Fugas menores

Quebrei o pé e disseram-me que era para eu aprender a parar. Mas eu tava paradinha lá na  beira do Mekong ha meses. Quebrar meu pé ironicamente me obrigou a me mexer percebi hoje. Primeiro tive que cruzar continentes, depois tive que voltar e fazer decisões, decisões que tenho procrastinado fazer.

Meu pé não precisou de operação e em pouquíssimo tempo eu já estava em movimento pelo Brasil. buscando sei lá o que sei lá onde. Fui passar carnaval no rio para acidentalmente me conectar com uma Iraquiana conflitada e dividida como eu. O que vocês se sentem? perguntou-nos o Canadense que eu conheci na Cashemira, e que agora estava conosco em Copacabana.

Ele viajou muito mas é do Quebec. Não tem duvidas. Ela nasceu na Escócia de pais Iraquianos, viajou o Brasil e a Africa e o Oriente Medio, trabalha como cineasta e psiquiatra em Londres, tem namorado Palestino esteve em Israel. Eu nasci no Brasil, estudei em escola francesa, morei na Argentina ainda criança, na Australia quando adolescente, faculdade em NY com amigos de todos os continentes, depois Holanda, mestrado e começo de doutorado em Londres, pesquisa no Oriente Médio, voluntariado e viagens mais longas pela Asia. Ex- marido holandês. Envolvimentos mais profundos Israelense, Italiano, Romeno e Americano. Nunca amei em português.

Andamos por Ipanema. E a resposta é imediata a nós duas: seres humanos. Essa resposta em toda a sua beleza guarda também uma enorme dor. Ser do mundo é ser de todo e de lugar nenhum. É se sentir familiar no não familiar. É amar em línguas que nem são tão sua, é se envolver nos caminhos de dentro que a principio parecem esquisitos mas depois ficam viciados, viram o único que sabemos fazer. Encontros com data de expirar.

E aí como é voltar para casa? Casa? Que casa eu me pergunto. Voltar a casa é a maior de todas as dores. É ser confrontada diariamente com tudo que não é seu. É ver todas as rugas que você não acompanhou, é significar nada para as gerações que apareceram nesse tempo que você esteve por aí. É não saber amar no tempo local. Nós jogados no mundo queremos já estar amando ontem pois não sabemos onde estaremos amanhã.

Ah bom. Entao se já identificamos o problema fica fácil. É só ficar e retomar a casa. Ah se fosse tão simples. Quando você sai todos os dias recebe desses que você aprendeu a amar em outras metáforas, com outras musicas, em outras línguas um convite. E já que toda a escolha é a rejeição de todo o resto, quando o mundo vira a sua casa, fica se claro que nunca será possível ter todos ali no mesmo lugar. Você também, acaba virando vitima dessa imagem de querer ver tudo. De querer sempre estar em movimento.

Posso confessar uma coisa. Eu não quero ver tudo. O lugar mais bonito que vi foi o que reconheci. Eu quero saber ficar mas eu aprendi um tempo interno que vai a bilhão.

Quebrei o pé para ficar parada me disseram. Eu estava parada vendo os viajantes passarem por mim para chegar ao Laos. Eu agora to achando que eu quebrei meu pé porque eu precisava me mexer. Eu preciso decidir que casa é essa. Essa fuga/busca eterna dentro de mim está me matando.

Um amigo meu que me é muito especial me disse esses dias. “Não lute contra a dor. Fique. De a mão para vida, e não saia correndo desse jeito toda a hora. Se for para ir vá porque quer ir, não porque sente que tem que ir embora. De a mão para vida e vai aos pouquinhos.” To tentando Gu, juro. To ficando mais e mais, só que as vezes não dá e eu tenho que fugir. Quem sabe o segredo nao é ir diminuindo a distancia das fugas? Fujo um pouquinho mais perto para que quando a minha alma se der conta que ainda esta no lugar anterior, pelo menos nãp vai precisar de passaporte em punho para voltar.

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