Paredes Porosas

Como eu passei por muitos departamentos na minha vida academica, posso dizer que tive uma educacao bem variada. No centro do meu interesse, no entanto, sempre esteve os seres humanos. Hoje em dia antropologia e cognicao estao mais no foco do que eu leio. A relacao esteoreotipica entre cognicao e antropologia me fascina. Enquanto, estereotipicamente psicologos cognitivos criticam antropologos dizendo que seus exemplos de variedade sao mais de conteudo do que estruturais, por outro lado eles nao propoe explicacoes tao claras de como é que tanta variedade em conteudo é criada de a partir “so called common evolved structures”. Se deixarmos a esfera estereotipica de lado, percebemos que o ponto crucial desse debate é enteder como estruturas e processos cognitivos se relacionam com conteudo. Em outras palavras, sera que variedade em conteudo implica em mudanca em estrutura, e se esse for o caso até que ponto?

Bom, eu nao pretendo aqui ficar escrevendo muito disso. Esse exemplo era so para dar uma ideia, em que geralmente eu perco horas lendo. Na verdade, eu ja passei muito tempo lendo sobre colonialismo, pos-colonialism, direitos humanos, filosofia. Alias, semana passada numa conversa com um amigo filosofo, ele explicou que conhecimento sempre tem que ser mais fraco que evidencia. Dissociou certezas, de conhecimento. Certezas sao coisas como ” a certeza que o mundo existe”, ou a certeza de que “somos um ser que comeca e termina” essas certeza sao é claro bem universais. EU pelo menos nao sei de ninguem, ou nenhuma tribo que acredite que o mundo nao exista do lado de fora. A nao ser de uma maneira filosofica, um questionamento desses que nao tem prova. Eu e meu amigo ponderamos sobre certezas religiosas, sem duvida elas nao podem ser tao fortes, afinal vemos conversoes, ha variedade, e eu passei dias pensando nisso… Como sera que aprendemos essas certezas, e quao fortes elas sao?

Antes disso eu passei muito e muito tempo estudando politica do oriente medio, e eu perdi a conta de quantos protestos eu ja estive para mostrar o meu apoio. Para dar voz aos sem voz. De alguma maneira, injustica sempre mexeu comigo. MInha avo, diz que desde crianca eu ja dizia chorando ” mas isso nao é justo”. Eu sempre me imaginei uma pessoa de mente aberta, que tenta entender o outro. Na verdade, no mundo de direitos humanos, e defesas dos injusticados, nos de certa forma aceitamos mais os direitos daqueles que condizem com os do nosso zeitgiest. Um zeitgeist individualista, onde a liberdade do individuo é vista como paramount value (um desenvolvimento diga-se de passagem muito moderno). Essas visoes, é claro, num mundo incrivelmente plural e globalizado ficam cada vez mais dificieis de invocar sem cair em frases vazias como “o meu direito termina onde o seu comeca” que no fundo, no fundo nao dizem quase nada. Afinal de contas as nossas concepcoes de direitos e espaco nesse mundo plural varia MUITO!

Esse post, eu ia escrever para falar do Adam, meu companheiro de casa ex-militar, e do Piero meu amigo que se converteu ao Isla. Mas minha cabeca é meio assim, vai ligando as coisas mais improvaveis, ou o que esta ao meu dispor, e nesse momento pq eu tenho lido muito para minha prova, eu acabo me referindo a ciencia social. Do trabalho de Max Weber na a etica protestante, e “ciencia como vocacao” saiu o conceito de “disenchantmente” desencatamento. Bom, confesso que como nunca estudei ciencia sociais em portugues nem os titulos nem os conceitos sei muito bem. Sera entao, como quase tudo que escrevo, uma livre traducao. A ideia basicamente consiste no seguinte. Como no prostestantismo calvinista as pessoas eram predestinadas a serem salvas, nada que fizessem durante essa vida faria muita diferenca. No entanto, para Weber, a ansiedade causada por essa incerteza fazia com que calvinistas trabalhassem muito, pois inversamente, viam os frutos de seu trabalho como sinal da predestinacao a “salvacao”. E como a etica protestante condenava confortos e luxo, todo o dinheiro ganho era re-investido no negocio. Essa etica (junto com outros fatores), para Weber, era a ideologia ideal para o “rise” do capitalismo como sistema. No entanto, com o “rise” do capitalismo a racionalizacao necessaria para produzir lucro etc, aos poucos tomaria lugar da ideologia que instaurou. Por isso para Weber, capitalismo, modernidade, levariam a racionalizacao, secularizacao, individualizacao : ao densencantamento do mundo. Bom, eu to simplificando bem, mas o que importa para meu post, é que para Weber, na modernidade religiao perderia seu lugar de poder social e o mundo ficaria desencantdo.

Essa teoria parcialmente empregada por teoristas modernos (Bruce, Huntington, Tibi) ainda preve que o mundo esta passando por esse processo de secularizacao. O enorme crescimento no Isla, Hinduismo, cristinanismo, movimentos New Age, para nomear alguns deixou muitos proponentes dessa teoria, é claro, perplexos. Na antropologia, esse probelma se traduziu numa linha de estudo sobre o re-encantamento do mundo. Robert Hefner, professor de Stanford, escreve muito sobre isso: sobre religiao e as multiplas modernidades. O que ele mostra revisitando o desenvolvimento do Isla, Hinduismo e Cristianimso, é que na realidade essas religioes nao perderam forca politica. Nos EUA, por exemplo, cristianismo por ter se mantido a margem no estado se manteve muito forte. Para Hefner, o crescimento do Isla se beneficiou muito da modernidade. Da objectificacao de conehcimento que foi permitida pelos “rise” dos estados, educacao superior, livros mais baratos. E para ele enquanto a modernidade de um lado fomenta a expansao do Isla, do outro fomenta tbm a sua interpretacao ( mais pessoas tem acesso, e o valor de interpretacao cresce). Em mundos tao globalizados, e plurais sobram 3 opcoes uma tentativa de dominar e colonizacao, manter-se “puro e excluido”, ou enfraquecer suas doutrinas. Afinal num mundo onde a presenca de diversas religioes é constante, as paredes que as divide se tornam mais porosas.

Eu de estranha maneira posso dizer que isso tem acontecido comigo. Durante a minha vida ultimamente tao academica eu fui muito protegida do outro tao outro para mim. E eis que agora eu estou morando com um ex-militar. Um ex-militar que esteva em 9 guerras ( Iraque, Iugoslavia, Rwanda, Belize, Afeganistao etc) e que adorou ter ido para guerra. Um ex-militar que vem me mostrar fotos que ele tirou nesses paises. Volta e meia eu digo algo provocativo “Quando vc assistiu Avatar ficou bravo que o homem trauiu o exercito” “Claro que nao Jules. I have a heart! The army was wrong!” E é claro que ainda que eu fosse passar horas dizendo que os ingleses tbm estavam wrong de estar no Iraque ele nao concordaria. “You know. I just do what I am told. I am not a politician” O negocio estranho é que no passado eu teria entendido isso como uma defesa psicologica, como o discurso criado para poder suportar o terrivel. Vivendo dia a dia com o Adam as paredes entre opressor e orpimido ficam bem mais porosas. De alguma maneira surreal ele se importa mais com as pessoas do que todos os meus amigos e eu que defendemos direitos humanos juntos. Assim com Alyosha ele se importa com induviduos, enquanto nos com a distante “humanidade” (Nos Irmaos Karamazov).

Anteontem, Adam, que é simples e do norte preparou um jantar para casa inteira. Fez meu prato especialmente vegetariano. Trouxe um por um. Nos explicou que isso era comida tradicionalmente inglesa. Eu fiquei tocada, toda aquela comida para todos nos. Depois explicou que queria nos levar a Scarborough, sua cidade natal. Até a maneira dele de me incentivar é totalmente o oposto do que eu esperaria …”All the Pubs are at least 400 years there… know you dont drink and all, but Scarborough is the most beautiful place in the world. It was on TV the other day!” Tem fotos do seu filho que é Israelense e chega em junho por todo o quarto. O filho tem 10 anos e quando eu perguntei o que ele achava dele “join the Israeli army” Adam, me explicou que “the Israeli Army is fantastic, not that he would say it is better than the British one, only if he had to. But my baby, my son, I want him to be in the marine, and just float.” Pergunto por que “Are you crazy too much life being lost there for nothing!”. Pergunto a a ele se ele iria para Gaza, ele diz que sim. “Entao porque voce nao quer que seu filho va????” “Jules he is my baby son, my baby, are you crazy!” Adam telefona para o filho todos os dias, vai a Israel 4 vezes por ano, e o traz nas ferias de verao para passar 3 meses com ele. Quando fala dele se emociona. Da ex-mulher, explica “que é uma mulher forte maravilhosa. We fell out of love, we are great friends though!” E ao poucos vai cativando a todos, na sua simplicidade, na sua humildade, na sua generosidade. Noutras vezes, no entanto, as paredes se tornam completamente visiveis, concretas, solidas. Ele traz um album de fotos, nele fotos dele no Iraque, Belize, etc Uma foto esta faltando, ele a descreve, é uma foto maravilhosa ele explica: “Eu no Iraque, o sol quente, o deserto, dois Iraquianos ajoelhados, eu apontando minha metralhadora para cabeca deles, e o vento batendo no meu lenço.”

Haiko fica sem palavras. E eu confesso que nao sei direito o que pensar. Assim como quando meu amigo Piero ( o que se converteu ao Isla), me escreveu ha algumas semanas dizendo que apesar de discordamos em poucos pontos somos muito parecidos. Manda essa mensagem junto com o link que explica que era dia da Fatimah, a mulher ideal de acordo com o Isla. Eu fico sem palvras porque no fundo eu nao entendo. Mas vai ver que o Hefner tem razao, nesse mundo tão plural so existe a opcao de total seclusao, de overpower, ou de enfraquecer um pouco das nossas ideologias, pois essas sao paredes sao porosas demais.

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