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Sobre julietafalavina

Eu escrevo da minha vida, e agora sobre a minha recuperação da saúde .

Concurso de Ingles- II

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No famigerado dia da “speech competition”, meu segundo dia no vilarejo, acordei e me arrumei com roupas locais ( uma vendedora apareceu na minha escola no dia anterior com blusas tailandesas), e me preparei para ir ao tal concurso. Nesse dia eu ainda nao tinha minha rotina, eu ainda nao estava adaptada o suficiente para prestar atencao no todo. Eu estava ainda muito mais centrada em mim. So com a minha catarse no funeral da mãe da professora que eu sairia de fato de mim para poder observar o tempo, e ver o vilarejo passar. Nesse dia, eu ainda nao sabia o que fazer, o que estava errado, que linhas invisiveis de regras eu estava quebrando, e quão sério isso seria. Olhando para tras eu percebo que eu ainda não sabia nada. Nada sobre as crianças, nada sobre a Horm, ou Ban Nonpho, e de certa fomar, eu estava em “total denial” disso. Em “total denial” que era tudo diferente, que apesar de eu ser de pais tropical, apesar de eu ter estudado antropologia, toda aquela mudança me afetava. Como é engraçado isso. A sensação concreta que eu ja os conhecia. Eu olho para o passado, para esse segundo dia, com o que eu sei de todos eles hoje, e é tão dificil realmente saber o que eu pensei, porque minha categorias estão formadas. Eu penso nessas lembranças do passado com o carinho que eu sinto hoje. Eu tentarei no entanto, sabendo que é impossivel, escrever como eu me senti naquele dia.

Fazia calor, como quase todos os dias, e nem o calor eu consigo realmente lembrar. Ele fica teorico na memoria. Quando eu penso no ar oco e solido e parado ao mesmo tempo. Eu lembro do calor melhor. So a palavra “calor” é vaga. Enfim, eu que tinha pavor de motos, subi numa pequena scooter junto com Horm, Tangmo e Tanoy, e no maior estilo sudeste asiatico nos transportamos para escola do distrito de Khon Kaen para a famosa competicao. Senti meio que desespero naquela rodovia, 4 pessoas numa lambretinha, carros e caminhoes passando a volta. Cheguei a uma escola muito grande, muito diferente da minha escolinha primaria rural que abrigava 50 alunos. Essa devia ter centenas de alunos. Fui levada a sala onde seria a inauguracao e apresentada a dezenas de professores de ingles. Alguns falavam inlges bem, uma professora da escola mais chique do distrito era uma perfeita britanica. Outros mal conseguiam se comunicar. Logo percebi que em matéria de entusiasmo e alegria ninguém chegava aos pés da Horm.

Todos quiseram tirar fotos comigo. Eu sentei por horas a fio sem entender nada. Tanoy, 12 anos, mais comportada. Tangmo, 9, pegou minha mão. Eu que não sabia que issso não era tão comum, fiz carinho nela. Ela colocou a cabeça no meu colo, e eu percebi que todas as pessoas a volta me olhavam. Depois de muita e muita espera, discursos em Thai era hora do almoço. Eu não quis comer. Eu era Jeh ( vegetariana), então as crianças que em dois dias já sabiam disso nao me trouxeram comida. Trouxeram frutas. Eu agradeci. E na tamanha confusao, eu acabei nem vendo a Tangmo fazer o discurso dela que tanto praticamos. Vi Tanoy, vi ela me olhar meio perdida quando nao lembrava de uma palavra. Tudo tao desorganizado. Tudo informal.

De repente, como quem nao diz nada de importante, Horm, me conta que Tangmo tinha sido segunda na competicao. O que para minha minuscula escola era o equivalente a um nigeriano ganhar medalha nas olimpiadas de inverno. Eu fiquei super feliz. Tiramos fotos dela recebendo o diploma. A Tangmo, que tinha so 9 anos, que morava com os avos, que era super pobre. Eu pensei na Tanoy. Estaria ela desapontada? Perguntei a Horm, e ela me responderia a frase que ficaria claro para mim que eu tinha escolhido o lugar certo. Que por sorte eu tinha caido na casa de alguem que tinha valores que eu admirava.

“Non Chu, Claro que nao. Ela sabe que é muito dificil. Ela fica feliz de vir aqui, de passar tempo com voce. E eu não estou preocupada se elas ganham ou não, eu só quero que elas tenham momentos de alegria. A vida deles é dura sabe?”

Eu não sabia naquele dia. Aquela frase era emblemática de como seria o meu tempo lá. De como a Horm, vivia a vida dela. De como toda a bagunça da escola, ou as regras incompreensiveis para mim eram reflexo dessa filosofia. Os momentos de alegria na vida das criancas eram fundamentais. E a alegria não vinha de momentos muito especiais, mas do banal, do dia-a-dia. Não de ganhar a competição, mas de ir até lá, de passar a noite na casa da professora aprendendo coisas com a Farang ( estrangeira), de jogar banco imobiliário sem ter nenhum vencedor ou perdedor.

A Máquina

Faz exatamente uma semana que eu cheguei a sao paulo. Cheguei e fui direto ao hospital para fazer meu exame. Uma ressonancia magnetica do meu cerebro. Ha dois anos eu cheguei e fui direto para ficar la internada. Eu confesso que já não me lembro tão bem. Quando eu me esforço eu lembro de não querer mais que a enfermeira na minha segunda ressonancia injetasse mais contraste em mim. Doia. Eu lembro de pensar, chega nao quero mais fazer isso. Do meu olho encher de lágrimas. Querer parar. E perceber que ao contrário de tudo na vida que eu podia simplesmente ir embora, dessa vez eu tinha que ficar. Eu lembro de acordar no meio de uma noite me sentindo envenenada por tanto remedio sendo injetado dentro de mim. Lembro ouvir zunido enlouquecedor na minha cabeça, tocar o cabelo e sentir um som metalico, dormir sentido que meu cerebro revirava. Lembro de chamar a enfermeira e falar para ela parar com aquilo. De insistir para eles falarem com o medico. Me esforçando agora, eu me lembro claramente de pensar ” nossa, será que é isso. isso é ser doente? será que eu vou ter que aprender a viver assim? Lembro deles voltarem e desligarem o aparelho, e de eu esperar que parando o remedio eu melhorasse. Melhorou.

Depois eu lembro só de coisas melhores. Do monte de visitas. Da doçura das enfermeiras e enfermeiros. De ver em seus olhos pena de me ver ali no andar de neurologia. Um andar cheio de pessoas uns 40 anos mais velhas que eu. E logo em seguida de me sentir tao bem que eu fazia yoga e deixava os medicos e enfermeiras perplexos com os meu asanas. Ter que esperar por dias eles descobrirem o que eu tinha. E partir de la sabendo que eu tinha tido um processo de desmielinizacao. Tendo que torcer para que isso não acontecesse mais. Que fosse um episodio unico e isolado, e não cronico. Se meu sistema imunologico continuasse a lutar contra meu cerebro, caracterizaria-se entao, esclerose multipla.

Esse ano eu voltei pela terceira vez ao mesmo hospital, para fazer a ressonancia com a mesma senhora, no mesmo lugar. O ano passado meu exame tinha mostrado otimos resultados. Este ano eu estava com mais medo. Afinal eu tinha tido aquele pequeno curto circuito 🙂 E demora uma eternidade esse exame. Especialmente dentro de mim. Sabendo que aquela maquina esta olhando dentro para ver o que eu nao vejo. Aquela maquina que vai decidir se eu to bem ou nao. Ainda que eu me sinta pessima, ou otima, é aquela maquina que vai dar o veredito. Entao, eu fico la dentro e enquanto eu fico imovel o mundo passa dentro de mim. Oscilando entre a total calma e o total desespero desencadeado por nao lembrar o nome do monge budista, ou melhor o bodisatva tibetano que eu conheci na India. Sua Santidade o Karmapa. Incrivel como um pensamento desencadeia uma serie de reacoes dentro do meu corpo. E eu vou da total imobilidade interna, a um verdadeiro desespero. E entao eu foco no meu amigo Maciek, polones yogi, o simbolo para mim da paz. E eu paro. E vou para minha casa. Sem nem saber como me sinto. Tenho que esperar 3 dias para pergar o resultado.

E quando chega o dia eu vou la. Pego meu exame para levar ao meu medico. E como sempre abro imediatamente. Ouvindo os protestos dos que estao ao meu lado. Mas ninguem, ninguem tem mais direito a ver esses resultados do que eu. Ninguem. E eu olho tudo, e meu olho ja desliza sabendo onde buscar. No final, na conclusao eu leio depois de muito bla bla bla que eu nao entendo, que meu exame nao mostrava nova alteração. Eu choro. Nao desesperado. Um choro de alivio. De quem nem sabe direito que essa faca pendurada em cima da cabeça causa tanta ansiedade. Um choro de alivio de quem sabe que a faca continua lá mas mais distante. De quem quer viver a vida, conhecer o mundo, de quem quer descobrir e explorar todos os seus limites. Encontrar-se de verdade. E eu agradeco a maquina por convencer a todos que eu posso fazer tudo que eu quero. E percebo que ironicamente sou eu quem mais precisa da confirmacao da máquina.

O concurso de Ingles- I

Logo no primeiro dia que eu cheguei a Ban Nonpho ( a escola que eu voluntariei no pequeno vilarejo rural da Tailandia), Horm, minha anfitria me pediu para ajudar duas meninas, Tanoy e Tangmo se prepararem para o concurso de ingles. Deixa eu começar do começo afinal muitos que vem aqui nesse blog não receberam todos os e-mails que eu mandei da Asia. O meu vilarejo tinha mais ou menos 100 casas. Da minha casa, eu nao via nenhuma dessas outras 100. A casa era de madeira, simples, não havia agua corrente, nem ventiladores, os banhos eram de cuia, o calor desesperador, e eu nao entendia absolutamente nada do que ninguem alem do Hans, e um pouco a Horm falavam.

Logo no meu segundo dia eu cheguei a Ban Nonpho. A pequena escola rodeada por arrozais, assim como o resto das casas. A pequena escola aberta para quem quisesse entrar ou cruza-la por qualquer razao, e a qualquer hora. A escola onde a minha ideia de “disciplina asiatica” se desmoranaria. Nesse primeiro dia, eu ainda nao sabia nada disso. Nao sabia que seria tudo uma grande bagunça entao quando Horm veio me pedir para praticar com Tangmo eu peguei o papel e fui praticar. Um pequano texto. Ou melhor 4 pequenos textos. “Me” “My family” ” My school” “Food”. Eram pequenos “speeches” escritos pela propria HOrm, que apesar de ser professora de ingles fazia varios erros.

O papel me foi entregue, e Tangmo veio comigo. Comecou a recitar o tal texto que tinha em algumas partes coisas escritas em Tailandes. Ela 9 anos, sem falar quase nada de ingles. Eu 27 com um texto que eu mal entendia sem falar nada de Thai, ou Lao. Sentamos e ela comecou a repetir, uma vez atras da outra, fazendo sempre os mesmos erros, eu sempre perguntando o que era as mesmas palavras em Tailandes, esperando que Horm reaparecesse alguma hora para dizer que ja estava bom. Nesse altura eu ainda nao sabia que as classes de alunos eram abandonadas ao deus dara de acordo com a vontade do professor. Entao, fiquei la com Tangmo espeando que logo, logo a Horm voltasse.

Nao sei quanto tempo se passou, mas o calor desesperador ajudou a aumentar a sensacao de exaustao. E eu queria perguntar a Tangmo se ela nao queria descansar. Ela nao me entendia. Eu nao a entendia. Entao ela comecava tudo de novo. Os mesmos erros, as mesmas palavras que eu nao sabia o que eram por horas a fio. Quando de repente eu achei que eu ia matar a menina de cansaço resolvi ir procurar a Horm que estava praticando com a Tanoy. Para minha surpresa elas nao estavam na classe, a classe estava abandonada com os alunos dentro fazendo sei la o que. Procureu numa outra sala. Ainda nao me sentindo muito dona dos meus passos, ainda nao sabendo o meu caminho, sendo olhada sem parar por todas as pessoas, ainda sem saber que atos meus poderiam estar transgredindo as normas.

Encontrei a sala da frente. E dentro vi Horm e Tanoy deitadas no chao debaixo do ventilador rindo, gargalhando. Era assim que elas estavam praticando. Brincando. Descansando. Nao hesitei, exausta que estava fui até elas e me deitei, tive um acesso de riso. E lá ficamos um bom tempo.

“Non Chu, the girls will come sleep over tonight so that you can help them practice!” me disse a Horm.

“Como assim? Elas ja nao estao exaustas? ”

“Que isso Non Chu, elas adoraram poder vir dormir na minha casa e passar mais tempo com voce.”

Naquele dia eu ainda achava que para Horm elas deviam vir porque eu ia auda-las com o ingles. Depois eu compreenderia que as prioridades de Horm eram bem diferentes!

Hans- parte III

Eis que um dia, muitos dias depois da nossa viagem ao Laos para trocar o visto do Hans, ele vem me confidenciar que nao iria mais pagar os 15 mil Bhat. Sua ex-mulher, estava cobrando 40mil Bhat para dar o divorcio e ele nao tinha dinheiro.

Horm ficou furiosa. Segundo ela, isso nao se faz, “ if you love someone, you must support her.” Tentei de varias formas perguntar a ela se isso nao era prostituicao, mas ela me explicou que nao que nao tinha nada a ver. “If you love someone you must support them.”

Para falar bem a verdade, enquanto o Hans estava pagando a Ooum, eu na minha praticidade entendia. Afinal, a vida é dura num vilarejo rural na Tailandia. Para minha, surpresa , no entanto, quando ele deixou de paga-la e explicou que eles precisavam terminar, Ooum disse que nao, que gostava dele, que queria continuar com ele mesmo sem o dinheiro.

Esse foi o primeiro encontro que eu tive com essas relacoes, dificeis para mim de categorizar. Na verdade, as coisas sao muito mais complexas. Eu no comeco ficava totalmente irritada com os homens europeus com meninas tailandesas. Penetrando aos poucos tanto o mundo dos homens ( um mundo muitas vezes de homens solitarios, as vezes crapulas as vezes vitimas, as vezes os dois, as vezes nenhum), como os das mulheres Tailandesas (que muitas vezes tem muitos “maridos ocidentais” e que falam disso numa boa..as vezes crapulas, as vezes vitimas as vezes os dois, ou nenhum…:) fiquei menos “judgamental”. Quem sou eu para saber quais sao as necessidades de uma pessoa? Não é nunca tão claro assim. A necessidade financeira as vezes se mistura com verdadeiro carinho, ou quem sabe com uma maneira menos judeo-crista de experienciar sexualdiade.

Eu não quero fingir aqui que o turismo sexual em Bangkok, Pattaya, Phuket etc..não seja depre, e que nao deva ter mil vertentes de abusos. Por esses lugares ve se de tudo. Alias foi a primeira vez que eu achei que era mais facil viajar sozinha como mulher do que como homem. Os homens sao literalmente agarrados pelas ruas. Ha tambem os famosos shows de ping pong e sexo, as massagens com “happy ending”, e sem duvida nenhuma um milhao de abusos.

Mas há tb um outro lado. Os das pessoas que estao buscando uma vida melhor. Que estao buscando amor. Ou como meu amigo, Richard, um senhor de 73 anos que eu conheci em NK, estao procurando se sentirem mais humanos. Mas essa é uma outra estória.

Hans- parte II

Fiquei morrendo de pena da Oum. Ela é uma dessas pessoas que não dá para imaginar o que está pensando. Quieta, reservada, e por não falar ingles, ficava dificil de saber o quanto ela entendia das nossas conversas. Um riso escapado aqui e ali mostrava que um pouco ela entendia mas o quanto era esse pouco nao dava para saber. Nesse dia, ela não fez cara de nada, meio que inalterada, nao demonstrou tristeza, nem alegria. E na verdade veio para o nosso ( meu e Horm) quarto conversar. Nao sei como conversamos, rimos muito, eu fiquei fazendo minha yoga enquanto elas conversavam, e de repente o que para mim pareceu do nada, Ooum levantou, me disse boa noite, e saiu.

No dia seguinte, no cafe da manha, (os Thai comem comida mesmo de manha. Sempre arroz e mais alguma carne) nao notei nenhuma diferença na maneira como Hans e ela se tratavam. Nao eram mais afetuosos, nem intimos. Entao aliviada decidi que nada tinha acontecido. Quando chegamos a proxima cidade, Non Khai ( cidade que eu considero minha casa na Tailandia, onde eu acabaria voltando mais 3 vezes!!!) na recepcao da Mut Mee ( a guesthouse onde eu sempre fiquei) Horm fez uma confusao louca ( o recepcionista era americano), e acabou por me pedir para falar com ele, e dizer que eu tava no quarto do Hans. Tudo isso assim, na frente do cara.

Não sei quanto tempo passou, mas de repente, Hans veio me contar que estava junto com a Ooum. “Hans, mas como assim? e toda nossa conversa????” Ela me explicou, que depois de alguns dias, “totally in love” ele resolveu contar para a Horm, e que a Horm contou para a Ooum, e que aparentemente a Ooum ” tbm estava in love”. Eu fiquei em choque de imaginar que minha anfitria, uma professora de escola, mais velha, trabalhando de cupido, numa estoria onde envolvia duas crianas pequenas, mais um policial! A estoria culminou quando ele me disse que porque ele estava “in love” ele agora tinha que sustentar a Ooum pagando 15000 Bhat ( mais ou menos 300 libras, salario de um professor na Tailandia) por mes.

“Hans, deixa eu ver se eu entendi, voce paga para dormir com ela?”

“I support her becuase I am in love with her”

“Ta, mas se ela nao dormisse com voce, voce nao pagaria?”

Meio quieto, ele concordou. “So that is basically prostitution?”.

Deixa eu abrir um parenteses aqui para explicar, que eu nao tenho NADA contra prostituicao em si. Ou melhor, que eu nao tenho nada contra adultos que decidam prostituir-se, ou adultos que resolvam ir a prostitutas. Inclusive tenho amigos dos dois lados da moeda. A questao chave para mim é que as pessoas envolvidas o facam por que querem, e nao porque sao obrigadas por terceiros ( no caso de trafico humano). Veja, que eu nao incluo aqui nem se quer as causas economicas porque eu acho que autonomia, e empoderamento são questões para lá de complexas. As minhas perguntas ao Hans, eram portanto puramente de carater antropologico, e para tentar entender um pouco melhor o lugar onde eu estava vivendo.

“Yes. I guess so.”

A segunda razao pela qual eu estava curiosa era mais egoista. Era porque eu queria saber se nos estavamos correndo o risco do marido descobrir e aparecer com revolver e espada la em casa. Para descobrir isso, fui perguntar a Horm.

“Horm, o marido da Ooum sabe?” ela disse que nao. Eu ainda sem conseguir acreditar como isso era possivel perguntei a ela de onde o marido da Ooum ia achar que ela estava ganhando 15 mil!!! Bhat!!! ( muito dinheiro para um/a Tailandesa no campo) de repente do nada. E entao veio a resposta que me chocou:

“De voce!”

Hans- parte I

Assim que eu cheguei a Chumpae, a cidadezinha mais proxima do vilarejo onde fui voluntariar, eu fui recebida por Horm, minha anfitriã, Hans, um dinamarques, Nari, uma advogada Tailandesa, e Neem, uma menina de 15 anos que era a coisa mais fofa que eu ja vi! Assim que eu cheguei eu nao entendi muito bem,a que titulo o Hans ali. Eventualmente me foi explicado que ele e Horm eram amigos de longa data. Como tinham se conhecido? Por um site de relacionamentos. O romance nunca rolou mas ficaram amigos.

Hans chegou a Tailandia, acho que uns dois meses antes de mim, e logo no aeroporto encontrou a sua futura esposa. Assim de um futuro muito breve, nao levou nem uma semana para eles se casarem. Quando eu o conheci ele estava se separando. Eu achei a estoria meio patetica, e ja fui formando na minha cabeca a ideia ” tipico europeu meia idade que vem procurar mulher novinha na Tailandia”. Hans era meio fechadao, meio resmungao, mas acabou se abrindo e me contando que na Dinamarca ele era sozinho. Bebia todos os dias, e que queria ser um homem feliz, e achou que tinha encontrado a mulher da vida dele. Eu ouvi tudo respetiosamente, e com uma certa pena. Entao ele me explicou que a a Nari a advogada, uma mulher jovem e bonita, estava apixonada por ele. Ele nao estava entao nao podia engana-la. Eu fiquei totalmente perplexa nao conseguindo imaginar como uma mulher super bacana, bem sucedida, inteligente e bonita como a Nari pudesse estar apaixonada pelo Hans. Das muitas coisas que eu nunca entenderia na Tailandia!

Os dias se passaram e eu fui ficando cada vez mais proxima do Hans afinal de contas ele era a unica pessoa que falava ingles de fato. Um dia, na cumplicidade que foi nascendo Hans resolveu me fazer uma confissao: “Jules, I have to tell this to someone or I will burst!!! I am in love with Oum!!!”

Bom, eu quase cai pra tras. A Oum era a secretaria da Horm, minha anfitria. Uma moca que fazia de tudo para a nossa casa. A Ooum, tinha 28 anos, 2 filhas e era casada com o policial do vilarejo! Quando o Hans me disse isso, eu meio que perdi o folego e disse muito calmamente: ” Hans, PESSIMA ideia. Isso nao eh amor, voce nao consegue nem falar com ela.. E ela eh casada com o POLICIAL!!! Pelo amor de deus esquece isso. Alem do mais voce passou horas me contando quao traumatizado vc tinha estado com seu nem se quer acabado casamento. Take your time.” Diante das minhas sabias palavras Hans nao teve muita opcao a nao ser concordar. E a vida seguiu calmamente no meu vilarejinho.

Eis que um dia, fui informada que teriamos que ir ao Laos para que Hans trocasse de visto. Achei otimo, e sem perguntar muitos detalhes arrumei minha mochila. Como iriamos? De carro! Que carro? o do marido da Ooum. Quem dirijiria?A propria Ooum. Assim que entrei percebi que no banco de tras havia uma enorme espada estilo “ninja”. Perguntei o que era aquilo e eme explicaram que pertencia ao policial. Me deu um certo arrepio na espinha sentar ali com aquela espada, mas sem muita opcao sentei, e a viagem comecou. Uma longa viagem ate o norte da Tailandia. Assim que chegamos a primeira cidade onde dormiriamos, fomos informadas pela Horm que eu dormiria com ela, e a Oum…. dormiria o o Hans.

Um Encontro Inesperado

Perdemos o trem em Bruxelas. Essa é a primeira vez na minha vida que perco um meio de transporte afinal todo mundo sabe que eu adoro “me transportar” 🙂 Estavamos voltando de Maastricht onde fui passar meu aniversario. E como todo mundo que me conhece, ou acompanha esse blog sabe eu ADORO fazer aniverario! Nao vou explicar mais uma vez pois ja expliquei o porque nesse post aqui e nesse outro aqui.

Este ano, como nos outros, parei, confesso que uns minutos atrasada, mas parei numa curta e breve meditacao porque nos tinhamos que buscar o irmão do Haiko na estação de trem. Normalmente, eu gosto de parar mais tempo, refletir no ano que passou, ou simplesmente parar numa meditacao de agredicmento. Dessa vez nao deu. Tudo corrido demais, tudo muito diferente do que eu queria para o meu aniversario. Eu queria mais silencio, mais calma. Fomos ate a estacao, buscamos e Titus, e juntos, Haiko, Titus, minha sogra, e Amanda, uma amiga de infancia, andamos pela cidade. Confesso que eu nao estava gostando tanto do meu aniversario este ano. Paramos entao num café onde eu secretamente nao queria parar, eu morrendo de fome pedi uma sopa que veio cheia de alecrim a erva que eu mais detesto. Sabe quando tudo ta dando meio errado?? Nada de extraordinariamente errado, mas tudo meio fora de lugar, tudo meio fora de como eu tinha imaginado, e funeral de imaginacao é sempre o mais duro. Enfim, eventualmente resolvi ir ao banheiro, e assim que eu estava saindo uma senhora de meia idade, veio me perguntar de onde eu era. Eu expliquei que era brasileira, conversamos um pouquinho e sai do banheiro.

Desci, e quando a senhora reapareceu eu curiosa perguntei a ela “de onde a senhora achou que eu fosse?” Ela hesitou um pouco e eu contei a ela que sempre acham que eu sou Russa. Que na Turquia achavam que eu era turca, na Asia achavam que eu era Israelense, em londres muitas vezes francesa. Ja acharam que eu sou Italiana, polonesa, do leste europeu, e até indiana! “Isso é otimo vc pode viajar muito se mesclando com o povo.” Contei a ela entao que eu adorava viajar. Ela me contou que ela tinha viajado o mundo. E nao sei como foi a senhora parou ao meu lado numa alegria contagiante, e todo o meu mau-humor foi desaparecendo. Ela foi contando da vida dela, das viagens, dos paises onde morou, e eu via o marido na mesa ao lado de cabeca bem branca olhando meio fascinado, e em silencio.

“Viaje muito, viaje o mundo, veja tudo que voce tem para ver, porque eu sinto que esse é o seu espirito. Assim meio como o meu. Nao deixe de viajar e ver tudo que vc tem sede de ver, e so pare quando vc sentir que é hora. Tudo tem seu tempo. A maioria das pessoas nao entendem mas quem tem essa sede de mundo quando forcada a parar enlouquece! Eu nao sei quantos anos voce tem, mas eu sei que voce tem todo o tempo!”

Nisso, eu me lembrei na hora ” Sabe de uma coisa, hoje é meu aniversario!” Ao que ela explodiu em um sorriso e numa alegria transbordante dizendo

“O meu tambem!!!!”

Nossa eu nao conseguia acreditar. Eu senti como se fosse um presentinho do universo. Aquela senhora holandesa meio esoterica comecou a dizer da personalidade de uma escorpiana. Ela então segurou as minhas maos, olhou profundamente nos meus olhos e me desejou feliz aniversario. E eu desejei a ela. Foi um momento especial para mim. Tudo meio que parou. E eu sai de la transformada. Sem perceber uma coisa meio estranha aconteceu, eu ali abri mão das minhas ideias pre-concebidas de celebrar o meu aniversario. O encontro com essa senhora, me fez lembrar que eu quero celebrar o meu espirito! Tao incompreendido por tantos. E eu lembrei que eu nao preciso lutar contra essa minha busca por liberdade, nem contra as pessoas que nao a entendem. Eu nao preciso fazer essa escolha. Tambem percebi que para celebrar a minha vida eu estava celebrando todos os que ali estavam. Entao resolvi celebra-los do jeito deles sem ficar fixa na minha ideia tao egocentrica do MEU aniversario!

E entao eu fiz o que eles queriam, e eu o fiz com prazer. O meu aniversario foi completamente diferente de como eu imaginava que ele seria. Os meus sogros ficaram muito felizes de nos ver, de ver o filho que ha anos mora longe, o Titus ficou feliz de poder passar mais tempo com o irmao, a Amanda, minha amiga de infancia, disse que esses ultimos dias foram os mais felizes dela desde que ela chegou na Europa. Eu confesso que meu aniversario nao foi exatamente como eu queria, mas as vezes é melhor assim. Um aniversario que cria tanta alegria em tantas pessoas é a melhor maneira de celebrar a vida. E do mue cunhado eu ganhei um presente muito especial. Um presente que celebra a vida de todos no planeta.

O curto circuito

Semana passada eu tive uma crise parcial epilética. Parcial porque eu nao cheguei a fazer xixi e morder a língua. Depois de um dia ultra intenso, e de ter esquecido consistentemente de tomar meu remédio desde que voltei da Asia deitei na cama para so retomar consciência não sei quanto tempo depois. Nao, nao foi como uma outra noite qualquer. Eu deitei e lembro-me vagamente de sentir que tava começando um curto circuito dentro de mim. Eu já tive crises muito fracas antes. Mas normalmente eu sinto que preciso respirar mais e ai bebo água e me acalmo. Dessa vez nao, foi como se eletricidade de repente me tomasse por inteiro, rápido demais.

E ai é como se o tempo que ali passou nao existisse para mim. De repente, senti como se tivesse vindo de um outro planeta. Vindo bem de longe, nao como quem acorda, mas como quem nasce, ou quem muda de continente e na primeira noite, numa cama distante, onde tudo é desconhecido tem que aos poucos decifrar o local. Lembro de ver umas pessoas estranhas no meu quarto, e de ser informada que eram os paramédicos. Já consciente de ser levada de ambulância ao hospital e de ouvir de diversas pessoas estorias desses minutos que eu vivi e dos quais nao tenho nenhuma memória. Incrível isso. Aparentemente na minha eterna franqueza eu perguntei ao paramédico se ele era médico, e ao ouvir que ele era paramédico de ter dito ” oh that is not that good”. Dos preconceitos que quando vc nao esta ali consciente vem a tona.

Ironicamente, nas ultimas semanas na LSE na minha aula de antropologia da religião li sobre xamanismo, espiritismo, estados de mente alterados e consequentemente sobre epilepsia. Os Irmaos Karamazov me acompanharam na viagem a Asia e as crises epilépticas do Smerdyakov sempre me deixavam absolutamente horrorizadas. Eu gracas a deus nunca tinha tive uma crise assim dessas dostoyevskianas mas mesmo essa um pouco mais forte me deixou por lado aterrorizada e pelo outro fascinada.

Tao estranho esse conceito de estar aqui e não responder nada para ninguém. E ouvir de todos que te viram que você olhava através deles. Que eu parecia estar em outro lugar. E onde é será que eu estava? Depois a minha consciência foi voltando aos poucos, na descrição do Haiko, neuro-cientista é psicologo de desenvolvimento, fui voltando como uma criança, que raciocina simplesmente. Segundo o Marquinhos, um dos meus queridos housemates que tanto ajudaram nessa tumultuada noite, eu estava calma, serena. E de fato, depois de ter passado por toda a epopeia dessa crise percebi que o sofrimento maior é mesmo o de antes. É o de estar na eterna tentativa de estar em total controle, ou pelo menos na ilusão dele. O incrível de eventos como esse é perceber o quão fora de controle estamos quase que sempre e quase que sobre tudo. Eu não decido quando respiro ou paro de respirar na maior parte do dia, nem quando bate meu coração, nem como as sinapses acontecem no meu cérebro, nem que endorfinas são ou não liberadas. E por alguma razão eu tenho essa sensação de eterno controle. E esse necessidade de me sentir sempre em controle me desespera. Ironicamente a crise, ou melhor esse minutos perdidos de mim… sao os momentos mais tranquilos que eu tive em muito tempo. Acho que deve ser o que deve ser o sentimento de parar a mente em profunda meditação. Com a diferença que a meditação é total consciência é claro.

Pela terceira vez, pelo terceiro ano eu terei que fazer uma ressonância magnética do meu cérebro esperando que ele esteja bem, agora no dia 30. E por mais que eu tente ficar calma, vai chegando perto e eu vou ficando desesperada. Desesperada do meu jeito que não é nunca o mais óbvio para os outros, mas é sempre somatizado no meu corpo. E nessa épocas os pensamentos filosóficos, fenomenológicos, espirituais, cognitivos ficam mais presentes do que nunca. Onde será que eu estava naqueles minutos que existem só para todos que me viram? Seria a consciência puramente uma propriedade emergente do cérebro ( como defendem os neuro-cientistas), e que naquele curto-circuito ela simplesmente deixou de emergir? Ou sera que “eu” estive em algum outro lugar? Seja como for apesar de eu entender um pouco melhor a máxima budista que tudo é perfeito no presente, e que o sofrimento vem de estar fora dele, eu ainda limitada que sou, controladora que continuo, com menos medo desse lugar calmante que desapareceu no vácuo de mim, no mistério da existência, por enquanto, prefiro ainda ficar consciente por aqui. Ainda que isso seja uma ilusão.

The Travel Bug

“Como foi la na Asia?” É a pergunta que eu mais ouço quando eu encontro com alguem que eu nao vejo já faz um tempo. A segunda pergunta é ” E ai como é estar de volta?”. Essas duas perguntas sao as perguntas que eu tambem faço aos meus amigos viajantes, e que eu sei que não há como responder. Como colocar em uma frase todos esses sentimentos ambivalentes, todas as pessoas, gostos, cheiros, sensações e experiencias?

A segunda pergunta eu geralmente respondo dizendo que como eu ja estou acostumada com essas idas e vindas o meu retorno foi so mais um. E que eu ja estou adaptada de novo. Mentira. Acho que essa é a mentira que meu corpo quer acreditar. No entanto, toda a vez que eu vejo o status update de algum amigo viajante no Facebook dizendo “Tomorrow Myanmar” “Anyone in Vientiane? “, “Climbing in Railey..”, “Stranded in Pak Ben”, o meu coracao aperta. E eis que ontem, eu parei sozinha para olhar a minhas fotos. E meu deus como apertou. Que saudade das criancas da minha escola. Do cheiro de comida de rua nos night markets. As eternas massagens. As estorias, os sorrisos. Os perrengues. As jornadas exaustivas. Os dias pelo barco no Mekong. A enorme liberdade de poder decidir trocar de pais como quem troca de calcinha. Variar de roupa é um luxo maior do que de cidade pois a mochila carrega pouco.

Falando online agora com minha querida amiga Gabi que se mudou esse final de semana para Bangalore na India sem nunca ter antes estado la a minha saudade apertou ainda mais. Eu tentei alivia-la do stress do primeiro momento. Ele me contou dos banhos de cuia e eu lembrei dos meus. Da vontade de chorar no primeiro, do medo da agua ser muito suja, e de querer acima de tudo achar que tudo era normal. Lembro tambem que aos poucos comecei a achar que o banho de cuia era otimo para nao gastar muita agua. E eventualmente de em dias de calor achar o tal banho maravilhoso. Lembro do meu primeiro banho de chuveiro depois de ficar no vilarejo rural. Do enorme prazer que eu senti ao tomar um banho quente.

Essas lembrancas que sao pouco verbais sao dilacerantes. Parece que elas ficam gravadas no corpo. Como um cheiro que vem de repente a mente e te deixa um pouco desnorteado ate encontrar o lugar exato… o cheiro da madrugada meio aos templos do Camboja. E quando o lugar é encontrado vem tudo. E ai…. ai corta, aperta… da um medo de nunca mais poder voltar para a Asia. Nunca mais poder sair e ver o mundo.

Um americano sentado do meu lado numa lan house falava pelo skype com a familia. Depois de meses viajando tinha constatado que aquilo nao era para ele. Era muito. Era coisa demais. Muitos ois, e muitos tchaus. Ele era uma pessoa caseira. Achei bonito ele perceber isso. Ele provavelmente voltaria para casa e teria vontade de viajar de vez en quando. Sem ser atormentado pelo desejo de sair viajando o mundo o tempo todo. Outros como esses que populam minha lista de amigos no Facebook foram picados e contaminados de vez pelo “travel bug”. Eu imagino “a travel bug” meio assim como Malaria. Que voce vai adquirindo com o tempo, com cada picada. Que a parasita vai se replicando no seu corpo ate seu sistema imunologico nao dar mais conta. E ai ela causa um episodio reincidente todo ano.

Quando eu cheguei e penei no meu vilarejo rural minha amiga de faculdade Sabina, que tinha feito trabalho de campo na Tunisia me disse ” Enjoy the cultural shock, it will soon turn into an intoxication, and then , then it is much harder!” Como ela tinha razao.