De Cama

Continuo em Londres. E confesso que adiar minha viagem me deu uma alegria tremenda. Eu já não estava me sentindo muito bem na terça, mas quarta depois de finalmente terminar a minha prova, de trazer meus amigos para casa para celebrar e me despedir, de sentir aquele mistura de alivio de ter terminado a prova e tristeza de saber que muitas dessas pessoas eu não verei mais, eu meio que tive um breakdown. Quarta foi um dia e tanto, greve no metro de londres, a prova para qual eu não me sentia preparada, a tensão de ter que viajar no dia seguinte me sentindo assim: letárgica.

A festa aqui em casa foi boa. E ainda sim eu escapei no meio e fui tomar um banho esperando que o banho fosse fazer milagre. A Kica, minha amiga, me perguntou umas 3 vezes se eu estava feliz de estar indo viajar. Eu respondi que estava exausta todas as vezes que ela perguntou. E ela, eu sabia, estava percebendo que não eu NÃO estava feliz de ter que viajar no dia seguinte. E como sempre eu não queria confessar isso nem para ela, nem para mim mesma, nem para os meus amigos, nem para a minha família.

E eis que eu acordo no dia seguinte e decido que nao tem jeito, eu tenho que ir ao medico. É assim, deixei para o ultimo dia, o ultimo momento para ir ao medico e explicar que eu tava com provavelmente uma cistite, e que eu tava com dor no corpo e sei la mais o que. Fui atendida por um senhor de uns 80 anos.

Ele estava vestido todo arrumado, num blazer xadrez, um verdadeiro “gentleman”. Ele me perguntou o que eu sentia. eu expliquei e contei a ele que ia viajar naquela noite para a Sudeste Asiatico.

– Asia? O que voce vai fazer la?
– Vou voluntariar, e viajar.

Eu não sei como foi, eu só sei que ele foi tão doce e tão atencioso que eu acabei contando que tinha feito uma prova no dia anterior, que eu ia voluntariar num vilarejo rural e tudo mais que estava me acontecendo.

– My dear, that all sounds lovely, but I think you should postpone your trip!
– Why? Do you think I have something serious?

E ele me olhou com aquele jeito que só um senhor que já viu de tudo, que já viveu e viu a impaciência dos jovens, a futilidade da pressa e disse:

” No. You have nothing serious. But you should not put yourself in corners like that. So many things happening at the same time! Travelling is already a challenge when one is completely healthy, but feeling unwell is just going to be dreadful!”

E eu comecei a chorar. Nao sei direito porque. Talvez porque estar num hospital me lembre ter estado no hospital. Talvez de total alivio de alguém sensato me dizer “Nao viaje agora”, de nao ter que viajar, e chegar num outro continente e ter que ser simpática com pessoas com quem mal consigo me comunicar quando tudo que eu queria era ficar na cama.

Então ficou decidido ali: eu adiaria a viagem. Ele sugeriu um mês, mas eu ainda sou jovem e ainda não primo por tanta paciência. Adiei por duas semanas. Então agora embarco no 24 (Insh’alla como diria o Abdul).

4 thoughts on “De Cama

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