O Mundo de Kathleen

Resolvi que queria visitar Kathleen no Hospital. Liguei e ao perguntar se eu podia fazer uma visita, a enfermeira respondeu entusiasmada que sim e me explicou que Kathleen não tem família. Assim que lá cheguei, no Royal London Hospital, que de real não tem nada, fui me encaminhando a Wellington Ward onde me disseram que ela estava. Surpreendi- me com o fato de que as informações nesse hospital eram escritas tanto em Ingles como em Hindi. Eventualmente cheguei até a tal ala que é fechada. Fiquei me perguntando como seria que Katheen aos 89 anos teria escapado de la.

As enfermeiras ficaram surpresas com minha visita, e vieram perguntar detalhes do meu encontro com Kathleen. Onde é que eu a tinha encontrado, a que horas, como tinha percebido que ela estava perdida etc. Respondi a todas as perguntas e me surpreendi quando uma das enfermeiras me explicou que Kathleen era muito veloz 🙂

Levaram-me entao a ala onde ela estava. Cheguei bem na hora do jantar, e ela deitada na cama comia muito alegremente. Nas outras camas, as senhoras e senhores que la estavam, pareciam estar em bem pior situacao. Kathleen, apesar de estar na cama, e de ter soro na mão, parecia ótima.

Ela olhou para mim e nao me reconheceu. Perguntei a ela se ela sabia quem eu era. E ela disse que nao. “I am sorry. Have we met?”

Perguntei a ela, se ela se lembrava que tinha fugido do hospital na noite anterior. Ela disse que nao e num tom muito amigável continuou “Would you care to tell me about it ?”. De um jeito que é só dela, bem ingles, bem musicado. E eu contei. Ela ouviu tudo como quem ouve uma estoria de ficção. “Was it cold?”. “It was, I was very worried to find out if you were fine”. ” I am fine I suppose.”

“You know Kathleen, I remember your brithday! It is on the 22/12/1920. You will be 90 this year!”

Ela olhou para mim por um longo tempo. Como quem pensa na informacao. Como se a tivesse verificando em algum arquivo dentro do cérebro e de repente o encontrasse. Desmanchou-se num sorriso “my god, you have a very good memory!”. Contei a ela tudo que eu tinha aprendido sobre ela na noite anterior. De onde ela era, o nome do marido, que ela era costureria. E a cada informacao ela ficava mais encantada. Ali enquanto comia com muita elegancia o seu jantar.

Expliquei para ela que tinha vindo ve-la porque eu tinha prometido que viria, e que eu eu queria ver se ela estava bem. Foi uma conversa bem misteriosa. Dessas que faz voce ficar pensando… como será que o cerebro funciona. Havia em Kathleen uma mistura de infancia, com velhice. Uma docura, com cansaço. Um realismo concreto interligado pelo o onirico.

Depois de um longo tempo, expliquei para ela que eu tinha que ir. Ela fez umas perguntas e no final me agradeceu. “I don’t remember getting lost, but thank you for coming to see me.”

E eu saí de la com todos esses sentimentos misturados. Sentindo que ela estava bem. Curiosa querendo saber informações onde ela mora, com quem, quem traz comida etc e sentindo que por eu não ser da familiar eu não podia perguntar. Ou melhor, até perguntei mas as respostas de Kathleen são do passado, e as das enfermeiras são da burocracia. Senti uma mistura de tristeza por ela ser só, com alegria por ela já nem mais conceber isso tão bem. No fim, a “natureza” na sua aparente crueldade é ao mesmo tempo generosa. Será que existe no mundo alguma coisa que seja uma coisa só?

Going Home

Acabo de chegar em casa depois de uma dessas noites excepcionais. Fui assistir um concerto e quando estava voltando para casa, no ponto de ônibus vi uma senhora que parecia perdida olhando para o ponto. Está frio aqui em Londres, uns 10 graus. A senhora estava num vestidinho rosa que parecia ser uma camisola, um sapatinho que parecia de quarto, e eu na rua ja tinha percebido que ela devia estar perdida, mas ainda não tinha percebido de onde exatamente.

Fui até a ela e perguntei para onde ela estava indo. Ela pareceu surpresa com minha pergunta mas me explicou e eu na verdade não entendi. Perguntei se ela estava perdida e ela disse que não. Explicou que queria ir para casa. Perguntei se ela sabia como chegar em casa e ela apontou para o ponto de ônibus a nossa frente. Li todas paradas de todos os ônibus que paravam no ponto e quando o primeiro ônibus chegou entramos.

Ela colocou o dedo na maquina do oyster card, pois não tinha bilhete e o motorista perguntou a ela para onde ela ia. Ela respondeu e ele deu o assunto por encerrado. Eu apontei para ele o fato que ela devia estar perdida mas ele nao soube muito bem o que fazer. Disse apenas que o onibus dele estava indo naquela direção Que direção eu nao perguntei pois percebi que nao faria diferença.

A senhora entrou e sentou-se. Foi então, que eu percebi no seu braço a pulseira de hospital, os curativos, e uma agulha (dessas para quem ta recebendo soro) na mao. Uma menina muçulmana de véu e vestida toda de negro foi até a senhora e explicou que sabia onde ela ia e que portanto a levaria até lá.

Saíram do ônibus. Todos nos que ficamos la dentro começamos a nos perguntar o que aconteceria com a senhora nessa noite gelada perdida em Londres. Claramente ela tinha fugido do hospital. Eu sabia que não ia conseguir dormir sem saber se essa senhora estaria vagando sozinha pelas ruas de Londres, então virei para o Haiko e disse “vamos descer desse ônibus e encontrar a velhinha porque precisamos ter certeza que ela está bem e precisamos leva-la de volta ao hospital!”

Ele concordou, descemos, andamos um pouco e encontramos a menina muçulmana que como nós tinha se dado conta da situação e a estava levando a uma estacão de ônibus para que pudesse pedir ajuda. Fomos os 4 juntos. A senhora na sua camisola de hospital, a muçulmana de véu preto, eu de vestido de inverno , meia calca e bota, Haiko de casaco de inverno. Pode se dizer que eramos um grupo eclético. Enquanto eu tentava engajar a senhora numa conversa que a fizesse ficar conosco e não tentar uma nova fuga, a menina muçulmana foi procurar ajuda.

A senhora queria a todo custo partir. Eventualmente conseguimos convence-la a entrar num oinbus parado para sair do frio. Antes disso a menina muçulmana tirou seu próprio casaco e o colocou em cima da senhora. Entramos os quatro no ônibus. A senhora a minha frente não compreendia porque o ônibus nao saia do lugar. A muçulmana do meu lado junto comigo tentava explicar que o ônibus estava atrasado.

E ficamos ali esperando que a policia chegasse. A policia chegou e a senhora nao ficou muito feliz com a ideia de ir ao hospital. Negava ter estado la internada. O policial gentil, e ao mesmo tempo realista a confrontava com o fato que ela estava com a pulseira do hospital. Quando eu olhei sua pulseira descobri sua idade: 90 anos!

A senhora era lucida. E não queria voltar ao hospital. Passamos pelo menos uma hora nesse ônibus e em alguns momentos eu parecia estar num filme. Haiko em silencio observando tudo, a doce muçulmana sentada ao meu lado, eu tentando explicar para senhora que nos estávamos preocupados com ela, os policiais ingleses, o motorista do ônibus, e até um passageiro bêbado e dorminhoco que tinha ficado no andar de cima do ônibus e apareceu pedindo desculpas pelo transtorno.

Partimos quando a senhora estava já na ambulância. Eu nao fiquei sabendo o nome da muçulmana mas ao ir embora ela me agradeceu. Como disse o Haiko foi tocante ela me agradecer por eu estar ali com uma pessoa tão estranha a ela como a mim. E eu disse um obrigada de volta que na hora nao teve muito sentido. Agora que eu sentei aqui para escrever tudo isso ele faz mais sentido. O meu obrigada a menina de véu é por ela ser tão excepcional e me lembrar que há pessoas no mundo que param para ajudar os outros. Não podemos parar sempre, mas quando paramos essas conexões ainda que breves, ainda que anonimas tornam evidente o quanto faz muito mais sentido viver num mundo onde tomamos conta uns dos outros.

Quando o policial disse “we are here because we care” a senhora discordou. Eu insisti dizendo que nos estávamos sim preocupados. Ela olhou para mim e para a muçulmana e disse ” The two of you I know, but the police is just meddling with my affairs” 🙂 Kathlin tem 90 anos, é casada com Albert, e é uma east ender. Uma senhora lúcida, e que tinha fugido do hospital. Como eu também já fugi uma vez eu a compreendo 🙂

Ser Humano

Tenho estado ocupada. Entre aulas, palestras, a impossível tarefa de aprender hebraico, a maravilhosa oportunidade de encontrar e conhecer os meus colegas de doutorado, ensaiando as minhas musicas com um amigo para fazer um show, e ainda tendo mudado de casa! Sim, aquela casa, aquela da Nigeriana, e das estorias que me servem para um dia escrever um livro ficou para trás. Um novo endereço que ficou para trás, para o novo vieram dois dos meus antigos vizinhos, os amigos que eu ganhei naquele turbilhão de emoções. Shane e Iva.

Sobre Israel eu já falei tanto para as pessoas que eu encontrei que eu sinto que ta meio esgotado o que eu tenho a dizer. Talvez seja um pouco de medo de voltar a um ninho de emoções pouco compreendidas. Sentei ontem aqui e comecei 3 post distintos. Todos assim sem alma 🙂 sem graça e aí tive que sair de casa para encontrar meu amigo Chris, meu melhor amigo da LSE, que fez mestrado comigo e que partia hoje para fazer trabalho de campo em Moçambique.

Nos encontramos também no sabado, e muitas e muitas vezes antes disso. Somos muito amigos, e eu ainda comecei a ensina-lo portugues assim que nos últimos meses foram dezenas de horas que passamos conversando sobre os mais variados temas. Sempre rimos muito, e nunca levamos nada muito a sério. Foi igual ontem. Eu mais uma vez indo ao Goodenough College que sempre me traz lembrança de amigos que partiram para dizer adeus para mais um.

Sentamos para tomar um chá e enquanto falávamos só bobagens foi tudo bem. No entanto, eventualmente chegou a hora de eu dizer adeus. Um adeus temporário afinal ele so fica no Moçambique dois anos, e depois eu fico em Israel tbm só 2 anos (o só é irônico) . E aí não deu. Eu transbordei em lagrimas (daquelas que você ta tentando engolir com os olhos)…. “When do we see each other again?” ele perguntou ” Vou estar em Nampula semana que vem, mas voce vai ta em Maputo então nos desencontramos” brinquei… “acho que então só em pelo menos 2, ou 3 anos”. E os meus olhos encheram de lagrimas como enchem agora. Pois é claro que esse adeus não é só ao Chris. Esse adeus, é mais um adeus da pilha de “Adeus” exaustivos que nos que vivemos em Londres (uma cidade que ninguem para nunca) temos que dar. Esse adeus nos lembra sempre a impermanência de tudo.

E impermanência me faz sempre lembrar da minha meditação vipassana e ouvir Goenka dizer para estarmos presente! Chego em casa, e encontro Shane e Iva que eu já aprendi a amar, e ODEIO o pensamento de que eles também voltam a seus países eventualmente. Digo isso em voz alta, e enquanto Iva concorda Shane nos lembra “let’s be in the present!” E eu volto ao presente para aproveitar o que esta aqui.

Mentalmente eu quero que o Chris tenha o melhor trabalho de campo no mundo. Emocionalmente eu queria ele aqui. Israel foi assim também. Esse descompasso entre mecanismo cognitivos, pensamentos ideológicos e realidades emocionais. Como é difícil (as vezes) ser humano.

Aulas de Hebraico

Comecei a fazer meu doutorado. E já que minha pesquisa será em Israel comecei portanto a aprender Hebraico. Aliás, eu deveria dizer que eu me matriculei na aula de Hebraico, e assisti duas aulas. Começar a aprender é sem dúvida bem distante da realidade. Cheguei a minha aula que é no King’s College, logo ali ao lado da LSE e ao entrar na aula me surpreendi logo de cara. Eu imaginei que seria como quando eu fiz Holandes, onde 90% das pessoas que estavam lá, estavam porque tinham um namorado/a ou marido/mulher holandes(a). Hebraico eu imaginei seria uma mistura disso, com alguns judeus que ainda nao falam a lingua querendo aprende-la. Eu estava totalmente enganada. Não que algumas pessoas não se encaixassem nesse perfil. Poucas, havia apenas uma menina judia, e apenas uma outra menina que tinha um namorado Israelense. O resto, o resto estava ali pelas razoes mais variadas possiveis.

Como por exemplo a Nigeriana que é de um Igreja cristã na Nigéria onde tudo é falado em Hebraico. Quando eu expressei minha surpresa, ela explicou que em londres, eles tbm falam em hebraico, e os ritos sao ministrados em hebraico, mas que eles são menos acurados pois tudo é escrito foneticamente usando “as nossas letras”. Na Nigeria, ela explicou, leva-se mais a serio, etnao, é tudo escrito em Hebraico

Tem também o rapaz que começou a estudar Hebraico porque precisava de um desafio. O trabalho, ele explicou, é muito chato. Quando a professora perguntou porque Hebraico e nao alemao. Ele respondeu “porque alemao eu ja sei”. Ela ainda insistiu “mas porque Hebraico?”. Ao que ele respondeu ” Por que nao?”

Depois tem um Arabe que quer aprender Hebraico porque é parecido com Arabe. E a chinesa que mal fala ingles e resolveu aprender Hebraico ( atraves de ingles) porque quando viajou por Israel fez amigos que tiraram sarro dela e ela não conseguiu entende-los. A professora parecia tão supresa quanto eu com esse apanhado de gente e com essas estórias tão insólitas. Tinha é claro, também os que queriam aprender pois trabalham com “war zones” e precisam fazer pesquisa. Overall, não havia muito critério.

A falta de critério pareceu reinar na minha primeira e hoje na minha segunda aula. Depois de nos apresentarmos. A professora resolveu nos ensinar o alfabeto. Eu que não sei NADA achei que eu iria morrer. Nada fazia sentido. Ainda mais quando minha professora dizia coisas do tipo ” Alef na bíblia é escrito assim, em letra “cursiva” é assim, mas eu gosto de desenhar assim :)” Ninguem, parecia se preocupar muito com a falta de estrutura. E quando eu perguntava ” mas porque isso é assim” ela dizia ” bom, a razão mesmo vc so vai entender no terceiro ano”. Sem contar o fato, de que as vogais sao omitidas, portanto vc precisa adivinha-las a partir do contexto da frase. Só imagina como isso não é simples quando voce NAO CONHECE A LINGUA!!!

Hoje minha aula começou meia hora atrasada. A professora estava vindo direto do aeroporto. Para compensar por esse pequeno lapso nos trouxe chocolate Israelense. Um chocolate que explode aos poucos na boca. O chocolate uma delicia, ja o meu progresso….

Adam

“Incrivel, não é?”

Volto a terra e vejo ao meu lado Adam. Eu estava tão concentrada no outro planeta onde eu visitava os monges Etíopes que nem o tinha percebido ali.

“Incrivel!”- concordo.

Seu rosto é muito familiar, e então eu o reconheço. Havíamos nos conhecido na noite anterior. Adam também estava no Couchsurfing meeting onde Netanel meu anfitrião tinha me levado. Ele me pegunta o que eu fazia em Israel. Explico, que tinha vindo para descobrir se queria vir fazer minha pesquisa de doutorado ali em Israel.

Pergunto a ele a mesma coisa. Ele suspira e me pergunta se eu quero mesmo ouvir a estoria. Digo que sim e então ele começa.

“Meu pai era ortodoxo. Depois de servir o exercito foi visitar pela Europa. La conheceu minha mãe, Alemã e Cristã. Já desiludido com a religião, e apaixonado por minha mãe resolveu ficar na Alemanha, casar-se.”

Casaram e tiveram Adam. E quando o menino completou 2 anos o pai começou a sentir falta de Israel, e de Deus. Resolveu que queria voltar a terra santa. Explicou o que se passava a mulher e então pediu a ela que se convertesse e que viesse com ele para Israel. Ela rejeitou.

Nesse momento Adam pausa., me olha longamente e diz: ” Nessa parte eu nunca sei direito se continuo ou nao”. Peço que continue.

“Entao, meu pai, decide falar com minha tia, irma da minha irma e pergunta a ela se ela se casaria com ele, e se se converteria ao judaismo Ortodoxo.. Ela concorda, e então eles se mudam para Israel.”

Eu perplexa, sem palavras, pergunto se sua mãe tinha se sentindo traída.

“Não. Ela ama a minha tia. E assim foi melhor para todo mundo. Minha mãe tem outro namorado. Minha tia teve 6 filhos e é feliz como Ortodoxa, e meu pai está feliz.”

“E voce?”

“Eu vim para encontra-lo depois de 20 anos sem ve-lo. Conhecer meus meio-irmaos que são também meus primos. Senti enorme amor da minha fmailia. Voce quer ver uma foto?”

Claro que eu quero, e entao esse doce menino tira do bolso uma camera. Mexe no botão até encontrar a foto de um homem alegre, com baraba comprida, meio gordo claramente satisfeito de ter seu filho ali (invisivel naquela foto) a sua frente. Apesar de Adam ser o fotografo e não o fotografado a foto mostra de certa maneira a alegria daquele pai que escolheu a religiao aa familia. E Adam, Adam está feliz.

No Telhado da Igreja do Santo Sepuclro

Como eu fico na duvida por onde comecar resolvi comecar assim do meio. Mesmo porque as estorias se confundam na minha cabeça como se fosse um sonho ondes os rostos se misturam e eu já não me lembro mais a ordem dos eventos. E isso tão pouco faz muita diferenca. Entao, eu vou comecar de um momento especial para mim: o telhado da Igreja do Santo Sepulcro.

Já era o meio da minha viagem, e eu estava pela segunda vez em Jerusalem. Voltara para visitar a escola Hand in Hand. Meu novo anfitriao Netanel é um guia turistico que me contou 4000 anos de historia assim numa longa, longa caminhada. No dia anterior, tinhamos ido a um encontro de Couch surfers. La conheci muita gente. Sentamos a volta de uma mesa longa, numa das ruas de Jerusalem. O tempo perfeito. Fresco, com uma brisa leve. Conversei com alguns estrangeiros, alguns Israelenses e depois voltamos para casa.

No dia seguinte, andamos ate o centro historico e la comecamos o nosso tour. Eu ja tinha estado no centro historico mas andando meio sem critério. Mesmo porque confesso, que pessoas me interessam mais do que lugares, entao eu fiquei na minha primeira vez apenas fascinada com aquela mistura de turistas, religiosos de todos os tipos, criancas, gatos…

Com Netanel, prestei atencão no que significavam os prédios, as lendas, as evidencias arqueologicas etc. E ele resolveu me levar não na Igreja do Santo Sepulcro, mas no seu telhado. Subimos e la no telhado era um total silencio. Antes mesmo de saber o que estavamos fazendo eu ja fiquei encantada com a ideia de que debaixo dos meus pes corriam, rodavam, se emocionavam muitos cristaos, muitos turistas, enquanto ali em cima do telhado o silencio era total.

Netanel entao me explicou, que ali em cima do telhado havia um vilarejo Etiope. Eu fiquei boquiaberta. Nao conseguia acreditar. Como assim ? De acordo com Netanel, a presenca do Etiopes dates back ao encontro da rainha e Sheba e o rei Salomao (mais info aqui) O que me surependeu nao foi tanto a razão historica, mas que existisse um vilarejo ali em cima. Andei pelo telhado fascinada, e de repente cheguei a uma porta. Nao era uma porta fechada. Era mais como uma portal, que no meio era dividido por uma cruz verde.

Eu parei e olhei la dentro, que era la fora, porque nao havia telhado. E la no fundo eu via monges negros, etiopes, vestidos de petro, e cores bem fortes. Sentados, em silencio. Eu me senti transportada a outro mundo, outro continente, outro tempo. Fiquei parada la. Nao me escondi. Nao tirei foto. SO fiquei la uns cinco minutos olhando. Um desses presentes inesperados, impossiveis de reproduzir em fala. Senti que enquanto eu olhava tudo meio que deixava de existir. Seria aquilo minha imaginacao?

Um couchsurfer, que eu tinha conhecido na noite anterior, apareceu e ao dizer uma palavra fez com que tudo voltasse ao real. Como no segundo que Fernando Pessoa (Alvaro de Campos) ve um homem entrar na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima dele. O couchsurfer era Adam. Alemao. Que estava na verdade tao encantado como eu. E Adam, aumentaria ainda mais a minha sensacao de que em Jerusalem tudo pode acontecer. Mas eu conto do Adam uma proxima vez para que meu post nao fique tao overwhelming como foi minha viagem.

Couchsurfing em Israel

Nossa, dessa vez eu realmente nao sei por onde comecar. Eu ainda nao voltei para casa. E por casa eu quero dizer Londres. Ainda que cada vez mais o sentido casa se perca de mim. Estou em Amsterda onde vim encontrar a minha avo que aos 86 anos terminava uma viagem pela Polonia, Lituania, Letonia, Estonia, Finlandia e Russia. Eu vim direto do aeroporto de Londres onde passei a noite toda depois de ter voltado de Israel. Sao tantas, mas tantas as emocoes misturadas, que as estorias, os cheiros os os gostos, os rostos se mesclam sem eu sabera onde, ao que e a quem pertencem.

Começou ja no avião. Em Londres, quando as enormes familias de Judeus Ortodoxos por se moverem tanto fizeram nosso voo atrasar mais de uma hora. Ouvi “amused” o piloto avisar take off depois de take off que se todos nao tivessem sentados nao poderiamos decolar. Ja no ar, levantaram. Os religiosos para rezar, as criancas para brincar, e outras pessoas para beber, conversar etc. Eu assisti a tudo isso encantada. Que lugar eh esse pensei?

Eu acho que eu vou precisar de muito tempo e muitos posts para digerir tudo que senti. Talvez seja sabio comecar por explicar duas coisas. A primeira eh que fui para Israel para descobrir se eu gostaria de la viver para fazer a minha pesquisa de doutorado. A segunda, foi que decidi, que a melhor maneira de descobrir isso seria couchsurfing.

Couch Surfing literalmente significa “surfar o sofa”. É uma comunidade, assim como facebook, mas de viajantes. Voce faz o seu perfil e coloca la alem de seus intereses e etc, se vc tem um sofa, ou uma cama, disponível para receber viajantes. Quem não tem cama, ou sofa, pode oferecer apenas um cafe, seu tempo. Assim, que vc entra no site, e procura por continente, pais, cidade pessoas para se encontrar ou para ficar na casa delas durante sua estadia.

Eu ja tinha participado um pouco do CS, mas nunca assim, o tempo todo. Eu resolvi que Couchsurfing seria o melhor jeito de eu descobri como eh morar em Israel pois entrar assim na vida de desconhecidos diz muito. E é claro, que eu escolhi meus anfitriões a dedo. Com alguns eu troco mensagens a meses. Outros foi meio que por acaso.

É o sonho de um antropologo, porque vc entra na casa de uma pessoa desconhecida e tem a chance de viver um pouco da vida dessa pessoa, de ver o lugar onde vc esta através dos olhos dessa pessoa. Tem é claro quem usa o CS so para não pagar hotel, e que quase não passa tempo com seus anfitriões. Não era o meu caso, eu estava menos interessada nos lugares do que nas pessoas. Então pode se dizer que eu passei muito ou quase todo o tempo com as pessoas que eu conheci, ou com seus amigos.

Isso tudo, não é sem preço é claro. Enquanto a humanidade que nos conecta se torna tão evidente, a arbitrariedade dos costumes, do valores não parece menos evidente. Então, assim na casa de pessoas que vivem num pais tão dividido por conflitos étnicos e religiosos eu senti muito. Senti demais. As vezes perdi o fôlego de tanto que eu senti.

Parti me sentindo enormemente grata a todos que me acolheram e que dividiram comigo um pouco das suas estórias, das suas experiências no exercito, na sociedade, nas suas viagens pelo mundo. E como sempre dizer olá para estranhos é fácil, adeus para pessoas que vc começa a amar é bem mais duro. Acima de tudo o mais difícil, é que me parece que para viver por lá eu vou precisar endurecer umas mil vezes. Enquanto que ao mesmo tempo eu fui tratada com uma afectuosidade, e calor raramente encontrado na Inglaterra.

Enfim, nos próximos posts eu vou tentar falar das pessoas que conheci. Das pessoas que me receberam. E das estórias que ouvi. Apaixonei-me pela escola Hand in Hand. E voltei convencida mais do que nunca que pluralidade é importante, e que tolerância é fundamental.

Do Grupismo as Cotas

Acabei minha dissertação. Graças a um atraso no meu voo a Budapeste. Sim, em meio ao meu ultimo mes meus pais vieram para Europa e me convidaram para ir a Budapeste. Não consigo dizer não para uma viagem nunca. Fiquei um pouco preocupada afinal eu já tinha mudado o meu tema de ultima hora, e ainda sair 5 dias para viajar??? Então, levei o computador comigo, e no aeroporto com um atraso de apenas 7 horas sentei e pela primeira vez li tudo que eu já tinha escrito na ordem certa. E fui conectando, reformulando, assim que quando cheguei a Budapeste minha dissertação estava praticamente pronta. Nao sei se ela esta boa. Sei que ela diz tudo que eu quero dizer, e que não quero dizer mais nada sobre isso. Pelo menos nao por agora.

Foi bom, pois meu santuário português deixou de ser santuário. Dna Cecilia toda vez que eu partia passou a desejar me “sonhos cor de rosa” num sotaque lindo português. Depois fregueses passaram a me perguntar o que era que eu estava fazendo. Quando eu respondia “antropologia cognitiva” invariavelmente, partiam, voltavam e perguntavam o que era. Eu, que começo sempre de “Adão e Eva” 🙂 perguntava: ” você quer mesmo saber? se quiser eu explico, mas então senta”. Queriam. E assim sentaram na minha mesa vários senhores, e ouviram a história da antropologia.

O dia mais engraçado foi o dia, que eu já me sentindo em casa, com todos os meus artigos marcados com caneta daquelas fluorescentes esparramados sobre a mesa… ouvi um homem me chamar.

“Desculpe, mas eu estou muito perturbado com esse seu artigo”

Eu estava tão concentrada que tive que voltar de outro planeta, olhar para ele, para a mesa para ver do que ele falava. Um artigo cognitivo de Gil-White chamado “Are ethnic groups biological ‘species’ to the human brain?”. Eu que achava que cognição era bem menos polemico que religião comecei a explicar.

“Esses artigos estão falando da nossa tendência cognitiva de classificar, identificar, essencializar. A ter uma tendência por grupismo. Por grupismo, expliquei, eu quero dizer, a tendência que humanos tem de criar grupos, e de percebe-los como entidades substanciais no mundo. Fazemos isso o tempo todo. Desde bebe até adultos. Categorizamos. Formamos categorias de copos, xicaras, leoes, e aparentemente de pessoas. Categorias tem muita informação implícita e são indutivas. Ou seja, nos fazem prever o que esperar e como agir quando encontramos algo. É um mecanismo cognitivo para poupar esforço. Imagine se tivéssemos que realmente a cada encontro com uma nova coisa aprender tudo sobre ela. Nosso cérebro portanto cria categorias.

Categorias sociais ( etnia, raca, nacionalidade) não são coisas concretas no mundo. O que esses artigos estão fazendo é tentar entender a nossa tendência a perceber esses grupos como concretos. Dizer que eles não existam concretamente não é dizer que eles não tenham poder. Claro que tem! Vemos isso todos os dias. Como diria o Brubaker um approach cognitivo a grupismo permite que pensemos em grupos ( racas, etnias, nacionalidades) não como coisas NO mundo, mas sim perspectivas SOBRE o mundo. E se compreendemos grupismo como parte da nossa cognição natural percebe-se o porque é tão presente e o porque é tão difícil passar por cima desses mecanismo. Isso é claro, expliquei, não é para dizer que eu ache que por temos essa tendência a classificar, essencializar e a gostar mais do nosso grupo do que o dos outros ( ainda que esse grupo seja completamente arbitrário) que por isso devemos achar que racismo, xenofobia etc e tal são aceitáveis. Exatamente o contrário, compreender melhor esses mecanismos nos ajuda a desenvolver melhores métodos para combater grupismo quando usado nocivamente.

Expliquei tudo isso e mais um pouco. Ele me olhou, olhou, fez perguntas e partiu. Depois voltou e me disse:

“Eu sou meio louco, sou bipolar, já tenho 47 anos, por isso não estou te convidando para sair sair, mas vc quer ser minha amiga?”

Comecei a rir, nunca tinha visto ninguém se apresentar assim. Disse que sim, claro, perguntei seu nome, e nao resistindo perguntei. “Por que vc ficou tão interessado no meu artigo”

“You know, when I visited Tajikistan I thought they were different people, like they were from another species, I am glad to know is not that it was not me, just my brain.”

Eu não disse nada. O dualismo é incrível. O que esse cara quis no fundo dizer era ” fiquei feliz que eu não sou uma ma pessoa porque achei eles tão diferentes…. meu cérebro classifica”.

Categorias são indutivas. Algumas categorias são mais indutivas que outras. E é claro que cognição não flutua no vácuo. Ela informa e é informada pelo nosso meio socio-cultural. Não é de se surpreender que em Israel, as pesquisas com crianças mostrem que a categoria social mais indutiva é etnia. “Arabe” e “Judeu”. Mesmo em Israel no entanto, há diferença entre grupos, Judeus religiosos generalizam mais com essas categorias do que judeus seculares ou árabes. Em outros lugares pode ser gênero, ou status… sei la.

Quanto mais eu tenho lido sobre isso, mas eu acho que tornar categorias explicitas em discurso é pior. Porque essas categorias retificam a idéia que esses grupos existem como entidades substantivas. Eles não existem. Nos somos todos humanos. No entanto, as percepção desses grupos é real, e portanto tem conseqüências políticas.

Como sempre meus posts são assim começam num lugar para parar noutro. Eu já estou pensando no sistema de cotas no Brasil. Eu não sei se discriminação positiva é uma boa coisa. Tenho impressão que são medidas paliativas que não lidam com os problemas reais. O problema real é melhorar o ensino público para TODOS. Eu realmente não sei. Sei que lendo cada vez mais sobre o efeito de tornar uma categoria social parte de discurso ( Utus e Tutsis por exemplo) é uma idéia com seus riscos. Tenho medo que o que seja gerado no fim seja uma redução de empatia. Se nos já temos uma tendência a gostar do nosso grupo em detrimento do outro, será que criar mais grupos é uma boa idéia? Não sei direito…

No "Meu" Café

Estou no meu café Português. Acho que ainda nao falei dele. O café português. O “meu “ café português é um lugar perto da minha casa. Quando eu estava estudando para minha última prova um dia esqueci meu Oyster card (cartão do metro e onibus aqui em Londres) e com preguiça de voltar em casa entrei nesse café. Ele é feio por fora, como é sem graça por dentro. Ele nao tem internet nem nada de aparentemente especial. Aparentemente é claro porque para mim ele é magico. Eu entrei, sentei, pedi um um café e meio sem graca tirei uns artigos da bolsa para ler. Nao tive coragem de tirar meu computador. Porque meu café é assim um lugar meio austero. Pedi um café, e eu que nunca bebo café senti meu coracao disparar. E entao comecei a ler. E assim que comecei a ler, comecei a me emocionar com tudo que eu nao tinha lido durante o semestre. Tudo foi se juntando na minha cabeca de maneira pouco ortodoxa e eu voltei para casa e escrevi um paper. Mandei ao meu supervisor num estado de euforia porque as minhas conexoes e “claims” eram completamente minhas. Um pouco insegura mas querendo saber o que ele pensava mandei. Ele me escreveu dizendo que o paper era brilhante em letras capitais. Se vc reproduzir esse tipo de trabalho na prova, disse ele, vc não terá problemas. E então, nesse dia, o café português virou o “meu” café.

Aos poucos fui ficando cada vez mais a vontade. Tirando mais artigos, livros, este computador. Lendo em meio a barulheira, as conversas que pouco me interessam, aos barulhos de pratos, xícaras, maquina de café. Ao bonito som da língua portuguesa na boca de angolanos, portugueses, cabo-verdianos. Aos sons de outras línguas misturadas no ar fosco e pouco interessante do meu café. Para poder fazer doutorado, apesar de ja aceita eu ainda tenho que ter mérito no meu mestrado. Fiz minha prova, meio preocupada. E confesso que sai direto de la para uma palestra onde encontrei minha ex-supervisora ( e futura de doutorado) sem saber muito bem como tinha ido na prova.” Jules, I am sure you did well” Disse ela. Eu , no entanto, nao estava tao sure. Eu misturei neurociencia, com antropologia e filosofia, e mais uma variedade de pensamentos que as vezes so fazem sentido na minha cabeca. Como se eles viessem de areas totalmente distintas e se sintetizassem no processo da escrita. Como aqui alias. Então, a minha professora podia odiar, ou amar, ou mais ou menos. Sei la. No fim, foi uma estória de final feliz, porque eu tive distinção. Para a minha total supresa.

E eis que agora eu preciso terminar minha dissertacao ate dia 1 de setembro. E eu que tinha tudo claramente decidido em minha mente ha meses resolvo assim de ultima hora, faltando menos de um mês mudar de tópico, de artigos, de estória. Andando assim, na biblioteca. Meio ao léu peguei um livro na prateleira e ao abri-lo, meus olhos encheram de lágrimas. Um livro escrito por uma Palestina e um Israelense. “Coffin on our shoulders: The experience of Palestinian Citizens of Israel.”

O livro é escrito pelo Dan Rabinowitz, antropólogo formado em Cambridge, e professor em Tel Aviv, e pela Khwala Abu Baker, Palestina professora no Emek Yezreel College. O livro mistura a conseqüência do sionismo para a família dela e dele, com a Historia de Israel. Como sionismo salvou a sua família, causou “excruciating” dor para a dela.

Ali, naquele principio eu soube que eu queria escrever sobre isso. Não só já é muito relacionado ao meu doutorado, mas eu queria ler mais. E eu li. E comecei a ler sobre os nossos processos de categorização. A nossa tendência cognitiva de classificar o mundo a nossa volta. A tendência que temos de “essencializar” ( buscar essências em coisas). Resolvi que eu queria falar sobre “ethnicity” de um ponto de vista cognitivo. Ou seja, em vez de tartar raças como fixas, substanciais, como experiências subjetivas informadas pela nossa “natural” tendencia a essencializar, categorizar, identificar grupos no mundo.

Entao voltei ao meu pequeno café portugues. Onde tudo faz sentido sem fazer sentido nenhum. Como é que eu posso conseguir me concentrar aqui e nao na minha casa, e nao na biblioteca ? Aqui as idéias fluem,se misturam mas acima de tudo me emocionam. E fica muito facil eu aceitar tudo que eu sou… antropologa, cognitive, apaixonada por musica, yogi, gostando de de meditação, tomando café, etc etc etc.

Recebi um email muito muito tocante de uma professora de NY. Um email em resposta ao meu de agradecimento a ela por me acordar, e me inspirar na luta por justica. No email, ela diz

“ Tem gente que acha que a situacao ( Palestina-Israel) eh complexa. Eu nao sou uma dessas pessoas. Eu acredito em justiça. Por isso acho que nos temos que confrontar racismo todas vezes e onde o encontramos”

As palavras são fortes. Como sempre foram. E enquanto eu aqui no meu pequeno café leio sobre a nossa natural tendência de classificar, de gostar de grupos eu nao posso deixar de pensar que se vamos construir um mundo mais justo, e onde vivemos TODOS melhor, precisamos comecar em nos mesmos com as nossas proprias tendências. Eu ja disse mil vezes que nao sou nacionalista. Hoje eu sou ainda menos . Pois fica cada vez mais claro para mim nesse café cheio de gente de lugares distintos, falando línguas difererentes que precisamos tornar estranho o que nos é familiar. Só assim, nesse diário esforço contínuo de lutar contra nossa tendencia cognitiva de classifcar o mundo em grupos vamos conseguir um mundo mais justo, de mais empatia com o outro. Um mundo onde não tenhamos a necessidade de nos sentirmos parte de um grupo e portanto distinto de um outro. Um mundo, onde orgulho nao seja ligado a ser parte de algo que esta inteiramente fora do nosso controle.

Sempre que eu digo isso, alguns amigos me dizem “ Juleita, você é brasileira!” ( quase que ofendidos por eu me considerar humana).” Olha a sua música”. É verdade, eu toco , e sinto a música brasileira onde eu nao sinto outras. Eu sou mais fluente em português do que em todas a outras línguas que eu falo juntas. Eu acho um milhão de manifestações culturais que acontecem no territorio “imaginado” Brasil lindas. Mas eu tambem sou tocada por muito que vem de outros territórios imaginados. Acima, de tudo, ter passado tempo voluntariando num vilarejo onde eu era a unica “farang” ( em Tailandes “goiaba” termo que eles usam para brancos de fora:), nao sabendo a língua me iluminou muito para isso. A nossa fundamental humanidade. O comunicar nos gestos, nos olhos, no riso. Claro, que eu não nego as diferenças de cultura. Eu só acho, no entanto, que somos humanos. Temos essa tendencia a classificar o mundo em categorias porque isso torna mais facil cognitivamente viver. Numa categoria há muita coisa inferida. E apesar de reconhecer que categorizar é parte da nossa cognição natural,que por isso mesmo precisamos em vez de tornar categorias sociais mais fortes no nosso discurso ( nos sentirmos brasileiros, ou budistas, ou torcedores do flamengo) precisamos praticar nos “estranharmos” dessas categorias. Assim como filósofos, ou viajantes. Nesse saudavel estranhamento fica mais fácil de lembrarmos que no fundo nos e o Tuareg, o Nambikwara, o Piracicabano, o Russo, o muçulmano, o ateu, o evangélico, o !Kung que nunca sequer encontramos somos no fundo muito, muito, muito parecidos.

Videos No Youtube

Ontem coloquei vários vídeos de músicas minhas no Youtube. Fazia muito, muito tempo que alguns amigos meus me pediam para fazer isso. Eu sempre meio insegura, mas ontem passei o dia tocando violao, um violao que nao é meu, aqui na casa da minha amiga Dri e gravamos vários videos no jardim!!! Esse primeiro é de uma música que acabei de fazer. O resto ta AQUI
Espero que vocês gostem!