Universo Paralelo

Bom, como eu ja disse antes eu sempre me surpreendo quando alguem diz que le meu blog! E é óbvio que se eu o escrevo e coloco na rede isso não deveria ser um fato em si tão estranho. Mas eu me surpreendo porque eu fico tocada eu acho. Sei la, de certo modo, eu acho incrivel que alguem leia o que eu tenho para dizer. Ainda mais alguem que nem me conhece. Eu já nao me lembro mais como foi que eu comecei a escrever o meu primeiro blog. Eu ainda morava em NY, e acho que tinha mais a função de manter meus amigos informados das minhas andanças. Depois eu mudei de blog, o blog foi mudando, até que chegou nesse formato, que é meio sem formato. Um pouco de viagens, de analises, um pouco do dia a dia. E eu vou escrevendo meio sem saber onde meu texto vai parar. São reflexoes, tenho vontade de dividir algumas das experiencias que tenho. Tenho vontade de contar sobre as pessoas incriveis que eu encontro pelo caminho, e das estorias incriveis que elas me contam. Ultimamente tenho recebido muitas mensagens. E eu fico feliz. Feliz mesmo. Obrigada!

Um dos meu melhores amigos, André, que é a pessoa que mais me cobra atualizações, me pediu uma vez que eu colocasse as musicas que eu componho no Blog. Bom, eu expliquei para ele, “André eu nem componho mais”. Ele achou impossivel. É que eu o conheci, quando morava em NY, estudavamos juntos, ele jornalismo e eu … bom deixa para la… foram tantos os departamentos que eu visitei. Naquela época eu vivia grudada ao meu violão. Não ia a lugar nenhum sem ele. E tudo, tudo que me acontecia virava música. E eu não sei como foi, mas parei de compor. Nesse meu ultimo ano, de que tanto ja falei, uma das minhas buscas, é reencontrar a música dentro de mim.

E vou seguir o conselho do Andre. e vou colocar aqui a minha ultima musica. A primeira desde muito tempo que vem de dentro. Chama-se Universo Paralelo. E foi gravada aqui em casa com a maquina de fotografia, portanto a qualidade é para la de duvidosa.

No Meio do Caminho

Faz três semanas que eu comecei a voluntariar numa escola pública aqui de Londres. Faz parte de um programa da LSE, e tirando eu e uma meia duzia de gatos pingados, eu tenho a impressão que a maioria dos voluntários esta fazendo isso só para ficar bonito no curriculum. Pelo menos foi a impressão que eu tive, mesmo porque na apresentação do programa la na LSE, a coordenadora passou 5 minutos falando na importância da experiencia para o individuo, mais 5 na diferença que faz para os alunos da escola publica, e uns 50 citando estatísticas que mostram que empregadores preferem empregados que tenham voluntariado. Enfim, o importante é que ela conseguiu muito voluntários, que tanto faz a motivação, ajudarão pela simples presença, e atenção que dispensarão com alunos.

Na minha primeira visita a escola, encontrei mais 7 estudantes da LSE. Eu estava um pouco preocupada que a escola fosse muito rígida ( eu sou muito mais da linha de escolas democráticas). La chegando meus medos se dissiparam, a escola uma bagunça, a diretora uma simpatia, e a alegria que ela estava de nos receber era evidente. Nos perguntou com qual idade queríamos trabalhar, e tirando eu, todo mundo escolheu o ultimo ano da escola primaria, os alunos de 11 anos. De fato, eles tem bastante necessidade, por causa de um exame que tem que fazer nessa fase. Eu pedi para ficar com as crianças de sete anos, porque eu acho fascinante essa fase de estar aprendendo a ler, escrever, compreender um texto. Enfim, a minha escolha foi meio intuitiva, guiada por um interesse em cognição, por querer ver esse processo de “socialização”, “hopefully” ajudar nessa fase de fundamento de base, e é claro porque as crianças de 7 são umas fofuras!!!

A diretora nos levou para visitar, a escola, e nos fomos interrompendo classe, depois de classe, e quando finalmente chegamos na classe dos de 11. Ela nos apresentou. Eles estavam assistindo um discurso do Obama :), e ela parou e disse: ” Guys, eu quero apresentar vocês a essas pessoas, eles são voluntários, eles são especialistas na área deles, estudam na UNIVERSIDADE, e vão vir aqui no tempo livre deles, para ensinar VOCÊS, ajudar VOCÊS !!!” Ela falou isso, super dramática, e eu fiquei meio sem saber o que achar, mas ao ver a reação daquelas crianças de 11 anos, que eu imaginei que ia ser tipicamente de pré-adolescente (ou seja: nem ligar, ou bufar, e ficar infeliz com mais uns adultos na aula deles), fiquei super emocionada. TODAS as crianças da classe, gritaram “YES!!!!! Really????? para estudar conosco??? todos eles??? aqui??YES!!! YES!!!!”

Assim, que na próxima, semana cheguei e fui recebida por uma mulher de pijama. Era um dia especial na escola, para arrecadação de dinheiro para uma caridade. Fui levada a minha classe, e obviamente me apaixonei. Não, sério, tudo que eu sei é teórico. De ler. De estudar. Tudo que eu sei é de ver crianças de amigos, crianças de escola privada, de pais informados. Agora, numa classe pobre, de criança de tudo que é lugar. Nossa, isso é outra coisa. Por que aqueles processos cognitivos que ficamos discutindo na minha aula, de domínios específicos, e não sei mais o que, de repente ganham outra dimensão. E a politica, e o processo violento que é ser educado , socializado ( e aqui eu digo em qualquer sistema, em qualquer escola), da para ver..ali na pratica. É incrível.

Eu não quero falar hoje, das coisas que eu acho erradas. Ou das praticas que eu questiono. Especialmente, porque hoje o professor da minha classe, um bonito e motivado professor que no primeiro dia mal tinha falado comigo se aproximou. Perguntou se eu estava fazendo curso para ser professora. Eu disse que não, que era voluntaria. ” A voce é da Universidade então?” Eu confirmei. e ele disse meio que brincando, “você esta aqui para ver o que a gente faz de errado ? :)”, “e ali meio brincando ele expôs o medo dele, da intrusa.” Eu disse ” Não! eu to aqui porque eu estudo cognição, e eu quero ajudar, e por que eu me interesso em educação” “Eu na verdade devia ter dito, ” nao na universidade a gente não sabe nada, você que devia ir ver la as coisas que dizemos sobre aprendizado!!!!” ” E ele sorriu e me disse “se você quiser fazer alguma coisa, uma atividade, ensinar alguma coisa, ou pesquisar fique a vontade! ” Depois disso ele me envolveu em todas as atividades, eu ajudei crianças a ler, a escrever, a inventar frases, a fazer ginastica. E eu sai radiante de la.

Só quando eu cheguei em casa que eu pensei no significado de tudo isso. Eu nunca imaginei que um professor tao exuberante pudesse estar intimidado por causa de uma aluna. Ele estava intimidado pelo fato de eu estar na universidade, uma universidade reconhecida. E que eu sem pratica nenhuma fosse juga-lo. E ele estava certo. Pois é o que nós fazemos. Nos julgamos, teorizamos, sem ter muita noção da realidade. Mas ele veio até o meio do caminho para sondar ao que eu vinha, e eu fui até o meio do caminho para dizer que eu não sou um perigo. E nesse meio, pudemos nos unir para dar mais atenção para varias crianças.

Estar Presente

Ontem foi meu aniversario. E como eu já falei aqui antes, eu adoro, fazer aniversário. Nunca liguei para datas formaturas, casamentos, natal, pascoa etc.. Mas fazer aniversario me toca. Me toca, pois é a celebração da vida. De mais uma volta em torno do sol. E como (quase) tudo é cíclico, estou aqui de novo falando disso 🙂 Eu gosto tanto de fazer aniversario que ate calculo que horas é o horário certo que eu nasci. (Esse ano por exemplo, levando em conta que o ano é bissexto, o momento exato do meu aniversario cairia no dia 20 as 5:35 da manha, e nao no dia 19 🙂 )Eu nunca vou conseguir colocar em palavras o que isso realmente significa para mim, pois os fatos banais,são os mais difíceis de se explicar. Então, todo ano, eu paro, naquele momento, e fico imaginando mais uma volta, mais uma volta desde a primeira vez que eu respirei no mundo. E para muitas tradições, “a respiração” é a própria vida. Mais uma volta ao redor do sol se completando, mais um ciclo terminando, e portanto mais um novo começo.

Para mim, depois de ter ficado doente, no ano passado isso ganhou especial significado. Pois a vida em si, se tornou mais preciosa. Então, nesse aniversario, o meu objetivo era estar presente. Presente no momento, como dizem os budistas. Eu meditei por uma hora nos estados de compaixão e alegria. Acima de tudo tentei estar presente. E estar presente, é um ato difícil, pois invariavelmente estamos no passado ou no futuro. Que é para muitas tradições a razão do nosso sofrimento. Desejo é sempre no futuro, angustia também, raiva eu acho que fica nos dois. No presente, não, é tudo perfeito.

Então, eu comecei o meu novo ciclo invocando buscando estar no momento e invocando a compaixão. E a noite, convidei alguns amigos para vir em casa. Comprei um monte de baloes coloridos, comprei flores, e a casa ficou colorida. Meus amigos foram chegando, um a um. Eles de mundo tão distintos, amigos de lugares diferentes foram se conhecendo. E tocamos violão, e cantamos. E jogamos todas os balões para o céu, brincamos, e rimos a noite toda. E eu que não tinha comprado bolo, recebi um bolo feito por um casal de amigos queridos. E quando cantamos parabéns. E olhei para todas aquelas pessoas numa quarta feira a noite na minha casa eu fiquei tao tocada. Tao bonitas. Tao únicas. Tao diversas. Matemáticos, yogis, filósofos, artistas, antropólogos, consultores. Que são é claro muito mais do que isso. Olhando, aquelas pessoas que fazem coisas tão diferentes durante o dia, que são de países distintos, que sentem em línguas diferentes. Olhando para toda aquela alegria estampada no rosto de cada um, eu me senti incrivelmente grata. Incrivelmente presente. Devastadoramente feliz.

Pois esse meu ultimo ciclo não foi fácil, foi profundo, foi de busca, foi de procura por um caminho. Eu exagerei. Eu oscilei. Eu fui to ateísmo militante, a todos os templos. Da Europa a Índia. Do Tantra ao Budismo. Dos mitos a ciência cognitiva. Eu mudei as cores das roupas. Mudei os livros que lia, buscando mudar no exterior, uma coisa que só pode acontecer dentro. E ela tem acontecido: eu tenho me re-encontrado. E essa busca, tem sido para abandonar a ilusão do racionalismo e para voltar a me apaixonar pelo mundo. Essa busca tem sido para encontrar o equilíbrio entre o meu pensamento critico ( tao valorizado e exacerbado no mundo ocidental hoje em dia), e o meu coração. E eu não estou falando aqui de emoção. Pois as emoções me parecem também mais superficiais, do que este outro plano de ser. E eu poderia passar aqui horas escrevendo, que eu sei que numa visão materialista a consciência é uma propriedade emergente do cérebro. Poderia invocar meu amigo filosofo para dizer que isso não quer dizer nada. Podíamos ter todos esse discursos que eu já tive. No entanto, o meu ponto, não é esse. Mesmo, porque de certa forma, sempre vamos estar escolhendo um paradigma, achando que ele é racional (ainda que a escolha dele seja irracional), se ele for legitimado pela visão cientifica do tempo. No plano pratico, é difícil colocar a experiencia humana em palavras, afinal , essa é uma linguagem limitada. E só o fato, de eu explicar tudo isso, mostra como eu ainda sou tão preza a esse paradigma:)

No entanto, esse meu ano de busca, é um ano para voltar a sentir o que quer dizer viver. Sentir de verdade. Como é que eu me relaciono com um monte de comportamentos que são produtos históricos, que de tao apegada a eles, eu não percebo que não são meus? Como é que eu fico presente? O que é que eu sou mesmo, o que é que eu não sou ? O que é congruente ser ou não? Perceber-se incongruente. Como é que eu abandono a busca por sentido em nome de sentir. E olhando aos meus amigos ontem, e a todos aqueles que não estavam ontem, mas estão aqui em mim, eu sei que eu sou, porque eles são. E eu sei que não faz mal eu ir do filosofo ao neurocientista, do yogi a financista, do lama ao matemático. Eu sei, porque todos nos somos plurais. Eu sei por que na nossa busca nos estamos sempre acompanhados. Eu me senti inteiramente presente e grata e feliz, porque eu me senti ligada a todos eles. Eu senti que eu sou tudo isso. Que eu estou apoiada na minha busca. E apoiando a busca deles. E no meio de tanta gratidão e alegria fica fácil estar presente.

Meu amigo Lama

Em Mcleod Ganj, na India, me pediram um favor. Trazer uma roupa de Lama para um Lama tibetano que mora em Londres. Eu trouxe. Marcamos um encontro perto da Lse, na frente da estação de Holborn e eu fui andando curiosa de como ele estaria vestido. Trocamos mensagens de texto, e eu achei engraçado ter mensagens de um Lama no meu celular. Coisa boba, mas quando se conhece pessoas assim diferentes, de quem temos expectativas não assumidas, os eventos mais banais parecem curiosos. Cheguei na estação nåo o vi. E ele me encontrou, ele de roupa de monge, vermelha e amarela ( como ele diz), para mim mais vinho e laranja. Tão bonita é a visão dessas cores intensas. Andamos até o Hot Gossip cafe, onde as pessoas o conheciam. Eu entreguei a roupa, tomamos chá, eu fiz mil perguntas e partimos. No caminho, de volta a estação, um bêbado, “homeless”, meio caindo, ao ver o Lama, levantou, se esticou, se arrumou, colocou as mãos em “Namaste” e sorriu baixando a cabeça em respeito. Lama o saudou de volta, e eu fiquei comovida porque eu esperava isso do Lama, mas nao do bebado (dos preconceitos nao percebidos). Nos encontraríamos de novo.

O segundo encontro foi na minha casa. Lama Lobsang veio para jantar. Eu o apresentei ao Haiko , meu marido, e a Alondra minha flatmate e amiga de longa data. Jantamos, e perguntamos mais coisas sobre budismo. Haiko falou sobre neurociência e Lama Lobsang disse ter ficado muito feliz pois ele sempre tinha querido ter um amigo neuro-cientista. Lama Lobsang como bom monge falava metaforicamente, dando voltas, mas sempre, sempre voltava ao exato ponto da nossa pergunta, que eu precipitada que sou sempre achava pelo começo da resposta que ele não tinha entendido. Mas ainda assim, era mais fácil entender Lama Lobsang do que os monges e Lamas na Índia, talvez porque ele já estivesse acostumado com os ocidentais.

Ontem, eu acordei meio angustiada, algumas coisas não funcionando muito bem como eu queria. E recebi uma mensagem do Lama me convidando para ir almoçar na casa dele. Fui. Ele fez comida tibetana para mim, tomamos um montão de chá, e desta vez eu meio angustiada, não fiz mais perguntas tão teóricas. Eu falei da minha angustia de me sentir dividida pela beleza da filosofia budista, pelo mundo da ciência social, pela visão da minha yoga tântrica, pelos meus ideais de justiça social. Eu estava meio perdida. Falei com jeito, que era difícil para mim, de verdade entender o budismo a fundo. Eu entendia racionalmente algumas coisas. No entanto, sendo ocidental, me parecia de certa forma uma negação da nossa individualidade, das nossas emoções, do ego. Falei para ele sobre a importância do ego na evolução da especie. Enfim, fui ali falando.

Ele me ouviu, e me fez lembrar o que Dalai Lama tinha dito em McLeod. Uma das coisas que ele disse foi para as pessoas não abandonarem suas tradições, suas raizes, suas religiões. Para tomarem para si os ensinamentos do budismo que lhes fizessem sentido mas para não se tonarem budista. Eu tinha achado bonito isso la. Um pouco relacoes publicas, mas bonito. E Lama Lobsang falou disso num outro aspecto. Falou da dificuldade que é de rejeitar sua cultura seus valores, sua maneira de entender o mundo. Falou do self e das emoções, e na boca dele tudo é bem menos radical do que na minha mente.

De tudo que ele falou uma coisa me tocou mais. Eles falou dos inimigos. A importância de um inimigo. “Na verdade seu inimigo é o seu melhor amigo, pois ele lhe da a oportunidade de exercitar compaixão e paciência. Quem é seu amigo ou inimigo é impermanente. Os verdadeiros inimigos estão dentro de nos, e nos seguem não importa onde estejamos. E é preciso reconhece-los dentro de você. E a compaixão vira naturalmente.”

E eu saí de lá não budista. Eu sai de lá acompanhada por ele. Eu saí de lá com ensinamentos que me fazem total sentido. E eu saí de lá pela primeira vez sem hesitar em como dizer tchau para um Lama. Eu o abracei, um verdadeiro e forte abraço. Quem sabe, reconhecendo a minha cultura, as minhas raizes. Eu me despedi de uma amigo.

Natalie no Afeganistao

Bom. A Natalie entrou no Afeganistao, assim como eu ja expliquei meio sem se preparar. Ja estava no Paquistao ha uns meses, e nada mais natural do que cruzar a fronteira, nao é mesmo? 🙂 Só que dessa vez, ela nao podia ir sozinha, afinal o Taliban não permitia mulheres desaconpanhadas visitando o pais. A ideia dela entao, esperar na fronteira e entrar com algum ocidental que aparece com a mesma ideia. Eventualmente, apareceu Ian, un Ingles, uns 20 anos mais velho que ela.

Entraram, e logo no começo ja foi dificil arrumar lugar para dormir, pois ninguem queria hospedar ocidentais, por medo de ter problemas. Quando finalmente conseguiram arrumar um lugar para ficar, começaram a conversar sobre uma estoria que estava rondando o paquistao de um casal ocidental que tinha sido estuprado pelo Taliban enquanto visitavam o pais. Estavam debatendo se a estoria era verdadeira ou nao, quando de repente alguem comeca a esmurrar a porta. Os dois entram em panico, e o Ian, ja da o primeiro sinal do tipo de companhia que ele ia ser: se esconde no banheiro! Nath fica desesperada, pois como mulher nao deve abrir a porta. Continuam esmurrando a porta, ela gritando com Ian, ele dizendo que nao sai do banheiro. ela sem opção entao vai. Do lado de fora 6 soldados. Com armas, olhos bem negros, pintados embaixo… tentam forçar a porta, ela a segura com toda sua força… ela grita que é mulher, que eles nao podem entrar, que ela é turista. O ” irmão” ta no banheiro, eles gritam que querem ver o passaporte. Ela fecha a porta dizendo que vai buscar. Coraçao batendo, encontra os passaportes, vai ao banheiro, mas Ian nao quer sair de la. Ela implora para ele ir entrega-los mas ele diz que nao. Entao, ela vai, e quando abre a porta, os 6 começam a gargalhar. Estavam tirando um sarro dos turistas. Ela. Bom, ela foi hang out com eles no outro lado da rua, e deixou o Ian para tras.

Segundo, Nath, o Taliban, são jovens que querem uma vida melhor, e ela não desgosta deles. São vitimas. Os mullah sim, eram aterrorizantes, mas o Taliban novinhos não. Perguntei se ela tinha ido ao famoso estadio onde as pessoas eram executadas. E ela me disse que sim. Foi levada para assistir um jogo de Buzkashi ( uma outras estoria para um outro post). Para isso fingiu ser jornalista, e teve a coragem, ou irresponsabilidade de levar uma maquina fotografica. Alguns Taliban posaram, outros tentaram chicotea-la. Ela saiu correndo.

Diante dessas estorias perguntei, mas Nath voce nao ficou com medo? Ela parou, pensou, e começou a contar. “Um dia eu tava com uns amigos Afegaos quando enfiei a mão na meu bolso e achei um pouco de maconha. Eu fiquei chocada, pois achei que ja tinha me livrado de tudo antes entrar no Afeganistao. Mas como contei aos Afegaos, eles resolveram que queriam fumar. Eu fiquei um pouco apreensiva, mas eles me garantiram que se subissimos os 1001 degraus, ficariamos num lugar onde se ve longe, e poderiamos perceber caso o Taliban se aproximasse. Subimos. E de fato de la via-se longe. Comecamos a fumar, e de repente eu entrei numa paranoia. E se isso for uma emboscada? E se formos pegos? E se eles forem pegos e contarem que fui que eu que tinha a maconha???Eu vou ser morta no Afeganistao!” Pediu para ir embora, desceram, entraram num carro e começaram a dirigir, entraram num campo de romãs e de repente o carro quebrou. Ian, como sempre foi o primeiro a se oferecer para ir procurar ajuda ( leia: sair dali). “E de repente, eu pensei ‘what the fuck’ eu estou com 4 Afegaos no meio de um campo de roma, sozinha no Afeganistao! ” O unico momento de lucidez ( ou nao) da Nath foi quando ela tava “high” num campo de romãs no Afeganistao 🙂 E ela teve medo, e disse aos Afegaos, que estava com medo, que nao fizessem nada com ela. Eles mandaram-na relaxar. E a levaram embora.

Para o Ian aquela noite tinha sido demais. Ele resolveu que queria ir embora. Nath, nao satisfeita, ja estava querendo visitar os territorios da Alianca do Norte. Com Ian deixando o pais, ela nao podia ficar. Pensou em colocar uma burca e ficar incognita. Seu amigo afegao pensou em deixa-la ficar em casa. Depois temeu pela vida de todos. E ela teve que partir a contragosto. 3 Dias depois os EUA atacaram o Afeganistao. Nath, estava perdida numa montanha no Paquistao, levou semanas para ficar sabendo.

Dos Viajantes do Mundo

Hoje eu quero falar da Natalie, Australiana que eu conheci em Rishikesh. Logo na primeira noite em que chegamos fomos jantar num pequeno restaurante Nepales a beira do Ganjes. O restaurante era todo feito de Bambu e havia uma mesa que contornava todas as paredes ( eu sei que nao ta muito bem explicado :). A volta dessa tabua havia almofadas. Chegamos cedo, o restaurante ainda estava vazio e pudemos escolher portanto, o lugar que se tornaria o nosso preferido: perto de uma arvore ( dentro do restaurante) e de frente ao Ganjes. Sentamo-nos e logo depois apareceu um casal de dread locks, roupas etnicas, bonitos, que nos cumprimentaram enquanto sentavam nao muito longes de nos. Nem sei como foi, mas de repente estavamos conversando, e logo em seguida mudamos-nos para bem perto deles. Natalie e Andras ( pronunciado Andrash). Ela Australiana e ele Hungaro.

Logo de cara eu fiquei fascinada por ela. Seu estilo, sua calma, seu jeito de falar. E eu de cara percebi que ela era uma pessoa com muitas estorias para contar… mas dessas pessoas que vive uma vida tão espetacular o tempo todo que já nem percebe mais o espetáculo da vida, afinal esses momentos que para nos parecem absolutamente fantasticos, sao para elas o dia-a-dia. Natalie era assim, tinha viajado o mundo por anos, e nem sabia muito bem há quantos anos viajava ou em quantos lugares tinha estado. Não é nem que ela achasse essas perguntas tolas, ela simplesmente não tinha parado para pensar. Ficamos amigas imediatamente. E eu perguntei tudo e mais um pouco nos dias que se seguiram.

Natalie viaja há uns 14 anos. Quando tinha 18 teve um namorado que tinha viajado o mundo afora, e ela adorava ouvi-lo falar dos lugares onde tinha estado. Num certo dia depois de muito ouvir, decidiu que ela ia ve-los tambem. Ia passar 3 meses viajando. E assim, nao mais que de repente os 3 meses viraram 3 anos. Como? “Eu ia indo, fazendo arte, crafts, ficando na casa das pessoas que eu conhecia pelo caminho, pegando carona….” E de fato, ela chegou a America do Sul de carona num yacht. Foi parar na Colombia, onde passou 8 meses. Arrumou um namorado, e saiu de la deportada por ter ficado alem do que era permitido no seu visto. Viajou grande parte da America do Sul. A Colombia continua sendo para ela, um dos seus lugares favoritos. E pelos colombianos ela tem um grande amor.

Depois desses 3 anos, ela voltou a Australia, e nunca mais ficou um ano inteiro em casa. Passava 6 meses em casa, 6 meses na Asia. Ja tinha estado na India dezenas de vezes, mas ela gostava mesmo era do Paquistão, onde tinha estado 6 vezes sozinha. “Como sozinha Nat? ” As pessoas são maravilhosas no Paquistao, eu sempre sou acolhida nas suas casas!” “Voce nunca teve problemas ??? ” Nao, eu adoro os paquistaneses”.

A essa altura, eu ja meio brincando, pergunto a ela “e o Afeganistão? ” Eu fui ao Afeganistão num visto do Taliban, um pouquinho antes do Afeganistao ser atacado.” Ela nao podia entrar sozinha como mulher entao, ficou na fronteira esperando alguem que fosse entrar para entrar junto. E assim, ela entrou com um total desconhecido, num país onde mulher não tem la muitos direitos. ” Nat, o que voce foi fazer la????” ” Fui ver. Todo mundo dizia que as mulheres eram apedrejadas na rua, que isso e que aquilo e eu quis ir la ver se aquilo que aparecia na televisao era mesmo verdade”. E oque ela viu? Bom isso fica para o proximo post, por que a visita dela ao Afeganistao é digna de um filme.

No entanto, sobre o que eu queria escrever nesse post, é sobre o sentimento que desperta em mim encontrar pessoas como a Natalie. Encontrar pessoas como ela me faz questionar a realidade do mundo que acreditamos existir, e do mundo que de fato existe. O perigo real, e esse que nos é imbutido. Eu mesma viajei a Bolivia, o Peru, o Marrocos sozinha contra todo tipo de conselho. Em todos os lugares eu me senti perfeitamente segura. Podemos debater é claro que o sentimento de segurança é abstrato. Mas será que estes reports também nao o são? É claro, que ela é meio maluca de se meter nesses lugares sozinha e sem muito preparo. Mas seria a vida dela de pura sorte? 14 anos de pura sorte? Ou será que no que muitos chamam de ingenuidade está a capacidade dela de realmente conhecer o outro? Não o outro que trabalha no hotel, mas o outro na sua casa, comer da sua comida, beber da sua agua. São perguntas. Eu nao tenho as respostas. O que eu sei, é que esses encontros, assim como as minhas viagens sempre me fazem perceber como o mundo que nos é pintado é muito distante do que deve ser o real.

Das Coisas Estranhas na Índia

Passamos uma semana em McLeod Ganj, vilarejo ao norte da Índia onde reside Sua Santidade Dalai Lama. Por total acaso, tivemos a sorte de chegar la para 5 dias de ensinamentos dele. Neste post no entanto, não vou escrever sobre isso, pois esse é uma tema que exige mais tempo. Quero escrever de um evento banal, e engraçado que aconteceu enquanto passeava pelos arredores de Dharamsala.

Enquanto viajei a Índia conheci muitas pessoas interessantes. Ainda quero muito falar delas. Em particular da Natalie, australiana que ha 14 anos viaja a Asia. Isso no entanto, também não e importante para esse post. O importante e que eu conheci em McLeod duas brasileiras logo no primeiro dia em que cheguei, Natasha e Julia, e que acabamos ficando amigas.

Numa certa noite, fui com Julia, ouvir uns dinamarqueses tocar violão. Fomos a um bar, e todos nos pegamos um instrumento de percussão para tocar ( alias esse é o problema dos instrumentos de percussão, qualquer pessoa acha que pode toca-los :). Quando o bar fechou, decidiu-se que iriamos a Bagshu, vilarejo vizinho, pois la os bares ficavam abertos até tarde( entenda-se alem das 10 da noite). Como Julia me garantiu que encontraríamos um Rikshaw mais tarde para voltar seguimos os músicos e fomos para o tal vilarejo vizinho. Chegamos em um bar repleto de Israelenses, alias a India é cheia deles, até fiquei na dúvida se haveria algum sobrando em Israel 🙂 Tocavam, dançavam, cantavam, oque alias impediu os Dinamarqueses de tocarem. Sentamos-nos portanto, numa mesa e ficamos um tempo la ouvindo aquela barulheira. Imaginem : tudo que eh tipo de tambor, misturado com didjeredoo, violoes e instrumento de toda a sorte tocando juntos sem nenhum critério ou regente. Como eu tinha que acordar cedo para ir a Siribadhi, e a música era um terror, quando era mais ou menos 1 da manha resolvemos partir.

Naturalmente a essa hora não havia nenhum rikshaw, como eu já deveria ter desconfiado! Nos tão-pouco tínhamos lanterna, e o breu era total! Por sorte encontramos um grupo de australianos e resolvemos andar com eles de volta a McLeod Ganj. Eles também não tinham lanterna, mas em 7 ficamos mais tranqüilos. Começamos a andar, e de repente começamos a ouvir latidos que vinham de todos os lados. Eu que não me vacinei contra raiva comecei a ficar tensa. E de repente vários cachorros ( uns 30) começaram a aparecer de tudo que era lado, e a vir em nossa direção. Eu meio com medo que nos atacassem, não sabia nem o que fazer, nem o que pensar. Fiquei parada. Para minha surpresa, no entanto, eles não fizeram nada, ou melhor, eles nos rodearam, e começaram as nos acompanhar. No começo nos não entendemos nada. O que aqueles cachorros estavam fazendo ali? Mas eles foram andando conosco o tempo todo. Uns iam para frente, olhavam, latiam, voltavam, sem nunca nos deixar sem um circulo completo a nossa volta. Andaram conosco por uns 20 minutos. Quando estávamos finalmente chegando a McLeod pararam. Então, um único cachorro seguiu conosco mais um pouco, mas assim que os cachorros de McLeod começaram a latir, ele parou. Pronto, já tinham nos escoltado de volta. É acho que os cachorros na India também reconhecem os gringos 🙂

Macaco- parte 1

Eu sempre gostei de macaco. Mais precisamente dos ” Great Apes” Os gorilas, chimpanzes, os bonobos, orangutangos e ate dos gibons. Tive que ler muitos livros na minhas aulas de evolução sobre primatas, e é claro inevitåvelmente sobre a Jane Goodall, Diane Fossey, Franz de Wall, dentre outros que estudam e viveram entre os macacos. Ja assisti varios filmes, sobre os apes, sobre macacos, mandris ( sera que e esse o plural de mandril?), e quase sempre se aprende que nao se deve mostrar os dentes, ou olhar muito nos olhos deles. Eu sabia tudo, mas quando estive cara a cara com um, esqueci de tudo isso.

Pegamos um onibus, de New Delhi para Haridwar. Bom, pegar um onibus ja é em si uma grande saga, pois os motoristas de rikshaw sempre te enrolam. Convencem voce a ir num escritorio para turistas do governo, que obviamente nao é governamental, mudam o preço no caminho, não te levam onde voce quer ir, e ainda inventam um milhão de estórias. Depois de pegarmos 2 Rikshaws para chegar a um lugar do lado de onde estavamos, depois de visitarmos umas agencias, explicar que nao queriamos taxi, que queriamos a rodoviaria, conseguimos depois de horas chegar finalmente a ISBT (rodoviaria) . De fato, os onibus locais eram um lixo . E por isso todos os indianos que passavam por nos queriam nos levar a uma agencia “governamental”. Nao precisa mais de uma visita a uma delas, para resolver nao seguir mais ninguem.

Eventualmente achamos uma pequena agencia, e entramos. O homem nos vendeu passagem para um onibus “deluxe” para ir a Haridwar, nos garantiu que seria facilimo chegar de la a noite a rishikesh, e nos disse que o onibus partia em meia hora. Compramos a passagem, e sentamos para esperar. A tal meia hora virou uma, e depois de sermos levados ao tal onibus ( que nao tinha nada de luxuoso), tivemos que esperar mais uma hora ate o onibus lotar.

Eu era a unica mulher no onibus e eu e o haiko os unicos nao-indianos. O onibus era imundo, o banco ou nao abaixava, ou nao subia 🙂 O motor fazia um barulho ensurdecedor, e eu mesmo de tampao de ouvido nao conseguia acreditar na barulheira. Nas estradas como eu ja disse, todos buzinam o tempo todo, se ultrapassam, vao na contramao, aparece vaca, touro, cachorro e o que mais se puder imaginar. umas 8 horas de viagem para percorer uns 300 km. Eh tudo meio assim. Dentro do onibus cada um com seu celular tocando uma musica indiana diferente, e sem fones de ouvido. Eu morrendo de vontade de fazer xixi, e naturalmente o onibus nao parando.

Parou eventualmente, depois de umas 6 horas no Cheetal Deer Park, e fomos finalmente ao banheiro e comer. Pedi uns chapatis com manteiga, e haiko pediu nan. Nada de muito elaborado para nao passar mal ja no primeiro dia 🙂 Sentamos-nos e enquanto comiamos, um macaco enorme apareceu. Eu vi ele chegando, andando devagar, e de repente subiu na minha mesa. Olhou bem no meu olho e bem devagar puxou o meu prato. EU fiquei enfeiticada, esqueci tudo que eu devia fazer e fiquei so olhando. Ele me olhou, acho que medindo a minha reacao, minha respiracao e coracao pareciam ter parado, ai ele pegou um chapati por vez, com sua maozinha pequena, e eu so olhei. Nunca tinha estado tao perto de um macaco. Ele estava quase me tocando. Depois que ele pegou todos, e me deixou com oque estava na minha mao, partiu. Ficamos ali, os dois perplexos, totalmente sem palavras. Tive um acesso de riso. E percebi que eles nao foram na mesa de nenhum indiano so na nossa. Na India ate os macacos reconhecem os gringos!

A India

Cheguei da Índia ontem. E nem sei por onde começar. A Índia é intensa. Ela desperta todas as suas emoções, da loucura a completa paz. Seus sentidos são estimulados o tempo todo, e quase tudo é diferente. Os cheiros, os costumes, as pessoas, a sujeira, a beleza, as cores, os bichos, e o incrível barulho. Tudo na Índia eh intenso. E os encontros, ah os encontros… eles são profundos.

Ha momentos de completo desespero, com um milhão de carros, bicicletas, ônibus, rikshaws?, caminhões todos buzinando ao mesmo tempo. Buzinas de todos os tipos, todos os tons, todas as melodias… e elas tocam, gritam, esperneiam o tempo todo… e ao poucos , com os dias passando você vai se esquecendo delas, nem se quer presta mais atenção, e elas parecem perder sua função.

Na verdade, eu não posso dizer A Índia, eh quase tao vago como dizer o Brasil. Afinal, existe mil Índias dentro da Índia. E eu só visitei duas delas. Rishikesh e Dharamsala ( Mc Leod Ganj). As duas ao norte perto do país. Rishikesh é considerada a capital da Yoga no mundo, e Dharamsala, mais precisamente McLeod Ganj, é a cidade onde o governo no exílio do Tibete está. A primeira uma cidade Hindu, enquanto a segunta é mais Budista ( graças ao tibetanso que lá estão).

Eu pretendo escrever em detalhes, contar das mil estorias que vivi na Índia. Vou escrever dos macacos, dos cachorros, do astrólogo/médium que eu conheci, da cerimonia Hindu elaboradissima feita para mim num templo a beira do Ganges, da Australiana que viaja ha 14 anos a Asia vivendo 6 meses na Austrália 6 meses fora, da emoção que foi ver SS Dalai Lama de pertinho varias vezes, de ter escutado seus ensinamentos, penado para entender de fato o budismo, das conversas com os lamas, ao encontro privado com SS Karmapa.

Enfim, a viagem foi intensa, foi cansativa, e foi maravilhosa. Conheci pessoas incríveis de quem ainda quero escrever. Se antes eu estava me sentindo meio sem assunto, agora os assuntos sao demais. Pois na India é tudo assim: tudo em abundancia.

O Bolo

Eu sei que faz um tempão que eu não escrevo, e de fato eu tenho um milhão de coisas para contar. No entanto, é facílimo de um milhão de coisas virar nada 🙂 Estive um mês na Romênia, e contrariando o meu ultimo post viajo sim amanha para a India.

Neste post no entanto, quero falar de um momento bonito e singelo, que eu tive estes dias enquanto voluntariava na Amrita, loja que pertence a escola de Yoga. Estava eu la tentando aprender a tocar o tibetano “singing bowl” quando uma senhora muito velha entra na loja. Fui ajudá-la a se acomodar e depois deixei que ela ficasse olhando os livros a vontade.

Depois de quase uma hora ela fez sua escolha e me entregou os 3 livros que queria ler. Livros sobre budismo, e mestres nos Himalaias. Contou -me num sotaque fortíssimo que os livros pareciam ser interessantíssimos. Expliquei que eu ainda não os tinha lido, e curiosa como sempre perguntei de onde ela era.

Ela respirou fundo, me olhou bem dentro dos olhos, e disse “eu me sinto uma cidadã do mundo. Eu nasci na polônia, mas na época da guerra viramos refugiados “. Perguntei se ela era Judia, mas ela me explicou que nao ( oque me fez relembrar que muito mais gente sofreu), que seu pai era médico e como se opunha ao que estava acontecendo tiveram que se exilar. A Senhora era velha, falava com dificuldade e doçura e eu comecei imediatamente, mais uma vez, a me sentir entrando na memoria de alguém, num outro tempo, numa outra possibilidade.

Foram para Rússia, não tinham dinheiro, tudo difícil, guerra para tudo que é lado. Depois para a Palestina, depois para o Ira. E eu que tenho tanto fascínio pelo Irã aproveitei para perguntar a senhora o que ela tinha achado de la.

Os olhos dela respiraram fundo, se distanciaram, olharam para dentro, como se ela resolvesse voltar até lá, naquele tempo, visitar um lugar deixado há muito, muito tempo. E aos poucos ela devagar começou a me contar.

” Eu gosto muito dos Iranianos. Eu me lembro, eu pequena, nos não tínhamos dinheiro e minha mãe resolveu me levar a Tehran para tomar um copo de leite num café. Havia uma variedade de bolos na vitrine, mas nos não tínhamos dinheiro para compra-los. Sentamos numa mesa para tomar o leite, e havia um senhor numa outra mesa. De repente ele desapareceu. E ao mesmo tempo que ele desapareceu, o garçom apareceu com um pedaço de bolo numa bandeja. O Senhor tinha me visto, uma menininha querendo o bolo em segredo, e adivinhando o meu desejo, ele o comprou para mim. Para não nos deixar envergonhadas partiu antes mesmo que o bolo chegasse a nossa mesa.”

Ela sorriu, tocada, visitando aquele momento com cuidado, olhando aquele café, a sua infância, dividindo comigo aquele momento precioso. E eu estava lá também imaginando a cor da mesa, o bolo, a menina de vestidinho, a alegria, e já me antecipando imaginava o doce na boquinha da polonesa, saboreando cada pedaço, dividindo com a mãe,a alegria nos seus olhinhos de criança…quando ela continuou.

” Minha mãe ficou comovida, mas disse não, ela não podia aceitar. E enquanto eu te conto isso me da um nó na garganta. Por que aquele momento foi um dos mais bonitos da minha infância, aquele senhor Iraniano viu que eu era uma menininha e quis me deixar feliz. E é assim que eu penso no Irã e Iranianos com o rosto daquele senhor que quis me trazer felicidade.”

Eu fiquei tão tocada, imaginando a vontade que a pequena polonesa devia estar de provar aquele bolo. No entanto percebi que na sua memoria ficaram duas lembranças muito mais fortes: a dignidade da sua mãe, e a bondade do senhor que quis trazer-lhe felicidade. E ficou claro que o bolo era o de menos. A memória da dignidade da mãe e a bondade, e compaixão do desconhecido são com certeza memórias mais doces, mais profundas e mais duradouras.