Também não sou o Charlie

Lamento muito o que se passou com Charlie. Lembrei que há anos vi uma palestra de um estudante de Harvard que era do Iraque. Naquela época acontecia a guerra do Iraque. Vimos nessa conferencia toda a destruição dos museus, das bibliotecas, da cidade, da população.

Omar, o Iraquiano, falava de humor. Acho que o talk era intitulado “Humor is the last refuge of those in pain.” Quando não tem mais nada a fazer as pessoas riem. Riem porque dói demais.

Depois pensei naturalmente nos muçulmanos que por causa do ato de um único toda uma população seria punida, mais uma vez discriminada.

Lembrei do Edward Said que tinha um livro intitulado “Covering Islam”. Nele Said dizia que cobrir o Islã era naturalmente cobri-lo, colocar uma coberta por cima dele. Não há como falar de uniformidade de pensamento de pessoas que vão da Indonésia, ao oriente médio passando por tantas outras regiões como sendo comum.

Então pensei no Islã que quer dizer paz. E em todos os meus amigos que não demonstraram nada alem disso, nem no norte da Africa, no Oriente Médio nem na Indonesia. Até os muçulmanos que conheci na Europa ou nos Eua não eram agressivos ou radicais. De alguns sou grande amiga até hoje.

Eu que cheguei em NY dias antes de 911. Eu que vi tão de perto começar um ódio geral aos muçulmanos. Eu que estive do lado de uma Iraniana que chorou pelos Iraquianos. Ela que tinha vivido a guerra de Iran e Iraque não podia conter as lágrimas pelas bombas. Repetia “Ninguém sabe o que é isso.” Nós todos lá em NY vimos quaisquer Árabes serem discriminados.

Lembrei então do Fayez meu amigo palestino super religioso. Lembrei-me da nossa conversa. Numa das mil vezes que eu voltava a Nablus, na Palestina. Ele me perguntou o que eu achava dos muçulmanos.

“Fayez, como é que eu posso falar de toda uma população que abrange tantos países? Posso falar dos meus amigos, dos muçulmanos que encontrei pelo caminho, em suas casas, pelas estradas.”

” Não Jules, me diz o que você pensa do Islã.”

“Fayez, se eu te disser o que penso vc vai ficar ofendido. E esse não é meu objetivo.”

“Conte me- Jules. Quero saber o que você pensa.”

Respirei fundo e diante de um dos mais assíduos muçulmanos que eu conheço disse o que pensava. Disse a verdade. Aquela que chocaria qualquer religioso de qualquer religião do livro.

” 1. Não sei se deus existe. 2. Se ele ou ela existirem não acredito que se importariam com pequenos detalhes do comportamento dos seres humanos, e finalmente se ele/ela se importasse eu não o/a louvaria.”

Assim que terminei a frase me dei conta quão ofensivo era aquilo tudo que eu tinha dito.

Meu amigo ficou parado e disse:.

“Meu sangue ferveu. Mas eu entendo que você não disse isso para me ofender. Posso te fazer uma pergunta?”

“Claro.”

“Vc já sentiu frio, calor, raiva, amor, ódio, ansiedade, medo, desespero, pavor, alegria…”

E assim foi por todos os sentimentos do mundo.

“Sim.”

“Jules, e quando você sente essas coisas está sozinha ou com alguém?.”

” As vezes sozinha, noutras com alguém.”

“Jules, eu sigo todas essas regras que talvez te pareçam sem sentido porque eu as aprendi. E eu as sigo porque eu nunca me sinto só. Deus sempre está comigo. Eu as sigo em gratidão. Quando eu colocar a minha cabeça no chão vou rezar para que você um dia sinta isso.”

Eu não era religiosa. No entanto, eu chorei. Era aquilo que eu buscava, o fim da solidão. Ainda que talvez uma parte minha ainda achasse que ele deslocasse a responsabilidade para algo de fora que não sabemos se existe, como eu poderia condenar aquilo?. Aquele era um muçulmano que colocava a cabeça em direção a Meca 5 vezes por dia. Eu tinha exprimido palavras que seriam muito ofensivas a qualquer pessoa que seguisse qualquer religião do livro. Judaismo, Cristianismo e Isla. Ele as ouviu, reza até hoje por mim.

Vejo ultimamente na minha pagina do facebook que está cheia de gente dizendo “Eu sou o Charlie”. Eu lamento o ato de terror. Isso é política não é religião. Lamento que o mundo de repente se volte tanto a querer ter o direito de falar o que quiser sem nunca pensar no outro.

Volto aos Tibetanos e penso que o caminho a felicidade é pensar no outro, o caminho do sofrimento é a ênfase do ego.

Dizer qualquer coisa é o valor do egoico. Aquele que nunca pensa na consequência para o outro.

Minha mae me deu um artigo do New York times para ler. ” Eu não sou Charlie.”

Eu também não sou. Eu lamento o ato de terror, mas ainda mais o fortalecimento da discriminação dos muçulmanos pelo mundo. A total ênfase de si mesmo.

Meus amigos muçulmanos incorporam de fato o que quer dizer Islã. Paz. Pena que também pagarão pelo ato de um único terrorista.

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1 thought on “Também não sou o Charlie

  1. Também não acho certo condenar todo um conjunto de seguidores por causa de uma ou mais pessoas. Como você descreveu, há muitos que pregam pela Paz, honestidade, Amor e tantos outros através da não-violência.Tenho quase certeza que nenhuma religião prega este extremismo idiota que algumas pessoas praticam. Eu sou católico e sei que o Catolicismo já fez e pode até fazer coisas erradas e nem tudo eu concordo, mas aprendi a tirar os essência que ensina a estar em Paz comigo para poder ficar em Paz com as outras pessoas com a ajuda desta forma maior que chamo de Deus.

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