Enganando o Cerebro

Bom, agora que eu já escrevi toda a saga, posso voltar as coisas inúteis que eu escrevo 🙂 Não posso escrever muito pois queimei minha mão direita. Não, não foi tentando cozinhar, mas fazendo uma coisa muito mas muuuuuuito mais inútil. Quem me conhece sabe que eu vou a cabeleireiro raramente, uso qualquer shampoo, se não tiver shampoo uso sabonete, quando perco meu pente penteio cabelo com o dedo. Enfim, não exatamente primo por esses cuidados. Não é que ontem, eu resolvi fazer uns cachos no meu cabelo com um (não sei como chama) aparelho da minha house-mate e amiga Alondra, e isso acabou num verdadeiro desastre 🙂

Primeiro já foi dificílimo encontrar um plug para poder ligar o aparelho mexicano na tomada. Quando finalmente eu o fiz. deixei-o no chão, enquanto fui fazer qualquer outra coisa que já nem me lembro mais. Ai passei por ele, e ao me lembrar dos famosos cachos que eu queria fazer, eu abaixei e peguei o aparelho, que parece uma escova de metal, pelo lugar errado. Não o “handle” mas o próprio ferro quente. Não sei quantos segundos levou para eu processar que estava quente, provavelmente milésimos de segundos. Eu sei que foi tempo suficiente para eu me levantar, ter um segundo de confusão, e largar o negocio. E é claro, foi o tempo suficiente para eu queimar a mão direita inteirinha.

Ai começou a saga das sugestões…coloca a mão na água gelada. Coloca pasta de dente. Coloca oleo. Coloca manteiga. Coloca óleo de lavanda. Eu coloquei picrato de butesin, uma pomada que sempre existiu na minha cozinha no brasil e que minha prima uma vez me surpreendeu muito por carregar com ela para uma viagem em Ubatuba e salvar algum queimado.

Coloquei a mão também na água gelada. Depois de muita meditação com o haiko achamos que faz sentido. Podemos estar errados, mas nossa dedução é que além de esfriar o local, também manda sinais para o cérebro de que o local esta frio e não quente. Assim numa tentativa de enganar o cérebro. Que eu imagino que pela evolução deve ter selecionado para criar dor numa situação dessas para evitar que você continue queimando o mesmo lugar. Ou machucando ainda mais uma área que esta frágil.

O pior na verdade é perceber quão difícil é de repente ter que fazer tudo com a mão esquerda. A maioria das coisas da para pedir para alguem ajudar, mas tem coisa que não dá. Escrever. Ou fazer um nó no cabelo. Ou amarrar e desamarrar a calca no banheiro publico. Coisinhas simples que dão de repente um trabalhão.

Eu no meu mode ” o que eu posso aprender com isso.” Na hora pensei ” aprender a ficar longe desse aparelho que uma vez me queimou a testa, e agora a mão :)”. Mas é claro, que não, não adianta culpar o externo. E eu mais uma vez aprendi a mesma coisa: o quão importante é estar presente nas coisas que fazemos. E é claro machucar um lugar, seja ele qual for, nos faz mais conscientes daquele lugar. Mais conscientes de como nosso corpo funciona como um organismo interligado e completo. Qualquer mudança afeta tudo ( Hoje meu músculo do ante-braco esquerdo esta dolorido :). E quão fascinante é ver como qualquer evento tem ramificações interessantes. Deixar minha mão na água gelada para enganar meu cérebro, sendo eu o meu cérebro, e tendo de certa forma o próprio cérebro encontrando uma solução dessas ( de se enganar) me faz pensar como nos somos seres muito, mas muuuuito interessantes.

VI

E ai eu cheguei no Brasil. Para fazer meu exame de ressonancia magnetica. Eu antes tinha pavor de ficar fechada la dentro. Desta vez meditei. Em total paz. Sentia a presenca do meu Yogi comigo o tempo todo. Eu estava completamente em paz. O exame demoraria uma semana para ficar pronto. E eu fiquei é claro um pouco ansiosa.

Ai chegou o dia de ir buscar. E eu peguei o exame para ir a consulta logo em seguida. Tudo que eu queria era que meu cerebro nao tivesse piorado. So isso. Tudo isso 🙂 Abri o exame sentada na padaria que ficava ao lado do consultorio do meu medico. Minha mae perguntou ” mas voce vai abrir o exame, ju??.” ” Claro mae. Ninguem tem mais direito a ver esse resultado do que eu. Ainda que eu nao entenda nada.” E eu abri. Sentada no balcao da padaria. Com um cha de menta a minha frente. E olhei para tudo que estava escrito que eu nao entendia. No conclusao lia-se ” Nao se apresentam novas alterações.” E eu comecei a chorar. Aliviada . Feliz. Emocionada. Profundamente grata. Lembro-me do garcom que me olhou preocupado. ” Eu to chorando porque eu to feliz.” eu disse a ele. ” Entao voce deve estar muito feliz.” E eu estava muito!.

Fui ao medico e quando ele colocou minhas ressonancias na luz para compara-las com as antigas.Vimos que nao só o meu cérebro nao tinha novas inflamacoes mas que das 3 inflamacoes que eu tinha 2 tinham sumido e uma cicatrizado. Eu nunca vou conseguir colocar aqui em palavras o que isso significou para mim. Para mim é claro teve um significado metafisico. Eu sentia dentro de mim que eu estava melhor. No entanto, ver materializado numa ressonancia magnetica, num exame medico, uma mudança organica. Isso nao tem como explicar.

Então eu mudei. Eu hoje não levo nada mais tão a sério. E é claro que eu hoje continuo errando. No entanto, tenho uma enorme vontade de acertar. Nao acertar a resposta de uma pergunta, ou arrumar o emprego certo. Acertar o comportamento certo que nos faz viver melhor. Acertar em escolher o caminho certo, o do coracao e nao o do ego. Ainda que muitas vezes eu siga o ego. Hoje eu quero transformacao, trocar com outro de maneira profunda. E eu tenho encontrado pessoas incriveis pelo caminho que eu tenho podido ajudar, assim como fui ajudada. Com outras tem sido mais dificil pois elas se sentem ameacadas por toda essa busca de liberdade.

De qualquer maneira naquele minuto de catarse eu me senti profundamente grata. A todos os catolicos, judeus, espiritas, ortodoxos, pagaos, muçulmanos, hindus, budistas, yogis que rezaram, meditaram, fizeram buscas metafisicas em meu nome. Grata aos humanistas, agnosticos, ateus que tiveram pensamentos positivos. Grata aos medicos, enfermeiras, atendentes. Profundamente grata a 3 pessoas em especial. SS Karmapa que me tocou de maneira indescritivel na India. Grata a Cecilia que com a Euritimia me abriu para outras visoes. E é claro, enormemente grata ao Raphael, Yogi, que foi o anjo que caiu na minha vida logo no primeiro dia. Alem de ser um grande amigo, um grande confidente, é a quem eu sempre vou atribuir o começo dessa mudança. E finalmente: a mim. Naquele segundo, o mundo parou. O mundo dentro de mim. E eu senti um indescritivel amor, e orgulho de mim.

V

Depois de todo esse acordar eu comecei a sentir um milhao de sentimentos dentro de mim. Meio como se eu tivesse saido do coma e de repente sido jogada no meio de New Delhi. Todos os meus sentidos se acordaram. Todos. E eu queria sentir com todos o tempo todo. E eu exagerei. Fui procurar a verdade em tudo. Meu marido me apoiou o tempo todo. Em tudo. Ainda que toda essa mudança tenha nos feito quase nos separarmos diversas vezes. Por mais dificil que fosse para ele, e para mim, nos sabiamos que do jeito que era antes, nao era possivel. Eu queria me descobrir e para isso tinha que me libertar. É dificil nao virar uma total hedonista no meio a tudo isso, mas tudo bem porque a vida é uma busca.

No meio a todo esse tumulto resolvemos ir para India. Ja tinhamos a passagem, mas como eu tinha passado um mes na Romenia, tinhamos desistido de ir. Haiko, exausto do Phd, e eu nessa busca frenetica, resolvemos que talvez melhor do que sermos coerentes ( e nao gastar mais dinheiro) que talvez fosse melhor irmos juntos a India. E fomos, juntos ao pais da grande espiritualidade ver oque encontravamos.

Encontramos de tudo. O caos de Delhi. Todos os nossos sentidos. O desespero. O momento de enorme interiorizacao. Fomos a capital da Yoga, onde eu nao fiz yoga, e passei mais tempo vivendo o ar da india. Olhando as cores. Sentada a beira do ganges. Desesperada com as buzinas. Conheci Prateek, um brhamane, que me organizou um ritual de purificacao. Conheci Natalie de quem tanto falei. Encontrei o significado da minha grande paixao pelas viagens. Nao como fuga, como um milhao de pessoas teima em achar, mas como encontro. Encontro comigo. Isso que eu sou que nao tem muito a ver com o que o outro ve em mim. Encontro com o outro. Isso que vc é que não tem a ver com o que os seus amigos, familia, amores acham que voce é. Encontro com as outras mil linguagens que consituem a nossa existencia na terra.

E aí encontrei o budismo. Em McLeod. Fizemos aulas de meditacao com SS Dalai Lama. Que apesar de mega pop é uma figura tocante de presença marcante. E o budismo é o caminho do meio. Talvez nao o meu caminho do meio, mas um caminho que começou a me ajudar a encontrar o meu caminho. Esse que eu ainda estou buscando.

IV

Voltei para Londres. E fui para minha Yoga. Entre na minha aula que dura normalmente umas 3 horas. E pela primeira vez fui capaz de fechar os olhos o tempo todo. Fechei-os. E ali eu senti que pela primeira vez na minha vida, depois de 8 anos eu fazia Yoga. O resto tinha sido ginastica. E não me leve a mal, eu gosto de qualquer Yoga.

Comecei a ter pesadelos diários. Antes eu era tao controladora, que nunca dormia sem fazer uma analise mental das coisas que tinham me feito ma durante o dia para não sonhar com elas. Meu Yogi disse que os pesadelos eram bons, era meu corpo que estava liberando o que tinha para ser liberado, estava entrando num processo de cura. Então deixei que os pesadelos viessem. O estranho ( havia sempre um estranho de quem eu sentia pavor, fugia dele etc) do meu pesadelo, foi ficando cada vez mais conhecido, e apesar de eu ter medo dele, num certo dia tocamos piano junto como cúmplices. Eu eu reconhecia pela música. Fui aos poucos baixando a guarda.

Ai eu fui parar num acampamento de Yoga. Do qual também já falei aqui. Lá a segunda e mais profunda mudança ( sendo a primeira a do hospital) aconteceu. Ao abandonar o habito de ficar analisando tudo e finalmente me envolver em umas da atividades senti uma explosão dentro de mim. De olhos fechados dancei. Sentindo a musica no meu corpo como eu não sentia ha anos. Cada pulso. Cada nota. Sentia as pessoas a minha volta dançando. E sentia o ritmo cíclico que deve ser o ritmo do mundo. De olhos fechados senti tudo que eu sou vir a tona. A mulher, a criança, a musicista, a dançarina, a incongruente, a paixão, o amor, o desejo, a alegria. Todos vieram vindo, e eu pudia enxergar cada uma. Sufocada, meio desminlinguida, enfraquecida, tentando respirar. E um pequeno pedacinho do que eu também sou, a racional, não deixando. Para mim, esse sempre será a explicação simbólica da minha doença.

E eu sei que a maioria das pessoas comprometem muito do que são sem adoecer, eu sei que varias pessoas tem pensamentos distintos, para mim no entanto aquele momento de enorme liberação fica como uma das coisas mais importantes que aconteceu na minha vida. A descoberta pelo amor de tudo que eu sou. A certeza de que pelo menos eu não posso abandonar-me.

E é claro que uma mudança dessas tira tudo fora do lugar. Tudo que antes estava encaixado de uma certa maneira passa a não ser mais possível. Com a força de quem quer se curar, eu fui procurar tudo. De maneira, eu reconheço, as vezes exagerada. Tudo que eu não tinha sentido eu resolvi que queria sentir. E essa época com todos os seus exageros também foi importante para eu ir me encontrando.

A Despedida do Henrique

Hoje eu quero fazer uma pausa na estoria do meu ultimo ano, para falar da minha ultima noite. Ontem, eu fui a despedida de um amigo querido. Uma dessas pessoas que modifica o mundo a sua volta. Que causa conflitos, intrigas, conversas, polemicas, e por isso mesmo não parte sorrateiramente. Eu nem o encontrei tantas vezes na minha estadia em Londres. Nossas conversas foram na maioria das vezes politicas. Nos dois sempre lutando por um ideal de justica. Os programas que fizemos juntos foram sempre os que a maioria das pessoas achariam chatos.

Ontem na despedida dele eu chorei. Não choro soluçado de desespero, mas lagrimas que transbordam de ver o tempo passar. Um choro leve. Comovido de ver o mundo mudando. E o mundo muda o tempo todo é claro, alguns eventos, no entanto, tornam isso mais evidente. Olhar para o nosso fórum de discussões e não ter visto ultimamente as opiniões do Henrique bem escritas e formuladas já antecipava o que seria Londres sem o Henrique. Uma Londres menos completa. Ainda que o Henrique não faça parte do meu dia a dia.

E ontem enquanto eu olhava dezenas de pessoas que foram se despedir dele, eu não pude deixar de pensar na vida de todos nos viajantes. Imigrantes. Perdidos no mundo. Como é difícil esse processo de viver dizendo adeus. Como é difícil esse processo de recomeçar em tudo que é lugar. Se tornar em relação ao outro e ter que partir, ou vê-lo/a partir. Lembrei de quando minhas flatmates Leila ( marroquina) e Joss ( americana) saíram de casa e eu fiquei para trás em NY. Era o mesmo sentimento. Sentimento de final de era. A vida como vivíamos não existia mais.

Eu sempre fugi desses sentimentos. Desses rituais. Não fui a formaturas. Não liguei para casamentos. Mudei de países enquanto meus amigos se formavam. Não que eu não pudesse explicar as funções de um ritual, mas talvez achasse que por entende-los eu estava alem deles. Ontem, no entanto, olhando o Henrique partir, olhando ele se despedir comovido das pessoas que foram a vida dele aqui eu soube como eram importantes esses rituais. Importante para todos nos. E eu me permiti chorar. Pois dizer adeus não é fácil. Nem para quem fica, nem para quem vai. O bonito talvez esteja nisso mesmo. Que não seja. Se saissimos incólumes de países onde moramos anos, sem nenhum pingo de sofrimento é que seria estranho.
E finais de eras são começo de novos tempos. Lutar contra isso é uma grande perda de tempo. Fingir que não sofremos com essas mudanças também é tolice. A importância do ritual é exatamente essa: de marcar. Marcar essa transição, que não é fácil, que não é insignificante. Marcar simbolicamente.

Ontem ficou marcado. Num boliche lotado de amigos do Henrique ficou claro quantas pessoas ele tocou enquanto esteve por aqui. De diversas maneiras. Quantas pessoas o transformaram por suas idéias, suas presenças, por seus comportamentos. Em graus diferentes é claro. E eu confesso que pensei em não ir. Não gosto de despedidas. É mais fácil quando uma pessoa parte sem percebemos, ou melhor quando achamos que não percebemos. Quer dizer parece mais fácil. Mas eu fui e hoje quando acordei eu pensei na Joss e na Leila. Devíamos ter feito uma festa! Uma festa de despedida. Pois uma festa de despedida não celebra a partida e sim o nosso encontro com outro.

III

Eu é claro mudei a cor da calcinha, os livros que eu lia. Tentei parar minha mente a cada pensamento critico. No fundo, eu estava sempre com medo. Sempre sem saber o que estava acontecendo com meu cérebro. Meu cabelo caia. Eu tentava eliminar qualquer pensamento que pudesse ser negativo. Comecei a ir as aulas de Yoga. Elas eram distintas. Falavam de Tantra. Falavam de Deus. Meus olhos reviravam. Eu achava que aquelas interpretações eram sócio-construídas. Odiava ouvir a palavra Deus numa aula de Yoga. Eu estava com medo. Tinha que ir la. Aos poucos, fui parando, parando, parando.

Em fevereiro, depois de passar o mês viajando, liguei para minha mãe. Estava conversando com ela, quando de repente, perdi minha fala. Nao perdi o discurso mental. So não fui capaz de articular. Foi travando. Travando. E eu fiquei nervosa. E soube imediatamente ” É meu cérebro! Eu não posso mais fingir que nada está acontecendo.” Meus pais, mandaram me para o aeroporto imediatamente, e 4 horas depois eu ja estava voando. Na manha seguinte internada.”

De fato eu estava com uma anomalia. Não se sabia o que era. A minha perda de fala era uma crise parcial epilética. Façamos então todos os exames. Assim que eu entrei no hospital perdi o medo. Façamos então. Não adianta ficar evitando. Meu Yogi me ligou e disse o que ele já tinha dito antes, que achava que meu sistema imunológico estava lutando contra meu cérebro. Parecia sintomas de Esclerose Múltipla. As explicações dele eram é claro esotéricas.

Fiquei 11 dias internada. Depois de tudo que é tipo de exame, meu neurologista, um homem da ciência, contou me que eu tinha inflamações. Perda de mielina. Como isso acontece ? Era o meu sistema imunológico que lutava contra mim. Por que? Não havia respostas medicas muito claras. Se isso se repetisse seria uma doença cronica, eslcerose multipla, se nao, teria sido uma versão aguda, também sem muita explicação.

Eu nao quero dizer aqui, que eu acho que os médicos não sabem o que dizem. Nem que eles não tenham me ajudado muito. Nem encorajar alguem a não ir no medico. Cada caso é um caso. Aqui eu só posso dizer do meu caso. Do que significou para mim ouvir o medico me dizer que o meu sistema imunológico estava lutando contra o meu cérebro. Para mim, foi como olhar as pinturas da minha amiga marroquina. Foi como se o evento em si transcendesse tudo. Não me importava qual era a explicação cientifica, o fato de não existir uma explicação muito concreta. Para mim foi o momento que dentro de mim aconteceu um clic. Um clic de responsabilidade.

“Meu deus, como é que o meu corpo luta contra o meu corpo? O que é que está errado.” E não precisou de quase nenhum segundo para eu perceber quão infeliz eu era. Não que ninguém me fizesse infeliz. Não que houvesse alguma tragédia na minha vida. Simplesmente, observei com eu tinha abandonado aos poucos o sentir. Como eu tinha amputado tudo que eu sou, meio por acaso. Como eu não ria. Como eu não tocava. Como eu não fazia nada. Como eu na verdade acordava todos os dias sem um propósito. Como eu estava esperando os dias passarem. E pronto.

Para mim foi um momento de mudança, pois eu decidi dentro de mim que não importava o que custasse que eu iria me buscar. Buscar o que era me sentir viva. Com o corpo todo. Que eu não ia abandonar o meu cérebro, mas usa-lo ao meu favor e não para criticismo a toa. Ali no Hospital eu comecei a mudar.

II

Naquela noite, tive um choque na mão. NãO sabia o que era. Eu estava dormindo. Isto aconteceu um dia antes de eu voltar para Londres. Já em Londres fui ao medico que me pediu para ir ao Hospital. Fui. Depois da tomografia, uma senhora com cara de pesar, me pediu para dormir no hospital. Havia uma anomalia no meu cérebro. “Uma o que? Como assim? Onde. Eu sei tanto sobre o cérebro?!?!?!? Meu marido é neuro-cientista. Como assim??? Como assim??” Sem respostas. Fiquei. No dia seguinte, eu devia fazer a Ressonância Magnética. Fiz. A “anomalia” se confirmava. Eu teria agora que fazer uns outros exames. Uma punção lombar. Ou seja, retirar um liquido da minha espinha. Não. Eu não queria. Não queria fazer de jeito nenhum. Entendam eu não estava com medo de morrer, de ter tumor. Eu estava com medo do exame! E portanto, resolvi que ia embora. O medico desesperado me explicando que era importante, eu fazendo perguntas e mais perguntas. Eles poucas respostas.

E eu pensei dentro de mim ” O que é que eu posso fazer.” Dentro das minhas possibilidades eu só via uma. Eu queria ir embora do Hospital e ignorar tudo! O que eu podia fazer. Onde eu podia encontrar essa saída?? De repente ficou claro, como ateia militante o meu único caminho era abandonar meu ateísmo. O único jeito que podia abandonar o caminho cientifico era substitui-lo por outro. No entanto, é importante perceber, que eu não o fiz porque eu estivesse de repente sentindo algo dentro de mim. Eu o fiz para fugir do meu medo. E como eu descobriria mais tarde: isso não da certo.

Sai do Hospital. E liguei para um único amigo meu espiritualizado. Ele, por coincidência ou sincronicidade, depois de 7 meses sem vir a Londres estava vindo para o encontro do Ashram da Yoga que ele frequentava. Perguntou-me se eu queria ir. Não hesitei. Cheguei e em pouco tempo o “líder” da casa veio falar comigo. Tivemos uma conversa de 3 horas. Onde ele só de me olhar me resumiu. Disse que eu tinha que mudar, que eu estava me sabotando. Falou de coisas que eu achava pouco cientificas. Debateu as comigo. Discutimos. E eu estava tão disposta a aceitar qualquer coisa que disse a ele ” Diga-me o que fazer.” Ao que ele respondeu ” Vá fazer o exame. O que esta manifestado no orgânico precisa ser lidado no orgânico. Para as causas estruturais volte aqui. Comece a fazer Yoga. ” Eu já fazia Yoga ha anos. Não entendia como isso poderia possivelmente mudar alguma coisa. Disse a ele, que não voltaria ao medico. E ele foi categórico. ” Julieta, Não adianta você mudar tudo a sua volta. A mudança tem que ser interna. Enfrente os seus medos.”

I

Como a Charo me deixou uma mensagem muito delicada, perguntando se eu tinha estado doente, resolvi responder em forma de post. Não é exatamente que eu tenha evitado fazer isso, mas é que durante todo o processo do que aconteceu eu fui escrevendo e tinha a impressão que fosse claro. Vou escrever por partes. Pois o que aconteceu, que alias hoje eu considero uma benção, nao pode ser contado assim em uma frase. Bom quer dizer, pelo menos não por mim 🙂 Então, lá vai. Eu vou começar de quando começou para mim. Que é claro, no simbólico.

Há um pouco mais de um ano atras eu fui para o Marrocos. Viagem que eu esperava ha anos. Lugar de onde tenho amigos queridos. Pessoas que de diversas maneiras foram muito importantes para mim. So que quando eu fui para o Marrocos eu já não era a mesma pessoa que tinha sido quando tinha conhecido esses amigos. Eles me conheciam carregando um violão, eu cheguei la achando que arte era uma perda de tempo. Que tudo que não fosse politico, que não fosse justo, que no fosse preocupado com resolver a desigualdade do mundo não tinha valor. Não sei direito como fui parar nisso, mas foi entre abandonar musica, me perder na antropologia e enveredar na politica internacional. Cheguei la, vivendo no meu cérebro. So no meu cérebro.

Deparei-me com minha amiga, pintora, linda, que veio me buscar de tomara que caia no aeroporto. Fiz analises sobre como as classes baixas e altas nunca seguem as regras da sociedade. Observei os rituais. Tive conversas intelectuais, e me senti muito bem com isso. E eu fiquei la no Marrocos 35 dias. 20 deles sozinha. Participei do Ramada, peguei trem, camelo, andei a pé, charrete, carro, e tudo que é meio de transporte. Quando depois de ter estado em muitos lugares voltei para casa da minha amiga. Vi seus quadros. Levou uns 20 dias para eu VE-LOS.

Eram corpos que se soltavam das telas. E eu tendo viajado naquela sociedade. Sentido a coerção e coesão social. A contenção, a tensão. A aflição. O nervosismo. Quando eu voltei e olhei para os quadros eu senti uma coisa arrebatadora dentro de mim. Aquelas imagens transcendiam tudo. Transcendiam o politico, o real, o concreto. Aqueles quadros não precisavam de palavras ou analise para ir no amago. Eu olhei. Olhei. Olhei sentindo me arrebatada por dentro. Pequena. Tola. Sem palavras. E talvez tenha sido ai, que tudo começou.

Das Idas E Vindas

Um mês no Brasil. Em algumas horas volto para Londres. Mais uma estadia que se encerra. E com meus amigos que partem da casa, com as risadas que ficam, com os abraços apertados fica um pedaço meu. Difícil. Difícil voltar para Londres. Era para eu já estar acostumada, com todas essas idas e vindas, e eu sei que assim que chegar em Londres e encontrar todos aqueles que fazem parte de mim lá, tudo volta a fazer sentido. Agora não. Agora eu sinto a vontade de ficar aqui. De falar com minha prima com quem não falei o suficiente, de trocar mais palavras com o amigo silencioso, de abraçar mais o que saiu cedo, de ouvir mais estorias de todos. Agora que eles todos partiram de mais uma festa de despedida minha, mais uma das muitas festas de despedida nesses últimos 8 anos, fica um vácuo. O vácuo de quem queria mante-los todos aqui. De quem queria ficar.

Essa temporada foi profunda. Eu estive no médico, e pude ver toda aquela mudança que eu já sentia no meu corpo materializada ali na minha ressonância magnética. Todo aquele ano que vocês que aqui estiveram bem conhecem produziu em mim uma recuperação espantosa. E eu que já a sentia, já a intuía, ao vê-la num exame médico chorei. Em celebração a vida dancei. Dancei a noite toda. Busquei resolver estórias mal resolvidas. Viajei, encontrei com um amigo querido que há tempos não via. Fui a praia, subi arvore, cachoeira, fiz yoga, karaoke, nadei, toquei violão, cantei. Fui ao samba no Rio. Encantei-me com a musica, com o musico, com os que cantavam, encantei-me comigo. Com quem sou. Com o que voltei a ser.

Então eu sento aqui, nessa madrugada tendo fechado a porta para os últimos convidados. E no anseio de manter tudo isso comigo escrevo. São tantas essas pessoas que amo, que chega a ser espantoso.Como são belas… Não quero partir. Já não entendo como é que vivo sem elas? Mas eu sei que é tolice, e claro que eu não vivo sem elas. Elas são sempre parte de mim. Agora eu só sei disso mentalmente, meu corpo mesmo ainda não se lembrou. Mas logo logo ele se lembra. Ele lembra quando eu encontrar as pessoas que eu amo no outro lado do Atlântico. Mas agora não precisa, agora ainda não.

"Anjos da Guarda"

Semana, que vem estou indo para o Brasil, e portanto, acho que vou ficar sem atualizar o blog por pelo menos um mês. Eu na verdade, não tenho muito o que contar ultimamente. Fato esse decorrente de eu estar passando muito tempo na LSE. Estava eu aqui pensando que eu queria escrever alguma coisa e o fato de não ter muito o que contar por causa da universidade me fez lembrar de uma estória muito bonita, que eu venho adiando há muito tempo. Talvez por um certo medo de não fazer justiça a estoria original. Essa estória, é a estória de como eu comecei a estudar antropologia.

Quando eu fui para NY estudar, eu tinha de fato ido para estudar cinema. Não que isso fosse uma idéia muito profunda, e pensada, foi meio por acaso. Diga se de passagem que quanto mais eu converso com as pessoas mais eu vejo como nossas escolhas por uma área são muitas vezes por acaso, por ter empatia por algum professor, pela idéia daquela profissão, as vezes até pelo lugar físico ( conheci uma menina que foi estudar na FAU pois quando era adolescente tinha visto um menino pichando o muro da FAU e achado lindo. Naquele minuto decidiu “é aqui que quero estudar!”). O engraçado é que essas escolhas lá atrás acabam definindo muito do que somos, muitas vezes sem nem percebermos. Eu vejo isso claramente hoje em dia, na minha aula de antropologia do aprendizado e da cognição. É simplesmente incrível, colocar os antropólogos, psicólogos, filósofos e neurocientistas e ate uma bióloga juntos numa classe. Nos entramos la, com os preconceitos da nossa área, com perguntas distintas, com interesses completamente diversos, e muitas vezes super passionais. E é difícil de se abrir de verdade para uma nova visão. Aliás até o fato de ter ido a uma universidade ( no meu caso nos EUA) e estar agora na Inglaterra muda tudo. Mas já divago.

O fato, é que eu tinha ganhado uma bolsa, e tinha que escolher uma área de estudo. Quando eu cheguei em NY, mandaram me falar com um “advisor”, e como o sistema de ensino é completamente distinto ( os alunos tem que pegar aulas de diversas áreas independente do major- área de especialização) ele me aconselhou a pegar aulas de inglês, teoria da música ( para satisfazer créditos de arte), cinema, e astronomia ( créditos de ciência). Bom, sai de lá, e liguei para meus pais para contar sobre o meu primeiro dia. Quando desliguei, um professor que estava ao meu lado, se dirigiu a mim, dizendo que era brasileiro, e que dava aulas de antropologia. Convidou-me então a ir assistir a uma aula dele. Perguntei sobre o que era a aula, e ele me respondeu que era sobre os Nambikwara, e outra populações indígenas da América do sul. Lembro-me de ter agradecido, dito que tentaria ir, mas pensando. ” Nossa, de jeito nenhum. Não tenho interesse nisso.”

Como a vida da voltas, acabei mudando de idéia e resolvendo ir assistir a tal aula de antropologia.

O professor, começou a aula por contar sua estória. Tinha estudado música e antropologia. E quando foi fazer seu trabalho de campo, resolveu ir estudar a tribo como musicólogo. Passou um ano com os Nambikwara e quando achou que já sabia tudo que tinha para saber sobre a música para os Nambikwara partiu para escrever sua tese. Assim que voltou a sua universidade (americana se não me engano) resolveu que queria voltar a morar com os Nambikwara, afinal, agora que ele já falava a língua poderia estudar outros aspectos da tribo mais profundamente. Queria estudar religião.

Voltou e passou um bom tempo observando. E num dia, quando finalmente sentiu que era capaz de falar o suficiente para fazer uma pergunta elaborada. Foi até o Xamã para perguntar se eles tinham esta palavra. Este conceito. Lembro-me que ele disse que levou meia hora para fazer a pergunta, explicou que religião vinha de religere, religare.. do latim.. conectar-se. Explicou sobre as religiões no ocidente. Enfim, levou um tempão, e no final da pergunta, disse ” e vocês, tem essa palavra religião?” ao que o Xamã, sem hesitar respondeu ” Claro: Música!”

Eu me lembro de estar sentada na minha mesa. Prestando enorme atenção na estória. E de repente sentir-me completamente nocauteada. Eu nunca tinha sido religiosa, mas se existia um momento que eu me sentia em outro mundo, ou conectada com algo além, era tocando, compondo. Naquele minuto eu soube que eu queria ficar. Eu queria aprender sobre outras culturas. Eu queria aprender sobre esse dialogo entre populações que tece a nossa humanidade. Eu queria conectar-me com o outro. Aprender as outras mil linguagens que explicam a existência.

Ironicamente, eu acho que é muito fácil perder esse verdadeiro interesse pelo outro na universidade. Vira meio que aquela visão do “analisador” X “analisado”. Explicações muitas vezes funcionais das outras linguagens. Isso no entanto não vem ao caso para esse post. Meu professor e querido amigo Marcelo Fortaleza Flores foi responsável por despertar em mim o interesse pelo o outro. Que eu já tinha é claro, mas um interesse num outro plano. Anos mais tarde, ele foi responsável por me fazer voltar a música. Essas pessoas que aparecem assim nas nossas vidas, meio por acaso, acabam de fato transformando quem somos. E o engraçado é que as vezes são pessoas que nos levam para bem longe do que somos, mas tenho cá para mim, que os mais transformadores, e as melhores e mais profundas transformações ocorrem quando encontramos pessoas que nos trazem para dentro, mostrando o que já intuímos (sem nem saber) numa outra linguagem.