No vilarejo

Como eu tenho mandado e-mails aos meus amigos contando das noticias do lado de ca e eu nao tenho tanto tempo na internet como eu gostaria ( pois eh uma pessoa viciada eh assim) resolvi postar meus e-mails no meu blog em ingles.

Ja estou no meu pequeno vilarejo rural, um vilarejo de apenas umas 100 casa. Da minha nao se ve nenhuma. ve se muito verde, plantacoes de arroz, um jardim bonito, cabanas de palha, flores e frutas. Minha hostess, Horn, eh uma tailandesa de 48 anos, muito animada, professora na minuscula escola onde eu voluntario. Assim que ela me pegou no primeiro dia me abracou dizendo que eu podia chama-la de Thai Mama. Ele eh verdadeiramente uma mulher excepcional, completamente apaixonada por dar aulas, pelos alunos, me contou que eh tuma escritora e esta escrevendo livros didaticos, e poesia tailandesa.

Para mim que sempre vivi em cidade tem sido uma mudanca e tanto, banho de balde e agua fria, insetos de toda a variedade, comida diferente, e muito calor. O que faz tudo valer a pena sao as pessoas. Que sao sempre de uma amiabilidade\, generosidade, e ternura tamanha.

A escola so tem 50 alunos, de 4 a 12 anos. Ha quatro classes, com duas series por clases. Eh tudo muito informal, e as cirancas parecem muito alegres. De manha todos ficam no patio ouvindo os avisos, e num certo momento se viram para o Budha com uma mao em cima da outra numa pequena meditacao em agradecimento aos que os ajudam. Depois saem correndo para suas classes com aquelas vassouras de “bruxa” para limpa-las. Todo mundo entra na sala sem sapato, e apesar da simplicidade da escola eh tudo super limpo!

Essas criancas sao pobres, de zona rural, normalmente moram com os avos, pois os pais ou partiram, ou morreram, ou trabalham em alguma cidade grande. E elas sao tao alegres. Rindo, cantando, pulando elastico, tentando conversar comigo. As menores, pois as maiores tem mais vergonha. Como elas nao falam quase nada de ingles e eu nada de tai as nossas conversas sao assim de sorrisos e apontando coisas.

Como houve uma competicao de discursos em ingles na provincia ontem , eu acabei passando muito tempo com duas menininhas: Tangmo, e Tangnoi. O que mais me espantou foi ver nao so a persistencia, a paciencia, mas alegria delas. Enquanto passamos o dia juntas praticamente so esperando o tal momento, eu pude observa-las. Tao generosas, tudo que comiam me ofereciam, dividiam. Eu tecnicamente estava com elas, mas sem duvidas elas tomaram bem mais conta de mim do que eu delas.

Meu livrinho de frases em tai eh motivo de muita risada. Elas nunca entendem o que eu quero dizer. Mas Tangmo eh tao inteligente que ela sempre consegue descobrir num dicionario, ou de alguma forma a maneira de me explicar.

Para a total alegria da Horn, do diretor e minha, Tangmo ficou em segundo na competicao! A nossa escola e tao pequena que nao esta nem no Ranking! A primeira colocada veio da melhor escola da regiao, por isso o segundo lugar para Tangmo uma menininha linda e pobre de uma escola minuscula foi motivo de grande celebrcao.Horn na sua enorme generosidade me colocou como professora delas, e por isso eu ganhei um certificado em Tai. Claro que ela ter ficado em segundo lugar nao tem nada a ver comigo,muito mais com a propria tangno que eh muito inteligente e caitvante e a Horn. Eu alias tinha achado essa estoria de competicao de discursos uma loucura. Deixar as criancas estressadas etc… nao sei como eh no resto da tailandia, a Horn, nao fez pressao nenhuma, tudo muito informal, tudo meio relax. Na verdade nem a vitoria da Tangno, nem a nao vitoria da Tangnoi foram muito comentadas. Quando eu perguntei a HOrn se a Tangnoi nao tinha ficado triste ela me respondeu ” Nao ela sabe que tinha muitos canditatos, e que outros foram melhor.” Nao que eu nao ache que a Tang Noi nao tenha ficado um pouquinho triste, mas a casualidade como a Horn pois as coisas que me deixou mais aliviada.

Da viagem

A viagem foi super tranquila. Parei pela terceira vez na minha vida no aeroporto de Abu Dhabi. O aeroporto estava completamente diferente de quando eu la estive nao faz nem sequer um ano. Passeei pelo aeroporto e tive a sorte de presenciar um momento surreal. Um banheiro lotado de mulheres mais velhas muculmanas se lavando para rezar. Todas estavam vestidas de um vesitdo florido azul, com uma etiqueta onde eu pude ler que eram da indonesia, e eram absolutamente devotas. Eu fiquei ali parada completamente perplexa. Ao meu lado uma mulher ocidental mal-humorada resmungava o tempo todo.O aeroporto eh um lugar surreal, voce passa por pessoas de burqa, niqab, djelaba, veus todos coloridos e bordados, todos negros, saudi com aqueles panos quadriculados. Sala da reza, o bar( ?), a boots, burger king, e ate mesmo um radar tipo raio x que mostra as pessoas por dentro, funcionarios de mascara, uma guarda que parecia a guarda iraquiana do Lost. At’e um cara pareciddismo com o Sayid que me greeted dizendo ” Hello Love”.

Bangkok esta quientissimo. Sao 6 horas de diferenca para londres, e eu totalmente jet lagged capotei essa tarde. Depois sai para dar uma pequena volta. Queria ir num mercado para comprar roupas apropriadaspara voluntariar mas o transito era tal que resolvi ir no mercado Kao Sun que eh perto de onde estou. De volta ao meu ja encontrado lugar favorito para comer conheci algumas pessoas. Dentre elas Phillipe um suisso que esta viajando a un ano e meio e ainda viaja ate marco que vem. O cara ja esteve em tudo que eh lugar e tambem ja fez vipassana. Mostrou me basicamente tudo que eu precisava saber e ainda me apresentou a outros desses turistas mais locais. O turista local eh para mim gente que nem a Nathalie que viaja tanto, e por tantos lugares que eles vivem se reencontrando pelo mundo como se fosse a coisa mais natural. Ha tambem os turistas bem jovens que estao claramente no gap year e vem para a Tailandia um pais bem facil de vaijar para beber todas. Esse segundo tipo de turista mostra claramente como eu estou ficando velha 🙂

Ja vi uns mongezinhos laranjas na rua. Os Terevadhas que sao bem diferentes dos Tibetanos que eu conheci na India. Alias Eu recebi um sms to Lama Lobsang me mandando o email dele para eu mante-lo a par da minha viagem 🙂 Esses textos de agora serao assim corridos e com ainda mais erros do que eh de costume ja que o relogiozinho vai ticando enquanto eu escrevo. E os textos serao um pouco repetitivos pois eu tambem estou mandando e-mails em ingles. Acho que vou postar meus e-mails no meu blog em Ingles, quem quiser pode ir la ver. http://www.translatingthoughts.wordpress.com

O Eterno no Efemero

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Eu estou ainda em casa. Ontem sai para caminhar pela primeira vez desde quinta. Hoje estou presa no meu quarto mas por outra razao: um filme. Ou melhor mais uma cena que esta sendo gravada na minha casa. A Alondra miha amiga e flarmate é atriz. E assistir a mesma cena ser gravada e re-gravada um milhao de vezes, me fez pensar em tantos dos meus amigos cineastas, atores e artistas em geral. Lembrei de como quando eu peguei o aviao para ir para o hospital no Brasil, sozinha meio que tendo crises parciais epileticas, abri a revista da Tam e dei de cara com o meu grande amigo Fellipe. Meu amigo que me convenceu a ir estudar em NY. O rosto dele tomava uma página inteira. Lia-se Fellipe Gamarano Barbosa um dos cineastas mais promissores do Brasil. eu olhei e sorri confortada.. confesso que nem tanto por ele ser um dos cineastas promissores do Brasil foi mais por ele estar ali protegendo o meu voo :)E pensar no Fellipe me fez pensar na minha amiga Iraniana Sara com que estudei em NY e que acabou tambem indo fazer mestrado em cinema na Columbia. Ela, que tinha passado tres meses no Iran e que tinha ganhado uma bolsa da Fullbright para fazer um filme em Istanbul , acabara de me escrever me convidando para ir visita-la em Istanbul no ano que vem. Logo Istambul, uma das minhas cidade favoritas, e onde vive uma das minhas melhores amigas. E eu imediatamente comecei a fazer planos para apresenta-la a Nese. Mas a Nese ganhou uma outra bolsa para estudar 6 meses na Finlandia e 6 meses na Inglaterra…Enfim, o fato é que visitando mentalmente esses meus amigos queridos eu resolvi entao dar uma olhada no site da Mounia ( clique aqui) minha amiga marroquina de quem tanto ja falei. O site tava com uma nova cara. E eu comecei a olhar os quadros e fui ficando muito tocada. Eu sei que eu ja escrevi aqui de como ver os quadros da Mounia me nocauteou quando eu cheguei no Marrocos. Como para mim o comeco da minha doença foi no simbolico. Entao ir la olhar o site dela sempre me toca. Me toca pelas cores, pelas memórias que evoca, porque é o jeito mais profundo de estar perto da minha amiga, de saber como ela esta, de ver o que ela cria. E eu olhei bem devagar…reconhecendo os antigos, o que ta na minha casa, efiquei totalmente perplexa com os novos. Meio que nocauteada mais uma vez. Li o que ela tinha escrito em frances, e em ingles. E uma frase me tocou particulamente “I search the eternal in the transitory and the glory in the chaotic.”

Olhei os novos quadros, muito viscerais para mim por alguma razao. E entao resolvi escrever para ela. Contei que tinha visto os quadros, que tinha me sentindo muito emocionada.Disse que existia algo de profundamente triste ali, alguma coisa de profundo que eu nao sabia colocar em palavras. E eis que eu recebo quase que imediatamente essa resposta.

“The work is quite recent im glad you like it, some of the paintings were painted last year and all the ones inside the human brain such as cranium(right brain/left brain dilemna), memoire red background and (B&W faces inside a big head)were very much inspired by what i felt when you told me about that thing you had …i had to explore and depict in a way the microscopic molecules and world that lies beneath the surface of each one of us, in other words u were my inspiration for that whole collection….love you and miss you infiniment
bisous”

E aqui estou eu sem palavras. E tendo que coloca-las para fora, e querendo dividir a emocao. A emocao que eu tinha sentindo sem saber direito porque faz agora total sentido. E o sentido me faz transbordar em lágrimas. A emocao de saber que esses amigos de alma que sao levados para longe por bolsas, e filmes, e gravacoes de cds, mas estão sempre perto de maneira profunda me faz de fato crer que o eterno esta no efemero.

De Cama

Continuo em Londres. E confesso que adiar minha viagem me deu uma alegria tremenda. Eu já não estava me sentindo muito bem na terça, mas quarta depois de finalmente terminar a minha prova, de trazer meus amigos para casa para celebrar e me despedir, de sentir aquele mistura de alivio de ter terminado a prova e tristeza de saber que muitas dessas pessoas eu não verei mais, eu meio que tive um breakdown. Quarta foi um dia e tanto, greve no metro de londres, a prova para qual eu não me sentia preparada, a tensão de ter que viajar no dia seguinte me sentindo assim: letárgica.

A festa aqui em casa foi boa. E ainda sim eu escapei no meio e fui tomar um banho esperando que o banho fosse fazer milagre. A Kica, minha amiga, me perguntou umas 3 vezes se eu estava feliz de estar indo viajar. Eu respondi que estava exausta todas as vezes que ela perguntou. E ela, eu sabia, estava percebendo que não eu NÃO estava feliz de ter que viajar no dia seguinte. E como sempre eu não queria confessar isso nem para ela, nem para mim mesma, nem para os meus amigos, nem para a minha família.

E eis que eu acordo no dia seguinte e decido que nao tem jeito, eu tenho que ir ao medico. É assim, deixei para o ultimo dia, o ultimo momento para ir ao medico e explicar que eu tava com provavelmente uma cistite, e que eu tava com dor no corpo e sei la mais o que. Fui atendida por um senhor de uns 80 anos.

Ele estava vestido todo arrumado, num blazer xadrez, um verdadeiro “gentleman”. Ele me perguntou o que eu sentia. eu expliquei e contei a ele que ia viajar naquela noite para a Sudeste Asiatico.

– Asia? O que voce vai fazer la?
– Vou voluntariar, e viajar.

Eu não sei como foi, eu só sei que ele foi tão doce e tão atencioso que eu acabei contando que tinha feito uma prova no dia anterior, que eu ia voluntariar num vilarejo rural e tudo mais que estava me acontecendo.

– My dear, that all sounds lovely, but I think you should postpone your trip!
– Why? Do you think I have something serious?

E ele me olhou com aquele jeito que só um senhor que já viu de tudo, que já viveu e viu a impaciência dos jovens, a futilidade da pressa e disse:

” No. You have nothing serious. But you should not put yourself in corners like that. So many things happening at the same time! Travelling is already a challenge when one is completely healthy, but feeling unwell is just going to be dreadful!”

E eu comecei a chorar. Nao sei direito porque. Talvez porque estar num hospital me lembre ter estado no hospital. Talvez de total alivio de alguém sensato me dizer “Nao viaje agora”, de nao ter que viajar, e chegar num outro continente e ter que ser simpática com pessoas com quem mal consigo me comunicar quando tudo que eu queria era ficar na cama.

Então ficou decidido ali: eu adiaria a viagem. Ele sugeriu um mês, mas eu ainda sou jovem e ainda não primo por tanta paciência. Adiei por duas semanas. Então agora embarco no 24 (Insh’alla como diria o Abdul).

O Brasil na Tailandia

Ontem fui visitar meu amigo Maciek, meu amigo Polones, que de fato vive como um yogi. Ele é uma dessas pessoas de bondade inacreditável. Uma dessas pessoas que exalam compaixão, paz, calma. Quando eu passei um mês na Romênia ele me alimentou praticamente todos os dias. Vendo como eu me alimentava pouco e mal, me convidou para ir como ele a pequena feira da cidade. Assisti-lo olhar as frutas, vegetais e legumes me marcou muita. Praticamente um ritual. Eu nunca tinha visto alguem ficar tao feliz diante de comida. Parecia uma criança numa loja de brinquedos.

E o Maciek escolhia cuidadosamente o que ia levar, conversava com os vendedores no quase nada que sabia de romeno, e sempre saia sorrindo. Ai voltávamos para a pousada onde ele estava ficando, subiamos para o ultimo andar, onde ficava a cozinha, para cozihar. Ou melhor, eu cantava, cortava legumes desastrosamente, e o Maciek e o Carlo cozinhavam. Eles sempre faziam comida a mais. “Caso alguem mais apareça” explicava o Maciek. E sempre, sempre aparecia.

Ontem fui jantar com ele e a Aneta ( sua namorada e minha amiga) no quarto onde eles vivem em Ealing Common. Ealing Common fica bem longe de onde eu moro, e toda vez que eu vou para la e ando pela rua arborizada onde eles vivem eu me sinto transportada para outro mundo. Parece que tudo para, é tao silencioso por la. Como sempre a comida estava deliciosa, e depois de muitas horas passsadas la, me preparei para ir embora. Assim que me levanto o Maciek me diz:

“Tenho uma coisa para voce.”

Ele me entrega uma sacolinha e dentro vejo dois livros pequenos com fotos do Brasil. Eu olho para ele meio surpresa e ele continua:

” É para quando voce estiver na Asia. Assim voce pode mostrar de onde veio. As pessoas sempre se interessam. Quando voce nao pode falar muito as imagens sao otimas. As criancas vao adorar.”

Eu fiquei ali, boquiaberta…

“Depois voce pode deixar na escola onde voce vai voluntariar.”

Eu me senti tao tocada..eu fiquei tão grata.

“Maciek, quando eu mostrar essas fotos eu vou contar de voce.”

E eu não sei se vou ser capaz de contar em ingles no meu pequeno vilarejo, mas sei que com certeza nao vou conseguir contar em Thai.. Entao eu conto aqui: que meu amigo Maciek, meu amigo Polones vai ser o responsavel por eu poder mostrar um pouco do Brasil na Tailandia

Os Irmaos Karamazov

Estou lendo “Os Irmaos Karamazov” (IK daqui para frente) e apesar de esse nao ser o momento ideal ( tenho prova semana que vem) desde que comecei nao consigo parar. Nao que seja um desses livros que de para ler rapido, e sem parar. Nao. Os IK eh para ler devagar, para pensar. Deixar de lado, ir aos poucos, lembrar dele durante o dia, conversar a respeito. E desde que eu comecei eu nao paro de pensar no livro.

O ano passado, eu fiquei amiga de um filosofo alemao muito intenso ( eu sei redundancia) e num certo dia que eu ia encontrar o James e o filosofo estava comigo, resolvi apresenta-los. O James eh uma das minhas pessoas preferidas em Londres. Esta terminando seu doutorado em matematica, adora filosofia, e me disse uma vez categoricamente que eu precisava ler o IK. E o James nao eh uma pessoa que diga coisas categoricamente, ele vive de mansinho!

Assim que eu levei o meu amigo filosofo para o bar onde eu iria encontrar o James, e em poucos minutos eles comecaram a falar do Hubert Dreyfus. Os dois tinham baixado as aulas do tal Dreyfus, e as tinham no celular/Ipod. Eu fiquei perlexa. Como assim? Existem pessoas que tem aulas de filosofia no Ipod/cel ? Existem, e eu tinha tido a proeza de conhecer duas delas, e que ainda por cima carregavam o mesmo professor de filosofia!

Nesse mesmo dia, meu amigo filosofo tambem me recomendou ler os IK. E entao adicionaram ” Mas faca isso seguindo o curso do Dreyfus”. Confesso que no dia achei meio loucura, e passaram se meses ate eu me deparar com o IK e comecar a ler. Em poucas paginas eu ja estava fascinada. Eu me lembrava vagamente de ler lido Crime e Castigo ha muito tempo, mas acho que era muito nova para entender. De repente eu descobri o Dostoyevski, e eh claro me encantei.

Procurei o velho e-mail onde o James me mandara as aulas do Dreyfus e resolvi descobrir quem ele era. O Dreyfus eh professor de filosofia na Berkeley. Ele eh considerado um dos maiores especialistas em Heidegger, e tambem existencialismo. A Berkeley coloca muitas das suas aulas online. No e-mail do James encontrei o link. O link era de um curso do Dreyfus sobre literatura e existencialismo. Baixei as tais aulas e comecei a ler o livro.

E eventualmente comecei a ouvir as tais aulas tambem. E eh simplestmente fascinante! Quem ja leu o livro eu recomendo ouvir as aulas! Quem nao leu eu recomendo ler com o Dreyfus porque de fato o livro ganha um outro significado. Quem quiser acessar o site dessa aula na Berkeley clique aqui. E assim que agora nos somos varios os que tem o Dreyfus no Ipod. E eu aproveitei e baixei o audiobook do IK. Mais facil do que levar um livro de 1000 paginas para Asia. E nao ha a menor chance de eu ir sem eles!

Blame it On Fidel

Esse final de semana eu assisti pela segunda e terceira vez o filme “ La faute a fidel ( A culpa é do Fidel). Esse ultimo mes eu tambem assisti Black Cat, White Cat do Kusturica umas 4 ou cinco vezes. Oque me fez lembrar da minha prima Lucia que quando era criança alugava sempre o mesmo filme. Todas as vezes que íamos a locadora ela olhava, olhava, olhava e ao final de um longo tempo pegava 101 Dalmatas. Segundo ela “esse pelo menos eu tenho certeza que é bom.”. O que me deixava mais fascinada era ver como ela ficava nervosa nas mesmas partes todas as vezes que ela assistia aquele filme. Todas as vezes ela brigava com a Cruela, ela avisava os cachorrinhos, ela torcia, ela se angustiava, e todas as vezes que o filme terminava ela estava feliz. Quem ja assistiu filme com criança sabe que é assim, cinema então é a maior gritaria. Quem ja contou estoria sabe que a estoria nao pode variar nenhum pouco da versao que voce contou antes.

E de fato, sempre me parece que prazer vem do “reconhecimento”. Tenho a impressao que nossa paciencia para sentir o “reconhecimento” vem diminuindo. Eu sempre penso nisso quando vejo a evolucao da musica. A musica classica ela é dificil para muita gente porque o momento do “reconhecimento” demora tempo a aparecer. Quem gosta de musica classica sabe que os temas reaparecem, em outros tons, meio mudados mas eles retornam, e aquela nossa ansia de d re-escutalos, ou de resolver uma nota que se estende por um longo tempo ate se resolver é eventualmente saciada. No Jazz, eu sinto a mesma coisa, especialmente em solos de bateria, onde o ritmo se quebra, e voce sente aquele desconfortável tensão de se sentir meio perdida. De repente tudo se resolve e voce se sente de novo no ritmo. Hoje em dia os momentos entre tensao e resolucao sao geralmente menores. Na musica isso me parece bem claro. Nos filmes tambem. É como se fosse tudo meio que uma maquina de criar reacoes quimicas rapidas no corpo. Como um enorme circo de soleil onde tudo acontece ao mesmo tempo, e tudo esta tao a beira de “colapsar” que nós os ouvintes, expectadores ficamos ali desesperados por uma resolução. Ficamos viciados nessas gratificações quimicas.

Assim, que assitindo varias vezes os mesmos filmes esses dias, eu me lembrei de como é bom as vezes prestar atencao nos pequenos detalhes. Aqueles que sem duvida nenhuma passam despercebidos na primeira vez. Na segunda voce compreende mais o sentido. E na terceira fica evidente o trabalho de quem esteve ali por tras. Os sentimentos, as mensagens que foram provavelmente intencionalmente comunicadas, as que foram acidentais, etc. E “A Culpa é do Fidel” é um desses filmes. Um filme assim doce. Conta a estoria de uma menina de classe media alta francesa que ve seus pais virarem comunistas durante os anos 70. A estoria, para mim é muito mais do que isso. É a estoria da enorme capacidade das crianças de se apropriarem do mundo, de buscarem sentido, de tentarem encontrar seu lugar. São elas que fazem as perguntas pertinentes, as que não tem respostas fáceis, as que os adultos tao perdidos num mundo de ideologia não conseguem nem captar. Para mim, o filme mostra também como nossas escolhas são tao moldadas pelas nossas vidas pessoais. Como nossas culpas e nossa lutas são tao intimamente conectadas. Como as lutas internas não resolvidas alimentam a irritação como o mundo exterior, como fomentam as revoltas, batalhas muitas vezes em lugares distantes.

A menina assim como minha prima busca a segurança da repetição. Com a mudança radical de estilo de vida ela fica perdida. Jogada para cima e para baixo de casa em casa, de babá para babá, de pergunta para pergunta. E através do filme ela vai tentando organizar, ela cria o seu cantinho, ela vai trabalhando os seus sentimentos, suas duvidas, suas idéias, sua relação com seu irmão, com sua família. E para mim, ela parece se encontrar na estorias do começo do mundo. Ela tenta fazer sentido do mundo com as estorias que ela ouve das suas babas. Ainda que as estorias mudem, ainda que as babás desapareçam sem muito aviso. Anna, vai empiricamente encontrando o seu lugar.

Na Asia de La

Dia 10 de Junho eh minha ultima prova na LSE, dia 11 eu embarco para Tailandia.” You couldn’t go any earlier, could you Jules?” Disse um amigo meu. Errado ele, a prova eh durante o dia e eu quase comprei a passagem da noite do dia 10. No fim, achei que era melhor nao ter que me estressar duas vezes no mesmo dia 🙂

Vou passar 3 meses no Sudeste Asiatico e ainda nao tenho muitos planos. Sempre quis ir viajar sozinha pela Asia meio sem destino. Mas esse sem destino eh quase que impossivel, porque assim que eu compro o tal do guia eu ja vou vendo um monte de destinos. A ideia mesmo do sem destino, eh saber que o destino pode ser mudado la, de acordo com as informacoes de outros viajantes. Assim como eu fui parar no Peru quando cheguei em La Paz. Entao, o meu plano eh inicialmente Tailandia, Laos, e Cambodia, mas pode virar um unico lugar na Tailandia, ou de repente ir ate Malasia, ou quem sabe ate o Vietna.

O que eu sei eh que chego em Bangkok dia 11 de Junho, e parto de la no dia 11 de Setembro. A outra coisa que ficou decidida com a compra do meu LP eh que eu vou voluntariar. Eu ja estava com vontade de voluntariar e quando li sobre projeto Volunthai no LP me inscrevi.

Eh um projeto de um casal Thai/Americano onde voluntarios ensinam ingles a criancas do nordeste da Tailandia ( a area mais pobre e menos visitada). A ideia eh morar com uma familia local, e dar aula 4 horas por dia. Os finais de semana sao livres para viajar, aprender sobre Budismo, e outras atividades. Na minha aplicacao eu tive que escolher entre vila, e vilarejo rural, e no momento de curiosidade antropologica, e coragem eu optei pelo vilarejo rural. “hopefully there will be someone who speaks english there” estava escrito em algum lugar.

Como tenho estado bem ocupada estudando e trabalhando nao tenho tido tempo de estudar mais a fundo a cultura tailandesa e nem tao pouco um pouco de tai. Estou eh claro ansiosa, curiosa, e confessi com um pouquinho de medo, pois eu nem sequer imagino como deve ser morar num vilarejo rural onde eu nao vou entender nada.

O meu segundo plano fixo eh ainda mais complexo. Eu prentendo fazer um retiro de meditacao Vipassana em Chiang Mai ( norte da Tailandia). O retiro inteiro dura 26 dias, e o minimo que se pode ficar sao 10 dias. Eu na verdade estou torcendo para conseguir ficar depois do segundo dia 🙂 10 eh meu objetivo, mas apesar da minha enorme vontade de fazer esse retiro, eu reconheco que deve ser dificilimo. Sao dias de apenas meditacao e silencio. Dias que comecam cedo e terminam tarde.

Por definicao qualquer pratica contemplativa ( como a meditacao), eh uma pratica de suspensao das atividades analiticas, e discursivas do cerebro. Por isso num retiro de Vipassana ( que eh tambem conhecida como mindfulness)alem de nao falar, as pessoas devem evitar pensar analiticamente, ou imaginar, ou ler, ou qualquer coisa que tire voce do seu objetivo de contemplar a mente. E eh claro que isso eh dificilimo para nos ocidentais! Por isso queridos amigos aceito todo o pensamento positivo para eu aguentar passar os primeiros dias que sao eh claro os mais duros!

Eu andei lendo muito a respeito de meditacao, e particularmente de Vipassana. Muitos laboratorios neuro-cientificos tem estudado meditacao e praticas contemplativas. Eh impressionante os efeitos para o cerebro e corpo. Ha estudos que mostram desde controle de depressao sem remedio, melhora de sistema imunologico, ate o nao afinamento do cortex com a idade. Para quem tiver interesse nesses estudos assistir esse video.

Bom. Por enquanto eh isso. Eu eh claro pretendo manter o blog ativo la da Asia de la. Durante o meu voluntariado deve ser mais facil. Ja no meu retiro impossivel. Se alguem tiver sugestoes de lugares imperdiveis, ou furadas evitaveis nao hesitar em me contatar 🙂 E agora de volta aos estudos!

Das Viagens

Este é o terceiro ano que trabalho part time de vigia de prova na Birkbeck College. O trabalho consiste em dar uns 5 minutos de informacao, e depois, bom oficialmente acho que era para vigiarmos, mas o que acontece mesmo eh que como a maioria dos vigias sao doutorandos e mestrandos, portanto passamos o tempo todo a ler e estudar. Nada mais conveniente.

Na minha primeira sessao de de trabalho ha tres anos atras, eu trouxe para ler o guia Lonely Planet do Marrocos. Quem trabalhou comigo foi um rapaz silencioso que nao disse nada nesse primeiro dia. Depois conversamos mais ele me contou que era da Argelia, e que fazia doutorado em economia, falou da tese essas coisas.

O ano passado quando encontrei com o Karim numa prova eu estava lendo o Lonely Planet da India. Ja me conhecendo melhor dessa vez ele nao hesitou.

– Jules, eu nao me conformo o que eh que voce quer fazer nesse lugares caoticos?

Eu fiquei meio surpresa. Ele entao continouou:

– No ano passado voce foi para o Marrocos, agora voce quer ir para a India???

– Karim, voce é Argelino como pode dizer isso?

– Ueh posso dizer com toda propriedade, de zona ja basta o meu pais. Quando eu vou
viajar eu gosto de sossego! Lugares organizados!

Eu achei aquilo muito engracado. Trabalhamos mais algumas vezes juntos. E depois disso mais um ano se passou sem eu encontrar o Karim. Ja no meu terceiro ano de trabalho de vigia na epoca de provas, eu posso dizer que conheco mais ou menos todo mundo. E os vigias que nao estao sei que terminaram suas teses, e os novos sei que estao comecando. Faz ja algumas semanas que eu comecei a trabalhar e ate ontem eu nao tinha encontrado o Karim. Na verdade eu nem tinha pensado nisso ate encontra-lo no corredor.

– Karim, voce nao esta trabalhando?
– Nao,esse ano eu to muito atarefado.

Nos despedimos e assim que eu sai andando ele me chamou:

– Jules, I am very curious, which Lonely Planet are you carrying around this time?

Eu sorri, e expliquei que nao tinha nenhum Lonely Planet comigo. Eu estava estudando durante todo o meu tempo de vigia.

– Are you serious? Voce nao esta planejando ir a nenhum lugar caotico nesse verao?
Nenhum Lonely Planet do Iraque ou do Afeganistao na sua bolsa?
– “Nao. Da uma olhada.” eu disse brincando.

Ele sorriu meio espantado, e eu nao resisit e tive que confessar.

– Karim, eles estao em casa.
– Pakistan? Mongolia?
– Eu adoraria ir a esses lugares. Mas nao dessa vez. Dessa vez eu to indo passar
tres meses no sudeste Asiatico:) Voce?
– You know me, I ll stick to Europe! So which guides did you get?
– Thailand, Laos and Cambodia 🙂

Eternamente

“E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.”

Miguel Sousa Tavares