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Sobre julietafalavina

Eu escrevo da minha vida, e agora sobre a minha recuperação da saúde .

Vipassana I


Bom. Esse post eu nem sei por onde direito começar. Uma vez mais vou confiar no overflowing da minha mente. Finalmente, depois de muitos anos ouvindo falar, querendo ir, me increvendo e desistindo, chegando muito perto e indo embora, fui pela primeira vez fazer um retiro vipassana. Vipassana é uma tecnica budista de meditacao. Fiz o meu retiro pela organizaçao do dhamma ligada ao professor Goenka da tradiçao budista de meditacao de Burma. Mais informações aqui.

Esses centros sao espalhados pelo mundo e sao mantidos inteiramente atraves de doações, e voluntários. Quem resolve fazer um retiro vipassana nao paga nada pela hospedagem ou pela comida e so apos os 10 dias pode fazer uma doação logo depois que o curso termina ou entao depois quando voltar para casa. Assim, que enquanto, se está lá existe um sentimento enorme de gratidão pois fica muito evidente e claro que se é possivel la estar por causa da generosidade das pessoas que antes de vc foram apresentadas a vipassana, e por causa dos voluntarios que alem de meditar todos os dias tambem estao te servindo.

Era o momento certo para eu ir. Peguei o onibus e logo em Gloucester a cidade onde eu mudaria para o onibus local para ir em direcao a Hereford encontrei 3 outros meditadores, os tres ja eram “old students”, ou seja ja tinha fieto um retiro antes. Claire, professora de Ingles estava voltando da India depois de passar 19 meses por la. A outra moça de quem nunca aprendi o nome, era do kazaquistao e estava indo servir como voluntária. O terceiro era um homem com tres filhos estudando em escola waldorf. Fomos juntos de onibus conversando meio quietamente pois afinal em breve estariamos todos em silencio pelos proximos 11 dias. Perguntei a eles se era muito dificil e responderam que era dificil mas maravilhoso. Meu estomago apertou um pouquinho mais.

Do onibus publico fomos deixados no meio do caminho onde uma van nos esperava. O dia estava lindo, e os ultimos kilometros estavamos todos muito introspectivos. Chegando ao centro mulheres para um lado, homens para o outro, deixei meu celular no guarda valores tranquei o e soubre que entao estava de vez desconectada até o final. No refeitorio uma sopa deliciosa sendo servida, um clima de alegria e certa ansiedade reinava e aos poucos fui conhecendo algumas pessoas. Na minha mesa havia uma inglesa filha de diplomatas que tinha vivido pelo mundo a fora, Clare minha companheira de viagem alem de ter passado 19 meses na India, tinha morado em muitos paises da Africa, a outra moca como eu era uma assidua viajante. Ponderei se esse cruzar de tantas fronteiras talvez nos deixasse todos assim meio descrente das regras por regras e meio perdidos.

Entao uma senhora Inglesa dessas que parece professora de Hogwarts nos deu as boas vindas. Nos explicou o que ja tinhamos lido mil vezes que nos proximos 10 dias observariamos silencio nobre. Silencio de fala, gesto, mente etc. Nosso horario era o seguinte:

4:00 am Morning wake-up bell
4:30-6:30 am Meditate in the hall or in your room
6:30-8:00 am Breakfast break
8:00-9:00 am Group meditation in the hall
9:00-11:00 am Meditate in the hall or in your room according to the teacher’s instructions
11:00-12:00 noon Lunch break
12noon-1:00 pm Rest and interviews with the teacher
1:00-2:30 pm Meditate in the hall or in your room
2:30-3:30 pm Group meditation in the hall
3:30-5:00 pm Meditate in the hall or in your own room according to the teacher’s instructions
5:00-6:00 pm Tea break
6:00-7:00 pm Group meditation in the hall
7:00-8:15 pm Teacher’s Discourse in the hall
8:15-9:00 pm Group meditation in the hall
9:00-9:30 pm Question time in the hall
9:30 pm Retire to your own room–Lights out

Que trabalhassemos na nossa meditacao seriamente pois essa oportunidade de uma viagem de autoconhecimento tao profunda era uma grande oportunidade. Nos perguntou pela ultima vez se estavamos certos que queriamos ficar, pois uma vez comecado o retiro era melhor nao partir. Eu que tenho pavor de me meter em situacao que nao posso sair hesitei por um segundo, mas sabia que dessa vez que eu tinha ido ate la eu ficaria. Na mesa ao lado, uma senhora muito simples inglesa, mais velha muito preocupada perguntou se alguem ia ensina-la a sentar-se e a meditar. Percebi que aquela senhora ja mais velha, estava ali aberta a tentar uma coisa nova, durante todo o meu tempo eu sempre a procurei, me comovendo diariamente com sua forca de vontade.

Fui ao meu quarto arrumei minhas coisas, e finalmente conheci minha companheira de quarto Liz. Uma Inglesa muito bonita, muito leve, absolutamente adoravel. Contou me que nunca tinha meditado na vida, nunca tinha feito yoga, que essa era seria sua primeira experiencia. Supreendi-me mais uma vez com a coragem de algumas pessoas. Ela me disse que seria muito dificil nao me dizer bom dia de manha, eu ja encantada com Liz concordei e assim no meio da minha frase o Gongo tocou. O gongo que nos acompaharia das 4 da manha as 9 da noite anunciando todas as meditacoes, e intervalos e refeicoes. Fomos chamados aos nossos lugares onde havia uma almofada grande quadrada, coberta por uma pequena. NO fundo da sala inumeras almofadas extras e cobertores, que foram aos poucos durantes os 10 dias sendo inteiramente utilizados. Nossa primeira meditacao comecava, ao som das instrucoes de S.N.Goenka, e uma lagrima no meu rosto passeou lentamente, finalmente eu tinha chegado.

Das Inconsistencias

Vang Vieng, no Laos, como eu ja expliquei é um lugar particular. Um lugar que foi parar na rota dos gap year students (estudantes que tiram um ano para viajar) , para descer o rio de boia parando nos muito bares que servem bebidas (ta, no proximo post eu explico isso melhor). Acima de tudo Vang Vieng é um lugar lindo, que infelizmente tem sido totalmente destruido por esse turismo meio trash. Assim, que eu na minha primeira vez em Vang Vieng cruzei o rio para o outro lado da cidade para ficar o mais longe possivel das baladas, e dos jovens bebados ocidentais. Alem do mais, a Maylin Guesthouse me tinha sido muito recomendada.

Cheguei num lugar simples, mas absolutamente lindo. Um jardim espetacular, do lado do Laos com cara de Laos. Com seus picos, com as pessoas, com a lama, as pedras, as poças, tudo parecido com o que eu tinha deixado para tras no meu vilarejo de voluntariado. Sentei a mesa comunal do restaurante aberto e pedi uma sopa maravilhosa. Ao meu lado conversavam dois homens, um rude, mal humorado, condescente, sarcastico e mais velho, e um mais jovem, polido, educado e engraçado. Levou pouco tempo para o mais velho começar a me insultar, e menos ainda para eu achar engraçado, e descobrir que aquele homem era o famoso “Joe”, dono da Maylin.

Joe, um irlandes, acido, que manda hospedes embora nao me assustou. Havia nele aquela acidez de quem na verdade tem coração de manteiga. Saxon, australiano e policy adviser, do outro lado da mesa, apenas ria. Levou pouquissimo tempo para ficarmos amigos. Ele, como eu, tinha pouco interesse no lado destruido de Vang Vieng, estava indo rumo a China, e Tibete. Partia no dia seguinte. Saimos para conhecer a cidade, reencontrar meu amigo magico Lucca, de quem imagino ja ter escrito e ao final da noite depois de uma dezena de horas conversando eu o convenci a ficar comigo. Deitado ao meu lado, me disse ” Ju, voce sabe que eu sou gay, ne?” Claro, que eu sabia, no primeiro segundo eu ja sabia, essa eh uma expertize adquirida por ser uma defensora assidua de gay rights, ter muitos amigos gays e de ter morado com muitos deles.

Ficou! Graças ao Saxon conheci lugares lindos, caminhamos pelos arredores de Vang Vieng. Nadamos nas lagoas, visitamos as cavernas, criticamos todos os bares iguais que passavam friends and family guy in Vang Vieng, assistimos meu amigo Lucca encantar o menino Lao fazendo magicas surpreendeentes no final da noite num restaurante vazio. Conversamos horas, e horas, e horas a fio. Quando finalmente deixamos Vang Vieng pegamos um dos onibus mais perrengue da minha vida em direcao a Luang Prabang. La em meio a muita chuva visitamos a cidade, que nos dois achamos quaint e generica, apesar de linda.

Saxon é um homem lindo. Um homem competente, um homem inteligente, bem sucedido, interessado no mundo, um homem que lavanta todos todos os dias para fazer o mundo melhor. Ele, assim como muitos outros amigos meus, apesar de tao bem sucedidos ainda tem que put up com o preconceito no mundo contra a homossexulidade. Quando eu morei em NY, eu participei de muitos momentos decisivos na vida de amigos meus: “the coming out of the closet moment”. Alguns como o Saxon devem causar mais surpresa, alias o Joe, achava que ele tava inventando que era gay so para viajar comigo. Mas mesmo o Joe, um cara para la de dificil nao mudou em nada seu comportamento ao Saxon, uma vez que eu disse a ele ” mas ele eh gay!”

Saxon, me agradeceu depois, eu na hora nao soube pelo oque. Ele me explicou que era pela minha naturalidade, por eu ter dito que ele era gay, por eu nao ter tentado fazer segredo. Aquilo me chocou na epoca. Jesper, meu amigo chines, que alem de gay eh ultra feminino passou pelo maior dilema na hora de contar para a mae. Eu insisti. “Jes, ainda que ela fique brava, nao ha violencia maior do qu vc viver todos os dias fingindo ser o que nao é!” Eu nunca pude compreender, como a mae dele podia achar que ele nao fosse gay. A mãe nao acreditou, quis leva-lo ao medico, e até hoje acha que é uma fase. o tamanho do denial de umas pessoas. Shane, meu outro roomate, se preparou por anos, para ouvir dos pais ” oh, that is what you wanted to tell us? tell us something new.” Minha amiga Nathalie me contou numa conferencia que o pai era gay, o padre o tinha convencido que aquilo era uma fase e passaria. O pai casou teve 3 filhas, e a fase nao passou. A mae da Nathalie, uma mulher supreendente, pediu tempo ao marido quando ele contou a ela. Nao sabia lidar com aquilo. Precisava de tempo para assimilar. Um ano depois se reencontraram ela conheceu o namorado do ex-marido e hoje em dia passam ferias juntos. Ela o novo namorado, o ex com o namorado, nat e as irmas. Dao-se muito bem. Houve estorias menos bem sucedidas, como as dos pais do Sean que nao falam mais com ele, ou da mae do namorado do meu amigo turco Serkan, que mandava o filho viajar o mundo. Eles de familia de status na Inglaterra nao poderiam afford a vergonha que era ter um filho gay. O filho viajou o mundo, e numa das viagens morreu. A mãe precisou perder o filho para conhece-lo melhor, so diante de tal fato ela mandou passagens para o Serkan vir ao funeral aqui na Inglaterram porque ela queria conhecer o homem com quem seu filho tinha morado anos. Eu poderia continuar por horas a fio escrevendo das estorias que afligem muito dos meus amigos mas o ponto que eu quero chegar é: que o meu preconceito, e o seu faz mal! Faz muito mal ao mundo.

Esses dias, recebi uma mensagem de um italiano de quem perdi o contato ha muito tempo. Cineasta, ator, diretor, virou muculmano xiita faz dois anos, tinha acabado de se circuncizar. Eu me interessei pela estoria. Como assim? O que leva a uma pessoa a se converter a uma reliigao distinta ja adulto? Ouvi, ou melhor li ele me explicar sobre o vazio que sentia. E fiquei tocada. No meio, de tantas coisas bonitas ele me disse que tinha mudado de ser liberal para conservativo. Ele citou o alcorao, e me disse que era contra gay rights. depois comecou a falar de roupas. De mulheres se cobrirem. Eu fiz perguntas e mais perguntas, para ver onde eu podia encontrar o common ground. E eu posso em muitas coisas. Ate as conviccoes que eu considero para la de machista eu ainda consigo compreender. No entanto, eu nao posso e nao vou aceitar ninguem que venha me dizer que eh contra “gay rights”. Aliás eu não sei nem se eu entendo oque isso quer dizer. É basicamente “eu sou contra vc ter direito por amar pessoas que eu acho que vc nao deveria amar”. Que fique claro, que eu nao relaciono isso ao Isla, pois conhecemos muito muculmanos que colocam a compaixao acima e tudo.

No New York times saiu esses dias a seguinte materia:

NATIONAL BRIEFING | MID-ATLANTIC
Maryland: Dead Marine’s Father Must Pay Protester

Lawyers for the father of a Marine who died in Iraq say a court has ordered him to pay legal costs for the anti-gay protesters who picketed his son’s funeral. The protesters are led by Fred Phelps of Westboro Baptist Church in Topeka, Kan. The father, Albert Snyder of York, Pa., had won a $5 million verdict against Mr. Phelps, but it was thrown out on appeal. On Friday, the United States Court of Appeals for the Fourth Circuit, in Maryland, ordered Mr. Snyder to pay the costs of Mr. Phelps’s appeal. The United States Supreme Court agreed earlier this month to consider whether the protesters’ provocative messages, which include phrases like “Thank God for dead soldiers,” are protected by the First Amendment. Members of the church maintain that God hates homosexuality and that the death of soldiers in Iraq and Afghanistan is God’s way of punishing the United States for its tolerance of it.

Basicamente, no funeral do seu filho, um pai tem que aguentar pessoas homofobicas, e para mim criminosas e ainda pagar o preço. E isso: nos ESTADOS UNIDOS! Quao longe podemos empurrar relativsimo cultural? Quao longe podemos defender direito de expressao? É claro, que filosoficamente falando, moralidade eh um tema dificil que pode ter suas raizes ou nao em biologia. E é claro que o drafting de uma convencao de direitos humanos sempre vai ser a imposicao de uma visao de vida no outro. E eu sempre vou ficar em cima desse muro querendo defender diversidade e respeitar as diversas formas de saber do mundo, e querer respeitar o bem estar individual de cada pessoa. Mas será que temos que realmente ser tao relativos? OU será que finalmente eu terei que aceitar, que eu vou ser arbitraria numa parte da minha vida ? Entao, hoje quando o italiano me escreveu me perguntou “vc nao quer mais falar comigo so pq eu sou contra gay rights?”. Me deu um aperto dentro de mim, eu não quero isolar o outro pois ele é distinto, mas a verdade é que de fato nao, eu nao queria mais falar com ele….Não que eu deseje mal a ele, eu só desejo na verdade que ele passe mais tempo preenchendo o vazio dentro dele com mais compaixao ao inves de doutrinar a vida dos outros..

Vivendo Nos Outros

Sempre me perguntam qual é meu lugar favorito no mundo. Antes de eu ir para o sudeste asiático eu sempre respondia que nao havia, cada lugar tem seu charme. E é verdade, eu continuo achando isso mas confesso que o sudeste asiatico se tornou o amor da minha vida. Já faz quase 6 meses que eu voltei e eu nao sei no meio de quantas noites eu já acordei sentindo um desespero enorme de pensar que talvez eu nunca mais voltasse a beira do rio do Mekong. É incrível, eu ainda me sinto tão proxima as pessoas que la conheci. Os locais e viajantes, as crianças, os donos de pousadas, os professores de yoga e meditacao. Assim que com e-mail e Facebook toda hora eu mando uma mensagem para um ou outro querendo saber um pouco da vida deles. Horm me mandou um e-mail super doce esses dias, tinha lido todo o meu blog em ingles, tudo que tinha escrito sobre a tailandia. Meu coracao deu um sobre-salto(?) ..meu deus, o que sera que eu escrevi? Faz tempo nem me lembro direito.

Faz umas semanas, fui jantar com mais uma palestrante da serie de Cultura e Congnicao da LSE. A mesa estava a palestrante Tanya Luuhrmann (professora de antropoogia de Stanford), e varios porfessores aposentados da LSE. Ao meu lado Chris Fuller e John Peel. Chris Fuller que é especialista no Sul da India, disse que para ele sempre foi bom estudar pessoas que pudessem ler o que ele escrevia, “afinal faz com que vc seja mais acurado no que escreve”. Diferentemente disse ele ” dessas pessoas que estudam uma tribo na melanesia, que podem dizer qualquer coisa”. Ler a mensagem da Horm, me fez pensar isso. Sera que eu fui acurada, e ainda mais grave sera que eu escrevi alguma coisa ofensiva? Acho que nao, pois ela gostou, me convidou muito para voltar e disse que quando eu voltasse eu ia ficar triste por um motivo, minhas amigas aranha, aquelas as quais tinha dado nome ( e escrito no meu blog), nao estavam la quando ela foi procura-las 🙂 Contou-me das criancas, do quanto elas ficam felizes quando eu escrevo, e de eu lembrar deles. LEMBRAR? Como assim, como eu poderia esquecer?

Fiorini, conta que os Nambiquara, quando alguem morre destroem tudo que pertence ou lembre aquela pessoa. Botam fogo nos pertences nao guardam nada. É porque para os Nambiquara eh necessario deixar com que o morto se esqueca, e enquanto ele existir em voce ele nao pode se esquecer. Entao, os que vivem queimam tudo, e colocam o morto numa gruta. La o morto vai aos poucos se esquecendo. E na hora que tudo que eh sua “consciencia” desaparece ele volta a ser “energia” ou espirito e vira uma estrela no ceu. Eu acho incrivelmente bonita essa ideia de existirmos no outro, e se de um lado precisamos esquece-los para eles poderem cessar de existir e partir, do outro, quando o outro parte, e deixa de existir eh como se alguma parte nossa deixasse de existir um pouquinho tambem. Como se morressemos um pouquinho.

Mas eu nao sou tao disciplinada quanto os Nambikwara e tudo que eu sou de desapegada de objetos eu nao sou de saber noticias de todos esses outros que contem pedacinhos meus. Entao eu mando mensagens e continuo visitando o facebook. E ele me avisando dos whereabouts de todos os meus companheiros de viagem nao me faz deixar de existir viajante o que torna a vida de sedentaria incrivelmente mais dificil.

The Virgin Whoppers

Que surpresa! Eu postei o video do Whopper, e recebi mil e-mails com as mensagens mais variadas. Pessoas que acharam que era fake porque ninguem se veste assim. Pessoas que acharam que eles estavam sendo ridicularizados por nao saberem comer hamburger. Pessoas que sentiram pena. Pessoas que acharam que era uma brilhante propaganda. Pessoas que adoraram.

Bom, eu nao pretendia escrever nada mas em face a tantas mensagens resolvi escrever. Engraçado isso. Ontem recebi uma mensagem do Ido meu amigo Israelense que eu conheci pelo couchsurfing com quem tenho discutido cultura e cognicao faz semanas. Ele mais para relativista cultural, jornalista independente me faz perguntas poignants sobre a utilidade de estudar o que há de comum no ser humano. Ontem me mandou esse video para ver o que eu pensava.

Coloquei o video, e pensei o que? Bom, para comecar eu sou vegetariana, nao gosto nem do Mc Donalds nem do Burger King. Nunca na minha vida acho que experimentei um Whopper. Assim, que quando o video comecou eu pensei ” MEU DEUS. nao acredito vao colocar as pessoas para falar que o Burger Kind eh melhor que o McDonalds” Mas ai deixei o video rolar, e deixei de lado o fato que era uma propaganda para ver o que tava acontecendo.

E na verdade, eu olhei para outras coisas: o fato que as pessoas tem sim curiosidade sobre o outro. O quanto hospitalidade e “comensality” sao importantes. Que de fato quando nunca fomos expostos a algo diferente nao sabemos como usar essa coisa! Na Tailandia, Horm, minha host morria de rir ao me ver usando os palitinhos, ou tentando fazer as bolas de arroz com o arroz errado! ou nem se quer saber usar com proficiencia a pequena colher. Isso para nao falar nas MILHOES de frutas que eu nunca tinha visto e nao sabia comer. Ou nas milhoes de coisas que qq crianca de 5 anos era proficiente, e que eu nao sabia fazer. Entao diferentemente de muitos, eu nao acho que mostrar as pessoas nao saberem como comer um hamburguer é ridiculariza-los. Acho que isso esta mais no olho de quem ve para ser bem sincera. Eu concordo mais com o que escreveu o Daniel Strauss (no comentario ao meu post), nao tem nada de obvio em muitos dos nossso comportamentos, observar alguem nao saber fazer uma coisa que achamos obvia, ou nao saber fazer o que muitas pessoas acham obvio nos faz consciente do quanto do nosso dia a dia “we take for granted”.

Uma outra amiga minha, disse que aquilo so podia ser falso afinal as pessoas nao se vestem assim. Tendo estado no norte da Tailandia e ido de carro de Londres a Romania posso dizer que sim algumas pessoas se vestem. Assim, como na Bolivia se encontra varias pessoas como roupas tradicionais, e em muitos dos outros lugares do mundo.

Agora o que eu gostei mesmo do video, eh ver a comida mil vezes mais saudavel, mais colorida, e provavelmente mais gostosa que os “nativos” preparam para os americanos como agradecimento. E no final, assistir o simpatico Inuit dizer cordialmente que gostou, mas que ainda assim prefere a carne de foca.

Das Diferencas Dos Muitos Parecidos

az tempo eu sei. E eis que uma dessas noites eu recebo uma mensagem da Renata uma “desconhecida que agora me conhece” e fico tao tocada que decido que tenho que escrever. Tao ironico isso. Marcelo Fiorini, ou Fortaleza Flores, que foi meu professor, de quem tanto ja falei, e hoje é querido amigo está sentado na cozinha aqui de casa junto comigo. Ele que morou com os Nambiquara por anos, responde ao Haiko qual o valor de fazer trabalho de campo. Psicologos e cientistas em geral, nao entendem muito bem, eu na minha pensada conversão ao mundo de cognição também penso o assunto pouco objetivo. Faz algumas semanas, eu fui jantar com o Dehaene depois de uma das palestras de cultura e cognicao que estão acontecendo na LSE.

Dehaene, que é diretor da Unidade de “Cognitive Neuroimaging” na INSERM-CEA, apresentou uma palestra sobre o que ele chama de” neuronal recycing”, simply put, o processo pelo qual “modulos” cerebrais se reciclam para fazer uma atividade ( nao selecionada pela evolucao) possivel. No caso dessa palestra, Dehaene falou de ler. A maioria dos antropologos que eu conheco fica horrorizada com fotos de cerebros, fMri e etc, assim que a platéia consistia na maior parte de psicologos, e cognitivistas. Depois da palestra tive o prazer de ir jantar com Dehaene, minha supervisora, alguns colegas, e a renomada psicologa de desenvolvimento Annette Karmiloff-Smith. Annette, dentre outras coisas trabalhou como tradutora da ONU, morou em diversos paises, e numa conferencia da WHO resolveu estudar psicologia. Trabalhou dentre outros com Piaget, e além de ser uma especialista em mental “disroders” como william syndrome, é uma critica de nativismo e modularidade. Ta isso ta ficando muito tec.nico. O ponto é que nessa noite, Haiko perguntou a Annette, que vem de um background completamente cientifico, psicologico, se ela achava que “field-work” era importante. Haiko conhece Annette pois trabalham no mesmo lugar, então sua pergunta era mais para ver o que alguem especialista numa area achava do metodo defendido por antropologos.

Annette, de quem eu gosto muito, respondeu de maneira cordial dizendo que nenhum metodo sozinho pode chegar a lugar algum. Lab studies sao importantes para chegar a conhecimento implicito, pq eh possivel controlar muitas variaveis, estasticamente significante. Ao mesmo tempo, field work and case studies are fundamental para entender as suas teorias. “Let me put that way, alone no method can tell you the truth, but if many different methods convey to same evidence, then you are getting somewhere.”

Entao nessa noite, eu que de certa forma, acabei “embodying” metodos mais psicologicos para chegar a conhecimento implictio, que sao consequentimente nao validos ecologicamente, insisti para que o Haiko perguntasse ao Marcelo como ele defenderia “trabalho de campo.” E o Marcelo, daquele jeito que é so dele, disse que um devia chegar ao trabalho de campo com perguntas, mas ficar tempo o suficiente para questionar as perguntas, depois questionar a propria endeavour. A pessoa devia deivar ter o tempo de passar pelo processo de se sentir perdido e achar que aquilo tudo nao faz sentido nenhum, para ai comecar a entender um pouco da maneira como esse outro grupo pensa. In a sense, é perdendo a objetividade que um chega a esse estado.

I pushed it. Perguntei se ele achava que as pessoas de diversas sociedades de fato concebiam distintamente. Sera que a maneria implicita como os nambikwara categorizam o mundo a sua volta é de fato fundalmentalmente distinta da maneira que nos concebemos. Expliquei que eu nao tinha duvidas que as “meta-representacoes” eram distintas, e que isso ja eh um mundo. Mas sera que as meta-representacoes afetam a estrutura. Sera que conteudo, afeta os processos? Sao perguntas é claro sem respostas.

Foi quando sentada a mesa, com o computador ao lado, resolvi mostrar um video do TED ao Marcelo. E eis que recebo a tal mensagem, de alguem que eu nao conheco mas que me deixa uma mensagem que me toca profundamente. Diz ter lido esse blog inteiro. Inteiro??? Como ela coloca “fica sentindo que me conhece sem me conhecer, sera que me conhece?”

Vou deitar, depois de muita filosofia, antropologia, cognicao, poesia, e eis que a mensagem da Renata nao me sai da cabeça. Ela leu me blog inteiro! Como será que eu sou no meu blog? Como será que eu mudei estes ultimos anos? Entao, eu volto la no começo do meu Blog. Lá em 2004. E começo a ler e para minha total surpresa percebo que na verdade eu nao mudei quase nada. Eu sempre acreditei que eramos os mesmo fundamentalmente, e que as variedades deviam ser preservadas. Um mundo multi-cultural tem que ser preservado , respeitado e apreciado! Nao podemos ter a ilusao e arrogancia de achar que o muito recente conhecimento cientifico ocidental tem as respostas para todas as nossas perguntas. Nao podemos sentar passivamente assistindo a destruicao das milhares de linguas e culturas (criadas a partir da nossa “shared evolved cognition”) achando que se todo mundo falasse a mesma lingua o mundo seria melhor.

Nao seria! O mundo fica melhor quando aprendemos a lingua do outro, a cultura do outro, dividimos a nossa, e compreendemos as limitacoes da nossa lingua, do nosso campo de trabalho, da nossa “cultura”. E fica melhor tambem quando compreendemos que apesar das limitacoes de um unico sistema, esse sistema is underlined pela nossa capacidade cognitiva universal. Marcelo, um pouco antes de eu dormir, me diz que se eu quisesse fazer meu trabalho de campo de doutorado na Amazonia podia me colocar em contato com umas 30 tribos distintas ainda sabendo que a minha pesquisa tenta responder questoes cognitivas. E aí fica claro para mim: façamos as duas coisas. Façamos o trabalho de campo passsemos pelo dificilimo processo de nao entender nada, mas o fato qeu eventualmente começamos a compreender o outro, é evidencia forte para mim, que dividimos muito do mesmo. Entao, lutemos pela preservacao da diversidade, respeitemos os limites das nossa disciplinas, e sejamos um pouco mais humildes, para usar quem sabe metodos interdisciplinares. Biologia, cognicao, na antropologia. Antropologia, e psicologa na medicina. Mas ainda mais importante, usemos o proverbo truco do vizinho de Istanbul, ou Confucius na hora que encontrarmos as limitacoes da nossa propria filosofia. Respeitemos e apreciemos a diversidade cultural. Permitamos que a cultura do outro nos faça questionar a nossa. Façamos tudo isso mas sem jamais esquecer que no fundo, somos todos muito parecidos.

ps: Renata, muito obrigada pela sua mensagem! Nao so ela me tocou profundamente, mas tbm me levou a pensar em muitas coisas. Obrigada.

Das Varias Linguas

De volta a Londres e como sempre sao tantos os topicos, sao tantos os eventos, que eles acabam sermpre parecendo que nao sao nenhum. Minha vida é sempre dividida por eventos quase que totalmente opostos. Sou tocada por coisas incrivelmente contraditorias.

A vida as vezes parece um acaso total. Noutras parece que o acaso total tem sua vontade propria que nos traz a um ponto na vida que parece fazer todo sentido. Seria todo sentido, ou seria so um mecanismo da nossa mente de criar explicacoes post hoc? Pois é, é assim que eu vivo ultimamente: em meio a duvidas incrivelmente cognitivo-filosoficas.

Quando fui estudar no Estados Unidos em 2001, poucos dias antes das torres gemeas cairem, fui para estudar cinema. Tinha ganhado uma bolsa, e confesso que foi um total acaso, ou seria destino? Acabou que eu fui passando de departamento em departamento até me formar em antropologia. Acho que muitas dessas escolhas sao determinadas pelas pessoas que conhecemos. Conheci 3 professores que me tocaram muito Mustapha, Marroquino e prof de estudoes “post-coloniais”, Pugliese, Americano e professor de Historia, e Fiorini, Brasileiro e professor de antropologia. Minhas escolhas meio que foram sendo tomadas pela motivação e admiracao que eu tenho por esses 3 professores. Com dois dele ainda mantenho contato. Em comum acho que todos tinham um senso de etica invejavel. Do Pugliese eu aprendi a olhar a tudo como parte de um longo processo historico, do Marcelo Fiorini aprendi sobre os mundos, e as nuances escondidas, do Mustapha eu aprendi sobre justiça, sobre feminismo, como nossos conceitos dizem muito mais sobre nos mesmos do que sobre o que caracterizamos.

Acabou que depois fui para Holanda e la encontrei dois outros professores que me tocaram Gerd, professor de Guerra Civis, e Oskar, professor sobre Violencia Politica. De Gerd eu aprendi que para conseguir mudancas no mundo precisamos falar a lingua de quem vai nos ajudar, lembrando de Mustapha eu sabia que ajudar, e resolucao esta na nossa mente, ligado intimamente com nossas concepcoes de socidades ideais. De Oskar eu aprendi a questionar nocoes sobre violencia, sobre politica.

Enfim, eis que eu chego a LSE, para estudar Cognicao. Antropologia da Cognicao que é muito a parte de tudo que eu fiz antes. Eu deixo de olhar exlusivamente para o mundo, e comeco a buscar os “constraint” cognitivos. Eu me rebelo a principio. Estudar concepcoes religiosas a partir de processos cognitivos me desestabliza, eu que tinha acabado de ir buscar em todo o mundo metafisico uma maneira de me curar. Me desestabliza, pq no fundo eu sou tudo isso. A cientista cognitiva, a antropologa, e a mulher que tem buscas meta-fisicas. Penso em abandonar meus estudos varias vezes. E dessa vez entra uma professora na minha vida. Rita.

E começa mais um ano e quase parece que eu sou cientista cognitiva de formacao, pq eu nao paro de ler sobre ToM ( theory of Mind), autismo, meta-representacoes. Acabo sendo tao empenhada em tudo isso, que minha supervisora me convida para fazer parte da sessoes privadas com os palestrantes que vem fazer parte dos seminario de cultura e cognicao da LSE. Assim, que essas semanas eu estive na situacao surreal de estar tendo encontros com mais 2 estudantes e os maiores especialistas do mundo em congicao. As minha perguntas a Susan Carey, professora de psicologia de Harvard sao tao cognitivas que quando eu parto até me assustam. Como é mesmo que eu cheguei aqui? Realmente nao sei.

Pela primeira vez no entanto tenho me sentido mais no lugar. Numa conversa com meu flatmate, ateu mas que parece ter uma fé na ciencia para mim parecida com religiao eu percebo isso. Eu nao tenho tanta “fé” na ciencia. Eu admiro o que o processo cientifico propoe. Mas o projeto cientifico assim como o artistico, ou o religioso é humano e por isso também politico e economico. As linhas e paradigmas que se seguem são uma das muitas outras possibildiades que poderiam existir. O progresso cientifico é possivel, creio, pela mesma razao que é possivel o processo artistico. É por causa daquilo que o Puglise me fez perceber la atras, que tudo que existe é resultado de um processo historico. E essa acumulcao de “conhecimento” é possivel pela nossa capacidade cognitiva de criar, mas mais importantemente como explicam Tomasselo, e Csibra, de transmitir conhecimento, e de ter uma pedagogia natural, ou seja nos seres humanos aprendemos, copiamos.

É claro, que eu nao estou propondo que religiao e ciencia sejam a mesma coisa. Eu reconheco, é claro, que a revolucao cientifica, permitiu um acumulo e organizacao de informcao, verificacao nunca antes imaginado.. (Mas quem é cientista sabe que o sistema de conseguir grants, de ter que publicar papers, é muito mais realidade do que busca de “verdades”). Acho, no entanto, que essa batalha Dawkiniana contra a religiao como raiz de todo mal um pouco cansativa. Eu nao sou religiosa, mas tenho que reconhecer cientificamente tanto por estudos sobre efeito placebo aqui, e como estudos sobre meditacao, e ate mesmo com religiosos que o poder da fé é “materialmente” verficavel. A ciencia, a religiao, os Estados, (eu imagino que qualquer instituicao humana) pode ser usada para o mal ou bem.

Cada vez mais vejo o mundo povoados por diversas linguagens. Musica me toca quando eu ouco de uma maneira distinta de quando eu toco, e ainda distinta de quando eu leio, e eu posso pensar nela matematicamente, e se eu fosse fisica talvez pudesse ate compreende-la em paramentos fisicos. Para musica eu ainda prefiro permanecer no ambito do emotivo. Na antropologia, eu sei que muitos ambitos sao possiveis, ultimamente, os processos de aprendizado me interessam muito. Nao ignoro os materiais nem os politicos. Tenho que fazer uma escolha, e por enquanto é essa para os mini processos que quero olhar. O que me cansa um pouco é essa ideia das pessoas que querem aplicar uma lingua a tudo. Imagino que matematicos possam talvez explicar quase tudo em equacoes, mas o que realmente ganhamos com issso? Coerencia? Consistencia?

Pensando nas pessoas queridas da minha vida, percebo que ha muitas maneiras de olhar para o mundo. E talvez essa maneira “customized” que eu esteja adotando seja incrivelmente ocidental. Ou talvez nao. Talvez seja simplesmente humano, ser capaz de entreter muitas vezes concepcoes muitas vezes completamente contraditorias. De fato, eu nao sei o como eu cheguei até aqui, mas aqui estou e trajetoria me parece fazer enorme sentido. Talvez ela faça, talvez seja só meu cerebro criando essa sensaçao de sentido. Mas será que faz alguma diferenca ?

Tao Longe Tao Perto*

Estou no Brasil. Passei o Reveillon numa casa repleta de mulheres fenomenais. Falamos, falamos, falamos muito. Foi um encontro desses transformadores. Encontro de pessoas de diversas areas, que em comum tem duvidas existenciais, uma vida academica intensa, uma vida artistica muitas vezes desestabilizante e nenhum medo de ir aos lugares mais escondidos de dentro para vasculhar, procurar as muitas das nossas inconsistencias.

Nos encontramos ali, em meio a outras mulheres mais jovens ainda comecando suas buscas e transbordamos. Numa caminhada pela praia visitamos o funcionamento celular, a caixa de Schrödinger, mundos paralelos, o mundo vivido na imaginacao, e até Goethe. Nenhuma desses assuntos visitados foi visitado com intuito de provar nada, ou de usar o conhecimento para se distanciar do outro. Nao, Sabrina minha amiga fisica, matematica e compositora, falou de fisica para nos explicar sua musica, Laura, neurologista falou de celulas, e sistemas neurologicos porque era sua linguagem de entender o que para nos todas é a mesma busca. Goethe recitado por minha tia, foi recitado nao para mostrar que ela leu Goethe, mas porque naquele exato momento nada cabia melhor do que aquelas palavras. E ali nos todas nos sentimos encontradas. Buscando na linguagem de especialidade do outro resposta para a busca que é de todos nós.

Algumas manhas depois da partida das minhas amigas acordei uma vontade incontrolavel de ler o blog da Gabi, que esta morando na India. Queria saber o que estava acontecendo com ela no final de ano la em Bangalore. Para minha surpresa quando cheguei ao internet cafe, e consegui em meio a jogos de video game, calor, e barulho abrir o blog dela , o titulo do seu ultimo post eraConfissoes de Estrangeira. Li o post, e tocada soube que eu tinha vindo ali para busca-la. Pois eu mesma, pela vida que levei acabo me sentindo estrangeira em todos os lugares do mundo.

Emocionada com o post, deixei uma mensagem sabendo que isso de se sentir estrangeira quando vem acho que fica para sempre. Percebendo que eu ali na minha casa de praia, o lugar mais comum a minha vida, a casa que voltei desde que nasci ( diferente das minhas supostas casas fixas), me sentia estrangeira. Estranha. Fora de lugar. Tao perto e tao longe de todos os lugares. Expliquei na mensagem, que tinha vindo busca-la, porque eu buscava alquem que estivesse longe pois estranhamente é no estranho que eu me sinto mais em casa.

É onde a casa interna vai se formando mais claramente, nao tao determinada pelas convencoes do lugar. De acordo com Maurice Bloch uma das coisas que nos faz humanos e nos separa dos outros antropoids é a nossa capacidade de viver na imaginacao, nas comunidades imaginadas. As regras em si nao fazem sentido se nao forem aceitas por muitas mentes. É essa nossa habilidade de pensar meta-representacionalmente, de atribuir simbolos, status, papeis que nos torna humano. Por exemplo, um chimpanze nao percebe a diferenca entre a agua benta e a agua comum, essa diferenca está na nossa capacidade de conceber o simbolico. Os “reais” so tem valor no Brasil pq coletivamente aceitamos isso, cruzando a fronteira eles ja nao valem mais nada.

Cruzar fronteira tem disso, evidencia muito de quanto nos vivemos no invisvel, no mundo criado na mente coletiva. E eu soube lendo o blog da Gabi que ali sozinha, meio que alem de tudo, de todos os codigos, ela nao “estava” estrangeira, e sim estava se descobrindo estrangeira. Porque nao ha como cruzar tudo isso e imaginar que permancemos os mesmos. nao da. E com essa enormidade de liberdade de observacao, de alegrias repentinas e inexplicaveis por ver o rosto da moca de burqa, por conseguir estar “not tempo das coisas” para se emocionar com o o detalhe, vem tbm um enorme sentimento de solidao.

O que faltou eu dizer, é o que percebi depois quando recebi uma mensagem da Laura, agradecendo pelo nosso encontro na praia. A minha mensagem a Gabi devia ter continuado, pois na verdade eh no encontro com esses outros estrangeiros do mundo que me sinto em casa. Com os que sabem nao no intelecto mas na alma o que eh eh isso. O que eh ter um desejo, ou uma duvida, ou algo que eh dificil de dividir com a maioria do mundo que nao passou por essa vida de se des-enraizar…. É no encontro com os que sabem que o preco dessas buscas é muitas vezes altissimo (e incompreensivel para a maioria das pessoas) mas que para nos os estrangeiros é única opção. E ironicamente, percebi que o Bloch tem razao, que o social é permeado de viver no imaginario, pois é só nessa outra “comunidade imaginada” ( a dos estrangeiros) que nos sentimos menos sos.

Richard- II

Pergunto ao Rcihard se ele tinha estado na Guerra. Ele confirma com a cebeça e um sim mais para dentro que para fora. E eu sei dentro de mim que ele nao quer realmente falar sobre o Vietna, mas que ele estava sozinho e que queria simplesmente conversar. Quem me conhece sabe, que eu converso com todo mundo. Entao começo uma conversa longa com Richard, fazendo perguntas sobre a vida dele, sobre a viagem dele, sobre seus aviões, seus curativos na perna. No começo confesso que por caridade, mas eventualmente, eu passei de fato a querer o Richard muito bem.

Ele beirava um pouco o autismo. Todas suas camisas eram iguais. Compradas na Tailandia na sua quarta viagem, tinha pago não sei quantos Bhats. Ele sabia. Eram boas pois eram do tipo que ele lavava na pia torcia e secava. Ele me explicava com sua voz quebrada, grave, lenta, e os gestos que acompanhavam algumas palavras de ação (torcer, lavar). Richard gostava de aeromodelos e andava sempre com sua revista sobre avioes na mão. As sete da noite ia num bar beber sua cerveja e conversar com suas “ladies friends” me convidaria mas o lugar nao era de fino trato. As 8:30 usava a internet por uma hora, as 9:30 voltava a um outro bar para tomar a segunda e ultima cerveja do dia. Com Richard tudo era assim, ritualístico e explicado. De maneira muito educada.

E eu fui aprendendo tudo sobre a vida dele. Mora sozinho en Darwin na Australia numa boarding house. Constroi tudo que ele precisa, tudo no quarto dele eh em cima de rodas. Faz 12 minutos de abdominais, descansa um e meio depois mais 9 minutos e descansa um e meio, entao 20 flexoes, e descansa 1 minuto. Para poder fazer tudo isso, no quarto quarto minusculo onde ele mora Richard empurra todos os moveis para um lado ( e eu vejo mais uma vez ele fazer a mimica da operacao), levanta a cama, para fazer seus exercicios, empura os moveis para o lado oposto. Nao é muito o que ele tem: Uma comoda, uma banco, uma estante e a cama. Foi piloto na guerra. Pergunto se ele tem amigos, e ele responde que tem as pessoas do boarding house, mas nao sao exatamente amigos, vivem bebados. E o Richard so bebe quando vem a Tailandia prefere economizar esse dinheiro o ano todo.

Convido-o para se juntar a nos para jantar. Ele fica confuso tem que ir beber sua cerveja as 7. Gavin diz a ele que ele pode ir beber depois do jantar, nos o acompanharíamos. Ned faz perguntas sobre o aeromodelos, todos meus amigos de Mut Mee se empenham como eu em faze-lo sentir se bem-vindo. Ele vem. E me agradece muito. E quer no levar no bar. Aceitamos. Assisto ele fazer elogios as “mocas” do bar. Galanteador, um gentleman. Quer pagar todas as nossas bebidas. Ele nao tem muito mora numa boarding house. Junta dinheiro o ano inteiro para vir a Tailândia. No dia seguinte toma café conosco, e pelos próximos 12 dias que eu fico ele se junta a nos. Não como imposição, sempre como convidado que vai ficando mais querido por todos.

Richard- I

Ja que eu mencionei o Hans, deixe me contar sobre o Richard. Na Mut Mee pousada onde eu passei muito tempo em Nong Khai ha mesas num jardim de onde se ve o rio Mekong. Sao cobertas por “cabaninhas” de palha e ali sentam se todos os guests. O sistema é para la de informal. Cada quarto tem seu caderninho. Quando voce quer beber alguma coisa, pega na geladeira e anota no caderninho. Quando quer comer escreve no caderninho e leva a mesa da cozinha. Ai voce senta e umas das mocas que trabalham na cozinha vem trazer. O sistema é informal, o lugar é pequeno, e eu falo muito. O que resultou em eu conhecer quase que todo mundo hospedado. Algumas pessoas como eu, vinham para passar um dia e iam ficando, cativado pelo charme do jardim, pelo Mekong e pelos outros viajantes. A Mut mee é tão aconchegante que um pequeno vilarejo de viajantes que ficaram se formou atras da guesthouse. Todo dia tem meditacao as duas da tarde, tem uma livraria, bicletas, e uma bar barco cheio de almofadas flutuando no Mekong. Nada disso faria muita diferença para mim se não fossem as pessoas. As pessoas que trabalham na Mut Mee, que se mudaram ha anos para as casas de tras, e os viajantes são pessoas com quem eu me identifiquei muito.

Quem nunca viajou por um longo tempo talvez nao saiba, mas quando vc fica vaijando por meses de repente encontrar lugares que parecem “casa” é o que há de mais valioso. No sentido, de que como tem-se tempo ja nao viaja-se naquela sangria desatada de ver um milhao de coisas todos os dias. Para-se e contempla-se o presente, as pessoas, seus costumes. Isso aconteceu para mim primeiro em Nong Khai. Nong Khai cidade de passagem para os turista. Parada entre quem ta saindo da Tailandia para entrar no Laos. Eu, e muitos ficamos.

Assim, que todas as manhas quando eu ia me sentar na longa mesa de Madeira para pedir meu musli tropical eu encontrava outros viajantes. Começavamos conversas infidaveis, sobre destinos, pessoas, politica, musica… e um certo dia enquanto eu ouvia o Gavin, meu amigo canadense, contar sobre seu encontro com o “Sultao de Brunei” no Vietnã, um senhor velho de camisa azul e shorts, curativo na perna, disse de uma maneira meio estranha ( uma fala meio devagar, meio quebrada) mas enfatica que ele nunca iria ao Vietnã. Eu olhei para o lado, para o seu rosto e soube de cara, o Richard tinha estado na guerra.

Pitanga em Pé De Amora

Eu continuo em Sao Paulo e ontem foi a festa surpresa do meu quase primo. Quase porque na verdade ele é primo do meus primos, mas ele cresceu comigo, entao ” it feels like” primo mesmo 🙂 Enfim, minha quase tia, mãe dele, organizou a festa. Festa que deixou os dois muito emocionados. E sabe como é, relacionamentos são sempre dificeis. Pais e filhos então. Nos esperamos por lá, 65 pessoas, sem saber se ele apareceria. E se no caso dele aparecer se ele odiaria. Mas ele apareceu e ficou de fato surpreso, chocado, estarrecido, emocionado. Bem no final da noite, ele ainda parecia flutuar meio perdido.

Minha quase tia, chamou um grupo que ela gosta muito para tocar. O Pitanga em Pé de Amora. Eu já moro fora tempo o suficiente para não conhecer ninguem. Então não me surpreendeu nunca ter ouvido falar deles. Ela tinha me dito que seria uma roda de samba, entao eu fui mentalmente pensando em outra coisa. Eis que chega um grupo composto por 4 meninos e 1 menina, todos jovens. E os instrumentos em display ja mostravam que a minha ideia pre concebida estava errada.

E eles comecaram a misturar samba, choror, jazz valsa, xotes, frevo, clarineta, flauta, escaleta, violao, tambor, trumpete e eu senti aquela saudade que só a música é capaz de causar em mim. Assim como no ano passado quando eu passei noites ouvindo no Bip Bip em Copacabana, a velha e nova geração do rio tocando samba, choro, chico. Uma saudade que vem de lugares inexplicaveis dentro de mim. Eu acho que é a musica o que me faz mais brasileira. Eu não sou nacionalista. Não acho que eu me identifique mais com um brasielrio do que um turco, um chines, ou uma eslovaca. Acho que as pessoas sao iguais no mundo, em toda sua diferenca sao capazes dos mesmos atos de altruismo e crueldade, dos mesmos sentimentos. E oque me liga a uma pessoa é o sentimento que eu sinto em relação a ela, e este não é definido por nação. Mas a música, talvez ainda mais que a lingua, me faça me perceber mais brasileira.

Não que eu não sinta saudade de ir no Smalls em NY ouvir Jazz, passar tardes a fio tocando, ouvindo meus amigos do mundo a fora tocando a musica deles. Eu sinto saudade do meu ano de faculdade de música, de ouvir meus talentosos amigos musicos de NY, eu me emociono quando ouco musica do Mali, ou classica, ou um milhao de outras coisas. No entanto, tem alguma coisa que acontece quando o ritmo é sincopado de maneira brasileira. Tem alguma coisa internalizada dentro de mim, é como assistir um senhor argentino dançar tango, sem grandes acrobacias, mas aquele amor, aquele ritmo internalizado na respiracao.

Eu ja viajei muito. Eu ja morei em muitos lugares e eu posso dizer que eu me sinto em casa e fora de casa quase que em todo canto. É um sentimento comum a alguns dos meus amigos que tiveram o mesmo tipo de vida. Meus grandes amigos, as pessoas que eu sinto que dividem o que é de precioso estão espalhados por continentes. Eu nunca morei numa casa o tempo suficiente para criar vinculos com o material. Agora a música. A música é outra coisa. Ela toca no amago. E ela desliza dentro de mim, visitando todos os cantos, e vai fazendo um caminho so dela. E quando eu encontro essa musica que me é estranhamente familiar, a musica brasileira, ainda que misturada com a musica do mundo, tocada de maneira tao brasileira, ai nao da, ai ela tem acesso a lugares que as outras nao tem. Os lugares privados dentro de mim. E aí me dá uma saudade. Dessas de quem se sente assim um pouco “Pitanga em Pé de Amora.”