“De Los Buses a la Playa” e possível Governo por decreto

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Cruzamos a Venezuela para chegar as famosas praias. Muitos nos disseram para ir a Los Roques e outras ilhas. Devem ser lindas mas tão exausta do desmatamento la do sul da Venezuela e do estado de Roraima no Brasil desisti quando vi que as ilhas pareciam muito secas. De fato o mar era do Caribe mas não estávamos com vontade de ir parar num lugar só de turistas estrangeiros e com pouca possibilidade de fuga, a não ser um avião que dizem que tem passagens escassas.

Então pegamos um onibus de Santa Elena para Puerto Ordaz. 12 horas de onibus pela noite. Na rodoviaria tinha militares armados mas nao pareciam perigosos. Havia muitos brasileiros e poucos onibus. Ali ficamos amigos de um filosofo do Pará que estava voando por 100 reais para Cuba. Como era do PCdoB, vulgo partidão, tinha arrumado um jeito muito barato de se hospedar na terra de Fidel.

Já diria Adenilson era um verdadeiro “CoMIMnista”. Nos deu aula sobre o grao Pará por quase toda viagem e chamou uma amiga para busca-lo em Puerto Ordaz. A mãe da amiga veio, e ofereceu nos hospedar também, ele bebeu sua cerveja e, nem se quer se ofereceu para dividir a refeiçao da Amiga. Nós claro, que o fizemos afinal, em puerto ordaz terra industrial e de minérios falta tudo. Talvez nada disso tivesse me afetado tanto se não tivesse querido dar aula sobre a maldade de todos os muçulmanos que conhece só pelo youtube. Ou talvez tenha sido o fato que tenha metido pau em religiao e queria fazer tatuagem de nossa senhora. Ah…. das incongruências dos “Comunistas cristãos”

Dali partimos vendo uma cidade infeliz e tomamos o segundo onibus por mais 12 horas. Ha muito do que dizer desse onibus mas o mais marcante foi ver o principio da criacao do Seu Macedo no nosso onibus. Nos chamava para rezar em coro. Participar em repetição demonstrando nossa fé em jesus para que o onibus não sofresse um acidente. Por fim vendia filmes dele pregando.

Eventualmente chegamos a Maracay. Lugar muito mais tranquilo. Povo calmo. E entao encontramos o nosso onibus para Choroni.

Este realmente me lembrou a India. Mas tinha uma diferença radical assim que se lotou. Com todas as janelinhas abertas, apertadinhos como sardinha o mororista deu partida e de repente explode o “papaparapará” da salsa! Tivemos um acesso de riso. Os metais altissimos, a musica alegre. Pensei ” Pode até ser que o pais esteja em guerra em algum lugar, aqui estamos indo “a la playa”, estamos em ritmo de caribe.” Todo mundo do onibus era das cidades próximas e estavam indo passar final de semana na praia. Jovens, alegres que definitivamente nao eram da alta classe.

Nosso motorista amava sua buzina e as vezes buzinava em contraponto dos trompetes.

Subimos uma montanha, entramos no parque Henry Pittier, fomos a quase 2000 metros, passamos frio, demos a volta e descemos tudo de novo do outro lado. Chegando ao nível do mar passamos em altíssima velocidade pela ruas estreitas de Choroni, que era a cidade de cima, fundada em 1616. Toda bonitinha. Casas coloridas de adobe, calçamento de pedra. Descendo está Puerto Colombia que fica a beira mar. Durante o final de semana é lotado. Agora fica calmo.

Num lugar que falta tudo achamos o PacoPizza que tem até pizza de quatro queijos, tiramissu e energia quando falta por toda a cidade.

Ficamos amigos do Ricardo que é um dos mais jovens membros da família do PacoPizza. Ele nos explicou que na crise tem que fazer adaptações, inovações e encontrar conexões para achar ingredientes que estão naturalmente muito mais caros.

O italiano dono do nosso hotel que não tem paciência para ficar em fila, disse que nao tem manteiga etc.

Fico impressionada de ver a familia do PacoPizza. Venezuelanos que detestam o governo mas que sao capazes de manter tudo funcionando.

Ainda conhecemos duas pérolas. Chive, que parece o don corleone, sentado vendendo de um tudo. Pescador, produtor de óleo de tubarão, chavista, que senta vendendo um itens, dando conselhos, histórias e ordens.

E é claro Pelele a prata dessa cidade…. Que nos sugeriu visitar dezenas de lugares. Se formos ver tudo que ele nos indicou temos que nos estabelecer aqui por muito tempo. 🙂

No entanto, os EUA fazem sanções, declaram que a Venezuela representa uma ameaça a segurança deles, e Maduro por sua vez pede para governar por decreto!!! E aí será que é hora de partir?

Venezuela- As políticas na fronteira

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Já que estou escrevendo sobre como foi subir o Monte Roraima no meu blog em inglês vou escrever aqui sobre o que vamos descobrindo aos pouquinhos por santa elena.

Santa Elena é a primeira cidade que encontramos na Venezuela depois de cruzar pela BR 174 que vem de Manaus passando por Boa Vista.

Acho que todas as fronteiras de lugares que não são da europa ocidental são meio parecidas. Tem sempre tráfico , contrabando e gente fazendo câmbio de dinheiro.

A Venezuela, como os brasileiros devem estar cansados de saber, está passando um momento difícil, com uma economia colapsando e uma escassez generalizada . As razões para isso são debatidas por todos. Em geral as pessoas que são de espectros políticos distintos tem visões muito diferentes.

Muitas pessoas da esquerda diziam que todos os presidentes antes de Chavez tinham sido piores que ele. O país tinha uma economia mais forte e também tinha mais desigualdade social.

O que eu aprendi até agora? Muita coisa. Só estive em uma província, uma cidade, mas também ouvi viajantes que viajaram pelo resto do país de carro e é claro ouvi dos locais dessa cidade e de outras. Dá para falar que o que eu escrevo aqui é portanto a realidade da Venezuela? Claro que não. No entanto, dá para falar do pouco que vi e ouvi até hoje.

Aprendi de um economista Venezuelano que antes de 58 houve sempre um regime militar que era um legado de guerra de independência. Nos explicou que em 1830 morreu bolívar e se deu então a separação da Venezuela e da Colombia. Em 1958 começou a democracia civil. E foi em 1998 que Chavez ganhou as eleições para a presidencia.

A crise nos explicou começou antes, nos anos 80. E agora sofrem por causa de mais uma queda do petróleo. Nos contou que 70% dos alimentos na Venezuela são importados.

Há frase mais dita aqui é ” No hay.”. Claro que passei a perguntar a todos que encontro desde quando não plantam aqui. E então as informações ficam confusas. Alguns dizem que plantavam e foi parado, outros que terras foram tomadas pelo governo e que ja não plantam mais, e outros explicam que o petróleo resolvia todos os problemas.

Maduro parece não ser muito aceito. No entanto, os que o apoiam explicam que Santa Elena não é a Venezuela. Aqui as pessoas vivem da troca com Brasil. Tudo é mais caro, e o contrabando de gasolina para o Brasil é enorme.

Os carros são velhos. A gasolina no lugar mais caro da Venezuela é de graça para o povo de Boa Vista. Se vê muita gente com carros do Brasil aqui.

Hoje conheci uma taxista maranhense que morava aqui e não pensava em voltar ao Maranhão. “Aqui tudo é mais fácil.”

Também percebemos que todos pegam taxis. Qualquer corrida custa o preço de 100 bolivares ( nem dois reais).

Talvez um dos nossos encontros mais impressionantes tenha sido com dois homens, um que amava Chavez e outro que o odiava.

O que o odiava contou que tinha votado para Chavez. E ele que também odiava Maduro explicou que era do exercito quando Chavez foi eleito pela primeira vez. Disse que todos foram forçados a votar nele. Com seu comandante apontando a arma, ele e seus camaradas foram obrigados a votar em Chavez.

Esse homem confirmou que de fato Chavez tinha dado computadores a todas as criancas na escola como os chavistas nos tinham dito, mas agora no tempo de Maduro explicou que era muito distinto.

Resolvi perguntar ao maior Chavista que conheci sobre isso. Ele ficou perplexo e disse que trabalhou nas eleições e nos explicou o sistema.

O Chavista explicou que o voto era eletrônico e que saia imediatamente um comprovante da votação que ia também para uma urna. O mesmo voto era guardado eletronicamente e num papel dentro da urna. No caso de duvida podia-se abrir e contar.

Resolvemos verificar no pai dos burros, hoje em dia o google e de acordo com a revista Forbes a Venezuela emprega um dos sistemas de votação mais confiáveis e verificáveis do mundo. Tudo que o Chavista explicou estava ali, quem diria, na Forbes. Aprendenos ali também que no final da eleição pegam 52,98 % das urnas para serem abertas aleatoriamente para se confrontar com os dados eletrônicos.

Claro, que constatamos que isso não significava que os soldados não foram obrigados a votar no Chavez mas pelo menos parecia dificultar muito fraude no processo eleitoral.

Isso as vezes me parece o Oriente Médio sao tantas opiniões distintas ao mesmo tempo. Mas fronteira é fronteira nunca dá para saber o que se passa no resto do país…

Estava aqui decidindo que era ora de parar de escrever quando começo uma conversa interessantíssima com mais dois Venezuelanos. Um sociólogo que não gosta de Chavez e outro agrônomo que gosta.
O agrónomo depois de nos contar muitas coisas, nos convidou para nos levar para ver uma pedra na casa de um amigo. A casa é muito bonita e cheia de pedras semi-preciosas.

O dono se diz Cacique Taurepan e defende a prática de botar fogo em tudo. Mora em casa bela, é piadista e não dá para saber o que é mentira e o que é verdade do que diz. André não acredita que ele é índio nem aqui nem na China. Acha que comprou a identidade indígena para ter “muitos benefícios”. Já eu, acho que é índio e sem dúvida corrupto.

O agrônomo nos explica que só nessa provincia tem – coltan, diamante, ferro, silício , bauxita, tório, quartzo, dolomita, timbelita, urânio e muitas outras coisas que não consegui escrever a tempo.

Ele que trabalhou no ministério de proteção ambiental, nos mostra a árvore do país . Aqui se chama Agaraney, que é amarela, quando nos dá o nome científico verificamos para confirmar o que já achava André. Ipê amarelo. Diz que durante o governo de Chavez ele mesmo participou do projeto de reflorestamento de duas províncias. Até o Chavez, disse ele, trabalhou nesses projetos para minimizar a ineficácia. Hoje não há mais dinheiro para esses projetos.

Nos explica que é por causa da presença de tantos minérios que os indígenas queimam. Têm medo da combustão espontânea.

Pergunto a ele: vc gosta do Maduro?

“Soy Chavista pero Maduro se lo cago todo.”

Venezuela- Da escassez e da generosidade

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Hoje eu acordei aqui em Santa Elena Uairen e fui tomar café numa pequena padaria. Nosso hotel era longe do centro e já havia decidido que tomaria café ali perto mesmo e mudaria para o centro.

Andamos tranquilamente vendo uma cidade funcionando normalmente. André constatou que o preço alto da gasolina no Brasil talvez ajudasse a qualidade do ar, por fazer as pessoas comprarem carros mais econômicos. Aqui os carros sao velhos e a gasolina custa mais ou menos um real para encher o tanque, o que no fim deixa o ar muito poluído.

Na padaria fomos muito bem atendidos. O café era forte e sem açúcar, como queríamos. Comemos pão com queijo derretido e constatamos que também não faltava aqui. A padaria era simples, não luxuosa como a que vimos no centro. Tudo estava ótimo e todas as pessoas lá eram locais.

Ao nosso lado havia uma mulher com uma menininha. De repente apareceu um senhor e deu à menina um sorvete. A mãe disse a ela que aceitasse e agradecesse. E assim ficou claro que nem se conheciam.

Perguntei à menina seu nome e sua idade. Disse que se chamava Juliana e que tinha 5 anos. Então disse que ela tinha muita sorte de ganhar um sorvete daquele senhor. Sua mãe explicou que ela tinha pedido aquele sorvete e que ela, a mãe, tinha dito:

“Agora não.”

Por isso ela explicou que o senhor tinha dado a ela. Deve ter imaginado que eu não podia comprar. Ela a mãe, ainda insistiu para a filha:

” agora não só depois de tomar café da manhã. Não dá para comer só coisas doces a toda hora. ”

Achei bonitinho perceber que o senhor local tinha comprado aquele sorvete sem saber toda a filosofia da mãe sobre a importância de um bom café da manhã.

Então voltamos ao nosso antigo hotel, fizemos a mala e caminhamos até o centro. É longe, não fazia calor demais, e nem tampouco vimos qualquer tipo de violência. A vida transcorria naturalmente.

Quando tive acesso mais uma vez a internet recebi uma mensagem da minha mãe me perguntando como estávamos aqui e mandando um artigo para me informar do que se passava por esses lados.

“Lojas fechadas por causa da violência em Santa Helena.”

A noticia vinha de um jornal de Boa Vista. Andamos na rua muitas vezes e de fato as lojas fecharam uma hora para reabrir depois do almoço 🙂

Depois de andar por tudo que é canto e perguntar a todos. Um senhor se espantou com a tal noticia. Disse que isto só podia ter sido em Caracas.

Lembrei do documentario ” La revolucion no sera televisionada.” Depois pensei em tudo que dizem sobre a Palestina  e pensei que se não fosse tão sério seria hilário.

Por isso a cada dia confio menos nas notícias do jornal que sempre tem simplesmente reportado o que parece só satisfazer a política dos poderosos da vez.

Depois que eu escrevi meu post minha mãe me explicou que esse artigo era antigo.

Voltei então a rua e finalmente vi uma experiência “violenta”. Fomos comprar um chip de celular. Os privados estão esgotados. Só nos restava então ir à companhia estatal.

Ali sim me pareceu violento, parecia o que deveria ter sido a União Soviética. 2 funcionários para atender. Os dois maltratando os consumidores. Fizeram um deles até por impressão digital para assinar um contrato. O outro que aparentemente já tinha linha, teve que ficar ouvindo o funcionário reclamando bravo que ele , consumidor estava reclamando só porque a linha não tinha chegado! Só fazia 15 dias que ele tinha assinado! Nessa altura já tínhamos desistido de comprar a nossa e só ficamos para assistir o final do espetáculo. Longo e barulhento demais, partimos.

De volta ao hotel vimos gente que voltava do monte roraima.  Exaustos. Aqui também estava faltando água. O rio nos explicaram está mais baixo. Agua veio de um caminhão.

Pergunto ao Venezuelano. Sempre foi assim?

“No todo está se quedando mucho peor en Venezuela. Todo es muy barato, pero no hay”

Não vimos violência nas ruas, só a comum indiferença daqueles que não devem poder perder trabalho. Em geral a gente é como sempre, muito boa. Vejo tudo isso entoando em minha mente

“E eu que não creio peço a deus por minha gente. É gente humilde que vontade de  chorar.”

Do Surf, da Violência e dos Muros

O que será que é pior? Violência perpetuada dentro de um sistema ou de fora? Será que há alguma diferença nisso?

Por que eu estou pensando nisso mais uma vez hoje? Muitas razoes. De um lado Ricardo do Santos, proeminente surfista de 24 anos foi morto pela policia aqui no Brasil. Do outro lado uma mensagem que vem de Israel de uma das minhas melhores amigas.

“Um menino entrou num onibus e atacou com uma faca 13 pessoas.”

Meu sentimentos sao imediatos. O que será que aconteceu antes? O que será que acontecerá depois? Pergunto a minha amiga onde ela está.

“Num onibus em Jerusalem indo para faculdade. Quero muito falar com você hoje.”

“Michal, você está com medo! Sim vamos nos falar hoje!”

“Sim, sempre”

“Claro. Quando for 8 aih :)”

Eu conto que estou na praia mas não conto do surfista. Da policia tao violenta daqui que sempre considera qualquer razão para atirar no outro, desde que seja pobre, ou indígena.

Venho tomar café da manhã pensando em todas essas mil informações despejadas em mim. Pensando que faz dias que meu amigo da Cisjordânia quer fazer uma pagina de integração de muitas religiões. Nesse esse e-mail que ele me mandou e que publiquei na minha pagina do facebook dizia algo de muito profundo. A violência vem do desconhecimento. Pedia paz ele que é muçulmano e que tinha estudado judaísmo, cristianismo, budismo e muitas outras religiões.

Uma vez eu fiz uma aula chamada “Violência política/ terrorismo”. Era uma aula intrigante. Aprendi coisas demais ali. No entanto, eu não aprendi o crucial, a base da violência. A base cognitiva, neurológica, química e psicológica.

Como já disse antes um Tibetano não entende o ódio. Todos que eu encontrei o entendia como pejorativo porque cria redes neurológicas repetitivas para aquele comportamento que nunca gerava transformação. Mais profundamente crêem que devemos atuar no mundo, mas não sem termos no centrado antes. Assim as mudanças são mais solidas e positivas.

Sentada e pensando na violência sinto que a violência acontece por duas razoes opostas. Um desejo de mudança da situação presente, e do outro lado pelo desejo de manter a situação presente. Em suma é pela incapacidade de aceitar a natureza da impertinência das coisas. Minha mãe diz que mudança tem que ser de aluvião, como as que mudam os rios, aos poucos e continuamente.

Não sei porque razão o policial quis atirar no Ricardo dos Santos. Nem porque o menino esfaqueou os israelenses num onibus. No entanto, sei que todos eles, policial é palestino, não tinham real consciência de nada. Nenhum estava centrado, nenhum podia imaginar o que seguiria depois.

Em Israel mais medo, mais uma certa reacção a população não violenta palestina que sofrerá e provavelmente criará novos terroristas. A do policial porque evidencia mais uma vez que no Brasil policiais não tem critério e que atiram em qualquer pessoa que os ofenda. Ter sido um conhecido surfista só nos permite ver mais claramente isso. Isto que todos nós já sabemos.

O que pensar de violência legitimada por estados? O massacre dos russos na Chechenia, de Israel em Gaza, dos EUA no Iraque? O que devemos chamar Hiroshima e Nagasaki? Etc… Etc.. Etc…

Estou cansada de ouvir as justificativas. Nem sei mais discernir o que é pior, a do estado ou a do Indivíduo. Mas sei que a do Estado é legitimada. Talvez o que eu ache mais chocante seja que a violência de Estado roube das pessoas a responsabilidade individual da violência, do seu ato. Estão no sistema. Como colocaria a Hannah Arendt é a banalização do mal.

Eu lamento todos esses atos. Não acho nenhum justificável.

Para variar fico com os Tibetanos. Se faz necessário ser consciente na sua ação, ser consciente te faz ser responsável. Exércitos e Policia roubam isso de uma pessoa .

Acho admirável saber que SS Dalai Lama falou dentro do Zulai, templo Chines, em Cotia. Acho admirável qualquer um que consegue passar por cima dos sistemas para reconhecer o indivíduo de um grupo.

Acho admirável todos aqueles que tentam entender porque estão fazendo o que estão fazendo em seus nomes.

Concordo com o Bassam a violência vem da ignorância.

Se faz necessário mais do que cruzar os muros de separaçao físicas.. Os muros mais difíceis de serem transpostos são os nossos muros internos. O do ego, o do medo e o do ódio.

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Também não sou o Charlie

Lamento muito o que se passou com Charlie. Lembrei que há anos vi uma palestra de um estudante de Harvard que era do Iraque. Naquela época acontecia a guerra do Iraque. Vimos nessa conferencia toda a destruição dos museus, das bibliotecas, da cidade, da população.

Omar, o Iraquiano, falava de humor. Acho que o talk era intitulado “Humor is the last refuge of those in pain.” Quando não tem mais nada a fazer as pessoas riem. Riem porque dói demais.

Depois pensei naturalmente nos muçulmanos que por causa do ato de um único toda uma população seria punida, mais uma vez discriminada.

Lembrei do Edward Said que tinha um livro intitulado “Covering Islam”. Nele Said dizia que cobrir o Islã era naturalmente cobri-lo, colocar uma coberta por cima dele. Não há como falar de uniformidade de pensamento de pessoas que vão da Indonésia, ao oriente médio passando por tantas outras regiões como sendo comum.

Então pensei no Islã que quer dizer paz. E em todos os meus amigos que não demonstraram nada alem disso, nem no norte da Africa, no Oriente Médio nem na Indonesia. Até os muçulmanos que conheci na Europa ou nos Eua não eram agressivos ou radicais. De alguns sou grande amiga até hoje.

Eu que cheguei em NY dias antes de 911. Eu que vi tão de perto começar um ódio geral aos muçulmanos. Eu que estive do lado de uma Iraniana que chorou pelos Iraquianos. Ela que tinha vivido a guerra de Iran e Iraque não podia conter as lágrimas pelas bombas. Repetia “Ninguém sabe o que é isso.” Nós todos lá em NY vimos quaisquer Árabes serem discriminados.

Lembrei então do Fayez meu amigo palestino super religioso. Lembrei-me da nossa conversa. Numa das mil vezes que eu voltava a Nablus, na Palestina. Ele me perguntou o que eu achava dos muçulmanos.

“Fayez, como é que eu posso falar de toda uma população que abrange tantos países? Posso falar dos meus amigos, dos muçulmanos que encontrei pelo caminho, em suas casas, pelas estradas.”

” Não Jules, me diz o que você pensa do Islã.”

“Fayez, se eu te disser o que penso vc vai ficar ofendido. E esse não é meu objetivo.”

“Conte me- Jules. Quero saber o que você pensa.”

Respirei fundo e diante de um dos mais assíduos muçulmanos que eu conheço disse o que pensava. Disse a verdade. Aquela que chocaria qualquer religioso de qualquer religião do livro.

” 1. Não sei se deus existe. 2. Se ele ou ela existirem não acredito que se importariam com pequenos detalhes do comportamento dos seres humanos, e finalmente se ele/ela se importasse eu não o/a louvaria.”

Assim que terminei a frase me dei conta quão ofensivo era aquilo tudo que eu tinha dito.

Meu amigo ficou parado e disse:.

“Meu sangue ferveu. Mas eu entendo que você não disse isso para me ofender. Posso te fazer uma pergunta?”

“Claro.”

“Vc já sentiu frio, calor, raiva, amor, ódio, ansiedade, medo, desespero, pavor, alegria…”

E assim foi por todos os sentimentos do mundo.

“Sim.”

“Jules, e quando você sente essas coisas está sozinha ou com alguém?.”

” As vezes sozinha, noutras com alguém.”

“Jules, eu sigo todas essas regras que talvez te pareçam sem sentido porque eu as aprendi. E eu as sigo porque eu nunca me sinto só. Deus sempre está comigo. Eu as sigo em gratidão. Quando eu colocar a minha cabeça no chão vou rezar para que você um dia sinta isso.”

Eu não era religiosa. No entanto, eu chorei. Era aquilo que eu buscava, o fim da solidão. Ainda que talvez uma parte minha ainda achasse que ele deslocasse a responsabilidade para algo de fora que não sabemos se existe, como eu poderia condenar aquilo?. Aquele era um muçulmano que colocava a cabeça em direção a Meca 5 vezes por dia. Eu tinha exprimido palavras que seriam muito ofensivas a qualquer pessoa que seguisse qualquer religião do livro. Judaismo, Cristianismo e Isla. Ele as ouviu, reza até hoje por mim.

Vejo ultimamente na minha pagina do facebook que está cheia de gente dizendo “Eu sou o Charlie”. Eu lamento o ato de terror. Isso é política não é religião. Lamento que o mundo de repente se volte tanto a querer ter o direito de falar o que quiser sem nunca pensar no outro.

Volto aos Tibetanos e penso que o caminho a felicidade é pensar no outro, o caminho do sofrimento é a ênfase do ego.

Dizer qualquer coisa é o valor do egoico. Aquele que nunca pensa na consequência para o outro.

Minha mae me deu um artigo do New York times para ler. ” Eu não sou Charlie.”

Eu também não sou. Eu lamento o ato de terror, mas ainda mais o fortalecimento da discriminação dos muçulmanos pelo mundo. A total ênfase de si mesmo.

Meus amigos muçulmanos incorporam de fato o que quer dizer Islã. Paz. Pena que também pagarão pelo ato de um único terrorista.

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O Tao da psicologia e do Budismo…

Numa leve percepção minha eu entendo que a psicologia é baseada na ideia de que uma memória relembrada e libertada em palavras a um psicólogo leva uma pessoa a uma libertação. Agora o que eu aprendi dos cognitivistas e dos neuro-ciêntistas é que relembrar eventos difíceis fortalece redes neuro-logicas prejudiciais. Portanto eles se focam em criar novas redes neurológicas. Já o budismo te leva a ser compassivo e consciente das suas ações. O sofrimento vem de se focar demais no ego, e de menos no outro. Vem de não sabermos a origem dos nossos sofrimentos. Eu passei por todos esses caminhos buscando.

Quando eu quase morri na Asia em setembro de 2013 eu estava do lado de alguém que eu amava e confiava. Ninguém nunca soube muito bem porque eu tive um ataque epiléptico sequencial.

E lá fui eu de hospital a hospital de neurologista , psiquiatra a psicólogo tentar curar meu cérebro e a minha mente. Já que tudo na minha vida foi tão exposto eu não tenho problema de fazer isso aqui mais uma vez. Quem sabe ajude a alguém.

Aquiles, meu psicólogo reichiano, sempre me dizia que eu precisava me lembrar o que tinha me deixado tao vulnerável. A princípio eu achava que era a doença da minha avó. Ele cria que isso era impossível.

Depois de ir semanas e semanas lá resolvi que era tempo de ir para praia sozinha carregando nada alem de um livro do Mathieu Ricard, um biólogo de carreira muito promissora que tinha virado lama. Nesse livro ele conversa com seu pai Revel um famoso filosofo. O livro vai do budismo a filosofia passando pela neuro-ciência e a física. O livro me trouxe paz e libertação me relembrou o que muitos lamas tinham me dito por muitos caminhos.

Voltei e larguei minha terapia. Aquiles me disse que eu não era tibetana. E eu expliquei que eu não achava que ir lá e falar de mim me trouxesse nada além de fortalecimento do ego. Ainda mais importantemente eu não queria aquela linguagem de descrição na minha vida. Disse que quando eu pensava nos psicologos que conhecia eu via uma enorme busca de espaço pessoal. Resoluções pessoais. Eu não aspiro a isso. Já estamos nessa sociedade que tem isso como valor. Eu aspiro a calma a consciência e a paciência dos Tibetanos que eu encontrei pelo mundo. Partimos amigos.

Continuei lendo os Tibetanos e dia desses o Fernando, meu amigo de anos, quis ver o famoso e-mail que foi mandado aos meus amigos quando fiquei doente. O e-mail que me destruiu na época. E que eu li só depois de muitos meses. Eu que não o lia há muitos meses. Reli. Coloco o aqui. O e-mail é esse:


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Queridos amigos, amigos queridos da Ju,

Essa mensagem estava para ser escrita há dias, até porque vcs não receberão nenhuma mensagem de Julieta por um bom tempo.
Para quem não estava sabendo nem por alto,
Ju teve uma crise de mal epiléptico em Bangkok e passou três semanas num hospital local onde se tentou de todas as maneiras cortar as descargas elétricas em seu cérebro até a decisão radical de entubá-la, deixando-a em estado de coma induzido de maneira a poder se administrar uma dose altíssima de medicamentos sem que ela tivesse uma parada respiratória.

A eletricidade mais ou menos controlada, Ju despertou mas não sem sequelas. Não vou medir palavras, queridos: aquela Ju que todos nós conhecemos não existe mais. Houve uma brain damage que os médicos agora tentam analisar para ver o que é ou não reversível. Ninguém alimenta muita esperança. Cognição, termo tão precioso para ela, deixou-a. Ju não consegue ler nem escrever, na verdade ela não consegue sequer identificar letras ou números.

A tela de computador é um mistério para ela. Noções temporais e espaciais estão severamente comprometidas. Ela ouve vozes e não consegue distinguir sonhos/imaginação/memória da realidade. É incapaz de realizar as funções fisiológicas mais básicas sozinha. Tem dificuldade em identificar um interruptor de luz ou mesmo virar uma chave.

Mas ela ainda reconhece as pessoas, e fala… com dificuldade, sim, pois muitas vezes se esquece do que estava falando ou da palavra que queria usar. Sua memória prega peças: ela me pedia todo dia que lhe repetisse o relato de sua internação, para esquecer no dia seguinte. Mas às vezes se lembra de histórias do baú, ou me contava histórias de outras viagens (cuja veracidade não tinha como checar, mas pelo menos compunham uma narrativa medianamente coerente).

Quando voltamos ao hotel, antes de ir para o aeroporto, ela de repente parou na frente do quarto 702, que era o nosso antes do ataque – depois eu tive que mudar de quarto. Enfim, exemplos de comportamento desviante, infelizmente mais preocupantes que não, abundam, e eu vou poupá-los aqui.

Inútil dizer que essas três semanas foram seguramente as piores de toda a minha vida. Em alguns momentos ela corria risco de morte, mas só uma chamada do médico dela aqui no Brasil convenceu os pais a irem me ajudar em Bangkok. Aliás, agradeço muito a ajuda da mãe, dona Helô, sem a qual teria eu caído de exaustão no quarto de UTI ao lado do da Ju.

Mas não quero aqui entrar em considerações familiares, pois isso tb me trouxe alguns aborrecimentos desnecessários, e é a família que agora tomou as rédeas do destino dela. Eu mesmo caí doente com aguma espécie de infecção bacteriológica no dia seguinte à chegada no Brasil. Mas também, depois dessas três semanas de perrengue, ainda passei os últimos três dias, incluindo a viagem de volta a SP, sem dormir (não é exagero). Minha resistência também pediu arrego.

Assim que para mais notícias sobre a Ju, melhor contactar a mãe. Eu devo voltar para Zurique no fim dessa semana, mas também ficarei feliz em ouvir de vcs. Ainda me dói demas falar a respeito, não consigo nem ouvir suas músicas sem ter um treco. Às vezes penso que isso que aconteceu é pior que a morte. Pois ela está aqui… mas não está mais.

A esperança é que uma nova Ju renasça desse quadro (há a suspeita de que ela sofra de um mal chamado Mesial Temporal Sclerosis, que é um bicho horrível de feio, mas que pode ser atacado com uma cirurgia). Fato é que depois do “redespertar”, ela está uma pessoa bem mais carinhosa e muito mais sensível a carinho. Terna como um bichinho, she’s still a sweetie… her own way. Vou parar por aqui antes que role um mellow down embaraçoso demais. Beijo grande a todos, Edu”

——

Eu reli ao lado do Fe e senti verdadeira compaixão pelo Edu.

É verdade que eu nunca mais fui a mesma. É verdade quase tudo aquilo que ele escreveu. A maneira que ele me matou simbolicamente me fez muito mal naquela época.

E e eu voltei ao que os Tibetanos já tinham me dito. Aquilo que eu re-encontrei no livro do Mathieu Ricard emprestado ao meu pai por seu novo grande amigo. Aquilo que eu sempre soube estava lá. Estava lá a história da faca. A história é mais ou menos assim.

“Quando um homem enfia uma faca em você, você sente ódio da faca?”

“Não.”

“E do esfaquiador?”

“Sim.”

“Não deveria. É um estado impermanente. Uma sinapse ruim. Sua responsabilidade é muda-la.”

“E se eu não consegui? Fujo?”

“Sim. Mas não para se proteger. Para proteger o outro. Aquele que não tem consciência. Vc que tem consciência é responsável pelo mal que é infringindo a você e ao outro.”

Eu não sei nem dizer quanto tempo faz que eu sei disso. Ainda assim eu odiei o meu esfaqueador. Por tanto tempo. Eu odiei o abandono, o desaparecimento. Quis morrer tantos dias e noites. Não cria nem queria ver mais nada. E como sempre voltei aos Tibetanos.

Um lama não entende a presença do ódio. Falou-me da faca e eu disse que odiava o esfaqueador.

“Então você não entende a história da faca.”

“Como não? Eu entendo e não podia evita-lo. Eu fiquei doente!”

E o tempo passou, porque na verdade você nunca de fato entende o que te foi dito antes da hora certa.

De repente tudo que o Aquiles me disse e que me disseram os Tibetanos e os Indios se encontraram.

Como num golpe de mágica eu me lembrei.

Claro que eu sabia. Em todas as minhas alucinações durante o Coma o Edu me abandonava.

Eu acordei perdida. Perdida no meu cérebro mas acima de tudo dividida entre o que eu queria acreditar e o que meu corpo já tinha me evidenciado.

E ali na frente do mar eu entendi mais a fundo do que karmapa, Rinpoche, Dalai lama, lama lobsang, e tantos outros lamas tinham me dito com a história da faca.

A libertação vem da consciência. A consciência te devolve a responsabilidade.

Faz mais de uma ano que isso aconteceu. E o Edu estava certo, eu sou uma nova Julieta.

Essa Julieta cre essencialmente nas mesmas coisas. No entanto é capaz de entender mais a fundo os Indios, os Tibetanos e o Aquiles.

O processo de percepção e de analise se dão em lugares distintos do cérebro.

O que aprendi mais profundamente é que dopamina por dopamina é besteira. Ideia por ideia também. De tudo que eu vivi eu aprendi que há varias linguagens de descrição.

O culto do ego leva a enorme sofrimento. A separação de percepção e analise também.

Esses dias eu conheci a minha versão masculina. Um menino que voltou da Asia depois de quase morrer. Enquanto ele buscava mais solução em movimento eu ouvi desesperada, levantei e fui dançar.

Sabia que não podia fazer aquilo, mas sabia que aquele buraco era só mais um. Intuía que como me foi dito antes se não parasse cairia de novo.

A gente nunca imagina que a queda pode ser muito pior. E ali no que vc acredita ser o fundo do poço pode não ser. Não há o que dizer a uma pessoa no buraco.

Os índios nos mandam deixa-los lá. Mas nó dizemos porque nos foi dito, até pelos os índios mesmo.

E um dia de repente vem as palavras proferidas há muito tempo. E de repente ali naquele dia você entende. E aquilo finalmente te liberta porque você identifica a sua responsabilidade.

Ser responsável te liberta, te permite ter compaixão ao esfaqueador. Aquele que não tinha consciência.

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Ps: Recebi muitas mensagens tocantes depois desse email. Queria que vcs vissem isso que é da Laura.

Faca nao tem consciencia. esfaqueador por definicao nao tem consciencia. quem abandona por definicao nao tem consciencia. nao tem consciencia do outro. e sem consciencia do outro nao existe amor. e sem amor nao existe amante. e sem amante nao existe traicao como agressao. e sem agressao nao existe raiva.

tudo resolvido. voce livre. voce inteira. voce como voce se merece. e como eu geralmente gosto de te ver.

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O hilário e belo dos pequenos detalhes- Crê

“Nossa Crê que fome!”

“Também Julieta você quase não come. Quer que eu faça alguma coisa para você.?”

“Não Crê, deixa que eu me viro.”

A crê é minha babá de infância, ela cuidou de mim de quando nasci até eu ter uns 6 anos. Antes disso ela trabalhava para a familia do meu pai. Ou seja ela sabe muito sobre eles.

Quando fiquei doente no ano passado minha avó Jandyra falou para meu pai que a crê deveria vir cuidar de mim. Ela veio. E quando fiquei melhor minha avó Lucia, com quem moro, pediu para ela ficar aqui. E ela ficou.

Com seus 74 anos de muita vida e muita paciência ela fica lá me olhando na cozinha. Ela sabe que eu não sei cozinhar.

Abro a geladeira, pego arroz, feijão, farinha e misturo tudo num prato fundo.

“Julieta tá parecendo prato de peão! Vc tá com fome de 5 mendigos?!”

Eu rio e digo que sim. E começo a comer.

“Julieta, você não vai nem esquentar?”

“Não crê. Tá bom, a função é me alimentar, tá gostoso.”

“Então esse prato não é de peão é de bóia fria. :).”

Diz isso e se mata de rir. E eu me mato de rir com ela.

Ontem fiquei emocionada. Fui tomar suco no café da livraria da vila. Tomei o suco que tomo sempre.

No final a garçonete me disse.

“Que bom te ver tão bem. Eu lembro de quando você vinha aqui com a sua babá.”

Olhei para ela profundamente e me lembrei que tinha sido ela que tinha me dado o suco que tomo até hoje quando eu estava doente. Abacaxi, hortelã e mel.

“Como você se chama. Eu me lembro. Meu deus, eu me lembro de você. Nem acredito que você lembre de mim e da crê.”

Fico emocionada.

“Jennifer. Claro que eu me lembro. Estou muito feliz de te ver tão bem.”

Tenho vontade de abraça-la. Tenho lágrimas nos olhos. Quase tudo ultimamente vem me mostrando que não somos invisíveis aos outros.

Como a minha comida fria. Conto tudo isso a crê. E penso que em pequenos detalhes a vida é tão bela. Tão hilária.

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Um barco pela Amazonia

Sempre escrevo em inglês porque a maior parte dos meus amigos e família falam inglês e grande parte dos meus amigos não falam português. No entanto, tem quem é daqui e quer saber dessa viagem. Não sei traduzir, ou melhor acho muito chato. Então escrevo algo misturado do inglês com o novo.

Estou num barco indo de Manaus para a tríplice fronteira. Brasil Peru e Colombia. Minha última impressão de Manaus foi desfeita pela minha não desistência de ficar.

Parti com amigos lá. Parti já conhecendo a senhora do café da manhã, com convite da cobradora do ônibus para voltar e ficar em sua casa. Parti já sentindo saudade.

Estar no barco acalma. Nesse exato momento passa um video do Alexandre Pires:) Estou na frente da pequena venda, do outro lado tá a quadra de futebol.

Acabo de almoçar. Comi bem. Arroz, feijão e frango. Faz calor e o vento continua aliviando. Dormir na rede é maravilhoso. São sete dias nesse barco, navegamos pelo rio Solimões. Saímos do Rio Negro e vimos o famoso encontro das aguas.

Meu capitão é um senhor que se chama seu Manuel. Alem de me explicar tudo sobre os rios navegação me explicou também que a quadra está aqui para que os funcionários tenham alguma diversão.

O barco não é mais usado para transporte de pessoas. Com passagens mais baratas e o tempo tão longo menos pessoas vem. Pegam lancha ou aviao. A principal função desses grandes barcos são agora de transporte de carga para os vilarejos.

Fiquei amiga da Angélica que é filha de uma peruana com um manaura. Sua mãe fugiu do Peru para Manaus e passou 37 anos sem ver os pais. Se re-encontram esse ano. Angélica tem muita vontade de ir conhecer seus avós em Lima. Seu marido a traiu e ela está no processo de deixa-lo. Faz 3 dias que disse chega. 2 anos que ele não é realmente marido.

Mas na vida do Brasil tudo corre e ela já conheceu um homem mais jovem, interessante. Não quer casar nunca mais. No entanto, já se apresentou um homem mais jovem, mais delicado. Apesar de toda traição e dor fala com adolescente de um novo homem que conheceu.

Mirza, também trabalha aqui e já me convidou para ficar na sua casa em Tabatinga.

Eu gosto tanto do barco. De repente, a inicial apreensão de entrar num barco por 7 dias se desfaz. Se dissolve como uma mandala desfeita.

O barco. Vou ver mais a mata. A famosa samauma que nos rodeia. Seu Manuel me mostra todas as arvores. Explica-me o valor de uma arvore de açaí, uma arvore de pupunha.

Quando pergunto como sobrevivem nos pequenos vilarejos na beira do rio,, me diz.

“Com peixe, açaí e pupunha ”

Todas as casinhas a beira do rio são coloridas. Sempre tem uma igrejinha.

Dias já passaram de quando eu comecei a tocar. Sem sinal. Tantas histórias para contar. Estamos ja na terceira noite. Conto muito mais depois.

Seu Manuel conduziu Jacques Cousteau pela amazonia. Um senhor que me explica tudo. Já gosto muito desse barco.

Ju

Manaus- O auto da Desilusão

Comecei essa viagem para ver o que me fazia Brasileira.. Para ver se parava de querer voltar para a Asia.

De cara fui hospedada por alguém que virou amigo, Raphael. Um menino que logo no começo da vida morou anos no Japão. Sua avó japonesa, seu pai daqui. Fomos ver os bichos no zoológico e apesar de todas as arvores, lamentei ver os bichos presos. Nos divertimos naquela tarde. Já tinha sido recebida pelo amigo de um amigo. Um búlgaro que se tornou professor de universidade de matemática aqui. Todos os seus atos foram delicados, gentis.

Ontem a noite, enquanto o Rapha foi trabalhar no restaurante japones da sua família fui sozinha para o centro pois iria conhecer uma outra pessoa daqui. E assim começou um processo do observar e ser envolvida em mentiras.

Era o dia de Manaus. A volta do teatro tinha muitas festas. Parei para esperar e fui puxada por um cara para sentar na mesa dele, agradeci e sentei. Uma, talvez prostituta apareceu, e chamou o cara para dançar.

Ele na verdade queria fazer um show. Em segundos me dei conta que aquilo só podia ser uma pseudo elite daqui. Sua indiferença a todos, a maneira que o tal menino trocava de atenção e “mandava nos outros.” Pensei nos livros de Jorge Amado. Me puxou para dançar e aí eu tive total certeza disso mesmo.

Fui comprar agua e quando voltei um dos meninos da mesa me explicou que aquela cadeira era de uma menina. Ele me deu outra, ela nem sequer olhou na minha cara.

Em segundos lamentei ter sentado e percebi que ela era a namorada do tal cara. Seu descaso por ela me chocou, ela se manteve quieta virada em silêncio e eu obviamente levantei para prestar atenção num outro nucleo de pessoas.

Então chegou a pessoa com a qual eu tinha mantido contato escrito por semanas. E eu achei melhor ir para um lugar com música melhor. Ele quase que já sabia quem era a pessoa pela minha descrição da história. Que lamentável pensei.

E então fui abordada por um homem pedindo ajuda. Problema no coração. Faltava dinheiro para voltar para sua terra. Dinheiro do barco, poucos reais. E eu falei para ele que os Indios sempre dizem para não tirar as pessoas do buracos, pois caem de novo. No entanto, dei o dinheiro. Ele me deu o nome do vilarejo, telefone da sua mulher e me contou que era pastor. Disse que não ia mais pedir dinheiro. Insistiu que eu fosse visitá-lo.

A noite continuou, e esse novo amigo tocou minha pele. Quase me beija. Eu gosto dele, mas sempre o achei agressivo. Fico quieta meio sem reação. Eventualmente digo a ele que é tarde, que devia ir dormir já que tem que trabalhar no dia seguinte.

“Vc não manda em mim.”

Levanto para ir embora. Ele é legal mas isso é absurdo. É assim que tratam as mulheres aqui? Seus mil comentários quase agressivos, vestido de controle me dão uma ideia concreta. Ele vem atrás de mim e diz que tava brincando. Eu não acredito mas continuo passando tempo com ele.

Ele tenta me proteger de ver a realidade. Mas é em vão. O pastor continua pedindo dinheiro. Fica chocado de me ver. Insiste para que eu vá visitá-los, explica que só pega um pouco mais para comer. Digo a ele, que tanto a minha ação como a dele tem consequências. Ele não precisa me explicar nada.

Meu novo amigo com todas suas palavras, sua afeição me diz de repente que tem namorada. Eu sinto verdadeiro desprezo. Penso em mais uma mulher aqui em Manaus enganada. Pega o taxi comigo pois diz que é no caminho.

Quando sai ligo para Rapha que explica o caminho.

O taxista desliga e diz

” Nossa vc tem mta confiança.

Por que?

Achei que vc estava com aquele moço mas niguem que estã com você te desvia tanto do seu caminho.”

Fico quieta e penso como é verdadeira aquela frase. Rapha vem me buscar no fim do caminho já que esse taxista velhinho não acha .

Fico tão feliz de ver o Rapha e penso que ele é quase asiático, lembro do vitão! Só ele me buscaria assim. Penso que é só o primeiro dia. A india foi impossível na primeira semana.

Fico me perguntando será que tudo aqui nesse continente é tão descuidado do outro, tão de mentira? Sinto falta da Asia, do Oriente Médio, da Europa, sinto falta até mesmo de Sao Paulo. É só o primeiro dia, me repito.

Então lembro das palavras da minha mãe no seu último e-mail daquela mesma noite.

“Espero q vc nao tarde e nao sofra na busca de suas respostas. Com amor,
sua mae.

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As Nuvens e a Montanha

Meu mundo parece as vezes extraordinário. Talvez o ordinário até me assuste.

É comum ouvir os Tibetanos falarem da montanha e das nuvens.

Faz uma semanas guiada por um impulso desconhecido coloquei um bilhete na mesa de um homem que parecia perdido. Ele me disse

“Desculpe, eu to surpreso e com a cabeça longe, posso pegar seu telefone?”

No entanto, com todos os sinais do mundo que ele não poderia estar presente, eu escolhi deixar ele entrar na minha vida.

Os tibetanos também falam comumente de uma parábola.

“Quando vc leva uma facada de outra pessoa vc fica com raiva da faca?”

Toda pessoa a quem eu perguntei isso aqui diz que não, fica com raiva do esfaquiador.

“Não devia. Aquela pessoa esteve tomada por um estado mental. A responsabilidade é sua de ter permitido que aquela violência tivesse se sedimentado e aumentado no outro.”

Quase nenhum ocidental entende isso. Eu entendo.

Eu estava andando hoje em Ubatuba para ver a Nossa senhora da Paz que tinha me sido apresentada na outra semana quando aquele novo amigo tinha entrado na minha vida.

Depois, eu que nunca vou, entrei na Igreja. E assim que saí da Igreja daqui, um belo rapaz veio falar comigo, me disse:

“Eu te conheço. Ou melhor eu já te vi muitas vezes. Sempre quis falar com você, mas você sempre estava com alguém.!”

Eu olhei e fiquei quieta. Já ouvi isso mil vezes. Ele percebeu e disse:

“Juro que eu não falo isso para toda mulher bonita que vejo. Eu te vi várias vezes aqui.”

Continuei quieta e ele disse algo que me surpreendeu.

“Te reconheci pelo seu lenço voando. Eu o vi em Cartagena, depois em Taganga e depois na montanha perto dos kogis. Você sempre esteve acompanhada”

Fiquei estupefacta. De fato eu tinha estado em todos aqueles lugares, sempre com alguém Lorenzo, Lucia e Peter e de fato com meu lenço que agora voava como o vento.

Olhei para o céu, pensei em Taganga. Pensei nos Tibetanos e disse

“Faz quase um ano que eu quase morri. Eu estou perdida. Não quero ser como a nuvem, nem como o lenço que voa com o ar. Quero ser como a montanha. Eu te agradeço mas segue o seu caminho.”

Ele entendeu. Não disse nada. Eu virei as costas e continuei caminhando para casa.

Eu vi esse barco da foto. Sem estabilidade, indo de um lado para o outro com o vento. Lembrei da kashmira, de como meu amigo ex-religioso Elick tinha saído do Yeshiva. Falou de Moby Dick, de Ismael no capitulo 23. Não queria ser um barco tão perto da terra que podia se afundar, nem tampouco solto no mar onde se perderia pelo mundo. A arte de ficar no meio. O rabino compreendeu e ele virou matemático.

Por acaso contei agora desse cara que me viu na Colombia ao meu amigo que tem quiosque aqui na praia e ele disse “Nossa, mas vc não quis nem saber o nome, nem deu seu telefone, facebook, nada? Você sempre me surpreende!”

Enquanto eu andava, eu pensava que não. Eu não quis. Porque eu sei o que eu não quero reproduzir. Eu sei que o vento faz com que a gente as vezes tenha percepções muito erradas. E eu também sei que as vezes a gente joga fora coisas por bobagem, acaba insistindo num vicio químico interno sem nem se dar conta. Deixa de dar valor ao que tem, e por bobagem.

Andei misturando a minha fé dos cristãos, muçulmanos, judeus, pensando no Taoísmo e com a consciência que eu tinha feito uma escolha budista.

A montanha é presa na terra e aspira para o céu, a nuvem te joga de um lado para o outro. Eu quero aprender a ser montanha para que quando as nuvens passem elas não me machuquem tanto. No fundo eu espero,e desejo as nuvens a solidez de uma montanha.

Liguei para minha amiga de décadas e disse ” Lu vem para cá! Sabia que vou voltar para o clube. ?”

“Juju, to indo! Que bom! Tem yoga, Tai Chi. Sol na piscina.”

Ela não sabe mas eu lacrimejei. Ela me conhece mesmo. E pensei

“Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.” Fernando na voz de Alvaro de Campos.

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