. Eu expliquei que era brasileira, conversamos um pouquinho e sai do banheiro.

Desci, e quando a senhora reapareceu eu curiosa perguntei a ela “de onde a senhora achou que eu fosse?” Ela hesitou um pouco e eu contei a ela que sempre acham que eu sou Russa. Que na Turquia achavam que eu era turca, na Asia achavam que eu era Israelense, em londres muitas vezes francesa. Ja acharam que eu sou Italiana, polonesa, do leste europeu, e até indiana! “Isso é otimo vc pode viajar muito se mesclando com o povo.” Contei a ela entao que eu adorava viajar. Ela me contou que ela tinha viajado o mundo. E nao sei como foi a senhora parou ao meu lado numa alegria contagiante, e todo o meu mau-humor foi desaparecendo. Ela foi contando da vida dela, das viagens, dos paises onde morou, e eu via o marido na mesa ao lado de cabeca bem branca olhando meio fascinado, e em silencio.

“Viaje muito, viaje o mundo, veja tudo que voce tem para ver, porque eu sinto que esse é o seu espirito. Assim meio como o meu. Nao deixe de viajar e ver tudo que vc tem sede de ver, e so pare quando vc sentir que é hora. Tudo tem seu tempo. A maioria das pessoas nao entendem mas quem tem essa sede de mundo quando forcada a parar enlouquece! Eu nao sei quantos anos voce tem, mas eu sei que voce tem todo o tempo!”

Nisso, eu me lembrei na hora ” Sabe de uma coisa, hoje é meu aniversario!” Ao que ela explodiu em um sorriso e numa alegria transbordante dizendo

“O meu tambem!!!!”

Nossa eu nao conseguia acreditar. Eu senti como se fosse um presentinho do universo. Aquela senhora holandesa meio esoterica comecou a dizer da personalidade de uma escorpiana. Ela então segurou as minhas maos, olhou profundamente nos meus olhos e me desejou feliz aniversario. E eu desejei a ela. Foi um momento especial para mim. Tudo meio que parou. E eu sai de la transformada. Sem perceber uma coisa meio estranha aconteceu, eu ali abri mão das minhas ideias pre-concebidas de celebrar o meu aniversario. O encontro com essa senhora, me fez lembrar que eu quero celebrar o meu espirito! Tao incompreendido por tantos. E eu lembrei que eu nao preciso lutar contra essa minha busca por liberdade, nem contra as pessoas que nao a entendem. Eu nao preciso fazer essa escolha. Tambem percebi que para celebrar a minha vida eu estava celebrando todos os que ali estavam. Entao resolvi celebra-los do jeito deles sem ficar fixa na minha ideia tao egocentrica do MEU aniversario!

E entao eu fiz o que eles queriam, e eu o fiz com prazer. O meu aniversario foi completamente diferente de como eu imaginava que ele seria. Os meus sogros ficaram muito felizes de nos ver, de ver o filho que ha anos mora longe, o Titus ficou feliz de poder passar mais tempo com o irmao, a Amanda, minha amiga de infancia, disse que esses ultimos dias foram os mais felizes dela desde que ela chegou na Europa. Eu confesso que meu aniversario nao foi exatamente como eu queria, mas as vezes é melhor assim. Um aniversario que cria tanta alegria em tantas pessoas é a melhor maneira de celebrar a vida. E do mue cunhado eu ganhei um presente muito especial. Um presente que celebra a vida de todos no planeta.

O curto circuito

Semana passada eu tive uma crise parcial epilética. Parcial porque eu nao cheguei a fazer xixi e morder a língua. Depois de um dia ultra intenso, e de ter esquecido consistentemente de tomar meu remédio desde que voltei da Asia deitei na cama para so retomar consciência não sei quanto tempo depois. Nao, nao foi como uma outra noite qualquer. Eu deitei e lembro-me vagamente de sentir que tava começando um curto circuito dentro de mim. Eu já tive crises muito fracas antes. Mas normalmente eu sinto que preciso respirar mais e ai bebo água e me acalmo. Dessa vez nao, foi como se eletricidade de repente me tomasse por inteiro, rápido demais.

E ai é como se o tempo que ali passou nao existisse para mim. De repente, senti como se tivesse vindo de um outro planeta. Vindo bem de longe, nao como quem acorda, mas como quem nasce, ou quem muda de continente e na primeira noite, numa cama distante, onde tudo é desconhecido tem que aos poucos decifrar o local. Lembro de ver umas pessoas estranhas no meu quarto, e de ser informada que eram os paramédicos. Já consciente de ser levada de ambulância ao hospital e de ouvir de diversas pessoas estorias desses minutos que eu vivi e dos quais nao tenho nenhuma memória. Incrível isso. Aparentemente na minha eterna franqueza eu perguntei ao paramédico se ele era médico, e ao ouvir que ele era paramédico de ter dito ” oh that is not that good”. Dos preconceitos que quando vc nao esta ali consciente vem a tona.

Ironicamente, nas ultimas semanas na LSE na minha aula de antropologia da religião li sobre xamanismo, espiritismo, estados de mente alterados e consequentemente sobre epilepsia. Os Irmaos Karamazov me acompanharam na viagem a Asia e as crises epilépticas do Smerdyakov sempre me deixavam absolutamente horrorizadas. Eu gracas a deus nunca tinha tive uma crise assim dessas dostoyevskianas mas mesmo essa um pouco mais forte me deixou por lado aterrorizada e pelo outro fascinada.

Tao estranho esse conceito de estar aqui e não responder nada para ninguém. E ouvir de todos que te viram que você olhava através deles. Que eu parecia estar em outro lugar. E onde é será que eu estava? Depois a minha consciência foi voltando aos poucos, na descrição do Haiko, neuro-cientista é psicologo de desenvolvimento, fui voltando como uma criança, que raciocina simplesmente. Segundo o Marquinhos, um dos meus queridos housemates que tanto ajudaram nessa tumultuada noite, eu estava calma, serena. E de fato, depois de ter passado por toda a epopeia dessa crise percebi que o sofrimento maior é mesmo o de antes. É o de estar na eterna tentativa de estar em total controle, ou pelo menos na ilusão dele. O incrível de eventos como esse é perceber o quão fora de controle estamos quase que sempre e quase que sobre tudo. Eu não decido quando respiro ou paro de respirar na maior parte do dia, nem quando bate meu coração, nem como as sinapses acontecem no meu cérebro, nem que endorfinas são ou não liberadas. E por alguma razão eu tenho essa sensação de eterno controle. E esse necessidade de me sentir sempre em controle me desespera. Ironicamente a crise, ou melhor esse minutos perdidos de mim… sao os momentos mais tranquilos que eu tive em muito tempo. Acho que deve ser o que deve ser o sentimento de parar a mente em profunda meditação. Com a diferença que a meditação é total consciência é claro.

Pela terceira vez, pelo terceiro ano eu terei que fazer uma ressonância magnética do meu cérebro esperando que ele esteja bem, agora no dia 30. E por mais que eu tente ficar calma, vai chegando perto e eu vou ficando desesperada. Desesperada do meu jeito que não é nunca o mais óbvio para os outros, mas é sempre somatizado no meu corpo. E nessa épocas os pensamentos filosóficos, fenomenológicos, espirituais, cognitivos ficam mais presentes do que nunca. Onde será que eu estava naqueles minutos que existem só para todos que me viram? Seria a consciência puramente uma propriedade emergente do cérebro ( como defendem os neuro-cientistas), e que naquele curto-circuito ela simplesmente deixou de emergir? Ou sera que “eu” estive em algum outro lugar? Seja como for apesar de eu entender um pouco melhor a máxima budista que tudo é perfeito no presente, e que o sofrimento vem de estar fora dele, eu ainda limitada que sou, controladora que continuo, com menos medo desse lugar calmante que desapareceu no vácuo de mim, no mistério da existência, por enquanto, prefiro ainda ficar consciente por aqui. Ainda que isso seja uma ilusão.

The Travel Bug

“Como foi la na Asia?” É a pergunta que eu mais ouço quando eu encontro com alguem que eu nao vejo já faz um tempo. A segunda pergunta é ” E ai como é estar de volta?”. Essas duas perguntas sao as perguntas que eu tambem faço aos meus amigos viajantes, e que eu sei que não há como responder. Como colocar em uma frase todos esses sentimentos ambivalentes, todas as pessoas, gostos, cheiros, sensações e experiencias?

A segunda pergunta eu geralmente respondo dizendo que como eu ja estou acostumada com essas idas e vindas o meu retorno foi so mais um. E que eu ja estou adaptada de novo. Mentira. Acho que essa é a mentira que meu corpo quer acreditar. No entanto, toda a vez que eu vejo o status update de algum amigo viajante no Facebook dizendo “Tomorrow Myanmar” “Anyone in Vientiane? “, “Climbing in Railey..”, “Stranded in Pak Ben”, o meu coracao aperta. E eis que ontem, eu parei sozinha para olhar a minhas fotos. E meu deus como apertou. Que saudade das criancas da minha escola. Do cheiro de comida de rua nos night markets. As eternas massagens. As estorias, os sorrisos. Os perrengues. As jornadas exaustivas. Os dias pelo barco no Mekong. A enorme liberdade de poder decidir trocar de pais como quem troca de calcinha. Variar de roupa é um luxo maior do que de cidade pois a mochila carrega pouco.

Falando online agora com minha querida amiga Gabi que se mudou esse final de semana para Bangalore na India sem nunca ter antes estado la a minha saudade apertou ainda mais. Eu tentei alivia-la do stress do primeiro momento. Ele me contou dos banhos de cuia e eu lembrei dos meus. Da vontade de chorar no primeiro, do medo da agua ser muito suja, e de querer acima de tudo achar que tudo era normal. Lembro tambem que aos poucos comecei a achar que o banho de cuia era otimo para nao gastar muita agua. E eventualmente de em dias de calor achar o tal banho maravilhoso. Lembro do meu primeiro banho de chuveiro depois de ficar no vilarejo rural. Do enorme prazer que eu senti ao tomar um banho quente.

Essas lembrancas que sao pouco verbais sao dilacerantes. Parece que elas ficam gravadas no corpo. Como um cheiro que vem de repente a mente e te deixa um pouco desnorteado ate encontrar o lugar exato… o cheiro da madrugada meio aos templos do Camboja. E quando o lugar é encontrado vem tudo. E ai…. ai corta, aperta… da um medo de nunca mais poder voltar para a Asia. Nunca mais poder sair e ver o mundo.

Um americano sentado do meu lado numa lan house falava pelo skype com a familia. Depois de meses viajando tinha constatado que aquilo nao era para ele. Era muito. Era coisa demais. Muitos ois, e muitos tchaus. Ele era uma pessoa caseira. Achei bonito ele perceber isso. Ele provavelmente voltaria para casa e teria vontade de viajar de vez en quando. Sem ser atormentado pelo desejo de sair viajando o mundo o tempo todo. Outros como esses que populam minha lista de amigos no Facebook foram picados e contaminados de vez pelo “travel bug”. Eu imagino “a travel bug” meio assim como Malaria. Que voce vai adquirindo com o tempo, com cada picada. Que a parasita vai se replicando no seu corpo ate seu sistema imunologico nao dar mais conta. E ai ela causa um episodio reincidente todo ano.

Quando eu cheguei e penei no meu vilarejo rural minha amiga de faculdade Sabina, que tinha feito trabalho de campo na Tunisia me disse ” Enjoy the cultural shock, it will soon turn into an intoxication, and then , then it is much harder!” Como ela tinha razao.

A Assembléia

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Tudo que acontecia em Ban Nonpho ( a escola no vilarejo rural onde voluntariei) era assim para mim meio que um misterio. Como eu nao entenderia mesmo a explicacao as coisas aconteciam sem ninguem me explicar. Eu cheguei la meio que de paraquedas e me lembro de no primeiro dia, meio desorientada, ver todas as criancas no patio brincando. Lembro de assistir o professor dizer coisas em Tailandes. De ver as criancas foramarem umas filas completamente desorganizadas e passarem horas se arrumando. Lembro-me de ficar espantada, pois apesar da total zona, o professor permaneceu calmo o tempo todo. Nada batia como as minhas ideias de como seria uma escola asiatica. As criancas saiam das tais filas para colocar outras criancas no lugar certo o que consequentemente aumentava a desordem. Eventualmente uma logica foi aparecendo. Eles estavam tentando se organizar por idade. Essa ordem so ficou mesmo evidente para mim dias depois. Nesse dia, eu apenas assisti, me sentindo meio fora de lugar, e sem saber direito o que fazer. Horm , minha anfitria e professora da escola, desapareceu, e so reapareceu quando as tais filas estavam finalmente organizadas. A bandeira da tailandia foi erguida, enquanto eles provavelmente cantavam o hino. E entao todas as criancas se viraram para o pequeno Buda colocaram uma mao em cima da outra com as palmas para cima e fecharam os olhos numa pequena meditatcao. A Horm, minha anfitria, me explicaria depois que era uma pequena meditacao em agradecimento a todos que os ajudam. Meus olhos se encheram de lagrimas.

Essa pequena meditacao era o principio de todos os dias. Sexta feira no entanto, depois do almoco, todas as cirancas da escola ( +- 50 alunos entre 4 e 12 anos) se juntavam na sala do ano 5 e 6 para um evento so dos estudantes. Nenhum professor podia estar presente nessa ocasiao. Eu como nao era oficialmente uma professora fui permitida a entrar e ficar la. Ainda que eu nao soubesse o que estava se passando. No comeco vi que todas as criancas se sentaram no chao e começaram o que me parecia ser uma cerimonia budista. Budas foram colocados pelas criancas em frente a classe. Incensos acesos e eles comecaram , para meu espanto, rezar. Depois as criancas fecharam os olhos em meditacao. Ali sozinhas sem a supervisao de ninguem.

Quando tudo isso terminou percebi que a Tanoy, Nan e a Nook tomaram o lugar da frente da sala e comecaram a falar. Tinham uma lista na mao, e as criancas conforme elas iam falando iam dando palpite. Sem entender muito bem o que estava se passando resolvi ir procurar a Horm.

– “O que eles estao fazendo?” perguntei.
– Hoje é sexta, todas as sexta é dia de assembleia.
– Mas o que acontece nessa assembleia ?

Hom me olhou espantada e como quem explica a coisa mais obvia do mundo me disse : “Na assembleia os alunos decidem tudo que eles precisam decidir”. Perguntei o que isso significava e entao Horm me explicou que sexta feira os alunos se encontram para conversar sobre assuntos dele. Explicou que as meninas tinham sido votadas responsaveis por aquele ano. E que todas as sextas as criancas se juntavam na assembleia para votarem e decidirem todos os assuntos pertinentes a escola. Como quem vai limpar o banheiro, quem vai dar aula de educacao fisica, quem vai lavar os pratos, quem eh responsavel pela biblioteca. Problemas que tem acontecido com eles, brigas, discordias. Enfim, tudo!

Eu fiquei absolutamente em choque. Fascinada. Ali na minha frente estavam criancas entre 4 e 12 anos que meditavam as sexta feiras. Que tinham a responsabilidade de tomar conta da escola e dos seus probelmas sociais, e que ao contrario do que é pensado no mundo ocidental que essa responsabilidade nao roubava nenhum pouco da infancia delas. Aquelas criancas eram criancas, dessas que brincam de ciranda, de pular elastico, de jogar damas, de dar tapa na cabeca um do outro, de rir o tempo todo e ao mesmo tempo eram criancas que sabem que é o cuidado delas que mantem a escola bonita. Que na falta de um professor sao eles os de 12 que tem que ir ver o que esta acontecendo com os de 4. Que quando uma voluntaria vegetariana meio atrapalhada aparece que elas precisam “keep an eye on her”. E a voluntaria fica assim para sempre grata. E aquela pequena meditacaozinha do primeiro dia “em agradecimento ao que nos ajudam” fica entao fazendo mais sentindo do que nunca.

Banco Imobiliario

Quando eu comeco um post raramente eu sei onde ele vai dar. Algumas vezes eu tenho uma ideia sobre o que eu quero escrever, e quase sempre eu termino falando de outra coisa. Foi assim com um dos meus ultimo posts que comecou falando da dificuldade do inicio da minha viagem e do meu voluntariado e terminou longissimo de onde eu tinha pensado que iria terminar quando eu comecei a escreve-lo. Naquele post eu queria contar uma coisa meio tola, eu queria contar dos recreios na escola onde eu voluntariei.

Em Ban Nongan, o vilarejo onde eu voluntariei fazia um calor, mas um calor assim desses que se le em livro, que se ve em filme, que quando lembrado ja nao parece mais tao quente. Calor desses que quando voce chega voce fica desesperado para vence-lo, para sobreviver, e com o tempo vai percebendo, ou simplesmente se adaptando a ficar imovel, numa imobilidade interna, letargica, olhando o mundo passar a volta devagar. Em casa eu me sentia, como ja descrevi antes, a perfeita heroina fresca de filme europeu que tenta sobreviver letargicamente, enquanto a volta enxerga os trabalhores rurais, senhores e senhoras trabalhando nos arrozais. Aqui em Londres, eu até sinto falta desse calor. Um calor vazio, que me deixava quase que num vacuo morno, sem muitas agitacoes, tormentos internos, esperando no principio ansiosamente mas eventualmente pacientemente a inevitavel tempestade.

Nesses dias em que a tempestade demorava mais a chegar, nem as criancas conseguiam ficar alheias ao tempo. Elas voltavam para classe na hora do almoco para brincar. E eu ia me juntar a elas pois era sem duvida muito mais interessante e divertido que ficar com os professores. Sentar no chao de azulejo azul esverdeado da classe refrescava fisica e psicologicamente. Eu sentava e assistia as criancas brincarem. Nesses dias tao quentes eu nao fazia muito mais que isso.

E eles jogavam damas, jogos com as maos, e muitos de inventar coisas assim meio que na hora. Jogos de cantar, de gritar, aquela eterna bagunca. Sempre me convidavam para brincar, e eu sempre me espantava com a habilidade que eles tinham de se divertir por tao longo tempo com tao pouco. Eu nunca vi nenhuma crianca da minha escola dizer que tava “bored”. A alegria deles cantando era super contagiante.

Um dia tiraram la do canto da sala um caixa do “banco imobiliario”. Tanoy e Pai com o eterno sorriso nos labios olharam para mim ” Krum Kru Chu play?”. Eu aceitei e me sentei ao lados delas. Logo percebi que o jogo na iria seguir as regras convencionais. NInguem tinha dinheiro. Como eu nao falo Lao ou Thai, e nem eles ingles e a essas alturas eu ja tinha aprendido a comunicacao nao falada esperei. E hoje eu ja nao sei mais explicar como é que nos comunicavamos, pois hoje em dia eu me lembro apenas é que nos nos comunicavamos”. O fato é que o jogo comecou, e a primeira diferenca da maneira dos meus alunos jogarem se tornou evidente. Quem sempre tinha que pagar era o banco! Portanto todos nos comecamos sem dinheiro, e quando paravamos numa propriedade o banco tinha que nos pagar aquele valor. Jogamos varias rodadas fazendo isso, ate todo mundo ganhar bastante dinheiro. Entao cada crianca comprou uma propriedade, oque significava que a partir de entao quem parasse na propriedade comprada nao receberia mais do banco e ao inves teria que pagar ao novo proprietario. Eu gananciosa comprei 2 propriedades. Niguem disse nada. E eu percebi que ninguem alem de mim comprou mais de uma. E naturalmente eu logo fiquei sem dinheiro pois ao parar na propriedade da Nook nao tinha dinheiro para pagar. Olhei para a Tanoy e ela juntou dinheiro dela e do Pote para que eu pagasse minha divida. Depois eu devolveria a eles. Eu tentei explicar que isso nao era justo, que eu devia sair do jogo, ou pagar um multa. Eles insisitiram que nao. Que continuassemos a jogar. E assim eu percebi que o objetivo do jogo nao era eliminar jogadores, nao era ganhar ou perder, nao era enriquecer mas simplesmente se divertir. E em Ban Nonpho para se divertir todo mundo tinha continuar la.

A Minha Casa Na Asia

Durante o meu tempo no Sudeste Asiatio, Nong Khai, como eu ja disse antes se tornou a minha casa. Por isso que depois de cruzar o rio Mekong para chegar ao Laos, atravessar Laos, voltar de barco para o outro lado da Tailandia, visitar o noroeste tailandes descer para Bangkok, Voar para Phnon Penh, visitar as ruinas de Angkor, correr entre Bali , Malasia,, Phuket, Ko Phi Phi, Ko Phan Gan.. eu finalmente completei meu circulo voltando a Nong Khai. Cheguei la acabada. Fisica e emocionalmente. É coisa demais em tempo de menos.

E eu voltei para la desesperada. Nao passei nem se quer um dia em Bangkok. Eu cheguei a BKK de Ko Phang Gan, ilha no sul, e na mesma noite peguei um onibus por 12 horas para chegar a NK. Com o desespero daqueles dos que precisam chegar em casa. Na maior parte da minha viagem eu tomei bastante tempo nos lugares. Mas da cambodia, Indonesia, Malasia, e ilhas tailandesas eu corri, meio como o Gauguin procurando sempre aquele lugar mais “certo”. E aquele lugar para mim de repente ficou claro era Nong Khai.

Peguei um daqueles onibus turisticos que saem de Khao San Road ( A rua de back packers de Bangkok. Kao quer dizer arroz, entao no passado era a rua onde vendia-se arroz) e levam os jovens ocidentais diretamente a Vang Vieng ou ate mesmo a Luang Prabang no Laos. Esses onibus tuisticos sao menos confortaveis que os OTIMOS onibus publicos tailandeses. No entanto, sao convenientes pois saem da rua onde as guesthouse ficam, sem vc ter que se deslocar ate o terminal Mochit, e portanto ou passar horas discutindo com um Taxi ( que eh sempre mais barato do que um Tuk Tuk em Bangkok), ou acabar pagando mais dinheiro entre passagem de onibus publico e taxi, do que os “um pouco mais caros” onibus de turistas.

Nong Khai fica no caminho, na fronteira entre Tailandia e Laos. Eu comprei minha passagem para ir a NK que era um pouco mais barata do que a passagem para Vientiane, e muito mais do que a Vang Vieng. Eu fui a unica no onibus inteiro que queria parar em NK. A viagem ate NK leva umas 12 horas, ate Vientiane do outro lado da fronteira umas 13, e ate VV umas 16. O motorista surpreso me disse na entrada “se voce quiser pode ir direto ate o Laos nao tem problema”. Eu expliquei que nao era um engano eu queria parar em Nong Khai. Ele nao compreendeu assim como os tailandeses nao compreendem quando voce diz “sem pimenta.” Eles entendem a frase mas imagino que achem que vc ta fora do seu perfeito juizo entao colocam um pouquinho. O motorista tbm colocou um pouquinho de pimenta e portanto as 5 da manha, eu acordei num posto no meio da estrada. Desci para perguntar onde estavamos. Ele me explicou que era para descermos e preenchermos os papeis para cruzar para o Laos. Eu expliquei que eu ficava em NK. Ele ainda meio chocado abriu o compartimento para eu pegar minha mala “are you sure, you dont have to pay extra i ll take you to laos”. Eu estava “sure” peguei um tuk tuk, ja me preparando para ter que brigar por um preco certo, mas em NK o tuk tuk me deu o preco certo, carregou minha mal, e ainda me protegeu do temporal. De fato eu estava em casa.

Era cedo, umas 6 da manha. Eu sabia que a recepcao da Mut Mee nao estaria aberta. Chovia cantaros. E eu estava feliz. Entrei no meu jardim preferido de mala e cuia. Coloquei tudo no chao, no mesmo lugar que tinha colocado inumeras vezes antes, e sentei nas mesas debaixo de bungalows de palha. Sentei e lembrei da Liz Gilbert contando de como ela tinha chegado ao Ashram na India no meio da noite ( no livro eat, pray and love), que tinha se sentido como uma galinha que eh colocada ali no meio da noite, para que as outras galinhas ao acordarem nao percebam que a nova nunca tinha estado la. Eu sentei, ouvindo a tempestade, mas minha espera durou pouco, nao mais de 1 minuto. A Pao, dona da Mut Mee, estava na cozinha, e ao me ver sorriu e disse “Welcome Back! Ta muito frio ai fora, voce sabe que quarto voce quer? eu te coloco no quarto e depois vc faz o check in mais tarde” Entao eu escolhi o meu quarto favorito afinal depois de check in and out 6 vezes da ultima vez, eu conhecia muito. E fui dormir o que eu esperava ser o sono dos justos. A ansiedade nao meu deixou dormir e as 7 eu estava desesperada para descer e ver meus amigos.

As sete da manha, o Simion, que trabalhava na recepcao estava chegando mal-humorado, mas ao meu ver o mal humor virou um grande sorriso e um abraco. E entao apareceu a Poon, a massagista, que veio me abracar e carregar! E entao o Julian, marido da Pao e dono da Mut Mee, e pouco a pouco fui encontrando cada pessoa querida que eu tinha conhecido ha mais de um mes atras. Um mes que eu tinha feito tanta coisa.

Eu tinha queimado minha perna numa moto, e portanto estava com uma bandagem. Uma tosse daquelas de tuberculoso que nao para nunca. Mais magra, mais suja, mais queimada, mais cansada. Nao que eu tivesse percebido imediatamente tudo isso. Foram as perguntas que foram me dando essa ideia. “Are you eating well? ” “What happened to your leg?” “How long have you been coughing like that?” E quando eu finalmente encontrei o professor de meditacao. Ele olhou para mim e disse
“We can tell how long a person has been travelling from by how worn out they look.” Eu comecei a rir. “Is it that bad?”. “Julieta voce precisa se cuidar. Isso tudo desgasta muito o corpo, a mente. Voce precisa descansar.” Sim eu estava de volta em casa, tinha cruzado todo o sudeste asiatico para voltar onde minha viagem tinha comecado. Tinha voltado para ficar doente em casa, onde eu podia contar com os cuidados daqueles que na Asia se tornaram a minha familia.

O Teletransporte

Faz quase duas semanas que eu voltei do sudeste asiatico. Passei um pouco mais de 3 meses entre Tailandia, Camboja e Laos. Levou mais de uma semana para o meu horario se ajeitar. Como eu ja vivi em muitos paises, e desde os 15 anos vivo nessas eternas idas e vindas, minha volta a Londres foi menos traumatica do que a dos muito viajantes que conheci. A unica coisa mais dificil é que o facebook é um constante “reminder” do mundo dos viajantes que eu dexei para tras. Todo dia eu leio alguem que ta chegando em algum vilarejo de algum lugar remoto do mundo. E o mundo é tao grande e tão cheio de vilarejos…e viajantes.

Hoje eu tenho a impressao que foi tudo tao facil. O sudeste asiatico é muito facil de viajar. Ainda mais quando comparado a outros lugares que ja estive sozinha como o Marrocos ou a India. A verdade, no entanto, é que a minha viagem comecou para la de dificil. Eu ja comecei doente tendo que posterga-la por causa de uma infeccao urinaria. E ai cheguei num calor alarmante em Bangkok, sentindo uma letargia total. Lembro de pegar o taxi em direcao a Khao San Road pensando ” onde eh que eu estava com a cabeca quando escolhi ir voluntariar num vilarejo rural na area mais pobre da Tailandia? “. Lembrei de uma amiga que sempre diz “essas coisas sao melhores pensadas”.

Deitada numa rede meses depois, num dos lugares que visitei, conversando com dois alpinistas que planejavam a construcao de alguma coisa que a minha leiguice em engenharia e alpinismo nao permitiu entender eu propus que eles construissem uma maquina de teletransporte. O tal do teletransporte é uma ideia que ficou na minha cabeca gracas a um inesquecivel vendedor de cachorro quente em ubatuba. Consiste basicamente em voce pensar e se teletransportar para onde quer.

Brendan, o engenheiro alpinista, olhou para mim e disse ” Can we focus on feasible plans?” Vencidos pelo meu desejo filosofico de discutir o teletransporte comecamos a pensar. Nos teletransportariamos para onde? Para a guesthouse. Direto da rede para a Maylin Guesthouse! Mas como ficariam as nocoes de privacidade? E as fronteiras? E se vc pensasse num quarto de hotel que esteve, e alguem que tbm la ja esteve tbm quisesse o mesmo quarto, no mesmo minuto? Afinal as memorias sao distintas, e infinitas mas os lugares nao! Entao, comecamos a pensar nas regulamentacoes que seriam necessarias com o advento do teletransporte. Os problemas eram infinitos. Tao infinitos que saimos do bar, andamos toda a cidade e eles nao acabavam.

Em meio a discussao o outro alpinista percebeu ter perdido sua chave. Brendan e eu sentamos na calcada. Iriamos espera-lo busca-la. Passaram por nos bebados perdidos. Gente que nao sabia em que guesthouse tinha ficado. Passaram bicicletas assim no meio da noite. Tendo que esperar olhamos para tudo que tava a volta. Os cachorros, o ceu que estava todo estrelado, as placas, as pessoas, tudo. Quando a chave foi reecontrada recomecamos a nossa caminhada. Chegamos a famosa ponte de Vang Vieng. A ponte que nos separava de todo aquele caos do outro lado. Cruzamos ainda falando do teletransporte.

Se ele existisse nos provavelmente nao cruzariamos essa ponte. Eu nao teria passado 2dias num barco no Mekong e mais um dia de onibus para cruzar do Laos a Tailandia. Eu nao teria pego os muito onibus porcaria, nas muitas estradas tortuosas. Consequentemente nao teriamos conhecido todas as pessoas que encontramos pelo caminho. Nao teriamos visto todos os vilarejos. E ficou evidente que o que importa é a jornada. Abandonamos o plano ali na ponte, nao porque ele era impraticavel. Simplesmente porque nao nos interessava. Andamos cansados as ruas enlamacadas, no escuro felizes por ter essa experiencia.

A minha amiga tinha razao. Alguma ideias sao melhores pensadas. Nao a ideia de viajar, ou de voluntariar num lugar remoto. Essas sao as que vividas valem sempre a pena. As ideias que sao melhores so pensadas sao as que reduzem os caminhos, as dificuldades, e os prazeres da jornada.

Pensamentos Ciganos

Ontem a noite fui ao Goodenough College para assistir a London Gypsy Orchestra. Eu ja perdi a conta de quantas vezes eu fui ao Goodenough. Ja fui para visitar amigos morando la, para ouvir musica, palestras, churascos, pique niques, e para é claro as eternas despedidas. Portanto entrar la ontem na sala que a Sabrina se apresentou tantas vezes sem encontra-la, ou encontrar nenhum dos meus usuais amigos foi extremamente nostalgico. É sempre estranho andar por corredores que ja abrigaram tantas pessoas, que ja ouviram tantos murmurios de segredos, fofocas, ou incriveis “post graduate” insights 🙂

A orquestra era incrivel, daquele jeito que so orquestra cigana, ou klezmer, leste europeu consegue ser. Extremamente alegre e extremamente triste ao mesmo tempo. Com melodias que parecem cortar como faca enquanto te fazem dancar. Eles tocaram uma musica do Kusturica e essa musica ainda acordou em mim mais memorias. E é incrivel como o cerebro vai ligando as cores, aos sons, as memorias, numa ordem quase impossivel de ser retracada mas que flui naturalmente como se nenhuma outra linha de leve pensamento fosse plausivel.

E eu sentei la ouvindo os violinos, e as cantoras, os instrumentos de sopro viajando pela Turquia, Romenia, Hungria e a musica que la ouvi, olhando a sala onde a Sabrina tocou, vendo ao meu lado o Chris que eu conheco da LSE que nao faz parte de nenhum dos meus mundos ali ligados. Faz parte do mundo da LSE e mesmo totalmente fora de lugar, foi gracas a ele que eu fui assistir essa orquestra. Quando fui ao banheiro e andei pelo corredor lembrando que esse era o caminho que eu fazia para visitar a Marisa dei de cara com uma menina que saia do banheiro chorando. Hesitei por um segunto se devia perguntar a ela se ela estava bem. Esse segundo durou o suficiente para ela sair e eu entrar. No chao do banheiro estava um teste de gravidez. Positivo. Com as duas listras. Jogado ali por alguem que obviamente estava abalada demais para pensar em qualquer outra coisa. E um estranho pensamento passou pela minha mente. Eu, que nem conheco aquela moca, fui a primeira a saber de uma noticia assim tao importante. Porque o mundo eh assim meio ao acaso, as pessoas vao se encontrando, se conectando, e as memorias vao se formando fluidamente. Talvez a unica coisa que eu me lembre dessa noite seja esse evento, talvez eu me lembre da flautista mal-humorada. O caminho que tomarao meus futuros devaneios hao de ser, eu imagino, nomades e itinerantes como a musica da orquestra.