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Sobre julietafalavina

Eu escrevo da minha vida, e agora sobre a minha recuperação da saúde .

O Tao da psicologia e do Budismo…

Numa leve percepção minha eu entendo que a psicologia é baseada na ideia de que uma memória relembrada e libertada em palavras a um psicólogo leva uma pessoa a uma libertação. Agora o que eu aprendi dos cognitivistas e dos neuro-ciêntistas é que relembrar eventos difíceis fortalece redes neuro-logicas prejudiciais. Portanto eles se focam em criar novas redes neurológicas. Já o budismo te leva a ser compassivo e consciente das suas ações. O sofrimento vem de se focar demais no ego, e de menos no outro. Vem de não sabermos a origem dos nossos sofrimentos. Eu passei por todos esses caminhos buscando.

Quando eu quase morri na Asia em setembro de 2013 eu estava do lado de alguém que eu amava e confiava. Ninguém nunca soube muito bem porque eu tive um ataque epiléptico sequencial.

E lá fui eu de hospital a hospital de neurologista , psiquiatra a psicólogo tentar curar meu cérebro e a minha mente. Já que tudo na minha vida foi tão exposto eu não tenho problema de fazer isso aqui mais uma vez. Quem sabe ajude a alguém.

Aquiles, meu psicólogo reichiano, sempre me dizia que eu precisava me lembrar o que tinha me deixado tao vulnerável. A princípio eu achava que era a doença da minha avó. Ele cria que isso era impossível.

Depois de ir semanas e semanas lá resolvi que era tempo de ir para praia sozinha carregando nada alem de um livro do Mathieu Ricard, um biólogo de carreira muito promissora que tinha virado lama. Nesse livro ele conversa com seu pai Revel um famoso filosofo. O livro vai do budismo a filosofia passando pela neuro-ciência e a física. O livro me trouxe paz e libertação me relembrou o que muitos lamas tinham me dito por muitos caminhos.

Voltei e larguei minha terapia. Aquiles me disse que eu não era tibetana. E eu expliquei que eu não achava que ir lá e falar de mim me trouxesse nada além de fortalecimento do ego. Ainda mais importantemente eu não queria aquela linguagem de descrição na minha vida. Disse que quando eu pensava nos psicologos que conhecia eu via uma enorme busca de espaço pessoal. Resoluções pessoais. Eu não aspiro a isso. Já estamos nessa sociedade que tem isso como valor. Eu aspiro a calma a consciência e a paciência dos Tibetanos que eu encontrei pelo mundo. Partimos amigos.

Continuei lendo os Tibetanos e dia desses o Fernando, meu amigo de anos, quis ver o famoso e-mail que foi mandado aos meus amigos quando fiquei doente. O e-mail que me destruiu na época. E que eu li só depois de muitos meses. Eu que não o lia há muitos meses. Reli. Coloco o aqui. O e-mail é esse:


—-
Queridos amigos, amigos queridos da Ju,

Essa mensagem estava para ser escrita há dias, até porque vcs não receberão nenhuma mensagem de Julieta por um bom tempo.
Para quem não estava sabendo nem por alto,
Ju teve uma crise de mal epiléptico em Bangkok e passou três semanas num hospital local onde se tentou de todas as maneiras cortar as descargas elétricas em seu cérebro até a decisão radical de entubá-la, deixando-a em estado de coma induzido de maneira a poder se administrar uma dose altíssima de medicamentos sem que ela tivesse uma parada respiratória.

A eletricidade mais ou menos controlada, Ju despertou mas não sem sequelas. Não vou medir palavras, queridos: aquela Ju que todos nós conhecemos não existe mais. Houve uma brain damage que os médicos agora tentam analisar para ver o que é ou não reversível. Ninguém alimenta muita esperança. Cognição, termo tão precioso para ela, deixou-a. Ju não consegue ler nem escrever, na verdade ela não consegue sequer identificar letras ou números.

A tela de computador é um mistério para ela. Noções temporais e espaciais estão severamente comprometidas. Ela ouve vozes e não consegue distinguir sonhos/imaginação/memória da realidade. É incapaz de realizar as funções fisiológicas mais básicas sozinha. Tem dificuldade em identificar um interruptor de luz ou mesmo virar uma chave.

Mas ela ainda reconhece as pessoas, e fala… com dificuldade, sim, pois muitas vezes se esquece do que estava falando ou da palavra que queria usar. Sua memória prega peças: ela me pedia todo dia que lhe repetisse o relato de sua internação, para esquecer no dia seguinte. Mas às vezes se lembra de histórias do baú, ou me contava histórias de outras viagens (cuja veracidade não tinha como checar, mas pelo menos compunham uma narrativa medianamente coerente).

Quando voltamos ao hotel, antes de ir para o aeroporto, ela de repente parou na frente do quarto 702, que era o nosso antes do ataque – depois eu tive que mudar de quarto. Enfim, exemplos de comportamento desviante, infelizmente mais preocupantes que não, abundam, e eu vou poupá-los aqui.

Inútil dizer que essas três semanas foram seguramente as piores de toda a minha vida. Em alguns momentos ela corria risco de morte, mas só uma chamada do médico dela aqui no Brasil convenceu os pais a irem me ajudar em Bangkok. Aliás, agradeço muito a ajuda da mãe, dona Helô, sem a qual teria eu caído de exaustão no quarto de UTI ao lado do da Ju.

Mas não quero aqui entrar em considerações familiares, pois isso tb me trouxe alguns aborrecimentos desnecessários, e é a família que agora tomou as rédeas do destino dela. Eu mesmo caí doente com aguma espécie de infecção bacteriológica no dia seguinte à chegada no Brasil. Mas também, depois dessas três semanas de perrengue, ainda passei os últimos três dias, incluindo a viagem de volta a SP, sem dormir (não é exagero). Minha resistência também pediu arrego.

Assim que para mais notícias sobre a Ju, melhor contactar a mãe. Eu devo voltar para Zurique no fim dessa semana, mas também ficarei feliz em ouvir de vcs. Ainda me dói demas falar a respeito, não consigo nem ouvir suas músicas sem ter um treco. Às vezes penso que isso que aconteceu é pior que a morte. Pois ela está aqui… mas não está mais.

A esperança é que uma nova Ju renasça desse quadro (há a suspeita de que ela sofra de um mal chamado Mesial Temporal Sclerosis, que é um bicho horrível de feio, mas que pode ser atacado com uma cirurgia). Fato é que depois do “redespertar”, ela está uma pessoa bem mais carinhosa e muito mais sensível a carinho. Terna como um bichinho, she’s still a sweetie… her own way. Vou parar por aqui antes que role um mellow down embaraçoso demais. Beijo grande a todos, Edu”

——

Eu reli ao lado do Fe e senti verdadeira compaixão pelo Edu.

É verdade que eu nunca mais fui a mesma. É verdade quase tudo aquilo que ele escreveu. A maneira que ele me matou simbolicamente me fez muito mal naquela época.

E e eu voltei ao que os Tibetanos já tinham me dito. Aquilo que eu re-encontrei no livro do Mathieu Ricard emprestado ao meu pai por seu novo grande amigo. Aquilo que eu sempre soube estava lá. Estava lá a história da faca. A história é mais ou menos assim.

“Quando um homem enfia uma faca em você, você sente ódio da faca?”

“Não.”

“E do esfaquiador?”

“Sim.”

“Não deveria. É um estado impermanente. Uma sinapse ruim. Sua responsabilidade é muda-la.”

“E se eu não consegui? Fujo?”

“Sim. Mas não para se proteger. Para proteger o outro. Aquele que não tem consciência. Vc que tem consciência é responsável pelo mal que é infringindo a você e ao outro.”

Eu não sei nem dizer quanto tempo faz que eu sei disso. Ainda assim eu odiei o meu esfaqueador. Por tanto tempo. Eu odiei o abandono, o desaparecimento. Quis morrer tantos dias e noites. Não cria nem queria ver mais nada. E como sempre voltei aos Tibetanos.

Um lama não entende a presença do ódio. Falou-me da faca e eu disse que odiava o esfaqueador.

“Então você não entende a história da faca.”

“Como não? Eu entendo e não podia evita-lo. Eu fiquei doente!”

E o tempo passou, porque na verdade você nunca de fato entende o que te foi dito antes da hora certa.

De repente tudo que o Aquiles me disse e que me disseram os Tibetanos e os Indios se encontraram.

Como num golpe de mágica eu me lembrei.

Claro que eu sabia. Em todas as minhas alucinações durante o Coma o Edu me abandonava.

Eu acordei perdida. Perdida no meu cérebro mas acima de tudo dividida entre o que eu queria acreditar e o que meu corpo já tinha me evidenciado.

E ali na frente do mar eu entendi mais a fundo do que karmapa, Rinpoche, Dalai lama, lama lobsang, e tantos outros lamas tinham me dito com a história da faca.

A libertação vem da consciência. A consciência te devolve a responsabilidade.

Faz mais de uma ano que isso aconteceu. E o Edu estava certo, eu sou uma nova Julieta.

Essa Julieta cre essencialmente nas mesmas coisas. No entanto é capaz de entender mais a fundo os Indios, os Tibetanos e o Aquiles.

O processo de percepção e de analise se dão em lugares distintos do cérebro.

O que aprendi mais profundamente é que dopamina por dopamina é besteira. Ideia por ideia também. De tudo que eu vivi eu aprendi que há varias linguagens de descrição.

O culto do ego leva a enorme sofrimento. A separação de percepção e analise também.

Esses dias eu conheci a minha versão masculina. Um menino que voltou da Asia depois de quase morrer. Enquanto ele buscava mais solução em movimento eu ouvi desesperada, levantei e fui dançar.

Sabia que não podia fazer aquilo, mas sabia que aquele buraco era só mais um. Intuía que como me foi dito antes se não parasse cairia de novo.

A gente nunca imagina que a queda pode ser muito pior. E ali no que vc acredita ser o fundo do poço pode não ser. Não há o que dizer a uma pessoa no buraco.

Os índios nos mandam deixa-los lá. Mas nó dizemos porque nos foi dito, até pelos os índios mesmo.

E um dia de repente vem as palavras proferidas há muito tempo. E de repente ali naquele dia você entende. E aquilo finalmente te liberta porque você identifica a sua responsabilidade.

Ser responsável te liberta, te permite ter compaixão ao esfaqueador. Aquele que não tinha consciência.

—–
Ps: Recebi muitas mensagens tocantes depois desse email. Queria que vcs vissem isso que é da Laura.

Faca nao tem consciencia. esfaqueador por definicao nao tem consciencia. quem abandona por definicao nao tem consciencia. nao tem consciencia do outro. e sem consciencia do outro nao existe amor. e sem amor nao existe amante. e sem amante nao existe traicao como agressao. e sem agressao nao existe raiva.

tudo resolvido. voce livre. voce inteira. voce como voce se merece. e como eu geralmente gosto de te ver.

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O hilário e belo dos pequenos detalhes- Crê

“Nossa Crê que fome!”

“Também Julieta você quase não come. Quer que eu faça alguma coisa para você.?”

“Não Crê, deixa que eu me viro.”

A crê é minha babá de infância, ela cuidou de mim de quando nasci até eu ter uns 6 anos. Antes disso ela trabalhava para a familia do meu pai. Ou seja ela sabe muito sobre eles.

Quando fiquei doente no ano passado minha avó Jandyra falou para meu pai que a crê deveria vir cuidar de mim. Ela veio. E quando fiquei melhor minha avó Lucia, com quem moro, pediu para ela ficar aqui. E ela ficou.

Com seus 74 anos de muita vida e muita paciência ela fica lá me olhando na cozinha. Ela sabe que eu não sei cozinhar.

Abro a geladeira, pego arroz, feijão, farinha e misturo tudo num prato fundo.

“Julieta tá parecendo prato de peão! Vc tá com fome de 5 mendigos?!”

Eu rio e digo que sim. E começo a comer.

“Julieta, você não vai nem esquentar?”

“Não crê. Tá bom, a função é me alimentar, tá gostoso.”

“Então esse prato não é de peão é de bóia fria. :).”

Diz isso e se mata de rir. E eu me mato de rir com ela.

Ontem fiquei emocionada. Fui tomar suco no café da livraria da vila. Tomei o suco que tomo sempre.

No final a garçonete me disse.

“Que bom te ver tão bem. Eu lembro de quando você vinha aqui com a sua babá.”

Olhei para ela profundamente e me lembrei que tinha sido ela que tinha me dado o suco que tomo até hoje quando eu estava doente. Abacaxi, hortelã e mel.

“Como você se chama. Eu me lembro. Meu deus, eu me lembro de você. Nem acredito que você lembre de mim e da crê.”

Fico emocionada.

“Jennifer. Claro que eu me lembro. Estou muito feliz de te ver tão bem.”

Tenho vontade de abraça-la. Tenho lágrimas nos olhos. Quase tudo ultimamente vem me mostrando que não somos invisíveis aos outros.

Como a minha comida fria. Conto tudo isso a crê. E penso que em pequenos detalhes a vida é tão bela. Tão hilária.

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Um barco pela Amazonia

Sempre escrevo em inglês porque a maior parte dos meus amigos e família falam inglês e grande parte dos meus amigos não falam português. No entanto, tem quem é daqui e quer saber dessa viagem. Não sei traduzir, ou melhor acho muito chato. Então escrevo algo misturado do inglês com o novo.

Estou num barco indo de Manaus para a tríplice fronteira. Brasil Peru e Colombia. Minha última impressão de Manaus foi desfeita pela minha não desistência de ficar.

Parti com amigos lá. Parti já conhecendo a senhora do café da manhã, com convite da cobradora do ônibus para voltar e ficar em sua casa. Parti já sentindo saudade.

Estar no barco acalma. Nesse exato momento passa um video do Alexandre Pires:) Estou na frente da pequena venda, do outro lado tá a quadra de futebol.

Acabo de almoçar. Comi bem. Arroz, feijão e frango. Faz calor e o vento continua aliviando. Dormir na rede é maravilhoso. São sete dias nesse barco, navegamos pelo rio Solimões. Saímos do Rio Negro e vimos o famoso encontro das aguas.

Meu capitão é um senhor que se chama seu Manuel. Alem de me explicar tudo sobre os rios navegação me explicou também que a quadra está aqui para que os funcionários tenham alguma diversão.

O barco não é mais usado para transporte de pessoas. Com passagens mais baratas e o tempo tão longo menos pessoas vem. Pegam lancha ou aviao. A principal função desses grandes barcos são agora de transporte de carga para os vilarejos.

Fiquei amiga da Angélica que é filha de uma peruana com um manaura. Sua mãe fugiu do Peru para Manaus e passou 37 anos sem ver os pais. Se re-encontram esse ano. Angélica tem muita vontade de ir conhecer seus avós em Lima. Seu marido a traiu e ela está no processo de deixa-lo. Faz 3 dias que disse chega. 2 anos que ele não é realmente marido.

Mas na vida do Brasil tudo corre e ela já conheceu um homem mais jovem, interessante. Não quer casar nunca mais. No entanto, já se apresentou um homem mais jovem, mais delicado. Apesar de toda traição e dor fala com adolescente de um novo homem que conheceu.

Mirza, também trabalha aqui e já me convidou para ficar na sua casa em Tabatinga.

Eu gosto tanto do barco. De repente, a inicial apreensão de entrar num barco por 7 dias se desfaz. Se dissolve como uma mandala desfeita.

O barco. Vou ver mais a mata. A famosa samauma que nos rodeia. Seu Manuel me mostra todas as arvores. Explica-me o valor de uma arvore de açaí, uma arvore de pupunha.

Quando pergunto como sobrevivem nos pequenos vilarejos na beira do rio,, me diz.

“Com peixe, açaí e pupunha ”

Todas as casinhas a beira do rio são coloridas. Sempre tem uma igrejinha.

Dias já passaram de quando eu comecei a tocar. Sem sinal. Tantas histórias para contar. Estamos ja na terceira noite. Conto muito mais depois.

Seu Manuel conduziu Jacques Cousteau pela amazonia. Um senhor que me explica tudo. Já gosto muito desse barco.

Ju

Manaus- O auto da Desilusão

Comecei essa viagem para ver o que me fazia Brasileira.. Para ver se parava de querer voltar para a Asia.

De cara fui hospedada por alguém que virou amigo, Raphael. Um menino que logo no começo da vida morou anos no Japão. Sua avó japonesa, seu pai daqui. Fomos ver os bichos no zoológico e apesar de todas as arvores, lamentei ver os bichos presos. Nos divertimos naquela tarde. Já tinha sido recebida pelo amigo de um amigo. Um búlgaro que se tornou professor de universidade de matemática aqui. Todos os seus atos foram delicados, gentis.

Ontem a noite, enquanto o Rapha foi trabalhar no restaurante japones da sua família fui sozinha para o centro pois iria conhecer uma outra pessoa daqui. E assim começou um processo do observar e ser envolvida em mentiras.

Era o dia de Manaus. A volta do teatro tinha muitas festas. Parei para esperar e fui puxada por um cara para sentar na mesa dele, agradeci e sentei. Uma, talvez prostituta apareceu, e chamou o cara para dançar.

Ele na verdade queria fazer um show. Em segundos me dei conta que aquilo só podia ser uma pseudo elite daqui. Sua indiferença a todos, a maneira que o tal menino trocava de atenção e “mandava nos outros.” Pensei nos livros de Jorge Amado. Me puxou para dançar e aí eu tive total certeza disso mesmo.

Fui comprar agua e quando voltei um dos meninos da mesa me explicou que aquela cadeira era de uma menina. Ele me deu outra, ela nem sequer olhou na minha cara.

Em segundos lamentei ter sentado e percebi que ela era a namorada do tal cara. Seu descaso por ela me chocou, ela se manteve quieta virada em silêncio e eu obviamente levantei para prestar atenção num outro nucleo de pessoas.

Então chegou a pessoa com a qual eu tinha mantido contato escrito por semanas. E eu achei melhor ir para um lugar com música melhor. Ele quase que já sabia quem era a pessoa pela minha descrição da história. Que lamentável pensei.

E então fui abordada por um homem pedindo ajuda. Problema no coração. Faltava dinheiro para voltar para sua terra. Dinheiro do barco, poucos reais. E eu falei para ele que os Indios sempre dizem para não tirar as pessoas do buracos, pois caem de novo. No entanto, dei o dinheiro. Ele me deu o nome do vilarejo, telefone da sua mulher e me contou que era pastor. Disse que não ia mais pedir dinheiro. Insistiu que eu fosse visitá-lo.

A noite continuou, e esse novo amigo tocou minha pele. Quase me beija. Eu gosto dele, mas sempre o achei agressivo. Fico quieta meio sem reação. Eventualmente digo a ele que é tarde, que devia ir dormir já que tem que trabalhar no dia seguinte.

“Vc não manda em mim.”

Levanto para ir embora. Ele é legal mas isso é absurdo. É assim que tratam as mulheres aqui? Seus mil comentários quase agressivos, vestido de controle me dão uma ideia concreta. Ele vem atrás de mim e diz que tava brincando. Eu não acredito mas continuo passando tempo com ele.

Ele tenta me proteger de ver a realidade. Mas é em vão. O pastor continua pedindo dinheiro. Fica chocado de me ver. Insiste para que eu vá visitá-los, explica que só pega um pouco mais para comer. Digo a ele, que tanto a minha ação como a dele tem consequências. Ele não precisa me explicar nada.

Meu novo amigo com todas suas palavras, sua afeição me diz de repente que tem namorada. Eu sinto verdadeiro desprezo. Penso em mais uma mulher aqui em Manaus enganada. Pega o taxi comigo pois diz que é no caminho.

Quando sai ligo para Rapha que explica o caminho.

O taxista desliga e diz

” Nossa vc tem mta confiança.

Por que?

Achei que vc estava com aquele moço mas niguem que estã com você te desvia tanto do seu caminho.”

Fico quieta e penso como é verdadeira aquela frase. Rapha vem me buscar no fim do caminho já que esse taxista velhinho não acha .

Fico tão feliz de ver o Rapha e penso que ele é quase asiático, lembro do vitão! Só ele me buscaria assim. Penso que é só o primeiro dia. A india foi impossível na primeira semana.

Fico me perguntando será que tudo aqui nesse continente é tão descuidado do outro, tão de mentira? Sinto falta da Asia, do Oriente Médio, da Europa, sinto falta até mesmo de Sao Paulo. É só o primeiro dia, me repito.

Então lembro das palavras da minha mãe no seu último e-mail daquela mesma noite.

“Espero q vc nao tarde e nao sofra na busca de suas respostas. Com amor,
sua mae.

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As Nuvens e a Montanha

Meu mundo parece as vezes extraordinário. Talvez o ordinário até me assuste.

É comum ouvir os Tibetanos falarem da montanha e das nuvens.

Faz uma semanas guiada por um impulso desconhecido coloquei um bilhete na mesa de um homem que parecia perdido. Ele me disse

“Desculpe, eu to surpreso e com a cabeça longe, posso pegar seu telefone?”

No entanto, com todos os sinais do mundo que ele não poderia estar presente, eu escolhi deixar ele entrar na minha vida.

Os tibetanos também falam comumente de uma parábola.

“Quando vc leva uma facada de outra pessoa vc fica com raiva da faca?”

Toda pessoa a quem eu perguntei isso aqui diz que não, fica com raiva do esfaquiador.

“Não devia. Aquela pessoa esteve tomada por um estado mental. A responsabilidade é sua de ter permitido que aquela violência tivesse se sedimentado e aumentado no outro.”

Quase nenhum ocidental entende isso. Eu entendo.

Eu estava andando hoje em Ubatuba para ver a Nossa senhora da Paz que tinha me sido apresentada na outra semana quando aquele novo amigo tinha entrado na minha vida.

Depois, eu que nunca vou, entrei na Igreja. E assim que saí da Igreja daqui, um belo rapaz veio falar comigo, me disse:

“Eu te conheço. Ou melhor eu já te vi muitas vezes. Sempre quis falar com você, mas você sempre estava com alguém.!”

Eu olhei e fiquei quieta. Já ouvi isso mil vezes. Ele percebeu e disse:

“Juro que eu não falo isso para toda mulher bonita que vejo. Eu te vi várias vezes aqui.”

Continuei quieta e ele disse algo que me surpreendeu.

“Te reconheci pelo seu lenço voando. Eu o vi em Cartagena, depois em Taganga e depois na montanha perto dos kogis. Você sempre esteve acompanhada”

Fiquei estupefacta. De fato eu tinha estado em todos aqueles lugares, sempre com alguém Lorenzo, Lucia e Peter e de fato com meu lenço que agora voava como o vento.

Olhei para o céu, pensei em Taganga. Pensei nos Tibetanos e disse

“Faz quase um ano que eu quase morri. Eu estou perdida. Não quero ser como a nuvem, nem como o lenço que voa com o ar. Quero ser como a montanha. Eu te agradeço mas segue o seu caminho.”

Ele entendeu. Não disse nada. Eu virei as costas e continuei caminhando para casa.

Eu vi esse barco da foto. Sem estabilidade, indo de um lado para o outro com o vento. Lembrei da kashmira, de como meu amigo ex-religioso Elick tinha saído do Yeshiva. Falou de Moby Dick, de Ismael no capitulo 23. Não queria ser um barco tão perto da terra que podia se afundar, nem tampouco solto no mar onde se perderia pelo mundo. A arte de ficar no meio. O rabino compreendeu e ele virou matemático.

Por acaso contei agora desse cara que me viu na Colombia ao meu amigo que tem quiosque aqui na praia e ele disse “Nossa, mas vc não quis nem saber o nome, nem deu seu telefone, facebook, nada? Você sempre me surpreende!”

Enquanto eu andava, eu pensava que não. Eu não quis. Porque eu sei o que eu não quero reproduzir. Eu sei que o vento faz com que a gente as vezes tenha percepções muito erradas. E eu também sei que as vezes a gente joga fora coisas por bobagem, acaba insistindo num vicio químico interno sem nem se dar conta. Deixa de dar valor ao que tem, e por bobagem.

Andei misturando a minha fé dos cristãos, muçulmanos, judeus, pensando no Taoísmo e com a consciência que eu tinha feito uma escolha budista.

A montanha é presa na terra e aspira para o céu, a nuvem te joga de um lado para o outro. Eu quero aprender a ser montanha para que quando as nuvens passem elas não me machuquem tanto. No fundo eu espero,e desejo as nuvens a solidez de uma montanha.

Liguei para minha amiga de décadas e disse ” Lu vem para cá! Sabia que vou voltar para o clube. ?”

“Juju, to indo! Que bom! Tem yoga, Tai Chi. Sol na piscina.”

Ela não sabe mas eu lacrimejei. Ela me conhece mesmo. E pensei

“Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.” Fernando na voz de Alvaro de Campos.

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Das dores e o Tao

Ontem quando vi o sol, coloquei meu pé no jardim, todo o meu corpo se fez presente e eu escrevi.

Então, voltei ao jardim em direção a praia. Assim que pisei na areia meus musculos se alongaram, e o que até então era pura presença se definiu no meu cérebro como dor.

Respirei fundo, e um certo desapontamento me visitou. Lembrei das minhas próprias palavras. A impermanência de toda aquela mobilidade. Confesso que pensei em voltar mais uma vez para cama.

Olhei o céu, as ondas, o sol. Tudo ali em silencio se pintava como um convite para dar um passo a mais para frente em direção aquela dor.

Andei, reconhecendo tudo que doía. E quando eu cheguei ao lugar exato da minha prática do dia anterior eu tentei tocar o chão. Meu corpo gritou mas eu preferi ouvir o OM do mar, e assim por mais um dia eu passei por todos os professores, lamas, yogis, mestres que eu encontrei pelo caminho enquanto fazia minha prática. Dessa vez com dor que gritava por todo o corpo.

Um dia a mais de quase total silencio. Graças a deus sem televisao, conversas inúteis. Um dia de pura tranquilidade, mais um.

Porque será que alguém se fecha numa caverna me perguntei? Sendo roubado da luz, do sol, do vento? Nao sei. Gostaria de saber.

Hoje eu acordei e tinha luz pelas frestas do meu quarto. Sinal que eu tinha dormido bem e muito. No meu mundo, um verdadeiro presente.

Acordei ainda dolorida e nem se quer pensei em nao ver o sol, o mar a areia. Tudo ainda doia, mas tampouco era essa razão de não começar uma prática de mistura de yoga, tai chi, dança contemporanea como tinha feito ontem numa praia quase totalmente vazia.

De olhos fechados esqueci que talvez hoje tivesse gente na praia. Horas depois, de ser molhada, meditar, entrar no mar. Algumas pessoas vieram me perguntar se eu era professora de yoga.

No laos algum fotografo de dança achou que eu era modern dancer. Tirou centenas de fotos,e perguntou se deveria me mandar. Disse que não e expliquei que assim ficaria para mim sempre, só a memória da concentração na minha respiração, e o movimento do rio tornando aquilo um professo interno de “balance”. Nunca esqueci.

Hoje um cara que fazia documentário me perguntou do Tai Chi. “Que bonito essa forma de Tai Chi”!

Sorri e pensei em Lao Tse. Nao quis explicar que aquilo nao era yoga, tai chi, chi kung, dança. Era quem sabe Tao.. O caminho. Pensei no lendario Lao Tse sendo forçado a escrever um livro antes de desaparecer numa montanha.

Ouvi todos, quase em silencio e voltei para a minha casa.

Desde de ontem penso na dor. Primeiro a dor que me impedia de ser o que eu sou. Uma dor silenciosa que te comprime e que te convence que o melhor é parar. E na dor de ontem e dessa manhã.

Dor gritada, dor de ferida aberta, dor que vc pode ou passar anestésico e cobrir, ou fazer como fizeram na montanha da kashemira.

Ocidentais mandaran fazer o primeiro na minha mao aberta subindo montanha. A senhora local me mandou abrir, desinfetar com alcool e deixar aberto todo o dia. Eu NUNCA gostei de médico, mas ali naquela montanha eu sabia que aquela senhora sabia melhor. Deixei-a limpar, depois deixei aberto até o sol da montanha desaparecer.

” Cubra agora antes de dormir. Amanhã abre de novo e deixe no sol.”

A dor de ontem e hoje foi igual! Latente, rasgada, gritada! Mas é dor de vida! Você quase aprende a ser grata pela sua existência. Te faz grata por conpreender a diferença das dores.

A primeira que te contem, te prende, nao te possibilita movimento, te apodrece por dentro, em silencio e se mascára de menor, de silenciosa, de que a cura é fecha-la, anestesia-la .

A segunda parece de cara que vai te matar, te rasgar, soprar ar com alcool, ferro no corte, mas ela abre aquela ferida, e queima tudo que tava apodrecendo, enche seu olho de lagrima de alivio, tem algo que se move, abre e espera secar com o sol.

De repente parece, que aquela frase é mais completa, algo se abriu um pouco mais e eu ouço no silencio do OM

“O mundo de dentro nao pode ser reflexo do mundo de fora. Consciente dele, o mundo de dentro deve buscar a permanência em meio a impermanência de tudo. No fundo, o mundo de dentro não pode tampouco confundir permanência com rigidez, com falta de movimento, dentro da impermanência de tudo, e a permanência interna se faz sempre necessário TAO, o caminho. Se faz necessário caminhar.”

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O Mundo, o de dentro e o de fora.

Abandono o silêncio obrigado, a temperatura do meu corpo ainda está alta. Nao faz sentido, simplesmente nenhuma daquelas regras fazem sentido.

Talvez tenha sido a infusão de canela e gengibre colocado a minha frente que me faz tomar a decisao final, depois de ter sido por alguém afastada do sol. Eu já sabia no meu corpo quente, que um lugar lotado de pessoas, diariamente tossindo mais , me deixaria mais doente.

Mas ali, aquela infusao de duas substancias que qualquer asiático sabe esquenta a temperatura do corpo tenha me feito decidir que eu partiria.

Para onde, me perguntei? E até a rodoviaria ainda nao sabia muito bem. Ubatuba sozinha, decidi. Faría minha meditacao em frente ao mar, poderia ler o que se passava no mundo, responder, comería, e faria o que diziam meus amigos era importante: correr, fazer yoga, nadar, e beber agua.

Nem sabia que o tempo estaria naturalmente perfeito. Eu tinha tudo para nao passar frio. Nada de praia. Andei pelo caminho sem me preocupar de ficar só numa casa aberta, a beira mar. Nem se quer entendi muito bem essa preocupação da minha mãe.

Bastou um dia para eu entender que fora de temporada e sozinha numa casa vazia eu me sentia perfeita. Tudo estava ali a minha volta, mesmo que eu jamais tivesse planejado vir para ca.

Dormi e acordei com a música do mar. Mas foi apenas ontem que eu resolvi fazer o que eu nao fazia há anos. Sentei na frente do mar, embaixo do sol e foi uma junção, como o quer de fato dizer a palavra yoga.

Enquanto eu dançava por todos os asanas e por partes do meu corpo tao proibidas para mim desde que eu quase morri, eu estive presente , totalmente presente.

As vezes lágrimas transbordavam e vinha a minha mente Rinpoche falando das lagrimas. Nao havia plano, trajetória e quando isso vinha a minha mente eu pembrava da minha prática num barco, por dias no Laos também assim.

E o movimento continuava como uma dança da qual eu era apenas espectadora. Quando eu eu me dei conta, meu corpo estava fazendo algo impossível por meses…

Erick, meu amigo que me levou para escalar a noite, e que é a unica pessoa que tinha de fato entendido a minha dor alongando. veio a minha cabeça dizendo. “Ju, voce sabe isso eh neural e mental, para de pensar, relaxa que tudo volta.” Eu ri e chorei e des-acreditei naquele dia.

E ontem eu continuei por horas fazendo yoga,numa praia quase vazia. Deitei num asana e o mar de repente beijou o meu corpo. Senti simples e total felicidade. Sinal que era tempo de parar. Sentei e meditei no comeco de olhos semi abertos, por fim fechados. Se nao fosse o mar me guiando talvez teria ficado por mais horas.

Entrei no mar. Tentei entoar “om mani padme hum”. No entanto parei e ouvi, que por baixo de todas aquelas quebras havia sempre simplesmente OM.

É dificil colocar em palavras o que eu senti. Todas preocupacoes do mundo pararam, eu nao queria nada, nem passado, nem futuro. Apenas uma enorme gratidao que meu corpo estava sendo aos poucos devolvido para mim.

Até sabia, que isso era muito impermanente, nao fazia diferença. Queria gritar para o mundo todo. Pensei em rinpoche, karmapa, dalai lama, lama sobsang, Raphael, César, Denise e tantos outros yogis do meu caminho.

Mandei uma mensagem para Bahia, para uma pessoa que eu sabia que talvez me entenderia muito bem. No fundo não sabia se o Sergio iria achar tolo. Ele entendeu. Claro que ele entendeu, nao tem quem tenha passado tempo com os Tibetanos que nao entenda.

Liguei para minha mae quando tinha voltado ao plano e pensei, ela entendeu. Minha avó, tbm mal ouvindo, acho que entendeu.

Pensei então “é tempo de eu deixar as pessoas que de fato se importam saberem.”

Eu só sei escrever. Quero contar isso. Do meu telefone…

Hoje amanheceu chovendo. Eu acordei antes de amanhecer com o som da chuva, mas o mar me fez dormir de novo. Andei na praia, com as pequenas gotas caindo em mim. Meu corpo, claro, sentia todas aquelas partes agora de volta a vida.

Tinha decidido que partiria quando o tempo mudasse. Nao me deu vontade de voltar para Sao Paulo. E uma voz talvez de uma outra vida parecia sussurrar

“O mundo de dentro nao pode ser reflexo do mundo de fora. Consciente dele, o mundo de dentro deve buscar a permanência em meio a impermanência de tudo”

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Pelas frestas…

Vipassana I

A arte se encontra tantas vezes nos lugares mais escondidos.  Eu tenho tido a sorte de encontrar pela minha vida grandes artistas.

 

Quando, eu uma vez escolhi ficar num retiro de silêncio por por 11 dias sem ler, escrever, ouvir música, falar e exercitando a prática de estar presente pensava na  arte. Eu pensava na nossa capacidade de pensar meta-representacionalmente, pensar que aquilo de estar totalmente presente nos roubaria da arte, da nossa capacidade de imaginar aquilo que não era.

 

Quase fui embora do retiro achando que aquilo não era humano, mas não fui. Nem sei muito bem porque eu não fui. Talvez por perceber que o meu próprio cérebro  invocaria qualquer coisa, qualquer filosofia teórica para partir. Porque é de fato difícil estar presente com você mesmo, sem nada que te distraia. Fiquei.

 

Amit, me disse esses dias que Vipassana na forma de Burma é muito violenta. A forma dos Tibetanos é mais delicada. É muito raro o Amit não saber exatamente o que se passa na minha mente, mesmo que esteja do outro lado do mundo.

 

Pensei nos Tibetanos, nas suas mandalas, nas suas práticas. A humanidade de tudo, o valor das risadas. E me lembrei até do lama lobsgang, lama Tibetano, que virou meu amigo e que me disse “vá, é difícil, ,mas vá embora quando vc cansar e achar que não faz mais sentido.”Fiquei surpresa afinal tudo me dizia nas regras que eu devia ficar o tempo todo. Ele como um bom lama sorriu e  disse : “O objetivo não é você acabar odiando meditação. Vá mas não exagera”

 

E eu fiquei porque eu não precisava ficar, foi importante Lama Lobsang me dizer aquilo e foi importante também eu ficar mesmo assim até o final. Tantas frases de SS Dalai Lama, da SS karmapa, SS rinpoche, do Lama Lobsang vieram a minha mente por esses tempos. Principalmente a frase que atribui grande valor aos nossos inimigos.

 

“Nossos inimigos são os nossos verdadeiros e melhores professores”. E como não sendo lama um consegue abandonar toda a dor? A raiva é mais fácil. Já a dor é pior, é bem mais difícil. Então eu volto a música. No silêncio da música eu as vezes encontro o consolo.

Vem-me a cabeça as vezes, quase sempre a Ásia, e o Oriente Médio, em todas as suas outras escalas. Lembro das mandalas feitas meticulosamente e uma consciência que sempre esteve ali, e fora do presente a imagem, mas a delicadeza da execução dos monges em frente a elas é tão profunda. Lembro também dos meninos fugindo do templo para jogar futebol. As risadas…. as constantes risadas dos lamas que encontrei.

 

Esses dias o Elias, um afinador de piano recomendado pelo Benjamim Taubkin veio afinar o piano do meu quarto. Eu não sabia que o Elias era um mestre. Um afinador de todos os grandes pianistas de Sao Paulo, que vai da minha casa (de alguém que não sabe tocar) até afinar pianos na sala São Paulo.

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Eu sentei em silêncio olhando ele afinar. Ele que vem de gerações de afinadores. Sentou, abriu o piano e me contou tudo que tinha para eu saber de um piano de mais de 100 anos. E eu fiquei quieta olhando a arte daquilo.  A meticulosidade que ele tocou tudo, a delicadeza, e a total presença que pouco havia de não estar presente. O saber muito bem toda as escalas do mundo, suas divisões, ouvido tão preciso.

 

Depois eu fui escalar e pensei no mesmo, o tanto que você deve esta presente.  A importância de uma montanha para qualquer pessoa que tenha nascido perto dela… da Colombia, ao Irã ao Tibete ao Japão. São muito raros os nativos de uma montanha que as queiram “colonizar”, vencer.

 

Depois eu fui ver o Alessandro Penezzi e o Zé Barbeiro tocar choro. Estava cansada, muito cansada e quando eu fui falar com eles no intervalo fiquei lá ouvindo dois grandes músicos e de fato fui parar em outro mundo. Zé e Penezzi ficaram até preocupados.

 

Não tinha como eu explicar para eles ali que de fato eu estava longe. Tão longe, pensando no frio de Ladakh, a música do Rajastão, meu desejo de ir ao Irã, a minha saudade de um mundo arrancado de mim, o gosto do por do sol na frente do Mekong. Gratidão por eles tocarem para mim Jacob.

 

Sentei no chão perto do Zé, olhando o Penezzi e ouvindo Magoas sem que ninguém viesse falar comigo. E ponderei sobre a arte e a nossa capacidade de estar presente.

 

Enquanto, eu agora ouvia o mantra mais conhecido do Budismo Om Mani Padem Hum. Pensei que a arte,o amor, a delicadeza estão nas pequenas frestas. Elas vem as vezes da lama, elas viram flores, mas quase tudo que tem valor está pelas frestas….

 

Om mani padme hum em  Tibetano é སྤྱན་རས་གཟིགས་

em Sanscrito  ओं मणिपद्मे हूं

 

Informações do Elias aqui    http://www.afinadordepiano.com.br

Aimé Césaire e a Violência.

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Hoje eu acordei e liguei meu computador, e por acaso abri numa página de alguém que nem conheço mas acabei lendo e falava sobre a violência sobre a mulher.

Então resolvi escrever a esse desconhecido. Depois pensei que devia colocar aqui.

Li a mensagem e fiquei intrigada por várias razões, de certa forma porque lá  ele perguntava sobre abusos. E por isso, mesmo sem conhece-lo, eu resolvi escrever, não para falar mal da crítica, nem para estimula-la. Talvez porque lendo me veio muitas imagens.

Não as típicas, eu imagino. De cara, sem dúvida, a noção de que a violência em direção a mulher é fomentada principalmente pelas mulheres. Afinal, reduto de homem machista, é em geral onde o pai quase não faz parte da criação de um filho.

Depois me veio a cabeça uma coisa mais preocupante, é que no final a condenação da violência sobre a mulher, também é em si uma violência ao homem. Porque, ainda que mais afetadas corporalmente,  financeiramente, psicologicamente etc. No fundo, essa violência não descrimina por cor, ou sexo, ela é uma violência em geral humana.

Como vocês sabem eu viajei sozinha a Asia, o Oriente Medio, a Europa, A america Latina, e o norte da Africa. Muitas vezes, fiquei na casa de pessoas que conheci em ônibus na Palestina, na Kashemira, no norte da Africa, leste Europeu etc. Nunca, eu fui mal tratada. Meus amigos sempre se chocavam com essa fé inerente em mim, no ser humano.

De fato, a India é um lugar machista, mas eu viajei sozinha por lá e quando me sentia minimamente atacada eu começava uma conversa com a pessoa sobre sua família.  Em outras palavras, eu humanizava aquele encontro, entre dois seres humanos tão cheios de histórias e preconceitos.

Por isso, enquanto eu lia tudo naquele post eu pensava que a violência sobre a mulher, também é uma violência sobre o homem. O escritor pos-colonialista Aimé Cesaire no seu livro “discurso sobre colonialismo” em poucas páginas define que a maior violência de um colonialista é “des-humanizar”  o próprio colonizador… Só assim, ele argumenta alguém pode fazer tão mal a outro ser humano. Primeiro ele precisa se violentar, se “des-humanizar.”

A violência contra a mulher, no fundo, nada mais é do que isso…. Uma completa incapacidade de ser presente, de encontrar o outro. No fundo é muito mais fácil matar o corpo, a propriedade do outro, do que a “alma”.  Talvez seja por isso, que vítimas de violência cotidianas não consigam sair dela…. Aquilo é parte daquele sistema, você não consegue ver o seu dominador, como não consegue tão pouco  se perceber parte daquilo. Na rua, é um estranho, mais fácil de ver quem é que você abomina.

Nesse post ele perguntava experiências de violência.  E como eu resolvi responde-lo honestamente eu disse: ” se você quer saber de fato a maior forma de violência que eu já senti. Eu te respondo sem hesitar que é a que sofri sem perceber que aquilo era abuso. É aquela que sofre de uma pessoa que confia.  E geralmente, é conseqüência disso que mata a sua “alma”.

Por isso, que talvez eu ache bem mais fácil a existência de um Palestino do que a de um Israelense. Eu tenho amigos dos dois lados do muro. No entanto, a violência que os Palestinos sofrem é tão evidente que eles não hesitam em saber quem é o seu abusador, já os Israelenses também sofrem, mas precisam fazer mil manipulações no cérebro para legitimar aquele abuso dos quais eles são obrigados a fazer.

Por isso,  que eu não desconsidero o sofrimento das mulheres, mas simplesmente eu não o afasto do sofrimento dos homens. Por que nisso, eu concordo com o Cesaire…. Apenas quem é desconectado demais ( e no fundo todos nós somos um pouco) que pode
fazer tanto mal à um outro.

No fundo, devíamos todos aprender estar melhor dentro do nosso corpo. Estar mais presente. E  mais a vontade, com a nossa limitação e a limitação dos outros…. mas isso, é de fato, bem mais difícil.

Dos Refugiados, da Morte e do Capão

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Leila  Alaoui  é uma fotógrafa brilhante, e ela é minha amiga desde que começou a tirar fotos, anos atrás. Nós morávamos em Nova York. Eu já visitei sua casa no Marrocos, e ela já esteve no Brasil outras vezes.  Agora ela mora no Líbano, e trabalha com refugiados da Síria. Leila foi a primeira pessoa que eu falei pelo Skype quando voltei e mal conseguia falar.  Falamos em Frances o que era intrigante. Eu, que mal falava de novo português, podia falar de tudo com ela. Sobre todos os absurdos que passavam na minha mente. Leila sempre foi assim, capaz de entender o que se está passando, dando o espaço e o tempo do outro.  Ela me fez de fato, querer falar de novo, e um dia, ela me fez querer escrever dos outros, de novo. Fazia tempo que eu não escrevia nada, que não fosse uma análise cerebral, mas Leila me ligou e mais uma vez na sua enorme generosidade mudou meu mundo para melhor.

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Enquanto falávamos, ela me contou de um filme que tinha feito. Quando o vi, fiquei totalmente tocada, disse na hora que falaria sobre ele… primeiro em Inglês porque era para ela, depois quando contei a história aqui na cozinha da minha casa, pediram me que devia ser escrito em Português. No fundo acho que é mais fácil para mim escrever em Inglês. E dificílimo é re-escrever o mesmo texto em duas línguas…. ( ou melhor meio chato). No entanto, Claudia, e Cre aqui de casa têm razão, esse texto devia poder ser lido por quem não sabe falar Inglês. Então peço desculpa pelas minhas mal traçadas linhas e tento o difícil… escrever na língua da minha alma….. a que eu não sei.

Leila trabalhou com refugiados, sobreviventes de guerra, morou e tirou fotos dessas pessoas que ela conheceu bem. E enquanto falávamos ela me pediu uma coisa que eu achei muito intrigante:

“Posso te filmar?”

“Leila, me filmar? Para que? O que eu posso te dizer de interessante?”

O filme dela era tão bonito, com desertos, refugiados, caminhos e histórias… Enquanto eu o via, chorei.

Leila

Então eu disse a ela, o que eu quero dizer aqui.  Contei a ela sobre tudo que tinha me feito pensar aquele filme. Não simplesmente sobre a beleza da fotografia, e do filme, mas do fato que eu tinha sido transportada de volta para fronteira da Africa e a Europa. Essa que pelos abusos  do colonialismo se dá ali no continente Africano. Ceuta, fica na Africa, mas hoje em dia, é Espanha.

Depois desses anos, eu ainda me lembro perfeitamente daquela fronteira. São poucas as coisas que eu me lembro tão bem, no entanto, vendo o filme, não só as imagens me popularam, mas também as sensações.

Havia tanta gente ali. Eu estava voltando para o Marrocos, depois de passar apenas uma única noite em Ceuta. Voltei a pé e lembro de ver pessoas carregando tudo. Vendendo até o formulário de graça da fronteira, porque muita gente nem sabia preenchê-lo.  As pessoas traziam para Africa sacos de papel higiênico, roupas, malas, sapatos..  As pessoas que estavam voltando para a Africa   também pareciam trazer uma Mistura de tristeza, nostalgia e frustracão. Nessas pessoas, que voltavam para “casa” quase se podia ver o desapontamento.  Agora as pessoas que estavam indo para a Europa, assim a pé,  eram seguradas por muito tempo.  Eu era muito mais jovem, mas ainda assim, eu sabia que todos nós estávamos perdidos, deslocados no mundo… Nós éramos o ” entre-mundo”… Nos rostos, dos que partiam se via que buscavam uma vida melhor, num futuro totalmente incerto. E eles seguiam como eu…..

O meu cruzar, foi fácil, afinal eu tinha os “papéis certos”. Não por mérito meu, por total acaso como ficou tão claro naquela fronteira. Porque eu tinha nascido num outro lugar.  Do outro lado, havia centenas de taxis. Eu peguei um qualquer, pensando dentro dele e de mim que muita gente teria medo de pegar um taxi assim sozinha no meio da Africa.  Eu não, ali eu me senti bem, aquelas pessoas eram como eu “deslocadas”.

Todas essas imagens vieram a minha mente enquanto eu via o filme da Leila. E de repente veio também, o encontro que eu tive aqui em Sao Paulo. Estava indo embora de um bar na Vila Madalena quando alguém derrubou um copo no meu pé, e um cara parou para me ajudar.

Nada realmente tinha acontecido comigo. Ele me disse “ola” e disse que eu era muito bonita. E eu agradeci e comecei a conversar com ele enquanto esperava um taxi. De repente ele parou e disse:

” Para de falar comigo, eu sou do Capão Redondo”.

Disse para ele, que não fazia a menor diferença. Ele tinha acabado de me ajudar. Por que ele não devia falar comigo?”

” Olha, você nem sabe de onde eu venho, tão pouco o que significa morar lá!”

“Eu sei, eu já estive lá duas vezes, sei até das estatísticas, e a não ser que você não queira falar comigo, saiba que essa decisão é sua.”

Ele ficou meio intrigado, não totalmente confiou no que eu disse.

Eu insisti e disse

” Sabe eu confio nas pessoas em geral… Eu estive no seu bairro, expliquei os lugares,  eu também estive na Palestina e fiquei na casa de pessoas desconhecidas que conheci em ônibus. Na Kashemira… e em tantos lugares que as pessoa tem medo. Eu não tenho problema em falar com você, a não ser que vc não queria falar comigo.”

Conversamos um tempão. E ele uma hora disse assim:

“Julieta, eu estou impressionado. Você não é típica, Eu vou ser honesto, eu só queria te beijar, você é bonita, muito bonita, e eu achei que vc fosse superficial como quase todas as meninas que eu encontro aqui. No entanto, eu já sei que eu não posso te beijar. Eu consigo ver que você é tão rara que eu quero quase te tocar só para ver se vc é de verdade. E eu consigo até ver a dor que você tem dentro de você, que me faz, sem nem te conhecer, querer te proteger.  Me conta, o que te fizeram nesses lugares?”

Eu disse a verdade, tudo que tinha acontecido comigo que não tinha sido nem em lugar violento, e nem de pessoa desconhecida. E então ele me disse uma coisa tão intrigante. Primeiro ele entendeu melhor que qualquer pessoa a minha dor, o abandono de quem você confia no seu momento mais frágil.

E então ele me disse algo que me Lembrou da Leila também, ou melhor quando vi o filme, me lembrou dele…. Ele disse:

“Ju,  você é tão mais impressionante que eu. Eu nasci lá, Eu não escolhi isto. Você obviamente vem desse lado de Sao Paulo. Um lado Rico. E ainda assim, você escolheu ir ver a vida em lugares perigosos. Palestina, Kashemira, Fronteiras, Colombia. E é por isso que eu não posso te beijar mais como se você fosse mais uma menina superficial daqui. Você é profunda. Você conhece a morte, a vida, a guerra, fronteiras, muros, pobreza. Você escolhe, mesmo sem precisar, ir ver como o mundo realmente é, e não como dizem que é. Por que? Por que você não tem medo? ”

Aquela pergunta me surpreendeu… pensei na hora a respeito.. e em poucos minutos, segundos eu percebi..

“Ninguém que você mal conheça pode te fazer muito mal. Sao as pessoas que você conhece profundamente, que você confia, que podem matar a sua alma. Eu nunca tive medo de perder nada, nem de ser morta, ou estuprada porque tudo isso é tão de fora, que fica óbvio que quem te fez isso é externo, não demora para você perceber o seu inimigo…nunca nesses casos é você mesmo. Talvez por isso eu ache que deve ser mais fácil continuar depois. Alem do mais, foi sempre nos lugares mais perigosos que eu fui mais bem tratada. Foi sempre lá, que apesar de toda violência, as pessoas ainda sabiam o valor da vida, dos amigos, de abrigo, de comida, de amor….”

Então, quando eu estava falando com a minha querida amiga Leila esses dias eu me lembrei disso. Ela como eu, estudou fora, vem de uma casa linda, de um lugar privilegiado, e como eu ela sempre quis saber o outro.  As fronteiras, os refugiados, onde a vida é de fato sentida.

“Leila, o que é que eu poderia te dizer num filme?”

Eu conheço a profundeza do que ela faz. Eu vi o seu filme. Parecia quase que injusto com todas aquelas vitimas do mundo, de guerras, eu estar ali…

“Jules, você me inspira.”

Então, eu sentei para escrever isso, para me perguntar porque eu a inspirava?  O que havia sobrado de mim para inspirá-la? E de repente, me veio a mente, o porque..  No fundo, é porque na verdade a gente não perdeu a fé no ser humano. É porque nós de fato procuramos no extremo. Ja que sabemos, que lá as pessoas sabem de fato o valor da vida como uma coisa profunda. Assim, como também sabem sobre a não importância da morte.

Eu escrevo de novo por causa da Leila. Ela também me inspira. E eu tenho a sorte de tê-la como amiga em qualquer circunstância. Mesmo, quando não fazia sentido nenhum falar comigo. Ela falou. E eu traduzo tudo isso porque tanto a Claudia e a Cre me disseram que aqui no Brasil as pessoas deviam poder ler… Mesmo que eu nao saiba muito bem, como escrever em Português e nem como pontuar 🙂

http://www.leilaalaoui.com/