Hermes

Não dormi. Continuo em Brasilia. Brasília que a até poucas semanas eu só conhecia de ouvir falar, de ver na televisão. Brasilia que me pareceu estereotipicamente cair dentro do espectro do Autismo. Tão funcional, mecânica, concreta, onde não há esquinas e as pessoas parecem dar voltas em vez de se cruzarem.

Eu não dormi pois era festa de aniversario de uma querida amiga. E em Brasilia festa de aniversario é em casa. E os amigos se conhecem desde que nasceram e se você quiser se sentir mais do que robótica tem que ter essa sorte que eu tenho de ter acesso a uma porta magica que te leva dentro. E lugar nenhum dentro é concreto.

De alguma maneira estranha me lembrou o Marrocos que se você não conhece ninguém só passeia pela superfície das coisas. Pelo lado turístico. Brasília sozinho deve ser como andar num livro de ficção cientifica.

No Marrocos lembro de ser levada em meio a medina, por ruas tortuosas pelas mão da minha amiga marroquina para encontrar uma porta qualquer, quase que fortaleza, em meio a tantas outras. O toque na porta certa e lá dentro tudo era outro. A beleza dos detalhes do mosaico, a suntuosidade de palácios mil e uma noites.

Pelas mão do motorista da minha amiga descobri a doçura não só do chá de menta, mas da hospitalidade marroquina dos que não vivem no palácio. Abdul que virou meu amigo me carregou ali cruzando mais um muro,nesse caso, invisível, o muro do do preconceito. Preconceito dos dois lados. E eu sei lá porque tenho a sorte de encontrar esses Hermes que me conduzem entre mundos.

Na mão dos palestinos entrei no mundo secreto das mulheres do banho turco. La dentro, dentro daquele mundo secreto cantavam, dançavam, se pintavam, deitavam nas pedras quentes. Gritavam aquele grito que eu conhecia já de ouvir no deserto do Sahara. Os véus tinham ficado do lado de fora.

Esses mundos secretos tem uma certa coisa tribal. Uma desconfiança do diferente. Do rápido. Tudo se constrói aos poucos e essa pressa que nos viajantes existenciais vivemos parece estar diametralmente oposta a esses mundos. Quero o profundo ontem, porque sei que não tenho o tempo de comer o saco de sal junto.

O que será então que me faz encontrar esses mundos? São os Hermes, os barqueiros, que vem desses mundos mas tem a curiosidade do outro também. Sao os que presos entre o discurso do profundo estar no banal do conhecido e o profundo esta no novo, que gentilmente, me deixam entrar e conhecer um pouco.

Brasilia é assim para mim. Lembro de ler um artigo sobre Austimo que falava sobre a importância da lealdade. De repente depois de umas semanas aqui eu começo a procurar os outros lados do espectro. O que mudou?

Nada. O que mudou é que agora eu não ando só as rodovias. Eu não dou mais voltas em carros sem destino. Os encontros acontecem com o cuidado velado dos candangos. Assim cuidado de família mineira que cuida e desconfia de qualquer coisa que possa ameaçar.

Eu não dormi pois celebramos a vida dessa amiga. Essa barqueira para mim que foi portal de um mundo todo que teria ficado escondido se eu não a conhecesse. Se ela também não estivesse entre mundos. Não dormi pois aos poucos o mundo dela vai fazendo aos poucos mais sentido para mim.

” você devia mudar para ca” me dizem alguns.

Nossa. Como foi mesmo que isso aconteceu? De repente Brasilia me parece casa. Tenho meu lugar favorito para tomar cafe. Tenho a minha mangueira favorita. Meu baixista favorito. O pão que eu quero comer. Como mesmo que isso aconteceu?

É verdade, eu sei, eu tenho a sorte de sempre encontrar com Hermes.

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