Das dores e o Tao

Ontem quando vi o sol, coloquei meu pé no jardim, todo o meu corpo se fez presente e eu escrevi.

Então, voltei ao jardim em direção a praia. Assim que pisei na areia meus musculos se alongaram, e o que até então era pura presença se definiu no meu cérebro como dor.

Respirei fundo, e um certo desapontamento me visitou. Lembrei das minhas próprias palavras. A impermanência de toda aquela mobilidade. Confesso que pensei em voltar mais uma vez para cama.

Olhei o céu, as ondas, o sol. Tudo ali em silencio se pintava como um convite para dar um passo a mais para frente em direção aquela dor.

Andei, reconhecendo tudo que doía. E quando eu cheguei ao lugar exato da minha prática do dia anterior eu tentei tocar o chão. Meu corpo gritou mas eu preferi ouvir o OM do mar, e assim por mais um dia eu passei por todos os professores, lamas, yogis, mestres que eu encontrei pelo caminho enquanto fazia minha prática. Dessa vez com dor que gritava por todo o corpo.

Um dia a mais de quase total silencio. Graças a deus sem televisao, conversas inúteis. Um dia de pura tranquilidade, mais um.

Porque será que alguém se fecha numa caverna me perguntei? Sendo roubado da luz, do sol, do vento? Nao sei. Gostaria de saber.

Hoje eu acordei e tinha luz pelas frestas do meu quarto. Sinal que eu tinha dormido bem e muito. No meu mundo, um verdadeiro presente.

Acordei ainda dolorida e nem se quer pensei em nao ver o sol, o mar a areia. Tudo ainda doia, mas tampouco era essa razão de não começar uma prática de mistura de yoga, tai chi, dança contemporanea como tinha feito ontem numa praia quase totalmente vazia.

De olhos fechados esqueci que talvez hoje tivesse gente na praia. Horas depois, de ser molhada, meditar, entrar no mar. Algumas pessoas vieram me perguntar se eu era professora de yoga.

No laos algum fotografo de dança achou que eu era modern dancer. Tirou centenas de fotos,e perguntou se deveria me mandar. Disse que não e expliquei que assim ficaria para mim sempre, só a memória da concentração na minha respiração, e o movimento do rio tornando aquilo um professo interno de “balance”. Nunca esqueci.

Hoje um cara que fazia documentário me perguntou do Tai Chi. “Que bonito essa forma de Tai Chi”!

Sorri e pensei em Lao Tse. Nao quis explicar que aquilo nao era yoga, tai chi, chi kung, dança. Era quem sabe Tao.. O caminho. Pensei no lendario Lao Tse sendo forçado a escrever um livro antes de desaparecer numa montanha.

Ouvi todos, quase em silencio e voltei para a minha casa.

Desde de ontem penso na dor. Primeiro a dor que me impedia de ser o que eu sou. Uma dor silenciosa que te comprime e que te convence que o melhor é parar. E na dor de ontem e dessa manhã.

Dor gritada, dor de ferida aberta, dor que vc pode ou passar anestésico e cobrir, ou fazer como fizeram na montanha da kashemira.

Ocidentais mandaran fazer o primeiro na minha mao aberta subindo montanha. A senhora local me mandou abrir, desinfetar com alcool e deixar aberto todo o dia. Eu NUNCA gostei de médico, mas ali naquela montanha eu sabia que aquela senhora sabia melhor. Deixei-a limpar, depois deixei aberto até o sol da montanha desaparecer.

” Cubra agora antes de dormir. Amanhã abre de novo e deixe no sol.”

A dor de ontem e hoje foi igual! Latente, rasgada, gritada! Mas é dor de vida! Você quase aprende a ser grata pela sua existência. Te faz grata por conpreender a diferença das dores.

A primeira que te contem, te prende, nao te possibilita movimento, te apodrece por dentro, em silencio e se mascára de menor, de silenciosa, de que a cura é fecha-la, anestesia-la .

A segunda parece de cara que vai te matar, te rasgar, soprar ar com alcool, ferro no corte, mas ela abre aquela ferida, e queima tudo que tava apodrecendo, enche seu olho de lagrima de alivio, tem algo que se move, abre e espera secar com o sol.

De repente parece, que aquela frase é mais completa, algo se abriu um pouco mais e eu ouço no silencio do OM

“O mundo de dentro nao pode ser reflexo do mundo de fora. Consciente dele, o mundo de dentro deve buscar a permanência em meio a impermanência de tudo. No fundo, o mundo de dentro não pode tampouco confundir permanência com rigidez, com falta de movimento, dentro da impermanência de tudo, e a permanência interna se faz sempre necessário TAO, o caminho. Se faz necessário caminhar.”

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O Mundo, o de dentro e o de fora.

Abandono o silêncio obrigado, a temperatura do meu corpo ainda está alta. Nao faz sentido, simplesmente nenhuma daquelas regras fazem sentido.

Talvez tenha sido a infusão de canela e gengibre colocado a minha frente que me faz tomar a decisao final, depois de ter sido por alguém afastada do sol. Eu já sabia no meu corpo quente, que um lugar lotado de pessoas, diariamente tossindo mais , me deixaria mais doente.

Mas ali, aquela infusao de duas substancias que qualquer asiático sabe esquenta a temperatura do corpo tenha me feito decidir que eu partiria.

Para onde, me perguntei? E até a rodoviaria ainda nao sabia muito bem. Ubatuba sozinha, decidi. Faría minha meditacao em frente ao mar, poderia ler o que se passava no mundo, responder, comería, e faria o que diziam meus amigos era importante: correr, fazer yoga, nadar, e beber agua.

Nem sabia que o tempo estaria naturalmente perfeito. Eu tinha tudo para nao passar frio. Nada de praia. Andei pelo caminho sem me preocupar de ficar só numa casa aberta, a beira mar. Nem se quer entendi muito bem essa preocupação da minha mãe.

Bastou um dia para eu entender que fora de temporada e sozinha numa casa vazia eu me sentia perfeita. Tudo estava ali a minha volta, mesmo que eu jamais tivesse planejado vir para ca.

Dormi e acordei com a música do mar. Mas foi apenas ontem que eu resolvi fazer o que eu nao fazia há anos. Sentei na frente do mar, embaixo do sol e foi uma junção, como o quer de fato dizer a palavra yoga.

Enquanto eu dançava por todos os asanas e por partes do meu corpo tao proibidas para mim desde que eu quase morri, eu estive presente , totalmente presente.

As vezes lágrimas transbordavam e vinha a minha mente Rinpoche falando das lagrimas. Nao havia plano, trajetória e quando isso vinha a minha mente eu pembrava da minha prática num barco, por dias no Laos também assim.

E o movimento continuava como uma dança da qual eu era apenas espectadora. Quando eu eu me dei conta, meu corpo estava fazendo algo impossível por meses…

Erick, meu amigo que me levou para escalar a noite, e que é a unica pessoa que tinha de fato entendido a minha dor alongando. veio a minha cabeça dizendo. “Ju, voce sabe isso eh neural e mental, para de pensar, relaxa que tudo volta.” Eu ri e chorei e des-acreditei naquele dia.

E ontem eu continuei por horas fazendo yoga,numa praia quase vazia. Deitei num asana e o mar de repente beijou o meu corpo. Senti simples e total felicidade. Sinal que era tempo de parar. Sentei e meditei no comeco de olhos semi abertos, por fim fechados. Se nao fosse o mar me guiando talvez teria ficado por mais horas.

Entrei no mar. Tentei entoar “om mani padme hum”. No entanto parei e ouvi, que por baixo de todas aquelas quebras havia sempre simplesmente OM.

É dificil colocar em palavras o que eu senti. Todas preocupacoes do mundo pararam, eu nao queria nada, nem passado, nem futuro. Apenas uma enorme gratidao que meu corpo estava sendo aos poucos devolvido para mim.

Até sabia, que isso era muito impermanente, nao fazia diferença. Queria gritar para o mundo todo. Pensei em rinpoche, karmapa, dalai lama, lama sobsang, Raphael, César, Denise e tantos outros yogis do meu caminho.

Mandei uma mensagem para Bahia, para uma pessoa que eu sabia que talvez me entenderia muito bem. No fundo não sabia se o Sergio iria achar tolo. Ele entendeu. Claro que ele entendeu, nao tem quem tenha passado tempo com os Tibetanos que nao entenda.

Liguei para minha mae quando tinha voltado ao plano e pensei, ela entendeu. Minha avó, tbm mal ouvindo, acho que entendeu.

Pensei então “é tempo de eu deixar as pessoas que de fato se importam saberem.”

Eu só sei escrever. Quero contar isso. Do meu telefone…

Hoje amanheceu chovendo. Eu acordei antes de amanhecer com o som da chuva, mas o mar me fez dormir de novo. Andei na praia, com as pequenas gotas caindo em mim. Meu corpo, claro, sentia todas aquelas partes agora de volta a vida.

Tinha decidido que partiria quando o tempo mudasse. Nao me deu vontade de voltar para Sao Paulo. E uma voz talvez de uma outra vida parecia sussurrar

“O mundo de dentro nao pode ser reflexo do mundo de fora. Consciente dele, o mundo de dentro deve buscar a permanência em meio a impermanência de tudo”

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Pelas frestas…

Vipassana I

A arte se encontra tantas vezes nos lugares mais escondidos.  Eu tenho tido a sorte de encontrar pela minha vida grandes artistas.

 

Quando, eu uma vez escolhi ficar num retiro de silêncio por por 11 dias sem ler, escrever, ouvir música, falar e exercitando a prática de estar presente pensava na  arte. Eu pensava na nossa capacidade de pensar meta-representacionalmente, pensar que aquilo de estar totalmente presente nos roubaria da arte, da nossa capacidade de imaginar aquilo que não era.

 

Quase fui embora do retiro achando que aquilo não era humano, mas não fui. Nem sei muito bem porque eu não fui. Talvez por perceber que o meu próprio cérebro  invocaria qualquer coisa, qualquer filosofia teórica para partir. Porque é de fato difícil estar presente com você mesmo, sem nada que te distraia. Fiquei.

 

Amit, me disse esses dias que Vipassana na forma de Burma é muito violenta. A forma dos Tibetanos é mais delicada. É muito raro o Amit não saber exatamente o que se passa na minha mente, mesmo que esteja do outro lado do mundo.

 

Pensei nos Tibetanos, nas suas mandalas, nas suas práticas. A humanidade de tudo, o valor das risadas. E me lembrei até do lama lobsgang, lama Tibetano, que virou meu amigo e que me disse “vá, é difícil, ,mas vá embora quando vc cansar e achar que não faz mais sentido.”Fiquei surpresa afinal tudo me dizia nas regras que eu devia ficar o tempo todo. Ele como um bom lama sorriu e  disse : “O objetivo não é você acabar odiando meditação. Vá mas não exagera”

 

E eu fiquei porque eu não precisava ficar, foi importante Lama Lobsang me dizer aquilo e foi importante também eu ficar mesmo assim até o final. Tantas frases de SS Dalai Lama, da SS karmapa, SS rinpoche, do Lama Lobsang vieram a minha mente por esses tempos. Principalmente a frase que atribui grande valor aos nossos inimigos.

 

“Nossos inimigos são os nossos verdadeiros e melhores professores”. E como não sendo lama um consegue abandonar toda a dor? A raiva é mais fácil. Já a dor é pior, é bem mais difícil. Então eu volto a música. No silêncio da música eu as vezes encontro o consolo.

Vem-me a cabeça as vezes, quase sempre a Ásia, e o Oriente Médio, em todas as suas outras escalas. Lembro das mandalas feitas meticulosamente e uma consciência que sempre esteve ali, e fora do presente a imagem, mas a delicadeza da execução dos monges em frente a elas é tão profunda. Lembro também dos meninos fugindo do templo para jogar futebol. As risadas…. as constantes risadas dos lamas que encontrei.

 

Esses dias o Elias, um afinador de piano recomendado pelo Benjamim Taubkin veio afinar o piano do meu quarto. Eu não sabia que o Elias era um mestre. Um afinador de todos os grandes pianistas de Sao Paulo, que vai da minha casa (de alguém que não sabe tocar) até afinar pianos na sala São Paulo.

afinar

Eu sentei em silêncio olhando ele afinar. Ele que vem de gerações de afinadores. Sentou, abriu o piano e me contou tudo que tinha para eu saber de um piano de mais de 100 anos. E eu fiquei quieta olhando a arte daquilo.  A meticulosidade que ele tocou tudo, a delicadeza, e a total presença que pouco havia de não estar presente. O saber muito bem toda as escalas do mundo, suas divisões, ouvido tão preciso.

 

Depois eu fui escalar e pensei no mesmo, o tanto que você deve esta presente.  A importância de uma montanha para qualquer pessoa que tenha nascido perto dela… da Colombia, ao Irã ao Tibete ao Japão. São muito raros os nativos de uma montanha que as queiram “colonizar”, vencer.

 

Depois eu fui ver o Alessandro Penezzi e o Zé Barbeiro tocar choro. Estava cansada, muito cansada e quando eu fui falar com eles no intervalo fiquei lá ouvindo dois grandes músicos e de fato fui parar em outro mundo. Zé e Penezzi ficaram até preocupados.

 

Não tinha como eu explicar para eles ali que de fato eu estava longe. Tão longe, pensando no frio de Ladakh, a música do Rajastão, meu desejo de ir ao Irã, a minha saudade de um mundo arrancado de mim, o gosto do por do sol na frente do Mekong. Gratidão por eles tocarem para mim Jacob.

 

Sentei no chão perto do Zé, olhando o Penezzi e ouvindo Magoas sem que ninguém viesse falar comigo. E ponderei sobre a arte e a nossa capacidade de estar presente.

 

Enquanto, eu agora ouvia o mantra mais conhecido do Budismo Om Mani Padem Hum. Pensei que a arte,o amor, a delicadeza estão nas pequenas frestas. Elas vem as vezes da lama, elas viram flores, mas quase tudo que tem valor está pelas frestas….

 

Om mani padme hum em  Tibetano é སྤྱན་རས་གཟིགས་

em Sanscrito  ओं मणिपद्मे हूं

 

Informações do Elias aqui    http://www.afinadordepiano.com.br

Aimé Césaire e a Violência.

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Hoje eu acordei e liguei meu computador, e por acaso abri numa página de alguém que nem conheço mas acabei lendo e falava sobre a violência sobre a mulher.

Então resolvi escrever a esse desconhecido. Depois pensei que devia colocar aqui.

Li a mensagem e fiquei intrigada por várias razões, de certa forma porque lá  ele perguntava sobre abusos. E por isso, mesmo sem conhece-lo, eu resolvi escrever, não para falar mal da crítica, nem para estimula-la. Talvez porque lendo me veio muitas imagens.

Não as típicas, eu imagino. De cara, sem dúvida, a noção de que a violência em direção a mulher é fomentada principalmente pelas mulheres. Afinal, reduto de homem machista, é em geral onde o pai quase não faz parte da criação de um filho.

Depois me veio a cabeça uma coisa mais preocupante, é que no final a condenação da violência sobre a mulher, também é em si uma violência ao homem. Porque, ainda que mais afetadas corporalmente,  financeiramente, psicologicamente etc. No fundo, essa violência não descrimina por cor, ou sexo, ela é uma violência em geral humana.

Como vocês sabem eu viajei sozinha a Asia, o Oriente Medio, a Europa, A america Latina, e o norte da Africa. Muitas vezes, fiquei na casa de pessoas que conheci em ônibus na Palestina, na Kashemira, no norte da Africa, leste Europeu etc. Nunca, eu fui mal tratada. Meus amigos sempre se chocavam com essa fé inerente em mim, no ser humano.

De fato, a India é um lugar machista, mas eu viajei sozinha por lá e quando me sentia minimamente atacada eu começava uma conversa com a pessoa sobre sua família.  Em outras palavras, eu humanizava aquele encontro, entre dois seres humanos tão cheios de histórias e preconceitos.

Por isso, enquanto eu lia tudo naquele post eu pensava que a violência sobre a mulher, também é uma violência sobre o homem. O escritor pos-colonialista Aimé Cesaire no seu livro “discurso sobre colonialismo” em poucas páginas define que a maior violência de um colonialista é “des-humanizar”  o próprio colonizador… Só assim, ele argumenta alguém pode fazer tão mal a outro ser humano. Primeiro ele precisa se violentar, se “des-humanizar.”

A violência contra a mulher, no fundo, nada mais é do que isso…. Uma completa incapacidade de ser presente, de encontrar o outro. No fundo é muito mais fácil matar o corpo, a propriedade do outro, do que a “alma”.  Talvez seja por isso, que vítimas de violência cotidianas não consigam sair dela…. Aquilo é parte daquele sistema, você não consegue ver o seu dominador, como não consegue tão pouco  se perceber parte daquilo. Na rua, é um estranho, mais fácil de ver quem é que você abomina.

Nesse post ele perguntava experiências de violência.  E como eu resolvi responde-lo honestamente eu disse: ” se você quer saber de fato a maior forma de violência que eu já senti. Eu te respondo sem hesitar que é a que sofri sem perceber que aquilo era abuso. É aquela que sofre de uma pessoa que confia.  E geralmente, é conseqüência disso que mata a sua “alma”.

Por isso, que talvez eu ache bem mais fácil a existência de um Palestino do que a de um Israelense. Eu tenho amigos dos dois lados do muro. No entanto, a violência que os Palestinos sofrem é tão evidente que eles não hesitam em saber quem é o seu abusador, já os Israelenses também sofrem, mas precisam fazer mil manipulações no cérebro para legitimar aquele abuso dos quais eles são obrigados a fazer.

Por isso,  que eu não desconsidero o sofrimento das mulheres, mas simplesmente eu não o afasto do sofrimento dos homens. Por que nisso, eu concordo com o Cesaire…. Apenas quem é desconectado demais ( e no fundo todos nós somos um pouco) que pode
fazer tanto mal à um outro.

No fundo, devíamos todos aprender estar melhor dentro do nosso corpo. Estar mais presente. E  mais a vontade, com a nossa limitação e a limitação dos outros…. mas isso, é de fato, bem mais difícil.

Dos Refugiados, da Morte e do Capão

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Leila  Alaoui  é uma fotógrafa brilhante, e ela é minha amiga desde que começou a tirar fotos, anos atrás. Nós morávamos em Nova York. Eu já visitei sua casa no Marrocos, e ela já esteve no Brasil outras vezes.  Agora ela mora no Líbano, e trabalha com refugiados da Síria. Leila foi a primeira pessoa que eu falei pelo Skype quando voltei e mal conseguia falar.  Falamos em Frances o que era intrigante. Eu, que mal falava de novo português, podia falar de tudo com ela. Sobre todos os absurdos que passavam na minha mente. Leila sempre foi assim, capaz de entender o que se está passando, dando o espaço e o tempo do outro.  Ela me fez de fato, querer falar de novo, e um dia, ela me fez querer escrever dos outros, de novo. Fazia tempo que eu não escrevia nada, que não fosse uma análise cerebral, mas Leila me ligou e mais uma vez na sua enorme generosidade mudou meu mundo para melhor.

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Enquanto falávamos, ela me contou de um filme que tinha feito. Quando o vi, fiquei totalmente tocada, disse na hora que falaria sobre ele… primeiro em Inglês porque era para ela, depois quando contei a história aqui na cozinha da minha casa, pediram me que devia ser escrito em Português. No fundo acho que é mais fácil para mim escrever em Inglês. E dificílimo é re-escrever o mesmo texto em duas línguas…. ( ou melhor meio chato). No entanto, Claudia, e Cre aqui de casa têm razão, esse texto devia poder ser lido por quem não sabe falar Inglês. Então peço desculpa pelas minhas mal traçadas linhas e tento o difícil… escrever na língua da minha alma….. a que eu não sei.

Leila trabalhou com refugiados, sobreviventes de guerra, morou e tirou fotos dessas pessoas que ela conheceu bem. E enquanto falávamos ela me pediu uma coisa que eu achei muito intrigante:

“Posso te filmar?”

“Leila, me filmar? Para que? O que eu posso te dizer de interessante?”

O filme dela era tão bonito, com desertos, refugiados, caminhos e histórias… Enquanto eu o via, chorei.

Leila

Então eu disse a ela, o que eu quero dizer aqui.  Contei a ela sobre tudo que tinha me feito pensar aquele filme. Não simplesmente sobre a beleza da fotografia, e do filme, mas do fato que eu tinha sido transportada de volta para fronteira da Africa e a Europa. Essa que pelos abusos  do colonialismo se dá ali no continente Africano. Ceuta, fica na Africa, mas hoje em dia, é Espanha.

Depois desses anos, eu ainda me lembro perfeitamente daquela fronteira. São poucas as coisas que eu me lembro tão bem, no entanto, vendo o filme, não só as imagens me popularam, mas também as sensações.

Havia tanta gente ali. Eu estava voltando para o Marrocos, depois de passar apenas uma única noite em Ceuta. Voltei a pé e lembro de ver pessoas carregando tudo. Vendendo até o formulário de graça da fronteira, porque muita gente nem sabia preenchê-lo.  As pessoas traziam para Africa sacos de papel higiênico, roupas, malas, sapatos..  As pessoas que estavam voltando para a Africa   também pareciam trazer uma Mistura de tristeza, nostalgia e frustracão. Nessas pessoas, que voltavam para “casa” quase se podia ver o desapontamento.  Agora as pessoas que estavam indo para a Europa, assim a pé,  eram seguradas por muito tempo.  Eu era muito mais jovem, mas ainda assim, eu sabia que todos nós estávamos perdidos, deslocados no mundo… Nós éramos o ” entre-mundo”… Nos rostos, dos que partiam se via que buscavam uma vida melhor, num futuro totalmente incerto. E eles seguiam como eu…..

O meu cruzar, foi fácil, afinal eu tinha os “papéis certos”. Não por mérito meu, por total acaso como ficou tão claro naquela fronteira. Porque eu tinha nascido num outro lugar.  Do outro lado, havia centenas de taxis. Eu peguei um qualquer, pensando dentro dele e de mim que muita gente teria medo de pegar um taxi assim sozinha no meio da Africa.  Eu não, ali eu me senti bem, aquelas pessoas eram como eu “deslocadas”.

Todas essas imagens vieram a minha mente enquanto eu via o filme da Leila. E de repente veio também, o encontro que eu tive aqui em Sao Paulo. Estava indo embora de um bar na Vila Madalena quando alguém derrubou um copo no meu pé, e um cara parou para me ajudar.

Nada realmente tinha acontecido comigo. Ele me disse “ola” e disse que eu era muito bonita. E eu agradeci e comecei a conversar com ele enquanto esperava um taxi. De repente ele parou e disse:

” Para de falar comigo, eu sou do Capão Redondo”.

Disse para ele, que não fazia a menor diferença. Ele tinha acabado de me ajudar. Por que ele não devia falar comigo?”

” Olha, você nem sabe de onde eu venho, tão pouco o que significa morar lá!”

“Eu sei, eu já estive lá duas vezes, sei até das estatísticas, e a não ser que você não queira falar comigo, saiba que essa decisão é sua.”

Ele ficou meio intrigado, não totalmente confiou no que eu disse.

Eu insisti e disse

” Sabe eu confio nas pessoas em geral… Eu estive no seu bairro, expliquei os lugares,  eu também estive na Palestina e fiquei na casa de pessoas desconhecidas que conheci em ônibus. Na Kashemira… e em tantos lugares que as pessoa tem medo. Eu não tenho problema em falar com você, a não ser que vc não queria falar comigo.”

Conversamos um tempão. E ele uma hora disse assim:

“Julieta, eu estou impressionado. Você não é típica, Eu vou ser honesto, eu só queria te beijar, você é bonita, muito bonita, e eu achei que vc fosse superficial como quase todas as meninas que eu encontro aqui. No entanto, eu já sei que eu não posso te beijar. Eu consigo ver que você é tão rara que eu quero quase te tocar só para ver se vc é de verdade. E eu consigo até ver a dor que você tem dentro de você, que me faz, sem nem te conhecer, querer te proteger.  Me conta, o que te fizeram nesses lugares?”

Eu disse a verdade, tudo que tinha acontecido comigo que não tinha sido nem em lugar violento, e nem de pessoa desconhecida. E então ele me disse uma coisa tão intrigante. Primeiro ele entendeu melhor que qualquer pessoa a minha dor, o abandono de quem você confia no seu momento mais frágil.

E então ele me disse algo que me Lembrou da Leila também, ou melhor quando vi o filme, me lembrou dele…. Ele disse:

“Ju,  você é tão mais impressionante que eu. Eu nasci lá, Eu não escolhi isto. Você obviamente vem desse lado de Sao Paulo. Um lado Rico. E ainda assim, você escolheu ir ver a vida em lugares perigosos. Palestina, Kashemira, Fronteiras, Colombia. E é por isso que eu não posso te beijar mais como se você fosse mais uma menina superficial daqui. Você é profunda. Você conhece a morte, a vida, a guerra, fronteiras, muros, pobreza. Você escolhe, mesmo sem precisar, ir ver como o mundo realmente é, e não como dizem que é. Por que? Por que você não tem medo? ”

Aquela pergunta me surpreendeu… pensei na hora a respeito.. e em poucos minutos, segundos eu percebi..

“Ninguém que você mal conheça pode te fazer muito mal. Sao as pessoas que você conhece profundamente, que você confia, que podem matar a sua alma. Eu nunca tive medo de perder nada, nem de ser morta, ou estuprada porque tudo isso é tão de fora, que fica óbvio que quem te fez isso é externo, não demora para você perceber o seu inimigo…nunca nesses casos é você mesmo. Talvez por isso eu ache que deve ser mais fácil continuar depois. Alem do mais, foi sempre nos lugares mais perigosos que eu fui mais bem tratada. Foi sempre lá, que apesar de toda violência, as pessoas ainda sabiam o valor da vida, dos amigos, de abrigo, de comida, de amor….”

Então, quando eu estava falando com a minha querida amiga Leila esses dias eu me lembrei disso. Ela como eu, estudou fora, vem de uma casa linda, de um lugar privilegiado, e como eu ela sempre quis saber o outro.  As fronteiras, os refugiados, onde a vida é de fato sentida.

“Leila, o que é que eu poderia te dizer num filme?”

Eu conheço a profundeza do que ela faz. Eu vi o seu filme. Parecia quase que injusto com todas aquelas vitimas do mundo, de guerras, eu estar ali…

“Jules, você me inspira.”

Então, eu sentei para escrever isso, para me perguntar porque eu a inspirava?  O que havia sobrado de mim para inspirá-la? E de repente, me veio a mente, o porque..  No fundo, é porque na verdade a gente não perdeu a fé no ser humano. É porque nós de fato procuramos no extremo. Ja que sabemos, que lá as pessoas sabem de fato o valor da vida como uma coisa profunda. Assim, como também sabem sobre a não importância da morte.

Eu escrevo de novo por causa da Leila. Ela também me inspira. E eu tenho a sorte de tê-la como amiga em qualquer circunstância. Mesmo, quando não fazia sentido nenhum falar comigo. Ela falou. E eu traduzo tudo isso porque tanto a Claudia e a Cre me disseram que aqui no Brasil as pessoas deviam poder ler… Mesmo que eu nao saiba muito bem, como escrever em Português e nem como pontuar 🙂

http://www.leilaalaoui.com/

Da Poesia, Da Música e do tempo que querem eliminar…..

Tenho pensado sobre o tempo…. não sobre o meu tempo, tão quebrado de repente, e tão distinto internamente… mas no tempo do mundo. Nessa correria interna que se instaurou…. da musica erudita que apresenta linhas melódicas e  a re-apresenta depois em outro tom, com pequenas mudança e que exigem de um, um tempo cuidado, pequeno, de observação.
Não é novidade para quase nenhum que o mundo correu, e que tem alguns que acham o mundo  melhor. De fato, é inegável que a tecnologia e a ciência avançou, já a nossa compreensão do ser humano é quase que a mesma. Qualquer um que leia os gregos percebe isso.  No entanto, quase ninguém tem paciência de ler os gregos ou os Russos, a não ser que fosse como exercício de acumular cultura.  Seria esse o grande mal da modernidade? A obsessão por acumulo, e a falta de tempo interno? Não sei….
Ontem eu assisti na casa do Núcleo poetas declamarem enquanto Benjamim Taubkin e um percussionista que não sei o nome tocavam. Depois enquanto esperava minha prima me buscar ouvi a conversa de uma mesa.

Achei a noite linda…. E, enquanto eu fiquei naquela mesa, ouvi alguém dizer que achava que a noite devia ter sido mais organizado, que devia ter tido um tópico para as poesias.  Eu ouvi o ponto mas confesso que eu fiquei aliviada que não houvesse um tópico, uma linha, uma regra…. que tinha sido quase que um jamming de música a poesia  que seguia o ritmo dos que lá estavam no palco.  Nós éramos apenas espectadores do processo da arte. Meros e afortunados espectadores. 

 
Até tentei explicar meu ponto, mas foi meio em vão… Mas já que eu cheguei em casa e resolvi escrever ao Benjamim, e a um dos poetas. Era tarde, mas ainda assim eu escrevi…
 
Será mesmo que até a poesia precisa de um roteiro, de um tópico?  Pareceu-me bobagem, mesmo porque um tópico fixo seria quase que uma prisão…. a não ser que o tópico fosse a vida em si. Nada mais, nada menos….
 
Eu achei lindo porque fluiu…. assim como flui as rodas de choro do Isaias ( de quem estava toda a história na parede da casa do Núcleo)…. Suas rodas são todas as sextas….. acontecem sem ensaios, sem planejamento…. simplesmente  o tempo, o ritmo e a interação dos que lá estão.Lembrei, que uma das críticas que eu ouvi sobre o  filme do qual o Benjamim fez a trilha o “Eu Maior” era essa….. ” Não tem estrutura. Tinha que ter para as pessoas saberem e não se desinteressarem.”Eu não disse quase nada  sobre isso para essa pessoa…mas pensei até agora…..  será  mesmo que no mundo é necessário ter uma narrativa com começo e meio e fim a tudo?Na hora eu pensei, que  aquilo era uma concepção ocidental do mundo… principalmente dos EUA…. primeiridade, secundidade, e resolução……

Quando eu vi, O EU MAIOR, como eu disse ao Benja, eu fiquei tocada porque ele não era assim. Ele era livre…. me fez pensar na Asia…. na maneira que os Tibetanos, e asiáticos em geral contam histórias…. tāo sem  estrutura… tão dando voltas……a própria poesia é assim…. vem da experiência da vida…. da liberdade…. dos desencontro e encontros… dos mistérios., do irônico, do triste….do quase nada que é tudo.. por isso talvez seja que lugares como o Oriente Médio tenha tantas poesias… talvez fuja do conformismo da explicação de todo resto….. talvez seja a única possibilidade do novo, do subversivo… 

 
Um “Esteves sem metafísica,” e um que tem toda liberação numa fumaça, no olhar de uma menina comendo chocolate…
 
A poesia, e a manifestação dela não pode ter tópico, ter estrutura, ter ritmo para agradar a falta de atenção de um mundo que vive regido pelo mundo da propaganda… 
 
Por isso eu agradeço poetas e músicos, muito obrigada pela música que foi sentida, do percussionista que ouviu e tocou,ao Benja… e aos  poetas que se comunicaram entre eles. Nós, no fundo, somos uns privilegiados de ter podido ver a reprodução do sagrado… o que acontece quando a arte se encontra, se divide…
 
E é apenas por isso que eu digo que eu até entendo que para muitas pessoas é melhor uma estrutura… e escrevi a um deles “pelo amor deus, por vocês se encontrem então a sós,  e convidem só quem de fato sabe ouvir em silencio, sem ser parte, sem precisar de resolução.
 
E de fato, nós não avançamos muito emocionalmente. Perdemos a paciência do tempo interno….Não todos nós, mas infelizmente muitos de nós.

A Dama Da Noite e um Chapéu

Dona Inah

Passei a noite inteira, numa daquelas situações que a música é tão bela, que não se sabe se deve dançar para reverencia-la ou se parar bem quietinha para ouvir cada detalhe, todos os contrapontos, todas belas linhas melódica da flauta, o preciso ritmo da percussão, a minúcias do bordões do violão. Mais difícil ainda é quando está na sua frente a Dona Inah, a Dama da Noite.

Faz tempo que eu ouço a Dona Inah.  Menos tempo que sento e converso com ela. Eh sempre, no entanto, verdadeiramente impressionante. Como ela já disse muitas vezes a música deu a vida para ela.  E nessas vezes que ela está diante de mim, ela da para mim e imagino para muitos outros também.

Na maior parte das vezes que vi Dona Inah foi no Bar do Cidão, bar que ela me explicou muitas vezes  ajudou a abrir. Ela que cantava lá há décadas e de graça. Desde da morte do Cidão raramente Dona Inah passava por lá, me disse que doía, chegar lá e não ver o seu amigo. Hoje em dia me dói passar na porta e não ver nem o Cidão, nem o Bar.

Todas as ultimas vezes que encontrei com Dona Inah ultimamente era bem depois de eu ter saído do hospital.  Sempre sentava com ela, e ela me contava das suas próprias viagens ao hospital. No passado, contava tudo isso com o copo de cerveja. Tinha até me explicado que detestava água e que só a bebia porque seu novo marido a convencia. Hoje em dia, disse me, que não bebe mais.

Tentei ver Inah todos esse dias em vão. Alguma coisa ou outra sempre acontecia. Dona Inah tinha me garantido, bem na noite que o Cidão se fechou, que ainda cantava no Ó do Borogodó todas as quartas. Quando finalmente cheguei lá, na semana passada, ela não estava lá. Se preparava para um show na Sexta.

Finalmente, vi dona Inah ontem e por isso que acordei hoje tão tarde. Porque com seus mais de setenta anos, muitas stents no coração Dona Inah ainda canta até tarde. Alias muito tarde para uma quarta Feira.

No entanto, não sou só eu, desocupada, que pode ficar dançando até as 4 da manhã! Tem gente de tudo que é tipo. Estrangeiros, estudantes, professores,músicos e até gente do mercado financeiro.

Eu que cheguei cedo ( as 22:00), vi os músicos passarem o som e sentei com Dona Inah para conversar com ela. E das mil coisas que ela me contou, teve uma que me deixou particularmente tocada.

“Julieta, Voce foi no funeral do Cidão?”

Expliquei que não, que nem estava no Brasil naquela época. Então Dona Inah continou, inabalada com isso.

“Eu estive no Marrocos. Muito bonito la. E lá eu vi um chapéu muito bonito.”

Dona Inah descreveu o chapéu, me explicou como tinha trazido aquele chapéu numa caixa bonita e tinha dado para o Cidão. Era um presente escolhido a dedo para ele.

“Ele ficou muito emocionado. Na hora, não soube o que dizer e de repente disse: Inah, eu vou ser enterrado com esse chapéu!”

Fiquei tocada, ali no Ó, e de repente eu me senti conversando com um Tibetano, ou um Chines que começa lá longe para te contar uma estória clara no final. Clara desde o principio mas que se você não prestar atenção não percebe.

Eu já sabia a resposta mas ainda assim perguntei a ela.

“E ele foi enterrado com esse chapéu Marroquino?”

“Claro, por isso que eu te perguntei se você tinha estado no enterro. E sabe, que o Cidao me disse outras vezes, que aquele era o melhor presente que ele tinha recebido na vida.”

Um chapéu que vinha de um continente de onde seus antepassados tinham vindo, na mão de uma amiga.

Migalhas do Choro….

cidao

Dizem que tudo tem um fim. Já eu, prefiro sempre achar que tudo transita de um estado para o outro. O próprio Cidāo, dono do “bar do Cidão” já tinha tido que mudar o bar de lugar uma vez… ele transitou, mas o bar sempre ficou aqui no mundo. O bar até eventualmente voltou ao mesmo lugar e foi então que o inesperado aconteceu: ele mesmo o Cidao deixou a terra.

Na época, eu estava no meio do leste europeu quando recebi dezenas de mensagens me contando do acontecimento.

Coloquei o pensamento de lado, e voltei para o Oriente Médio querendo voltar depois para a Asia. Mas o Cidão não saia da minha cabeça.

Aos poucos fui me conformando com aqueles pensamentos entrando em minha mente, e aos poucos eu tive que observa-los mais claramente para entende-los melhor.

Um dia eu finalmente percebi que o bar do Cidão tinha virado de alguma maneira a representação de casa para mim no Brasil.

Então  voltei  pois presa nesse sentimento, percebi um medo de que talvez um dia a minha verdadeira casa desaparecesse do mundo. Primeiro achei que  tinha medo perder minha casa em São Paulo… La da Palestina, do lado de pessoas tão presas a terra e de onde suas casas foram roubadas foi o que me veio a cabeça na hora. Eu errante…tive medo de ficar perdida pelo mundo… Mas ainda mais claramente ficou em Israel do lado de minha amiga Michal, de repente  ficou obviou que o meu  sentimento de casa deveria ser fincado em laços.. às pessoas. Voltei assim, me sentindo quase que uma refugiada de mim mesma.

Então logo visitei o Bar do Cidao. O bar continuava lá. Sem o Cidāo. Ele fazia falta ..sempre despachado, dando broncas nos clientes, mudando as pessoas de mesas para que coubesse todo mundo naquele pequeno boteco, vez ou outra estava dançando pelo micro espaço no meio das mesas.

E então foi a Rose sua viúva que passou a tomar conta do bar. Nesses últimos tempos eu fui tanto lá que fiquei amiga da Rose. Brincava frequentemente com “Zé”Maria, o pequeno filho deles.

O Zé, um privilegiado que antes mesmo de fazer 10 anos cresceu com a melhor música de Sao Paulo. Todos os dias o Bar estava aberto, na maior parte dos dias tocava choro. Alguns outros ritmos também soaram por lá.

Sempre me perguntavam porque eu Gostava do bar. Tão simples e tão difícil de explicar. Talvez, porque fosse quase que um refúgio dos grandes músicos que apareciam por lá de re pente, ou simplesmente porque parecia meio casa.

Claro que era o Cidão, claro que era a Rose ou mesmo a Dona Inah que lá tantas vezes esteve, e que me disse que estava lá desde o começo. Donah Inah que um dia desses me confessou que doía para ela ir ao Bar agora desde a morte do seu amigo Cidao.

É injusto eu falar de apenas de alguns incríveis músicos que ouvi por lá. É bobagem eu  contar para voces quantas vezes eu pedi para  eles tocarem para mim  Migalhas de amor, Vibrações, Doce de Coco..dentre outras do Jacob e muitos outros….  eles tocavam porque alguns ficaram meus amigos.

Com a partida do Cidão ficou diferente, mas Rose cuidou com maestria do bar. Eu conheci o Bar do Cidão tarde, mas nesses últimos anos eu fui muito lá. Quem foi tanto como eu, começa reconhecer até seus usuais frequentadores.

Perguntei a Rose uma vez  se ela estava cansada de cuidar do bar sozinha. E ela me respondeu que a noite quando os músicos chegavam era a hora do dia que ela mais gostava.

E nesse domingo,  o bar do Cidao abriu-se pela sua  última vez. Cheguei lá as 7 da noite para ter mesa para ficar um pouquinho mais na “nossa” casa. Não fui a primeira a chegar. Nos saudamos e aos poucos foram vindo todos.. Um a um… rostos familiares dos quais o nome eu já não me lembro mais.

E música foi rolando.. eu as vezes não conseguia conter minhas lágrimas. Por sorte o Tom estava lá para me consolar um pouquinho.

Até esse domingo eu nāo sabia exatamente porque o Bar do Cidao se fechava? Rose me contou que depois iria abrir uma loja de bolo.

“Rose, mas pq voce está fechando?”

“O prédio foi pedido de volta, e vai ser demolido.”

A esta altura as migalhas do choro devem estar agora no chão rolando pela vila.

Quando as coisas terminam é difícil,  mas quando elas sāo demolidas sem explicação parece bem pior.

Ainda bem que o que conseguia sair, saiu do prédio pela noite a dentro, saiu chorando por tudo que era instrumento, sambou para que os que precisassem dançar pudesem  faze-lo. Eu enxerguei o Cidão ali no meio daquela barulheira dançando. E assim amanheceu a segunda- feira .. la mesmo no Cidao.

Se nada termina estou ansiosa para que se transforme logo porque nós os refugiados estamos sem casa….

No tempo do (M)ar

Faz poucos dias vimos na televisão os desastres que se passavam em Portugal. Escrevi a um amigo que lá no Porto uma vez encontrei. Dele já escrevi no meu blog em Ingles. Graças ao Jorge, naquela época, ouvimos o mais belo fado. Na epoca escrevi sobre isso aqui http://translatingthoughts.wordpress.com/2013/07/03/the-fado-saudade-and-joy-in-porto-portugal/http://translatingthoughts.wordpress.com/2013/07/05/portugal-rio-douro/

Tínhamos além de amor pela música, também um  encanto por viagens. Graças ao Jorge tambem vi lugares belissimos em Portugal. Logo soubemos que Jorge tinha acabado de estar na India. Alí no seu restaurante escolhido pelo destino ficamos amigos pela primeira vez.

Digo pela primeira vez porque acho que vamos conhecendo as pessoas por etapas. Algumas nunca passamos da primeira, noutras em poucos segundos as etapas são passadas. Assim que ficamos em pouco tempo verdadeiramente amigos.

Portanto quando soube do que estava acontecendo no Porto escrevi para ele.

” as ondas nada mais eram que o mar a protestar porque estavam invadindo o seu espaço..:)”

Sorri inundada pela poesia da resposta e tocada por tudo que venho recebendo do mundo.

Pensei  e  boiei em pensamentos  e senti que o mar as vezes tem dessas coisas ….tomar mais espaço do que se espera… noutras tem uma enorme escassez  de água.. tenho por mim que o mar vive num outro tempo, então essas oscilações em nós, reles mortais, não percebemos..ou pior não entendemos muito bem… boiei pelas águas do meu corpo lembrando que um dia o Himalaya já foi mar..

De fato o Jorge tem razão, as vezes ” as ondas são o mar a protestar porque estão invadindo o seu espaço..:)”

Nesses dias quando não há o que fazer… quando você está tão apertado ou tão solto  é melhor como dizem “fazer uma festa.”.. ou ouvir os novos trovadores que me foi deixado de presente aqui pelo caminho…

http://www.youtube.com/watch?v=p0J5C5q7j1I

Os últimos dias em Sao Paulo…

São Paulo está ficando cada vez mais vazia e ainda assim não conseguimos transitar as ruas calmamente. Dizem por aí  que muitos que trabalham em Sao Paulo voltaram para suas cidades para celebrar o nata e o Ano Novo. No entanto, eu fico sempre presa pelos caminhos.  Também é verdade que simultaneamente as pessoas que estudam ou trabalham fora também estão vindo de voltar para ca .. Mas o numero de doutorandos,e meus amigos que vem e aparecendo infelizmente nāo justificam todas essas mil horas no transito.

Sabrina chegou da Holanda ainda que eu enxergue nela tudo que há de Ny, de Londres, e até da Suiça.  Ela toca suas músicas do lado do Fernando de La Rua… eu sinto a Espanha, enquanto ela vai passeando por tocas as incongruências que fazem parte de nos cidadãos do mundo.

Felipe aparece em casa de tarde, vindo do Rio, falando dos seus filmes, e eu que conheço Laura, fico desejando ver Casagrande. Enquanto ele tira o livre com esse nome, da minha prateleira a minha mente vaga no novo filme que ele faz… e que se passa na Africa.. Conto ao felipe meus projetos.. será que eu os tenho?

Rimos enquanto ouvimos eu falar das minhas bobagens… tantos anos faz que nos conhecemos. Tiro uma foto não muito clara enquanto ele toca piano, lembro de como há mais de década Felipe me explicava que era um multi-instrumentista frustrado. Rimos disso. Que tolo. Posto a foto meio errada e para minha surpresa até do Marrocos sabem que somos nós dois.

Na minha mente vêm as fotos de Leila e dos refugiados da Siria, ela la no Líbano. Não há nada de similar com a nossa foto. Nada além do que um pequeno toque que nos conecta. Eu tiro a foto e aquela foto uma década depois me faz dar gargalhadas.. mostro ao felipe as minhas musicas velhas… mostrar minhas ultimas composições…

Acabo até mantendo a minha alma nômade aqui. Até conhecendo desconhecidos pelos caminhos enquanto vou revendo pessoas do passado. Claudia propõe um ultimo encontro. Temos jantares e ainda por cima devemos ir  ver uma meio cigana indígena encenar Ofelia em Hamlet lá em Pinheiros.

Chegar lá de Higienópolis é uma missão que demora 3 dias. Como sempre diz minha avó “teatro da mais trabalho que o cinema”. No entanto, mesmo tendo falhando nas nossas primeiras tentativas vovó nāo se desanima. Uma vez tinha me dito que não devíamos recusar um convite. Devíamos sempre ir e nos sentirmos gratos  ao outro por desejar a nossa companhia.

Dessa vez então, chegamos com uma hora e meia de antecedência Pegamos os ingressos e  fomos procurar um café para esperar.  Achamos um boteco de ultima categoria para esperar uma hora. No entanto ele era próximo e vovó, olhando as paredes constatou que por ser tão velho e ter garçons antiquíssimos  devia ter boa comida. Como sempre… vovó tinha razão.

Chegaram os pasteis e os bolinhos de camarão, o meu chá, a agua da Lúcia e a Cerveja de vovó. Logo mais apareceu meu amigo e ex professor marcelo e juntos fomos ver Hamlet. A peça foi muito bem feita, e adaptação muito interessante e eu surpreendentemente não quase adormeci. Hoje em dia sempre me da muito sono graças aos remédios que me engordam e me dão muita fome. Graças a deus estão diminuindo e logo mais terminarão. Enquanto isso vou tomando os remédios cada vez mais tarde e mais tarde para voltar a velha vida 🙂

Ontem a noite resolvemos passear a pé pela noite, pudemos de fato ver a tal misturada das coisas que é  o Brasil, passando desde lugares  de judeus, A igrejas católicas e até a uma igreja evangélica onde cantavam algum ritual de natal. Parei para ver, depois continuei a caminhada e na volta as pessoas continuavam lá cantando muito alto, e ainda havia mais gente.

Eu já tinha me surpreendido muito  vendo na Globo um batismo evangélico muito longo na novela das 8. Agora na volta da nossa caminhada a celebração continuava ainda mais intensa e havia também um carro grande tocando um tipo de um axe bem na frente da Igreja.  Fomos naturalmente convidados para entrar na Igreja… Lúcia agradeceu e imediatamente  recusou e me convenceu a partir também…. já para o Axé nos não fomos convidados…massem dúvida atras do trio eléctrico nos teríamos ido 🙂