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Sobre julietafalavina

Eu escrevo da minha vida, e agora sobre a minha recuperação da saúde .

Budrus

Meu grande e querido amigo, cineasta Fellipe Gamarano Barbosa, de quem ja falei aqui, ha mais ou menos quatro meses me encaminhou um email da sua amiga Ronit Avni (fundadora da Just Vision), falando do seu ultimo filme Budrus. Budrus o email explicava estaria em cartaz aqui em Londres no Human Rights Wactch International Film Festival. Percebi pelo e-mail que o filme tbm era projeto da Julia Bacha, amiga do Felipe de NY a quem ele tinha me apresentado brevemente enquanto eu morava la. Na época, a Julia ainda estava na faculdade mas algum tempo mais tarde eu leria seu nome nos creditos de Control Room, um documentatario incrivel sobre como a midia cobria a guerra do Iraque.

Na epoca lembro de pensar no brilhante livro do Edward Said. Covering Islam: How the Media and the Experts Determine How We See the Rest of the World que como Orientalismo fala de como o Ocidente cria a imagem do Oriente. Nesse livro em particular, Said fala de como a Midia literalmente cobre , no sentido de colocar uma coberta, esconder, a situacao real. O livro que foi escrito se nao me engano no comeco dos anos 80, falava da entao revolucao de 79 no Ira. Eu morando em NY desde a queda das torrres, assistindo diariamente como aos poucos ia sendo construido o argumento que legitimasse uma invasao primeiro ao Afeganistao e depois ao Iraque, senti um frio na espinho lendo o livro. O mesmo frio que eu senti assistindo filme da Julia.

Portanto quando vi que ela fazia parte da producao de Budrus soube na hora que eu queria ver o filme. Um sentimento forte, mas ainda nao “sensorial” “corporal”. Apertei o link do email que me levava a pagina do documentario e assim que comecou o trailer meus olhos encheram de lagrimas. Assim que o filme terminou eu comprei meus ingressos pela internet mais de um mes antes do festival. Mandei um email coletivo a todos meus amigos que eu achei que se interessariam. “Ju mas esse filme vai passar em mais de um mes”. De fato, mas eu ja sabia que eu precisava ve-lo.

E entao, chegou o dia, e la fomos nos. A esta altura o filme ja tinha ganhado o premio do Juri no Festival de Berlim e de la para ca, ganhou premios me Madrid, Tribeca, Sao Francisco,. Levou o De Niro, Michal Moore, a Rainha da JOrdania to name a few a seus “screenings”.

O filme é absolutamente “breathtaking!”. Logo na chegada percbei que o filme estava sold out. Entramos assim que a porta abriu e pude observar a sala se enchendo de ingleses, de judeus, de muculmanos, de viajantes do mundo como eu. E o filme comecou. Comecou com os Israelenses vindo arrancar as oliveiras para construir o muro ilegal que deixaria muitos vilarejos completamente fechados, sem acesso ao resto das suas terras. Assisti uma senhora vindo defender sua oliveiras. Uma arvore, eh uma vida. Arvores que tem centenas de anos, que vem sido cuidadas pelas mesmas familias, o simbolismo da violencia é dilacerante. Ali comecei a chorar e nao parei de chorar no filme um minuto se quer. No comeco de choque, tristeza, depois de raiva da injustica. Mas o meu choro mudou durante o filme para um overflowing de emocao, de comocao com forca de grassroot movements, com o poder da solidariedade que passa por baixo de linguas, culturas, nacionalidades, credos.

O filme, conta a estoria de um protesto pacifico que teve sucesso. Um protesto que uniu palestinos e israelenses judeus e a comunidade internacional. Que uniu ate os soldados que depois de servir o servico obrigatorio passavam para o outro lado, protestando juntos contra a construcao do muro naquel local. O filme que em si é a colaboracao da filmagem de todos essas pessoas durantes 6 anos. Julia, estava la para responder as perguntas da plateia. Ayed o personagem principal, o lider palestino, que tinha estado em Berlim teve sua entrada barrada na Inglaterra. Julia, nos deu muito mais informacoes, e num momento absolutamente emocionante, um israelense, que como eu, estava emocionadissimo, agradeceu a Julia pelo filme. Disse que nao tinha ideia de nada disso, disse que mostraria o filme a todas as pessoas que conhecia.

O filme é um dos projetos da organizacao Just Vison. A organizacao fundada pela Ronit Avni e da qual Julia faz parte. Uma organizacao que tenta combater o que o Said há um tempão tentou nos alertar. A Just Vision tenta trazer ao publico instancias onde os dois lado do conflito, as pessoas tentam buscar solucoes pacificas. Tentam se encontrar. Enquanto a midia foca em politicos e terroristas, a Just Vision conta a estoria de solidariedade entre humanos.

Anger depois de Vipassana

Estou aqui no meu quarto, na minha cama, sentada, lendo e lendo, e lendo pois minha ultima prova é nessa segunda quando de repente, alguem bate na porta, e um homem abre a porta.

Quem é voce? Eu pergunto. O homem responde que eh o agente e que quer mostrar o quarto para umas pessoas que vao mudar aqui para essa casa em setembro.

Bom, tenho que voltar na estória, lembra quando eu tinha postado que o teto tinha caido? Pois é. Logo no segundo dia depois de eu voltar de Vipassana. Estava aqui estudando, quando um senhor entra, sobe, e vem me dizer para nao pagar mais aluguel para a Ms. Afolabe. Apesar de reconhece-lo do primeiro dia, quando ele tinha feito xixi no chao, pergunto a ele quem ele é. Mr. Olu Ado, explica, dono da casa. Mr.Olu Ado mora na Nigeria, esteve numa disputa legal pela casa com o irmao, e tendo retomado a posse tinha demitido a minha landlady pois achava que a casa estava muito mal cuidada. Eu nao poderia discordar disso. Ele tao pouco gostava da Sam Alexander, a agencia picareta que nos alugou o quarto. Pedi para ver papeis, e perguntei a ele o que aconteceria. O homem era bem velho, bem tradicional. Ponderei se ele nao seria algum lider tribal. Abriu a pasta deixando que tudo caisse no chao. Mostrou me varios papeis, e para provar sua identidade assinou um papel. Um outro advogado viria: Mr. AdE, que eu jamais confiasse em nada que nao tivesse seu nome.

Assim que o senhor foi embora liguei para Ms.Afolabe que ficou perplexa. No seu estilo normal barraqueira comecou a gritar ” Como eh que eu poderia acreditar numa pessoa que aparecesse assim….? Expliquei a ela que para comecar tinha sido ela mesma que tinha me apresentado ao senhor Olu Ado como dono da casa. Descomposta passou o telefone para outro senhor. Eu sob efeito de meditacao disse em voz para la de calma: ” Desde que eu mudei para essa casa eu fui enganada, ludibriada, engambelada, nada funciona, e para completar o senhor que me foi apresentado como dono da casa aparece aqui e me diz que demitiu voces, uma vez que vcs eram ineficientes. Como eu nao posso discordar disso, estou ligando pq uma vez que meu contato é em nome da sr. Afolabe, e de acrodo com o dono ela foi demitida, eu queria o meu contrato de volta.

Ms. Afolabe desesperada disse que viria a casa trazendo papel provando que ela tinha sim o direito de alugar a casa. Aceitei e pedi copias. Enquanto ela nao vinha liguei a todos os departamentos que eu podia ligar. Liguei Citizen Advisery Bureau, registrei queixa na policia, falei com todos meus amigos advogados ( contratuais e nao), meus amigos engenheiros e arquitetos. Consultei o Landlord Tenant Agreement, o Housing Act. E acabei por fim tendo que aceitar que eu estavva presa ao meu contrato. Ela ter o direito ou nao, era problema do Sr. Olu Ado.

Entre esses mil telefonemas apareceu aqui o Gassan, o agente que eu imaginava ser o mais 171 do pedaço. Trazendo um potencial novo morador, na minha frente ele mentiu dizendo que a casa tinha varias coisas que nao tinha. Enquanto eu explicava para os novos moradores o pq eu os desencorajava de mudar para essa casa, Gassan no seu estilo sorrateiro desapareceu.

Fui ate seu carro e perguntei.
_Gassan quem eh o dono dessa casa?
-Ms. Afolabe.
_ Eu imagino que uma agencia tenha que ver os documentos da casa antes de aluga-la. Estou correta?
_ Sim
_ E voce os viu?
_ Sim
_E la estava escrito que a Ms. Afolabe é a dona da casa?
_ Sim
-Nossa Gassan, que estranho pq a Ms. Afolabe mesmo me disse que ela nao eh a dona. Que o dono eh o Olu Ado

No total cinismo, Gassan, riu, e propos que talvez ela tivesse dado a casa de presento para o senhor. Talvez ele fosse seu tio.
Diante de tal frase, dei meia volta, e voltei para casa.

Tudo isso aconteceu, e apesar de eu achar o cumulo isso tudo nao me afetou. Eu sentei e denuncei a agencia Sam Alexander em todos os reviews sites que eu encontrei. Ate criei um site contando das nosssas experiencias com eles.

Enfim, entre Ms. Afolabe aparecer, o um vazamento comecou, que levou ao teto de ums dos quartos cairem. O que levou a Ms. Afolabe a dizer ” Nao acredito, agora eu vou ter que chamar “a proper builder” em ref aos pessimos pedreiros poloneses que tinham feito essa reforma. Bom, os proper builders eram tao cinicos como o Gassan. Ms.Afolabe trouxe um paper da Nigeria onde o Mr.Olu Ado da plenos poderes a ela. No fim, ela explica que ela era advogada dele na causa contra o irmao, e que ele nunca pagou as fees entao ela ta tomando conta da casa. Para la de shady tudo isso, mas ja sabendo que eu esotu presa ao contrato dela nao digo nada. Paralelamente, Shane, o australiano contador, e eu tomamos para nos a tarefa de documentar todos os probelmas legais e de construcao com o intuito de ter informacao para quebrar o contrato.

Mas como Adam, que eh maniaco por limpeza, tomou para si o posto de organizar direito a casa resolvi dar mais tempo antes de chamar o Environmental Health. Ele organizou para que todo o entulho e lixo fosse coletado, para que a internet chegasse, para que a casa fosse pintada, ta planejando arrumar o jardim… E no final como eu gosto muito das pessoas que aqui moram, acabei me adaptando.

E eis que hoje eu estou aqui na minha cama, lendo, lendo, lendo, quando esse novo agente aparece com as tais pessoas que vao mudar em setembro. De um certo ponto de vista, isso deveria quase ser um alivio. No entanto, nao foi. Me levantei fui ate a porta e perguntei a ele quem era. Virei para os estudantes na faixa de 18 e expliquei eles deveriam verificar com quem estavam lidando afinal a casa estava totalmente alugada com contratos de um ano. O homem se revoltou e tentou me intimidar.

_ Eu tenho o direito de alugar essa casa.
_ E quem te deu esse direito?
_ Nao posso dizer, pois nao lido com voce!

Viro para os estudantes e comeco a enumerar todos os problemas legais .

_You stop talking to my people.

Fico perplexa!

_ O que? O senhor entra na minha casa, sobe ao terceiro andar, entra no meu quarto e quer me dizer com quem eu posso falar ou nao? Este é um pais livre democratico e eu falo com quem eu quiser. E eu nao vou stand here calada enquanto a mafia dessa agencias completamente nao confiaveis se aproveita das pessoas. O senhor eh capaz ou nao me dar documentos legais provando os direito que tem,

_ EU nao tenho que te responder nada, pq eu nao sou seu agente. Vc leu o seu contrato? Voce nem o conhece direito.

Nessa hora, eu realmente perco a paciencia

_ Meu senhor qual é o nome mesmo da sua agencia?
_ Eu nao tenho que te falar.
_ Meu senhor eu nao so conheco o meu contrato, como estive em contato com mais orgaos legais do que voce pode imaginar.
Eu os enumero. O homem vai ficando cada vez mais bravo. Continua insistindo que eh dono de uma agencia e que tem direito sobre a casa.

_ Qual o seu nome ? pergunto
_ Nao tenho que te falar. Eu tenho o direito de alugar essa casa a partir de setembro.

Eu entro na casa pego minha camera, aponto para ele e digo

-Vc se importa em repetir tudo isso que me disse para que fique documentado?

Ele vira a cara, visivelmente revoltado. Eu nessa altura estou completamente alterada. Nao visivelmente, mas a consciencia que eu tenho praticado em meditacao me faz sentir tudo intensificado. O sangue perccore mais rapido, minha respiracao eh mais curta, e rapida, sinto meu estomago receber jorradas quimicas, meu coracao bate mais rapido, me sinto tremendo um pouco de raiva. Ali naquele homem na minha frente eu vejo materializado todo o cinismo, e falcratruas de todas essas pessoas com quem tenho lidado. Todo o cinismo de todas as pessoas que usam e abusam dos outros para seus proprio proveito. Os estudantes, meio bobos, nao percebem a dimensao do problema. Perguntam so se a casa é boa. Nisso, chega Charlotte, namorada do Adam, que é policial. Delicada do jeito que é explica ao homem que temos um contrato. Ele quer partir. Sem duvida nao esperava dar de cara assim, comigo, embuida de sentimentos justiceiros.

Ligo a Ms. Afolabe, e ela explica que os tinha demitido faz tempo. Liga no viva voz para a agencia. Comunica a eles mais uma vez que eles nao tem direito de alugar a casa. “A informacao sera passada a diretoria”. Eu ligo depois para comunicar o incidente e dizer que nao quero mais que aparecam aqui. O homem, diz que tem o direito. Eu o confronto, com o fato que acabei de ouvir a Ms. Afolabe ligar para eles. Ele fica sem graca e diz ” well, we will see. We will talk to her, we will let you know”. Desligo e resolvo reportar na policia. Que fique registrado tudo isso. Ligo mais uma vez a agencia Victor Stone

Ja bem calma, digo em tom baixo e inalterado.

-Estou ligando pois hoje um incidente desagradavel aconteceu. Narro todo o incidente.” Antes que ele tenha chance de dizer de novo que vai avisar a diretoria eu adiciono. “Eu estou ligando para informa-los que eu registrei o ocorrido na policia. De acordo com minha landlady vcs nao tem o direito de aparecer aqui. Se resolverem aparecer “make sure” de trazer documentos que provem essa autorizacao, otherwise, eu vou chamar a policia.”

Digo isso calmamente, o homem, meio que ri e diz “ok”.

Sentindo ainda a ressaca quimica da raiva que eu senti sento aqui para narrar tudo isso esperando ter um insight. A certeza que eu tenho é que toda essa emocao é negativa. Em Vipassana, uma das coisas mencionadas é que vipassana nao faz uma pessoa menos ativa. Ser equanime nao é o mesmo que ser apatico, ou passivo. Ser equanime possibilita um a agir sem sentir que a batalha eh travada dentro. O grande segredo é provavelmente travar toda essa batalha la como no primeiro dia. A batalha pelo correto, mas sem que a batalha vire minha. Aparentemente Buda, diz que uma ofensa é como um presente, que vc pode ou nao aceitar. Mas como é dificil as vezes nao aceitar.

Pelo menos, a ressaca emocional depois de vipassana dura bem menos.

Paredes Porosas

Como eu passei por muitos departamentos na minha vida academica, posso dizer que tive uma educacao bem variada. No centro do meu interesse, no entanto, sempre esteve os seres humanos. Hoje em dia antropologia e cognicao estao mais no foco do que eu leio. A relacao esteoreotipica entre cognicao e antropologia me fascina. Enquanto, estereotipicamente psicologos cognitivos criticam antropologos dizendo que seus exemplos de variedade sao mais de conteudo do que estruturais, por outro lado eles nao propoe explicacoes tao claras de como é que tanta variedade em conteudo é criada de a partir “so called common evolved structures”. Se deixarmos a esfera estereotipica de lado, percebemos que o ponto crucial desse debate é enteder como estruturas e processos cognitivos se relacionam com conteudo. Em outras palavras, sera que variedade em conteudo implica em mudanca em estrutura, e se esse for o caso até que ponto?

Bom, eu nao pretendo aqui ficar escrevendo muito disso. Esse exemplo era so para dar uma ideia, em que geralmente eu perco horas lendo. Na verdade, eu ja passei muito tempo lendo sobre colonialismo, pos-colonialism, direitos humanos, filosofia. Alias, semana passada numa conversa com um amigo filosofo, ele explicou que conhecimento sempre tem que ser mais fraco que evidencia. Dissociou certezas, de conhecimento. Certezas sao coisas como ” a certeza que o mundo existe”, ou a certeza de que “somos um ser que comeca e termina” essas certeza sao é claro bem universais. EU pelo menos nao sei de ninguem, ou nenhuma tribo que acredite que o mundo nao exista do lado de fora. A nao ser de uma maneira filosofica, um questionamento desses que nao tem prova. Eu e meu amigo ponderamos sobre certezas religiosas, sem duvida elas nao podem ser tao fortes, afinal vemos conversoes, ha variedade, e eu passei dias pensando nisso… Como sera que aprendemos essas certezas, e quao fortes elas sao?

Antes disso eu passei muito e muito tempo estudando politica do oriente medio, e eu perdi a conta de quantos protestos eu ja estive para mostrar o meu apoio. Para dar voz aos sem voz. De alguma maneira, injustica sempre mexeu comigo. MInha avo, diz que desde crianca eu ja dizia chorando ” mas isso nao é justo”. Eu sempre me imaginei uma pessoa de mente aberta, que tenta entender o outro. Na verdade, no mundo de direitos humanos, e defesas dos injusticados, nos de certa forma aceitamos mais os direitos daqueles que condizem com os do nosso zeitgiest. Um zeitgeist individualista, onde a liberdade do individuo é vista como paramount value (um desenvolvimento diga-se de passagem muito moderno). Essas visoes, é claro, num mundo incrivelmente plural e globalizado ficam cada vez mais dificieis de invocar sem cair em frases vazias como “o meu direito termina onde o seu comeca” que no fundo, no fundo nao dizem quase nada. Afinal de contas as nossas concepcoes de direitos e espaco nesse mundo plural varia MUITO!

Esse post, eu ia escrever para falar do Adam, meu companheiro de casa ex-militar, e do Piero meu amigo que se converteu ao Isla. Mas minha cabeca é meio assim, vai ligando as coisas mais improvaveis, ou o que esta ao meu dispor, e nesse momento pq eu tenho lido muito para minha prova, eu acabo me referindo a ciencia social. Do trabalho de Max Weber na a etica protestante, e “ciencia como vocacao” saiu o conceito de “disenchantmente” desencatamento. Bom, confesso que como nunca estudei ciencia sociais em portugues nem os titulos nem os conceitos sei muito bem. Sera entao, como quase tudo que escrevo, uma livre traducao. A ideia basicamente consiste no seguinte. Como no prostestantismo calvinista as pessoas eram predestinadas a serem salvas, nada que fizessem durante essa vida faria muita diferenca. No entanto, para Weber, a ansiedade causada por essa incerteza fazia com que calvinistas trabalhassem muito, pois inversamente, viam os frutos de seu trabalho como sinal da predestinacao a “salvacao”. E como a etica protestante condenava confortos e luxo, todo o dinheiro ganho era re-investido no negocio. Essa etica (junto com outros fatores), para Weber, era a ideologia ideal para o “rise” do capitalismo como sistema. No entanto, com o “rise” do capitalismo a racionalizacao necessaria para produzir lucro etc, aos poucos tomaria lugar da ideologia que instaurou. Por isso para Weber, capitalismo, modernidade, levariam a racionalizacao, secularizacao, individualizacao : ao densencantamento do mundo. Bom, eu to simplificando bem, mas o que importa para meu post, é que para Weber, na modernidade religiao perderia seu lugar de poder social e o mundo ficaria desencantdo.

Essa teoria parcialmente empregada por teoristas modernos (Bruce, Huntington, Tibi) ainda preve que o mundo esta passando por esse processo de secularizacao. O enorme crescimento no Isla, Hinduismo, cristinanismo, movimentos New Age, para nomear alguns deixou muitos proponentes dessa teoria, é claro, perplexos. Na antropologia, esse probelma se traduziu numa linha de estudo sobre o re-encantamento do mundo. Robert Hefner, professor de Stanford, escreve muito sobre isso: sobre religiao e as multiplas modernidades. O que ele mostra revisitando o desenvolvimento do Isla, Hinduismo e Cristianimso, é que na realidade essas religioes nao perderam forca politica. Nos EUA, por exemplo, cristianismo por ter se mantido a margem no estado se manteve muito forte. Para Hefner, o crescimento do Isla se beneficiou muito da modernidade. Da objectificacao de conehcimento que foi permitida pelos “rise” dos estados, educacao superior, livros mais baratos. E para ele enquanto a modernidade de um lado fomenta a expansao do Isla, do outro fomenta tbm a sua interpretacao ( mais pessoas tem acesso, e o valor de interpretacao cresce). Em mundos tao globalizados, e plurais sobram 3 opcoes uma tentativa de dominar e colonizacao, manter-se “puro e excluido”, ou enfraquecer suas doutrinas. Afinal num mundo onde a presenca de diversas religioes é constante, as paredes que as divide se tornam mais porosas.

Eu de estranha maneira posso dizer que isso tem acontecido comigo. Durante a minha vida ultimamente tao academica eu fui muito protegida do outro tao outro para mim. E eis que agora eu estou morando com um ex-militar. Um ex-militar que esteva em 9 guerras ( Iraque, Iugoslavia, Rwanda, Belize, Afeganistao etc) e que adorou ter ido para guerra. Um ex-militar que vem me mostrar fotos que ele tirou nesses paises. Volta e meia eu digo algo provocativo “Quando vc assistiu Avatar ficou bravo que o homem trauiu o exercito” “Claro que nao Jules. I have a heart! The army was wrong!” E é claro que ainda que eu fosse passar horas dizendo que os ingleses tbm estavam wrong de estar no Iraque ele nao concordaria. “You know. I just do what I am told. I am not a politician” O negocio estranho é que no passado eu teria entendido isso como uma defesa psicologica, como o discurso criado para poder suportar o terrivel. Vivendo dia a dia com o Adam as paredes entre opressor e orpimido ficam bem mais porosas. De alguma maneira surreal ele se importa mais com as pessoas do que todos os meus amigos e eu que defendemos direitos humanos juntos. Assim com Alyosha ele se importa com induviduos, enquanto nos com a distante “humanidade” (Nos Irmaos Karamazov).

Anteontem, Adam, que é simples e do norte preparou um jantar para casa inteira. Fez meu prato especialmente vegetariano. Trouxe um por um. Nos explicou que isso era comida tradicionalmente inglesa. Eu fiquei tocada, toda aquela comida para todos nos. Depois explicou que queria nos levar a Scarborough, sua cidade natal. Até a maneira dele de me incentivar é totalmente o oposto do que eu esperaria …”All the Pubs are at least 400 years there… know you dont drink and all, but Scarborough is the most beautiful place in the world. It was on TV the other day!” Tem fotos do seu filho que é Israelense e chega em junho por todo o quarto. O filho tem 10 anos e quando eu perguntei o que ele achava dele “join the Israeli army” Adam, me explicou que “the Israeli Army is fantastic, not that he would say it is better than the British one, only if he had to. But my baby, my son, I want him to be in the marine, and just float.” Pergunto por que “Are you crazy too much life being lost there for nothing!”. Pergunto a a ele se ele iria para Gaza, ele diz que sim. “Entao porque voce nao quer que seu filho va????” “Jules he is my baby son, my baby, are you crazy!” Adam telefona para o filho todos os dias, vai a Israel 4 vezes por ano, e o traz nas ferias de verao para passar 3 meses com ele. Quando fala dele se emociona. Da ex-mulher, explica “que é uma mulher forte maravilhosa. We fell out of love, we are great friends though!” E ao poucos vai cativando a todos, na sua simplicidade, na sua humildade, na sua generosidade. Noutras vezes, no entanto, as paredes se tornam completamente visiveis, concretas, solidas. Ele traz um album de fotos, nele fotos dele no Iraque, Belize, etc Uma foto esta faltando, ele a descreve, é uma foto maravilhosa ele explica: “Eu no Iraque, o sol quente, o deserto, dois Iraquianos ajoelhados, eu apontando minha metralhadora para cabeca deles, e o vento batendo no meu lenço.”

Haiko fica sem palavras. E eu confesso que nao sei direito o que pensar. Assim como quando meu amigo Piero ( o que se converteu ao Isla), me escreveu ha algumas semanas dizendo que apesar de discordamos em poucos pontos somos muito parecidos. Manda essa mensagem junto com o link que explica que era dia da Fatimah, a mulher ideal de acordo com o Isla. Eu fico sem palvras porque no fundo eu nao entendo. Mas vai ver que o Hefner tem razao, nesse mundo tão plural so existe a opcao de total seclusao, de overpower, ou de enfraquecer um pouco das nossas ideologias, pois essas sao paredes sao porosas demais.

Vipassana II- Das Flores

“What a strange thing!
to be alive
beneath cherry blossoms.”
— Kobayashi Issa

Enquanto as milhoes de estorias borbulham dentro de mim, eu é claro não tenho tanto tempo como gostaria para escrever. Tenho que estudar para minha prova que será no 17 de maio. Não posso reclamar pois com meu horario regulado gracas ao retiro, e minha concentração bem mais aguda estudar tem sido mais prazeroso, mais fácil e muito menos overwhelming. Desde que voltei mandei um email a alguns amigos, aqueles em quem pensei durante o retiro. Aqueles que eu achei que de alguma maneira aproveitariam uma oportunidade como essa. E eis que recebi algumas respostas, algumas perguntas que me fizeram pensar mais a respeito da minha experiencia.

Como eu fiz em meu e-mail vou tentar livremente explicar mais ou menos como eu compreendi Vipassana. Basicamente nos 3 primeiros dias do retiro somos ensinados a sentar e prestar atencao na respiracao, só isso, mais nada. Apenas a respiracao sem vocalizacoes, ou mentalizacoes para que se aprenda a focar a mente, para que a mente fique aguda o suficiente para se poder praticar Vipassana.

Vipassana é baseada no seguinte: a ideia que sofrimento vem do padrao da nossa mente de nunca estar no presente. De sermos jogados do passado ao futuro por nossas emocoes e pensamentos o tempo todo. Sempre reagimos com aversao ao que nao gostamos e com apego ao que queremos e como tudo é impermanente sofremos. Mas tudo que existe no presente sao sensacoes. Por isso, Buda acreditava que se aprendessemos a nos tornar totalmente conscientes das nossas sensacoes e aprendessemos a ficar equanimes ( nao reagir com apego ou aversao a elas) quebrariamos profundamente o padrao de reacao da mente. Vipassana, portanto, treina voce a ficar consciente das sensacoes corporais ( calor, dor, formigamento, vibracoes etc) e a praticar equanimidade ( nao reagir, observar as sensacoes “como um cientista” objetivamente).

Entao, durante os ultimos 7 dias aprende-se a observar o corpo todo. Comecando pela cabeca, e pedacinho por pedacinho scaneando o corpo e observando as sensacoes até chegar as pontas dos dedos do pé. 3 vezes ao dia, faz se uma determinacao de sentar-se por uma hora sem se mexer observando o que é que se passe, o que é que se sinta com desapego, pois tudo é impermanente. Durante o retiro, observa silencio nobre. Silencio de fala, gestos, pensamento etc…

Eu tive é claro muitas duvidas filosofico cognitivas. Ficar em silencio foi facil. Uma vez la ha uma sensacao de enorme apoio, de enorme gratidao. Como nao se paga nada para ir quando vc chega, e conforme os dias passam, e observa-se como tudo é bem mantido, fica cada vez mais evidente que tudo aquilo so é possivel porque as pessoas que la estiveram antes de vc doaram dinheiro para que essa oportunidade tambem fosse dada a outras pessoas. Toda a deliciosa comida que se come é preparada por voluntarios que além de meditar acordam ainda mais cedo para cozinhar para vc.

Eu tive muita sorte com o tempo. Os dias estavam lindos. A primavera estava chegando e simbolicamente eu sentia a vida voltando. Confesso que nao reparei nas flores quando cheguei. Talvez tenha sido no terceiro dia quando eu ja estava realmente concentrada que reparei que as cerejeiras na frente do meu quarto estavam florescendo. Compreendi profundamente dessa vez Kurosawa num dos seus “Sonhos”. Entendi mais os japoneses que falam tanto da beleza das cerejeiras em flor. As festas (hanami) para ver as cerejeiras em flor(sakura) acontecem no Japao desde o seculo VII.

Há alguns preceitos que se observa quando se pratica Vipassana, e um deles é nao matar. Nos meus tres primeiros dias eu passei mal, tive diarreia, e muita dor de estomago, mas observando o silencio, e nao tendo muito o que fazer fiquei em silencio. Minha companheira de quarto que deve ter reparado minhas massagens no estomago, colocou ao lado da minha cama um pequeno vidrinho. Quando eu voltei ao quarto, sem olhar para ela, evitando qualquer comunicacao reparei a presenca de um vidrinho verde desconhecido no meu lado da mesinha. Fiquei surpresa, peguei o vidrinho e vi que era um remedio natural para dor de estomago.

É incrivel, como pequenos gestos como esses te tocam. Fazia 3 dias que eu estava em silencio e eu sabia que apesar do silencio estavamos ali uma no apoio da outra, e todos mutualmente se apoiando em silencio. Eu nao podia dizer obrigada, nao podia escrever obrigada, resolvi que em agradecimento colocaria uma flor no seu lado da mesa. Como eu não queria matar nada, inclusive uma flor, procurei uma flor que estivesse caida. Coloquei-a do lado da mesa que ficava perto a cama de Liz.

Os dias foram passando, e a cada dia eu olhava para as cerejeiras para ver como elas estavam naquele dia. Sentia-me tocada por meu retiro acompanhar o desabrochar das cerejeiras. No final dos 10 dias elas estavam completamente em flor. Eu finalmente entendi ali toda a literatura japonesa que eu ja tinha lido. Não é apenas que elas sejam lindas, mas é o processo que acontece todos os anos, um processo impermanente, onde nehum dia é igual ao outro, onde, as petalas voam, onde tudo se move em direcao a perfeicao, ao que pode parecer um momento fugaz de beleza, ao qual vc nao pode se apegar. Eu observei o processo, e entendi experiencialmente a beleza de uma cerejeira em flor. A breve, fugaz, impermanente beleza da cerejeira apesar de “breathtaking” não é o seu maior poder. O mais tocante é observar o processo diario. O mais poderoso talvez seja a permanencia do impermanente. Observar as cerejeiras desabrocharem, e saber que apesar da primavera ser todas as vezes diferente, ela é sempre primavera. Observar uma cerejeira em flor é observar a coexistencia do tempo cronologico e o ciclico.

No decimo dia, quando o silencio foi levantado Liz veio me dizer obrigada pela flor no seu lado da mesinha. Expliquei a ela que tinha pegado uma flor morta pois nao queria matar uma flor. Ela eh claro ja tinha compreendido isso no nosso silencio. E é claro que se eu tivesse colhido uma flor viva, ela teria sido morta no ato. No entanto, de alguma maneira ali a impermanencia da vida e da beleza da flor se mesclaram. A gratidao, no entanto, simbolizada na impermanencia do material se dissociou do material.

A Impermanencia do Teto

As vezes o tempo passa passa sem eu ter quase nada de muito interessante para contar. Agora eu estou dividida entre tres temas interessantes o meu retiro vipassana, o encontro privado depois da palestra do Tim Ingold ( um antropologo que pensa muito diferente dos cientistas cognitivos) e a casa caotica para onde me mudei. Quem acompanha meu blog desde o comeco, ou melhor do comeco do outro blog deve lembrar que eu tinha um landlord para la de especial: o Mr. Tala. O Mr. Tala apesar de meio picareta era boa pessoa, suas artemanhas eram primarias, e ele tinha até um certo charme. Agora a situação é realmente outra, e se eu nao tivesse tao sossegada por causa do meu retiro talvez estivesse mais afetada mas porque a vida vai assim de maneira leve, e o homem é adaptável eu já estou achando a situacao até engraçada.

Desde que eu cheguei em Londres, sempre tive a sorte de morar em lugares bons e com pessoas que eu gosto. Faz 3 anos e pouco que estamos aqui, e dois dias antes de eu ir para o meu retiro mudamos pela primeira vez para a maior furada de todos os tempos. Como a grant do doutorado do Haiko terminou ja faz um meses, sem ele ter terminado o doutorado tivemos que mudar para um lugar mais barato. Escolhemos um lugar que estava sendo renovado e que fica em Camden. As fotos lindas, quando eu vim visitar a casa a noite, percebi que o lado de fora tava meio acabadao, mas o moco da agencia garantiu que tudo seria renovado. Note, garantiu mas nao escreveu no contrato, como alias ele nao escreveu mais um monte de coisas. Assim, que quando chegamos com a van de mudanca, um dia lindo, calor, e chegamos na nossa linda rua demos de cara com a casa caindo aos pedacos. Literalmente. Todas as casas a volta lindas, a nossa cheia de entulho na frente, rachaduras nas paredes, plantas crescendo de dentro do telhado. A casa da familia Adams. Eu entrei na casa e dentro ainda todos os materiais de construcao, e mais todos os pedreiros continuavam no mesmo lugar. Me deu uma vontade de chorar, o moco da agencia queria que mudassemos ha duas semanas! A casa estava literalmente em reforma. Com dois meses de aluguel ja pagos nao dava para ir embora. O moco da van ofereceu deixar as nossas coisas na van enquanto decidiamos o que fazer. Haiko ligava desesperadamente para a agencia,que obviamente ja nao mais atendia. Enquanto eu alarmada pensava o que fazer, comeco a ouvir uma gritaria, ao mesmo tempo um senhor negro de terno escuro, meio perdido entra na casa me pergunta onde eh o banheiro. Eu digo que nao sei, alias tambem nao sei quem ele é, ele entra no banheiro so de chuveiro onde nao ha privada e faz xixi no chao.

Completamente em choque, eu saio para ver o que esta acontecendo. Entao, vejo uma mulher bem barrqueira na frente da casa. Uma senhora polida inglesa, pergunta a ela com firmeza “quando eh que a senhora vai limpar esse quintal?” A mulher grita, e berra, e diz que ela esta “in charge” e que nao ve nada de errado. Quando ela diz que esta in charge Haiko vai falar com ela. E eu, me sentindo totalmente envergonhada, peco desculpas a minha futura vizinha pela grosseria da minha nova landlady. A senhora, me diz para nao pedir desculpas, me convida para tomar um cha percebendo que eu estava abalada. Eu aceito um copo d’agua, entro na sua Linda casa, e ela me conta que morou no brasil primeiro no rio, e depois casou se com um diplomata ingles e mudou-se para Brasilia. Converso um pouco com ela, mas tenho que voltar para saber o que esta acontecendo no meu barraco. Haiko, que eh super calmo, perde a calma com a mulher, que fico sabendo por minha vizinha eh da Nigeria, e cuida da casa do Nigeriano que tinha acabado de fazer xixi no meu banheiro. Aparentmente, a mulher é uma bruxa, odiada por todos os vizinhos por deixar a casa caindo aos pedacos, nao consertar o muro, deixar um monte de entulho na porta. Caroline, minha vizinha, me apresenta para as outras vizinhas. Fico tocada pela delicadeza das senhoras inglesas que me acolhem. Que eu bata na porta delas caso precise de qualquer coisa.

Será que eu estou overeacting? Tiro fotos e mando para meus amigos arquitetos. Nao, nao estou. Ligo para meu amigos advogados. Como é que eu saio do meu contrato. A principio fico até com medo dos pedreiros meio bebados. Entao, deito e durmo. E quando acordo vou conhecer meus companheiros de casa. Shane, um australiano simpatissimo, que na casa ja estava ha duas semanas. Registrando assim como eu em filme, e fotos tudo. Barak, uma turca encantadora que veio aprender ingles e dois italianos. Entao sentamos, Australiano, Turca, Haiko e eu, no chao nao mobiliado da nossa sala. Os pedreiros poloneses sobem para cozinhar. O italiano fica na cozinha com eles tentando uma conversa improvavel. Atraves de sinais, palavras misturadas, desenhos no vidros ficamos sabendo que o presidente da Polonia tinha morrido. A casa é uma maluquice so. Gente de todo lado, de todas as linguas. A casa é alegre no entanto. Pego meu violao para tocar e quando levanto o rosto vejo os pedreiro em total silencio me escutando. Fico incrivelmente tocada. Um deles liga para o filho para me ouvir tocar. Aquilo me toca profundamente, tudo entao parece meio tolo. Como eu podia esta tao infeliz quando aquele homem distante do filho, trabalhando num pais onde ele nao conhece a lingua me mostra no ar que toca violino. Ali naquele momento tudo ganha sentido de novo. A casa ta caindo aos pedacos, mas a as pessoas sao encantadoras. E me sentindo assim parti ao retiro.

Quando eu voltei no entanto quase nada tinha mudado. Havia um novo morador, Adam, um ex militar que tinha estado em 9 guerras. Um ex militar que virou nosso porta voz. Se da muito bem com nossa Landlady Ms.Afolabe. Ainda nao percebo que aquilo é meio estranho, fico so intrigada quando ele me diz que foi a 9 guerras. Faco muitas perguntas, sem o menor problema ele concorda em dizer que adora a adrenalina da guerra. Sente falta. Claro que faco essas perguntas motivada por ter assistido the hurt locker. Ele me mostra o braco e diz ” there is no grreat adrenaline feeling than being shot”. Ainda fascinada pergunto a ele o que ele acha de tortura. Em sua visao “aceitavel em alguns casos”. Aos poucos vou aprendendo sobre a personalidade desse meu novo housemate e a cada palavra vai ficando mais claro para mim que nao dividimos o mesmo codigo moral, mas isso so ficaria totalmente claro no dia seguinte.

Para que esse post nao dure para sempre eu adianto que no dia seguinte do meio dia a meia noite eu estaria envolvida em ter que encontrar o dono da casa, confrontar Ms Afolabe, fazer mil pesquisas legais, ver agua comecar vazar na cozinha, e acabar no apice do teto de um quarto desabar. Claramente isso tera que ficar para proxima vez. Como ninguem se machucou tudo que eu consegui pensar foi ” nossa, ate o teto é impermanente…”

Vipassana I


Bom. Esse post eu nem sei por onde direito começar. Uma vez mais vou confiar no overflowing da minha mente. Finalmente, depois de muitos anos ouvindo falar, querendo ir, me increvendo e desistindo, chegando muito perto e indo embora, fui pela primeira vez fazer um retiro vipassana. Vipassana é uma tecnica budista de meditacao. Fiz o meu retiro pela organizaçao do dhamma ligada ao professor Goenka da tradiçao budista de meditacao de Burma. Mais informações aqui.

Esses centros sao espalhados pelo mundo e sao mantidos inteiramente atraves de doações, e voluntários. Quem resolve fazer um retiro vipassana nao paga nada pela hospedagem ou pela comida e so apos os 10 dias pode fazer uma doação logo depois que o curso termina ou entao depois quando voltar para casa. Assim, que enquanto, se está lá existe um sentimento enorme de gratidão pois fica muito evidente e claro que se é possivel la estar por causa da generosidade das pessoas que antes de vc foram apresentadas a vipassana, e por causa dos voluntarios que alem de meditar todos os dias tambem estao te servindo.

Era o momento certo para eu ir. Peguei o onibus e logo em Gloucester a cidade onde eu mudaria para o onibus local para ir em direcao a Hereford encontrei 3 outros meditadores, os tres ja eram “old students”, ou seja ja tinha fieto um retiro antes. Claire, professora de Ingles estava voltando da India depois de passar 19 meses por la. A outra moça de quem nunca aprendi o nome, era do kazaquistao e estava indo servir como voluntária. O terceiro era um homem com tres filhos estudando em escola waldorf. Fomos juntos de onibus conversando meio quietamente pois afinal em breve estariamos todos em silencio pelos proximos 11 dias. Perguntei a eles se era muito dificil e responderam que era dificil mas maravilhoso. Meu estomago apertou um pouquinho mais.

Do onibus publico fomos deixados no meio do caminho onde uma van nos esperava. O dia estava lindo, e os ultimos kilometros estavamos todos muito introspectivos. Chegando ao centro mulheres para um lado, homens para o outro, deixei meu celular no guarda valores tranquei o e soubre que entao estava de vez desconectada até o final. No refeitorio uma sopa deliciosa sendo servida, um clima de alegria e certa ansiedade reinava e aos poucos fui conhecendo algumas pessoas. Na minha mesa havia uma inglesa filha de diplomatas que tinha vivido pelo mundo a fora, Clare minha companheira de viagem alem de ter passado 19 meses na India, tinha morado em muitos paises da Africa, a outra moca como eu era uma assidua viajante. Ponderei se esse cruzar de tantas fronteiras talvez nos deixasse todos assim meio descrente das regras por regras e meio perdidos.

Entao uma senhora Inglesa dessas que parece professora de Hogwarts nos deu as boas vindas. Nos explicou o que ja tinhamos lido mil vezes que nos proximos 10 dias observariamos silencio nobre. Silencio de fala, gesto, mente etc. Nosso horario era o seguinte:

4:00 am Morning wake-up bell
4:30-6:30 am Meditate in the hall or in your room
6:30-8:00 am Breakfast break
8:00-9:00 am Group meditation in the hall
9:00-11:00 am Meditate in the hall or in your room according to the teacher’s instructions
11:00-12:00 noon Lunch break
12noon-1:00 pm Rest and interviews with the teacher
1:00-2:30 pm Meditate in the hall or in your room
2:30-3:30 pm Group meditation in the hall
3:30-5:00 pm Meditate in the hall or in your own room according to the teacher’s instructions
5:00-6:00 pm Tea break
6:00-7:00 pm Group meditation in the hall
7:00-8:15 pm Teacher’s Discourse in the hall
8:15-9:00 pm Group meditation in the hall
9:00-9:30 pm Question time in the hall
9:30 pm Retire to your own room–Lights out

Que trabalhassemos na nossa meditacao seriamente pois essa oportunidade de uma viagem de autoconhecimento tao profunda era uma grande oportunidade. Nos perguntou pela ultima vez se estavamos certos que queriamos ficar, pois uma vez comecado o retiro era melhor nao partir. Eu que tenho pavor de me meter em situacao que nao posso sair hesitei por um segundo, mas sabia que dessa vez que eu tinha ido ate la eu ficaria. Na mesa ao lado, uma senhora muito simples inglesa, mais velha muito preocupada perguntou se alguem ia ensina-la a sentar-se e a meditar. Percebi que aquela senhora ja mais velha, estava ali aberta a tentar uma coisa nova, durante todo o meu tempo eu sempre a procurei, me comovendo diariamente com sua forca de vontade.

Fui ao meu quarto arrumei minhas coisas, e finalmente conheci minha companheira de quarto Liz. Uma Inglesa muito bonita, muito leve, absolutamente adoravel. Contou me que nunca tinha meditado na vida, nunca tinha feito yoga, que essa era seria sua primeira experiencia. Supreendi-me mais uma vez com a coragem de algumas pessoas. Ela me disse que seria muito dificil nao me dizer bom dia de manha, eu ja encantada com Liz concordei e assim no meio da minha frase o Gongo tocou. O gongo que nos acompaharia das 4 da manha as 9 da noite anunciando todas as meditacoes, e intervalos e refeicoes. Fomos chamados aos nossos lugares onde havia uma almofada grande quadrada, coberta por uma pequena. NO fundo da sala inumeras almofadas extras e cobertores, que foram aos poucos durantes os 10 dias sendo inteiramente utilizados. Nossa primeira meditacao comecava, ao som das instrucoes de S.N.Goenka, e uma lagrima no meu rosto passeou lentamente, finalmente eu tinha chegado.

Das Inconsistencias

Vang Vieng, no Laos, como eu ja expliquei é um lugar particular. Um lugar que foi parar na rota dos gap year students (estudantes que tiram um ano para viajar) , para descer o rio de boia parando nos muito bares que servem bebidas (ta, no proximo post eu explico isso melhor). Acima de tudo Vang Vieng é um lugar lindo, que infelizmente tem sido totalmente destruido por esse turismo meio trash. Assim, que eu na minha primeira vez em Vang Vieng cruzei o rio para o outro lado da cidade para ficar o mais longe possivel das baladas, e dos jovens bebados ocidentais. Alem do mais, a Maylin Guesthouse me tinha sido muito recomendada.

Cheguei num lugar simples, mas absolutamente lindo. Um jardim espetacular, do lado do Laos com cara de Laos. Com seus picos, com as pessoas, com a lama, as pedras, as poças, tudo parecido com o que eu tinha deixado para tras no meu vilarejo de voluntariado. Sentei a mesa comunal do restaurante aberto e pedi uma sopa maravilhosa. Ao meu lado conversavam dois homens, um rude, mal humorado, condescente, sarcastico e mais velho, e um mais jovem, polido, educado e engraçado. Levou pouco tempo para o mais velho começar a me insultar, e menos ainda para eu achar engraçado, e descobrir que aquele homem era o famoso “Joe”, dono da Maylin.

Joe, um irlandes, acido, que manda hospedes embora nao me assustou. Havia nele aquela acidez de quem na verdade tem coração de manteiga. Saxon, australiano e policy adviser, do outro lado da mesa, apenas ria. Levou pouquissimo tempo para ficarmos amigos. Ele, como eu, tinha pouco interesse no lado destruido de Vang Vieng, estava indo rumo a China, e Tibete. Partia no dia seguinte. Saimos para conhecer a cidade, reencontrar meu amigo magico Lucca, de quem imagino ja ter escrito e ao final da noite depois de uma dezena de horas conversando eu o convenci a ficar comigo. Deitado ao meu lado, me disse ” Ju, voce sabe que eu sou gay, ne?” Claro, que eu sabia, no primeiro segundo eu ja sabia, essa eh uma expertize adquirida por ser uma defensora assidua de gay rights, ter muitos amigos gays e de ter morado com muitos deles.

Ficou! Graças ao Saxon conheci lugares lindos, caminhamos pelos arredores de Vang Vieng. Nadamos nas lagoas, visitamos as cavernas, criticamos todos os bares iguais que passavam friends and family guy in Vang Vieng, assistimos meu amigo Lucca encantar o menino Lao fazendo magicas surpreendeentes no final da noite num restaurante vazio. Conversamos horas, e horas, e horas a fio. Quando finalmente deixamos Vang Vieng pegamos um dos onibus mais perrengue da minha vida em direcao a Luang Prabang. La em meio a muita chuva visitamos a cidade, que nos dois achamos quaint e generica, apesar de linda.

Saxon é um homem lindo. Um homem competente, um homem inteligente, bem sucedido, interessado no mundo, um homem que lavanta todos todos os dias para fazer o mundo melhor. Ele, assim como muitos outros amigos meus, apesar de tao bem sucedidos ainda tem que put up com o preconceito no mundo contra a homossexulidade. Quando eu morei em NY, eu participei de muitos momentos decisivos na vida de amigos meus: “the coming out of the closet moment”. Alguns como o Saxon devem causar mais surpresa, alias o Joe, achava que ele tava inventando que era gay so para viajar comigo. Mas mesmo o Joe, um cara para la de dificil nao mudou em nada seu comportamento ao Saxon, uma vez que eu disse a ele ” mas ele eh gay!”

Saxon, me agradeceu depois, eu na hora nao soube pelo oque. Ele me explicou que era pela minha naturalidade, por eu ter dito que ele era gay, por eu nao ter tentado fazer segredo. Aquilo me chocou na epoca. Jesper, meu amigo chines, que alem de gay eh ultra feminino passou pelo maior dilema na hora de contar para a mae. Eu insisti. “Jes, ainda que ela fique brava, nao ha violencia maior do qu vc viver todos os dias fingindo ser o que nao é!” Eu nunca pude compreender, como a mae dele podia achar que ele nao fosse gay. A mãe nao acreditou, quis leva-lo ao medico, e até hoje acha que é uma fase. o tamanho do denial de umas pessoas. Shane, meu outro roomate, se preparou por anos, para ouvir dos pais ” oh, that is what you wanted to tell us? tell us something new.” Minha amiga Nathalie me contou numa conferencia que o pai era gay, o padre o tinha convencido que aquilo era uma fase e passaria. O pai casou teve 3 filhas, e a fase nao passou. A mae da Nathalie, uma mulher supreendente, pediu tempo ao marido quando ele contou a ela. Nao sabia lidar com aquilo. Precisava de tempo para assimilar. Um ano depois se reencontraram ela conheceu o namorado do ex-marido e hoje em dia passam ferias juntos. Ela o novo namorado, o ex com o namorado, nat e as irmas. Dao-se muito bem. Houve estorias menos bem sucedidas, como as dos pais do Sean que nao falam mais com ele, ou da mae do namorado do meu amigo turco Serkan, que mandava o filho viajar o mundo. Eles de familia de status na Inglaterra nao poderiam afford a vergonha que era ter um filho gay. O filho viajou o mundo, e numa das viagens morreu. A mãe precisou perder o filho para conhece-lo melhor, so diante de tal fato ela mandou passagens para o Serkan vir ao funeral aqui na Inglaterram porque ela queria conhecer o homem com quem seu filho tinha morado anos. Eu poderia continuar por horas a fio escrevendo das estorias que afligem muito dos meus amigos mas o ponto que eu quero chegar é: que o meu preconceito, e o seu faz mal! Faz muito mal ao mundo.

Esses dias, recebi uma mensagem de um italiano de quem perdi o contato ha muito tempo. Cineasta, ator, diretor, virou muculmano xiita faz dois anos, tinha acabado de se circuncizar. Eu me interessei pela estoria. Como assim? O que leva a uma pessoa a se converter a uma reliigao distinta ja adulto? Ouvi, ou melhor li ele me explicar sobre o vazio que sentia. E fiquei tocada. No meio, de tantas coisas bonitas ele me disse que tinha mudado de ser liberal para conservativo. Ele citou o alcorao, e me disse que era contra gay rights. depois comecou a falar de roupas. De mulheres se cobrirem. Eu fiz perguntas e mais perguntas, para ver onde eu podia encontrar o common ground. E eu posso em muitas coisas. Ate as conviccoes que eu considero para la de machista eu ainda consigo compreender. No entanto, eu nao posso e nao vou aceitar ninguem que venha me dizer que eh contra “gay rights”. Aliás eu não sei nem se eu entendo oque isso quer dizer. É basicamente “eu sou contra vc ter direito por amar pessoas que eu acho que vc nao deveria amar”. Que fique claro, que eu nao relaciono isso ao Isla, pois conhecemos muito muculmanos que colocam a compaixao acima e tudo.

No New York times saiu esses dias a seguinte materia:

NATIONAL BRIEFING | MID-ATLANTIC
Maryland: Dead Marine’s Father Must Pay Protester

Lawyers for the father of a Marine who died in Iraq say a court has ordered him to pay legal costs for the anti-gay protesters who picketed his son’s funeral. The protesters are led by Fred Phelps of Westboro Baptist Church in Topeka, Kan. The father, Albert Snyder of York, Pa., had won a $5 million verdict against Mr. Phelps, but it was thrown out on appeal. On Friday, the United States Court of Appeals for the Fourth Circuit, in Maryland, ordered Mr. Snyder to pay the costs of Mr. Phelps’s appeal. The United States Supreme Court agreed earlier this month to consider whether the protesters’ provocative messages, which include phrases like “Thank God for dead soldiers,” are protected by the First Amendment. Members of the church maintain that God hates homosexuality and that the death of soldiers in Iraq and Afghanistan is God’s way of punishing the United States for its tolerance of it.

Basicamente, no funeral do seu filho, um pai tem que aguentar pessoas homofobicas, e para mim criminosas e ainda pagar o preço. E isso: nos ESTADOS UNIDOS! Quao longe podemos empurrar relativsimo cultural? Quao longe podemos defender direito de expressao? É claro, que filosoficamente falando, moralidade eh um tema dificil que pode ter suas raizes ou nao em biologia. E é claro que o drafting de uma convencao de direitos humanos sempre vai ser a imposicao de uma visao de vida no outro. E eu sempre vou ficar em cima desse muro querendo defender diversidade e respeitar as diversas formas de saber do mundo, e querer respeitar o bem estar individual de cada pessoa. Mas será que temos que realmente ser tao relativos? OU será que finalmente eu terei que aceitar, que eu vou ser arbitraria numa parte da minha vida ? Entao, hoje quando o italiano me escreveu me perguntou “vc nao quer mais falar comigo so pq eu sou contra gay rights?”. Me deu um aperto dentro de mim, eu não quero isolar o outro pois ele é distinto, mas a verdade é que de fato nao, eu nao queria mais falar com ele….Não que eu deseje mal a ele, eu só desejo na verdade que ele passe mais tempo preenchendo o vazio dentro dele com mais compaixao ao inves de doutrinar a vida dos outros..

Vivendo Nos Outros

Sempre me perguntam qual é meu lugar favorito no mundo. Antes de eu ir para o sudeste asiático eu sempre respondia que nao havia, cada lugar tem seu charme. E é verdade, eu continuo achando isso mas confesso que o sudeste asiatico se tornou o amor da minha vida. Já faz quase 6 meses que eu voltei e eu nao sei no meio de quantas noites eu já acordei sentindo um desespero enorme de pensar que talvez eu nunca mais voltasse a beira do rio do Mekong. É incrível, eu ainda me sinto tão proxima as pessoas que la conheci. Os locais e viajantes, as crianças, os donos de pousadas, os professores de yoga e meditacao. Assim que com e-mail e Facebook toda hora eu mando uma mensagem para um ou outro querendo saber um pouco da vida deles. Horm me mandou um e-mail super doce esses dias, tinha lido todo o meu blog em ingles, tudo que tinha escrito sobre a tailandia. Meu coracao deu um sobre-salto(?) ..meu deus, o que sera que eu escrevi? Faz tempo nem me lembro direito.

Faz umas semanas, fui jantar com mais uma palestrante da serie de Cultura e Congnicao da LSE. A mesa estava a palestrante Tanya Luuhrmann (professora de antropoogia de Stanford), e varios porfessores aposentados da LSE. Ao meu lado Chris Fuller e John Peel. Chris Fuller que é especialista no Sul da India, disse que para ele sempre foi bom estudar pessoas que pudessem ler o que ele escrevia, “afinal faz com que vc seja mais acurado no que escreve”. Diferentemente disse ele ” dessas pessoas que estudam uma tribo na melanesia, que podem dizer qualquer coisa”. Ler a mensagem da Horm, me fez pensar isso. Sera que eu fui acurada, e ainda mais grave sera que eu escrevi alguma coisa ofensiva? Acho que nao, pois ela gostou, me convidou muito para voltar e disse que quando eu voltasse eu ia ficar triste por um motivo, minhas amigas aranha, aquelas as quais tinha dado nome ( e escrito no meu blog), nao estavam la quando ela foi procura-las 🙂 Contou-me das criancas, do quanto elas ficam felizes quando eu escrevo, e de eu lembrar deles. LEMBRAR? Como assim, como eu poderia esquecer?

Fiorini, conta que os Nambiquara, quando alguem morre destroem tudo que pertence ou lembre aquela pessoa. Botam fogo nos pertences nao guardam nada. É porque para os Nambiquara eh necessario deixar com que o morto se esqueca, e enquanto ele existir em voce ele nao pode se esquecer. Entao, os que vivem queimam tudo, e colocam o morto numa gruta. La o morto vai aos poucos se esquecendo. E na hora que tudo que eh sua “consciencia” desaparece ele volta a ser “energia” ou espirito e vira uma estrela no ceu. Eu acho incrivelmente bonita essa ideia de existirmos no outro, e se de um lado precisamos esquece-los para eles poderem cessar de existir e partir, do outro, quando o outro parte, e deixa de existir eh como se alguma parte nossa deixasse de existir um pouquinho tambem. Como se morressemos um pouquinho.

Mas eu nao sou tao disciplinada quanto os Nambikwara e tudo que eu sou de desapegada de objetos eu nao sou de saber noticias de todos esses outros que contem pedacinhos meus. Entao eu mando mensagens e continuo visitando o facebook. E ele me avisando dos whereabouts de todos os meus companheiros de viagem nao me faz deixar de existir viajante o que torna a vida de sedentaria incrivelmente mais dificil.

The Virgin Whoppers

Que surpresa! Eu postei o video do Whopper, e recebi mil e-mails com as mensagens mais variadas. Pessoas que acharam que era fake porque ninguem se veste assim. Pessoas que acharam que eles estavam sendo ridicularizados por nao saberem comer hamburger. Pessoas que sentiram pena. Pessoas que acharam que era uma brilhante propaganda. Pessoas que adoraram.

Bom, eu nao pretendia escrever nada mas em face a tantas mensagens resolvi escrever. Engraçado isso. Ontem recebi uma mensagem do Ido meu amigo Israelense que eu conheci pelo couchsurfing com quem tenho discutido cultura e cognicao faz semanas. Ele mais para relativista cultural, jornalista independente me faz perguntas poignants sobre a utilidade de estudar o que há de comum no ser humano. Ontem me mandou esse video para ver o que eu pensava.

Coloquei o video, e pensei o que? Bom, para comecar eu sou vegetariana, nao gosto nem do Mc Donalds nem do Burger King. Nunca na minha vida acho que experimentei um Whopper. Assim, que quando o video comecou eu pensei ” MEU DEUS. nao acredito vao colocar as pessoas para falar que o Burger Kind eh melhor que o McDonalds” Mas ai deixei o video rolar, e deixei de lado o fato que era uma propaganda para ver o que tava acontecendo.

E na verdade, eu olhei para outras coisas: o fato que as pessoas tem sim curiosidade sobre o outro. O quanto hospitalidade e “comensality” sao importantes. Que de fato quando nunca fomos expostos a algo diferente nao sabemos como usar essa coisa! Na Tailandia, Horm, minha host morria de rir ao me ver usando os palitinhos, ou tentando fazer as bolas de arroz com o arroz errado! ou nem se quer saber usar com proficiencia a pequena colher. Isso para nao falar nas MILHOES de frutas que eu nunca tinha visto e nao sabia comer. Ou nas milhoes de coisas que qq crianca de 5 anos era proficiente, e que eu nao sabia fazer. Entao diferentemente de muitos, eu nao acho que mostrar as pessoas nao saberem como comer um hamburguer é ridiculariza-los. Acho que isso esta mais no olho de quem ve para ser bem sincera. Eu concordo mais com o que escreveu o Daniel Strauss (no comentario ao meu post), nao tem nada de obvio em muitos dos nossso comportamentos, observar alguem nao saber fazer uma coisa que achamos obvia, ou nao saber fazer o que muitas pessoas acham obvio nos faz consciente do quanto do nosso dia a dia “we take for granted”.

Uma outra amiga minha, disse que aquilo so podia ser falso afinal as pessoas nao se vestem assim. Tendo estado no norte da Tailandia e ido de carro de Londres a Romania posso dizer que sim algumas pessoas se vestem. Assim, como na Bolivia se encontra varias pessoas como roupas tradicionais, e em muitos dos outros lugares do mundo.

Agora o que eu gostei mesmo do video, eh ver a comida mil vezes mais saudavel, mais colorida, e provavelmente mais gostosa que os “nativos” preparam para os americanos como agradecimento. E no final, assistir o simpatico Inuit dizer cordialmente que gostou, mas que ainda assim prefere a carne de foca.

Das Diferencas Dos Muitos Parecidos

az tempo eu sei. E eis que uma dessas noites eu recebo uma mensagem da Renata uma “desconhecida que agora me conhece” e fico tao tocada que decido que tenho que escrever. Tao ironico isso. Marcelo Fiorini, ou Fortaleza Flores, que foi meu professor, de quem tanto ja falei, e hoje é querido amigo está sentado na cozinha aqui de casa junto comigo. Ele que morou com os Nambiquara por anos, responde ao Haiko qual o valor de fazer trabalho de campo. Psicologos e cientistas em geral, nao entendem muito bem, eu na minha pensada conversão ao mundo de cognição também penso o assunto pouco objetivo. Faz algumas semanas, eu fui jantar com o Dehaene depois de uma das palestras de cultura e cognicao que estão acontecendo na LSE.

Dehaene, que é diretor da Unidade de “Cognitive Neuroimaging” na INSERM-CEA, apresentou uma palestra sobre o que ele chama de” neuronal recycing”, simply put, o processo pelo qual “modulos” cerebrais se reciclam para fazer uma atividade ( nao selecionada pela evolucao) possivel. No caso dessa palestra, Dehaene falou de ler. A maioria dos antropologos que eu conheco fica horrorizada com fotos de cerebros, fMri e etc, assim que a platéia consistia na maior parte de psicologos, e cognitivistas. Depois da palestra tive o prazer de ir jantar com Dehaene, minha supervisora, alguns colegas, e a renomada psicologa de desenvolvimento Annette Karmiloff-Smith. Annette, dentre outras coisas trabalhou como tradutora da ONU, morou em diversos paises, e numa conferencia da WHO resolveu estudar psicologia. Trabalhou dentre outros com Piaget, e além de ser uma especialista em mental “disroders” como william syndrome, é uma critica de nativismo e modularidade. Ta isso ta ficando muito tec.nico. O ponto é que nessa noite, Haiko perguntou a Annette, que vem de um background completamente cientifico, psicologico, se ela achava que “field-work” era importante. Haiko conhece Annette pois trabalham no mesmo lugar, então sua pergunta era mais para ver o que alguem especialista numa area achava do metodo defendido por antropologos.

Annette, de quem eu gosto muito, respondeu de maneira cordial dizendo que nenhum metodo sozinho pode chegar a lugar algum. Lab studies sao importantes para chegar a conhecimento implicito, pq eh possivel controlar muitas variaveis, estasticamente significante. Ao mesmo tempo, field work and case studies are fundamental para entender as suas teorias. “Let me put that way, alone no method can tell you the truth, but if many different methods convey to same evidence, then you are getting somewhere.”

Entao nessa noite, eu que de certa forma, acabei “embodying” metodos mais psicologicos para chegar a conhecimento implictio, que sao consequentimente nao validos ecologicamente, insisti para que o Haiko perguntasse ao Marcelo como ele defenderia “trabalho de campo.” E o Marcelo, daquele jeito que é so dele, disse que um devia chegar ao trabalho de campo com perguntas, mas ficar tempo o suficiente para questionar as perguntas, depois questionar a propria endeavour. A pessoa devia deivar ter o tempo de passar pelo processo de se sentir perdido e achar que aquilo tudo nao faz sentido nenhum, para ai comecar a entender um pouco da maneira como esse outro grupo pensa. In a sense, é perdendo a objetividade que um chega a esse estado.

I pushed it. Perguntei se ele achava que as pessoas de diversas sociedades de fato concebiam distintamente. Sera que a maneria implicita como os nambikwara categorizam o mundo a sua volta é de fato fundalmentalmente distinta da maneira que nos concebemos. Expliquei que eu nao tinha duvidas que as “meta-representacoes” eram distintas, e que isso ja eh um mundo. Mas sera que as meta-representacoes afetam a estrutura. Sera que conteudo, afeta os processos? Sao perguntas é claro sem respostas.

Foi quando sentada a mesa, com o computador ao lado, resolvi mostrar um video do TED ao Marcelo. E eis que recebo a tal mensagem, de alguem que eu nao conheco mas que me deixa uma mensagem que me toca profundamente. Diz ter lido esse blog inteiro. Inteiro??? Como ela coloca “fica sentindo que me conhece sem me conhecer, sera que me conhece?”

Vou deitar, depois de muita filosofia, antropologia, cognicao, poesia, e eis que a mensagem da Renata nao me sai da cabeça. Ela leu me blog inteiro! Como será que eu sou no meu blog? Como será que eu mudei estes ultimos anos? Entao, eu volto la no começo do meu Blog. Lá em 2004. E começo a ler e para minha total surpresa percebo que na verdade eu nao mudei quase nada. Eu sempre acreditei que eramos os mesmo fundamentalmente, e que as variedades deviam ser preservadas. Um mundo multi-cultural tem que ser preservado , respeitado e apreciado! Nao podemos ter a ilusao e arrogancia de achar que o muito recente conhecimento cientifico ocidental tem as respostas para todas as nossas perguntas. Nao podemos sentar passivamente assistindo a destruicao das milhares de linguas e culturas (criadas a partir da nossa “shared evolved cognition”) achando que se todo mundo falasse a mesma lingua o mundo seria melhor.

Nao seria! O mundo fica melhor quando aprendemos a lingua do outro, a cultura do outro, dividimos a nossa, e compreendemos as limitacoes da nossa lingua, do nosso campo de trabalho, da nossa “cultura”. E fica melhor tambem quando compreendemos que apesar das limitacoes de um unico sistema, esse sistema is underlined pela nossa capacidade cognitiva universal. Marcelo, um pouco antes de eu dormir, me diz que se eu quisesse fazer meu trabalho de campo de doutorado na Amazonia podia me colocar em contato com umas 30 tribos distintas ainda sabendo que a minha pesquisa tenta responder questoes cognitivas. E aí fica claro para mim: façamos as duas coisas. Façamos o trabalho de campo passsemos pelo dificilimo processo de nao entender nada, mas o fato qeu eventualmente começamos a compreender o outro, é evidencia forte para mim, que dividimos muito do mesmo. Entao, lutemos pela preservacao da diversidade, respeitemos os limites das nossa disciplinas, e sejamos um pouco mais humildes, para usar quem sabe metodos interdisciplinares. Biologia, cognicao, na antropologia. Antropologia, e psicologa na medicina. Mas ainda mais importante, usemos o proverbo truco do vizinho de Istanbul, ou Confucius na hora que encontrarmos as limitacoes da nossa propria filosofia. Respeitemos e apreciemos a diversidade cultural. Permitamos que a cultura do outro nos faça questionar a nossa. Façamos tudo isso mas sem jamais esquecer que no fundo, somos todos muito parecidos.

ps: Renata, muito obrigada pela sua mensagem! Nao so ela me tocou profundamente, mas tbm me levou a pensar em muitas coisas. Obrigada.