III

Eu é claro mudei a cor da calcinha, os livros que eu lia. Tentei parar minha mente a cada pensamento critico. No fundo, eu estava sempre com medo. Sempre sem saber o que estava acontecendo com meu cérebro. Meu cabelo caia. Eu tentava eliminar qualquer pensamento que pudesse ser negativo. Comecei a ir as aulas de Yoga. Elas eram distintas. Falavam de Tantra. Falavam de Deus. Meus olhos reviravam. Eu achava que aquelas interpretações eram sócio-construídas. Odiava ouvir a palavra Deus numa aula de Yoga. Eu estava com medo. Tinha que ir la. Aos poucos, fui parando, parando, parando.

Em fevereiro, depois de passar o mês viajando, liguei para minha mãe. Estava conversando com ela, quando de repente, perdi minha fala. Nao perdi o discurso mental. So não fui capaz de articular. Foi travando. Travando. E eu fiquei nervosa. E soube imediatamente ” É meu cérebro! Eu não posso mais fingir que nada está acontecendo.” Meus pais, mandaram me para o aeroporto imediatamente, e 4 horas depois eu ja estava voando. Na manha seguinte internada.”

De fato eu estava com uma anomalia. Não se sabia o que era. A minha perda de fala era uma crise parcial epilética. Façamos então todos os exames. Assim que eu entrei no hospital perdi o medo. Façamos então. Não adianta ficar evitando. Meu Yogi me ligou e disse o que ele já tinha dito antes, que achava que meu sistema imunológico estava lutando contra meu cérebro. Parecia sintomas de Esclerose Múltipla. As explicações dele eram é claro esotéricas.

Fiquei 11 dias internada. Depois de tudo que é tipo de exame, meu neurologista, um homem da ciência, contou me que eu tinha inflamações. Perda de mielina. Como isso acontece ? Era o meu sistema imunológico que lutava contra mim. Por que? Não havia respostas medicas muito claras. Se isso se repetisse seria uma doença cronica, eslcerose multipla, se nao, teria sido uma versão aguda, também sem muita explicação.

Eu nao quero dizer aqui, que eu acho que os médicos não sabem o que dizem. Nem que eles não tenham me ajudado muito. Nem encorajar alguem a não ir no medico. Cada caso é um caso. Aqui eu só posso dizer do meu caso. Do que significou para mim ouvir o medico me dizer que o meu sistema imunológico estava lutando contra o meu cérebro. Para mim, foi como olhar as pinturas da minha amiga marroquina. Foi como se o evento em si transcendesse tudo. Não me importava qual era a explicação cientifica, o fato de não existir uma explicação muito concreta. Para mim foi o momento que dentro de mim aconteceu um clic. Um clic de responsabilidade.

“Meu deus, como é que o meu corpo luta contra o meu corpo? O que é que está errado.” E não precisou de quase nenhum segundo para eu perceber quão infeliz eu era. Não que ninguém me fizesse infeliz. Não que houvesse alguma tragédia na minha vida. Simplesmente, observei com eu tinha abandonado aos poucos o sentir. Como eu tinha amputado tudo que eu sou, meio por acaso. Como eu não ria. Como eu não tocava. Como eu não fazia nada. Como eu na verdade acordava todos os dias sem um propósito. Como eu estava esperando os dias passarem. E pronto.

Para mim foi um momento de mudança, pois eu decidi dentro de mim que não importava o que custasse que eu iria me buscar. Buscar o que era me sentir viva. Com o corpo todo. Que eu não ia abandonar o meu cérebro, mas usa-lo ao meu favor e não para criticismo a toa. Ali no Hospital eu comecei a mudar.

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