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Sobre julietafalavina

Eu escrevo da minha vida, e agora sobre a minha recuperação da saúde .

Aimé Cesaire: Violência é Desumanizar.

viol

Hoje acordei e recebi um e-mail de um desconhecido e, ainda sonolenta, lí coisas e que me surpreenderam.

Como é que eu ainda me surpreendo? me perguntei.

Li e percebi que ele sabia muito sobre mim, e sabia do meu desaparecimento. Imaginei que esperava uma resposta falando de algo muito violento que tivesse acontecido comigo no Norte do Brasil, na America Latina, no Oriente Medio, na Ásia ou na África. Soube que ele nunca tinha estado por esses lados. Qualquer um que tenha estado por alguma dessas partes, sabe que toda pergunta vem carregada de interesse. Toda palavra é colocada minuciosamente para, secretamente, descobrir algo específico. Sentí-me segura, respirei fundo e decidí que responderia alguma coisa.

De cara, e abertamente me perguntava sobre abusos, situaçoes violentas. Achei que a mensagem, em si, era absurda, tinha já suas respostas mas percebi que para alguns pareceria mais violenta. Reconheço que talvez tenha sido por puro interesse, ou sarcasmo, que eu tenha respondido. De qualquer maneira que vítima não tem interesse na atenção do outro? De todo jeito, imediatamente me vieram muitas imagens do que eu vi, li, soube por todos esses anos.

Eu imagino que não foram típicas as minhas imagens. De cara me veio a noção de que a violência em direção a mulher é fomentada, principalmente, pelas próprias mulheres. Afinal, reduto de homem machista, é em geral onde o pai quase não faz parte da criação de um filho, a não ser para silenciá-lo.

Depois me veio à cabeça uma coisa mais preocupante: que no final, a condenação da violência sobre a mulher, também é, em si, uma violência ao homem. Porque ainda que sejam mais afetadas corporalmente, financeiramente, psicologicamente, etc., essa violência não descrimina por cor, ou sexo, ela é uma violência pior, ela é em geral uma violência ao ser humano.

Quantas vezes não vi isso pela Ásia, o Oriente Médio, a Europa, a Ámerica Latina, e o norte da África? Muitas vezes! Fiquei na casa de pessoas que conheci em ônibus na Palestina, na Kashmira, no norte da Africa, no leste Europeu… e eu nunca fui mal tratada por esses desconhecidos. Meus amigos sempre se chocam com essa fé pelo ser humano inerente a mim.

De fato, a India é um lugar machista, o norte do Brasil é machista, mas eu viajei sozinha por lá e quando me sentia minimamente atacada eu começava uma conversa com a pessoa sobre sua família.  Em outras palavras, eu humanizava aquele encontro, entre dois seres humanos tão cheios de histórias e preconceitos.

Por isso, enquanto eu lia esse tal e-mail de um desconhecido, eu pensava que a violência sobre a mulher, também é uma violência sobre o homem. O escritor pós-colonialista Aimé Cesaire no seu livro “discurso sobre colonialismo” em poucas páginas define que a maior violência de um colonialista é desumanizar  o próprio colonizador… Só assim, ele argumenta, alguém pode fazer tão mal a outro ser humano. Primeiro ele precisa se violentar, se “des-humanizar.”

A violência contra a mulher, no fundo, nada mais é do que isso… Uma completa incapacidade de ser presente, de encontrar o outro. No fundo é muito mais fácil matar o corpo, a propriedade do outro, do que a “alma”. Talvez seja por isso, que vítimas de violência cotidiana não consigam sair dela, as pessoas continuam lá. Aquilo é parte daquele sistema, você não consegue ver o seu dominador, como não consegue tão pouco  se perceber parte daquilo. Na rua, quando é um estranho, é mais fácil de ver quem é que você abomina. Tá de fora.

Nesse email, esse desconhecido me perguntava sobre a minha experiência de violência. Ou melhor AS MINHAS. E como eu resolvi responder honestamente eu disse: ” Imagino que queira que eu fale mal de algum povo, de uma religião, de um ato internacionalmente terrorista. No entanto, não tenho razão pessoal nenhuma para condenar nenhum destes, se você quer saber de fato a maior forma de violência que eu já senti,  eu te respondo sem hesitar, foi aquela que veio de alguém em quem confiava, daquele que estava do lado, por dentro, e jurava ficar para sempre, mas acabou tendo que me levar a um hospital, assistir eu entrar num estado de coma, me acompanhar por pouco tempo internada, e depois, simplesmente desaparecer, sem deixar de dizer aos meus amigos que a minha morte teria sido melhor, pois eu já não existia mais.  Esse tipo de traiçao quase mata sua “alma”.

Por isso, eu, acho muito mais fácil reconhecer a violência direcionada a um Palestino do que a um Israelence. Eu tenho amigos dos dois lados do muro. No entanto, a violência que os Palestinos sofrem é tão evidente que eles não hesitam em saber quem é o seu agressor, já os Israelenses também sofrem, mas precisam fazer mil manipulações no cérebro para legitimar aquele abuso dos quais eles são obrigados a fazer. Se declaram muitas vezes heróis e vÍtimas. No entanto, até meus amigos de regiões destruidas do Oriente Medio reconhece que a tortura de um inimigo é violenta, mas não surpreendente. A violência que eu sofri, até para eles era pio,r pois vinha de alguém supostamente, plenamente, confiavel.

Por isso,  que eu não desconsidero o sofrimento das mulheres, mas simplesmente eu não o afasto do sofrimento dos homens. Porque nisso, eu concordo com o Cesaire…. Apenas quem é desconectado demais (e no fundo todos nós somos um pouco) que pode fazer tanto mal à um outro. É fundamental nos afastarmos de nos mesmos e depois daquele na sua frente.

No fundo, devíamos todos aprender estar melhor dentro do nosso corpo. Estar mais presente. E mais à vontade com as nossas limitações e as limitações dos outros, mas isso, é, de fato, bem mais difícil do que falar e condernar o outro por qualquer violência…

“Aposto que é ideológico”.

mindfulness

Fui ver Lingtrul Rinpoche um pouco depois de sair hospital. Lingtrul Rinpoche é um alto Lama Tibetano e estava aqui no Brasil falando sobre budismo Tibetano e ficando na casa da minha amiga Denise. Denise que eu tinha conhecido na frente do Dalai Lama e que me levou para conhecer Karmapa. Não fui ver  o Rinpoche, fui ver a Denise, e não era porque eu tinha estado pela segunda vez internada. Já estava melhor, já tinha subido várias montanhas descalça e de chinelo na Colombia. No entanto, estava magra, muito magra. Nao como plano de regime, mas de ter perdido peso no hospital e depois de me meter por dias na Montanha lá na Colombia. Há milhões de coisas que Rinpoche me ensinou naqueles dias. E volto outro dia nelas mas nesse post  quero falar da ideia, do ideologico , das nossas escolhas. Comida, alergias e doenças.

Eu estava lá conversando com Rinpoche na casinha do retiro que eu acabei indo quando trouxeram carne para o Rinpoche e eu vegetariana de mais de década olhei a ele e disse:

“Você vai comer carne?”

Sim, falei assim para o Rinpoche, fazia dias que eu o conhecia. E alguns Lamas são muito engraçados.

“Sim você também deveria comer. Está aqui e você está fraca, magra demais.

“E o vegetarianismo dos Lamas Tibetanos.?” perguntei.

Ele riu

“ Você viu no filme? Por que você é vegetariana?”

“Nao sei, faz tanto tempo que eu sou.”

“Aposto que é ideológico.”

“Sim, sem dúvida. Por respeito a vida Rinpoche.”

“ Então coma pouco, e coma o que estiver na sua frente.  Quando tiver opção de compra, compre o que é local. Terá usado menos transporte, menos petróleo e terá menos chance de ter tirado um bom alimento de um povo de outro país.”

Ri e pensei  no Quinoa que todos comiam na Bolivia e depois da febre na miídia fiquei sabendo que era menos presente lá. Tinha sido presente até na minha casa em Londres. Pensei que estava certo e depois de muitos anos eu comi carne vermelha.

E então passei a fazer o que ele dizia. Claro que não o fiz em todos os lugares. Em geral, em situações onde alguém que tem pouco dinheiro e há pouca comida, e ainda por cima tinha feito para mim, eu passei a comer.  Já na minha casa, ou em qualquer lugar onde há fartura eu escolho pouco do que eu gosto. Tá vendo, ainda estou longe de  ter atitude perfeita como a dos Lamas que conheci 🙂

Voltei nesse pensamento por algo distante e perto. Nossa necessidade de atenção.

No último feriado eu fui viajar para São Bento. Inventaram de subir a pedra do Baú. Eu nao sou montanhista experiente mas não acho nada de muito perigoso de subir a pedra do Baú. Então eu fui de chinelo. Era feriado, vimos muitos grupos com guias. Eu estou acostumada a fazer longas caminhadas mas sempre ando devagar.  Quando cheguei na pedra todo mundo ali estava de cadeirinha, corda e eu estava de chinelo. Expliquei que tava tudo ótimo e que eu nao ia subir o Baú de chinelo iria subir descalça. Comigo estava Andre, Tim e Lu.

De cara me falaram que tava quente… Entao fui fazer o teste. Nao achei nada demais e desci e pedi para  Lu subir ( ela tava de de tenis)  e ela subiu uns poucos degraus e ficou com medo. Disse a ela que era melhor então ela não subir. Já  André, meu marido e o meu quase primo Tim disseram que subiriam. Então fui subindo e de repente vi os dois parados  no meio da subida. Eles estavam sentados e estavam  mais para baixo. Sim, estávamos sem corda, sem cadeirinha. Gritei para baixo para falar com ele e perguntar se nao iriam subir. Tim,  subiu e me passou. E quando eu olhei para trás André ainda estava parado. Gritei

“Você nao sobe?”

“Não. Vocês estão loucos isso é perigoso demais.  “

Olhei para o Tim e disse

“Vamos descer então….”

“Ju nao dou conta. Vou continuar subindo e vou descer pelo Sul que é menos esposto.”

Disse isso hiperventilando e com voz de coração batendo rápido.

“André ele nao consegue descer aqui. Vamos subir. Descemos pelo Sul. Ele está com coração batendo rápido, muita adrenalina e hiperventilando.”

“Eu nao consigo  subir Julieta! Subir é perigoso demais. Queda é morte!””

Fiquei revoltada… tinha certeza de duas coisas uma que Tim precisava de ajuda, e que o André estava com nossa a nossa água, , meu remédio de epilepsia ( que eu já tinha tomado mas sempre te dá confiança), e com meu chinelo. Para mim não havia escolha eu tinha que ajudar o cara que pode cair. Para mim, eu achei que era só o de cima.

Subi e o encontrei mandei respirar direito e subimos até o topo. Quando cheguei lá em cima me bateu total abandono. Como assim o meu marido me deixou subir sabendo que agora eu desço por outro lado e por mais mata e descalça? A gente não tinha água. Primeiro fui convencer o Tim de respirar melhor. Ele me falou do meu remédio e eu pensei que eu devia ter carregado as minhas coisas. Sentamos vendo a beleza daquele lugar. E graças a todos os santos, fiquei amiga do Márcio que era guia de um grupo, e era local e escalador. Ainda por cima pensava como eu. Descalço dá mais solidez 🙂  Ele me deu água. Tres goles eu tomei, para nao ter que fazer xixi e ter mais cede depois. Aprendi isso no deserto.

Nós o seguimos para descer… Lado sul para quem escala deve saber ta mais corroído.   Enfim,  de repente, eu estou na mata  e estou descalça. Eles andando rápido. E eu a cada segundo  fui me sentindo mais vítima.  “Como é que eu sou a única que pensa no outro? ”.

Sei que de repente, me veio a cabeça que a minha quase morte foi graças a um ataque epilético sequencial na Asia. Ninguém até hoje consegue explicar porque aquilo aconteceu. Eu estava medicada. Até meu neurologista que é muito halopata percebe a influência das minhas emoções na minha saúde. Entao parei no meio do mato sozinha e  eu sentei.

Olhei o sol. Lembrei que eu tinha sentido isso antes. Como assim? Abandono tá me fazendo me vitimizar? Não. Não dessa vez. Eu vou parar. Eu vou mudar a sinapse eu vou pensar na energia do altruísmo. Não na do egoísmo. Não vou ficar inconsciente dessa flutuação. Se eu o fizer, eu perco o controle. E assim meu corpo se modificou. Hiperventilação parou. Adrenalina tbm e eu caminhei. Nao sem dor de farpa, de pedra, mas prestando toda a atencao do mundo em cada passo para também não atacar nada, nenhum inseto, nenhum bixinho.

Claro  que uma vez tudo acabado, umas 5 horas depois, eu queria culpar o André. Eu o fiz.

E entao contei a Denise tudo isso. E ela disse:

“Minha preta. Isso nunca foi arriscado para vc. Para o André era. O medo bloqueia. Que bom que ele não subiu.”

Foi a primeira vez que eu parei e pensei. É verdade. O meu risco foi em segurança. Não é que eu tenha tido consciência atrasada. Eu percebi que aquilo era fácil para mim. A minha vulnerabilidade era a do pensamento, e sentimento de abandono.Eu nunca pensei em risco para mim, nem para ele. Só pensei no risco para o Tim e no meu abandono.

Resolvi contar para minha amiga neurologista. Nao qualquer neurologista. Minha amiga que conseguiu prever que eu ia ficar doente um mes antes so de me olhar e ouvir.  Foi na inglaterra antes de eu partir para mais um caminho na Asia.Ela que eh doutora, pos doutorado e amada na melhor uni de medicina de Londres. Ela que é medica, professora, voluntaria na USP, UNICAMP etc etc etc  Me disse  há anos “este homem com quem você está que se diz separado nao está, tem dois filhos e  você precisa estar muito doente para não perceber. Você está doente.” Chorei  e achei absurdo. Ela estava certa.

Então liguei para contar esta historia do Baú. No nosso caso conversa neurológica e filosófica.

Achei que ela ia me me matar por eu ter subido assim. No entanto, ela ficou tocada falamos muito e ela ficou feliz de eu ter tido consciência e percepção e me disse algo brilhante.

“É dificil dizer a alguém doente ou a nós mesmos mas parte das nossas doenças vem de nós querermos atenção do outro. Nunca é consciente mas em tantas doenças eu percebo o pedido de atenção.”

Pensei que ela estava certa. As minhas parecem ter sido. Voltei ao pensamento da comida.Do que eu já aceito que nao quero por ideologia e aquela que eu garanto que me faz mal por alergia. Não faz.

Aquela carne mesmo sem come-la por anos. Nao me fez mal. Nem o leite e mais absolutamente nada. Contei a minha avó, e ela me contou do seu sobrinho alergico ao Camarão. Não podia chegar perto. Ouvir a palavra e a glote ia fechando. Casou com uma mulher que adorava camarão e agora come camarão.  

Incrivel é o corpo. Incrivel sao as nossas sinapses. Acho que o que eu aprendi dessa vez, dessas conversas é perceber que vitimizacao é póstuma. Quem está lutando pela vida diante de uma guerra não tem alergia, nao tem depressão  já que tem que sobreviver. Isso tudo acho que vem depois. Acho que precisamos aprender a escolher melhores pensamentos. Perceber e não reforçar sinapses prejudiciais.

Rinpoche disse muito quando disse “Aposto que é ideológico”. Toda ideia é  sinapse! Toda sinapse…

? Relativismo Cultural ???

ponto

Um turco e um grego estavam morando na mesma casa em Londres. Junto com eles estava minha amiga Adriana. Brasileira e casada com o Turco que era arqueólogo. De repente, saiu na sala e viu os dois em silêncio, estavam tentando ver escondidos algo entre uma cortina que dava para fora sem serem percebidos. Adriana perguntou de cara: o que está se passando? Os dois pediram que ela falasse baixo e que não se aproximasse da janela.

“Cuidado. Tem uma louca aí! Precisamos informar a polícia!”

Adriana ouviu de repente um barulho de alguém batendo palmas e foi olhar.

“Ô de casa!!! papapapapapapa”

“Adriana, esta mulher é louca, esta se comunicando com a parede por palmas!”

Adriana, brasileira, achou engraçado…. e disse

“ É minha manicure!”

Sem dúvida, eles acharam que a Dri era louca de deixar uma “louca” que bate palmas para a parede entrar e ainda por cima com alicate e acetona 🙂

Adriana riu muito. E acho que demorou um tempo para eles entenderem que nem todo mundo tinha campainha no Brasil. Que tem casa no Brasil onde você nao pode bater na porta porque tem portão, tem cachorro. Entao as pessoas em alguns lugares do Brasil batem palmas para chamar atenção do dono da casa.

Dri me contou rindo e todos os brasileiros riram, Haiko, meu ex-marido holandês,  também achou estranha essa coisa de bater palma na frente da porta. Nós achamos estranho ele achar estranho.

Minha amiga Claudia, veio aqui esses dias e me disse: como é que eu que tinha viajado tanto e tinha parado de escrever?  Eu que tinha visto tanta coisa.

Expliquei é porque eu quase morri. E quando você quase morre e fica parada muito tempo, vem aos poucos tudo a sua mente e voce volta a pensamentos indígenas, tibetanos,  palestinos e de repente vê tanta semelhança nas diferenças. Tanta simples humanidade de quase todos que você encontrou. Todos nós meio falhos e todos nós tendo que abandonar algumas das nossas práticas e costumes.

Então pensei que hoje eu escreveria. O que é que eu aprendi de ter entrado em tantas casas em tantos países, em tantos continentes? Eu aprendi a abandonar concepções antropológicas de relativismo cultural, ter dúvida dela. Depois de muito tempo estudando suas vertentes nos EUA, na Holanda e na Inglaterra, me dei conta que quase sempre ouvia a linguagem do colono, mesmo quando lia alguém que era do país colonizado. Ainda assim tendiam a ser a elite daquele lugar. Mesmo nas suas auto-cíticias, eu ouvia essa voz de linguagem, e pouca aceitação de similaridade. E quando parti do meu doutorado nao foi porque era difícil, mas porque eu fui na casa das pessoas. Pensei tanto nisso. Quase fiz parte de uma história que ajuda um processo de pseudo-paz. Não havia justiça, nem reconhecimento de semelhança nos discursos de Israel e Palestina. Em tantas casas eu fiquei lá na Palestina e Israel. Casas de pessoas que conheci no pequeno onibus.  No couchsurfing.

Sempre me perguntavam na Palestina porque eu estava lá. E eu respondia estou fazendo um doutorado e minha pesquisa é o processo de paz. Eles diziam que iam me ajudar. E eu ficava feliz e dizia. Acha que vai ajudar vocês?

“Não. A ocupação será a mesma. Nao há paz sem justiça mas vai ajudar você que terá um doutorado da London School of Economics.

“Como assim? mas então não preciso fazer. Porque vocês me ajudam em algo uinutil a voces?

“Porque você pelo menos traz alegria aqui. Vcs da America Latina são muito animados. 🙂 !”

Passando em muitos vilarejos eu percebi que eu estava fazendo parte de um discurso de colono. Fui embora do doutorado e fiquei vendo a realidade da cisjordânia.

Quantas vezes eu fui ver pessoas mesmo sem falar a língua delas? Quantas vezes senti que ali na observação do ato, e não da linguagem, tinha sentido mais compreensão.  Tinha sido menos distraída. Muitas vezes. Antropólogo nenhum fica feliz com essa frase mas eu a declaro aqui. Normas culturais são inventadas e aprendidas. Nao há nada de intrinsicamente valioso de normas culturais só porque são velhas. Nem todas essa práticas têm que ser respeitadas só porque existem há muito tempo. Em todas as populações há coisas que devem ser abandonadas. Na minha, na sua, nas deles.

O que é liberdade? O que é escolha? O que é violência? Qual é a diferenca da sociedade que se foca no ego e aquela que se foca no grupo ? Sinto que são diferenças presentes em todos os lugares onde estive. Dentro de todas as sociedades que estive havia diferença entre as pessoas do mesmo grupo.

Mas me posiciono para contar as coisas que vi. Homo Sapiens Sapiens  por todas as partes onde eu estive. Vi diferença sim, e percebi que foram criadas muito recentemente. Revolução neolítica de mais ou menos 12 mil anos! O mundo dividido como é hoje de poucas centenas de anos….  Não representa NADA dos mais de 100 mil anos de Homo Sapiens Sapiens.  Uns 200 mil anos dos Homo….

Tanto o Turco como o Grego devem ter ouvido muito sobre o Turco e o Grego, talvez mais do que de qualquer outro povo. Ouviram muito sobre as suas diferenças,  o ódio que existiu e ainda existe entre essas populações. Deve ter ouvido dos péssimos costumes da outra população. Agora, apesar de todas as suas crenças, já viveram juntos. Eram os dois mais semelhantes entre eles do que eram daquela mulher batendo palma para um objeto, eram mais semelhantes entre eles do que o turco era da sua esposa do Brasil. Os dois sentiam medo daquela postura mas nao levou mais do que palavras para que eles entendessem. Não levou mais do que conversa para que compreendessem a razão daquilo existir.  

Assim tem me parecido os encontros dos judeus mizhahim, e safahadim ( arabes, norte africanos)  com Palestinos, e outros Arabes. Lógico, fora de Israel.

Paro aqui. Pois de fato quero dividir o que vi e descobrir se ainda sei escrever. Lembrar e contar das práticas em todas as culturas admiráveis, e tambem outras que nao eram pois pareciam violentas. Nao consigo mais sentar e defender relativismo cultural, por exemplo a defesa da morte de um bebê indigena, só porque era um entre gêmeos. Entendo porque a norma foi criada. Biologia. Qualquer povo nômade nao pode ter que cuidar de tanta gente. Hoje não precisa mais ser respeitada quase ninguém é tão nômade assim. Terra é mais controlada.
Nos próximos topicos vou tentar contar da minha experiência de falar com quem fez circuncisão feminina, da palestina e Israel, do norte da Africa, Sudeste Asiatico, dos Palestinos,  da America Latina, da Europa, USA  etc etc etc…

Curva

Meu amigo Thomaz Panza tem um projeto de musica muito bom e legal. Um cd com musicos incriveis… Ele colocou o projeto num site e faltam 10 dias para arrecadar o total… se nao ele perde tudo que foi arrecadado. As contribuicoes podem ser ate de 30 reais. Se alguem puder colaborar eu recomendo muito. Nao so porque os musico sao muito bons, mas porque eh uma ideia nova…  “ja pensou se meu psicologo colocasse meus dramas pessoais em musica”

Ja fiz minha contribuicao, e estou aguardando ansiosamente pelo cd. 

vejam o clip no site… onde podem ver a musica e fazer doacoes se puderem.

https://www.catarse.me/pt/curva

Beijos.

Ju

Venezuela e Brasil- Guerra Civil Ou Econômica?

image

As pessoas do Brasil vivem me perguntando porque vim a Venezuela.

Respondo a verdade que vim para subir o Monte Roraima.

“Quando volta? Porque está ficando mais tempo. Já que já subiu.”

“Não sei quando volto. Talvez quando o dinheiro que eu tirei no Brasil e troquei no dia 18 de fevereiro acabar.”

“Mas porque você quer ficar numa ditadura, sem liberdade, num país que é perigoso e é até considerado pelos EUA uma ameaça a eles. ? Vai ter uma guerra civil aí.! Quanto de dinheiro vc tirou e da para ficar quanto tempo?”

Bom, então para eu responder essas perguntas melhor fazer esse post….

Talvez a coisa mais cara que tenhamos feito foi subir o Monte Roraima. Todo mundo deve saber que a economia aqui está colapsada. Na prática isso quer dizer que troquei 1 real por 55 bolivares. A última vez que vi, há duas semanas no mercado negro de santa elena aqui na net, dizia-se que 1 real já era 71 bolivares.

Ou seja, vc troca mil reais e sai com sacolas de dinheiro. Troquei meu dinheiro na fronteira. Verifiquei e de fato tive o melhor cambio do dia. A próxima pergunta sempre é: ” mas tudo não aumenta de preço toda hora?”

Até agora não. Todos que vinham do norte da Venezuela explicaram que lá do outro lado tudo era mais barato. Em Santa Elena tudo era inflacionando por causa do turismo do Brasil e graças ao contrabando do petróleo.

Ainda que 99% por cento das pessoas do Brasil acharem que ir ao Norte da Venezuela fosse uma loucura quisemos vir. Mesmo porque tínhamos muito dinheiro depois de passar 7 dias no Monte Roraima, e muito tempo em Santa Elena. Além do mais eu nunca acredito muito no que está na Mídia. Queria ver como era para esse lado. E já que trocar aquelas sacolas de bolívares para real de volta não faria nenhum sentido, também assim não veríamos a verdadeira Venezuela.

E aí o que temos descoberto depois de cruzar a Venezuela? Nossa, muitas coisas.  Quase todas tentamos verificar. Por jornais ou varias pessoas.Nem todas meio por preguiça.

Não tem como dizer que não tenha insatisfação da classe media alta nas grande cidades. Tampouco se pode dizer que não haja MUITOS chavistas aqui.

Por que isso?

Vou enumerar as razoes que as pessoas dão aqui. Nas palavras delas.

1.” A oposição diz que quer democracia mas quando perde a eleição não aceita o resultado e diz que foi manipulado. Não há sistema mais confiável que o da Venezuela que é eletrônico e mecanico.”

(Pesquisamos. De acordo com a Forbes parece mesmo. Aqui http://www.forbes.com/sites/forbesleadershipforum/2013/05/14/venezuelas-election-system-holds-up-as-a-model-for-the-world/)

2. “Os países Imperialistas dizem que aqui a Mídia é censurada mas a única coisa que se passou foi a não renovação da licença do canal. Todos os países tem concessões com período definido.”

( aqui no meu hotel tem CNN, o Chavez del 8 e Chavez el Comandante, e mais um milhão de canais.

Aqui sobre a não renovação do canal RCTV

http://www.theguardian.com/media/2007/may/23/venezuela.broadcasting

3. “Graças a Chavez as crianças tem internet em todas as escolas e ganham um computador quando entram na escola.”

(Perguntamos a muitas mães

e disseram que é verdade. Aqui na BBC http://news.bbc.co.uk/2/hi/technology/7642985.stm

Também conseguimos entrar em todos sites que quisemos ver.”

4. “Agora há saúde publica de graça. Direito a licença maternidade. Aposentadoria e empréstimo de dinheiro sem precisar mostrar que já tem.”

(Parece ser verdade mas não fiz pesquisa. É o que as pessoas dizem.)

5. Antes não havia controle de pesca de grandes companhias e não havia peixes para pescadores autônomos. Agora há peixes na costa. Qualquer um pode pescar.

( a ser verificado.)

6. “Dizem que falta remédio mas ainda existe fora das farmácias. Isso acontece pq Chavez colou valores limites o que leva a industria farmacêutica esconder  remédios para vender por fora. As vezes são abertos depósitos com remédios vencidos. Isso também é parte da guerra econômica. Acontece com a comida e o petróleo”

(Confesso que não pesquisei)

7.” A direita diz que Chavez dava petróleo a outros países. Isso é mentira. Chavez fazia escambo. petróleo por comida, remédio, médico etc.”

8. “Chavez era um homem muito politizado e a favor da educação para todos. Criou a constituição de bolso para que todos soubessem seus direitos, além de ter tornado livros mais acessíveis.”

9. “Chavez cancelou e refez todos os contratos com as empresas que exploram petróleo. Usando termos mais favoráveis ao pais. Há empresas que assinaram esses contratos. Agora o perigo vem do fato que a Exxon assinou um contrato com a Guyana para explorar petróleo num território disputado pelos dois países.”

(https://www.google.co.ve/url?sa=t&source=web&rct=j&ei=Kl0IVd71C8SnyASqsYGIDA&url=http://www.kaieteurnewsonline.com/2015/03/14/exxonmobil-oil-drillingtensions-rise-as-venezuela-issues-subtle-threat-to-guyana/&ved=0CDIQFjAG&usg=AFQjCNGCqptcE2uKIQTOXTPGeRcJZS0A-g

………….

Bom, tem tanta coisa que as pessoas dizem que é difícil de não entender porque tantas pessoas amem e odeiem el Comandante.

Conheci uma Francesa que mudou para cá há 5 anos. Perguntei a ela se gostava do Maduro. Ela que mora em Caracas disse que era Chavista então sim, melhor do que os outros de antes para população geral, disse ela. Pior para quem gosta de sociedade estratificada, concluiu.

“Você teve esse bebê aqui? Faltam as coisas no supermercado e farmácia, há filas? Violência em Caracas? Vc fica brava?”

” Sim. Há hospital privado e público. Minha irmã que veio visitar foi no hospital público também e pode usar e não pagou nada. Todo mundo odeia fazer filas. Elas existem porque tem gente que compra muito para revender. E gente que tem dinheiro e paga mais para não fazer fila. Mas novos sistemas estão sendo desenvolvidos para não permitir alguns lucrarem da falta do resto.

“Mas você odeia as filas!”

“Sim. Mas não o sistema. Para população geral é melhor. Claro que para quem quer viver numa sociedade desigual é o pior lugar do mundo.”

” você como francesa gosta então do Chavez.”

“Claro. Chavez é único. Lutou pelo seu povo. Pela unificação da America latina. Mudou a vida de toda uma população. Trouxe consciência de justiça a todos. Por isso é amado e odiado.  Por isso seu governo continuará sempre ganhando. O povo agora sabe seus direitos.”

Por isso quando me perguntam quando volto para o Brasil nunca sei responder. De fato, não sei, aqui parece ter muito menos ódio que no Brasil nesse momento.  O dinheiro que troquei um mês atrás, que eu achava que dava para umas 2 semanas, não foi usado nem metade. Não me falta nada. Todos os dias eu gasto metade do que seria possivel para ficar ate o final do mes.

Nunca sentimos medo. A vida corre tranquila num pequeno vilarejo a beira mar fundado em 1600. Cada dia as pessoas te contam mais sobre suas vidas já que percebem que você está aqui faz muitos dias. No final de semana aparecem turistas locais que tem dinheiro para pagar hotel. Esses, é claro, odeiam o governo.

Quanto a guerra civil parece mais possível no Brasil do que aqui. Aqui nas ruas as pessoas falam o que querem e não vi ninguém brigando com elas como vi nos videos do facebook dos protestos no Brasil.

Meu conselho continua sendo sempre o mesmo: Não acredite nem nisso, nem na globo vá no lugar e veja sozinha/o. Em geral vai perceber que a verdade vem da história pessoal e não dos escritos que são financiados.  Jornal a cada dia parece mais que é feito para nos des-informar.

De qualquer maneira sabendo que o salário minimo não é nem 7 mil bolivares fico sempre me perguntando essa enorme aprovação de tantas pessoas pobres do Chavez é um milagre , falta de sentido ou muita consciência política? Sei lá.. Vem ver e me conta. Que é impressionante isto é.

“De Los Buses a la Playa” e possível Governo por decreto

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Cruzamos a Venezuela para chegar as famosas praias. Muitos nos disseram para ir a Los Roques e outras ilhas. Devem ser lindas mas tão exausta do desmatamento la do sul da Venezuela e do estado de Roraima no Brasil desisti quando vi que as ilhas pareciam muito secas. De fato o mar era do Caribe mas não estávamos com vontade de ir parar num lugar só de turistas estrangeiros e com pouca possibilidade de fuga, a não ser um avião que dizem que tem passagens escassas.

Então pegamos um onibus de Santa Elena para Puerto Ordaz. 12 horas de onibus pela noite. Na rodoviaria tinha militares armados mas nao pareciam perigosos. Havia muitos brasileiros e poucos onibus. Ali ficamos amigos de um filosofo do Pará que estava voando por 100 reais para Cuba. Como era do PCdoB, vulgo partidão, tinha arrumado um jeito muito barato de se hospedar na terra de Fidel.

Já diria Adenilson era um verdadeiro “CoMIMnista”. Nos deu aula sobre o grao Pará por quase toda viagem e chamou uma amiga para busca-lo em Puerto Ordaz. A mãe da amiga veio, e ofereceu nos hospedar também, ele bebeu sua cerveja e, nem se quer se ofereceu para dividir a refeiçao da Amiga. Nós claro, que o fizemos afinal, em puerto ordaz terra industrial e de minérios falta tudo. Talvez nada disso tivesse me afetado tanto se não tivesse querido dar aula sobre a maldade de todos os muçulmanos que conhece só pelo youtube. Ou talvez tenha sido o fato que tenha metido pau em religiao e queria fazer tatuagem de nossa senhora. Ah…. das incongruências dos “Comunistas cristãos”

Dali partimos vendo uma cidade infeliz e tomamos o segundo onibus por mais 12 horas. Ha muito do que dizer desse onibus mas o mais marcante foi ver o principio da criacao do Seu Macedo no nosso onibus. Nos chamava para rezar em coro. Participar em repetição demonstrando nossa fé em jesus para que o onibus não sofresse um acidente. Por fim vendia filmes dele pregando.

Eventualmente chegamos a Maracay. Lugar muito mais tranquilo. Povo calmo. E entao encontramos o nosso onibus para Choroni.

Este realmente me lembrou a India. Mas tinha uma diferença radical assim que se lotou. Com todas as janelinhas abertas, apertadinhos como sardinha o mororista deu partida e de repente explode o “papaparapará” da salsa! Tivemos um acesso de riso. Os metais altissimos, a musica alegre. Pensei ” Pode até ser que o pais esteja em guerra em algum lugar, aqui estamos indo “a la playa”, estamos em ritmo de caribe.” Todo mundo do onibus era das cidades próximas e estavam indo passar final de semana na praia. Jovens, alegres que definitivamente nao eram da alta classe.

Nosso motorista amava sua buzina e as vezes buzinava em contraponto dos trompetes.

Subimos uma montanha, entramos no parque Henry Pittier, fomos a quase 2000 metros, passamos frio, demos a volta e descemos tudo de novo do outro lado. Chegando ao nível do mar passamos em altíssima velocidade pela ruas estreitas de Choroni, que era a cidade de cima, fundada em 1616. Toda bonitinha. Casas coloridas de adobe, calçamento de pedra. Descendo está Puerto Colombia que fica a beira mar. Durante o final de semana é lotado. Agora fica calmo.

Num lugar que falta tudo achamos o PacoPizza que tem até pizza de quatro queijos, tiramissu e energia quando falta por toda a cidade.

Ficamos amigos do Ricardo que é um dos mais jovens membros da família do PacoPizza. Ele nos explicou que na crise tem que fazer adaptações, inovações e encontrar conexões para achar ingredientes que estão naturalmente muito mais caros.

O italiano dono do nosso hotel que não tem paciência para ficar em fila, disse que nao tem manteiga etc.

Fico impressionada de ver a familia do PacoPizza. Venezuelanos que detestam o governo mas que sao capazes de manter tudo funcionando.

Ainda conhecemos duas pérolas. Chive, que parece o don corleone, sentado vendendo de um tudo. Pescador, produtor de óleo de tubarão, chavista, que senta vendendo um itens, dando conselhos, histórias e ordens.

E é claro Pelele a prata dessa cidade…. Que nos sugeriu visitar dezenas de lugares. Se formos ver tudo que ele nos indicou temos que nos estabelecer aqui por muito tempo. 🙂

No entanto, os EUA fazem sanções, declaram que a Venezuela representa uma ameaça a segurança deles, e Maduro por sua vez pede para governar por decreto!!! E aí será que é hora de partir?

Venezuela- As políticas na fronteira

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Já que estou escrevendo sobre como foi subir o Monte Roraima no meu blog em inglês vou escrever aqui sobre o que vamos descobrindo aos pouquinhos por santa elena.

Santa Elena é a primeira cidade que encontramos na Venezuela depois de cruzar pela BR 174 que vem de Manaus passando por Boa Vista.

Acho que todas as fronteiras de lugares que não são da europa ocidental são meio parecidas. Tem sempre tráfico , contrabando e gente fazendo câmbio de dinheiro.

A Venezuela, como os brasileiros devem estar cansados de saber, está passando um momento difícil, com uma economia colapsando e uma escassez generalizada . As razões para isso são debatidas por todos. Em geral as pessoas que são de espectros políticos distintos tem visões muito diferentes.

Muitas pessoas da esquerda diziam que todos os presidentes antes de Chavez tinham sido piores que ele. O país tinha uma economia mais forte e também tinha mais desigualdade social.

O que eu aprendi até agora? Muita coisa. Só estive em uma província, uma cidade, mas também ouvi viajantes que viajaram pelo resto do país de carro e é claro ouvi dos locais dessa cidade e de outras. Dá para falar que o que eu escrevo aqui é portanto a realidade da Venezuela? Claro que não. No entanto, dá para falar do pouco que vi e ouvi até hoje.

Aprendi de um economista Venezuelano que antes de 58 houve sempre um regime militar que era um legado de guerra de independência. Nos explicou que em 1830 morreu bolívar e se deu então a separação da Venezuela e da Colombia. Em 1958 começou a democracia civil. E foi em 1998 que Chavez ganhou as eleições para a presidencia.

A crise nos explicou começou antes, nos anos 80. E agora sofrem por causa de mais uma queda do petróleo. Nos contou que 70% dos alimentos na Venezuela são importados.

Há frase mais dita aqui é ” No hay.”. Claro que passei a perguntar a todos que encontro desde quando não plantam aqui. E então as informações ficam confusas. Alguns dizem que plantavam e foi parado, outros que terras foram tomadas pelo governo e que ja não plantam mais, e outros explicam que o petróleo resolvia todos os problemas.

Maduro parece não ser muito aceito. No entanto, os que o apoiam explicam que Santa Elena não é a Venezuela. Aqui as pessoas vivem da troca com Brasil. Tudo é mais caro, e o contrabando de gasolina para o Brasil é enorme.

Os carros são velhos. A gasolina no lugar mais caro da Venezuela é de graça para o povo de Boa Vista. Se vê muita gente com carros do Brasil aqui.

Hoje conheci uma taxista maranhense que morava aqui e não pensava em voltar ao Maranhão. “Aqui tudo é mais fácil.”

Também percebemos que todos pegam taxis. Qualquer corrida custa o preço de 100 bolivares ( nem dois reais).

Talvez um dos nossos encontros mais impressionantes tenha sido com dois homens, um que amava Chavez e outro que o odiava.

O que o odiava contou que tinha votado para Chavez. E ele que também odiava Maduro explicou que era do exercito quando Chavez foi eleito pela primeira vez. Disse que todos foram forçados a votar nele. Com seu comandante apontando a arma, ele e seus camaradas foram obrigados a votar em Chavez.

Esse homem confirmou que de fato Chavez tinha dado computadores a todas as criancas na escola como os chavistas nos tinham dito, mas agora no tempo de Maduro explicou que era muito distinto.

Resolvi perguntar ao maior Chavista que conheci sobre isso. Ele ficou perplexo e disse que trabalhou nas eleições e nos explicou o sistema.

O Chavista explicou que o voto era eletrônico e que saia imediatamente um comprovante da votação que ia também para uma urna. O mesmo voto era guardado eletronicamente e num papel dentro da urna. No caso de duvida podia-se abrir e contar.

Resolvemos verificar no pai dos burros, hoje em dia o google e de acordo com a revista Forbes a Venezuela emprega um dos sistemas de votação mais confiáveis e verificáveis do mundo. Tudo que o Chavista explicou estava ali, quem diria, na Forbes. Aprendenos ali também que no final da eleição pegam 52,98 % das urnas para serem abertas aleatoriamente para se confrontar com os dados eletrônicos.

Claro, que constatamos que isso não significava que os soldados não foram obrigados a votar no Chavez mas pelo menos parecia dificultar muito fraude no processo eleitoral.

Isso as vezes me parece o Oriente Médio sao tantas opiniões distintas ao mesmo tempo. Mas fronteira é fronteira nunca dá para saber o que se passa no resto do país…

Estava aqui decidindo que era ora de parar de escrever quando começo uma conversa interessantíssima com mais dois Venezuelanos. Um sociólogo que não gosta de Chavez e outro agrônomo que gosta.
O agrónomo depois de nos contar muitas coisas, nos convidou para nos levar para ver uma pedra na casa de um amigo. A casa é muito bonita e cheia de pedras semi-preciosas.

O dono se diz Cacique Taurepan e defende a prática de botar fogo em tudo. Mora em casa bela, é piadista e não dá para saber o que é mentira e o que é verdade do que diz. André não acredita que ele é índio nem aqui nem na China. Acha que comprou a identidade indígena para ter “muitos benefícios”. Já eu, acho que é índio e sem dúvida corrupto.

O agrônomo nos explica que só nessa provincia tem – coltan, diamante, ferro, silício , bauxita, tório, quartzo, dolomita, timbelita, urânio e muitas outras coisas que não consegui escrever a tempo.

Ele que trabalhou no ministério de proteção ambiental, nos mostra a árvore do país . Aqui se chama Agaraney, que é amarela, quando nos dá o nome científico verificamos para confirmar o que já achava André. Ipê amarelo. Diz que durante o governo de Chavez ele mesmo participou do projeto de reflorestamento de duas províncias. Até o Chavez, disse ele, trabalhou nesses projetos para minimizar a ineficácia. Hoje não há mais dinheiro para esses projetos.

Nos explica que é por causa da presença de tantos minérios que os indígenas queimam. Têm medo da combustão espontânea.

Pergunto a ele: vc gosta do Maduro?

“Soy Chavista pero Maduro se lo cago todo.”

Venezuela- Da escassez e da generosidade

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Hoje eu acordei aqui em Santa Elena Uairen e fui tomar café numa pequena padaria. Nosso hotel era longe do centro e já havia decidido que tomaria café ali perto mesmo e mudaria para o centro.

Andamos tranquilamente vendo uma cidade funcionando normalmente. André constatou que o preço alto da gasolina no Brasil talvez ajudasse a qualidade do ar, por fazer as pessoas comprarem carros mais econômicos. Aqui os carros sao velhos e a gasolina custa mais ou menos um real para encher o tanque, o que no fim deixa o ar muito poluído.

Na padaria fomos muito bem atendidos. O café era forte e sem açúcar, como queríamos. Comemos pão com queijo derretido e constatamos que também não faltava aqui. A padaria era simples, não luxuosa como a que vimos no centro. Tudo estava ótimo e todas as pessoas lá eram locais.

Ao nosso lado havia uma mulher com uma menininha. De repente apareceu um senhor e deu à menina um sorvete. A mãe disse a ela que aceitasse e agradecesse. E assim ficou claro que nem se conheciam.

Perguntei à menina seu nome e sua idade. Disse que se chamava Juliana e que tinha 5 anos. Então disse que ela tinha muita sorte de ganhar um sorvete daquele senhor. Sua mãe explicou que ela tinha pedido aquele sorvete e que ela, a mãe, tinha dito:

“Agora não.”

Por isso ela explicou que o senhor tinha dado a ela. Deve ter imaginado que eu não podia comprar. Ela a mãe, ainda insistiu para a filha:

” agora não só depois de tomar café da manhã. Não dá para comer só coisas doces a toda hora. ”

Achei bonitinho perceber que o senhor local tinha comprado aquele sorvete sem saber toda a filosofia da mãe sobre a importância de um bom café da manhã.

Então voltamos ao nosso antigo hotel, fizemos a mala e caminhamos até o centro. É longe, não fazia calor demais, e nem tampouco vimos qualquer tipo de violência. A vida transcorria naturalmente.

Quando tive acesso mais uma vez a internet recebi uma mensagem da minha mãe me perguntando como estávamos aqui e mandando um artigo para me informar do que se passava por esses lados.

“Lojas fechadas por causa da violência em Santa Helena.”

A noticia vinha de um jornal de Boa Vista. Andamos na rua muitas vezes e de fato as lojas fecharam uma hora para reabrir depois do almoço 🙂

Depois de andar por tudo que é canto e perguntar a todos. Um senhor se espantou com a tal noticia. Disse que isto só podia ter sido em Caracas.

Lembrei do documentario ” La revolucion no sera televisionada.” Depois pensei em tudo que dizem sobre a Palestina  e pensei que se não fosse tão sério seria hilário.

Por isso a cada dia confio menos nas notícias do jornal que sempre tem simplesmente reportado o que parece só satisfazer a política dos poderosos da vez.

Depois que eu escrevi meu post minha mãe me explicou que esse artigo era antigo.

Voltei então a rua e finalmente vi uma experiência “violenta”. Fomos comprar um chip de celular. Os privados estão esgotados. Só nos restava então ir à companhia estatal.

Ali sim me pareceu violento, parecia o que deveria ter sido a União Soviética. 2 funcionários para atender. Os dois maltratando os consumidores. Fizeram um deles até por impressão digital para assinar um contrato. O outro que aparentemente já tinha linha, teve que ficar ouvindo o funcionário reclamando bravo que ele , consumidor estava reclamando só porque a linha não tinha chegado! Só fazia 15 dias que ele tinha assinado! Nessa altura já tínhamos desistido de comprar a nossa e só ficamos para assistir o final do espetáculo. Longo e barulhento demais, partimos.

De volta ao hotel vimos gente que voltava do monte roraima.  Exaustos. Aqui também estava faltando água. O rio nos explicaram está mais baixo. Agua veio de um caminhão.

Pergunto ao Venezuelano. Sempre foi assim?

“No todo está se quedando mucho peor en Venezuela. Todo es muy barato, pero no hay”

Não vimos violência nas ruas, só a comum indiferença daqueles que não devem poder perder trabalho. Em geral a gente é como sempre, muito boa. Vejo tudo isso entoando em minha mente

“E eu que não creio peço a deus por minha gente. É gente humilde que vontade de  chorar.”

Do Surf, da Violência e dos Muros

O que será que é pior? Violência perpetuada dentro de um sistema ou de fora? Será que há alguma diferença nisso?

Por que eu estou pensando nisso mais uma vez hoje? Muitas razoes. De um lado Ricardo do Santos, proeminente surfista de 24 anos foi morto pela policia aqui no Brasil. Do outro lado uma mensagem que vem de Israel de uma das minhas melhores amigas.

“Um menino entrou num onibus e atacou com uma faca 13 pessoas.”

Meu sentimentos sao imediatos. O que será que aconteceu antes? O que será que acontecerá depois? Pergunto a minha amiga onde ela está.

“Num onibus em Jerusalem indo para faculdade. Quero muito falar com você hoje.”

“Michal, você está com medo! Sim vamos nos falar hoje!”

“Sim, sempre”

“Claro. Quando for 8 aih :)”

Eu conto que estou na praia mas não conto do surfista. Da policia tao violenta daqui que sempre considera qualquer razão para atirar no outro, desde que seja pobre, ou indígena.

Venho tomar café da manhã pensando em todas essas mil informações despejadas em mim. Pensando que faz dias que meu amigo da Cisjordânia quer fazer uma pagina de integração de muitas religiões. Nesse esse e-mail que ele me mandou e que publiquei na minha pagina do facebook dizia algo de muito profundo. A violência vem do desconhecimento. Pedia paz ele que é muçulmano e que tinha estudado judaísmo, cristianismo, budismo e muitas outras religiões.

Uma vez eu fiz uma aula chamada “Violência política/ terrorismo”. Era uma aula intrigante. Aprendi coisas demais ali. No entanto, eu não aprendi o crucial, a base da violência. A base cognitiva, neurológica, química e psicológica.

Como já disse antes um Tibetano não entende o ódio. Todos que eu encontrei o entendia como pejorativo porque cria redes neurológicas repetitivas para aquele comportamento que nunca gerava transformação. Mais profundamente crêem que devemos atuar no mundo, mas não sem termos no centrado antes. Assim as mudanças são mais solidas e positivas.

Sentada e pensando na violência sinto que a violência acontece por duas razoes opostas. Um desejo de mudança da situação presente, e do outro lado pelo desejo de manter a situação presente. Em suma é pela incapacidade de aceitar a natureza da impertinência das coisas. Minha mãe diz que mudança tem que ser de aluvião, como as que mudam os rios, aos poucos e continuamente.

Não sei porque razão o policial quis atirar no Ricardo dos Santos. Nem porque o menino esfaqueou os israelenses num onibus. No entanto, sei que todos eles, policial é palestino, não tinham real consciência de nada. Nenhum estava centrado, nenhum podia imaginar o que seguiria depois.

Em Israel mais medo, mais uma certa reacção a população não violenta palestina que sofrerá e provavelmente criará novos terroristas. A do policial porque evidencia mais uma vez que no Brasil policiais não tem critério e que atiram em qualquer pessoa que os ofenda. Ter sido um conhecido surfista só nos permite ver mais claramente isso. Isto que todos nós já sabemos.

O que pensar de violência legitimada por estados? O massacre dos russos na Chechenia, de Israel em Gaza, dos EUA no Iraque? O que devemos chamar Hiroshima e Nagasaki? Etc… Etc.. Etc…

Estou cansada de ouvir as justificativas. Nem sei mais discernir o que é pior, a do estado ou a do Indivíduo. Mas sei que a do Estado é legitimada. Talvez o que eu ache mais chocante seja que a violência de Estado roube das pessoas a responsabilidade individual da violência, do seu ato. Estão no sistema. Como colocaria a Hannah Arendt é a banalização do mal.

Eu lamento todos esses atos. Não acho nenhum justificável.

Para variar fico com os Tibetanos. Se faz necessário ser consciente na sua ação, ser consciente te faz ser responsável. Exércitos e Policia roubam isso de uma pessoa .

Acho admirável saber que SS Dalai Lama falou dentro do Zulai, templo Chines, em Cotia. Acho admirável qualquer um que consegue passar por cima dos sistemas para reconhecer o indivíduo de um grupo.

Acho admirável todos aqueles que tentam entender porque estão fazendo o que estão fazendo em seus nomes.

Concordo com o Bassam a violência vem da ignorância.

Se faz necessário mais do que cruzar os muros de separaçao físicas.. Os muros mais difíceis de serem transpostos são os nossos muros internos. O do ego, o do medo e o do ódio.

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Também não sou o Charlie

Lamento muito o que se passou com Charlie. Lembrei que há anos vi uma palestra de um estudante de Harvard que era do Iraque. Naquela época acontecia a guerra do Iraque. Vimos nessa conferencia toda a destruição dos museus, das bibliotecas, da cidade, da população.

Omar, o Iraquiano, falava de humor. Acho que o talk era intitulado “Humor is the last refuge of those in pain.” Quando não tem mais nada a fazer as pessoas riem. Riem porque dói demais.

Depois pensei naturalmente nos muçulmanos que por causa do ato de um único toda uma população seria punida, mais uma vez discriminada.

Lembrei do Edward Said que tinha um livro intitulado “Covering Islam”. Nele Said dizia que cobrir o Islã era naturalmente cobri-lo, colocar uma coberta por cima dele. Não há como falar de uniformidade de pensamento de pessoas que vão da Indonésia, ao oriente médio passando por tantas outras regiões como sendo comum.

Então pensei no Islã que quer dizer paz. E em todos os meus amigos que não demonstraram nada alem disso, nem no norte da Africa, no Oriente Médio nem na Indonesia. Até os muçulmanos que conheci na Europa ou nos Eua não eram agressivos ou radicais. De alguns sou grande amiga até hoje.

Eu que cheguei em NY dias antes de 911. Eu que vi tão de perto começar um ódio geral aos muçulmanos. Eu que estive do lado de uma Iraniana que chorou pelos Iraquianos. Ela que tinha vivido a guerra de Iran e Iraque não podia conter as lágrimas pelas bombas. Repetia “Ninguém sabe o que é isso.” Nós todos lá em NY vimos quaisquer Árabes serem discriminados.

Lembrei então do Fayez meu amigo palestino super religioso. Lembrei-me da nossa conversa. Numa das mil vezes que eu voltava a Nablus, na Palestina. Ele me perguntou o que eu achava dos muçulmanos.

“Fayez, como é que eu posso falar de toda uma população que abrange tantos países? Posso falar dos meus amigos, dos muçulmanos que encontrei pelo caminho, em suas casas, pelas estradas.”

” Não Jules, me diz o que você pensa do Islã.”

“Fayez, se eu te disser o que penso vc vai ficar ofendido. E esse não é meu objetivo.”

“Conte me- Jules. Quero saber o que você pensa.”

Respirei fundo e diante de um dos mais assíduos muçulmanos que eu conheço disse o que pensava. Disse a verdade. Aquela que chocaria qualquer religioso de qualquer religião do livro.

” 1. Não sei se deus existe. 2. Se ele ou ela existirem não acredito que se importariam com pequenos detalhes do comportamento dos seres humanos, e finalmente se ele/ela se importasse eu não o/a louvaria.”

Assim que terminei a frase me dei conta quão ofensivo era aquilo tudo que eu tinha dito.

Meu amigo ficou parado e disse:.

“Meu sangue ferveu. Mas eu entendo que você não disse isso para me ofender. Posso te fazer uma pergunta?”

“Claro.”

“Vc já sentiu frio, calor, raiva, amor, ódio, ansiedade, medo, desespero, pavor, alegria…”

E assim foi por todos os sentimentos do mundo.

“Sim.”

“Jules, e quando você sente essas coisas está sozinha ou com alguém?.”

” As vezes sozinha, noutras com alguém.”

“Jules, eu sigo todas essas regras que talvez te pareçam sem sentido porque eu as aprendi. E eu as sigo porque eu nunca me sinto só. Deus sempre está comigo. Eu as sigo em gratidão. Quando eu colocar a minha cabeça no chão vou rezar para que você um dia sinta isso.”

Eu não era religiosa. No entanto, eu chorei. Era aquilo que eu buscava, o fim da solidão. Ainda que talvez uma parte minha ainda achasse que ele deslocasse a responsabilidade para algo de fora que não sabemos se existe, como eu poderia condenar aquilo?. Aquele era um muçulmano que colocava a cabeça em direção a Meca 5 vezes por dia. Eu tinha exprimido palavras que seriam muito ofensivas a qualquer pessoa que seguisse qualquer religião do livro. Judaismo, Cristianismo e Isla. Ele as ouviu, reza até hoje por mim.

Vejo ultimamente na minha pagina do facebook que está cheia de gente dizendo “Eu sou o Charlie”. Eu lamento o ato de terror. Isso é política não é religião. Lamento que o mundo de repente se volte tanto a querer ter o direito de falar o que quiser sem nunca pensar no outro.

Volto aos Tibetanos e penso que o caminho a felicidade é pensar no outro, o caminho do sofrimento é a ênfase do ego.

Dizer qualquer coisa é o valor do egoico. Aquele que nunca pensa na consequência para o outro.

Minha mae me deu um artigo do New York times para ler. ” Eu não sou Charlie.”

Eu também não sou. Eu lamento o ato de terror, mas ainda mais o fortalecimento da discriminação dos muçulmanos pelo mundo. A total ênfase de si mesmo.

Meus amigos muçulmanos incorporam de fato o que quer dizer Islã. Paz. Pena que também pagarão pelo ato de um único terrorista.

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