A Despedida do Henrique

Hoje eu quero fazer uma pausa na estoria do meu ultimo ano, para falar da minha ultima noite. Ontem, eu fui a despedida de um amigo querido. Uma dessas pessoas que modifica o mundo a sua volta. Que causa conflitos, intrigas, conversas, polemicas, e por isso mesmo não parte sorrateiramente. Eu nem o encontrei tantas vezes na minha estadia em Londres. Nossas conversas foram na maioria das vezes politicas. Nos dois sempre lutando por um ideal de justica. Os programas que fizemos juntos foram sempre os que a maioria das pessoas achariam chatos.

Ontem na despedida dele eu chorei. Não choro soluçado de desespero, mas lagrimas que transbordam de ver o tempo passar. Um choro leve. Comovido de ver o mundo mudando. E o mundo muda o tempo todo é claro, alguns eventos, no entanto, tornam isso mais evidente. Olhar para o nosso fórum de discussões e não ter visto ultimamente as opiniões do Henrique bem escritas e formuladas já antecipava o que seria Londres sem o Henrique. Uma Londres menos completa. Ainda que o Henrique não faça parte do meu dia a dia.

E ontem enquanto eu olhava dezenas de pessoas que foram se despedir dele, eu não pude deixar de pensar na vida de todos nos viajantes. Imigrantes. Perdidos no mundo. Como é difícil esse processo de viver dizendo adeus. Como é difícil esse processo de recomeçar em tudo que é lugar. Se tornar em relação ao outro e ter que partir, ou vê-lo/a partir. Lembrei de quando minhas flatmates Leila ( marroquina) e Joss ( americana) saíram de casa e eu fiquei para trás em NY. Era o mesmo sentimento. Sentimento de final de era. A vida como vivíamos não existia mais.

Eu sempre fugi desses sentimentos. Desses rituais. Não fui a formaturas. Não liguei para casamentos. Mudei de países enquanto meus amigos se formavam. Não que eu não pudesse explicar as funções de um ritual, mas talvez achasse que por entende-los eu estava alem deles. Ontem, no entanto, olhando o Henrique partir, olhando ele se despedir comovido das pessoas que foram a vida dele aqui eu soube como eram importantes esses rituais. Importante para todos nos. E eu me permiti chorar. Pois dizer adeus não é fácil. Nem para quem fica, nem para quem vai. O bonito talvez esteja nisso mesmo. Que não seja. Se saissimos incólumes de países onde moramos anos, sem nenhum pingo de sofrimento é que seria estranho.
E finais de eras são começo de novos tempos. Lutar contra isso é uma grande perda de tempo. Fingir que não sofremos com essas mudanças também é tolice. A importância do ritual é exatamente essa: de marcar. Marcar essa transição, que não é fácil, que não é insignificante. Marcar simbolicamente.

Ontem ficou marcado. Num boliche lotado de amigos do Henrique ficou claro quantas pessoas ele tocou enquanto esteve por aqui. De diversas maneiras. Quantas pessoas o transformaram por suas idéias, suas presenças, por seus comportamentos. Em graus diferentes é claro. E eu confesso que pensei em não ir. Não gosto de despedidas. É mais fácil quando uma pessoa parte sem percebemos, ou melhor quando achamos que não percebemos. Quer dizer parece mais fácil. Mas eu fui e hoje quando acordei eu pensei na Joss e na Leila. Devíamos ter feito uma festa! Uma festa de despedida. Pois uma festa de despedida não celebra a partida e sim o nosso encontro com outro.

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