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Sobre julietafalavina

Eu escrevo da minha vida, e agora sobre a minha recuperação da saúde .

No "Meu" Café

Estou no meu café Português. Acho que ainda nao falei dele. O café português. O “meu “ café português é um lugar perto da minha casa. Quando eu estava estudando para minha última prova um dia esqueci meu Oyster card (cartão do metro e onibus aqui em Londres) e com preguiça de voltar em casa entrei nesse café. Ele é feio por fora, como é sem graça por dentro. Ele nao tem internet nem nada de aparentemente especial. Aparentemente é claro porque para mim ele é magico. Eu entrei, sentei, pedi um um café e meio sem graca tirei uns artigos da bolsa para ler. Nao tive coragem de tirar meu computador. Porque meu café é assim um lugar meio austero. Pedi um café, e eu que nunca bebo café senti meu coracao disparar. E entao comecei a ler. E assim que comecei a ler, comecei a me emocionar com tudo que eu nao tinha lido durante o semestre. Tudo foi se juntando na minha cabeca de maneira pouco ortodoxa e eu voltei para casa e escrevi um paper. Mandei ao meu supervisor num estado de euforia porque as minhas conexoes e “claims” eram completamente minhas. Um pouco insegura mas querendo saber o que ele pensava mandei. Ele me escreveu dizendo que o paper era brilhante em letras capitais. Se vc reproduzir esse tipo de trabalho na prova, disse ele, vc não terá problemas. E então, nesse dia, o café português virou o “meu” café.

Aos poucos fui ficando cada vez mais a vontade. Tirando mais artigos, livros, este computador. Lendo em meio a barulheira, as conversas que pouco me interessam, aos barulhos de pratos, xícaras, maquina de café. Ao bonito som da língua portuguesa na boca de angolanos, portugueses, cabo-verdianos. Aos sons de outras línguas misturadas no ar fosco e pouco interessante do meu café. Para poder fazer doutorado, apesar de ja aceita eu ainda tenho que ter mérito no meu mestrado. Fiz minha prova, meio preocupada. E confesso que sai direto de la para uma palestra onde encontrei minha ex-supervisora ( e futura de doutorado) sem saber muito bem como tinha ido na prova.” Jules, I am sure you did well” Disse ela. Eu , no entanto, nao estava tao sure. Eu misturei neurociencia, com antropologia e filosofia, e mais uma variedade de pensamentos que as vezes so fazem sentido na minha cabeca. Como se eles viessem de areas totalmente distintas e se sintetizassem no processo da escrita. Como aqui alias. Então, a minha professora podia odiar, ou amar, ou mais ou menos. Sei la. No fim, foi uma estória de final feliz, porque eu tive distinção. Para a minha total supresa.

E eis que agora eu preciso terminar minha dissertacao ate dia 1 de setembro. E eu que tinha tudo claramente decidido em minha mente ha meses resolvo assim de ultima hora, faltando menos de um mês mudar de tópico, de artigos, de estória. Andando assim, na biblioteca. Meio ao léu peguei um livro na prateleira e ao abri-lo, meus olhos encheram de lágrimas. Um livro escrito por uma Palestina e um Israelense. “Coffin on our shoulders: The experience of Palestinian Citizens of Israel.”

O livro é escrito pelo Dan Rabinowitz, antropólogo formado em Cambridge, e professor em Tel Aviv, e pela Khwala Abu Baker, Palestina professora no Emek Yezreel College. O livro mistura a conseqüência do sionismo para a família dela e dele, com a Historia de Israel. Como sionismo salvou a sua família, causou “excruciating” dor para a dela.

Ali, naquele principio eu soube que eu queria escrever sobre isso. Não só já é muito relacionado ao meu doutorado, mas eu queria ler mais. E eu li. E comecei a ler sobre os nossos processos de categorização. A nossa tendência cognitiva de classificar o mundo a nossa volta. A tendência que temos de “essencializar” ( buscar essências em coisas). Resolvi que eu queria falar sobre “ethnicity” de um ponto de vista cognitivo. Ou seja, em vez de tartar raças como fixas, substanciais, como experiências subjetivas informadas pela nossa “natural” tendencia a essencializar, categorizar, identificar grupos no mundo.

Entao voltei ao meu pequeno café portugues. Onde tudo faz sentido sem fazer sentido nenhum. Como é que eu posso conseguir me concentrar aqui e nao na minha casa, e nao na biblioteca ? Aqui as idéias fluem,se misturam mas acima de tudo me emocionam. E fica muito facil eu aceitar tudo que eu sou… antropologa, cognitive, apaixonada por musica, yogi, gostando de de meditação, tomando café, etc etc etc.

Recebi um email muito muito tocante de uma professora de NY. Um email em resposta ao meu de agradecimento a ela por me acordar, e me inspirar na luta por justica. No email, ela diz

“ Tem gente que acha que a situacao ( Palestina-Israel) eh complexa. Eu nao sou uma dessas pessoas. Eu acredito em justiça. Por isso acho que nos temos que confrontar racismo todas vezes e onde o encontramos”

As palavras são fortes. Como sempre foram. E enquanto eu aqui no meu pequeno café leio sobre a nossa natural tendência de classificar, de gostar de grupos eu nao posso deixar de pensar que se vamos construir um mundo mais justo, e onde vivemos TODOS melhor, precisamos comecar em nos mesmos com as nossas proprias tendências. Eu ja disse mil vezes que nao sou nacionalista. Hoje eu sou ainda menos . Pois fica cada vez mais claro para mim nesse café cheio de gente de lugares distintos, falando línguas difererentes que precisamos tornar estranho o que nos é familiar. Só assim, nesse diário esforço contínuo de lutar contra nossa tendencia cognitiva de classifcar o mundo em grupos vamos conseguir um mundo mais justo, de mais empatia com o outro. Um mundo onde não tenhamos a necessidade de nos sentirmos parte de um grupo e portanto distinto de um outro. Um mundo, onde orgulho nao seja ligado a ser parte de algo que esta inteiramente fora do nosso controle.

Sempre que eu digo isso, alguns amigos me dizem “ Juleita, você é brasileira!” ( quase que ofendidos por eu me considerar humana).” Olha a sua música”. É verdade, eu toco , e sinto a música brasileira onde eu nao sinto outras. Eu sou mais fluente em português do que em todas a outras línguas que eu falo juntas. Eu acho um milhão de manifestações culturais que acontecem no territorio “imaginado” Brasil lindas. Mas eu tambem sou tocada por muito que vem de outros territórios imaginados. Acima, de tudo, ter passado tempo voluntariando num vilarejo onde eu era a unica “farang” ( em Tailandes “goiaba” termo que eles usam para brancos de fora:), nao sabendo a língua me iluminou muito para isso. A nossa fundamental humanidade. O comunicar nos gestos, nos olhos, no riso. Claro, que eu não nego as diferenças de cultura. Eu só acho, no entanto, que somos humanos. Temos essa tendencia a classificar o mundo em categorias porque isso torna mais facil cognitivamente viver. Numa categoria há muita coisa inferida. E apesar de reconhecer que categorizar é parte da nossa cognição natural,que por isso mesmo precisamos em vez de tornar categorias sociais mais fortes no nosso discurso ( nos sentirmos brasileiros, ou budistas, ou torcedores do flamengo) precisamos praticar nos “estranharmos” dessas categorias. Assim como filósofos, ou viajantes. Nesse saudavel estranhamento fica mais fácil de lembrarmos que no fundo nos e o Tuareg, o Nambikwara, o Piracicabano, o Russo, o muçulmano, o ateu, o evangélico, o !Kung que nunca sequer encontramos somos no fundo muito, muito, muito parecidos.

Videos No Youtube

Ontem coloquei vários vídeos de músicas minhas no Youtube. Fazia muito, muito tempo que alguns amigos meus me pediam para fazer isso. Eu sempre meio insegura, mas ontem passei o dia tocando violao, um violao que nao é meu, aqui na casa da minha amiga Dri e gravamos vários videos no jardim!!! Esse primeiro é de uma música que acabei de fazer. O resto ta AQUI
Espero que vocês gostem!

Promises

Minha querida amiga Gabi que faz quase um ano foi trabalhar em Bangalore na India me deixou uma mensagem no ultimo post falando do filme Promises. Na hora que eu li eu me lembrei na hora do tempo em que eu morava em NY, e da minha housemate marroquina Leila. Lembro dela voltando desse filme completamente emocionada. Leila, fotografa e sociologa, não é manteiga derretida como eu que choro até em propaganda de margarina. Leila tem um coração tamanho do mundo, mas por fora ela é durona.

Quando meu Landlord Iraniano Mr.Tala entrava na casa sem bater, eu servia cha, Joss, minha housemate americana, se escondia debaixo da cama. Leila, na unica vez que estava em casa quando isso aconteceu andou sem hesitar em direcao ao Mr. Tala e disse: ” Mr. Tala you have not been invited to come to this place so you must leave!.” Mr. Tala é um senhor Iraniano e um verdadeiro misterio para mim. Ja tinha feito, ou pelo menos dizia ter feito de tudo na vida. Normalmente, tudo variava de acordo com o interlocutor. Comigo me contava de suas experiências no Brasil, para Leila falava do Marrocos, com meu amigo tenista falava de quando tinha sido campeao de tennis. ENfim, a lista era tao extensa que eu comecei a anota-la. Esse dia, Leila severamente disse ao Mr Tala:

” Mr. Tala if you want to come here you call first! If no one picks up you do not come! If one of us picks up you wait to be invited, if you are not invited you do not come! If you are invited you drive all the way here then you ring the bell, if no one answers you turn around and you go home! If one of us comes downstairs, opens the door, you wait to be invited inside, if you are not invited you do not come! You turn around and you leave! Only once you are invited you are allowed to come in! Do You understand?!”

Eu e Joss, estavamos tão quietas quanto as criancas de 6 anos na escola onde eu voluntariava ao ouvir a gritaria da professora. Mr. Tala diante da explicacao passo a passo da Leila disse apenas: ” Leila, what is your father’s email?” Leila, ficou meio que perdida. E perguntou ao Mr. Tala o porque da pergunta. Ele deu uns tapinhas carinhosos e fracos no rosto dela e disse no seu tom empolgado ” Because I must tell him what a very inteligent daughter he has!”

Esse era Mr. Tala, e essa era Leila. A mesma Leila que o defenderia com unhas e dentes quando Joss resolveu que deviamos press charges de harressment contra o Mr. Tala. Leila, perplexa disse ” But you can’t go from offering him tea to suing him without ever telling him you dont want him here!!!!”

Assim que quando a Leila voltou emocionada do filme eu soube que tinha que ve-lo. E de fato, quase tudo que eu tenho lido e vivido ultimamente vai me lembrando de promises.

Ontem, eu fiquei sabendo que ganhei dinheiro do departamento da LSE para fazer meu doutorado. Quando contei ao filho do Adam que estava pensando em ir a Israel agora em Setembro ele me disse:

“Jules, where are you going?

Contei a ele o nome das cidades que eu pretendia visitar (que sao as cidades onde ficam as escolas). E ele ontem, veio me dizer que eu tinha que ir para Nazareth na escola dele.

_ Mas vc se lembra que a escola que eu vou tem Arabes e Judeus.

Eu ja estava esperando que ele dissesse de novo que isso era uma pessima ideia.

_ Na minha escola tambem tem arabes. Tem um arabe na minha classe!

Fiquei surpresa!

_ Really, but I hear you don’t like him.

_ He is ok. He is nice. It is only sometimes that he get angry very fast. I get angry very fast too.

Eu fiquei em choque.

_ Really? How come?

_ I guess after all we are not that different!

Se tudo isso é vontade dele de me convencer a ir a escola dele eu nao sei. No entanto, eu fiquei feliz.

Hand In Hand

Acho que nao contei aqui que me inscrevi para fazer doutorado na LSE. Como quase tudo na minha vida foi meio por acaso. Eu escrevi um paper e meu supervisor disse que seria um bom projeto, esse projeto virou um outro projeto, eu fui meditar para descobrir se queria mesmo fazer doutorado, nao descobri e uns dias antes de me inscrever para receber dinheiro do departamento minha supervisora Rita Astuti, me disse que achava que eu nao estava motivada para esse projeto. Era verdade. Ela sentou comigo e disse “let’s think together”. Sugeriu que eu voltasse para casa e lesse mais que talvez mudasse meu projeto de trabalhar com ortodoxos judeus, para budistas. Voltei, li, li, li e por acaso cai no site de um grupo de escolas em Israel chamado Hand in Hand De acrodo com o site “each school is co-directed by Arab and Jewish co-Principals; and each classroom is co-taught by Jewish and Arab teachers. Students at each grade level are balanced between Arab and Jewish children. Students at all grade levels are taught in both Hebrew and Arabic, learning to treasure their own culture and language while understanding the difference of others around them.”

Adorei a idéia de trabalhar com essas pessoas. Afinal de contas sao pessoas que estão fazendo uma escolha difícil no estado de Israel de mandar seus filhos sejam eles árabes ou judeus para uma escola de ideologia tao alternativa porque acreditam que so no encontro e respeito desses dois grupos pode haver paz. Antropólogos sao muito críticos sobre escolas. Escolas sao veículos pelos quais estados constroem cidadãos, onde ha o desvalorizamento de cultura local ( como no caso de populações tribais que sao forcadas a irem a escola), ha um milhão de estudo de como educação reinforça divisões de classe, poder etc. Essa escola, portanto, ja é interessante por isso, já que ela eh “anti-establishment”. Ela busca uma compreensão entre esses dois grupos que durante tanto tempo estiveram em conflito. Eu nao pretendo aqui entrar nas mil outra complicadas nuances ( por exemplo a difícil distinção Árabe X Judeu, os diferentes Judeus etc). Para o meu post basta dizer que essa escola tenta trazer esses grupos que se consideram distintos numa mesma escola, sendo ensinado em Arabe e Hebraico por duas professoras ao mesmo tempo.

O meu interesse é vasto tanto antropológico, como cognitivo. Interessa-me muito como as crianças “essentialize” essas categorias sociais. E como joint action ( acao conjunta) influencia no processo de “othering”. Mas eu nao vou chatea-los com esses detalhes. Tudo isso é para dizer que provavelmente eu devo comecar meu doutorado no semestre que vem, e em um ano ir fazer trabalho de campo em Israel.

Por isso, quando o Adam meu flatmate anunciou que seu filho de 9 anos que é Israelense viria para Londres, fiquei curiosa em saber como ele concebia dessas categorias. Ele é timido e no comeco mal falou comigo. Depois de jogarmos dias de futebol, eu aprender a tocar uma musica que ele gosta no violao, fazermos yoga, acrobacias, jogos da copa do mundo ele virou meu amigo. Assim que ontem, nao queria ir comer fora a nao ser que eu fosse junto. Fui, e no meio do jantar o Adam, contou a ele que talvez eu fosse a Israel trabalhar numa escola.

Seu filho me olhou, e disse ” como que vc vai fazer se vc nao fala hebraico?!?!” Eu respondi que eu iria aprender. QUe eu queria aprender Arabe tbm porque a escola onde eu ia trabalhar era metade Judia metade Arabe. Ele ficou mudo. Parou um segundo e disse ” Jules, change the school. that is not a good idea! Os Arabes sao todos maus!”. Perguntei a ele como ele sabia disso. Ele explicou que todo mundo sabe. Eu perguntei se ele conhecia todos os arabes do mundo, ele concordou que nao, e eu disse entao que era impossivel para ele saber se eles eram todos maus! Lembrem-se essa conversa era com uma criança por isso eu estava tentando faze-lo pensar, tentando descobrir como ele pensa, nao tentando ataca-lo.

“I jsut know.”

Adam comecou a explicar que ha pessoas boas e más na inglaterra, no brasil, no africa do sul, na franca, na Italia, em Israel… enfim no mundo todo. ( eu queria ate questionar o maniqueismo mas diante de uma crianca de 9 achei melhor follow through com a divisao bom e mau). Seu filho nao convencido disse ” Isso é verdade para o mundo todo menos para os Arabes e os Alemães!”

Expliquei para ele que a guerra tinha sido ha muito tempo. Que os alemaes sao boas pessoas. Ele deixou isso passar mas disse ” But no the Arabs! Eles sao todos maus!!!” Ele olhava para mim perplexo como se eu e o Adam tivessemos fazendo uma piada. Como se estivessemos dizendo algo do tipo ” se vc soltar o prato no ar ele nao cai no chao!”

Perguntei a ele entao se ele nao gostava de NENHUM arabe! Ele concordou que nao gostava! Entao eu disse: ” E seu eu te contasse que eu sou Arabe?”

_Jules, I know you are not! You are Brazilian!

_Well, I am Arab Brazilian, porque minha mae eh do LIbano”. disse séria apesar de nao ser verdade.

Ele pensou, pensou, pensou e disse ” Nao voce entao nao eh Arabe”

_ Claro que eu sou! Voce nao eh Judeu porque sua mae é Judia? EU sou Arabe pq minha mae eh Arabe.

Ele ficou em silencio um tempao pensando ai virou para mim e disse:

” Well, As mulheres Arabes sao boas pessoas, sao so os homens que sao maus.”

Eu comecei a rir..porque o reasoning foi mais ou menos assim: ” 1. Os arabes sao maus, 2. Eu gosto dela!…… entao ou ela nao pode ser arabe ou eu preciso adequar o meu pensamento! E ele o fez.

De um lado me fez perceber o quao fora de discussao esta a ideologia. O quao forte ela eh numa crianca de 9 anos que tem um pai Ingles. Do outro, me deu um certo otimismo de imaginar que sem duvida nenhuma se vamos conseguir jamais alguma diferença em processos de minizar os efeitos de ver o oturo como inimigo isso tem que ser feito nao na ideologia mas no encontro dessas pessoas. Na acao conjunta. No brincar. It is a long shot e eu sei que há muitas pessoas que nao querem que isso aconteça. Isso coupled com a tendencia do nosso cerebro de classificar em grupos dos quais pertencmeos ou nao. Mas eu sou otimista, e tbm acredito na nossa natureza social, e altruista. Por isso espero que sim, que essa escola consiga fazer essas criancas que se concebem tao distintamente a andarem hand in hand.

Da Impermanencia

Estou em Paris com meus pais. Uma viagem de ultima hora depois de terminar minhas provas, decidir mudar de projeto de doutorado no ultimo minuto, e de ter finalmente um certo sossego na minha “impermanente” casa. Quando eu voltei do meu retiro de meditação, a palavra “anitya” (que significa impermanência em Pali ou Sanscrito) nao me saia nunca da cabeça. Até hoje quando ela soa em minha mente, soa na voz do Goenka. E ela vem tambem com o cheiro de calma e da sensações da meditação.

A impermanência é o ápice da questão. Como tudo é impermanente nos apegarmos leva ao sofrimento. Como quase tudo, quando dito assim em termos vagos, em alguns momentos parece fazer todo o sentido, e noutros sentido nenhum. De um lado, logicamente faz todo o sentido que apegar-se leve ao sofrimento, por outro, acho que pouca gente deve conseguir conceber de uma vida totalmente “desapegada”.

Nos momentos de “certa revolta” quanto a inevitabilidade do sofrimento, confesso, que penso bem “pequenamente”. Um pensamento tipo assim. “E dai que tudo eh impermanente! Prefiro viver e me apegar e sofrer do que não ter sentimentos!!!!” E ai eu invoco tudo que eu sei de filosofia, antropologia, biologia, para me justificar intelectualmente, que essas ideologias budistas não fazem sentido. No ápice do meu dialogo interno eu concluo sempre “Nao fomos selecionados para isso!” Se o homo sapiens, ou qualquer um de seus ancestrais fosse consciente de tudo o tempo todo, e equânime nao teria sobrevivido. Nos somos inconscientes de muito que nos acontece porque é mais facil assim. Afinal ja pensou se tivéssemos que manter controle da nossa respiração, circulação, temperatura corporal, digestão etc… ? E assim eu me satisfaço, lembrando me que eu não sou budista, que eu compreendo “racionalmente” porque neurologicamente meditação funciona, e concluo que quebrar o padrão mental la no fundo na verdade eu nao quero. Mas essas explicações não são mais permanentes do que as opostas, do que as que compreende meditação em seus termos mais filosóficos e experienciais.

Enquanto eu estava no retiro, muitas vezes eu ouvi Goenka falar de Anitya, (impermanência). E todas as vezes eu pensei na impermanência abstrata. Talvez seja porque eu ainda não tenha perdido ninguém muito próximo de mim. Ninguem da minha família, nem dos meus amigos. As minhas impermanências são dessas que se projetam como possibilidades de mudança. A Sabrina minha querida amiga esta em Boston mas nos nos falamos frequentemente, a Mounia teve bebe no Marrocos mas eu posso acompanhar suas noticias pelo skype e no e-mail. A minha família esta no Brasil mas eu sempre volto para la, ainda que “o la” não seja nunca o mesmo, e o tempo que vai passando fica cada vez mais assustador.

Pela primeira vez no entanto, a impermanência se fez solida há algumas semanas. Quando a crise na Tailândia começou, eu que aprendi um pouquinho sobre a politica local, soube imediatamente que a crise nao se resolveria tao facilmente, pq nao eh possível antever uma solução que satisfaça os dois grupos a longo prazo. Comecei a escrever a todas as pessoas que la conheci. Quem acompanha meu blog, e meus emails da Asia sabe que eu considero a minha segunda casa da Asia Nong Khai, uma pequena cidade na fronteira da Tailandia com o Laos. La na Mut Mee guesthouse passei incontáveis dias e noites. Nos meus 3,5 meses na Asia voltei para a pequena cidade 4 vezes. Sempre ansiosa para tomar cafe da manha nas mesas comunais, e passar as noites no Gaia, o barco no rio Mekong.

Fiquei muito amiga do dono da Mut Mee e do Gaia, o Julian, um inglês casado com uma Tailandesa e pai de dois filhos adolescentes. Julian que é físico, filho de mãe Inglesa com pai Palestino é daquelas pessoas que é adorada por todos. Um pai afetuoso e exemplar que leu todos os livros do H.Potter em voz alta!!! Com Julian, seus filhos, mulher, seus empregados, amigos, seus hospedes passei momentos preciosos no Gaia e na Mut Mee. Como ja disse aqui antes, muitas noites acordei ansiosa imaginando que nunca mais estaria sentada nas almofadas do Gaia olhando o Mekong passar. Esse meu desespero de meio de noite era sempre desespero relacionado a mim. O medo era de eu não poder voltar lá.

Quando os incidentes aconteceram eu escrevi ao Julian para saber como eles estavam. As noticias eram sóbrias. O turismo é claro tinha caído, e o Gaia tava fechando, nao estava se mantendo. Julian, num email que não parecia ser escrito pelo homem radiante que eu conheci cogitava ter que voltar depois de uns 20 anos na Asia para a Inglaterra!!! Eu li a mensagem varias, varias, e varias vezes. E aquela impermanência foi arrebatadora. Aquele desespero que eu senti tantas noites era mais real do que nunca. E o mais assustador é que ele não me pertencia. Nao era eu quem nao poderia voltar la. Não seria eu que nao seria capaz de chegar a beira do Mekong. Era o Gaia que nao mais existiria. E é claro que eu percebi que eu queria voltar no tempo, nao no Gaia. Eu queria voltar no tempo: nas noites de chuva torrencial com jacas caindo do lado de fora do meu quarto, voltar ao calor escaldante e me sentir exausta sem saber o que fazer, voltar ao funeral budista onde eu quase desmaiando tentei subir as escadas para colocar a ultima flor antes do corpo ser queimado, queria voltar a jogar banco imobiliário com as regras todas inventadas pelas crianças, queria voltar a fazer massagem na Aoh.. E nessa impermanência tao solida, na possivel desaparição do Gaia da beira do Mekong a impermanencia ficou mais experiencial. Pela primeira vez eu compreendi um pouco mais o que deve ser ser refugiado. O que é partir de um lugar que não existe mais, o que é ser a ultima pessoa de uma tribo a carregar os segredos de uma cultura. E realmente não há como não ficar desorientado com toda essa impermanência.

Eu nao tenho uma solução… são só ponderações de alguém que vive no impermanente “declarado” o tempo todo (fator comum entre imigrantes e viajantes). Talvez o segredo seja combinar a noção de que tudo que existe hoje faz parte dessa linha ininterrupta do primeiro homo sapiens a tudo que temos hoje, com uma tentativa de ser mais consciente do presente. Mesmo porque o presente é consequência direta desse passado. E no fim, nesse misturado o tempo parece não existir.

Budrus

Meu grande e querido amigo, cineasta Fellipe Gamarano Barbosa, de quem ja falei aqui, ha mais ou menos quatro meses me encaminhou um email da sua amiga Ronit Avni (fundadora da Just Vision), falando do seu ultimo filme Budrus. Budrus o email explicava estaria em cartaz aqui em Londres no Human Rights Wactch International Film Festival. Percebi pelo e-mail que o filme tbm era projeto da Julia Bacha, amiga do Felipe de NY a quem ele tinha me apresentado brevemente enquanto eu morava la. Na época, a Julia ainda estava na faculdade mas algum tempo mais tarde eu leria seu nome nos creditos de Control Room, um documentatario incrivel sobre como a midia cobria a guerra do Iraque.

Na epoca lembro de pensar no brilhante livro do Edward Said. Covering Islam: How the Media and the Experts Determine How We See the Rest of the World que como Orientalismo fala de como o Ocidente cria a imagem do Oriente. Nesse livro em particular, Said fala de como a Midia literalmente cobre , no sentido de colocar uma coberta, esconder, a situacao real. O livro que foi escrito se nao me engano no comeco dos anos 80, falava da entao revolucao de 79 no Ira. Eu morando em NY desde a queda das torrres, assistindo diariamente como aos poucos ia sendo construido o argumento que legitimasse uma invasao primeiro ao Afeganistao e depois ao Iraque, senti um frio na espinho lendo o livro. O mesmo frio que eu senti assistindo filme da Julia.

Portanto quando vi que ela fazia parte da producao de Budrus soube na hora que eu queria ver o filme. Um sentimento forte, mas ainda nao “sensorial” “corporal”. Apertei o link do email que me levava a pagina do documentario e assim que comecou o trailer meus olhos encheram de lagrimas. Assim que o filme terminou eu comprei meus ingressos pela internet mais de um mes antes do festival. Mandei um email coletivo a todos meus amigos que eu achei que se interessariam. “Ju mas esse filme vai passar em mais de um mes”. De fato, mas eu ja sabia que eu precisava ve-lo.

E entao, chegou o dia, e la fomos nos. A esta altura o filme ja tinha ganhado o premio do Juri no Festival de Berlim e de la para ca, ganhou premios me Madrid, Tribeca, Sao Francisco,. Levou o De Niro, Michal Moore, a Rainha da JOrdania to name a few a seus “screenings”.

O filme é absolutamente “breathtaking!”. Logo na chegada percbei que o filme estava sold out. Entramos assim que a porta abriu e pude observar a sala se enchendo de ingleses, de judeus, de muculmanos, de viajantes do mundo como eu. E o filme comecou. Comecou com os Israelenses vindo arrancar as oliveiras para construir o muro ilegal que deixaria muitos vilarejos completamente fechados, sem acesso ao resto das suas terras. Assisti uma senhora vindo defender sua oliveiras. Uma arvore, eh uma vida. Arvores que tem centenas de anos, que vem sido cuidadas pelas mesmas familias, o simbolismo da violencia é dilacerante. Ali comecei a chorar e nao parei de chorar no filme um minuto se quer. No comeco de choque, tristeza, depois de raiva da injustica. Mas o meu choro mudou durante o filme para um overflowing de emocao, de comocao com forca de grassroot movements, com o poder da solidariedade que passa por baixo de linguas, culturas, nacionalidades, credos.

O filme, conta a estoria de um protesto pacifico que teve sucesso. Um protesto que uniu palestinos e israelenses judeus e a comunidade internacional. Que uniu ate os soldados que depois de servir o servico obrigatorio passavam para o outro lado, protestando juntos contra a construcao do muro naquel local. O filme que em si é a colaboracao da filmagem de todos essas pessoas durantes 6 anos. Julia, estava la para responder as perguntas da plateia. Ayed o personagem principal, o lider palestino, que tinha estado em Berlim teve sua entrada barrada na Inglaterra. Julia, nos deu muito mais informacoes, e num momento absolutamente emocionante, um israelense, que como eu, estava emocionadissimo, agradeceu a Julia pelo filme. Disse que nao tinha ideia de nada disso, disse que mostraria o filme a todas as pessoas que conhecia.

O filme é um dos projetos da organizacao Just Vison. A organizacao fundada pela Ronit Avni e da qual Julia faz parte. Uma organizacao que tenta combater o que o Said há um tempão tentou nos alertar. A Just Vision tenta trazer ao publico instancias onde os dois lado do conflito, as pessoas tentam buscar solucoes pacificas. Tentam se encontrar. Enquanto a midia foca em politicos e terroristas, a Just Vision conta a estoria de solidariedade entre humanos.

Anger depois de Vipassana

Estou aqui no meu quarto, na minha cama, sentada, lendo e lendo, e lendo pois minha ultima prova é nessa segunda quando de repente, alguem bate na porta, e um homem abre a porta.

Quem é voce? Eu pergunto. O homem responde que eh o agente e que quer mostrar o quarto para umas pessoas que vao mudar aqui para essa casa em setembro.

Bom, tenho que voltar na estória, lembra quando eu tinha postado que o teto tinha caido? Pois é. Logo no segundo dia depois de eu voltar de Vipassana. Estava aqui estudando, quando um senhor entra, sobe, e vem me dizer para nao pagar mais aluguel para a Ms. Afolabe. Apesar de reconhece-lo do primeiro dia, quando ele tinha feito xixi no chao, pergunto a ele quem ele é. Mr. Olu Ado, explica, dono da casa. Mr.Olu Ado mora na Nigeria, esteve numa disputa legal pela casa com o irmao, e tendo retomado a posse tinha demitido a minha landlady pois achava que a casa estava muito mal cuidada. Eu nao poderia discordar disso. Ele tao pouco gostava da Sam Alexander, a agencia picareta que nos alugou o quarto. Pedi para ver papeis, e perguntei a ele o que aconteceria. O homem era bem velho, bem tradicional. Ponderei se ele nao seria algum lider tribal. Abriu a pasta deixando que tudo caisse no chao. Mostrou me varios papeis, e para provar sua identidade assinou um papel. Um outro advogado viria: Mr. AdE, que eu jamais confiasse em nada que nao tivesse seu nome.

Assim que o senhor foi embora liguei para Ms.Afolabe que ficou perplexa. No seu estilo normal barraqueira comecou a gritar ” Como eh que eu poderia acreditar numa pessoa que aparecesse assim….? Expliquei a ela que para comecar tinha sido ela mesma que tinha me apresentado ao senhor Olu Ado como dono da casa. Descomposta passou o telefone para outro senhor. Eu sob efeito de meditacao disse em voz para la de calma: ” Desde que eu mudei para essa casa eu fui enganada, ludibriada, engambelada, nada funciona, e para completar o senhor que me foi apresentado como dono da casa aparece aqui e me diz que demitiu voces, uma vez que vcs eram ineficientes. Como eu nao posso discordar disso, estou ligando pq uma vez que meu contato é em nome da sr. Afolabe, e de acrodo com o dono ela foi demitida, eu queria o meu contrato de volta.

Ms. Afolabe desesperada disse que viria a casa trazendo papel provando que ela tinha sim o direito de alugar a casa. Aceitei e pedi copias. Enquanto ela nao vinha liguei a todos os departamentos que eu podia ligar. Liguei Citizen Advisery Bureau, registrei queixa na policia, falei com todos meus amigos advogados ( contratuais e nao), meus amigos engenheiros e arquitetos. Consultei o Landlord Tenant Agreement, o Housing Act. E acabei por fim tendo que aceitar que eu estavva presa ao meu contrato. Ela ter o direito ou nao, era problema do Sr. Olu Ado.

Entre esses mil telefonemas apareceu aqui o Gassan, o agente que eu imaginava ser o mais 171 do pedaço. Trazendo um potencial novo morador, na minha frente ele mentiu dizendo que a casa tinha varias coisas que nao tinha. Enquanto eu explicava para os novos moradores o pq eu os desencorajava de mudar para essa casa, Gassan no seu estilo sorrateiro desapareceu.

Fui ate seu carro e perguntei.
_Gassan quem eh o dono dessa casa?
-Ms. Afolabe.
_ Eu imagino que uma agencia tenha que ver os documentos da casa antes de aluga-la. Estou correta?
_ Sim
_ E voce os viu?
_ Sim
_E la estava escrito que a Ms. Afolabe é a dona da casa?
_ Sim
-Nossa Gassan, que estranho pq a Ms. Afolabe mesmo me disse que ela nao eh a dona. Que o dono eh o Olu Ado

No total cinismo, Gassan, riu, e propos que talvez ela tivesse dado a casa de presento para o senhor. Talvez ele fosse seu tio.
Diante de tal frase, dei meia volta, e voltei para casa.

Tudo isso aconteceu, e apesar de eu achar o cumulo isso tudo nao me afetou. Eu sentei e denuncei a agencia Sam Alexander em todos os reviews sites que eu encontrei. Ate criei um site contando das nosssas experiencias com eles.

Enfim, entre Ms. Afolabe aparecer, o um vazamento comecou, que levou ao teto de ums dos quartos cairem. O que levou a Ms. Afolabe a dizer ” Nao acredito, agora eu vou ter que chamar “a proper builder” em ref aos pessimos pedreiros poloneses que tinham feito essa reforma. Bom, os proper builders eram tao cinicos como o Gassan. Ms.Afolabe trouxe um paper da Nigeria onde o Mr.Olu Ado da plenos poderes a ela. No fim, ela explica que ela era advogada dele na causa contra o irmao, e que ele nunca pagou as fees entao ela ta tomando conta da casa. Para la de shady tudo isso, mas ja sabendo que eu esotu presa ao contrato dela nao digo nada. Paralelamente, Shane, o australiano contador, e eu tomamos para nos a tarefa de documentar todos os probelmas legais e de construcao com o intuito de ter informacao para quebrar o contrato.

Mas como Adam, que eh maniaco por limpeza, tomou para si o posto de organizar direito a casa resolvi dar mais tempo antes de chamar o Environmental Health. Ele organizou para que todo o entulho e lixo fosse coletado, para que a internet chegasse, para que a casa fosse pintada, ta planejando arrumar o jardim… E no final como eu gosto muito das pessoas que aqui moram, acabei me adaptando.

E eis que hoje eu estou aqui na minha cama, lendo, lendo, lendo, quando esse novo agente aparece com as tais pessoas que vao mudar em setembro. De um certo ponto de vista, isso deveria quase ser um alivio. No entanto, nao foi. Me levantei fui ate a porta e perguntei a ele quem era. Virei para os estudantes na faixa de 18 e expliquei eles deveriam verificar com quem estavam lidando afinal a casa estava totalmente alugada com contratos de um ano. O homem se revoltou e tentou me intimidar.

_ Eu tenho o direito de alugar essa casa.
_ E quem te deu esse direito?
_ Nao posso dizer, pois nao lido com voce!

Viro para os estudantes e comeco a enumerar todos os problemas legais .

_You stop talking to my people.

Fico perplexa!

_ O que? O senhor entra na minha casa, sobe ao terceiro andar, entra no meu quarto e quer me dizer com quem eu posso falar ou nao? Este é um pais livre democratico e eu falo com quem eu quiser. E eu nao vou stand here calada enquanto a mafia dessa agencias completamente nao confiaveis se aproveita das pessoas. O senhor eh capaz ou nao me dar documentos legais provando os direito que tem,

_ EU nao tenho que te responder nada, pq eu nao sou seu agente. Vc leu o seu contrato? Voce nem o conhece direito.

Nessa hora, eu realmente perco a paciencia

_ Meu senhor qual é o nome mesmo da sua agencia?
_ Eu nao tenho que te falar.
_ Meu senhor eu nao so conheco o meu contrato, como estive em contato com mais orgaos legais do que voce pode imaginar.
Eu os enumero. O homem vai ficando cada vez mais bravo. Continua insistindo que eh dono de uma agencia e que tem direito sobre a casa.

_ Qual o seu nome ? pergunto
_ Nao tenho que te falar. Eu tenho o direito de alugar essa casa a partir de setembro.

Eu entro na casa pego minha camera, aponto para ele e digo

-Vc se importa em repetir tudo isso que me disse para que fique documentado?

Ele vira a cara, visivelmente revoltado. Eu nessa altura estou completamente alterada. Nao visivelmente, mas a consciencia que eu tenho praticado em meditacao me faz sentir tudo intensificado. O sangue perccore mais rapido, minha respiracao eh mais curta, e rapida, sinto meu estomago receber jorradas quimicas, meu coracao bate mais rapido, me sinto tremendo um pouco de raiva. Ali naquele homem na minha frente eu vejo materializado todo o cinismo, e falcratruas de todas essas pessoas com quem tenho lidado. Todo o cinismo de todas as pessoas que usam e abusam dos outros para seus proprio proveito. Os estudantes, meio bobos, nao percebem a dimensao do problema. Perguntam so se a casa é boa. Nisso, chega Charlotte, namorada do Adam, que é policial. Delicada do jeito que é explica ao homem que temos um contrato. Ele quer partir. Sem duvida nao esperava dar de cara assim, comigo, embuida de sentimentos justiceiros.

Ligo a Ms. Afolabe, e ela explica que os tinha demitido faz tempo. Liga no viva voz para a agencia. Comunica a eles mais uma vez que eles nao tem direito de alugar a casa. “A informacao sera passada a diretoria”. Eu ligo depois para comunicar o incidente e dizer que nao quero mais que aparecam aqui. O homem, diz que tem o direito. Eu o confronto, com o fato que acabei de ouvir a Ms. Afolabe ligar para eles. Ele fica sem graca e diz ” well, we will see. We will talk to her, we will let you know”. Desligo e resolvo reportar na policia. Que fique registrado tudo isso. Ligo mais uma vez a agencia Victor Stone

Ja bem calma, digo em tom baixo e inalterado.

-Estou ligando pois hoje um incidente desagradavel aconteceu. Narro todo o incidente.” Antes que ele tenha chance de dizer de novo que vai avisar a diretoria eu adiciono. “Eu estou ligando para informa-los que eu registrei o ocorrido na policia. De acordo com minha landlady vcs nao tem o direito de aparecer aqui. Se resolverem aparecer “make sure” de trazer documentos que provem essa autorizacao, otherwise, eu vou chamar a policia.”

Digo isso calmamente, o homem, meio que ri e diz “ok”.

Sentindo ainda a ressaca quimica da raiva que eu senti sento aqui para narrar tudo isso esperando ter um insight. A certeza que eu tenho é que toda essa emocao é negativa. Em Vipassana, uma das coisas mencionadas é que vipassana nao faz uma pessoa menos ativa. Ser equanime nao é o mesmo que ser apatico, ou passivo. Ser equanime possibilita um a agir sem sentir que a batalha eh travada dentro. O grande segredo é provavelmente travar toda essa batalha la como no primeiro dia. A batalha pelo correto, mas sem que a batalha vire minha. Aparentemente Buda, diz que uma ofensa é como um presente, que vc pode ou nao aceitar. Mas como é dificil as vezes nao aceitar.

Pelo menos, a ressaca emocional depois de vipassana dura bem menos.

Paredes Porosas

Como eu passei por muitos departamentos na minha vida academica, posso dizer que tive uma educacao bem variada. No centro do meu interesse, no entanto, sempre esteve os seres humanos. Hoje em dia antropologia e cognicao estao mais no foco do que eu leio. A relacao esteoreotipica entre cognicao e antropologia me fascina. Enquanto, estereotipicamente psicologos cognitivos criticam antropologos dizendo que seus exemplos de variedade sao mais de conteudo do que estruturais, por outro lado eles nao propoe explicacoes tao claras de como é que tanta variedade em conteudo é criada de a partir “so called common evolved structures”. Se deixarmos a esfera estereotipica de lado, percebemos que o ponto crucial desse debate é enteder como estruturas e processos cognitivos se relacionam com conteudo. Em outras palavras, sera que variedade em conteudo implica em mudanca em estrutura, e se esse for o caso até que ponto?

Bom, eu nao pretendo aqui ficar escrevendo muito disso. Esse exemplo era so para dar uma ideia, em que geralmente eu perco horas lendo. Na verdade, eu ja passei muito tempo lendo sobre colonialismo, pos-colonialism, direitos humanos, filosofia. Alias, semana passada numa conversa com um amigo filosofo, ele explicou que conhecimento sempre tem que ser mais fraco que evidencia. Dissociou certezas, de conhecimento. Certezas sao coisas como ” a certeza que o mundo existe”, ou a certeza de que “somos um ser que comeca e termina” essas certeza sao é claro bem universais. EU pelo menos nao sei de ninguem, ou nenhuma tribo que acredite que o mundo nao exista do lado de fora. A nao ser de uma maneira filosofica, um questionamento desses que nao tem prova. Eu e meu amigo ponderamos sobre certezas religiosas, sem duvida elas nao podem ser tao fortes, afinal vemos conversoes, ha variedade, e eu passei dias pensando nisso… Como sera que aprendemos essas certezas, e quao fortes elas sao?

Antes disso eu passei muito e muito tempo estudando politica do oriente medio, e eu perdi a conta de quantos protestos eu ja estive para mostrar o meu apoio. Para dar voz aos sem voz. De alguma maneira, injustica sempre mexeu comigo. MInha avo, diz que desde crianca eu ja dizia chorando ” mas isso nao é justo”. Eu sempre me imaginei uma pessoa de mente aberta, que tenta entender o outro. Na verdade, no mundo de direitos humanos, e defesas dos injusticados, nos de certa forma aceitamos mais os direitos daqueles que condizem com os do nosso zeitgiest. Um zeitgeist individualista, onde a liberdade do individuo é vista como paramount value (um desenvolvimento diga-se de passagem muito moderno). Essas visoes, é claro, num mundo incrivelmente plural e globalizado ficam cada vez mais dificieis de invocar sem cair em frases vazias como “o meu direito termina onde o seu comeca” que no fundo, no fundo nao dizem quase nada. Afinal de contas as nossas concepcoes de direitos e espaco nesse mundo plural varia MUITO!

Esse post, eu ia escrever para falar do Adam, meu companheiro de casa ex-militar, e do Piero meu amigo que se converteu ao Isla. Mas minha cabeca é meio assim, vai ligando as coisas mais improvaveis, ou o que esta ao meu dispor, e nesse momento pq eu tenho lido muito para minha prova, eu acabo me referindo a ciencia social. Do trabalho de Max Weber na a etica protestante, e “ciencia como vocacao” saiu o conceito de “disenchantmente” desencatamento. Bom, confesso que como nunca estudei ciencia sociais em portugues nem os titulos nem os conceitos sei muito bem. Sera entao, como quase tudo que escrevo, uma livre traducao. A ideia basicamente consiste no seguinte. Como no prostestantismo calvinista as pessoas eram predestinadas a serem salvas, nada que fizessem durante essa vida faria muita diferenca. No entanto, para Weber, a ansiedade causada por essa incerteza fazia com que calvinistas trabalhassem muito, pois inversamente, viam os frutos de seu trabalho como sinal da predestinacao a “salvacao”. E como a etica protestante condenava confortos e luxo, todo o dinheiro ganho era re-investido no negocio. Essa etica (junto com outros fatores), para Weber, era a ideologia ideal para o “rise” do capitalismo como sistema. No entanto, com o “rise” do capitalismo a racionalizacao necessaria para produzir lucro etc, aos poucos tomaria lugar da ideologia que instaurou. Por isso para Weber, capitalismo, modernidade, levariam a racionalizacao, secularizacao, individualizacao : ao densencantamento do mundo. Bom, eu to simplificando bem, mas o que importa para meu post, é que para Weber, na modernidade religiao perderia seu lugar de poder social e o mundo ficaria desencantdo.

Essa teoria parcialmente empregada por teoristas modernos (Bruce, Huntington, Tibi) ainda preve que o mundo esta passando por esse processo de secularizacao. O enorme crescimento no Isla, Hinduismo, cristinanismo, movimentos New Age, para nomear alguns deixou muitos proponentes dessa teoria, é claro, perplexos. Na antropologia, esse probelma se traduziu numa linha de estudo sobre o re-encantamento do mundo. Robert Hefner, professor de Stanford, escreve muito sobre isso: sobre religiao e as multiplas modernidades. O que ele mostra revisitando o desenvolvimento do Isla, Hinduismo e Cristianimso, é que na realidade essas religioes nao perderam forca politica. Nos EUA, por exemplo, cristianismo por ter se mantido a margem no estado se manteve muito forte. Para Hefner, o crescimento do Isla se beneficiou muito da modernidade. Da objectificacao de conehcimento que foi permitida pelos “rise” dos estados, educacao superior, livros mais baratos. E para ele enquanto a modernidade de um lado fomenta a expansao do Isla, do outro fomenta tbm a sua interpretacao ( mais pessoas tem acesso, e o valor de interpretacao cresce). Em mundos tao globalizados, e plurais sobram 3 opcoes uma tentativa de dominar e colonizacao, manter-se “puro e excluido”, ou enfraquecer suas doutrinas. Afinal num mundo onde a presenca de diversas religioes é constante, as paredes que as divide se tornam mais porosas.

Eu de estranha maneira posso dizer que isso tem acontecido comigo. Durante a minha vida ultimamente tao academica eu fui muito protegida do outro tao outro para mim. E eis que agora eu estou morando com um ex-militar. Um ex-militar que esteva em 9 guerras ( Iraque, Iugoslavia, Rwanda, Belize, Afeganistao etc) e que adorou ter ido para guerra. Um ex-militar que vem me mostrar fotos que ele tirou nesses paises. Volta e meia eu digo algo provocativo “Quando vc assistiu Avatar ficou bravo que o homem trauiu o exercito” “Claro que nao Jules. I have a heart! The army was wrong!” E é claro que ainda que eu fosse passar horas dizendo que os ingleses tbm estavam wrong de estar no Iraque ele nao concordaria. “You know. I just do what I am told. I am not a politician” O negocio estranho é que no passado eu teria entendido isso como uma defesa psicologica, como o discurso criado para poder suportar o terrivel. Vivendo dia a dia com o Adam as paredes entre opressor e orpimido ficam bem mais porosas. De alguma maneira surreal ele se importa mais com as pessoas do que todos os meus amigos e eu que defendemos direitos humanos juntos. Assim com Alyosha ele se importa com induviduos, enquanto nos com a distante “humanidade” (Nos Irmaos Karamazov).

Anteontem, Adam, que é simples e do norte preparou um jantar para casa inteira. Fez meu prato especialmente vegetariano. Trouxe um por um. Nos explicou que isso era comida tradicionalmente inglesa. Eu fiquei tocada, toda aquela comida para todos nos. Depois explicou que queria nos levar a Scarborough, sua cidade natal. Até a maneira dele de me incentivar é totalmente o oposto do que eu esperaria …”All the Pubs are at least 400 years there… know you dont drink and all, but Scarborough is the most beautiful place in the world. It was on TV the other day!” Tem fotos do seu filho que é Israelense e chega em junho por todo o quarto. O filho tem 10 anos e quando eu perguntei o que ele achava dele “join the Israeli army” Adam, me explicou que “the Israeli Army is fantastic, not that he would say it is better than the British one, only if he had to. But my baby, my son, I want him to be in the marine, and just float.” Pergunto por que “Are you crazy too much life being lost there for nothing!”. Pergunto a a ele se ele iria para Gaza, ele diz que sim. “Entao porque voce nao quer que seu filho va????” “Jules he is my baby son, my baby, are you crazy!” Adam telefona para o filho todos os dias, vai a Israel 4 vezes por ano, e o traz nas ferias de verao para passar 3 meses com ele. Quando fala dele se emociona. Da ex-mulher, explica “que é uma mulher forte maravilhosa. We fell out of love, we are great friends though!” E ao poucos vai cativando a todos, na sua simplicidade, na sua humildade, na sua generosidade. Noutras vezes, no entanto, as paredes se tornam completamente visiveis, concretas, solidas. Ele traz um album de fotos, nele fotos dele no Iraque, Belize, etc Uma foto esta faltando, ele a descreve, é uma foto maravilhosa ele explica: “Eu no Iraque, o sol quente, o deserto, dois Iraquianos ajoelhados, eu apontando minha metralhadora para cabeca deles, e o vento batendo no meu lenço.”

Haiko fica sem palavras. E eu confesso que nao sei direito o que pensar. Assim como quando meu amigo Piero ( o que se converteu ao Isla), me escreveu ha algumas semanas dizendo que apesar de discordamos em poucos pontos somos muito parecidos. Manda essa mensagem junto com o link que explica que era dia da Fatimah, a mulher ideal de acordo com o Isla. Eu fico sem palvras porque no fundo eu nao entendo. Mas vai ver que o Hefner tem razao, nesse mundo tão plural so existe a opcao de total seclusao, de overpower, ou de enfraquecer um pouco das nossas ideologias, pois essas sao paredes sao porosas demais.

Vipassana II- Das Flores

“What a strange thing!
to be alive
beneath cherry blossoms.”
— Kobayashi Issa

Enquanto as milhoes de estorias borbulham dentro de mim, eu é claro não tenho tanto tempo como gostaria para escrever. Tenho que estudar para minha prova que será no 17 de maio. Não posso reclamar pois com meu horario regulado gracas ao retiro, e minha concentração bem mais aguda estudar tem sido mais prazeroso, mais fácil e muito menos overwhelming. Desde que voltei mandei um email a alguns amigos, aqueles em quem pensei durante o retiro. Aqueles que eu achei que de alguma maneira aproveitariam uma oportunidade como essa. E eis que recebi algumas respostas, algumas perguntas que me fizeram pensar mais a respeito da minha experiencia.

Como eu fiz em meu e-mail vou tentar livremente explicar mais ou menos como eu compreendi Vipassana. Basicamente nos 3 primeiros dias do retiro somos ensinados a sentar e prestar atencao na respiracao, só isso, mais nada. Apenas a respiracao sem vocalizacoes, ou mentalizacoes para que se aprenda a focar a mente, para que a mente fique aguda o suficiente para se poder praticar Vipassana.

Vipassana é baseada no seguinte: a ideia que sofrimento vem do padrao da nossa mente de nunca estar no presente. De sermos jogados do passado ao futuro por nossas emocoes e pensamentos o tempo todo. Sempre reagimos com aversao ao que nao gostamos e com apego ao que queremos e como tudo é impermanente sofremos. Mas tudo que existe no presente sao sensacoes. Por isso, Buda acreditava que se aprendessemos a nos tornar totalmente conscientes das nossas sensacoes e aprendessemos a ficar equanimes ( nao reagir com apego ou aversao a elas) quebrariamos profundamente o padrao de reacao da mente. Vipassana, portanto, treina voce a ficar consciente das sensacoes corporais ( calor, dor, formigamento, vibracoes etc) e a praticar equanimidade ( nao reagir, observar as sensacoes “como um cientista” objetivamente).

Entao, durante os ultimos 7 dias aprende-se a observar o corpo todo. Comecando pela cabeca, e pedacinho por pedacinho scaneando o corpo e observando as sensacoes até chegar as pontas dos dedos do pé. 3 vezes ao dia, faz se uma determinacao de sentar-se por uma hora sem se mexer observando o que é que se passe, o que é que se sinta com desapego, pois tudo é impermanente. Durante o retiro, observa silencio nobre. Silencio de fala, gestos, pensamento etc…

Eu tive é claro muitas duvidas filosofico cognitivas. Ficar em silencio foi facil. Uma vez la ha uma sensacao de enorme apoio, de enorme gratidao. Como nao se paga nada para ir quando vc chega, e conforme os dias passam, e observa-se como tudo é bem mantido, fica cada vez mais evidente que tudo aquilo so é possivel porque as pessoas que la estiveram antes de vc doaram dinheiro para que essa oportunidade tambem fosse dada a outras pessoas. Toda a deliciosa comida que se come é preparada por voluntarios que além de meditar acordam ainda mais cedo para cozinhar para vc.

Eu tive muita sorte com o tempo. Os dias estavam lindos. A primavera estava chegando e simbolicamente eu sentia a vida voltando. Confesso que nao reparei nas flores quando cheguei. Talvez tenha sido no terceiro dia quando eu ja estava realmente concentrada que reparei que as cerejeiras na frente do meu quarto estavam florescendo. Compreendi profundamente dessa vez Kurosawa num dos seus “Sonhos”. Entendi mais os japoneses que falam tanto da beleza das cerejeiras em flor. As festas (hanami) para ver as cerejeiras em flor(sakura) acontecem no Japao desde o seculo VII.

Há alguns preceitos que se observa quando se pratica Vipassana, e um deles é nao matar. Nos meus tres primeiros dias eu passei mal, tive diarreia, e muita dor de estomago, mas observando o silencio, e nao tendo muito o que fazer fiquei em silencio. Minha companheira de quarto que deve ter reparado minhas massagens no estomago, colocou ao lado da minha cama um pequeno vidrinho. Quando eu voltei ao quarto, sem olhar para ela, evitando qualquer comunicacao reparei a presenca de um vidrinho verde desconhecido no meu lado da mesinha. Fiquei surpresa, peguei o vidrinho e vi que era um remedio natural para dor de estomago.

É incrivel, como pequenos gestos como esses te tocam. Fazia 3 dias que eu estava em silencio e eu sabia que apesar do silencio estavamos ali uma no apoio da outra, e todos mutualmente se apoiando em silencio. Eu nao podia dizer obrigada, nao podia escrever obrigada, resolvi que em agradecimento colocaria uma flor no seu lado da mesa. Como eu não queria matar nada, inclusive uma flor, procurei uma flor que estivesse caida. Coloquei-a do lado da mesa que ficava perto a cama de Liz.

Os dias foram passando, e a cada dia eu olhava para as cerejeiras para ver como elas estavam naquele dia. Sentia-me tocada por meu retiro acompanhar o desabrochar das cerejeiras. No final dos 10 dias elas estavam completamente em flor. Eu finalmente entendi ali toda a literatura japonesa que eu ja tinha lido. Não é apenas que elas sejam lindas, mas é o processo que acontece todos os anos, um processo impermanente, onde nehum dia é igual ao outro, onde, as petalas voam, onde tudo se move em direcao a perfeicao, ao que pode parecer um momento fugaz de beleza, ao qual vc nao pode se apegar. Eu observei o processo, e entendi experiencialmente a beleza de uma cerejeira em flor. A breve, fugaz, impermanente beleza da cerejeira apesar de “breathtaking” não é o seu maior poder. O mais tocante é observar o processo diario. O mais poderoso talvez seja a permanencia do impermanente. Observar as cerejeiras desabrocharem, e saber que apesar da primavera ser todas as vezes diferente, ela é sempre primavera. Observar uma cerejeira em flor é observar a coexistencia do tempo cronologico e o ciclico.

No decimo dia, quando o silencio foi levantado Liz veio me dizer obrigada pela flor no seu lado da mesinha. Expliquei a ela que tinha pegado uma flor morta pois nao queria matar uma flor. Ela eh claro ja tinha compreendido isso no nosso silencio. E é claro que se eu tivesse colhido uma flor viva, ela teria sido morta no ato. No entanto, de alguma maneira ali a impermanencia da vida e da beleza da flor se mesclaram. A gratidao, no entanto, simbolizada na impermanencia do material se dissociou do material.

A Impermanencia do Teto

As vezes o tempo passa passa sem eu ter quase nada de muito interessante para contar. Agora eu estou dividida entre tres temas interessantes o meu retiro vipassana, o encontro privado depois da palestra do Tim Ingold ( um antropologo que pensa muito diferente dos cientistas cognitivos) e a casa caotica para onde me mudei. Quem acompanha meu blog desde o comeco, ou melhor do comeco do outro blog deve lembrar que eu tinha um landlord para la de especial: o Mr. Tala. O Mr. Tala apesar de meio picareta era boa pessoa, suas artemanhas eram primarias, e ele tinha até um certo charme. Agora a situação é realmente outra, e se eu nao tivesse tao sossegada por causa do meu retiro talvez estivesse mais afetada mas porque a vida vai assim de maneira leve, e o homem é adaptável eu já estou achando a situacao até engraçada.

Desde que eu cheguei em Londres, sempre tive a sorte de morar em lugares bons e com pessoas que eu gosto. Faz 3 anos e pouco que estamos aqui, e dois dias antes de eu ir para o meu retiro mudamos pela primeira vez para a maior furada de todos os tempos. Como a grant do doutorado do Haiko terminou ja faz um meses, sem ele ter terminado o doutorado tivemos que mudar para um lugar mais barato. Escolhemos um lugar que estava sendo renovado e que fica em Camden. As fotos lindas, quando eu vim visitar a casa a noite, percebi que o lado de fora tava meio acabadao, mas o moco da agencia garantiu que tudo seria renovado. Note, garantiu mas nao escreveu no contrato, como alias ele nao escreveu mais um monte de coisas. Assim, que quando chegamos com a van de mudanca, um dia lindo, calor, e chegamos na nossa linda rua demos de cara com a casa caindo aos pedacos. Literalmente. Todas as casas a volta lindas, a nossa cheia de entulho na frente, rachaduras nas paredes, plantas crescendo de dentro do telhado. A casa da familia Adams. Eu entrei na casa e dentro ainda todos os materiais de construcao, e mais todos os pedreiros continuavam no mesmo lugar. Me deu uma vontade de chorar, o moco da agencia queria que mudassemos ha duas semanas! A casa estava literalmente em reforma. Com dois meses de aluguel ja pagos nao dava para ir embora. O moco da van ofereceu deixar as nossas coisas na van enquanto decidiamos o que fazer. Haiko ligava desesperadamente para a agencia,que obviamente ja nao mais atendia. Enquanto eu alarmada pensava o que fazer, comeco a ouvir uma gritaria, ao mesmo tempo um senhor negro de terno escuro, meio perdido entra na casa me pergunta onde eh o banheiro. Eu digo que nao sei, alias tambem nao sei quem ele é, ele entra no banheiro so de chuveiro onde nao ha privada e faz xixi no chao.

Completamente em choque, eu saio para ver o que esta acontecendo. Entao, vejo uma mulher bem barrqueira na frente da casa. Uma senhora polida inglesa, pergunta a ela com firmeza “quando eh que a senhora vai limpar esse quintal?” A mulher grita, e berra, e diz que ela esta “in charge” e que nao ve nada de errado. Quando ela diz que esta in charge Haiko vai falar com ela. E eu, me sentindo totalmente envergonhada, peco desculpas a minha futura vizinha pela grosseria da minha nova landlady. A senhora, me diz para nao pedir desculpas, me convida para tomar um cha percebendo que eu estava abalada. Eu aceito um copo d’agua, entro na sua Linda casa, e ela me conta que morou no brasil primeiro no rio, e depois casou se com um diplomata ingles e mudou-se para Brasilia. Converso um pouco com ela, mas tenho que voltar para saber o que esta acontecendo no meu barraco. Haiko, que eh super calmo, perde a calma com a mulher, que fico sabendo por minha vizinha eh da Nigeria, e cuida da casa do Nigeriano que tinha acabado de fazer xixi no meu banheiro. Aparentmente, a mulher é uma bruxa, odiada por todos os vizinhos por deixar a casa caindo aos pedacos, nao consertar o muro, deixar um monte de entulho na porta. Caroline, minha vizinha, me apresenta para as outras vizinhas. Fico tocada pela delicadeza das senhoras inglesas que me acolhem. Que eu bata na porta delas caso precise de qualquer coisa.

Será que eu estou overeacting? Tiro fotos e mando para meus amigos arquitetos. Nao, nao estou. Ligo para meu amigos advogados. Como é que eu saio do meu contrato. A principio fico até com medo dos pedreiros meio bebados. Entao, deito e durmo. E quando acordo vou conhecer meus companheiros de casa. Shane, um australiano simpatissimo, que na casa ja estava ha duas semanas. Registrando assim como eu em filme, e fotos tudo. Barak, uma turca encantadora que veio aprender ingles e dois italianos. Entao sentamos, Australiano, Turca, Haiko e eu, no chao nao mobiliado da nossa sala. Os pedreiros poloneses sobem para cozinhar. O italiano fica na cozinha com eles tentando uma conversa improvavel. Atraves de sinais, palavras misturadas, desenhos no vidros ficamos sabendo que o presidente da Polonia tinha morrido. A casa é uma maluquice so. Gente de todo lado, de todas as linguas. A casa é alegre no entanto. Pego meu violao para tocar e quando levanto o rosto vejo os pedreiro em total silencio me escutando. Fico incrivelmente tocada. Um deles liga para o filho para me ouvir tocar. Aquilo me toca profundamente, tudo entao parece meio tolo. Como eu podia esta tao infeliz quando aquele homem distante do filho, trabalhando num pais onde ele nao conhece a lingua me mostra no ar que toca violino. Ali naquele momento tudo ganha sentido de novo. A casa ta caindo aos pedacos, mas a as pessoas sao encantadoras. E me sentindo assim parti ao retiro.

Quando eu voltei no entanto quase nada tinha mudado. Havia um novo morador, Adam, um ex militar que tinha estado em 9 guerras. Um ex militar que virou nosso porta voz. Se da muito bem com nossa Landlady Ms.Afolabe. Ainda nao percebo que aquilo é meio estranho, fico so intrigada quando ele me diz que foi a 9 guerras. Faco muitas perguntas, sem o menor problema ele concorda em dizer que adora a adrenalina da guerra. Sente falta. Claro que faco essas perguntas motivada por ter assistido the hurt locker. Ele me mostra o braco e diz ” there is no grreat adrenaline feeling than being shot”. Ainda fascinada pergunto a ele o que ele acha de tortura. Em sua visao “aceitavel em alguns casos”. Aos poucos vou aprendendo sobre a personalidade desse meu novo housemate e a cada palavra vai ficando mais claro para mim que nao dividimos o mesmo codigo moral, mas isso so ficaria totalmente claro no dia seguinte.

Para que esse post nao dure para sempre eu adianto que no dia seguinte do meio dia a meia noite eu estaria envolvida em ter que encontrar o dono da casa, confrontar Ms Afolabe, fazer mil pesquisas legais, ver agua comecar vazar na cozinha, e acabar no apice do teto de um quarto desabar. Claramente isso tera que ficar para proxima vez. Como ninguem se machucou tudo que eu consegui pensar foi ” nossa, ate o teto é impermanente…”