Das Inconsistencias

Vang Vieng, no Laos, como eu ja expliquei é um lugar particular. Um lugar que foi parar na rota dos gap year students (estudantes que tiram um ano para viajar) , para descer o rio de boia parando nos muito bares que servem bebidas (ta, no proximo post eu explico isso melhor). Acima de tudo Vang Vieng é um lugar lindo, que infelizmente tem sido totalmente destruido por esse turismo meio trash. Assim, que eu na minha primeira vez em Vang Vieng cruzei o rio para o outro lado da cidade para ficar o mais longe possivel das baladas, e dos jovens bebados ocidentais. Alem do mais, a Maylin Guesthouse me tinha sido muito recomendada.

Cheguei num lugar simples, mas absolutamente lindo. Um jardim espetacular, do lado do Laos com cara de Laos. Com seus picos, com as pessoas, com a lama, as pedras, as poças, tudo parecido com o que eu tinha deixado para tras no meu vilarejo de voluntariado. Sentei a mesa comunal do restaurante aberto e pedi uma sopa maravilhosa. Ao meu lado conversavam dois homens, um rude, mal humorado, condescente, sarcastico e mais velho, e um mais jovem, polido, educado e engraçado. Levou pouco tempo para o mais velho começar a me insultar, e menos ainda para eu achar engraçado, e descobrir que aquele homem era o famoso “Joe”, dono da Maylin.

Joe, um irlandes, acido, que manda hospedes embora nao me assustou. Havia nele aquela acidez de quem na verdade tem coração de manteiga. Saxon, australiano e policy adviser, do outro lado da mesa, apenas ria. Levou pouquissimo tempo para ficarmos amigos. Ele, como eu, tinha pouco interesse no lado destruido de Vang Vieng, estava indo rumo a China, e Tibete. Partia no dia seguinte. Saimos para conhecer a cidade, reencontrar meu amigo magico Lucca, de quem imagino ja ter escrito e ao final da noite depois de uma dezena de horas conversando eu o convenci a ficar comigo. Deitado ao meu lado, me disse ” Ju, voce sabe que eu sou gay, ne?” Claro, que eu sabia, no primeiro segundo eu ja sabia, essa eh uma expertize adquirida por ser uma defensora assidua de gay rights, ter muitos amigos gays e de ter morado com muitos deles.

Ficou! Graças ao Saxon conheci lugares lindos, caminhamos pelos arredores de Vang Vieng. Nadamos nas lagoas, visitamos as cavernas, criticamos todos os bares iguais que passavam friends and family guy in Vang Vieng, assistimos meu amigo Lucca encantar o menino Lao fazendo magicas surpreendeentes no final da noite num restaurante vazio. Conversamos horas, e horas, e horas a fio. Quando finalmente deixamos Vang Vieng pegamos um dos onibus mais perrengue da minha vida em direcao a Luang Prabang. La em meio a muita chuva visitamos a cidade, que nos dois achamos quaint e generica, apesar de linda.

Saxon é um homem lindo. Um homem competente, um homem inteligente, bem sucedido, interessado no mundo, um homem que lavanta todos todos os dias para fazer o mundo melhor. Ele, assim como muitos outros amigos meus, apesar de tao bem sucedidos ainda tem que put up com o preconceito no mundo contra a homossexulidade. Quando eu morei em NY, eu participei de muitos momentos decisivos na vida de amigos meus: “the coming out of the closet moment”. Alguns como o Saxon devem causar mais surpresa, alias o Joe, achava que ele tava inventando que era gay so para viajar comigo. Mas mesmo o Joe, um cara para la de dificil nao mudou em nada seu comportamento ao Saxon, uma vez que eu disse a ele ” mas ele eh gay!”

Saxon, me agradeceu depois, eu na hora nao soube pelo oque. Ele me explicou que era pela minha naturalidade, por eu ter dito que ele era gay, por eu nao ter tentado fazer segredo. Aquilo me chocou na epoca. Jesper, meu amigo chines, que alem de gay eh ultra feminino passou pelo maior dilema na hora de contar para a mae. Eu insisti. “Jes, ainda que ela fique brava, nao ha violencia maior do qu vc viver todos os dias fingindo ser o que nao é!” Eu nunca pude compreender, como a mae dele podia achar que ele nao fosse gay. A mãe nao acreditou, quis leva-lo ao medico, e até hoje acha que é uma fase. o tamanho do denial de umas pessoas. Shane, meu outro roomate, se preparou por anos, para ouvir dos pais ” oh, that is what you wanted to tell us? tell us something new.” Minha amiga Nathalie me contou numa conferencia que o pai era gay, o padre o tinha convencido que aquilo era uma fase e passaria. O pai casou teve 3 filhas, e a fase nao passou. A mae da Nathalie, uma mulher supreendente, pediu tempo ao marido quando ele contou a ela. Nao sabia lidar com aquilo. Precisava de tempo para assimilar. Um ano depois se reencontraram ela conheceu o namorado do ex-marido e hoje em dia passam ferias juntos. Ela o novo namorado, o ex com o namorado, nat e as irmas. Dao-se muito bem. Houve estorias menos bem sucedidas, como as dos pais do Sean que nao falam mais com ele, ou da mae do namorado do meu amigo turco Serkan, que mandava o filho viajar o mundo. Eles de familia de status na Inglaterra nao poderiam afford a vergonha que era ter um filho gay. O filho viajou o mundo, e numa das viagens morreu. A mãe precisou perder o filho para conhece-lo melhor, so diante de tal fato ela mandou passagens para o Serkan vir ao funeral aqui na Inglaterram porque ela queria conhecer o homem com quem seu filho tinha morado anos. Eu poderia continuar por horas a fio escrevendo das estorias que afligem muito dos meus amigos mas o ponto que eu quero chegar é: que o meu preconceito, e o seu faz mal! Faz muito mal ao mundo.

Esses dias, recebi uma mensagem de um italiano de quem perdi o contato ha muito tempo. Cineasta, ator, diretor, virou muculmano xiita faz dois anos, tinha acabado de se circuncizar. Eu me interessei pela estoria. Como assim? O que leva a uma pessoa a se converter a uma reliigao distinta ja adulto? Ouvi, ou melhor li ele me explicar sobre o vazio que sentia. E fiquei tocada. No meio, de tantas coisas bonitas ele me disse que tinha mudado de ser liberal para conservativo. Ele citou o alcorao, e me disse que era contra gay rights. depois comecou a falar de roupas. De mulheres se cobrirem. Eu fiz perguntas e mais perguntas, para ver onde eu podia encontrar o common ground. E eu posso em muitas coisas. Ate as conviccoes que eu considero para la de machista eu ainda consigo compreender. No entanto, eu nao posso e nao vou aceitar ninguem que venha me dizer que eh contra “gay rights”. Aliás eu não sei nem se eu entendo oque isso quer dizer. É basicamente “eu sou contra vc ter direito por amar pessoas que eu acho que vc nao deveria amar”. Que fique claro, que eu nao relaciono isso ao Isla, pois conhecemos muito muculmanos que colocam a compaixao acima e tudo.

No New York times saiu esses dias a seguinte materia:

http://www.nytimes.com/2010/03/30/us/30brfs-DEADMARINESF_BRF.html

NATIONAL BRIEFING | MID-ATLANTIC
Maryland: Dead Marine’s Father Must Pay Protester

Lawyers for the father of a Marine who died in Iraq say a court has ordered him to pay legal costs for the anti-gay protesters who picketed his son’s funeral. The protesters are led by Fred Phelps of Westboro Baptist Church in Topeka, Kan. The father, Albert Snyder of York, Pa., had won a $5 million verdict against Mr. Phelps, but it was thrown out on appeal. On Friday, the United States Court of Appeals for the Fourth Circuit, in Maryland, ordered Mr. Snyder to pay the costs of Mr. Phelps’s appeal. The United States Supreme Court agreed earlier this month to consider whether the protesters’ provocative messages, which include phrases like “Thank God for dead soldiers,” are protected by the First Amendment. Members of the church maintain that God hates homosexuality and that the death of soldiers in Iraq and Afghanistan is God’s way of punishing the United States for its tolerance of it.

Basicamente, no funeral do seu filho, um pai tem que aguentar pessoas homofobicas, e para mim criminosas e ainda pagar o preço. E isso: nos ESTADOS UNIDOS! Quao longe podemos empurrar relativsimo cultural? Quao longe podemos defender direito de expressao? É claro, que filosoficamente falando, moralidade eh um tema dificil que pode ter suas raizes ou nao em biologia. E é claro que o drafting de uma convencao de direitos humanos sempre vai ser a imposicao de uma visao de vida no outro. E eu sempre vou ficar em cima desse muro querendo defender diversidade e respeitar as diversas formas de saber do mundo, e querer respeitar o bem estar individual de cada pessoa. Mas será que temos que realmente ser tao relativos? OU será que finalmente eu terei que aceitar, que eu vou ser arbitraria numa parte da minha vida ? Entao, hoje quando o italiano me escreveu me perguntou “vc nao quer mais falar comigo so pq eu sou contra gay rights?”. Me deu um aperto dentro de mim, eu não quero isolar o outro pois ele é distinto, mas a verdade é que de fato nao, eu nao queria mais falar com ele….Não que eu deseje mal a ele, eu só desejo na verdade que ele passe mais tempo preenchendo o vazio dentro dele com mais compaixao ao inves de doutrinar a vida dos outros..

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