O que vemos no Mundo

Eu tive uma experiencia meio intensa aqui esses dias. Tentando resumir ao maximo no maior momento de total existencialismo eu acordei no meio da noite com um homem tentando entrar na minha casa. Um ptencial estuprador. Eu aqui na beira do rio Mekong. Nao quero repetir toda a estoria porque ja contei ela demais. Quem quiser saber detalhes eu escrevi um longo post no meu blog ingles aqui.

Esse post eu nao quero falar do que aconteceu mas sim das respostas que eu recebi ao meu email coletivo. Respostas de amor, preocupacao que vieram do Brasil, da Europa, do Oriente Medio, dos EUA, da Australia e ate mesmo da Africa. Eu recebi mensagens de gente do mundo todo. Pessoas que estiveram na minha vida de formas distintas em niveis de intensidade distintos mas que de alguma forma se sentiram tocados e resolveram me mandar a suas opinioes. Os seus conselhos. As suas sugestoes. Me senti confortada, intrigada e grata.

A vasta maioria das pessoas me escreveu para dizer que tinham se emocionado e que estavam felizes por eu estar bem. Houve uma parte que me lembrava de fechar a porta. A grande maioria das pessoas que eu conheco contaram como um ou outro evento tragico os tinha ensinado como eu a ver o mundo mais positivamente. Nao a focar no um incidente tragico mas no fato de aquilo ser tao chocante significar que na verdade eh raro.

Houve apenas um pequeno, bem pequeno numero de pessoas que me escreveu para falar o contrario. Meu irmao me escreveu para falar do egosimo inerente ao homem. Da violencia. Meu amigo soldado que defende a ocupacao da Palestina me escreveu para me dizer era por isso que Israel mantinha o exercito como eh. POr cause dessa maldade que existe.

Fiquei intrigada com esses emails que eles escreveram, mas tambem feliz de ver que o cinismo deles eh minoria dentre o grupo de pessoas que eu conheco. Eu sei que o email deles vem de se preocuparem. De quererem que eu evite me expor a riscos que eles julgam desnecessarios.

Eu concordo que eu posso fechar a porta que da para o rio. Esse eh um risco desnecessario. No entanto, eu nao concordo que eu tenha que deixar de ir ouvir as estorias das pessoas. De cruzar o mundo confiando.

Eu queria escrever esse post para dizer mais uma vez que a minha experiencia no mundo eh de enorme altruismo. Eu fui a milhares de lugares que me mandaram nao ir. Eu fiz couchsurfing na Palestina, fiquei na casa de gente que conheci pelo caminho na India, na Kashemira, em Israel, na Italia, na Franca, na Bolivia etc. Eu recebi na minha casa totais desconhecidos inumeras vezes. O que eu aprendi tomando esses riscos?

Eu aprendi que nos somos todos muito parecidos, capazes de mal e bem. Na maioria das vezes no entanto somos bons. Eu aprendi que em qualquer lugar que voce esteja as pessoas sao, se voce trata-las com respeito, sempre abertas e altruistas. Eu aprendi que ideologia nos separa mas a humanidade nos conecta. Eu aprendi que medo paraliza e que quem tem medo se tranca dentro das suas prisoes luxuosas e ve na excessao a regra. Eu aprendi que quem sai para ver o mundo tem muito mais fe na humanidade porque a nossa experiencia eh de sempre encontrar desconhecidos que nos ajudam por nada alem de que ser bom eh melhor que ser mal. Eu aprendi que quando alguem te ajuda voce quer passar para frente esse sentimento de gratidao. Eu aprendi que tempo que voce conhece uma pessoa nao se correlaciona com quao profundo pode ser o encontro que voces tem.

Acima de tudo eu aprendi que enxergamos no mundo o que projetamos. E que projetar no mundo o bem sempre cria uma vida melhor para quem projeta e para quem esta a volta. Enquanto os meus amigos que apoiam a ocupacao ilegal da Palestina continuarem achando que eles tem que se proteger nao havera nunca paz no Oriente Medio. Enquanto no Brasil as pessoas nao enxergarem o problema criado pela desiguldade eles continuarao andando nos seus carros blindados sentindo-se vitimas de injustica e impunidade. Enquanto tivermos medo de encontrar o outro, aquele de quem sempre ouvimos falar tao mal. Enquanto ficarmos na ideologia em vez de na humanidade. Enquanto nao encaramos que sim somos todos capazes do bem e do mal, mas que dependendo da escolha que fazemos criamos nao so o mundo que vivemos mas tambem a percepcao que temos dele.

Sim eu concordo eu posso trancar a porta de tras da minha casa esse eh um risco desnecessario, encontrar o outro, nunca eh.

Descobertas do Caminho

Eh dificil escrever dois blogs ao mesmo tempo. Traduzir entao eh uma chatisse so. Fico sempre na duvida se escrevo estorias distintas. Continuo na frente do Mekong. Trabalhando na Mut Mee. Meu trabalho eh praticamente pura diversao. Eu recebo as pessoas.O lugar eh informal o que significa que eu passo a maior parte do tempo no jardim conversando com os viajantes. E como ha viajantes nos ultimos tempos! Quase que todo mundo que passa por aqui esta viajando por meses. Pessoas de todas as idades. Tenho encontrado mais e mais aposentados rodando o mundo.

O meu penultimo post no meu blog em ingles tinha sido sobre as familias viajantes. Tenho passado muito tempo com essa ultima familia que apareceu por aqui. Eles sao verdadeiramente fascinantes. Ida, a mae, trabalhava para Unicef, Cyril, o pai, para o mercado financeiro, e os dois filhos, Raphael 3, e Victor, 8 tinham uma vida normal de crianca na Europa. Ida nasceu e cresceu na Albania e saiu fugida da guerra civil quando tinha 18 anos. Cyril frances tinha pais viajantes que o levaram ja crianca para viajar pela a Asia. Perguntei a eles como eh que eles tinham decidido largar tudo e sair pelo mundo para viajar por dois anos. Conforme os dias foram passando as razoes foram explicadas mais a fundo.

“Saimos para passar ferias e ficamos 24 horas por dia juntos. Foi um tempo tao bom. Quando voltamos para casa todo mundo ficou meio deprimido. Eu passava 10 horas com meus colegas de trabalho e duas horas do dia com meus filhos acordados. Quando uma amiga minha morreu eu entrei em depressao. Para que estamos fazendo tudo isso? Victor ja tem 8 anos. A vida ta passando.. daqui a pouco ele tera 18 e vai embora e eu nao vou ter passado tempo com ele”

Resolveram largar tudo. Largar os trabalhos importantes, o conforto da casa em Genebra para viajar como familia. Passar o tempo todo juntos a se descobrirem. A Franca, tem um sistema de educacao a distancia. O cyril da aula 2 horas por dia ao Victor. A cada 6 semanas ele tem provas controladas pela franca. Viajam com os livros.

Eu fiquei encantada de cara quando os conheci. O pequeno Raphael saiu pelo jardim procurando Budas para regar como nos templos. Os dois cuidavam um do outro. Estavam interessados por tudo. Quando viram as minhas fotos queriam saber quem eram aquelas criancas na Kashemira. A estoria deles.

Ontem a noite Ida me contou sua fuga da Albania. As pessoas nas ruas armadas. 24 horas num porao de barco ate a Italia para ser mandada de volta. A outra tentativa. O se esconder nos trens ate ir parar no Luxemburgo.

“Eu ja comecei uma vida do 0. Voce acha que o mais dificil eh a fuga. Nao eh. O dificil eh voce se integrar a sociedade. Sem papeis. Sem existir de fato.”

Conforme ela ia contando a estoria meus olhos se enchiam de lagrimas. Passava em mim as estorias de todos os refugiados que eu encontrei pelo caminho. Os palestinos, os Tibetanos, o Angolano. Meus olhos se enchiam de lagrima nao de tristeza mas de admiracao da forca de sobrevivencia que existe em cada um de nos. As vezes nos esquecemos dela.

Meus olhos se enchiam de lagrima por me sentir tao grata de encontrar essas pessoas pelo caminho. Pessoas que decidem fazer as coisas diferente. Saem do sistema. Sobrevivem e percebem o que agora me parece obvio: o que realmente vale a pena na vida sao os encontros. Sao as nossas relacoes com as outras pessoas.

“Minha amiga nunca fazia nada. Estava trabalhando para se aposentar. Para descansar na velhice. A velhice nao chegou. Nos decidimos que era isso. Nos iamos partir. Ver o mundo eh um bonus. Agora encontras as pessoas, e nos conhecermos como familia eh o que nos queriamos fazer. De longe parece dificil mas agora parece tao obvio que mal consigo entender porque nao fizemos antes?”

Cyril entao completa ” Se ha dois anos alguem me mandasse ir viajar por 2 anos com a minha familia eu ia dizer que ele tava louco. eu nao estava preparado para entender. Agora eh claro para mim o que vale a pena na vida. Eu nao quero esperar o final da minha vida para fazer essa avaliacao”.

Meus olhos permanecem cheios de lagrimas o tempo todo. Tudo me toca. Uma mistura de estar doente com uma febre que nunca parte, com um existencialismo que nunca totalmente me deixa, com admiracao pelas pessoas que passam pelo caminho, com uma inabilidade de ficar totalmente no presente.

Ao meu lado, meu novo amigo Andre, que esta acabando um ano de viagem. Meio ano na Africa. meio na Asia. Sandra, sua mulher, agora no Camboja, ele prestes a partir para um retiro de vipassana amanha.Os dois tambem com um futuro meio incerto. Depois de viverem pelos ultimos 4 anos em Londres nao sabem agora para onde vao. Onde eh que a nova vida comeca.

Eh comum essa duvida. As pessoas me perguntam a mesma pergunta o tempo todo. “e depois voce vai fazer o que?”

Eu nao sei. Dia 24 do mes que vem eu tenho passagem para finalmente conhecer Burma ( insh’allah). Depois quero voltar a India. Depois parece tao longe, tao incerto.

Viver o sonho de sair assim pelo mundo sem rumo, sem data de volta tem disso. No caminho voce encontra um monte e gente que ta fazendo a mesma coisa. Um monte de gente interessante. Um monte de gente que tao pouco sabe o que vai fazer quando voltar, um monte de gente que nao sabe para onde vai voltar. Um monte de gente que sabe certamente que a vida que vivia antes nao eh a certa.

Eh isso que nos descobrimos pelo caminho que o que importa sao as pequenas coisas. O basico. Familia, amigos, um abrigo, alguma coisa para comer, sol, e o tempo de aproveitar essas coisas. O resto eh meio ilusao. Uma ilusao que nos prende diariamente em celas luxuosas e tecnologicas e cheias de coisas. Num conforto de uma certeza da rotina que na verdade tao pouco eh tao certa assim. Sim nos saimos pelo mundo e ficamos assim mais vulneraveis, mais moles, mais tocados pelas pequenas coisas. Falar a sua lingua, um abraco, reencontrar alguem. Nos saimos sem saber direito que nunca mais seremos capazes voltar. Mas quando o existencialismo bate assim no amago tem sempre alguem que aparece e te lembra “Lembra. Porque mesmo que vce saiu?” E ai ironicamente percebe-se que saimos porque aquilo ali, seja o que era, nao queriamos mais.

Feliz Ano Novo

Faz muito, muito tempo que eu nao escrevo aqui. Eu estou na Tailandia. Eu nao escrevo aqui pois como sempre quando viajo acabo mandando emails coletivos. Esses e-mails sao em Ingles pois eh assim que me comunico com meus amigos espalhados pelo mundo. Esses e-mails estao agora na integra no meu blog ingles http://www.translatingthoughts.blogspot.com

Eu estou na Tailandia. Depois de sair de Londres passar pela Italia fui a India. E depois de muitas turbulencias voltei aqui ao Mekong. Naquela Guesthouse de que tanto ja falei. A Mut Mee. Reencontrar Julian, meu amigo e dono, me buscando no aeroporto foi incrivel. Ver diariamente o sol se por diferentemente me deixa sempre impressionada. Como pode o Mekong se pintar em tantas cores?

Eu agora levo uma vida simples. Trabalhando numa Guesthouse e conhecendo pessoas incriveis. Fico aqui ate Fevereiro e ai devo finalmente ir conhecer Burma. Depois disso. Bom depois disso eu nao sei. Mas era isso que eu queria fazer. Ir sem rumo. Vou indo.

Se nao escrevo aqui nao eh por preferir escrever em Ingles. Eh porque ingles eh a lingua que eu consigo atingir a maior parte dos meus amigos e familia no Brasil, e todos esses outros do mundo. Mas prometo que vou tentar voltar mais aqui. Contar as estorias das pessoas desse lados 🙂

Feliz Ano Novo!

De volta a India

Poucos dias de India, ainda nao consegui deixar Delhi. Cada parte do meu corpo se faz mais presente, minha alma dolorida de uma dor assim tao velha como o proprio tempo. Quis fugir e ir direto a Tailandia voltar ao conforto do Gaia no Mekong. A India nao deixou. A India eh assim ela fala, grita, te empurra e eh melhor vc entender logo oque ela esta dizendo. Ou melhor, eh melhor vc entender logo que ela te vira do avesso e que eh voce mesmo que tem que curar as feridas.
Como eu poderia ter me esquecido de tudo isso? Tinha apenas uma vaga memoria da overdose sensorial que senti aqui, quando aqui estive ha 2 anos. Naquela epoca eu buscava o metafisico para me curar.
Lembro de ir a um templo Hindu em Londres no dia que “fugi” do hospital. No dia, que me foi dito que eu tinha uma anomalia no cerebro.
Naquele dia, eu que em nada cria, alem do processo cientifico, e em Dennet, Harris Dawkins e seus seguidores liguei para o meu unico amigo remotamente espirtiual. Ele entao me levou a esse templo. Naquele dia eu me prometi que viria a India. Cheguei em Delhi acompanhada do Haiko e juntos fomos para terra da yoga, e depois para a cidade onde vive o Dalai Lama.
Agora eu volto so. So em meio a milhoes. A solidao se faz mais presente. Eu que queria parar e descansar tenho que lutar contra meus fantasmas. Fui eu mesma, que disse que estava pronta nao foi? A India tbm te lembra isso: uma respiracao de cada vez, um passo de cada vez, e te obriga a ignorar o que vem de fora. Eh no dentro que eu tenho que chegar. Procurei ajuda e ela me foi negada. Em meio a milhoes sou obrigada a me lembrar que a busca do dentro eh solitaria.

Final de um Ciclo

Minha ultima noite em Londres. Pronto rompi tudo. Doutorado, casamento, casa. E acho que eu posso dizer com orgulho que eu terminei tudo como eu queria. Sem bater porta, sem quebrar prato, sem jogar fora, sem ter que imaginar o pior de nada. Chega o ultimo dia assim com plena consciencia que tudo era bom. Que tudo valeu e vale a pena mas que as vezes chega a hora de ir embora. Na voz de Clarice “que ninguem se engane, sò se consegue a simplicidade com muito trabalho”. Foi dificil chegar aqui, mas quanta gratidão eu sinto por todos e tudo que me passou. Quanto tempo levou para ir desfazendo os nos. Quanto medo que deu de dar o primeiro passo sozinha, respirar assim fora num caminho que eu nao sei muito bem onde vai dar.

Amanha eu voo a India. Nao sei muito bem porque a India. A India é sempre dificil. Como disse um amigo meu nem sempre gentil, mas sempre dizendo o que vc precisa escutar. E eu acho que estou pronta para escutar essas estorias. E quem sabe começar a escrever um livro. “As estorias que me contei”. Ja que para viver vamos nos contando as coisas ao poucos, buscando sentido, e uma ordem semantica nos sabores, nas cores, nos cheiros.

É o final de um ciclo… mas todo final é também um recomeço.

Leila- Hammam em Nablus

Leila

E como eu ia fazer para poder conhecer as palestinas? Eu nao sabia muito bem. Tinha tido encontros breves nas vans de transporte. Sempre me surpreendia com o quao politizadas elas eram. Algumas me convidaram para ir a suas casas mas nunca cheguei a ir. Pensando em retrospectiva, nao sei direito porque. Um dia no entanto, tive uma ideia, eu tinha que ir ao hamman da cidade. Em Nablus, a maior parte da semana o Hamman eh so para os homens. No entanto, uma vez por semana,as tercas homem nenhum pode passar da porta.

A saga comecou logo antes: eu precisava arrumar um mayot! Comprei o mais barato, e o que eu achei que me serviria, e ate para os padroes da minha avo eu diria que o mayot era para la de discreto.

Entrei na sala principal do tal hamman, que eu ja tinha visitado antes em dia normal, e vi que o lugar estava completamente transformado. Musica arabe tocava alto, havia mulheres deitadas nas almofadas, narguiles por todas as parte, danca do verntre, aquele grito meio beduino das mulheres felizes, mascaras nos rostos, toalhas, uma verdadeira festa.

Fiquei encantada. Senti me totalmente transportada para um livro. Lembrei do Marrocos. Lembrei dessa sensacao que senti la dos mundos secretos. Timidamente caminhei ate o balcao e perguntei a mulher como funcionava o Hamman. ela me deu varias opcoes e eu acabei escolhendo a que incluia tudo. eu nao sabia muito bem o que o tudo era, mas sabia que queria ver o que aquelas mulheres faziam toda terca feira.

Sem entender muito bem abandonei a sala principal e entrei no Hamman mesmo. Troquei me, e entrei numa sala onde haviam mulheres deitadas no chao. Assim que comecei a andar meu pe comecou a pegar fogo. Uma linda mulher negra deu risada e me pegou pela mao sabendo que eu obviamente nao era dali. Levou me ate onde ficavam os tamancos de madeira.

Eu ri, coloquei o tamanco e tentei me equilibrar nele. Sem saber muito bem o que fazer fui entrando, entrando ate chegar numa salinha que era uma sauna a vapor. Sentei ali sozinha. Sentei fechei os olhos, e sem nem perceber comecei a me alongar. Fazer alguns asanas de yoga sentada de olhos fechados. Quando abri os olhos dei de cara com 3 meninas me olhando.

Leila que tem toda alegria do mundo transbordando de cada poro olhou para mim e disse ” yoga?”. Eu disse que sim. E ela nonpoquissimo que sabia de ingles disse ” you teach I”

E foi asssim que eu fui de nao conhecer ninguem no hamman a passar um dia fascinante com essas mulheres. como eu gostei de Leila. Ela tentava de tudo que era maneira falar comigo, me contar coisas, me ensinar, me fazer perguntas. Apresentava me as outras mulheres, usava o ingles que elas sabiam e o tempo todo gargalhava.

Para mim uma menina. Depois me contou que tinha 7 filhos. 30 anos. Casada com 15. ” I was a child, dont you think?” . Concordei. My mother did not think so. ” no child, get married”.

Perguntei a ela entao se ela faria com que sua filha se casasse com quinze. ” No, 15 child! First university, first carreer! Then get married minimum 23!” e da mais uma gargalhada daquelas contagiantes.

Tamanha eh a sua efusao de energia que as mulheres ali a volta ficam meio apagadas. Apixonei me por Leila queria sabe mais dela. E a lingua que limitava os detalhes. E ela contagiante como era usava o ingles de todos a volta para explicar que uma vez por semana ela ia la esquecer tudo.

Sentamos juntas perto da mulher que faz massagem. As meninas sao todas recatadas. Elas nao se despem na frente das outras. Tudo eh feito com recato, com cuidado para que nenhuma pele que nao deva ser vista seja.

Eu nao entendo as palavras mas eu entendo que Leila quer saber se ela esta bem para 30! Voce acha que eu estou…. Usa os bracos para desenhar um balao a sua volta ” fat?” eu digo? Ela diz oh yes oh yes Fat!

Gargalhamos eu quero dizer a ela que ela eh bonita para qualquer idade. Ela eh uma dessas pessoas que alem de ter os tracos perfeitos, tem nos tracos um molejo, uma alegria uma vida que nem oucpacao, nem sete filhos, nem intifada consomem. Ela eh para mim ali a imagem da mulher na sua maior forca. Eu queria ter podido saber os pewuenos segredos. As pequenas estorias. Em gestos fica difcil.

gesticulo como posso ” is your husband a nice person?”

E ela pausa, olha para mim ” my husband is a very good man, he loves” e num tom crescente diz com a mao desenhando uma escada que sobe ” loves,LOves, LOVES me”.

E vc?, pergunto

Ela levanta a sobrancelha, levantas os ombros e diz em letras minusculas, com os dedos mostrando um pouquinho . ” I love him”

Em seguida da uma gragalhada e conclui “But this is life not a film” e ri um pouco mais.

Ori-Tel Aviv

Ori tem 20 anos. Quando cheguei a Tel Aviv ela que é namorada do housemate do meu amigo Alex passou quase uma semana sem falar comigo. Não é que ela estivesse me evitando. Nao, ela parecia deprimida, no mundo dela. Todos os dias eu chegava e a via sentada no sofá. Muito bonita, muito jovem, ali sem vida, se fundindo ao sofá.

Numa certa noite resolvi sair com Alex, e quando chegamos ao bar no bairro de Florentine em Tel Aviv vi que Ori estava la com seu namorado numa mesa. O lugar era bonito, trendy, um desses lugares que poderia ser em qualquer lugar do mundo. No fundo do bar estavam os amigos do Alex sentados a volta de uma mesinha. Todos eles programadores e meio gênios do mundo de IT. Judeus todos. Alguns Israelenses, a maioria não. Sentei entre um sul africano de quem Alex já tinha muito me falado e Ori. Lembrei me então que Alex tinha me dito que adoraria me ver encontrar o sul africano ja que nos tínhamos, segundo ele, visões politicas radicalmente distintas.

Eu que não queria ter uma discussão virei para Ori e perguntei como ela estava. Ori tem 20 anos e esta no exercito. Ori odeia o exercito foi criada num kibbutz, com valores humanistas, me explicou. “Como é que eles querem que agora eu pegue uma arma?” Perguntei a ela o que ela fazia no exercito e tudo que ela não me disse na primeira semana ela transbordou em mim em uma noite. Ori com 20 anos foi colocada ali na fronteira, perto de gaza e do Egito. Seu trabalho era dar aulas de Hebraico para o pelotão do IDF ( Israeli Defence Force) de Beduínos.

Como assim? perguntei. Ela me explicou que eles são beduínos árabes mas são soldados. “Por que eles não podem ser árabes, e beduínos e israelenses??”Explicou me que apesar deles falarem hebraico eles não sabem ler hebraico. Ori me contou de um homem que assim que aprendeu a ler veio ate a ela gritando ” para que? para que nos temos que aprender isso?”. Percebendo a minha confusão ela explicou. Vc nunca viu escrito por ai “Morte aos Árabes”? Esta por toda parte. Ela dizia em Hebraico, e depois em Inglês. Repetia, com a voz mareada, os olhos sem voz. Eu fiquei quieta so ouvindo.

“Jules you change. Do you have any idea how many times I saw Egypstians shooting at refugiados sudaneses?”. É tanta violência de todos os lados. Voce muda. Seus amigos mudam na sua frente. Eles nao percebem mas eles mudam. EU tinha que sair de la, Eu imporei para sair de la eu estava enlouquecendo. Eu odeio que eles roubem anos da minha vida!”

Percebendo o quão petrificada eu estava, o sul africano ao meu lado disse” Meninas, no serious talk, lets enjoy the night”. Sem querer contrariar nossos anfitriões eu estendi minha mao, segurei a dela num ato misto de compaixão e de nao saber o que fazer. Olhei para ela em reconhecimento, pegamos o copo do que estávamos bebendo, demos mais um gole, empurramos os pensamento de lado como queriam nossos amigos. E sorrimos. Assim é Tel Aviv.

Israa- Hebron/Khalil

Israa tem 22 anos. Eu a conheci na sua casa. Casa que é também de sua mãe, casa e escritório do seu irmão Ahmed que é uns 30 anos mais velho do que ela. Conheci Ahmed numa van, logo na minha primeira viagem pela Palestina. O conheci quando fui de Ramallah a Nablus. Ele que tinha terminado seu doutorado na LSE nos anos 80, ao saber que eu tbm fazia meu doutorado la me convidou para visita-lo em Hebron/Khalil. Percebi que devia ser um homem muito importante pois ele escreveu seu nome pomposamente num papel e insistiu muito para que eu aprendesse o seu sobrenome.

Hebron/Khalil é provavelmente a cidade mais tensa da Palestina. É la que fica o que os Palestinos chamam de mesquita de Ibrahim, e os Judeus “the tomb of the forefathers” ou “cave dos patriarcas”. Hevron é o nome Hebraico da cidade, Khalil é o nome Arabe. A cidade fica na cisjordânia e é lá onde ficam os assentamentos ilegais mais problemáticos da região. A mesquita de Ibrahim é dividida em dois. De um lado passam os judeus para olhar o túmulo de Abraao e Sara, e do lado da Mesquita ficam os muçulmanos.

Só depois que cheguei a casa de Ahmed que pude entender o quão serio era para um homem importante politicamente, e religioso como ele convidar uma mulher viajando sozinha a sua casa. Em Khalil/Hebron as pessoas são muito religiosas, e o controle social é fortíssimo. Na rua da casa de Ahmed mora toda a sua família.

No prédio onde ele mora cada andar mora uma parte da sua família imediata. Logo no primeiro dia conheci a doce Israa. De cara eu me apaixonei por ela. Doce como uma personagem que saiu de um livro romântico de outra era.

Ela me trouxe suco de laranja. Sentou ao meu lado sorrindo sem dizer quase nada. Ahmed contou que ela iria se casar agora em julho. Perguntei a ela se ela estava feliz e ela respondeu apenas “Al hamdu el allah” ( nao sei como se escreve.. mas quer dizer gracas a deus).

Ela não falava muito, por timidez, por não falar muito bem inglês, por ser reservada. Ela no entanto ficava ali do meu lado o tempo todo. Na hora que saímos para ver a famosa mesquita, me entregou uma “head scarf” emprestada para que eu nao tivesse que usar as que eram emprestadas na mesquita. Eu a coloquei mesmo antes de chegar la. Ela olhou para mim surpresa e disse entusiasmada ” you look so beautiful in a hijab!!”. Tiramos uma foto juntas enquanto andávamos pelas ruas cobertas de alambrados. Ahmed falava comigo o tempo todo. Contava me a historia da cidade, e eu tentava prestar atencao mas estava num misto de fascinada por tudo que via, ouvia, com totalmente intrigada pela doce Israa.

Como Israa foi a primeira mulher Palestina que eu conheci cada palavra dela era preciosa. Ela era a primeira porta a um mundo todo secreto para mim. O mundo dos homens tinha sido até então muito mais fácil de acessar. Mas o que será que pensavam as mulheres as mulheres na Palestina? No entanto, nao era apenas isso que me fascinava na Israa. A Israa é especial pela sua pureza, pela sua doçura. Descobri aos pouquinhos, entre palavras quebradas que ela ia se casar com um homem que tinha visto apenas duas vezes na vida. Um homem que mora na Jordania. Fiquei sabendo que depois do casamento se mudaria para la. Eu ja tinha é claro ouvido falar de casamentos arranjados antes, já tinha lido sobre eles, discutido nas minhas aulas teóricas, mas nunca tinha encontrado cara a cara uma menina doce de tudo que ia ser mandada assim para um outro pais sem saber direito a sua sorte.

Passamos por toda sorte de obstáculo. Check points, barreiras de ferro, detectores de metal, meninos do IDF com fuzis… tudo isso para poder entrar na Mesquita. Tirei meus sapatos ainda impressionada com o futuro de Israa. Coloquei uma saia por cima da minha calca para poder entrar na mesquita. Tudo isso em modo meio automático. Eu olhava a doce Israa sorrindo e pensava nela. Ela encantada com a mesquita ficou comigo o tempo todo. De repente me pediu licença para rezar. Enquanto eles rezavam eu fiquei olhando o tumulo de Abraao/Ibrahim. Do outro lado do tumulo eu via uma janela. Do lado de la da janela eu via um judeu ortodoxo tirando uma foto do tumulo. O mesmo tumulo que eu via pela janela do lado muçulmano. Tantos sentimentos misturados. Gratidão por poder ver tudo isso, tristeza de sentir na pele toda essa separação, mas acima de tudo preocupação pela pequena Israa.

Saimos da mesquita caminhando pelo centro comercial de Hebron. Todas as portas fechadas. Ahmed me explicava que por causa do perigo, dos ataques do IDF o comercio nao funcionava mais ali. Eu caminhava embaixo da rede de arame vendo tudo que foi jogado la de cima. Via crianças brincando. Sentia o clima tenso no ar. Arames farpados por toda parte, soldados Israelenses que sorriam para mim. Jovens e simpáticos comigo. Via trabalhadores de ONGS, tiros nas paredes, amêndoas verdes a venda e de repente a doce Israa ficar para trás.

Depois a vi reaparecer com uma pequena pulseira na mão. Um presente para mim por trazer a ela tanta alegria. Ali bem em frente a rua bloqueada aos palestinos porque virou um assentamento ilegal judeu no meio da cidade eu coloquei o meu presente no broca. Ali vendo tiros nas paredes eu olhei para essa doce menina e desejei a ela em silencio do fundo do meu coração toda a felicidade do mundo.

No meu ultimo dia em Hebron eu perguntei a ela minha primeira pergunta mais uma vez. Israa voce esta feliz de se casar ? Depois de poucos dias de amizade, de poucas palavras e de enorme empatia ela respirou fundo, olhou no meu olho e disse “eu rezo a deus que tudo saia bem. eu estou feliz e ao mesmo tempo aterrorizada.”

E eu me peguei dizendo “Nao se preocupe, vai ficar tudo bem! Insh’allah! Mas se esse teu marido nao perceber a mulher maravilhosa que vc é e nao te tratar como uma princesa vc me liga, me escreve e eu vou la! :)”

Rimos as duas na cozinha sabendo que eu nem ela tinhamos controle nenhum sobre o futuro. “Sim, voce vem!” Ela concordou dando risada. “Thank you Julieta!” E me abracou. Senti no abraco dela um enorme carinho, uma certa gratidao, por nada alem de eu estar ali e colocar em palavras o medo do futuro, do incerto. Um medo que no fundo é de todos nós.

Narrativas alternativas

O meu doutorado, aquele que eu abandonei, era para ter pesquisa em Jerusalem com criancas judias e palestinas numa escola de coexistencia. Nao, eu nao sou Judia, e nem tampouco Arabe. Como foi que eu fui parar nisso? eu já nao tenho a menor ideia. O que eu sei é que hoje em dia eu tenho uma relacao de amor e odio com o oriente medio. Essa alias é uma relacao muito comum. Dificil viver la, mais dificil ainda imaginar que para la nunca mais se volta. Na primeira vez que eu fui a Israel quem le meu blog deve se lembrar que eu fiz couchsurfing o tempo todo. Dessa vez, eu fiquei na casa dos ex -desconhecidos e agora amigos em Israel, e passei um mes ficando na casa de entao desconhecidos e agora tbm amigos na Palestina.

Quem tem amigos em Israel pode imaginar o tipo de reacao que eu recebi quando disse que ficaria na casa de estranhos pelo couch surfing na Palestina. De previsao de “harrassement” a morte. Se vc esta lendo isso faça o seguinte experimento: escreva “brazilians” no google images, depois “palestinians”, depois “israelis”. Assim como brasileiros nao sao so praia e futebol e carnaval, na palestina nao ha so criancas machucadas, “terroristas” e tao pouco em Israel é so soldado do IDF.

Eu cruzei o muro. E como eu falei no ultimo post os muros tem aquele poder de deixar a gente ficar imaginando as imagens do google como representativas. Eu escrevi muito do que me aconteceu aos meus amigos, e como me tem sido pedido muito que eu escreva aqui vou tentar revisitar o que escrevi, o que vivi, para trazer as narrativas alternativas. Eu aviso desde já que essa viagem é meio sem volta… nada é mais branco no preto. Nao ha nada de coerente por aquelas terras…. alias será que existe algo de coerente na humanidade? Eu sofri e sofro por ter amigo dos dois lados. No entanto acho que as estorias tem que ser contadas. As estorias tem poder pois elas nos lembram da humanidade que o muro tenta apagar.

Eu estou para embarcar para India e vou viajar com um Israelense que eu conheci na comunidade da India do Couch Surfing. Meu teste inicial a ele foi contar que tinha passado um mes no west bank. Se o cara fosse um total radical ja se desculparia e discretamente nao falaria mais comigo. No entanto, ele se mostrou interessado. Ele se emocionou ouvindo minhas estorias. Filho de mae iraniana e pai iraquiano tao pouco pode jamais voltar a casa da mae no Iran. Ele tem amigos palestinos de nablus que trabalham ilegalmente em Israel. Fiquei surpresa. Como assim? Um judeu Israelense com amigos Palestinos muculmanos ilegais? No entanto, ele entende, talvez isso de ter uma casa para qual nao possa voltar o faca o compreender. Nao sei. Como as pessoas reagem as coisas é sempre um mistério.

“Podemos ser amigos mas só até um certo ponto porque na verdade é muito dificil para eles serem eles mesmo aqui. vc nao imagina como é dificil. Eu odeio politica. Meus amigos de esquerda, que sao super contra a ocupacao so querem falar do conflito mas quando eu trago meus amigos palestinos eles nao sabem como trata-los como humanos!. O mais basico eles nao sabem! Voce nao pode imaginar!” Eu expliquei que posso, que imagino que senti na pele.

Esses dias um dos amigos dele foi pego sem documentos. “Oque vai acontecer com ele?” perguntei. Ser preso, deportado, mas depois ele volta. Nos ate temos uma brincadeira. Ele sempre me diz que o bom de ele ser preso é que ele pode trazer comida que presta de Nablus para eu comer porque a mae dele cozinha melhor do que niguem. E isso é o que me quebra de vez, ele nem se revolta.”

É isso eu vou tentar escrever aqui sobre esses mundos secretos. O mundo das mulheres que eu conheci no Hamam, o mundo dos religiosos que respeitaram a minha falta de fe, o mundo dos meninos entediados em Nablus, o mundo dos meus amigos israelense que tem medo, que tao pouco querem ser odiados no exterior, ou tao pouco adorado por fascistas, o mundo da depressao dos soldados do IDF que se justificam o tempo todo. O mundo das pessoas que dizem as coisas mais chocantes, mais abusrdas, mas que no fundo como todos nos mudam de pensamento, tem varias narrativas. Um mundo que nao é esse das imagens do goodle. Se vc quer saber um pouco mais da complexidade de ser humano no oriente medio, assim vista por uma nao expert nao judia, nao arabe, nao inglesa, nao americana… uma brasileira a passeio, venha aqui e leia. Eu nunca achei que o que eu ecrevesse tivesse importancia. Sempre escrevo por escrever, mas essas estorias eu acho que tem que ser lidas. As vozes dessas muitas pessoas que as vezes dizem coisas brancas, ou pretas mas na maior parte do tempo vivem no cinza. Essas estorias tem que ser ouvidas. E ja que a historia nao envolveu minha familia nem o meu pais nessa politica eu acabo tendo um acesso a informacao realmente invejavel. Se quiser venha, eu prometo que conto os segredos que eu descobri da nossa incoerente humanidade, mudo os nomes, mas mantenho as vozes.