Descobertas do Caminho

Eh dificil escrever dois blogs ao mesmo tempo. Traduzir entao eh uma chatisse so. Fico sempre na duvida se escrevo estorias distintas. Continuo na frente do Mekong. Trabalhando na Mut Mee. Meu trabalho eh praticamente pura diversao. Eu recebo as pessoas.O lugar eh informal o que significa que eu passo a maior parte do tempo no jardim conversando com os viajantes. E como ha viajantes nos ultimos tempos! Quase que todo mundo que passa por aqui esta viajando por meses. Pessoas de todas as idades. Tenho encontrado mais e mais aposentados rodando o mundo.

O meu penultimo post no meu blog em ingles tinha sido sobre as familias viajantes. Tenho passado muito tempo com essa ultima familia que apareceu por aqui. Eles sao verdadeiramente fascinantes. Ida, a mae, trabalhava para Unicef, Cyril, o pai, para o mercado financeiro, e os dois filhos, Raphael 3, e Victor, 8 tinham uma vida normal de crianca na Europa. Ida nasceu e cresceu na Albania e saiu fugida da guerra civil quando tinha 18 anos. Cyril frances tinha pais viajantes que o levaram ja crianca para viajar pela a Asia. Perguntei a eles como eh que eles tinham decidido largar tudo e sair pelo mundo para viajar por dois anos. Conforme os dias foram passando as razoes foram explicadas mais a fundo.

“Saimos para passar ferias e ficamos 24 horas por dia juntos. Foi um tempo tao bom. Quando voltamos para casa todo mundo ficou meio deprimido. Eu passava 10 horas com meus colegas de trabalho e duas horas do dia com meus filhos acordados. Quando uma amiga minha morreu eu entrei em depressao. Para que estamos fazendo tudo isso? Victor ja tem 8 anos. A vida ta passando.. daqui a pouco ele tera 18 e vai embora e eu nao vou ter passado tempo com ele”

Resolveram largar tudo. Largar os trabalhos importantes, o conforto da casa em Genebra para viajar como familia. Passar o tempo todo juntos a se descobrirem. A Franca, tem um sistema de educacao a distancia. O cyril da aula 2 horas por dia ao Victor. A cada 6 semanas ele tem provas controladas pela franca. Viajam com os livros.

Eu fiquei encantada de cara quando os conheci. O pequeno Raphael saiu pelo jardim procurando Budas para regar como nos templos. Os dois cuidavam um do outro. Estavam interessados por tudo. Quando viram as minhas fotos queriam saber quem eram aquelas criancas na Kashemira. A estoria deles.

Ontem a noite Ida me contou sua fuga da Albania. As pessoas nas ruas armadas. 24 horas num porao de barco ate a Italia para ser mandada de volta. A outra tentativa. O se esconder nos trens ate ir parar no Luxemburgo.

“Eu ja comecei uma vida do 0. Voce acha que o mais dificil eh a fuga. Nao eh. O dificil eh voce se integrar a sociedade. Sem papeis. Sem existir de fato.”

Conforme ela ia contando a estoria meus olhos se enchiam de lagrimas. Passava em mim as estorias de todos os refugiados que eu encontrei pelo caminho. Os palestinos, os Tibetanos, o Angolano. Meus olhos se enchiam de lagrima nao de tristeza mas de admiracao da forca de sobrevivencia que existe em cada um de nos. As vezes nos esquecemos dela.

Meus olhos se enchiam de lagrima por me sentir tao grata de encontrar essas pessoas pelo caminho. Pessoas que decidem fazer as coisas diferente. Saem do sistema. Sobrevivem e percebem o que agora me parece obvio: o que realmente vale a pena na vida sao os encontros. Sao as nossas relacoes com as outras pessoas.

“Minha amiga nunca fazia nada. Estava trabalhando para se aposentar. Para descansar na velhice. A velhice nao chegou. Nos decidimos que era isso. Nos iamos partir. Ver o mundo eh um bonus. Agora encontras as pessoas, e nos conhecermos como familia eh o que nos queriamos fazer. De longe parece dificil mas agora parece tao obvio que mal consigo entender porque nao fizemos antes?”

Cyril entao completa ” Se ha dois anos alguem me mandasse ir viajar por 2 anos com a minha familia eu ia dizer que ele tava louco. eu nao estava preparado para entender. Agora eh claro para mim o que vale a pena na vida. Eu nao quero esperar o final da minha vida para fazer essa avaliacao”.

Meus olhos permanecem cheios de lagrimas o tempo todo. Tudo me toca. Uma mistura de estar doente com uma febre que nunca parte, com um existencialismo que nunca totalmente me deixa, com admiracao pelas pessoas que passam pelo caminho, com uma inabilidade de ficar totalmente no presente.

Ao meu lado, meu novo amigo Andre, que esta acabando um ano de viagem. Meio ano na Africa. meio na Asia. Sandra, sua mulher, agora no Camboja, ele prestes a partir para um retiro de vipassana amanha.Os dois tambem com um futuro meio incerto. Depois de viverem pelos ultimos 4 anos em Londres nao sabem agora para onde vao. Onde eh que a nova vida comeca.

Eh comum essa duvida. As pessoas me perguntam a mesma pergunta o tempo todo. “e depois voce vai fazer o que?”

Eu nao sei. Dia 24 do mes que vem eu tenho passagem para finalmente conhecer Burma ( insh’allah). Depois quero voltar a India. Depois parece tao longe, tao incerto.

Viver o sonho de sair assim pelo mundo sem rumo, sem data de volta tem disso. No caminho voce encontra um monte e gente que ta fazendo a mesma coisa. Um monte de gente interessante. Um monte de gente que tao pouco sabe o que vai fazer quando voltar, um monte de gente que nao sabe para onde vai voltar. Um monte de gente que sabe certamente que a vida que vivia antes nao eh a certa.

Eh isso que nos descobrimos pelo caminho que o que importa sao as pequenas coisas. O basico. Familia, amigos, um abrigo, alguma coisa para comer, sol, e o tempo de aproveitar essas coisas. O resto eh meio ilusao. Uma ilusao que nos prende diariamente em celas luxuosas e tecnologicas e cheias de coisas. Num conforto de uma certeza da rotina que na verdade tao pouco eh tao certa assim. Sim nos saimos pelo mundo e ficamos assim mais vulneraveis, mais moles, mais tocados pelas pequenas coisas. Falar a sua lingua, um abraco, reencontrar alguem. Nos saimos sem saber direito que nunca mais seremos capazes voltar. Mas quando o existencialismo bate assim no amago tem sempre alguem que aparece e te lembra “Lembra. Porque mesmo que vce saiu?” E ai ironicamente percebe-se que saimos porque aquilo ali, seja o que era, nao queriamos mais.

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