O Teletransporte

Faz quase duas semanas que eu voltei do sudeste asiatico. Passei um pouco mais de 3 meses entre Tailandia, Camboja e Laos. Levou mais de uma semana para o meu horario se ajeitar. Como eu ja vivi em muitos paises, e desde os 15 anos vivo nessas eternas idas e vindas, minha volta a Londres foi menos traumatica do que a dos muito viajantes que conheci. A unica coisa mais dificil é que o facebook é um constante “reminder” do mundo dos viajantes que eu dexei para tras. Todo dia eu leio alguem que ta chegando em algum vilarejo de algum lugar remoto do mundo. E o mundo é tao grande e tão cheio de vilarejos…e viajantes.

Hoje eu tenho a impressao que foi tudo tao facil. O sudeste asiatico é muito facil de viajar. Ainda mais quando comparado a outros lugares que ja estive sozinha como o Marrocos ou a India. A verdade, no entanto, é que a minha viagem comecou para la de dificil. Eu ja comecei doente tendo que posterga-la por causa de uma infeccao urinaria. E ai cheguei num calor alarmante em Bangkok, sentindo uma letargia total. Lembro de pegar o taxi em direcao a Khao San Road pensando ” onde eh que eu estava com a cabeca quando escolhi ir voluntariar num vilarejo rural na area mais pobre da Tailandia? “. Lembrei de uma amiga que sempre diz “essas coisas sao melhores pensadas”.

Deitada numa rede meses depois, num dos lugares que visitei, conversando com dois alpinistas que planejavam a construcao de alguma coisa que a minha leiguice em engenharia e alpinismo nao permitiu entender eu propus que eles construissem uma maquina de teletransporte. O tal do teletransporte é uma ideia que ficou na minha cabeca gracas a um inesquecivel vendedor de cachorro quente em ubatuba. Consiste basicamente em voce pensar e se teletransportar para onde quer.

Brendan, o engenheiro alpinista, olhou para mim e disse ” Can we focus on feasible plans?” Vencidos pelo meu desejo filosofico de discutir o teletransporte comecamos a pensar. Nos teletransportariamos para onde? Para a guesthouse. Direto da rede para a Maylin Guesthouse! Mas como ficariam as nocoes de privacidade? E as fronteiras? E se vc pensasse num quarto de hotel que esteve, e alguem que tbm la ja esteve tbm quisesse o mesmo quarto, no mesmo minuto? Afinal as memorias sao distintas, e infinitas mas os lugares nao! Entao, comecamos a pensar nas regulamentacoes que seriam necessarias com o advento do teletransporte. Os problemas eram infinitos. Tao infinitos que saimos do bar, andamos toda a cidade e eles nao acabavam.

Em meio a discussao o outro alpinista percebeu ter perdido sua chave. Brendan e eu sentamos na calcada. Iriamos espera-lo busca-la. Passaram por nos bebados perdidos. Gente que nao sabia em que guesthouse tinha ficado. Passaram bicicletas assim no meio da noite. Tendo que esperar olhamos para tudo que tava a volta. Os cachorros, o ceu que estava todo estrelado, as placas, as pessoas, tudo. Quando a chave foi reecontrada recomecamos a nossa caminhada. Chegamos a famosa ponte de Vang Vieng. A ponte que nos separava de todo aquele caos do outro lado. Cruzamos ainda falando do teletransporte.

Se ele existisse nos provavelmente nao cruzariamos essa ponte. Eu nao teria passado 2dias num barco no Mekong e mais um dia de onibus para cruzar do Laos a Tailandia. Eu nao teria pego os muito onibus porcaria, nas muitas estradas tortuosas. Consequentemente nao teriamos conhecido todas as pessoas que encontramos pelo caminho. Nao teriamos visto todos os vilarejos. E ficou evidente que o que importa é a jornada. Abandonamos o plano ali na ponte, nao porque ele era impraticavel. Simplesmente porque nao nos interessava. Andamos cansados as ruas enlamacadas, no escuro felizes por ter essa experiencia.

A minha amiga tinha razao. Alguma ideias sao melhores pensadas. Nao a ideia de viajar, ou de voluntariar num lugar remoto. Essas sao as que vividas valem sempre a pena. As ideias que sao melhores so pensadas sao as que reduzem os caminhos, as dificuldades, e os prazeres da jornada.

4 thoughts on “O Teletransporte

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