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Sobre julietafalavina

Eu escrevo da minha vida, e agora sobre a minha recuperação da saúde .

O Amor é Subversivo- Para o Varal do Brasil

“ O amor é subversivo”

Foi o que eu pensei quando terminei de ler o amor no tempo do cólera. Florentino viveu histórias onde não esteve para esperar um amor sonhado na infância. Ele só é possível na Colômbia quando uma bandeira está lá, a bandeira do cólera.  Porque cólera é contagioso e o amor só podia existir assim, contido, num rio, num barco, porque na sociedade corrompe tudo. Corrompe as divisões.

Esse meu pensamento, voltou mil vezes à mente. Todas as vezes em que eu estive em lugares violentos. Todas as vezes em que eu estive em lugares desenvolvidos. Por que será que é tão difícil o amor?

Na minha própria vida, eu buscava dar amor a tanta gente, por tantos cantos. No entanto, sempre houve um momento em que eu ia embora. Porque o amor que eu buscava, para me resgatar de mim mesma, não podia fazê-lo. O amor me fazia vulnerável.

Porque o amor  faltava em mim.

O amor colapsa uma coisa para a qual não estamos preparados. Ideias versus o corpo. Sentimos o amor, ou alguma versão dele, no corpo e pensamos ele de uma outra forma.

Sinto que o amor é compaixão. Compaixão é entender o que os asiáticos, o religiosos,  os sociólogos e muitos outros tocaram. Que somos o tempo todo indivíduos num mundo plural. O amor colapsa separação do outro. O amor é humano.

E como disse o ativista  Vittorio Arrigoni que foi morto em Gaza: precisamos nos manter humanos.

Quando eu cruzei o muro da separação em Israel para chegar na Cisjordânia ( contra a vontade dos meus amigos) e fui ficar na casa de pessoas que eu fui conhecendo pelo caminho. Na época, eu estava envolvida no meu doutorado. Na época, eu escrevia as histórias das pessoas que não têm voz. Da Palestina eu escrevi o que eu via lá. Nada de político, nada sobre a ocupação. O dia-a-dia meu.

Um dia, um filósofo israelense, com quem eu tentava me encontrar há dias, me mandou uma mensagem de texto dizendo “eu queria ver o que o você está vendo”

Propus a ele que lesse os e-mails que eu mandava aos meus amigos (e que hoje está no meu  blog  www.translatingthoughts.wordpress.com  junto com todas as outras histórias da volta ao mundo). Mandei todos os emails  e, em poucas horas, ele me mandou uma mensagem de texto que dizia

“não posso te ver”.

Perguntei se era por causa dos textos. Ele concordou. Fiquei intrigada, não tinha escrito nada sobre a ocupação, ou a política. Liguei para ele. E ele me explicou que não sabia explicar por que era tão difícil.

Insisti que tentasse, afinal ele era filósofo. E ele disse:

“É humano demais”

Foi  difícil demais para ele dizer aquilo. E eu me senti muito grata. Ele prosseguiu:

“Se você tivesse falado contra a ocupação, se você tivessse falado da política, eu entenderia. Eu podia concordar, ou discordar… mas quando  escreve sobre amor, sobre yoga, sobre como eles tomam conta de você como nós tomamos aqui… é humano demais.”

Eu ainda fui esse dia até Jerusalém para conversar com ele. Nunca mais o vi. E isso ficou na minha cabeça para sempre. Quando eu escrevo do humano eu colapso todas as separações. Todas.

E não há nada mais humano que o amor. O colapsar da mente versus o corpo.  Toda a confusão que vem com a enorme vulnerabilidade de amar, de ser humano.

Na Colômbia, há pouco tempo, encontrei um homem de Gaza. Ele abriu um bar em Taganga, vilarejo de pescadores, na beira do parque Tayrona. Era sua forma de lutar pela

Palestina: servindo comida.

Amor

Na frente do café havia desenhos do Handalas, e “Revolución” escrito.

Handalas são cartoons. Ele/s são a personagem mais importantes do  Naji al Ali. Handalas normalmente são pintados de costas com as mãos fechadas e cruzadas. Eles representam crianças de 10 anos que foram mandadas de casa em 1948 na Al Naqbah ( O grande desastres para os Palestinos, quando perderam suas casas).

Eles estão sempre de costas e de mão cruzada,  porque Naji al Ali  que era crítico tanto do governo de Israel como dos governos Árabes. Rejeitava todas as soluções de paz que viessem de fora.

Não na Colômbia. Quando eu cheguei à Taganga, eu vi primeiro a bandeira da Palestina e depois a Revolución e depois os Handalas. Me apresentei ao dono, Yassert do café/restaurante como alguém que amava o oriente médio e que tinha amigos dos dois lados do muro da separação em Israel.

Voltei ao café do Yassert todos os dias tomando café, conhecendo seu filho, sua história.

E logo no primeiro dia eu fui pesquisar sobre a personagem Handala. E depois me lembrei que ali na Colômbia os Handalas pintados no café de um homem que fugiu de Gaza estavam de mãos dadas. Abraçados. Um carregava uma chave, outro uma arma, outro uma câmera, outro um estilingue para baixo. Tudo isso nos ombros.

Eu não gostei de ver a arma. No entanto, quando li que o Naji al Ali tinha sempre os feito de mãos separadas, e de costas, me senti aliviada. Ali na Colômbia eles estão abraçados. Tem algum que carrega uma arma no ombro mas suas mãos carregam o outro. Os vizinhos.

Olhei na minha memória para me lembrar que a palavra REVOLUCIÓN estava escrita diferente.  Tinha a palavra LOVE destacada no meio, só que ao contrário e em vermelho. Sorri. Ali na terra onde o amor foi tão subversivo, um homem, que tinha lutado na Intifada, hoje serve comida. Ele luta pela sua causa com seu restaurante, alimentando gente, trazendo pessoas para conversar.

E na sua parede os Handalas se abraçam e a maior palavra é “Love”, que é amor.

Yassert

O amor é subversivo, mas não ficou contido no barco. O amor é humano. E Vittorio Arrigoni, italiano, que morreu em Gaza, sabia disso.

Eu tinha um pouco de aflição de ativistas, que parecem sempre lutar seus próprios fantasmas em outros lugares. O mesmo que eu fiz por tantas partes do mundo.

Nesse dia, eu vi pela primeira vez o blog do Vittorio sua principal mensagem era: Stay human! (Permaneça humano).

Amar é permanecer humano. Com as armas e as câmeras e os medos.  O amor é subversivo porque nos obriga a ficar, a colapsar tudo que é divisão.

Então da Colômbia, de Taganga, eu dei “Graças a deus que o cólera foi contido, mas o amor não. O amor está em toda a parte em que permitimos que ele esteja. O caminho deve ser esse: deixar ele estar em toda a sua humanidade em toda sua perfeita imperfeição e ficar.

Mulher, um Universo- Para o Varal do Brasil

Eu acordei bem tarde, e o primeiro e-mail que eu leio me propõe pensar “mulher, um universo”.

Meu primeiro impulso é pensar porque não “ser humano um universo” ? Depois é analisar porque continua sendo tão difícil para mim pensar mulher como um universo?

Ainda me é tão difícil, eu sei por quê, eu sou mulher, eu sou ser humano. E por eu ter estudado antropologia, biologia, literatura, feminismo, política, etc, tudo isso vem carregado de tantas ideologias. Por ter viajado tanto e voluntariado mundo a fora e eu querer tanto um mundo menos desigual e ao mesmo tempo plural. Por eu sentir que ideologias vem (muito na superfície) buscar atenuar desigualdade que existe no mundo ( em escalas variadas) mas muitas vezes acabam nos roubando da pluralidade do mundo. Da beleza da diversidade. Da particularidade que todos temos por uma coisa ou outra.

Quando será que o Universo feminino ficou tão duro assim? Tao politizado? Penso tudo isso mesmo antes de sair da cama, então, me vem a cabeça uma frase que eu ouvi ontem a noite de um artista, num bar em São Paulo. Um homem que eu imagino sensível. Não crendo habitar o planeta machista.

Resolvo tomar um banho enquanto penso as frases.

O homem me diz num bar duas frases:

A primeira é uma pergunta:

“ Você é Balzaquiana ?”

Concordo tenho 31 anos, há dois anos sou uma mulher Balzaquiana. Isso não me ofende. Memso porque que eu nao sou a mulher de 30 anos de Balzac. Isso so quer dizer que eu tenho 30. Isso soh esta ali para nos fazer perceber que temos repertorio comum e que eu não sou uma mulher “qualquer”.

A segunda frase é:

“ Você é bonita, e tem canela grossa. Se eu fosse senhor de engenho te compraria para colocar na casa grande e não no engenho. Mulheres de canela grossa são boas de cama, mas são preguiçosas”

Sou pega de surpresa por essa frase. Nunca vou a bares desse tipo. Não moro no Brasil há tempo demais, e nao consigo imaginar isso acontecendo em qualquer lugar outro que ali. Não me ofende. É-me tão raro que eu tento contextualizar como eu posso. Contextualizo no intelectual. Pergunto a ele se de fato se dizia isso no passado se havia uma teoria mesmo referindo se a isso?

Faço isso por curiosidade, mas também por um certo desconcerto de ser explicitamente desejada, e ter sido colocado assim em duas frases… “eu quero saber se você tem meu repertorio. No entanto, eu quero você na minha cama.”

Nada disso eu coloco em palavras na hora. Eu fico no território que eu conheço: o intelectual. Não quero entrar no domínio do sexual. Como se aquilo não se referisse a mim.

Como se eu ser uma mulher não fizesse alguma diferença. Como se eu ser uma mulher bonita e ele ser homem ali não fossem as particularidades mais presentes. As que mais definisse o mundo que entravamos.

Mudo de mesa e começo uma conversa com outros homens. No plano do humano.

Volto para casa e acordo hoje para pensar o Universo Mulher.

Saio da cama, pensando o que vou escrever. Entro no banho, e me lembro que uma vez posei nua para um pintor russo na Inglaterra. Fazia mestrado na época, meus pais ficaram perplexos e eu tinha ido por curiosidade.

Na época, eu ainda estava um pouco cansada do tanto que a antropologia se afastava da biologia, da neurociência, o tanto que o feminismo vivia no ideológico. Fui lá ser pintada nua. Ser nada além de uma mulher nua. E foi uma experiência muito diferente. Porque ela me era impossivel.

Primeiro eu fiquei amiga do pintor, falei de Dostoyevski, me estabeleci como ser humano que tivesse uma particularidade. Depois eu reconhecia que estava lá porque queria e não porque fosse forcada.

Tirei minha roupa confortavelmente. A princípio fiquei desconcertada. Não tanto pela nudez, por também sempre aceitá-la como humana e comum, mas me desconcertou que alguém fosse pegar o que sentia ser a minha essência e por num papel. E ali, aquela essência me era sem controle.

Entendi melhor o que eu admiro do feminismo. A luta pela igualdade de direitos.

Olhei a principio para baixo. Depois resolvi olhar o pintor. Como quase um ato politico. Resolvi ser parte do processo de ser pintada. Ainda que fosse em silêncio. Ainda que eu fosse objetificada, eu observaria quem o fazia, que tivesse algum poder ali naquele processo de ser apenas uma mulher nua.

Ali eu senti o poder arquétipo de ser homem X mulher. A tensão que existe quando vc deixa de lado as particularidades e fica na essência do arquétipo. Eu era bela e frágil, vulnerável, ele forte, dono da situação. E ainda assim, eu ali não me senti sem poder. O poder que eu tinha vinha de não ser obrigada a estar ali, aquilo para mim era uma escolha.

Foi um tempo tenso, em que tudo que eu já vi de pintura de Ingres e Delacroix, das Odaliscas, me vieram à cabeça. Seria o orientalismo que eu via ali realmente delas, ou o que eu aprendi a ver quando vejo um quadro de um europeu, que retrata o Oriente por ter lido Said? Será que eu tentei vê-las? O que será que significava aquela postura, aquele silêncio?

Depois de tudo isso viajei, e passei muito tempo pelo Oriente Médio e a Ásia, sempre buscando e encontrando a voz dos que não tinham. E no fundo, todos nós estamos tão calados. Nos é imposto tanto que ouvir mesmo o universo do ser humano a sua frente é difícil.

Eu acabei pela Índia, e pelo caminho, encontrando versões de Tantra, o culto à Shakti, o feminino. E o que eu soube pegar disso tudo peguei, eu voltei a resgatar o mundo mulher em mim. O mundo feminino. Que suas características não pertencem só às mulheres, mas que me parecem (depois de tanto tempo pela academia e pelo mundo) estarem mais sim em nos que temos dois cromossomos XX.

Eu não quero entrar na biologia da questão. Eu não quero desmerecer a luta política por direitos iguais que o feminismo nas suas varias ondas teve. O que eu quero , ou melhor, o que eu tento , é aceitar que talvez o universo de qualquer coisa é plural.

A beleza da diversidade não pode ser apagada, ela não precisa ser erradicada para que a nossa comum humanidade se encontre. Não precisamos ser iguais par ter mesmos direitos. Direitos mais adequados.

Eu, hoje sei que sou mulher. É o que eu sou toda vez que eu encontro um homem que me deseja. Quando eu desejo o homem, me envolvo nesse discurso, senão, trago-o para um outro âmbito.

Essa tensão, ser mulher x homem, me faz pensar como eu vivi muito tempo, e vejo muitas pessoas viverem, sua sexualidade, como se fosse uma entrega, um presente, uma distração. Em toda essa busca eu encontrei uma percepção de sexualidade como uma possibilidade de um encontro. Um encontro pleno. Um encontro com o outro, uma possibilidade de dissoluções de barreiras.

No entanto, o que me parece mais problemático no “Mundo Mulher” de hoje, nas nossas sociedades, é como a sexualidade é roubada de nós mulheres. Ou para ser usada como um presente, ou como um ato de poder, ou de desmerecimento, nunca uma conversa, um diálogo consensual entre duas pessoas. Um encontro com o outro. Uma escolha principal e importante de todos os envolvidos.

Quando eu encontro um velho, sou jovem. Quando eu encontro um asiático, sou do Ocidente. Todas essas categorias não são fundamentais, tampouco, tão circunstanciais assim. Elas são imploradas em varias situações, pois nós habitamos muitos mundos.

Acho que as características que são atribuídas às mulheres: cuidado, delicadeza, beleza, fragilidade, são as que o mundo, que se desumaniza, tenta roubar de nós todos. Essas, eu mais do que nunca compreendo como características que por razão biológica, humana, ou sei La o que) me parecem ser a base da fundação do universo feminino. Essas são as que em nome de poder, muitas de nos mulheres (infelizmente) tentamos abandonar…

Eu acredito que essas devam ser características que devem ser cultuadas mais também no arquétipo universo masculino. Por que antes de ser mulher, e ele ser homem nos somos seres humanos… numa jornada que nos não entendemos muito bem. Numa jornada que nos desumaniza mais e mais a cada segundo. Nessa jornada vamos todos tentando entender pela razão tudo, enquanto navegamos o mundo pelos nossos corpos e sentidos.

O mundo mulher é só mais um mundo. Um que eu habito muito frequentemente. Um que hoje me é mais familiar. E que tenho muito ainda mais a aprender. Um que se politizou de um tanto que é difícil falar dele. E de passeá-lo.

Já o mundo em que todos nos habitamos, é plural e devíamos cultivar toda essa pluralidade sem jamais perder a ideia que no final ele é também muito comum. É o mundo da experiência humana.”

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Ilumina-se o Caminho

Quase 11 da noite. Sento no chao. A minha volta ouco vacas. Nao as vejo. Eu as intuo. Sou iluminada foscamente pelas estrelas do ceu. Em tao pouco tempo, eu ja sou menos vitima de toda aquela angustia.

Sabado a noite, poucas horas antes,  eu quase que enlouquecida continuo nao sabendo se e orgainco ou nao todo aquele desejo de fugir de dentro.  Grito aos quatro ventos que eu preciso fazer alguma coisa. O grito chega a tantos, e sao  tantos que me oferencem resgate. E eu aceito a mais inusitada de todas as ofertas. Subir uma pedra. A pedra bela a noite.

Entro no carro de um novo amigo da escalada e o aviso de toda essa latente fragilidade minha. Conduzimos e eu vou vendo as estrelas e a lua que ri amarela no ceu. Comeco a me aliviar. Entre silencios e no ar que vai saindo chegamos no total breu a Pedra Bela.

Andamos na total escuridao ate ela. Carregamos quase tudo que precisamos para poder subi-la. Eu que poucas vezes subi pedra, e que quando o fiz sempre estava rodeada por muito gente experiente, e pelo sol. Agora estamos so os dois. Eu nem se quer tenho a minha sapatilha. Tudo que eu uso de escalada nao me pertence. Esquecemos a corda no carro.

Piso a grama e ouco o seu barulho. Ouco as vacas. SInto um certo medo. Fico so no meio do campo. Meu jovem e paciente amigo volta para buscar a corda no carro. Eu fico so no breu com todos os equipamentos. Eu e todo o meu barulho interno. Aos poucos tudo que existe fora vai me tirando de mim.  Meu amigo reaparece e ate a luz que ele carrega me parece agora quase que desnecessária. Ele me explica lentamente o que eh que devo fazer para fazer o segue. A seguranca. Presto toda atencao do mundo pois sao detalhes demais para carregar a vida de uma pessoa. Ele conhece a Pedra bem. Ela eh facil. Comeca a sua escalada. E eu entao comeco finalmente sair de mim.

Eu fico la embaixo entregando corda. Ele vai ficando mais e mais longe e eu mais e mais incerta se eu saberia subir uma pedra assim… no escuro… com sapatilha larga demais.

E ali, naquele momento, quando eu olho a pedra me vem a cabeça todo ferimento que pode chegar em mim. Posso me arranhar, me esfolar, me cortar, me quebrar, morrer. Respiro fundo e lentamente, e começo a subi-la e de repente eu compreendo algo em meu corpo todo. A pedra eh presente. Ela eh imponente. Ela esta la. Ela nao esta tentando fazer nada para me arranhar, ou me cortar. Ela simplesmente eh.

E é a minha ausencia de consciencia, de presenca que pode me machucar. É a minha propria distancia do real. É qualquer ilusao qeu eu possa criar para me defender do real que me fere. A pedra é real e eu nao quero mais ser iludida. Eu quero ser presente, consciente. E ali naquela noite eu comeco a vislumbrar o caminho de volta para dentro. A volta a casa. Ali equilibrada na pedra eu sei que eu ja posso comecar de novo a dancar. Finalmente, começa a se iluminar o caminho da delicadeza.

Tempo da Delicadeza

Ando meio melancólica. Melancolia daquelas que faz um procurar todas as razoes lógicas, orgânicas e eventualmente, até as mais improváveis e impensáveis.

É mais ou menos assim:

“ É natural, faz sentido fazia muito tempo que eu não morava aqui”, a “faz sentido eu to para ficar menstruada de acordo com o mais novo app no meu telefone”

até o

“Sera que é a lua cheia, ou alguma conjunção planetária não favorável?.”

Eu respiro fundo e invento de subir mais uma parede. Ou então, dançar com mais um desconhecido.  Leio poesia.  Mudo meu status no WhatsApp para “I Ina Imani”. I Ina Imani que quer dizer em Swahili “Eu tenho fé”

Eu não falo Swahili, mas acho é a língua que soa mais bonita que eu já ouvi. Procuro a frase de em Inglês, que já me é distante,  no Google tradutor (que não é humano) como se diria “ter fé”em Swahili. Ninguém quase nunca verá essa minha fé no  meu status do Whats App… então ali, por muitos últimos dias “tenho tido fé” nâo sei bem em que, na língua que me soa mais bonita.

Fé, até agora,  em segredo, e numa língua que eu nem sequer sei dizer “bom dia”. É o máximo de fé que eu consigo ter. Fé numa língua distante e escondida numa aparato tecnológico…. Mas eu estou precisando da tal fé, então me satisfaço com o absurdo do possível.

Vou ao show de tributo ao Miles Davis na Serralheria. Venho direto da escalada e sento sozinha muito antes que qualquer amigo meu apareça. Fico ali ouvindo e vendo na grande tela aquele homem, que eu não admiro como pessoa, ensandecido. Eu conheço aquele sentimento. Como é possível que toda aquela desorientação jazzística toque da maneira que toca a minha alma? Penso no quanto Fernando Pessoa às vezes me é familiar, e o quanto eu preferiria que fosse o Alyosha que eu entendesse na pele.

O meu silencio dura muitos e muitos minutos. Eu sou a única pessoa só ali, mas de repente um bonito homem, tbm só, quer saber por que eu estou la? E por que eu estou só?

Tenho que voltar do outro planeta onde eu estou para responder.  Ele tem todo o cuidado. Ele, me observando ha tanto tempo, conhecia ate o meu ritual de colocar o esparadrapo no dedo já destruído pelas poucas semanas de escalada. As posições meio yogis que eu tinha me sentado. Sua primeira pergunta é

“ Vc quer ficar em silencio, vou te atrapalhar se eu falar com voce?”

Gosto do cuidado dele. Não veio me resgatar. Nem se quer veio porque pensasses o silencio um fardo.

E em pouco tempo percebo que ele escala, que já passou muitos meses na India e no Sudeste Asiatico. Não tem “imani” e nem é parte das suas preocupações diárias. E me surpreendo que nesse pequeno ato de reconhecimento alguma coisa ali dentro de mim se alivia. Benjamim me pergunta lá da Coreia  “como eu estou”.

Penso na mil coisas que eu poderia dizer mas fica resumido em

“Tentando encontrar o tempo da delicadeza”

Benjamim que na casa do Nucleo já tinha delicadamente tocado uma flauta para me acalmar em todos os meus erros na minha própria canção. Depois de uma noite longa com cuidados e descuidados vendo sua resposta penso…

I Ina Imani que um dia o tempo da delicadeza há de chegar. Espero que nesse dia eu reconheça a delicadeza pelo que ela é, e que eu saiba ficar…

Nas Cordas do Meu Violão

Viro as tarrachas de um violao abandonado aqui de casa há mais de década. Esse violão já foi meu. Já viajou o Brasil que eu viajei. Já ficou na casas de mil amigos. Era para todos que me conheciam naquela época, uma extensão do que eu era. Mas há anos ele tem as mesmas cordas. Há anos as tarrachas não funcionam mais. É muito duro vira-las.

Dia desses cortei as cordas enferrujadas do suor da mão de tantos. Oxidadas com certo descaso e abandono por tantos anos a fio. Um instrumento ali meio por acaso. Corto as cordas num desses dias. Falo que preciso de novas cordas mas não vou compra-las.

Num outro dia resolvo colocar óleo nas partes de metal enferrujadas para poder trocar as cordas. Demora talvez uns dias mais para eu de fato buscar o tal DW40. Estou meio que convencida que esse violão já não toca mais.

Outras semanas passam e muitos dos que me conhecem sabem das cordas que eu preciso comprar.

Nesse final de semana eu vou a Benedito Calixto levar dois amigos do mundo. Iva, nascida na Malasia, de mãe francesa e pai chinês. E Nam, australiano de família do sul do Vietnam que fugiu de um campo na Indonésia para a Austrália.

Andamos a feirinha e eu vou contando a estória do Brasil. As vezes paro no meio de uma frase que eu sei tão bem…me lembrando quão critica eu sou do modo repetitivo que as narrativas de países são contadas. Narrativas que nunca paramos para avaliar. Enquanto vou dizendo as frases meio repetidas por muitas outras pessoas… eu as interrompo dentro de mim. Quando mesmo eu fiquei sabendo disso? Que evidencia empírica existe sobre esse fato ou outro? Rio em silencio.  Nenhuma.

Eles estão no meio de uma viagem pela America do Sul.  E eu me lembro das cordas.

“Podemos comprar cordas? É logo aqui na Teodoro Sampaio.”

Compro as cordas porque eu pretendo ficar. E como alguém que volta aos poucos a entrar na fantasia de alguém que vive em algum lugar eu olho algo para o meu quarto. Uma bermuda num brechó. Minha amiga Paula que veio nos encontrar se surpreende.

“Você comprando alguma coisa?”

Explico que é para escalar.  E agora enquanto eu sento fazendo algo que há anos eu não faço eu percebo que eu compro porque eu não tenho que carregar nas minhas costas. Enquanto eu vou girando as tarrachas meus pensamentos vão correndo por mim.

Lembro do meu professor de violão vendendo seu mil produtos há quase duas decadas,  e como uma manivela de memórias vou incorporando tudo que eu fui aqui. Assim, como aquelas frases feitas sobre o Brasil eu olho para algumas facetas da minha personalidade e rio em silencio. Não há nada de meu naquilo.

Mas a manivela gira e eu vou pensando em tudo de novo. Uma agarra na parede, uma corda bamba, um novo sorriso importante para mim. E a tarracha gira e vai deslizando por mim todas as pessoas que nesse final de semana eu reencontrei. Gira por mim as pessoas que resolveram vir me ver aqui num futuro tão próximo.

Afino as cordas. Uma a uma. Assim que eu termino de afinar elas já estão desafinadas de novo. Afino de novo, e de novo. E de repente pela primeira vez eu toco um acorde dissonante. Ali em toda aquela dissonância as notas fundamentais, e as dissonantes estão claras como nunca.

E eu sei, melhor do que eu sei qualquer frase sobre o Brasil, ou sobre mim,  que daquele violão tão abandonado musica pode uma vez mais transbordar. Não a mesma musica , mas alguma musica.

Impulsividade

Faz muito tempo que eu nao escrevo aqui. Tenho escrito mais no meu novo blog em Ingles Translating Thoughts. Fica sempre tao dificil manter dois blogs. E fica mais dificil ainda deixar de escrever em ingles ja que sao tantas as pessoas da minha vida que nao falam portugues.

Eu tenho falado mais portugues do que nunca, pois depois de 11 anos morando fora, eu voltei. Voltei primeiro contra a vontade da minha “mente”. Quebrei meu pé na frente do Rio Mekong. Do lado da Tailandia vendo o Laos sorrir mais calmo ali do outro lado.

Quebrei meu pé e o povo do simbolico disse que era sinal para eu ficar quieta. Eu sai da beira do Mekong aos prantos. Nao de dor fisica do pe. Dor existencial, sendo arrancada da minha casinha la na beira do Mekong. Dor de quem nao sabe ha muito tempo o que esta fazendo.

Sai com lagrimas escorrendo pelo rosto e dizendo adeus e obrigada em Thai a todos os Thais que eu conheci. Ate ao sem casa que tinha virado meu amigo e que foi se despedir de mim.

Cheguei no Brasil revoltada. Aquelas revoltas tao dentro que vc nao consegue fazer nada com ela. Sentia uma vontade de nao viver. Sai Brasil a fora sem parar. De pé quebrado fui passar carnaval no Rio, com pé sem gesso fui escalar dois dias depois em Sao Bento, um mes depois estava conhecendo Brasilia, tomando Ayahuasca para procurar um sentindo metafisico para toda aquela dor.

Nada. Senti me abandonada por todos… os homens e os deuses. Todos aqueles onde havia depositado um resquício de fé e esperanca de salvacao pareciam ou ter me abandonado ou simplesmente inexistentes.

E o tempo foi passando. E eu quis fugir um milhao de vezes de dentro de mim. E um dia meio sem perceber passou. E finalmente quando eu parti, a partida ja nao se fazia mais necessaria. Minhas dores ficaram tao familiares que ja eram parte de mim, e nao um coisa contra a qual eu queria lutar.  E as minhas viagens se tornaram viagens de reencontros. E um dia, ha pouco menos de um mes, la da Palestina eu sabia bem que dessa vez meu corpo e a minha mente queriam voltar para casa.

Casa? Ate a palavra ja tinha um dia me assustado. Dessa vez nao. Eu queria. E eu queria que ela fosse em Portugues. E que eu estivesse nela por causa de mim. E que eu conhecesse as rugas das pessoas que estavam ao meu lado, e que eu significasse algo para essas novas geracoes que estavam chegand aqui.

Voltei asism,  impulsivamente, porque tudo na vida minha tem sido impulsivo. Ate essa semana. Agora to ficando menos impulsiva tbm.

Impulsividade seja talvez o direito só dos que nao tem nenhuma regra que os contenham. Aqueles que so escutam os gritos desesperados que vem de dentro.

Quando tive meu ultimo impulso eu comprei uma passagem para ir de Israel a India no mes passado. Minha grande amiga Israelense Michal, com quem viajei a India, e que pegou 18 horas de onibus quando eu quebrei o meu pe na Tailandia para me ver, ao saber da minha ultima impulsividade me mandou uma mensagem.

” Ju estou muito triste que vc vai embora. Mal nos vimos em Israel. Nos conversamos muito sobre essa sua visita e agora voce tem um impulso de fuga e compra uma passagem para ir amanha? Eu estou magoada pq essa sua impulsividade machuca.”

Eu li as palavras de Michal e senti uma dor. A dor que a minha impulsividade ja havia causado a tantos. Uma impulsividade que parece ser solucao e nunca eh. Senti uma enorme gratidao por ela assim doce e fortemente me conter. Coisa de amigo.Cancelei a passagem e fiquei com ela, na vida dela uma semana em Tel Aviv antes de vir ‘impulsivamente” ao Brasil.

Foi impulso porque foi rapido demais. No entanto, foi pensada. Era um impulso que me tentava fazer mais constante. Um impulso aceito pela Michal e por meus amigos vendo o tanto que eu precisava agora dessa constancia. E essa nova constancia que tenho vivido tem me aliviado fundamentalmente.

Escrever constantemente aqui talvez seja ainda dificil. No entanto, vou tentar.  To fazendo casa de mansinho. Meu quarto ja tem chao, ja tem piano, ja tem estante de livros com estorias dos lugares onde estive, ja tem quadro colorido, ja tem colcha e almofada que vieram da India, abajur do Oriente Medio. Ainda nao tem cama. Ainda nao chegou. Alguma hora ela chega, em alguns dias… e ai eu vou passar a dormir ate no mesmo lugar todas as noites.

Quando eu deitar assim, vendo todas essas coisinha tao pequenas mas que significam o mundo de onde eu vim eu vou ficar mais constante. Vou orestar mais atencao a voz dos outros e  quem sabe, finalmente, eu deixo de dar ouvidos aos impulsivos e comeco escutar o sussurar meio escondido da minha alma.

Hermes

Não dormi. Continuo em Brasilia. Brasília que a até poucas semanas eu só conhecia de ouvir falar, de ver na televisão. Brasilia que me pareceu estereotipicamente cair dentro do espectro do Autismo. Tão funcional, mecânica, concreta, onde não há esquinas e as pessoas parecem dar voltas em vez de se cruzarem.

Eu não dormi pois era festa de aniversario de uma querida amiga. E em Brasilia festa de aniversario é em casa. E os amigos se conhecem desde que nasceram e se você quiser se sentir mais do que robótica tem que ter essa sorte que eu tenho de ter acesso a uma porta magica que te leva dentro. E lugar nenhum dentro é concreto.

De alguma maneira estranha me lembrou o Marrocos que se você não conhece ninguém só passeia pela superfície das coisas. Pelo lado turístico. Brasília sozinho deve ser como andar num livro de ficção cientifica.

No Marrocos lembro de ser levada em meio a medina, por ruas tortuosas pelas mão da minha amiga marroquina para encontrar uma porta qualquer, quase que fortaleza, em meio a tantas outras. O toque na porta certa e lá dentro tudo era outro. A beleza dos detalhes do mosaico, a suntuosidade de palácios mil e uma noites.

Pelas mão do motorista da minha amiga descobri a doçura não só do chá de menta, mas da hospitalidade marroquina dos que não vivem no palácio. Abdul que virou meu amigo me carregou ali cruzando mais um muro,nesse caso, invisível, o muro do do preconceito. Preconceito dos dois lados. E eu sei lá porque tenho a sorte de encontrar esses Hermes que me conduzem entre mundos.

Na mão dos palestinos entrei no mundo secreto das mulheres do banho turco. La dentro, dentro daquele mundo secreto cantavam, dançavam, se pintavam, deitavam nas pedras quentes. Gritavam aquele grito que eu conhecia já de ouvir no deserto do Sahara. Os véus tinham ficado do lado de fora.

Esses mundos secretos tem uma certa coisa tribal. Uma desconfiança do diferente. Do rápido. Tudo se constrói aos poucos e essa pressa que nos viajantes existenciais vivemos parece estar diametralmente oposta a esses mundos. Quero o profundo ontem, porque sei que não tenho o tempo de comer o saco de sal junto.

O que será então que me faz encontrar esses mundos? São os Hermes, os barqueiros, que vem desses mundos mas tem a curiosidade do outro também. Sao os que presos entre o discurso do profundo estar no banal do conhecido e o profundo esta no novo, que gentilmente, me deixam entrar e conhecer um pouco.

Brasilia é assim para mim. Lembro de ler um artigo sobre Austimo que falava sobre a importância da lealdade. De repente depois de umas semanas aqui eu começo a procurar os outros lados do espectro. O que mudou?

Nada. O que mudou é que agora eu não ando só as rodovias. Eu não dou mais voltas em carros sem destino. Os encontros acontecem com o cuidado velado dos candangos. Assim cuidado de família mineira que cuida e desconfia de qualquer coisa que possa ameaçar.

Eu não dormi pois celebramos a vida dessa amiga. Essa barqueira para mim que foi portal de um mundo todo que teria ficado escondido se eu não a conhecesse. Se ela também não estivesse entre mundos. Não dormi pois aos poucos o mundo dela vai fazendo aos poucos mais sentido para mim.

” você devia mudar para ca” me dizem alguns.

Nossa. Como foi mesmo que isso aconteceu? De repente Brasilia me parece casa. Tenho meu lugar favorito para tomar cafe. Tenho a minha mangueira favorita. Meu baixista favorito. O pão que eu quero comer. Como mesmo que isso aconteceu?

É verdade, eu sei, eu tenho a sorte de sempre encontrar com Hermes.

Busca

“O que você espera dessa sessão? ”

Coloco todos os mecanismos de defesa e de ceticismo de lado e respondo sinceramente a astróloga Austríaca que vive na beira do Mekong, que está na Asia ha mais de três décadas.

” Não sei. Eu estou buscando alguma coisa e ausência dela está me matando.”

Ela então fala por horas sem me fazer pergunta alguma. Eu ouço tudo aberta. O mais aberta que eu consigo estar. Eu quero tanto. Eu busco tanto que provavelmente percebo só de vez em quando.

Escrevo a todos os meus amigos existencialistas que dividiram os anos de busca na filosofia, no existencialismo, na cognição, na biologia evolucionaria, na física, no ateísmo, no ativismo, no estudo do cérebro. Escrevo também aos crentes, aos místicos, aos agnósticos que buscam na religião, no movimento, no chá, na meditação, no tao, no tai chi, nas preces, no silencio, no coração . Eu escrevo a todos que eu sei buscam sentido de alguma forma como eu para contar da minha ultima busca mística.

Eu tento todos os caminhos. Quem me conhece a tempo suficiente sabe que eu fui de ateia fundamental de dennett e dawkins e russell, a retiros de meditação em silencio, tantra, yoga, budismo, oriente medio, dança ate uma ultima busca por esses dias onde tentei abandonar o mental de vez, abandonar o controle, tomando o chá da ayahuasca.

Num lugar sincrético de todos os santos, e divindades, com bandeiras de budismo, shivas, parvatis, lamas, monges, todas as danças, pessoas de todas as idades que vieram de vários caminhos. E eu que passei onze anos procurando o momento certo para abandonar o controle da mente, que nunca nem se quer fiquei bêbada demais, decidi permitir que o famoso chá me levasse numa viagem xamanica. E eis que não senti nada.

Ou melhor senti, o velho existencialismo, o conhecido ateísmo bater na porta do meu coração. Senti o conhecido sentimento de abandono arregaçar o meu ego. Escrevi a todos esses amigos que desesperada para contar que tomei o potente chá e senti Nada. Na tempestade de mensagens que recebi de volta, percebi que menti. Não é que eu não senti nada. Se eu sentisse nada talvez fosse a experiência de iluminação Budista. Eu me senti abandonada, traída, sozinha, prisioneira existencial de determinar meus próprios valores. Senti-me como se toda minha salvação tivesse que ser só minha. E eu não queria isso.

Um amigo meu me perguntou o que eu esperava no copo? Era o amor metafísico?

Disse que não, mas confesso aqui que Era…mas teria me contentado com um gole de fé, de esperança, como um amor daqueles de avó que dá um chocolate quente no meio da tempestade interna não para resolver mas para acalmar, para em sentido mostrar que tudo será porque sempre foi.

Meu amigo ainda me perguntou ( mostrando que eu não era) se eu era mesmo capaz de abandonar esse controle. E percebi em suas palavras que o meu abandono é sempre contratual. Eh um abandono que espera. Tudo bem vai ver que não é total abandono de controle mas foi o passo maior que eu já soube dar. Foi concordar em abandonar o controle da mente tomando um agente externo. Então o nada que o chá me trouxe foi ainda mais nocauteador. Como assim? Eu deixo você me mostrar o que eu devo ver e eu vejo NADA?

Tentei de novo no dia seguinte esperando menos. Dancei todas as danças e depois quando parti escrevi. Escrevi e escrevi. E o que eu recebi de volta dos meus amigos que vivem por linguagens tão distintas foi o mais perto do divino que eu já cheguei. Essa teoria de possibilidade.

O chá nao me mostrou o “nada”. Ele me mostrou toda a busca que eu sou.

E em escrever aos meus amigos que em sua multiplicidade são também tudo que eu sou vieram mais angustias e mais calmas.

Queria então em gratidão a tantos iluminados dividir um pouco do que me disseram. Não é justo que eu guarde tudo isso só para mim. Deve ter alguém ai que precisa como eu dessas inspirações.

“The searches I do abstractly in physics you live in your body. Understand this desire to leave, this path you take is yours. When you want to stop you will always find this love. Maybe accepting our human condition is the most divine we can get to. If you have concluded the metaphysical is love then it has found you over and over again. You just need to let it in.”

“Would I try ayahuasca or similar? No – losing control is what I’m mortally afraid of. And why? What is it, that lies under the surface and that I’d rather not face? I guess it’s a bit like dreams – sometimes they are more wonderful than anything you can imagine when you’re awake, and sometimes they’re just terrible (at least for me) – makes one realize how frail the boundaries of not only civilization but even the self are, and how NON-human it feels to step outside them. Wouldn’t a drug bring the same – divine and infenal together? A powerful force and a tantalizing experience, but what do you really learn from it? Does it make you wiser, or more profound? What do the initiation rites of terror really inculcate, for example (apart from group solidarity, of course, a nod to anthropology, ha-ha)? To compare: psychodelic music vs Bach, Pater nostre vs ayahuasca – different media, similar source of inspiration? I think so. And I don’t see why losing control is a necessary prerequisite to enjoying this source. You do stay more squarely on human level then – but we ARE humans, aren’t we?”

“Minha opiniao curta e grossa: nao toma cha aí. O cha é pra ser tomado com a presença de amigos, numa cerimonia especial para iniciantes, onde vai ter gente que vc conhece com vc e, se necessário, tomando conta de vc. Aí na chapada ta cheio de louco de pedra, falsos gurus and the like.”

“My feelling is that the divine permeates the world around us and that we do not need extraordinary experiences in order to approach it. Last year has been crazy for me, I have been blessed with an amazing partner and a baby, there have been plenty of challenges along the way for which I was totally unprepared and I have come to re-appreciate things ordinary that we take for granted. 🙂 Love”

“i long as well to figure me out.  I long to be shown the path.  Part of me feels that I’ve been forcing it through these travels.  Sometimes I feel like there are vague hints that, yes, you are in the right place.  but they are fleeting.  part of me has sort of determined a paradoxical fact: that my path in life is to search for my path in life.  to always be searching.  the other part of me feels this is a fucking cop out. ”

“Siéntate ante el hecho como un niño pequeño, Preparate a abandonar toda noción preconcebida, Sigue humildemente hacia los abismos a que te conduzca la naturaleza, o no aprenderás nada.”

“the reason why we, humans, are in this world is because we somehow lost connection to the divine. Through our lives we crave for it in the most different ways: money, food, sex, knowledge, membership to this or that, drugs or whatever. Despite being unaware, the divine is the thing we are actually craving for.”

“Jules, my dear friend. I find my search for the divine equally challenging and sometimes very frustrating, just like you. But what I may have already understood (or maybe this is just one more illusion?) is that one has to walk steadily the path and trust the divine will be at the end of it. Experiencing the divine is not the beginning. It is the end.”

“The love you carry in your heart is your divine part. The will of getting more, that incessant desire to feel more, always more than you have, is the evil one”

“I believe that you will reach this full contact with the divine, you will fill up the hole you feel now inside, only when you die. Till that day, just give your love as you were a flower and you couldn’t stop sending out your sweet smell”

” You would be a living dead if you didn’t have that profound hole inside you. But that is your engine, it’s your steps toward someone, it’s your salvation. It can’t be filled up now, otherwise your life would be done. Let it lead you where it needs, let it drive your hands. It should be your faith, it can’t be your destruction.”

Relendo escolhendo trechos de alguns de tantos que pararam para pensar no sentido da vida, da busca eu me emociono.

Meus amigos práticos acham que talvez o chá não era forte, os místicos acham que ele me mostrou o que eu precisava ver, os neurologistas e neuro-ciesntistas me explicaram o que deveria ter acontcido com minhas sinapses, o que pode ter interferido e me ensinaram mecanismos de facilitar o efeito do DMT, os artistas consideraram a busca em sim a dadiva divina, os de família consideraram os encontros, o diario, o banal, os cientistas sociais ponderaram sobre o ritual, os fisicos falaram do abstrato. Meu amigo ateu disse que o divino estava em ser humano. Ponderei Estaria o meta físico então nessa nossa capacidade de viver no simbólico? Estaria na busca? No caminho? Todos ficaram surpreso em ler que eu busco amor. Todos vêem a minha vida como a manifestação do amor.

Lendo tudo isso percebo que concordo com todos. E talvez a minha angustia vem de querer uma resposta só. Quantas vezes terei que me lembrar dessa multiplicidade? Quantas vezes terei que me contar que ha caminhos demais para ser só um. Quantas vezes vou sentir meu coração tão apertado. Um novo amigo que fiz ontem me disse uma coisa que me acalmou

” craving só tem quem esta conectada ha muito tempo e esta passando por uma cold turkey de conexao.”

Será que é isso? Que alivio. Eu quero estar conectada. Não, calma na verdade eu quero a dissolução de barreiras. Eu também quero o banal. Eu quero que alguem me salve de mim mesma. Eu quero redenção. Ah, mas me disseram por varios caminhos que tenho que parar de querer.

Talvez o divino seja isso a possibilidade de transformação. O nada e o tudo. A angustia que te leva a buscar a ouvir e a descobrir a duras penas que resposta nenhuma move, o que move é a pergunta. E viver é movimento. Em Hebraico dizem que ha as pessoas das respostas ( religiosos) e a das duvidas. Eu busco a resposta mas vai ver que só quando eu me contentar com ser a busca que ela vai chegar. Será que chega? Enquanto ela nao chega eu fico na duvida se ela existe. E sigo buscando… .

Fugas menores

Quebrei o pé e disseram-me que era para eu aprender a parar. Mas eu tava paradinha lá na  beira do Mekong ha meses. Quebrar meu pé ironicamente me obrigou a me mexer percebi hoje. Primeiro tive que cruzar continentes, depois tive que voltar e fazer decisões, decisões que tenho procrastinado fazer.

Meu pé não precisou de operação e em pouquíssimo tempo eu já estava em movimento pelo Brasil. buscando sei lá o que sei lá onde. Fui passar carnaval no rio para acidentalmente me conectar com uma Iraquiana conflitada e dividida como eu. O que vocês se sentem? perguntou-nos o Canadense que eu conheci na Cashemira, e que agora estava conosco em Copacabana.

Ele viajou muito mas é do Quebec. Não tem duvidas. Ela nasceu na Escócia de pais Iraquianos, viajou o Brasil e a Africa e o Oriente Medio, trabalha como cineasta e psiquiatra em Londres, tem namorado Palestino esteve em Israel. Eu nasci no Brasil, estudei em escola francesa, morei na Argentina ainda criança, na Australia quando adolescente, faculdade em NY com amigos de todos os continentes, depois Holanda, mestrado e começo de doutorado em Londres, pesquisa no Oriente Médio, voluntariado e viagens mais longas pela Asia. Ex- marido holandês. Envolvimentos mais profundos Israelense, Italiano, Romeno e Americano. Nunca amei em português.

Andamos por Ipanema. E a resposta é imediata a nós duas: seres humanos. Essa resposta em toda a sua beleza guarda também uma enorme dor. Ser do mundo é ser de todo e de lugar nenhum. É se sentir familiar no não familiar. É amar em línguas que nem são tão sua, é se envolver nos caminhos de dentro que a principio parecem esquisitos mas depois ficam viciados, viram o único que sabemos fazer. Encontros com data de expirar.

E aí como é voltar para casa? Casa? Que casa eu me pergunto. Voltar a casa é a maior de todas as dores. É ser confrontada diariamente com tudo que não é seu. É ver todas as rugas que você não acompanhou, é significar nada para as gerações que apareceram nesse tempo que você esteve por aí. É não saber amar no tempo local. Nós jogados no mundo queremos já estar amando ontem pois não sabemos onde estaremos amanhã.

Ah bom. Entao se já identificamos o problema fica fácil. É só ficar e retomar a casa. Ah se fosse tão simples. Quando você sai todos os dias recebe desses que você aprendeu a amar em outras metáforas, com outras musicas, em outras línguas um convite. E já que toda a escolha é a rejeição de todo o resto, quando o mundo vira a sua casa, fica se claro que nunca será possível ter todos ali no mesmo lugar. Você também, acaba virando vitima dessa imagem de querer ver tudo. De querer sempre estar em movimento.

Posso confessar uma coisa. Eu não quero ver tudo. O lugar mais bonito que vi foi o que reconheci. Eu quero saber ficar mas eu aprendi um tempo interno que vai a bilhão.

Quebrei o pé para ficar parada me disseram. Eu estava parada vendo os viajantes passarem por mim para chegar ao Laos. Eu agora to achando que eu quebrei meu pé porque eu precisava me mexer. Eu preciso decidir que casa é essa. Essa fuga/busca eterna dentro de mim está me matando.

Um amigo meu que me é muito especial me disse esses dias. “Não lute contra a dor. Fique. De a mão para vida, e não saia correndo desse jeito toda a hora. Se for para ir vá porque quer ir, não porque sente que tem que ir embora. De a mão para vida e vai aos pouquinhos.” To tentando Gu, juro. To ficando mais e mais, só que as vezes não dá e eu tenho que fugir. Quem sabe o segredo nao é ir diminuindo a distancia das fugas? Fujo um pouquinho mais perto para que quando a minha alma se der conta que ainda esta no lugar anterior, pelo menos nãp vai precisar de passaporte em punho para voltar.

O que vemos no Mundo

Eu tive uma experiencia meio intensa aqui esses dias. Tentando resumir ao maximo no maior momento de total existencialismo eu acordei no meio da noite com um homem tentando entrar na minha casa. Um ptencial estuprador. Eu aqui na beira do rio Mekong. Nao quero repetir toda a estoria porque ja contei ela demais. Quem quiser saber detalhes eu escrevi um longo post no meu blog ingles aqui.

Esse post eu nao quero falar do que aconteceu mas sim das respostas que eu recebi ao meu email coletivo. Respostas de amor, preocupacao que vieram do Brasil, da Europa, do Oriente Medio, dos EUA, da Australia e ate mesmo da Africa. Eu recebi mensagens de gente do mundo todo. Pessoas que estiveram na minha vida de formas distintas em niveis de intensidade distintos mas que de alguma forma se sentiram tocados e resolveram me mandar a suas opinioes. Os seus conselhos. As suas sugestoes. Me senti confortada, intrigada e grata.

A vasta maioria das pessoas me escreveu para dizer que tinham se emocionado e que estavam felizes por eu estar bem. Houve uma parte que me lembrava de fechar a porta. A grande maioria das pessoas que eu conheco contaram como um ou outro evento tragico os tinha ensinado como eu a ver o mundo mais positivamente. Nao a focar no um incidente tragico mas no fato de aquilo ser tao chocante significar que na verdade eh raro.

Houve apenas um pequeno, bem pequeno numero de pessoas que me escreveu para falar o contrario. Meu irmao me escreveu para falar do egosimo inerente ao homem. Da violencia. Meu amigo soldado que defende a ocupacao da Palestina me escreveu para me dizer era por isso que Israel mantinha o exercito como eh. POr cause dessa maldade que existe.

Fiquei intrigada com esses emails que eles escreveram, mas tambem feliz de ver que o cinismo deles eh minoria dentre o grupo de pessoas que eu conheco. Eu sei que o email deles vem de se preocuparem. De quererem que eu evite me expor a riscos que eles julgam desnecessarios.

Eu concordo que eu posso fechar a porta que da para o rio. Esse eh um risco desnecessario. No entanto, eu nao concordo que eu tenha que deixar de ir ouvir as estorias das pessoas. De cruzar o mundo confiando.

Eu queria escrever esse post para dizer mais uma vez que a minha experiencia no mundo eh de enorme altruismo. Eu fui a milhares de lugares que me mandaram nao ir. Eu fiz couchsurfing na Palestina, fiquei na casa de gente que conheci pelo caminho na India, na Kashemira, em Israel, na Italia, na Franca, na Bolivia etc. Eu recebi na minha casa totais desconhecidos inumeras vezes. O que eu aprendi tomando esses riscos?

Eu aprendi que nos somos todos muito parecidos, capazes de mal e bem. Na maioria das vezes no entanto somos bons. Eu aprendi que em qualquer lugar que voce esteja as pessoas sao, se voce trata-las com respeito, sempre abertas e altruistas. Eu aprendi que ideologia nos separa mas a humanidade nos conecta. Eu aprendi que medo paraliza e que quem tem medo se tranca dentro das suas prisoes luxuosas e ve na excessao a regra. Eu aprendi que quem sai para ver o mundo tem muito mais fe na humanidade porque a nossa experiencia eh de sempre encontrar desconhecidos que nos ajudam por nada alem de que ser bom eh melhor que ser mal. Eu aprendi que quando alguem te ajuda voce quer passar para frente esse sentimento de gratidao. Eu aprendi que tempo que voce conhece uma pessoa nao se correlaciona com quao profundo pode ser o encontro que voces tem.

Acima de tudo eu aprendi que enxergamos no mundo o que projetamos. E que projetar no mundo o bem sempre cria uma vida melhor para quem projeta e para quem esta a volta. Enquanto os meus amigos que apoiam a ocupacao ilegal da Palestina continuarem achando que eles tem que se proteger nao havera nunca paz no Oriente Medio. Enquanto no Brasil as pessoas nao enxergarem o problema criado pela desiguldade eles continuarao andando nos seus carros blindados sentindo-se vitimas de injustica e impunidade. Enquanto tivermos medo de encontrar o outro, aquele de quem sempre ouvimos falar tao mal. Enquanto ficarmos na ideologia em vez de na humanidade. Enquanto nao encaramos que sim somos todos capazes do bem e do mal, mas que dependendo da escolha que fazemos criamos nao so o mundo que vivemos mas tambem a percepcao que temos dele.

Sim eu concordo eu posso trancar a porta de tras da minha casa esse eh um risco desnecessario, encontrar o outro, nunca eh.