Israa- Hebron/Khalil

Israa tem 22 anos. Eu a conheci na sua casa. Casa que é também de sua mãe, casa e escritório do seu irmão Ahmed que é uns 30 anos mais velho do que ela. Conheci Ahmed numa van, logo na minha primeira viagem pela Palestina. O conheci quando fui de Ramallah a Nablus. Ele que tinha terminado seu doutorado na LSE nos anos 80, ao saber que eu tbm fazia meu doutorado la me convidou para visita-lo em Hebron/Khalil. Percebi que devia ser um homem muito importante pois ele escreveu seu nome pomposamente num papel e insistiu muito para que eu aprendesse o seu sobrenome.

Hebron/Khalil é provavelmente a cidade mais tensa da Palestina. É la que fica o que os Palestinos chamam de mesquita de Ibrahim, e os Judeus “the tomb of the forefathers” ou “cave dos patriarcas”. Hevron é o nome Hebraico da cidade, Khalil é o nome Arabe. A cidade fica na cisjordânia e é lá onde ficam os assentamentos ilegais mais problemáticos da região. A mesquita de Ibrahim é dividida em dois. De um lado passam os judeus para olhar o túmulo de Abraao e Sara, e do lado da Mesquita ficam os muçulmanos.

Só depois que cheguei a casa de Ahmed que pude entender o quão serio era para um homem importante politicamente, e religioso como ele convidar uma mulher viajando sozinha a sua casa. Em Khalil/Hebron as pessoas são muito religiosas, e o controle social é fortíssimo. Na rua da casa de Ahmed mora toda a sua família.

No prédio onde ele mora cada andar mora uma parte da sua família imediata. Logo no primeiro dia conheci a doce Israa. De cara eu me apaixonei por ela. Doce como uma personagem que saiu de um livro romântico de outra era.

Ela me trouxe suco de laranja. Sentou ao meu lado sorrindo sem dizer quase nada. Ahmed contou que ela iria se casar agora em julho. Perguntei a ela se ela estava feliz e ela respondeu apenas “Al hamdu el allah” ( nao sei como se escreve.. mas quer dizer gracas a deus).

Ela não falava muito, por timidez, por não falar muito bem inglês, por ser reservada. Ela no entanto ficava ali do meu lado o tempo todo. Na hora que saímos para ver a famosa mesquita, me entregou uma “head scarf” emprestada para que eu nao tivesse que usar as que eram emprestadas na mesquita. Eu a coloquei mesmo antes de chegar la. Ela olhou para mim surpresa e disse entusiasmada ” you look so beautiful in a hijab!!”. Tiramos uma foto juntas enquanto andávamos pelas ruas cobertas de alambrados. Ahmed falava comigo o tempo todo. Contava me a historia da cidade, e eu tentava prestar atencao mas estava num misto de fascinada por tudo que via, ouvia, com totalmente intrigada pela doce Israa.

Como Israa foi a primeira mulher Palestina que eu conheci cada palavra dela era preciosa. Ela era a primeira porta a um mundo todo secreto para mim. O mundo dos homens tinha sido até então muito mais fácil de acessar. Mas o que será que pensavam as mulheres as mulheres na Palestina? No entanto, nao era apenas isso que me fascinava na Israa. A Israa é especial pela sua pureza, pela sua doçura. Descobri aos pouquinhos, entre palavras quebradas que ela ia se casar com um homem que tinha visto apenas duas vezes na vida. Um homem que mora na Jordania. Fiquei sabendo que depois do casamento se mudaria para la. Eu ja tinha é claro ouvido falar de casamentos arranjados antes, já tinha lido sobre eles, discutido nas minhas aulas teóricas, mas nunca tinha encontrado cara a cara uma menina doce de tudo que ia ser mandada assim para um outro pais sem saber direito a sua sorte.

Passamos por toda sorte de obstáculo. Check points, barreiras de ferro, detectores de metal, meninos do IDF com fuzis… tudo isso para poder entrar na Mesquita. Tirei meus sapatos ainda impressionada com o futuro de Israa. Coloquei uma saia por cima da minha calca para poder entrar na mesquita. Tudo isso em modo meio automático. Eu olhava a doce Israa sorrindo e pensava nela. Ela encantada com a mesquita ficou comigo o tempo todo. De repente me pediu licença para rezar. Enquanto eles rezavam eu fiquei olhando o tumulo de Abraao/Ibrahim. Do outro lado do tumulo eu via uma janela. Do lado de la da janela eu via um judeu ortodoxo tirando uma foto do tumulo. O mesmo tumulo que eu via pela janela do lado muçulmano. Tantos sentimentos misturados. Gratidão por poder ver tudo isso, tristeza de sentir na pele toda essa separação, mas acima de tudo preocupação pela pequena Israa.

Saimos da mesquita caminhando pelo centro comercial de Hebron. Todas as portas fechadas. Ahmed me explicava que por causa do perigo, dos ataques do IDF o comercio nao funcionava mais ali. Eu caminhava embaixo da rede de arame vendo tudo que foi jogado la de cima. Via crianças brincando. Sentia o clima tenso no ar. Arames farpados por toda parte, soldados Israelenses que sorriam para mim. Jovens e simpáticos comigo. Via trabalhadores de ONGS, tiros nas paredes, amêndoas verdes a venda e de repente a doce Israa ficar para trás.

Depois a vi reaparecer com uma pequena pulseira na mão. Um presente para mim por trazer a ela tanta alegria. Ali bem em frente a rua bloqueada aos palestinos porque virou um assentamento ilegal judeu no meio da cidade eu coloquei o meu presente no broca. Ali vendo tiros nas paredes eu olhei para essa doce menina e desejei a ela em silencio do fundo do meu coração toda a felicidade do mundo.

No meu ultimo dia em Hebron eu perguntei a ela minha primeira pergunta mais uma vez. Israa voce esta feliz de se casar ? Depois de poucos dias de amizade, de poucas palavras e de enorme empatia ela respirou fundo, olhou no meu olho e disse “eu rezo a deus que tudo saia bem. eu estou feliz e ao mesmo tempo aterrorizada.”

E eu me peguei dizendo “Nao se preocupe, vai ficar tudo bem! Insh’allah! Mas se esse teu marido nao perceber a mulher maravilhosa que vc é e nao te tratar como uma princesa vc me liga, me escreve e eu vou la! :)”

Rimos as duas na cozinha sabendo que eu nem ela tinhamos controle nenhum sobre o futuro. “Sim, voce vem!” Ela concordou dando risada. “Thank you Julieta!” E me abracou. Senti no abraco dela um enorme carinho, uma certa gratidao, por nada alem de eu estar ali e colocar em palavras o medo do futuro, do incerto. Um medo que no fundo é de todos nós.

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