Estar Presente

Ontem foi meu aniversario. E como eu já falei aqui antes, eu adoro, fazer aniversário. Nunca liguei para datas formaturas, casamentos, natal, pascoa etc.. Mas fazer aniversario me toca. Me toca, pois é a celebração da vida. De mais uma volta em torno do sol. E como (quase) tudo é cíclico, estou aqui de novo falando disso 🙂 Eu gosto tanto de fazer aniversario que ate calculo que horas é o horário certo que eu nasci. (Esse ano por exemplo, levando em conta que o ano é bissexto, o momento exato do meu aniversario cairia no dia 20 as 5:35 da manha, e nao no dia 19 🙂 )Eu nunca vou conseguir colocar em palavras o que isso realmente significa para mim, pois os fatos banais,são os mais difíceis de se explicar. Então, todo ano, eu paro, naquele momento, e fico imaginando mais uma volta, mais uma volta desde a primeira vez que eu respirei no mundo. E para muitas tradições, “a respiração” é a própria vida. Mais uma volta ao redor do sol se completando, mais um ciclo terminando, e portanto mais um novo começo.

Para mim, depois de ter ficado doente, no ano passado isso ganhou especial significado. Pois a vida em si, se tornou mais preciosa. Então, nesse aniversario, o meu objetivo era estar presente. Presente no momento, como dizem os budistas. Eu meditei por uma hora nos estados de compaixão e alegria. Acima de tudo tentei estar presente. E estar presente, é um ato difícil, pois invariavelmente estamos no passado ou no futuro. Que é para muitas tradições a razão do nosso sofrimento. Desejo é sempre no futuro, angustia também, raiva eu acho que fica nos dois. No presente, não, é tudo perfeito.

Então, eu comecei o meu novo ciclo invocando buscando estar no momento e invocando a compaixão. E a noite, convidei alguns amigos para vir em casa. Comprei um monte de baloes coloridos, comprei flores, e a casa ficou colorida. Meus amigos foram chegando, um a um. Eles de mundo tão distintos, amigos de lugares diferentes foram se conhecendo. E tocamos violão, e cantamos. E jogamos todas os balões para o céu, brincamos, e rimos a noite toda. E eu que não tinha comprado bolo, recebi um bolo feito por um casal de amigos queridos. E quando cantamos parabéns. E olhei para todas aquelas pessoas numa quarta feira a noite na minha casa eu fiquei tao tocada. Tao bonitas. Tao únicas. Tao diversas. Matemáticos, yogis, filósofos, artistas, antropólogos, consultores. Que são é claro muito mais do que isso. Olhando, aquelas pessoas que fazem coisas tão diferentes durante o dia, que são de países distintos, que sentem em línguas diferentes. Olhando para toda aquela alegria estampada no rosto de cada um, eu me senti incrivelmente grata. Incrivelmente presente. Devastadoramente feliz.

Pois esse meu ultimo ciclo não foi fácil, foi profundo, foi de busca, foi de procura por um caminho. Eu exagerei. Eu oscilei. Eu fui to ateísmo militante, a todos os templos. Da Europa a Índia. Do Tantra ao Budismo. Dos mitos a ciência cognitiva. Eu mudei as cores das roupas. Mudei os livros que lia, buscando mudar no exterior, uma coisa que só pode acontecer dentro. E ela tem acontecido: eu tenho me re-encontrado. E essa busca, tem sido para abandonar a ilusão do racionalismo e para voltar a me apaixonar pelo mundo. Essa busca tem sido para encontrar o equilíbrio entre o meu pensamento critico ( tao valorizado e exacerbado no mundo ocidental hoje em dia), e o meu coração. E eu não estou falando aqui de emoção. Pois as emoções me parecem também mais superficiais, do que este outro plano de ser. E eu poderia passar aqui horas escrevendo, que eu sei que numa visão materialista a consciência é uma propriedade emergente do cérebro. Poderia invocar meu amigo filosofo para dizer que isso não quer dizer nada. Podíamos ter todos esse discursos que eu já tive. No entanto, o meu ponto, não é esse. Mesmo, porque de certa forma, sempre vamos estar escolhendo um paradigma, achando que ele é racional (ainda que a escolha dele seja irracional), se ele for legitimado pela visão cientifica do tempo. No plano pratico, é difícil colocar a experiencia humana em palavras, afinal , essa é uma linguagem limitada. E só o fato, de eu explicar tudo isso, mostra como eu ainda sou tão preza a esse paradigma:)

No entanto, esse meu ano de busca, é um ano para voltar a sentir o que quer dizer viver. Sentir de verdade. Como é que eu me relaciono com um monte de comportamentos que são produtos históricos, que de tao apegada a eles, eu não percebo que não são meus? Como é que eu fico presente? O que é que eu sou mesmo, o que é que eu não sou ? O que é congruente ser ou não? Perceber-se incongruente. Como é que eu abandono a busca por sentido em nome de sentir. E olhando aos meus amigos ontem, e a todos aqueles que não estavam ontem, mas estão aqui em mim, eu sei que eu sou, porque eles são. E eu sei que não faz mal eu ir do filosofo ao neurocientista, do yogi a financista, do lama ao matemático. Eu sei, porque todos nos somos plurais. Eu sei por que na nossa busca nos estamos sempre acompanhados. Eu me senti inteiramente presente e grata e feliz, porque eu me senti ligada a todos eles. Eu senti que eu sou tudo isso. Que eu estou apoiada na minha busca. E apoiando a busca deles. E no meio de tanta gratidão e alegria fica fácil estar presente.

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