Do Surf, da Violência e dos Muros

O que será que é pior? Violência perpetuada dentro de um sistema ou de fora? Será que há alguma diferença nisso?

Por que eu estou pensando nisso mais uma vez hoje? Muitas razoes. De um lado Ricardo do Santos, proeminente surfista de 24 anos foi morto pela policia aqui no Brasil. Do outro lado uma mensagem que vem de Israel de uma das minhas melhores amigas.

“Um menino entrou num onibus e atacou com uma faca 13 pessoas.”

Meu sentimentos sao imediatos. O que será que aconteceu antes? O que será que acontecerá depois? Pergunto a minha amiga onde ela está.

“Num onibus em Jerusalem indo para faculdade. Quero muito falar com você hoje.”

“Michal, você está com medo! Sim vamos nos falar hoje!”

“Sim, sempre”

“Claro. Quando for 8 aih :)”

Eu conto que estou na praia mas não conto do surfista. Da policia tao violenta daqui que sempre considera qualquer razão para atirar no outro, desde que seja pobre, ou indígena.

Venho tomar café da manhã pensando em todas essas mil informações despejadas em mim. Pensando que faz dias que meu amigo da Cisjordânia quer fazer uma pagina de integração de muitas religiões. Nesse esse e-mail que ele me mandou e que publiquei na minha pagina do facebook dizia algo de muito profundo. A violência vem do desconhecimento. Pedia paz ele que é muçulmano e que tinha estudado judaísmo, cristianismo, budismo e muitas outras religiões.

Uma vez eu fiz uma aula chamada “Violência política/ terrorismo”. Era uma aula intrigante. Aprendi coisas demais ali. No entanto, eu não aprendi o crucial, a base da violência. A base cognitiva, neurológica, química e psicológica.

Como já disse antes um Tibetano não entende o ódio. Todos que eu encontrei o entendia como pejorativo porque cria redes neurológicas repetitivas para aquele comportamento que nunca gerava transformação. Mais profundamente crêem que devemos atuar no mundo, mas não sem termos no centrado antes. Assim as mudanças são mais solidas e positivas.

Sentada e pensando na violência sinto que a violência acontece por duas razoes opostas. Um desejo de mudança da situação presente, e do outro lado pelo desejo de manter a situação presente. Em suma é pela incapacidade de aceitar a natureza da impertinência das coisas. Minha mãe diz que mudança tem que ser de aluvião, como as que mudam os rios, aos poucos e continuamente.

Não sei porque razão o policial quis atirar no Ricardo dos Santos. Nem porque o menino esfaqueou os israelenses num onibus. No entanto, sei que todos eles, policial é palestino, não tinham real consciência de nada. Nenhum estava centrado, nenhum podia imaginar o que seguiria depois.

Em Israel mais medo, mais uma certa reacção a população não violenta palestina que sofrerá e provavelmente criará novos terroristas. A do policial porque evidencia mais uma vez que no Brasil policiais não tem critério e que atiram em qualquer pessoa que os ofenda. Ter sido um conhecido surfista só nos permite ver mais claramente isso. Isto que todos nós já sabemos.

O que pensar de violência legitimada por estados? O massacre dos russos na Chechenia, de Israel em Gaza, dos EUA no Iraque? O que devemos chamar Hiroshima e Nagasaki? Etc… Etc.. Etc…

Estou cansada de ouvir as justificativas. Nem sei mais discernir o que é pior, a do estado ou a do Indivíduo. Mas sei que a do Estado é legitimada. Talvez o que eu ache mais chocante seja que a violência de Estado roube das pessoas a responsabilidade individual da violência, do seu ato. Estão no sistema. Como colocaria a Hannah Arendt é a banalização do mal.

Eu lamento todos esses atos. Não acho nenhum justificável.

Para variar fico com os Tibetanos. Se faz necessário ser consciente na sua ação, ser consciente te faz ser responsável. Exércitos e Policia roubam isso de uma pessoa .

Acho admirável saber que SS Dalai Lama falou dentro do Zulai, templo Chines, em Cotia. Acho admirável qualquer um que consegue passar por cima dos sistemas para reconhecer o indivíduo de um grupo.

Acho admirável todos aqueles que tentam entender porque estão fazendo o que estão fazendo em seus nomes.

Concordo com o Bassam a violência vem da ignorância.

Se faz necessário mais do que cruzar os muros de separaçao físicas.. Os muros mais difíceis de serem transpostos são os nossos muros internos. O do ego, o do medo e o do ódio.

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