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Sobre julietafalavina

Eu escrevo da minha vida, e agora sobre a minha recuperação da saúde .

O Grande Desafio da Vida…

Ja tão perto da época do Natal recebo um grande presente. Para alguns não se parece um presente, mas para mim sim. Na minha última seção  de terapia, expliquei a meu psicólogo  que Cre que sempre me acompanha agora tinha sido minha babá desde que eu nasci, e mesmo  antes de eu nascer tinha trabalhado para meu pai.

Assim Aquiles viu a validade dele falar com ela. Eu confesso que nāo lembro de quase nada da minha infância, o que é meio estranho mas não muito, já do meu tempo de bebê ninguém esperava que eu fosse lembrar muito. Por isso isso eu considero um enorme presente ter escutado sobre a minha infância em frente ao meu psicólogo. Valor esse que muitos que não levam psicologia a sério não entenderam.

Entendi internamente também que não dá para nós esperarmos que os outros entendam o que damos valor, mas que sim devemos respeitar ou pelo menos fazer uma força para tentar respeitar o que o outro dá valor, ainda que para nós faça nenhum sentido. Enfim saí da terapia aliviada. A noite caía devagar na Vila Madalena enquanto a lua boiava quase que inteira no céu.

Desde que parti da terapia comecei a re-conectar me com pessoas que foram muito importantes em toda essa jornada.  Seria impossível falar de tudo, mas queria contar algumas coisas que achei muito interessantes.. por exemplo a conversa online que tive com Chi, meu amigo do Taiwan, que está agora no Canadá. Chi é um dos meus amigos que mais  se preocupa comigo. Ele e um amigo meu Italiano medico.

A pergunta que saiu da minha boca foi ” onde você está e quantos países já esteve agora?” enquanto eu perguntava isso,  minha alma estava se perguntando se ele estava virando um consumista de culturas.. e ele me explicava simultaneamente que nunca pensava em quantos países Ía.. simplesmente ía conhecer lugares dos quais tinha curiosidade. Sempre pelo coushurfing e andando sempre com o transporte mais barato que tinha…

Lembro que a última vez que nos vimos ele me contou que o lugar que mais o tocou tinha sido o Irã pela receptividade das pessoas, e o Sudão pela força interna das pessoas, num lugar tão pobre. Falamos da solidão de viajar assim.  Enquanto o lia  eu me perguntava como podia ser que meu amigo Chines do outro do lado entendia bem a fundo o que eu pensava e sentia.

Quando as mensagens apareceram para nós dois , as mesmas curiosidades simultaneamente, sabíamos.. eu ri… nao sei se ele também, já  que ele sempre fora bem mais sóbrio que eu ,talvez não, mas quase que em silêncio sabíamos que tentávamos não consumir culturas pelo mundo. Mas  sabíamos que  viajávamos fundalmentemente  diferentemente , eu sempre me envolvia com as pessoas muito intensamente enquanto meu amigo sempre era de fora.

Perguntei a ele se o fazia intencionalmente., para não deixar um buraco quando ele partia e  ele me  me surpreendeu dizendo que sim. Depois surpreendentemente ele me  contou que sempre se sentia só… mas sua maneira de navegar o mundo era assim sem se penetrar… passaram a minha mente todos os meus amigos sós que passavam pelo mundo assim….

Vagando pelo mundo sem se conectar com nada de fato. Quase que eu via um balão no céu.. Minha prima Lucia que conheceu o Chi ficou perplexa. Como ele podia vagar assim por anos sem propósito ? Para ela tal pena seria o maior dos castigos..

Esses dias eu recebi também mensagens e ausência de mensagens que me mudaram muito. Soube da morte de uma pessoa, que eu nunca conheci mas de quem ouvira falar muito. Sabia  que era só e tinha estado morrendo aos poucos há muito.

A lua boiando no céu  lembrou me da noite em que eu e Michal sofremos um acidente na India. Naquela noite a lua estava também enorme no céu, e a morte se aproximou bem perto de nós . Um perto meio longe já que não sentimos medo de morrer só o calafrio da sua vizinhança. Nos visitou e partiu.

Depois  lembrei-m e de receber um email coletivo da minha supervisora do doutorado falando do suicídio do nosso colega Tom. Na época, eu respondi o e-mail coletivo mas mais direcionado a um amigo Russo que celebrava a morte de Tom e a sua decisão de partir….Na  época, eu simplesmente achava que eu não podia celebrar tamanha solidão. Escrevi sobre isso e recebi de volta um enxurrada de emails de pessoas que se sentiam sós como nos.

Eu continuei viajando o mundo, e  encontrando pessoas que me marcaram até eu ter um ataque epiléptico e me ver de repente provavelmente durante  o estado de com ao qual fui induzida na Asia com uma decisão de partir do mundo. Via tudo negro e eu sentia que eu  podia decidir morrer.

Lembro de decidir que queria ficar porque queria voltar para ver o Edu e a minha avó. E depois lembro de chegar aqui  e o mundo ser outro. Eu ser outra. Não na essência mas no que eu podia fazer.

E assim que a Lua ficou enorme no céu, tudo foi ficando mais claro. Enquanto ela crescia foi trazendo tudo que devia ficar, no seu ápice tinha quase me populado por inteira.

E agora ela vai minguar levando tudo consigo que não tem valor. A morte desse senhor que nunca conheci olhando a lua me pareceu mais doce.

Ele morria há tempos, em alguma parte de mim senti que maior que a morte é viver tamanha solidão. Lembrei de meu amigo médico com quem tenho um trato de vida e morte. E fui dormir esperando que esse senhor tenha encontrado um outro lado da vida para ele se  vasculhar. Ou que tivesse total final de vida. Nenhuma consciência  que tenha virado stardust.

Repensei o Andrey, lembrei das palavras do Chi, do Fe ,Francesco, da Leila e de tantas pessoas e no final entendi o Andrey, meu amigo Russo.No final, achei melhor celebrar a Vida to Tom.  E lembrando o mundo sendo tocado na superfície, e a saudade que eu terei de todas essas pessoas que eu vejo raramente, senti um aperto no coração.. e olhando para o lua decidi por fim que a grande aventura da vida, não era trabalho, doutorados,guerras.

O verdadeiro desafio da vida  é de fato encontrar o outro. Pelo mundo todo, ou na sua propria casa. O grande desafio é de fato dissolver as nossas barreiras.

No Tempo Do Vento…

Deixo o piano de lado, sento à mesa, antiquíssima e não sei direito o que escrever. Olho para a mesa e não sei quão antiga é, está marcada por copos e rabiscos..  quantas pessoas e quantos sentimentos se marcaram aqui em quanto devaneios? Eu paro e penso em Neruda, ou melhor penso no filme ” o carteiro e o poeta”.  Queria eu lembrar mais poesias… Queria eu estar a beira do mar num pequeno vilarejo a escrever. Nao assim só… num mundo interno… preferivelmente, queria estar com o Edu escrevendo ao lado.  Hoje em dia raramente me vem a mente o nome de um poeta ou um livro que eu conhecia bem. Penso vagamente nos autores arabes e iranianos que tinham sempre na frente de um capitulo um verso, algo de Rumi… e nesse livros  sempre eram populados uma personagem alem do bem e do mal.

Eu tenho essa personagem assim na minha vida. A Cre, minha babá desde infancia que tem mais de 70 anos e que voltou para cuidar de mim agora quando tudo ficou misturado. Cre  que responde tudo com “é”.  Ou seja, nuncca se sabe se ela de fato está sempre em cima do mundo, ou fora dele, mas sem duvida teve uma vida que só puxou seu pé debaixo dos panos  o tempo inteiro.. por isso nao sei escolher se ela simplesmente não entende. Mas tenho por mim que ela sabe de tudo.. e decide em silencio o tanto que escolhe viajar o mundo assim em silêncio.. com muito eh. Ou contando casos meios estranhos. Cre me leva pelo tempo a lados opostos, sendo eu mais sua cuidadora que de mim.

Fui fazer yoga de novo!  E hoje a yoga foi tão direcionada a meditacao. Eu tentei explicar ao Cezar, professor de Yoga, sobre Vipassana http://www.dhamma.org/pt/ mas na hora nem se quer consegui me lembrar os nomes do site… Mas me lembrei o nome do Goenka yogi que começou essas escola. Goenka que vem de Burma. Burma lugar que tanto quis ir.

Vipassana é muito parecida com a tecnica de  meditacao mindfulness, meditacao que não requer nenhuma fé, apenas a habilidade  de sentar e observar a propria mente sem julgar-se. Mas devo dizer que apesar de nao pedir fé  requer a forca de vontade de ir a um retiro de vipassana que dura 11 dias, com 10 dias em silencio. Eu já fiz esses retiros assim algumas vezes…. e é sempre distinto e mas eu recomendo a todos..Hoje em dia o bem promovido por meditacao tem sido muito estudada nas grandes universidades dentro de departamaentos de medicina. No NHS da Inglaterra já foi até introduzida.

Mas como eu dizia fui a yoga, e logo em seguida enquanto eu falava sobre a meditacao tao usada na aula. E enquanto eu explicava chegou o professor de capoeira. Perguntei entaose eu podia entrar ba aula sem saber nada… Ele disse que sim e pelos proximos minutos eu fui tentar aprender a gingar. Fiquei exausta e aprendi male-mai mal mas me diverti  muito.

Hoje eu acordei com pressa para o ano que vem e saudade do ano passado.. Sinto me presa num tempo lentissimo. Eu que já tanto meditei nao sei ficar parada assim…nao agora. não internalizei o tempo presente:  que é o único que existe.  Enquanto o relógio ainda mais antigo que a minha mesa dáva as badaladas, eu soube que  era quase a hora do almoço. Relógio, esse que tem que ser lembrado de sua função todas a semanas. Todas as semanas alguém deve ir la dar as suas cordas.

O relógio é quase como o Aquiles que me lembra todas as semanas que o processo é esse lento eh ,ele que me faz a perguntas certas. Ele que percebe a força da minha conexao conexão com minha avó, o quanto a minha saúde se abala com a sua saúde.

Aquiles que me faz as perguntas certas. O que é que eu devo fazer para trabalhar? Eu desejo estar melhor para trabalhar, ainda que eu nao saiba fazer nada… Os únicos  trabalhos que me fez fizeram feliz foram trabalhar  na recepcao da Mut Mee para ganhar quase nada. E quando trabalhei com o Mustapha num job de escola. O trabalho com os dois eram faceis e mal remunerados. No entando, eu aprendia sobre a vida, eu escrevia e tinha e encontrava humanos exceptonais. Fazia me prazer estar com eles.

Entao sento aqui escrevendo quase nada, mas sentindo que aos poucos estou me recuperando, gostaria de poder só escrever… mas ultimamente até isso é tão difícil… entao vou visitando medicos, exames, e muitos amigos visitando, enquanto as badaladas vão batendo nesse bairro antigo de Sao Paulo. Hoje em dia populado por muitos Judeus que vieram muito deles na segunda Guerra. Soube esses meses que muito tambem vieram tambem para a Amazonia. Meu novo vizinho  é Libanes, e no verdadeiro estilo Arabe até me convidou parar ver a sua casa e no final ainda me prometeu zaatar.

O tempo voa lentíssimo enquanto eu e a minha avó nos recuperamos, mas ela ja tem direito de beber cerveja, vinho, cognac etc…. e eu nao 🙂 tudo bem nunca nem ligar de beber.. O antigo Bairro vai se transformando e numa volta ou outra tudo volta a sua velocidade e quem sabe nesse dia vou até jogar capoeira… mas agora eu devo voltar a sala para celebrar o aniversario da minha mae.

Menos silencios, muitos pensamentos…e alguns sons :)

AAmusica metafisica filosofia (1)

O Piano não faz mais sentido como antes, eu nunca soube tocar piano. No entanto, nas ultimas vezes o piano fluía por mim e para mim. Hoje não, o piano é entanho, é estranho como fora outrora.

Chateio-me, o piano tinha se tornado tão familiar, e tão belo quando eu ficara doente na segunda vez,  na terceira…eu sabia toca-lo mesmo sem ter de fato prestado nenhuma atencao naquelas mil regras do 5. Sem jamais  nem lembrar o nome da professora de piano. Quando tudo colapsou o piano fazia sentido…. eu sentava e musica fluia…. e era bela..

Hoje nao. Hoje não, ele é raro como também é rara  a sanfona que desapareceu desse quarto meu. Quarto construído em detalhes com todas as minhas escolhidas relíquias .. coisas simples mas feitas a mão pelo mundo. Aprendi com minha avó, que trazia algo de suas viagens feito a mão. Fico muito no meu quarto e na sala com minha avó. Ando muito a pé e  de ônibus com minha cuidadora, minha ex babá de infância, a crê.

A cre ė mais perdida que eu, já que jestá bem velha e teve uma vida de livro dos passados.  Um tempo eu conto mais da Cre que agora está no dia de folga.

Passo tempo entre ir a milhões de exames e médicos e no meu quarto entre passando filmes do Michael Pailin com minha avó. Vejo muito muito prima Fe, em casa tentando escrever e tentando tocar o piano..  Esse dias como expliquei o piano não é mais familiar…. Alguma coisa desinflamou no cérebro e junto com essa desinflamação partiu a minha conexão ao piano.

Mas claro que não é tudo ruim. Eu  decido escrever.. mas aí a luz pára no prédio. O que fazer sem net ? Eu pego então um livro… tento escrever não tenho muito o que falar. Então faço algo corajoso pego o  meu violão, este que eu não conhecia mais! Que mostrava a mim tão claramente que eu não sabia mais o meu corpo,ele que tinha vivido comigo desde a infância. Ultimamente parecia soar sempre errado.

Alguma coisa tinha se dado quando todos os fios do meu cérebro se rebelaram e eu não sabia mais nem fazer acordes simples e maiores, e nem sabia cantar nada… nem as notas nem as melodias… um sonho disforme saía de mim.

Parecia que não importava o que fosse as linhas que saiam da minha voz, e das mãos eram invariavelmente separados. Caminhos em paralelas sem a menor chance de se encontrar.

Hoje no começo eu não soube cantar, mas eu soube ouvir, finalmente eu cantarolava na mesma linha e  tom que saía do meu instrumentos… difícil de explicar… como se aquelas melodias não estavam mais paralelas, finalmente entoávamos e cantávamos finalmente juntos.  e  e a letra toda eu não sabia lembrar, esquecia.. palavras inteiras.murchas.. apertadas.. mas eu sabía cantarolar fluidamente..

Eu então a luz voltou e eu pude olhar a t  e pude cantar  e tocar enquanto as linhas passavam umas pelas outras. Senti-me muito feliz.

Mais tarde fui a yoga e la meu corpo mal se lembrava dos assanas que eu fiz tantas vezes, por muitos anos antes.. Cezar seu professor foi me ajudando, mas  interessantemente  a dificuldade foi só na primeira seqüência , quando fizemos o lado esquerdo. No lado direito tudo foi perfeito…eu me lembrava… não . Mas não parecia que era preferencia de lado mas simplesmente apenas parecia que meu corpo estava sendo relembrado tudo e que amanha será tudo de volta…

Voltei para casa e resolvi tocar piano. A internet estava de volta. Pedi ajuda ao Cesar da internet ( o site de violão com letras e acordes 🙂

E o violao que tinha sido tao raro veio flutuando a direção ao cais. Eu o aguardo aberta para cantar com voz e acorde… e com ajuda da net eu canto o que cantarolava Caetano

” que Apenas a matéria vida era tão fina”

e então o telefone toca e me de lembra então do “Esteves sem metafísica” do mundo real que se passa a volta a todos.  Tomo um banho e resolvo que já é hora de dormir nessas horas meu cérebro vai se recuperando mais e mais..

Muitos silencios e Muitos pensamentos…

Vejo o mundo em pedaços… mas, como eu passei por muitos mundos nesses anos, hoje depois de mais um incrível colapso do meu corpo sento-me aqui e uso quase toda força que eu tenho para escrever mais uma vez.

É duro,  eu fiquei fora do mundo por dias. Cheguei no no brasil em Setembro. So agora em Dezembro comecei a navegar  de volta este mundo direito. Não sei bem de onde…. não sei bem com quem.. nem bem a direção….  Ou melhor, tem horas que as palavras se apresentam naturalmente, palavras curtas que não exigem de mim muito, e se escrevem mais comumente . Flutuam naturalmente de onde aparecem , flutuam para a direita como um rio na  Amazonia,  já noutras horas me sinto no Oriente Medi(c)o/  🙂

Então, eu acho que devia começar  pela esquerda e fico voltando a cabeça para esquerda, tentando   encontrar todo o passado que eu vivia em silencio, quase um olhar para um deserto distante. Esse olhar sempre da-se sempre para Esquerda

Isso quando eu ainda lembro a grafia das palavras. Eu nunca soube escrever direito, e muito menos pontuar  nada de acordo com o Prof Pauscuale…hoje, a minha grafia será assim insólita, não por estilo, não por experiência …É a  verdadeira simples incompetência… talvez no passado eu defendesse saramago, o ou  grande  pessoal da acadêmico do processo de post colonial thinking ( que eu nem sei como se chama em português) que  afirmam  dentre muitas outras coisas coisas que a norma culta nada mais é que um elitismo.

Continuo concordando  com muitas de suas criticas… mas temos que reconhecer que uma norma culta  é uma misto de elitismo ( na escolha do que é escolhido) mas também uma maneira mais uniforme na  busca de um processo de deixar as coisas mais eficientes e em mais lugares….

Todas essas viagens e estudos me levaram a  ir para um milhão de pessoas em mil línguas, com mil sociedades que se encontravam e se manifestavam de mil maneiras em mil  maneiras… Religioso ou Ateu devemos pelo menos devíamos concordar numa coisas: a vida normalmente luta pela vida. Então se vc acha que eu to escrevendo isso para eu pregar já eu já aviso que nao é isso.

Isto me deixa exausta tenho que reler muitas vezes. Vou aos poucos tenteando voltar e escrever o que o que eu sinto. Tive uma vida dizer buscando sentido, de uma forma ou outra  acadêmica, no amor , na religião não sei porque tanta vulnerabilidade.. (totalmente produtos da minha mente)  meu corpo teve colapsos eles foram no meu cerebro. Pedidos de ajuda talvez.  Meu corpo sempre no meu cérebro

que nessa vez me deixou com uma consciência de possível escolha de morta. Mas hoje eu já escrevi demais… eu escrevo mais para frente.

Escrever me ajuda me trazer de volta ao mundo daqui, foi um pedido  do grande Dr Getulio, ele sabia que me ajudaria a entender os processos que eu eu observo, faço em português pelo Aquiles, pois imagino que o veria como uma busca, um volta a minha casa interna, familiar da minha infância.

Eu tenho até babá, com nome agora cuidadora. A Crê que cuidava de mim quando eu era criança… e dormia do lado da minha cama. Cuida de mim como de criança, as vezes  me ajuda muito noutras me desespera, e sinto-me que sou eu que está a cuidar dela. Com o direitos de uma menina pequena não levada à sérios .

Escrevo mais  para frente.  e noutra hora.  É difícil, é tudo aos poucos, então  paro aqui com as ultimas coisas importantes.

Eu tive o primeiro colapso no Marrocos quando eu viajava só.  A principio íamos eu e o Haiko meu ex, e a minha amiga Adriana. Passeávamos pelas cidades importantes, pelo o deserto etc… mas no separamos cidades em Fez, quando eles tinham que voltar para o UK para trabalhar…. e eu podia ficar mais.  Então eu fui olhando tudo, eu que nunca gostei de comprar nada, e nem gosto de mercados, acabei me encantando com as estórias dos tapetes, as comidas e o mistério daquele Ramadã.

Cheguei mesmo até à fronteira cruzando para a Espanha ali absurdamente a Espanha no continental Africano. Foi quase que lá eu creio que em toda aquela ambiguidade, vulnerabilidade, complexidade se acordou no meu corpo. Ali naquela fronteira de pessoas tao perdidas e tao soltas, tao livres e tao buscando tao gravemente algo que se soltou em si.

Voltei eventualmente para passar mais tempo em Marrakesh  com Mounia e tive o primeiro colapso depois de viajar durante Ramadam na casa de Mounia , ja escrevi sobre isso no passado, o quanto a simbologia  da sua pintura me devasto.

Foi naquela noite vendo aquele quadro um corpo que se comprima e tentava sair daquele lugar…. como naquela noite eu tive um ataque epiléptico sem bem saber bem o que era, pois eu estava dormindo e nao queria sabia e nem queria pediar ajudar….

Essa rota é longa e vou fazer esse exercicio para voltar

Eu tive 3 ataques muito distintos desde 2007. Todos meio sem explicação. Vou tentando escrevendo aos poucos porque tudo isso aqui me deixa assim com um novelo que se afrouxa e ao mesmo tempo abrocha.

Obrigada  a todos que sempre ficam me dando um baita ajuda. Agradeco todos os deuses e todos os cientistas. Ju

 

 

 

 

O Amor é Subversivo- Para o Varal do Brasil

“ O amor é subversivo”

Foi o que eu pensei quando terminei de ler o amor no tempo do cólera. Florentino viveu histórias onde não esteve para esperar um amor sonhado na infância. Ele só é possível na Colômbia quando uma bandeira está lá, a bandeira do cólera.  Porque cólera é contagioso e o amor só podia existir assim, contido, num rio, num barco, porque na sociedade corrompe tudo. Corrompe as divisões.

Esse meu pensamento, voltou mil vezes à mente. Todas as vezes em que eu estive em lugares violentos. Todas as vezes em que eu estive em lugares desenvolvidos. Por que será que é tão difícil o amor?

Na minha própria vida, eu buscava dar amor a tanta gente, por tantos cantos. No entanto, sempre houve um momento em que eu ia embora. Porque o amor que eu buscava, para me resgatar de mim mesma, não podia fazê-lo. O amor me fazia vulnerável.

Porque o amor  faltava em mim.

O amor colapsa uma coisa para a qual não estamos preparados. Ideias versus o corpo. Sentimos o amor, ou alguma versão dele, no corpo e pensamos ele de uma outra forma.

Sinto que o amor é compaixão. Compaixão é entender o que os asiáticos, o religiosos,  os sociólogos e muitos outros tocaram. Que somos o tempo todo indivíduos num mundo plural. O amor colapsa separação do outro. O amor é humano.

E como disse o ativista  Vittorio Arrigoni que foi morto em Gaza: precisamos nos manter humanos.

Quando eu cruzei o muro da separação em Israel para chegar na Cisjordânia ( contra a vontade dos meus amigos) e fui ficar na casa de pessoas que eu fui conhecendo pelo caminho. Na época, eu estava envolvida no meu doutorado. Na época, eu escrevia as histórias das pessoas que não têm voz. Da Palestina eu escrevi o que eu via lá. Nada de político, nada sobre a ocupação. O dia-a-dia meu.

Um dia, um filósofo israelense, com quem eu tentava me encontrar há dias, me mandou uma mensagem de texto dizendo “eu queria ver o que o você está vendo”

Propus a ele que lesse os e-mails que eu mandava aos meus amigos (e que hoje está no meu  blog  www.translatingthoughts.wordpress.com  junto com todas as outras histórias da volta ao mundo). Mandei todos os emails  e, em poucas horas, ele me mandou uma mensagem de texto que dizia

“não posso te ver”.

Perguntei se era por causa dos textos. Ele concordou. Fiquei intrigada, não tinha escrito nada sobre a ocupação, ou a política. Liguei para ele. E ele me explicou que não sabia explicar por que era tão difícil.

Insisti que tentasse, afinal ele era filósofo. E ele disse:

“É humano demais”

Foi  difícil demais para ele dizer aquilo. E eu me senti muito grata. Ele prosseguiu:

“Se você tivesse falado contra a ocupação, se você tivessse falado da política, eu entenderia. Eu podia concordar, ou discordar… mas quando  escreve sobre amor, sobre yoga, sobre como eles tomam conta de você como nós tomamos aqui… é humano demais.”

Eu ainda fui esse dia até Jerusalém para conversar com ele. Nunca mais o vi. E isso ficou na minha cabeça para sempre. Quando eu escrevo do humano eu colapso todas as separações. Todas.

E não há nada mais humano que o amor. O colapsar da mente versus o corpo.  Toda a confusão que vem com a enorme vulnerabilidade de amar, de ser humano.

Na Colômbia, há pouco tempo, encontrei um homem de Gaza. Ele abriu um bar em Taganga, vilarejo de pescadores, na beira do parque Tayrona. Era sua forma de lutar pela

Palestina: servindo comida.

Amor

Na frente do café havia desenhos do Handalas, e “Revolución” escrito.

Handalas são cartoons. Ele/s são a personagem mais importantes do  Naji al Ali. Handalas normalmente são pintados de costas com as mãos fechadas e cruzadas. Eles representam crianças de 10 anos que foram mandadas de casa em 1948 na Al Naqbah ( O grande desastres para os Palestinos, quando perderam suas casas).

Eles estão sempre de costas e de mão cruzada,  porque Naji al Ali  que era crítico tanto do governo de Israel como dos governos Árabes. Rejeitava todas as soluções de paz que viessem de fora.

Não na Colômbia. Quando eu cheguei à Taganga, eu vi primeiro a bandeira da Palestina e depois a Revolución e depois os Handalas. Me apresentei ao dono, Yassert do café/restaurante como alguém que amava o oriente médio e que tinha amigos dos dois lados do muro da separação em Israel.

Voltei ao café do Yassert todos os dias tomando café, conhecendo seu filho, sua história.

E logo no primeiro dia eu fui pesquisar sobre a personagem Handala. E depois me lembrei que ali na Colômbia os Handalas pintados no café de um homem que fugiu de Gaza estavam de mãos dadas. Abraçados. Um carregava uma chave, outro uma arma, outro uma câmera, outro um estilingue para baixo. Tudo isso nos ombros.

Eu não gostei de ver a arma. No entanto, quando li que o Naji al Ali tinha sempre os feito de mãos separadas, e de costas, me senti aliviada. Ali na Colômbia eles estão abraçados. Tem algum que carrega uma arma no ombro mas suas mãos carregam o outro. Os vizinhos.

Olhei na minha memória para me lembrar que a palavra REVOLUCIÓN estava escrita diferente.  Tinha a palavra LOVE destacada no meio, só que ao contrário e em vermelho. Sorri. Ali na terra onde o amor foi tão subversivo, um homem, que tinha lutado na Intifada, hoje serve comida. Ele luta pela sua causa com seu restaurante, alimentando gente, trazendo pessoas para conversar.

E na sua parede os Handalas se abraçam e a maior palavra é “Love”, que é amor.

Yassert

O amor é subversivo, mas não ficou contido no barco. O amor é humano. E Vittorio Arrigoni, italiano, que morreu em Gaza, sabia disso.

Eu tinha um pouco de aflição de ativistas, que parecem sempre lutar seus próprios fantasmas em outros lugares. O mesmo que eu fiz por tantas partes do mundo.

Nesse dia, eu vi pela primeira vez o blog do Vittorio sua principal mensagem era: Stay human! (Permaneça humano).

Amar é permanecer humano. Com as armas e as câmeras e os medos.  O amor é subversivo porque nos obriga a ficar, a colapsar tudo que é divisão.

Então da Colômbia, de Taganga, eu dei “Graças a deus que o cólera foi contido, mas o amor não. O amor está em toda a parte em que permitimos que ele esteja. O caminho deve ser esse: deixar ele estar em toda a sua humanidade em toda sua perfeita imperfeição e ficar.

Mulher, um Universo- Para o Varal do Brasil

Eu acordei bem tarde, e o primeiro e-mail que eu leio me propõe pensar “mulher, um universo”.

Meu primeiro impulso é pensar porque não “ser humano um universo” ? Depois é analisar porque continua sendo tão difícil para mim pensar mulher como um universo?

Ainda me é tão difícil, eu sei por quê, eu sou mulher, eu sou ser humano. E por eu ter estudado antropologia, biologia, literatura, feminismo, política, etc, tudo isso vem carregado de tantas ideologias. Por ter viajado tanto e voluntariado mundo a fora e eu querer tanto um mundo menos desigual e ao mesmo tempo plural. Por eu sentir que ideologias vem (muito na superfície) buscar atenuar desigualdade que existe no mundo ( em escalas variadas) mas muitas vezes acabam nos roubando da pluralidade do mundo. Da beleza da diversidade. Da particularidade que todos temos por uma coisa ou outra.

Quando será que o Universo feminino ficou tão duro assim? Tao politizado? Penso tudo isso mesmo antes de sair da cama, então, me vem a cabeça uma frase que eu ouvi ontem a noite de um artista, num bar em São Paulo. Um homem que eu imagino sensível. Não crendo habitar o planeta machista.

Resolvo tomar um banho enquanto penso as frases.

O homem me diz num bar duas frases:

A primeira é uma pergunta:

“ Você é Balzaquiana ?”

Concordo tenho 31 anos, há dois anos sou uma mulher Balzaquiana. Isso não me ofende. Memso porque que eu nao sou a mulher de 30 anos de Balzac. Isso so quer dizer que eu tenho 30. Isso soh esta ali para nos fazer perceber que temos repertorio comum e que eu não sou uma mulher “qualquer”.

A segunda frase é:

“ Você é bonita, e tem canela grossa. Se eu fosse senhor de engenho te compraria para colocar na casa grande e não no engenho. Mulheres de canela grossa são boas de cama, mas são preguiçosas”

Sou pega de surpresa por essa frase. Nunca vou a bares desse tipo. Não moro no Brasil há tempo demais, e nao consigo imaginar isso acontecendo em qualquer lugar outro que ali. Não me ofende. É-me tão raro que eu tento contextualizar como eu posso. Contextualizo no intelectual. Pergunto a ele se de fato se dizia isso no passado se havia uma teoria mesmo referindo se a isso?

Faço isso por curiosidade, mas também por um certo desconcerto de ser explicitamente desejada, e ter sido colocado assim em duas frases… “eu quero saber se você tem meu repertorio. No entanto, eu quero você na minha cama.”

Nada disso eu coloco em palavras na hora. Eu fico no território que eu conheço: o intelectual. Não quero entrar no domínio do sexual. Como se aquilo não se referisse a mim.

Como se eu ser uma mulher não fizesse alguma diferença. Como se eu ser uma mulher bonita e ele ser homem ali não fossem as particularidades mais presentes. As que mais definisse o mundo que entravamos.

Mudo de mesa e começo uma conversa com outros homens. No plano do humano.

Volto para casa e acordo hoje para pensar o Universo Mulher.

Saio da cama, pensando o que vou escrever. Entro no banho, e me lembro que uma vez posei nua para um pintor russo na Inglaterra. Fazia mestrado na época, meus pais ficaram perplexos e eu tinha ido por curiosidade.

Na época, eu ainda estava um pouco cansada do tanto que a antropologia se afastava da biologia, da neurociência, o tanto que o feminismo vivia no ideológico. Fui lá ser pintada nua. Ser nada além de uma mulher nua. E foi uma experiência muito diferente. Porque ela me era impossivel.

Primeiro eu fiquei amiga do pintor, falei de Dostoyevski, me estabeleci como ser humano que tivesse uma particularidade. Depois eu reconhecia que estava lá porque queria e não porque fosse forcada.

Tirei minha roupa confortavelmente. A princípio fiquei desconcertada. Não tanto pela nudez, por também sempre aceitá-la como humana e comum, mas me desconcertou que alguém fosse pegar o que sentia ser a minha essência e por num papel. E ali, aquela essência me era sem controle.

Entendi melhor o que eu admiro do feminismo. A luta pela igualdade de direitos.

Olhei a principio para baixo. Depois resolvi olhar o pintor. Como quase um ato politico. Resolvi ser parte do processo de ser pintada. Ainda que fosse em silêncio. Ainda que eu fosse objetificada, eu observaria quem o fazia, que tivesse algum poder ali naquele processo de ser apenas uma mulher nua.

Ali eu senti o poder arquétipo de ser homem X mulher. A tensão que existe quando vc deixa de lado as particularidades e fica na essência do arquétipo. Eu era bela e frágil, vulnerável, ele forte, dono da situação. E ainda assim, eu ali não me senti sem poder. O poder que eu tinha vinha de não ser obrigada a estar ali, aquilo para mim era uma escolha.

Foi um tempo tenso, em que tudo que eu já vi de pintura de Ingres e Delacroix, das Odaliscas, me vieram à cabeça. Seria o orientalismo que eu via ali realmente delas, ou o que eu aprendi a ver quando vejo um quadro de um europeu, que retrata o Oriente por ter lido Said? Será que eu tentei vê-las? O que será que significava aquela postura, aquele silêncio?

Depois de tudo isso viajei, e passei muito tempo pelo Oriente Médio e a Ásia, sempre buscando e encontrando a voz dos que não tinham. E no fundo, todos nós estamos tão calados. Nos é imposto tanto que ouvir mesmo o universo do ser humano a sua frente é difícil.

Eu acabei pela Índia, e pelo caminho, encontrando versões de Tantra, o culto à Shakti, o feminino. E o que eu soube pegar disso tudo peguei, eu voltei a resgatar o mundo mulher em mim. O mundo feminino. Que suas características não pertencem só às mulheres, mas que me parecem (depois de tanto tempo pela academia e pelo mundo) estarem mais sim em nos que temos dois cromossomos XX.

Eu não quero entrar na biologia da questão. Eu não quero desmerecer a luta política por direitos iguais que o feminismo nas suas varias ondas teve. O que eu quero , ou melhor, o que eu tento , é aceitar que talvez o universo de qualquer coisa é plural.

A beleza da diversidade não pode ser apagada, ela não precisa ser erradicada para que a nossa comum humanidade se encontre. Não precisamos ser iguais par ter mesmos direitos. Direitos mais adequados.

Eu, hoje sei que sou mulher. É o que eu sou toda vez que eu encontro um homem que me deseja. Quando eu desejo o homem, me envolvo nesse discurso, senão, trago-o para um outro âmbito.

Essa tensão, ser mulher x homem, me faz pensar como eu vivi muito tempo, e vejo muitas pessoas viverem, sua sexualidade, como se fosse uma entrega, um presente, uma distração. Em toda essa busca eu encontrei uma percepção de sexualidade como uma possibilidade de um encontro. Um encontro pleno. Um encontro com o outro, uma possibilidade de dissoluções de barreiras.

No entanto, o que me parece mais problemático no “Mundo Mulher” de hoje, nas nossas sociedades, é como a sexualidade é roubada de nós mulheres. Ou para ser usada como um presente, ou como um ato de poder, ou de desmerecimento, nunca uma conversa, um diálogo consensual entre duas pessoas. Um encontro com o outro. Uma escolha principal e importante de todos os envolvidos.

Quando eu encontro um velho, sou jovem. Quando eu encontro um asiático, sou do Ocidente. Todas essas categorias não são fundamentais, tampouco, tão circunstanciais assim. Elas são imploradas em varias situações, pois nós habitamos muitos mundos.

Acho que as características que são atribuídas às mulheres: cuidado, delicadeza, beleza, fragilidade, são as que o mundo, que se desumaniza, tenta roubar de nós todos. Essas, eu mais do que nunca compreendo como características que por razão biológica, humana, ou sei La o que) me parecem ser a base da fundação do universo feminino. Essas são as que em nome de poder, muitas de nos mulheres (infelizmente) tentamos abandonar…

Eu acredito que essas devam ser características que devem ser cultuadas mais também no arquétipo universo masculino. Por que antes de ser mulher, e ele ser homem nos somos seres humanos… numa jornada que nos não entendemos muito bem. Numa jornada que nos desumaniza mais e mais a cada segundo. Nessa jornada vamos todos tentando entender pela razão tudo, enquanto navegamos o mundo pelos nossos corpos e sentidos.

O mundo mulher é só mais um mundo. Um que eu habito muito frequentemente. Um que hoje me é mais familiar. E que tenho muito ainda mais a aprender. Um que se politizou de um tanto que é difícil falar dele. E de passeá-lo.

Já o mundo em que todos nos habitamos, é plural e devíamos cultivar toda essa pluralidade sem jamais perder a ideia que no final ele é também muito comum. É o mundo da experiência humana.”

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Ilumina-se o Caminho

Quase 11 da noite. Sento no chao. A minha volta ouco vacas. Nao as vejo. Eu as intuo. Sou iluminada foscamente pelas estrelas do ceu. Em tao pouco tempo, eu ja sou menos vitima de toda aquela angustia.

Sabado a noite, poucas horas antes,  eu quase que enlouquecida continuo nao sabendo se e orgainco ou nao todo aquele desejo de fugir de dentro.  Grito aos quatro ventos que eu preciso fazer alguma coisa. O grito chega a tantos, e sao  tantos que me oferencem resgate. E eu aceito a mais inusitada de todas as ofertas. Subir uma pedra. A pedra bela a noite.

Entro no carro de um novo amigo da escalada e o aviso de toda essa latente fragilidade minha. Conduzimos e eu vou vendo as estrelas e a lua que ri amarela no ceu. Comeco a me aliviar. Entre silencios e no ar que vai saindo chegamos no total breu a Pedra Bela.

Andamos na total escuridao ate ela. Carregamos quase tudo que precisamos para poder subi-la. Eu que poucas vezes subi pedra, e que quando o fiz sempre estava rodeada por muito gente experiente, e pelo sol. Agora estamos so os dois. Eu nem se quer tenho a minha sapatilha. Tudo que eu uso de escalada nao me pertence. Esquecemos a corda no carro.

Piso a grama e ouco o seu barulho. Ouco as vacas. SInto um certo medo. Fico so no meio do campo. Meu jovem e paciente amigo volta para buscar a corda no carro. Eu fico so no breu com todos os equipamentos. Eu e todo o meu barulho interno. Aos poucos tudo que existe fora vai me tirando de mim.  Meu amigo reaparece e ate a luz que ele carrega me parece agora quase que desnecessária. Ele me explica lentamente o que eh que devo fazer para fazer o segue. A seguranca. Presto toda atencao do mundo pois sao detalhes demais para carregar a vida de uma pessoa. Ele conhece a Pedra bem. Ela eh facil. Comeca a sua escalada. E eu entao comeco finalmente sair de mim.

Eu fico la embaixo entregando corda. Ele vai ficando mais e mais longe e eu mais e mais incerta se eu saberia subir uma pedra assim… no escuro… com sapatilha larga demais.

E ali, naquele momento, quando eu olho a pedra me vem a cabeça todo ferimento que pode chegar em mim. Posso me arranhar, me esfolar, me cortar, me quebrar, morrer. Respiro fundo e lentamente, e começo a subi-la e de repente eu compreendo algo em meu corpo todo. A pedra eh presente. Ela eh imponente. Ela esta la. Ela nao esta tentando fazer nada para me arranhar, ou me cortar. Ela simplesmente eh.

E é a minha ausencia de consciencia, de presenca que pode me machucar. É a minha propria distancia do real. É qualquer ilusao qeu eu possa criar para me defender do real que me fere. A pedra é real e eu nao quero mais ser iludida. Eu quero ser presente, consciente. E ali naquela noite eu comeco a vislumbrar o caminho de volta para dentro. A volta a casa. Ali equilibrada na pedra eu sei que eu ja posso comecar de novo a dancar. Finalmente, começa a se iluminar o caminho da delicadeza.

Tempo da Delicadeza

Ando meio melancólica. Melancolia daquelas que faz um procurar todas as razoes lógicas, orgânicas e eventualmente, até as mais improváveis e impensáveis.

É mais ou menos assim:

“ É natural, faz sentido fazia muito tempo que eu não morava aqui”, a “faz sentido eu to para ficar menstruada de acordo com o mais novo app no meu telefone”

até o

“Sera que é a lua cheia, ou alguma conjunção planetária não favorável?.”

Eu respiro fundo e invento de subir mais uma parede. Ou então, dançar com mais um desconhecido.  Leio poesia.  Mudo meu status no WhatsApp para “I Ina Imani”. I Ina Imani que quer dizer em Swahili “Eu tenho fé”

Eu não falo Swahili, mas acho é a língua que soa mais bonita que eu já ouvi. Procuro a frase de em Inglês, que já me é distante,  no Google tradutor (que não é humano) como se diria “ter fé”em Swahili. Ninguém quase nunca verá essa minha fé no  meu status do Whats App… então ali, por muitos últimos dias “tenho tido fé” nâo sei bem em que, na língua que me soa mais bonita.

Fé, até agora,  em segredo, e numa língua que eu nem sequer sei dizer “bom dia”. É o máximo de fé que eu consigo ter. Fé numa língua distante e escondida numa aparato tecnológico…. Mas eu estou precisando da tal fé, então me satisfaço com o absurdo do possível.

Vou ao show de tributo ao Miles Davis na Serralheria. Venho direto da escalada e sento sozinha muito antes que qualquer amigo meu apareça. Fico ali ouvindo e vendo na grande tela aquele homem, que eu não admiro como pessoa, ensandecido. Eu conheço aquele sentimento. Como é possível que toda aquela desorientação jazzística toque da maneira que toca a minha alma? Penso no quanto Fernando Pessoa às vezes me é familiar, e o quanto eu preferiria que fosse o Alyosha que eu entendesse na pele.

O meu silencio dura muitos e muitos minutos. Eu sou a única pessoa só ali, mas de repente um bonito homem, tbm só, quer saber por que eu estou la? E por que eu estou só?

Tenho que voltar do outro planeta onde eu estou para responder.  Ele tem todo o cuidado. Ele, me observando ha tanto tempo, conhecia ate o meu ritual de colocar o esparadrapo no dedo já destruído pelas poucas semanas de escalada. As posições meio yogis que eu tinha me sentado. Sua primeira pergunta é

“ Vc quer ficar em silencio, vou te atrapalhar se eu falar com voce?”

Gosto do cuidado dele. Não veio me resgatar. Nem se quer veio porque pensasses o silencio um fardo.

E em pouco tempo percebo que ele escala, que já passou muitos meses na India e no Sudeste Asiatico. Não tem “imani” e nem é parte das suas preocupações diárias. E me surpreendo que nesse pequeno ato de reconhecimento alguma coisa ali dentro de mim se alivia. Benjamim me pergunta lá da Coreia  “como eu estou”.

Penso na mil coisas que eu poderia dizer mas fica resumido em

“Tentando encontrar o tempo da delicadeza”

Benjamim que na casa do Nucleo já tinha delicadamente tocado uma flauta para me acalmar em todos os meus erros na minha própria canção. Depois de uma noite longa com cuidados e descuidados vendo sua resposta penso…

I Ina Imani que um dia o tempo da delicadeza há de chegar. Espero que nesse dia eu reconheça a delicadeza pelo que ela é, e que eu saiba ficar…

Nas Cordas do Meu Violão

Viro as tarrachas de um violao abandonado aqui de casa há mais de década. Esse violão já foi meu. Já viajou o Brasil que eu viajei. Já ficou na casas de mil amigos. Era para todos que me conheciam naquela época, uma extensão do que eu era. Mas há anos ele tem as mesmas cordas. Há anos as tarrachas não funcionam mais. É muito duro vira-las.

Dia desses cortei as cordas enferrujadas do suor da mão de tantos. Oxidadas com certo descaso e abandono por tantos anos a fio. Um instrumento ali meio por acaso. Corto as cordas num desses dias. Falo que preciso de novas cordas mas não vou compra-las.

Num outro dia resolvo colocar óleo nas partes de metal enferrujadas para poder trocar as cordas. Demora talvez uns dias mais para eu de fato buscar o tal DW40. Estou meio que convencida que esse violão já não toca mais.

Outras semanas passam e muitos dos que me conhecem sabem das cordas que eu preciso comprar.

Nesse final de semana eu vou a Benedito Calixto levar dois amigos do mundo. Iva, nascida na Malasia, de mãe francesa e pai chinês. E Nam, australiano de família do sul do Vietnam que fugiu de um campo na Indonésia para a Austrália.

Andamos a feirinha e eu vou contando a estória do Brasil. As vezes paro no meio de uma frase que eu sei tão bem…me lembrando quão critica eu sou do modo repetitivo que as narrativas de países são contadas. Narrativas que nunca paramos para avaliar. Enquanto vou dizendo as frases meio repetidas por muitas outras pessoas… eu as interrompo dentro de mim. Quando mesmo eu fiquei sabendo disso? Que evidencia empírica existe sobre esse fato ou outro? Rio em silencio.  Nenhuma.

Eles estão no meio de uma viagem pela America do Sul.  E eu me lembro das cordas.

“Podemos comprar cordas? É logo aqui na Teodoro Sampaio.”

Compro as cordas porque eu pretendo ficar. E como alguém que volta aos poucos a entrar na fantasia de alguém que vive em algum lugar eu olho algo para o meu quarto. Uma bermuda num brechó. Minha amiga Paula que veio nos encontrar se surpreende.

“Você comprando alguma coisa?”

Explico que é para escalar.  E agora enquanto eu sento fazendo algo que há anos eu não faço eu percebo que eu compro porque eu não tenho que carregar nas minhas costas. Enquanto eu vou girando as tarrachas meus pensamentos vão correndo por mim.

Lembro do meu professor de violão vendendo seu mil produtos há quase duas decadas,  e como uma manivela de memórias vou incorporando tudo que eu fui aqui. Assim, como aquelas frases feitas sobre o Brasil eu olho para algumas facetas da minha personalidade e rio em silencio. Não há nada de meu naquilo.

Mas a manivela gira e eu vou pensando em tudo de novo. Uma agarra na parede, uma corda bamba, um novo sorriso importante para mim. E a tarracha gira e vai deslizando por mim todas as pessoas que nesse final de semana eu reencontrei. Gira por mim as pessoas que resolveram vir me ver aqui num futuro tão próximo.

Afino as cordas. Uma a uma. Assim que eu termino de afinar elas já estão desafinadas de novo. Afino de novo, e de novo. E de repente pela primeira vez eu toco um acorde dissonante. Ali em toda aquela dissonância as notas fundamentais, e as dissonantes estão claras como nunca.

E eu sei, melhor do que eu sei qualquer frase sobre o Brasil, ou sobre mim,  que daquele violão tão abandonado musica pode uma vez mais transbordar. Não a mesma musica , mas alguma musica.