Dr. Miau com Epicteto

Dr. Miau, e

Eu fiquei sabendo que o senhor atende os pacientes felinos.

“Claro, é muito bem-vindo aqui. De onde você vem originalmente?”

Eu vim do aeroporto, e já até senti que há uns gatos tão diferentes por aqui. Estou numa casa ao lado, de onde escuto tantas contradições. Umas pessoas veem o branco, outras veem o preto. Um vê um velho, o outro vê um jovem. Quase todos os dias vejo essas contradições. Quase no silêncio, vejo que até me calo. Às vezes canto “miau, miau, miau”, aí me contaram que existe o Dr. Miau.

” Como você se chama? Mas sabe por que fica tão preocupado com o que o outro diz?”

Meu nome é Epicteto, mas por que você se importa com o nome que me deram?

“Ah, Epicteto, era para saber como posso dar um nome a esse meu novo paciente. O seu nome é tão lindo. E você já aprendeu?”

Nossa, Dr. Miau, é para você questionar a minha ignorância?

” Ah, qual… O seu nome era para te ajudar a abandonar essa preocupação com o que o outro pensa. Era para abandonar como uma mandala tibetana que os monges fazem e, quando está pronta, a desfazem. Tinha pensado em dizer isso, mas quando você disse o seu nome, me fez lembrar ainda mais do que ele representa.”

Mas Dr. Miau, eu de fato sou ignorante, e fico muito revoltado com as minhas contrações. Isso me faz querer fugir de onde estou. E, ainda pior, não sei por que achou meu nome bonito. Não fale mais da mandala, é só uma lenda sobre o meu nome.

“Ah, Epicteto, eu adoro nossa conversa, porque seu nome me faz lembrar da paciente Tara. Ela e eu sentimos as mesmas relações entre a vacuidade, a mandala e Epicteto, como quando queremos libertar a mente do que estamos presos. “

Mas como Dr Miau ?

“Isso me fez lembrar da vacuidade. Assim como a escola Madhyamaka propõe que os fenômenos são “vazios” de uma essência fixa ou independente, as nossas crises, identidades e até a revolta com a própria ignorância não têm consistência sólida.
Quando percebemos que o “eu” e os julgamentos alheios carecem de substância própria, o sofrimento perde o seu alicerce.”

Sou eu mesma que faço ?

“Veja só como essas três sabedorias se abraçam positivamente, Epicteto: a mandala te ensina a arte sagrada de construir e desconstruir — você se dedica por inteiro ao desenho, mas sem apego ao resultado, pois sabe que ele será dissolvido. A vacuidade (Madhyamaka) te mostra que as tais “contradições” que você escuta do lado não passam de nuvens no céu: têm forma passageira, mas nenhuma substância que possa te ferir de verdade. E o seu nome, Epicteto, te lembra que, no meio dessa dança de formas vazias, há um centro que nunca é arrastado: a sua escolha interior, o seu julgamento sobre cada impressão. Juntas, elas não formam uma fuga, mas uma dança perfeita: a mandala é a prática, a vacuidade é a visão profunda e Epicteto é a ação livre no dia a dia. Com as três, você não precisa mais fugir das contradições; você as observa do centro sereno, e até o seu “miau, miau, miau” vira um mantra de liberdade.”

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