A Assembléia

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Tudo que acontecia em Ban Nonpho ( a escola no vilarejo rural onde voluntariei) era assim para mim meio que um misterio. Como eu nao entenderia mesmo a explicacao as coisas aconteciam sem ninguem me explicar. Eu cheguei la meio que de paraquedas e me lembro de no primeiro dia, meio desorientada, ver todas as criancas no patio brincando. Lembro de assistir o professor dizer coisas em Tailandes. De ver as criancas foramarem umas filas completamente desorganizadas e passarem horas se arrumando. Lembro-me de ficar espantada, pois apesar da total zona, o professor permaneceu calmo o tempo todo. Nada batia como as minhas ideias de como seria uma escola asiatica. As criancas saiam das tais filas para colocar outras criancas no lugar certo o que consequentemente aumentava a desordem. Eventualmente uma logica foi aparecendo. Eles estavam tentando se organizar por idade. Essa ordem so ficou mesmo evidente para mim dias depois. Nesse dia, eu apenas assisti, me sentindo meio fora de lugar, e sem saber direito o que fazer. Horm , minha anfitria e professora da escola, desapareceu, e so reapareceu quando as tais filas estavam finalmente organizadas. A bandeira da tailandia foi erguida, enquanto eles provavelmente cantavam o hino. E entao todas as criancas se viraram para o pequeno Buda colocaram uma mao em cima da outra com as palmas para cima e fecharam os olhos numa pequena meditatcao. A Horm, minha anfitria, me explicaria depois que era uma pequena meditacao em agradecimento a todos que os ajudam. Meus olhos se encheram de lagrimas.

Essa pequena meditacao era o principio de todos os dias. Sexta feira no entanto, depois do almoco, todas as cirancas da escola ( +- 50 alunos entre 4 e 12 anos) se juntavam na sala do ano 5 e 6 para um evento so dos estudantes. Nenhum professor podia estar presente nessa ocasiao. Eu como nao era oficialmente uma professora fui permitida a entrar e ficar la. Ainda que eu nao soubesse o que estava se passando. No comeco vi que todas as criancas se sentaram no chao e começaram o que me parecia ser uma cerimonia budista. Budas foram colocados pelas criancas em frente a classe. Incensos acesos e eles comecaram , para meu espanto, rezar. Depois as criancas fecharam os olhos em meditacao. Ali sozinhas sem a supervisao de ninguem.

Quando tudo isso terminou percebi que a Tanoy, Nan e a Nook tomaram o lugar da frente da sala e comecaram a falar. Tinham uma lista na mao, e as criancas conforme elas iam falando iam dando palpite. Sem entender muito bem o que estava se passando resolvi ir procurar a Horm.

– “O que eles estao fazendo?” perguntei.
– Hoje é sexta, todas as sexta é dia de assembleia.
– Mas o que acontece nessa assembleia ?

Hom me olhou espantada e como quem explica a coisa mais obvia do mundo me disse : “Na assembleia os alunos decidem tudo que eles precisam decidir”. Perguntei o que isso significava e entao Horm me explicou que sexta feira os alunos se encontram para conversar sobre assuntos dele. Explicou que as meninas tinham sido votadas responsaveis por aquele ano. E que todas as sextas as criancas se juntavam na assembleia para votarem e decidirem todos os assuntos pertinentes a escola. Como quem vai limpar o banheiro, quem vai dar aula de educacao fisica, quem vai lavar os pratos, quem eh responsavel pela biblioteca. Problemas que tem acontecido com eles, brigas, discordias. Enfim, tudo!

Eu fiquei absolutamente em choque. Fascinada. Ali na minha frente estavam criancas entre 4 e 12 anos que meditavam as sexta feiras. Que tinham a responsabilidade de tomar conta da escola e dos seus probelmas sociais, e que ao contrario do que é pensado no mundo ocidental que essa responsabilidade nao roubava nenhum pouco da infancia delas. Aquelas criancas eram criancas, dessas que brincam de ciranda, de pular elastico, de jogar damas, de dar tapa na cabeca um do outro, de rir o tempo todo e ao mesmo tempo eram criancas que sabem que é o cuidado delas que mantem a escola bonita. Que na falta de um professor sao eles os de 12 que tem que ir ver o que esta acontecendo com os de 4. Que quando uma voluntaria vegetariana meio atrapalhada aparece que elas precisam “keep an eye on her”. E a voluntaria fica assim para sempre grata. E aquela pequena meditacaozinha do primeiro dia “em agradecimento ao que nos ajudam” fica entao fazendo mais sentindo do que nunca.

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