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Sobre julietafalavina

Eu escrevo da minha vida, e agora sobre a minha recuperação da saúde .

Sem ponto final

É chegada mais uma vez a hora de eu partir. Já pensei umas mil maneiras de não partir. Mil coisas que poderiam dar errado e me prender aqui. Será que eu sempre faço isso. Confesso que eu já não sei mais se sou tão viajante, ou se por viver tanto essas mudanças o tempo todo acabei acreditando que sou. O que eu sei é que nessa manha faz sol la fora e a idéia de voltar para uma Londres gelada e sem luz é bem pouco charmosa.

Minha estadia no Brasil teve 4 fases. Um calendario lunar 🙂 A primeira fase sempre começa comigo vindo tensa me escondendo no meu cantinho indo visitar a “maquina”, fazendo meu exames, esperando o resultado, recebendo-os celebrando os e aos pouquinhos saindo da toca.

Na segunda fase eu fui me acalmar lá no sul com minha prima recem coincida de fato, mas como ja expliquei aqui, conhecida de muito tempo de dentro. Passei com ela o tempo da paz. Fazendo nada alem de ter conversas inspiradoras, caminhadas em meio ao verde, yoga, comendo comida organica, me encontrando com pessoas muito especiais. Renovando todas as baterias. Lembro de pensar enquanto estava na Lapinha que de fato 2010 tinha sido tranquilo que eu nem se quer precisava descansar tanto. Mas como a vida escreve certo por linhas tortas eu compreenderia depois que eu nao estava me renovando por esgotamento com o passado, eu estava me preparando para encarar o que viria no futuro.

A terceia fase foi o Rio de Janeiro. E o Rio de Janeiro foi tudo que há de intenso para mim. Sol demais, emoções demais, encontros demais, reencontros fortes.. e ainda uma despedida epica numa noite chuvosa onde eu acabei passando uma das piores noites da minha vida tentando fugir de um ataque um amigo meu. Foi epico. Chovia, eu chorava ele gritava. E eu que já tava meio esgotada antes da tal noite parti do Rio assim como quem foge esperando encontrar no deslocamento um cessar para toda o turbilhão e reviravoltas do dentro.

Então chegou a quarta fase: Ubatuba com minha familia. A fase de reavaliar tudo. O que é mesmo que eu to fazendo? Porque mesmo quero ir fazer minha pesquisa de campo em Israel? Porque é que eu moro em Londres? Porque é que eu deixo aqui tantas pessoas que eu amo? Perguntas, muitas perguntas sem resposta. Morria umas dez vezes por dia por não entender muito bem o tempo das coisas. Alguem que tiver lendo aí da uma luz. Como é que a gente sabe se quebra tudo? Ou se espera o furor passar? Não sei. Então eu nadei pedindo a todos os orixas e todo aquele resto de coisa que eu nunca nem sei quem é que tirasse ali no mar tudo. Andei a praia de ponta a ponta umas mil vezes. Fiz Yoga em todos os pedacos do meu jardim, em todas as partes da praia, em todos os pedacos de mim. Meditei na areia, na pedra, sentindo areia, sentindo o mar, sentindo os sons. Conversei com desconhecidos, com familia e até tive a chance de conhecer o grande flautista Toninho Carrasqueira e tocar com ele e seus amigos no Hotel da Dona Antonieta amiga da minha mãe.

Pronto e aí chegou a hora de partir. Voltei para Sao Paulo num choro silencioso de quem realmente nao sabe o que fazer. Será que toda vez eu passo por isso? Eu nem sei mais. Como é que a gente aprende a ficar no tempo nas coisas o tempo todo? Sem querer que ele se estenda ? Mas ao mesmo tempo como sera que a gente sabe que talvez nao esteja mais vivendo o tempo das coisas e por isso fica querendo fazer todo os resto se estender. Nao sei. E toda a meditacao do mundo nao resolveria, porque quando isso bate, bate assim sem vc querer se anestesiar, sem querer deixar passar.

Entao eu sento aqui na sala. Sento mais uma vez esperando meus queridos amigos aparecerem para dizer adeus. Muitas vezes esses adeus sao” Olas” pq na minha estadia eu nunca consigo ver todo mundo que eu queria ver. E sao nessas despedidas que eles vem dizer “Ola e Adeus” junto. E eu fico sempre com um nó na garganta. Sempre tento me convencer que isso é só até eu chegar do outro lado e me refaço nos outros encontros. Eu sei que um post devia ter conclusao… Normalmente eu concluo nisso em saber que do outro lado as coisas se resolvem mas nesse exato momento eu to me sentindo assim sem ponto final.

Encontros

Eu estou acostumada a me sentir só em continentes distantes. Achar alento nos pequenos momentos de reconhecimento, em ver coisas tolas que em terras longinquas me trazem tao perto de me sentir parte de um todo. Quase nunca me importa me sentir só em lugares que eu nao falo a lingua. É sempre no encontro com o viajante, um outro “wanderer” existencial que eu me sinto em casa. E apesar de eu saber de tudo isso muito conscientemente, inconscientemente eu de alguma forma sempre espero que aqui no Brasil eu me sinta mais em casa. Eu não sei direito porque eu espero isso, porque o lugar “parecer” familiar só evidencia na verdade o quão arbitrario tudo é. Assim, que muitas vezes aqui no Brasil eu me sinto mais só do que em outros lugares do mundo. Eu sei que é uma ilusão, a solidao deve ser a mesma, mas é em meio a esperar o familiar e não importa quanto eu me prepare para isso, la dentro eu sempre espero encontrar um sentimento de casa. Nao encontro. Nao encontro em lugar fixo nenhum, e acho que nunca vou encontrar, eu encontro nos encontros…

E quando esses encontros acontecem meu deus como eu me emociono. Eu fico tão grata. Acessar ali com um outro alguem algo de privado, de secreto, de unico de individual. Algo que eu mesma nem lembrava que sentia tanta falta. E eu tento engolir tudo, ficar ali naquele momento o tempo que eu puder ficar, porque é tudo impermanente, e na minha vida de eternas mudanças o impermanente é tão evidente. Lembro do ultimo café da manhã que eu tomei com minha amiga Sabrina Rabello ( alias cd dela esta lançado!!!) em Londres, antes dela se mudar para começar um post doc em Boston. Lembro de querer estar ali tanto, porque tudo aquilo que nos dividiamos, quem eu era com a Sa ia ter que por um tempo indeterminado ficar suspenso. Lembro de no dia seguinte de sua partida ter algo para dizer para ela, que so ela no mundo todo poderia entender. Lembro de sentar no ponto de onibus sentindo uma saudade, uma falta de ar por mais uma vez ter que recriar o mundo sem a minha amiga por perto.

Lembro de sentir isso também quando parti da Asia. Sentada no aeroporto eu tentava imaginar mil maneiras de voltar para o Rio Mekong. Meu mestrado para acabar, minha vida suspensa em Londres, e eu querendo voltar para o norte da Tailandia. Lembro de mal conceber durantes as noites como seria se eu nao pudesse nunca mais voltar para a Asia. Lembro de no Hospital, quando eu ainda nao sabia o que eu tinha, de pensar meu deus eu quero ver o mundo, eu quero subir pedra e arvore, eu quero aprender a rir em outras linguas e se eu nao puder fazer mais nada?

E lembro é claro tambem dos momentos de encontro. E qualquer triagem que eu faça aqui será injusta. Deixará de fora momentos e pessoas importantes. Porque eu quase sempre to 100% por cento nos lugares onde estou. Lembro dos tambores berberes tocando na minha pele no deserto do Sahara, do vendedor de rede no litoral do Brasil, do meu encontro com SS Karmapa na India, sentir todos os musculos enquanto eu tentava descer uma pedra no sul da Asia, o molejo do elefante, o abraço inusitado de Tangmo, minha aluna tailandesa. Lembro de gargalhar com Horm, e Aoh na varanda de um vilarejo minusculo sem entender quase nada. Gargalhar em meio a trovoadas e falta de luz enquanto Aoh massageava Horm. Lembro de me sentir dentro da casa bombardeada no Iran quando minha amiga Sara apavorada veio ao meu quarto no dia que os EUA invadiram o Iraq falar de suas memorias de infancia. Lembro de ouvir a Joss, em Ny, me contar com todos os detalhes do mundo sobre o presente que ela tinha ganhado de uma menina tibetana. Ou entao, de ouvir Elisa me contar shakespeare dentro do Jardim Botanico, sentir o piado dos passarinhos na pele. Em todos esses momentos eu senti uma gratidao enorme por poder ouvir essas estorias, por poder estar la.

Na Lapinha, agora nesse final de ano, eu tive encontros assim. Primeiro o meu encontro com minha prima que mexeu muito comigo. Depois com mulheres que tinham tantas estorias lindas para contar. Mulheres que se encontraram como mulheres. Se encontraram nas minha estotias pouco ortodoxas. E por sentirem se a vontade ouvindo as minhas contavam as suas. Como somos parecidos no mundo era tudo que eu pensava.

Conheci na Lapinha uma mulher excepcional. Claudia Alcantara. Quando ouvi a estoria da sua vida disse imediatamente que escreveria sobre ela. Ela me explicou que ja tinham escrito. Eu expliquei que nao era que eu ia escrever para ninguem publicar. Eu escreveria no meu blog onde eu transbordo assim meio sem sentido e quase ninguem le. FIcamos amigas. Claudia é uma grande empreendedora. A mente dela não para nunca. Paramos juntas para meditar. E eu ouvi ela contar suas estorias. Claudia que criou a Cadiveu uma empresa que faz cosmeticos para cabelereiros, criou tbm um salao, e uma loja de produtos organicos. Cadiveu é um nome de uma tribo. Eu não sabia nada sobre eles. E nem tao pouco sobre cosmeticos.

Ontem fui ao salao da Claudia. Praticamente brincamos de boneca 🙂 Ela me penteou. E eu pude conhecer a loja organica dela. Ela me mostrou um vaso pintado pelos Cadiveu e me contou sobre eles. Me contou sobre como ela criou tudo que criou. Seu sucesso, e sua beleza não estão para mim na estoria comercial de sucesso. Mas numa coisa bonita que ela me disse. “Ju, atraves do meu trabalho eu to podendo dar trabalho, e ajudar muita gente. Eu tento ajudar os Indios o maximo que eu posso. Eu me encantei pelo arte deles.” Fui ouvindo seu planos e fui ficando emocionada. Eu vivo num mundo academico, esse outro mundo é muito alien para mim.

“Eu criei tudo que eu tenho. Comecei do nada. Eu não me importo com o dinheiro em si. Dinheiro é importante para eu poder continuar criando, ajudando as pessoas a minha volta, eu acho que temos que fazer o bem.”

Caminhamos juntas até minha casa. Queria ter dito a ela que ela não começou do nada. Ela começou do tudo. Do que realmente importa. Não disse, as vezes essas coisas ficam no silencio. E eu senti aquela coisa de encontro. Que eu sinto as vezes nos momentos mais distintos. Com pessoas as vezes tão diferentes de mim. Acho que são pessoas que querem um mundo melhor. Que constroem diariamente um mundo melhor. Não precisa ser nada megalomaniaco, mas alguma conviccao que o mundo está sim mudando, e que nós nas interações diaria somos parte do mundo que se forma.

Em um desses encontros muito profundos e intensos que eu tive me disseram. “Voce nao ta 100% aqui. 100% por cento é ficar. é nao ir embora.” Pensei tanto sobre isso. Talvez ter a partida determinada faça com que eu tente estar muito mais pois tenho pouco tempo. As vezes me dá medo eu me abrir tanto assim, e amar tanto assim. As vezes é exaustivo ser eu. Mas o que é que eu posso fazer….. eu não sei ser outra pessoa.

Encontros Inusitados

Estou ficando na casa do meu grande amigo Fellipe Gamarano Barbosa. Fellipe é cineasta, ele ve o mundo assim de uma maneira só dele. As vezes discutimos por causa disso porque eu vejo de uma maneira so minha. As discussões duram pouco pois somos amigos há tempo demais. Da casa dele saí de manhã para encontra uma outra amiga nossa que estudou conosco em NY. Marcamos o encontro no BiBi sucos o unico lugar que eu sei ir aqui no rio. Eu sei porque é logo aqui do lado. Assim que todo mundo que eu tenho que encontrar, eu encontro la. O Bibi é um lugar muito popular então na hora de almoço está sempre cheio.

Esperei do lado de fora minha amiga chegar enquanto eu observava a movimentação lá dentro. Quando ela finalmente chegou, entramos e eu pedi a dois senhores sentados numa mesa se podiamos divivir a mesa com eles. Eles concordaram, e começamos uma breve conversa sobre como era meio triste o fato das pessoas ficarem sentadas sozinhas em mesas de 4 lugares enquanto tinha gente que esperava de pe. Sentamos de uma maneira que minha amiga Elisa ficou na frente do meu vizinho e eu na frente do dela.

Tivemos conversas paralelas e por uma hora eu realmente nao tive a menor ideia sobre o que estava acontecendo com ela. A minha frente estava David. Um senho de 74 anos, muito em forma, muito gentil e que parecia emocionalmente abalado. Perguntei se ele estava bem e ele me explicou que estava muito tenso, sua filha diabetica tinha sofrido uma operação de 8 horas. Ela, ele me explicou era uma pessoa dificilima. Se recusava a ter enfermeiros terapeutas, nao comia e vive entrando em coma. Ele tem que ligar o dia inteiro para ver se ela comeu e quando ela nao atende ele sabe que tem que sair correndo porque ela deve estar em coma. ” Quando ela entra em coma na cama tudo bem, eh facil, mas quando eh no chao e eu tenho que dar agua com açucar com conta gotas ajoelhado no chao me arrebenta! eu tenho 74 anos!”

Eu quando ouço essas coisas sempre quero trazer uma palavra de alivio. Ali eu nao sabia o que dizer. Propunha solucoes todas tentadas. ” MInha filha eh muito revoltada! vc nao entende ela bate o pe e nao faz”. Eu queria dizer ” Entao deixa! O senhor nao pode ficar 24 horas por dia tomando conta da sua filha!”. Impossivel de dizer isso. Como dizer a um pai que ja viu a filha quase morrrer um milhao de vezes para deixa-la e ver o que acontece? Entao eu ouvi em silencio. Ele me contou que tomava conta da filha, a sobrinha tinha tido cancer 5 vezes, o irmao tem 91 anos. Fui ouvindo sem saber o que dizer. Eu so dizia “Davi, o senhor precisa tomar pelo menos 5 minutos por dia para meditar! Pare por um segundo e fique com vc. Esqueca todos os outros!”. “Eu nao posso minha filha, eu tenho que cuidar deles!!!” Eu ouvia, e sempre insistia na minha ideia ” 2 minutos no banho fecha o olho e larga tudo!”. Conversamos muito. E ao final ele que me explicou que era meio medium me contou que tudo que eu fizesse eu faria bem, daria certo. Eu agradeci as palavras.

Ao meu lado, Elisa minha amiga teve uma conversa bem menos inspiradora. Ela que é atriz conversou com outro Davi o ator da escolhinha do professor Raimundo SambariLove. Eu nao o reconheci porque eu sou pessima com essas coisas, alem de nao ter visto a escolhina muitas vezes.

De noite, fui com Fellipe a um bar aqui perto de casa. Sentamos, e ele comecou uma conversa com um senhor que eu tao pouco tinha reconhecido. O senhor estava fazendo um filme sobre musica e compositores. Fellipe falou para o senhor de mim, e me mandou sentar com ele. Das grandes coincidencias. O senho era o Eduardo Coutinho. De quem eu confesso nunca tinha ouvido falar ate assistir o filme sobre o qual escrevi no ultimo post. Sentei me com ele e disse tudo aquilo que escrevi aqui. Conversamos sobre antropologia, filosofia e muitos outros ia. Ele me falou para mandar as musicas. Eu achando aquilo tudo meio estranho. Eu que componho assim por diletantismo fiquei sem saber direito oque dizer. Nao fazia nem 12 horas que eu tinha escrito sobre ele, sobre o filme dele.

Voltei para casa, e o ultimo pensamento que tive antes de deitar nao foi sobre o E. Coutinho. A conversa com o Coutinho foi muito interessante mas oque me tocou foi o outro encontro, o outro que me deixou bem mais feliz. Foi o Davi. Logo antes de sair do Bibi ele me olhou e disse “Me desculpe! Eu joguei toda essa carga em cima de vc! Eu te contei tudo sobre tudo isso.” Eu expliquei que ele nao precisava pedir desculpa, que eu esperava que ele parasse 2 minutos por dia para se recarregar. Que eu tinha ficado tocada ounvindo tudo. E entao ele disse ” Julieta. Voce é uma pessoa muito muito especial. Encontrar voce aqui foi a melhor coisa que aconteceu no meu ano todo. Muito obrigada por vc ter me ouvido!”

Meu olhos se encheram de lagrimas. E eu entendi que as vezes nao temos que dizer nada. As vezes as pessoas sao colocadas no nossa caminho para serem ouvidas, para nos ouvirem. Ouvir mesmo. Ouvir com tudo que ta ali. E eu ouvi, e foi um presente muito grande para mim apenas ouvir. E no final ainda ouvir de um homem tao bom que nosso inusitado encontro tenha trazido um pouco de alento.

Das Tendencias Humanas

Um amigo meu me disse uma vez “deve ser exaustivo ser você, seu sistema empático é forte demais.” Eu ri. Provavelmente porque ele tava rindo, se tivesse chorando provavelmente eu teria chorado. Sera realmente tudo culpas dos neurônios espelho, de um sistema empático muito forte, ter nascido na América do Sul? Sei la. Tudo isso misturado e provavelmente mais um monte de coisa que eu devo ter deixado esquecida.

Eu to no Rio. E eu sinto demais. É quente demais. Os re-encontros são profundos demais, até os novos encontros me movimentam demais. Um outro amigo, tbm antropólogo me disse Tel Aviv e Rio são parecidas. Ele que morou tbm em Beirute acha isso de la tbm. Quanta intensidade. As coisas no Rio são exageradamente bonitas, e caóticas. Exageradamente para mim as vezes um pouco superficiais. Não digo isso como Paulistana que desgosta do Rio. Eu acho que essa superficialidade que eu encontro aqui ta la nos shoppings, nas boates, nas ruas do Jardim. Coexistindo tbm um milhão de outros mundos…pq nessas cidades caóticas tudo coexiste lado a lado.

Fellipe, me levou para ver o ultimo filme “secreto” do Eduardo Countinho. Foi no Instituto Moreira Salles, e foi secreto pq o filme é inteiro sobre um dia na TV aberta brasileira. Antes de escrever aqui pensei e fui fazer uma pesquisa para ver quao secreto esse filme era, afinal eu tbm nao quero que o Coutinho seja processado. Quem quiser ler informações aqui estão.

Eu nunca assisto televisao. Alias nao tenho uma televisao. Entao um filme inteiro de clipes da TV aberta foi particularmente dificilimo para mim. Nao pelo conteudo pq nao me surpreende tanto o que esta na TV brasileira. Tudo isso é sabido. É sem duvida um retrato assustador da sociedade brasileira. Eu tao pouco achei muito especial. POdia ao me ver ter sido um projeto de escola. Enfim, eu assisti o filme e quando ele acabou e o painel de discussao começou eu estava curiosa para ver o que as pessoas diriam. E o que o Coutinho dizia.

Ele disse muito, mas eu achei que não disse quase nada. Disse que não adianta fingir que a TV não esta aí que nos precisamos entender o porque tem tanto poder. O que as pessoas que assistem pensam. Que precisava ser feito um trabalho serio. Eu calada pensava dentro de mim: Então façam, vcs estão falando de um estudo antropológico mande alguém numa comunidade e observem as pessoas ver tv, ouçam o que elas tem a dizer… idealmente façam testes implícitos. Isso é claro da bem mais trabalho.

Depois ele disse que precisávamos entender porque esses programas tinham tanto sucesso. Uma vez mais a chata acadêmica dentro de mim pensava ” ué…. testa… coloca algum num mri, num eeg…poe os programas. Investiga, tenham perguntas empíricas. Teste-as. Nao é difícil de ter proposições. Todos esses programas devem “play” em tendencias muito ingrained muito ligadas a nossa estoria evolucionaria.

Como sempre a grande pergunta para mim é o quanto estimular essas tendencias realmente muda alguma coisa. Isso tbm é uma pergunta empirica. Ou melhor, o quanto conteudo afeta estruturas cognitivas. Eu acho que é muito importante entender o homem como ele é como todas essas tendencias a categorizar, essencializar, gostar do seu grupo mais do que o outro, querer ser belo, etc etc etc… para que possamos desenvolver melhores sistemas educationais, planos politicos, filosofias.

Colocar la um filme com varios pedacos de TV eu acho que faz muito muito muito pouco. Ainda tem uma certa parte da experiencia que faz o espectador ali na sala do IMS se sentir tao dierente tao distinto das massas. Nao é. Nao somos.

Quando eu estava na Lapinha a Maluh, uma mulher excepcional que trabalha em um milhao de projetos artísticos e de paz criou uma atividade. Ela nos ensinou a fazer uma lanterna de cartolina de sao joao. Fizemos todos juntos numa sala. Nos que nao nos conhecíamos fomos trocando material, ajudando uns aos outros, nos concentrando na execução de um coisa nova. A noite, ascendemos nossas lanternas.

Maluh propôs uma caminhada em silencio. Que observássemos a luz. Fomos em silencio pelos arredores da Lapinha. Ouvindo os sapos, e diferentes ruídos pela noite. Um exercício tao filosófico. Não dá para olhar para a própria luz, você tem que olhar para a pessoa da frente. A sua luz ali na cara ofusca.. ela tem que ficar meio de lado, iluminar o caminho do outro. Caminhamos em silencio. E aquela brincadeira em segundos virou um ritual.

Meu primo de 11 anos tomou a dianteira. Ele que adora computadores e internet estava no ritual dele. Andando guiando, uma senhora de 74 anos também estava no ritual dela. NO ritual nosso. Ao final. nos juntamos para dizer um pouco do que tinha acontecido. Todo mundo tinha algo para dizer.

Eu agradecia a Malu porque ali naquele instante, eu lembrei de uma coisa preciosa. Nos temos todas essas tendencias. A tendencia a ter liberações químicas e aditivas quando assistindo programas de TV ruim, e tendencia de criar um ritual magico. A Maluh me contou que quando foi fazer um projeto na Febem levou tinta para os meninos pintarem. Eles la com toda aquela bagagem pintaram coisas lindas, coloridas. Acho que tudo isso eh para dizer isso. O retrato da TV brasileira diz um pouco sobre nossa sociedade. Não muito. Nossas tendencias são muitas. Estimulemos as que nos torna mais sociais, e mais humanos.

Na Calada Da Noite

Estou escrevendo este texto no avião. Indo de Curitiba ao Rio. Já perdi a conta de quantas vezes eu cruzei as fronteiras imaginarias pelo céu. A terceira vez que cheguei a Mut Mee, minha casa em Nong Khai na fronteira da Tailandia com o Laos depois de ter dado a volta pelo sudeste asiatico, cheguei de madrugada. Tudo estava fechado. Entrei, e sentei nas grandes mesas cobertas por telhados de sape. Fiquei incrivelmente feliz ali. De volta. Lembro de pensar no livro da Liz Gilbert, na sua chegada ao Ashram na India, bem no meio da noite quase de madrugada. Lembro dela explicar, que seu avo dizia que uma galinha para ser aceita no galinheiro, tinha que ser assim, colocada no meio da noite. Dessa maneira quando todas as galinhas acordassem era como se a nova galinha nunca tivesse partido. Pensei isso aquele dia. Pensei isso todas as vezes que cheguei em algum lugar assim, de mansinho, aos pouquinhos.

Foi meio assim minha chegada a sao Paulo dia 26 de novembro. Cheguei e fiquei quietinha, sem ligar para ninguem, porque nesse ano como nos ultimos vim para visitar a famosa “maquina”. Fui fazer meu exame de ressonancia, e dessa vez tão tranquila, ou quem sabe tao cansada, até adormeci dentro da maquina de ressonancia magnetica. E fiquei mais uma semana meio quieta esperando par air la correndo e fazer o que eu sempre faço, pegar o meu exame, e abri-lo, e procurar a unica coisa que faz sentido para meus olhos nao medicos. A conclusao. E mais uma vez ela dizia: “nenhuma nova alteração”. E eu chorei como sempre choro na percepção da fragilidade e da força da vida.

Alguns dias depois da minha chegada minha mãe me convidou para ir com ela a AACD onde ela voluntaria ja faz alguns anos. Ela sempre conta as estórias, e quando eu meio que ameaço ficar um pouco emocionada ela explica. “Não precisa ficar emocionada, a AACD é um lugar muito alegre! As crianças riem muito”. Eu fico tocada quando minha mãe diz isso. De fato, muito do sofrimento que vemos está nos nossos olhos. Nem sempre dificuldade é sinonimo de tristreza. Então que quando eu fui com ela a AACD, cheguei la do meu jeito. De mansinho, observando de longe com cuidado… fui me apaixonando pela professora uma mulher excepcional, que da aulas para 35 criancas de 5 anos de manha numa escola da prefeitura, e a tarde na AACD. A vivacidade, a alegria, o empenho, a dedicação são totalmente comoventes. A professora, faz de um tudo, compra coisas do seu proprio dinheiro, livros, estorias, faz fotografias, e aqueles alunos de fato são alegres, e apaixonados por ela. Minha mãe tem razão não é um lugar triste. São muitas e muitas risadas.

Depois disso eu fui parar em Curitiba, com uma prima que eu so realmente conheci ao vivo em junho. É incrivel como podemos nos conectar tanto com alguem em tão pouco tempo. Eu, já expliquei aqui um milhão de vezes que não sou nacionalista. Eu também nao sou parcial. Nao gosto de alguem so porque é da minha familia. Raramente tenho esse sentimentos que ligações de sangue importem muito. Acho que contruismo os nossos relacionamentos, e que vamos escolhendo pessoas que admiramos para respeitar e admirar. E essa minha prima apareceu assim, para dividir coisas de alma.

Com ela vim a Lapinha, um spa no parana. Um lugar lindo. Um lugar tranquilo. Um lugar verde. Organico. Não é um spa tipico. As pessoas que estao la nao sao obsessivas com emagrecer. Nao. A lapinha é cheia de pessoas que estão voltando lá para descansar, para se acalmar, algumas até para engordar. É tudo tranquilo, tudo num clima bem de paz. E ali eu fiz muitos amigos, e conheci pessoas realmente incriveis e eu pude “reconhecer” a minha prima, porque conhecer eu ja devia conhecer em algum lugar da alma, em alguma outra dimensao, em alguma outra coisa bem pouco racionalizavel.. E hoje eu saí de lá assim, bem cedo, bem de madrugada para que quando amanhaecesse fosse como se eu nunca tivesse partido, nunca tivesse estado.

Eu acordei e no silencio da noite sentei com minha prima no pequeno sofa, mal concebendo como a vida pode trazer alguem a sua vida assim. Alguem que nao existia na sua vida e de repente a vida é impensavel sem a existencia daquela pessoa. Parece que ela sempre esteve la. E eu sentei ali, tao grata, tao tocada, tao feliz, tao dificil, tao cheia de sentimentos, tao emocionada. Entao, foi bom sair bem assim dentro da madrugada. Dirigir no silencio da noite, torcendo para o taxista falar pouco porque qualquer conversar casual é meio que profanar aquele momento tão puro, tao cheio de emoção. Só consegui partir da Mut Mee tambem assim, sem dizer adeus a ninguem. Porque nessa vida de cruzar tantas fronteiras, eu vivo tendo que dizer adeus. E quando sou eu que parto é mais fácil ir assim na calada da noite.

Sentimentos Viscerais Pouco Explicados

Eu não sou especialista em violência no rio. Aliás eu não sou especialista em quase nada que vá alem de sentimentos viscerais de situações que pareçam estranhamente fora de lugar. Quarta-feira passada houve um protesto estudantil no reino unido. Os estudantes de escolas e de muitas universidades se juntaram para protestar contra o aumento das “fees” que o governo está propondo. O novo ajuste propõe triplicar o valor das anuidades.

Eu não fui ao protesto… acompanhei o que NAO estava acontecendo pela mídia. Explico. A mídia começou a mostrar imagens de violência, de fogo, de brigas etc.. levando o povo a focar na suposta violência e não na razão do protesto. Como muitos amigos meus da LSE estavam la eu sabia que depois poderia ter acesso a um outro lado da estoria.

O que aconteceu foi que a policia prendeu por 9 horas 4 mil estudantes numa área aberta. A pratica que é chamada de “kettling” incitou um pouco de violência numa pequena minoria. A maioria dos estudantes que estava la percebeu que a van da policia abandonada vazia no meio de Whitehall so podia ser parte de algum plano.

E o plano era provavelmente esse: frustrar os estudantes…. desmotiva-los de participarem em outros protestos e de criar as imagens que a mídia queria ver. Foi assim, que minha amiga Aude reportou que enquanto eles congelavam de frio helicópteros da midia os sobrevoavam. Jornalistas entravam e saiam acompanhados de segurança na area onde estudantes estavam presos..sem água, banheiro, comida numa temperatura que caia.

David Graeber, intelectual americano, que foi despedido de Yale por suas visões politicas ( David é um anarquista), apanhou dos seguranças da SKY news. Eu que já participei de uma lecture onde Maurice Bloch o apresentou como sendo a mente mais brilhante da geração, eu que ja até tomei cha com David me enfureci. Eu não vi toda essa manipulação. No entanto acredito mais nos olhos dos meus colegas de doutorado, definitivamente pessoas não-violentas, as fotografias do jornal.

De fato, as pessoas colocaram fogo. De acordo com varias pessoas que eu ouvi, o fogo era para minimizar o frio que eles estavam passando. Quando um fogo ficou um pouco maior, os estudantes chamaram a policia e pediram ajuda. A policia negou ajuda e quem veio foi é claro a Midia! Mais uma foto para sua coleção.

Aude minha amiga, contou que por umas duas horas não tinha entendido o que estava acontecendo. Resolveu ir embora e quando chegou na barreira disse:

“Excuse- me I need to go home”

O policial olhou para ela e disse

” Eu nao posso deixar vc passar pois tenho medo que vc destrua a cidade.”

Aude ainda perplexa no dia seguinte quando eu a encontrei, me disse que nunca imaginou que isso pudesse acontecer na Europa. “Eu me senti tão manipulada! Realmente uma palhaçada!”

Perguntei a ela se ter ficado presa no frio 9 horas tinha feito com que ela resolvesse numca mais participar num protesto.

“You know. I think two thirds of the people will probably not come back. But those that will will be prepared. Next time I will bring a tent, and clothes, and food… and lets just play their game!”

Meus houseomates, australianos, que nao sao estudantes ficaram tão furiosos com a manipulação que decidriam que da proxima vez eles tambem participariam do protesto.

Eu não tenho a menor idéia do que realmente está acontecendo no rio de janeiro. Tenho certeza no entanto, uma certeza dessas viscerais pouco explicadas, que o que está acontecendo pouco tem a ver com o que esta sendo mostrado na midia. Quem está pagando o preço do que a mídia quer nos botar goela a baixo é sem duvida (como sempre) as pessoas mais fracas.

Podemos especular a quem interessa ter o povo convencido dessas narrativas “midiáticas”? Podemos especular sobre como as pessoas que estão lá, que viram o outro lado da estória vão reagir no dia seguinte… Eu que morava em NY quando 9/11 aconteceu, eu que inventei de fazer um doutorado sobre uma escola de coexistência entre Palestinos e Judeus Israelenses. Eu que fico tentando aprender mais sobre mecanismos cognitivos tenho mais um desses sentimentos viscerais pouco explicados: sinto que usar medo para manipular a opinião pública é eficaz, mas a longo prazo sem dúvida um desastre.

Mais uma Volta ao Redor do Sol

Sexta feira foi meu aniversário, e eu todo ano escrevo aqui o quanto gosto de fazer aniversário. Eu paro e penso sempre nas voltas ao sol, e hoje em dia meus amigos ao inves de dizerem “Feliz Aniversário” me perguntam das tais volas 🙂 Sinal de que me conhecem bem, ou então de que leram meu blog 🙂 Esta vez portanto, nao vou falar do tanto de emoção que me causa esse pensamento tolo.

Meu aniversario dura mais do que o de muita gente, pois eu começo sempre recebendo mensagens de pessoas de outros fusos que começam a celebra-lo antes, e eu vou celebrando ate o ultimo meridiano. Comecei acordando bem cedo e indo para LSE para o meu seminario de cultura e cognicao. Um seminario so para nos os estranhos do ninho. Dan Sperber tinha vindo de Paris para substituir Maurice Bloch que esta nos EUA.

Aude, minha amiga francesa, que fez seu trabalho de campo na Mongolia chegou trazendo um bolo com vela para celebrar meu aniversario. Entao enquanto ouviamos Dan falar do seu ultimo paper sobre “epistemic vigilance”, enquanto faziamos perguntas e comentarios comiamos o bolo da Aude. Nao fazia nem sequer um mes, que ela tinha trazido um bolo para celebrar os 71 anos do Bloch. Bloch que é parente do Durkheim e do Mauss. Bloch que é um dos antropologos que eu mais admiro. Tão surreal é as vezes a vida.

De noite, fiz uma festa. Aquele tipo de festa que vc nao pode convidar todo mundo que quer porque a casa é pequena. E vai convidando todo amigo que encontra porque nao imagina celebrar o aniversario sem mais aquela pessoa. E como sempre essas pessoas vieram. De mundos totalmente diferentes. Os neurologistas, neurocientistas, os antropologos cognitivos, os sociais, os diplomatas, os yogis, os que nao tão nem ai para nada de academico, os que nao concebem a vida sem ciencia, os espirituais, os ateus, os agnosticos, os artistas, os esportistas, os cozinheiros, os tudo isso junto e misturado, e os nada disso.. E ali naquela misutra toda como sempre eu celebrei a vida… dançando, cantando, tocando, virando de ponta cabeca, fazendo acrobacias… e me surpreendendo sempre com a riqueza da diversidade. Tinha gente aqui na minha casa de todos os continentes. E o que eu gosto mais de tudo é observar essas pessoas que nao se conheciam antes, que vem de mundos tão distintos se misturarem, se encontrarem.

Todo o ano eu me animo para o meu aniversario. Todo o ano as pessoas se animam e me desejam feliz aniversario. Esse ano, pela primeira vez, muita gente que ta longe me perguntou “vc nao ta com medo, afinal voce ja esta chegando perto do 30? Ja ta ansiosa, angustiada etc etc etc?”

É um pensamento estranho esse. Nunca tinha me ocorrido que eu devia estar tensa, ansiosa, e que um numero externo tivesse um acesso secreto ao meu mundo interno. Acho que se eu tivesse medo seria de “nao chegar” aos 30, aos 40, aos 50, 60, 70, 80, e vendo a minha vó viajando o mundo aos 86… de nao chegar bem como ela aos 90!
Que paranoia é essa que aflige tantas pessoas num mundo que nos que temos acesso a tantas coisas, podemos viver muitas vezes tao bem e por tanto tempo ? Eu gosto das voltas ao sol, pq volta é movimento. E movimento é vida! E as voltas vão continuando.. nao sabemos bem até quando… mas enquanto elas vão continuando eu vou celebrando a vida.

Agridoce

Ta chegando a epoca. Aquela época meio agri-doce. A época que eu vou ao Brasil ( doce) para fazer minha anual ressonancia magnética (amargo:). Eu já escrevi aqui várias vezes do sentimento meio ambivalente que eu tenho quanto a máquina .Entao chega essa época do ano, e ainda que eu nao perceba eu vou ficando um pouco tensa.

Hoje foi um dia daqueles. Daqueles que tudo parece parar de fazer sentido. Porque mesmo que eu quero ir a Israel? Fazer o que? Aprender Hebraico para que? Doutorado por que?? Um sentimento que vem se prolongando. Por causa dele, resolvi procurar algum Israelense em Londres que me me ajudasse a entender melhor a cultura, a lingua etc. E que melhor maneira do que usar o meu adorado CouchSurfing? Fiz uma busca usando como critério pessoas que falassem Hebraico e que estivessem em Londres.

Foi um exercicio assim meio ao acaso. E não é que eu encontrei um” devout pacifist activist”. Escrevi imediatamente para ele, e dois dias depois fui encontra-lo. Como o mundo vai me parecendo cada vez menor ele nao so morava perto de mim, como trabalhava na LSE.

Nos encontramos num cafe meio “hip”, e começamos a conversar. Hoje em dia eu já nem acho mais estranho marcar encontros com totais desconhecidos. São segundos de desconhecimento e aí eu já me sinto a vontade. E ele me contou de toda sua experiencia. Muito distinta daquelas das pessoas que eu tinha conhecido em Israel. Ele, um refusenik ( Israelense que conscientemente escolhe nao fazer parte do exercito) escolheu ser preso por dois anos, como ato de resitencia civil.

Não, que ele tenha chegado me dizendo isso. Na verdade, ele nao acha isso nada demais. “Era a unica escolha que eu podia ter! Eu discordo do sistema, tenho amigos Palestinos, acho o que acontece por la uma tragédia, e o pior de tudo uma tragédia que poderia ser evitada!.” Meu novo amigo, trabalha com um Palestino na LSE num projeto chamado “New Approaches” e que busca desenvolver novas maneiras em lidar com o conflito. Para eles em vez de pensar no conflito como dois lados distintos, deviamos pensar nele como uma coisa unica…e que os fundamentalistas dos dois lados beneficiam da guerra. Ele que estudou “Global Governance” acredita que o conflito tem que ser “internacionalizado”. Pessoas que cometem crimes devem ser levada a Corte Internacional de Haia. ( Essa é um simplificação enorme do projeto deles).

Quando eu contei a um dos meus hosts em Israel que eu tinha conhecido um “Israeli Peace Activist”, ele quis saber o nome. Quando eu expliquei quem era, ele me contou que tinha lido seus artigos quando tinha acabado de entrar para o exercito. “Muito facil nao ir para guerra e ficar preso!” Foi seu comentário. “Voce acha que ele é um traidor?” perguntei “Nao. So acho que ele é fraco! Eu tenho os mesmos medos e a mesma “moral” que ele. Mas eu fui para o exercito!”

Como sempre eu nao insisto em nada. Eu ouço e fico sempre me perguntando…. “O que mesmo eu vou fazer por lá?”

Gal

Esses dias eu ouvi Maria, minha amiga Grega que também faz doutorado comigo explicar que nos (eu e ela) navegamos o mundo atraves dos nossos sentidos. O jovem, Philip, que aos 21 anos tbm está fazendo doutorado conosco explicou que nos precisavamos compreender que eles os jovens britanicos navegavam o mundo “through their own insecurity.” Nao era uma resposta que eu ou a Maria esperavamos ouvir do Philip. É engraçado como essas expressoes ditas meio ao acaso, as vezes ficam. Hoje li um Israelense explicando no Couch Surfing que ele se sente uma esponja ambulante.

E a combinação de me sentir uma esponja ambulante guiada por meus sentidos me fez pensar é claro em viajar. Talvez a estimulação mais forte a todos os meus sentidos tenha acontecido na India. No entanto, ainda que eu me lembre dos momentos sublimes, e desesperadores na India, a alguma coisa em Israel que penetrou ainda mais. Talvez seja o simples fato de que ali, o berço das religioes do livro, que é tao parte da nossa sociedade, eu conseguisse compreender a incompreensibilidade das coisas um pouco melhor. Nao sei. Só sei que eu tinha dito que aqui escreveria sobre a minha viagem, e por uma ou outra razão sempre evito.

Cheguei no aeroporto Ben Gurion, querendo ser esponja, querendo entender, ver, sentir tudo que ouvesse para sentir. Nao sei, se faria alguma diferenca eu nao querer. Parece-me que por la nao há jeito. É tudo ao extremo, é tudo forte, é tudo demais. Como tinha chegado tarde, achei melhor ir com o Mexicano que eu tinha conhecido no voo para o hostel. Quando liguei para dizer isso a Omri, meu primeiro host, ele disse que nao havia problema ser tarde, que ele tinha que trabalhar mas seu melhor amigo,Gal, que tinha vindo de Tel Aviv, me receberia em Jerusalem.

Entao, eu peguei a van, e fui parar en Nahlaot, um bairro muito antigo de Jerusalem. Assim que cheguei na esquina indicada, de mochila nas costas para minha primeira aventura como CS num lugar TOTALMENTE desconhecido, fiquei empolgada. “Nossa, eu estou em Jerusalem!!!”. Minutos depois apareceram Gal e Omri de moto. Eu nao sabia quem era quem. Disse um breve ola para Omri, que tinha que ir trabalhar, e fiquei com Gal.

Gal nunca tinha ouvido falar em Couch Surfing. Entao, eu que nunca tinha de fato couchsurfed tive um encontro especial. Nos dois ali descobrindo como é que isso acontece. Me levou para casa do Omri, e sentamos para conversar. Ele queria saber porque eu estava la, sobre o que seria minha pesquisa, porque Israel etc..

Como a minha pesquisa envolve Palestinos, e eu ainda nao sabia muito bem o que isso significava em Israel, eu comecei como sempre começo explicando que eu apesar de nao nacionalista, e de achar que fronteiras sao arbitrarias, e quanto mais eu viajo mais eu acho que nos somos parecidos no mundo todo, por ser do brasil nao estava muito acostumada com todas essas divisoes etnicas. Ele ouviu em silencio. Expliquei que acima de tudo eu era uma idealista, que eu esperava que pudessemos viver num mundo que passassemos por cima dessas diferenças meta-representacionais. Ele continuou me olhando em silencio. Expliquei, mecanismos cognitivos, teorias antropologicas, e a minha muito modesta opiniao. Ele continuou em silencio.

“Gal, are you offended? or bored? should I stop?”

Ele me olhou de um jeito so dele. E disse ” I am sad for Omri. Amanha quando ele te fizer essas perguntas vc vai dar a versao editada. Eu tive a sorte de ouvir tudo que voce tem para dizer. Eu passei a semana procurando uma coisa inspiradora. Um projeto, um livro. E agora eu sei, que era isso que eu precisava ouvir.”

Eu fiquei desconcertada. Nao esperava ouvir isso de um engenheiro israelense. E depois de toda essa introducao fui aprender tudo e mais um pouco sobre o Gal. Que voluntaria ensinando crianas pobres alem de trabalhar em um milhao de projetos diferentes. Quando era mais ou menos meia noite eu percebi que precisava comer. Saimos por Jerusalem. E eu que achava que tudo estaria fechado me surpreendi ao encontrar varios locais abertos. Ele escolheu um bar de tapas espanholas. Nao era exatamente o meu plano. Haveria muitos outros dias para comer a comida local. Entao ali, naquele bar eu conheci a vida noturna, pouco convencional de Israel. O casal gay ao meu lado, a ameixa preparada com queijo e molho oriental, o bartender que tinha viajado o mundo e queria me fazer beber alguma bebida de aniz que eu nao me lembro o nome. Ali na primeira noite eu conheci quem se tornaria o meu melhor amigo em Israel. O CS me daria muitos outros amigos, e muitas outras estorias inspiradoras. No entanto, o meu melhor amigo, foi ali, na primeira noite, por causa do CS mas sem nem nunca ter ouvido falar disso.