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Sobre julietafalavina

Eu escrevo da minha vida, e agora sobre a minha recuperação da saúde .

Dos Viajantes do Mundo

Hoje eu quero falar da Natalie, Australiana que eu conheci em Rishikesh. Logo na primeira noite em que chegamos fomos jantar num pequeno restaurante Nepales a beira do Ganjes. O restaurante era todo feito de Bambu e havia uma mesa que contornava todas as paredes ( eu sei que nao ta muito bem explicado :). A volta dessa tabua havia almofadas. Chegamos cedo, o restaurante ainda estava vazio e pudemos escolher portanto, o lugar que se tornaria o nosso preferido: perto de uma arvore ( dentro do restaurante) e de frente ao Ganjes. Sentamo-nos e logo depois apareceu um casal de dread locks, roupas etnicas, bonitos, que nos cumprimentaram enquanto sentavam nao muito longes de nos. Nem sei como foi, mas de repente estavamos conversando, e logo em seguida mudamos-nos para bem perto deles. Natalie e Andras ( pronunciado Andrash). Ela Australiana e ele Hungaro.

Logo de cara eu fiquei fascinada por ela. Seu estilo, sua calma, seu jeito de falar. E eu de cara percebi que ela era uma pessoa com muitas estorias para contar… mas dessas pessoas que vive uma vida tão espetacular o tempo todo que já nem percebe mais o espetáculo da vida, afinal esses momentos que para nos parecem absolutamente fantasticos, sao para elas o dia-a-dia. Natalie era assim, tinha viajado o mundo por anos, e nem sabia muito bem há quantos anos viajava ou em quantos lugares tinha estado. Não é nem que ela achasse essas perguntas tolas, ela simplesmente não tinha parado para pensar. Ficamos amigas imediatamente. E eu perguntei tudo e mais um pouco nos dias que se seguiram.

Natalie viaja há uns 14 anos. Quando tinha 18 teve um namorado que tinha viajado o mundo afora, e ela adorava ouvi-lo falar dos lugares onde tinha estado. Num certo dia depois de muito ouvir, decidiu que ela ia ve-los tambem. Ia passar 3 meses viajando. E assim, nao mais que de repente os 3 meses viraram 3 anos. Como? “Eu ia indo, fazendo arte, crafts, ficando na casa das pessoas que eu conhecia pelo caminho, pegando carona….” E de fato, ela chegou a America do Sul de carona num yacht. Foi parar na Colombia, onde passou 8 meses. Arrumou um namorado, e saiu de la deportada por ter ficado alem do que era permitido no seu visto. Viajou grande parte da America do Sul. A Colombia continua sendo para ela, um dos seus lugares favoritos. E pelos colombianos ela tem um grande amor.

Depois desses 3 anos, ela voltou a Australia, e nunca mais ficou um ano inteiro em casa. Passava 6 meses em casa, 6 meses na Asia. Ja tinha estado na India dezenas de vezes, mas ela gostava mesmo era do Paquistão, onde tinha estado 6 vezes sozinha. “Como sozinha Nat? ” As pessoas são maravilhosas no Paquistao, eu sempre sou acolhida nas suas casas!” “Voce nunca teve problemas ??? ” Nao, eu adoro os paquistaneses”.

A essa altura, eu ja meio brincando, pergunto a ela “e o Afeganistão? ” Eu fui ao Afeganistão num visto do Taliban, um pouquinho antes do Afeganistao ser atacado.” Ela nao podia entrar sozinha como mulher entao, ficou na fronteira esperando alguem que fosse entrar para entrar junto. E assim, ela entrou com um total desconhecido, num país onde mulher não tem la muitos direitos. ” Nat, o que voce foi fazer la????” ” Fui ver. Todo mundo dizia que as mulheres eram apedrejadas na rua, que isso e que aquilo e eu quis ir la ver se aquilo que aparecia na televisao era mesmo verdade”. E oque ela viu? Bom isso fica para o proximo post, por que a visita dela ao Afeganistao é digna de um filme.

No entanto, sobre o que eu queria escrever nesse post, é sobre o sentimento que desperta em mim encontrar pessoas como a Natalie. Encontrar pessoas como ela me faz questionar a realidade do mundo que acreditamos existir, e do mundo que de fato existe. O perigo real, e esse que nos é imbutido. Eu mesma viajei a Bolivia, o Peru, o Marrocos sozinha contra todo tipo de conselho. Em todos os lugares eu me senti perfeitamente segura. Podemos debater é claro que o sentimento de segurança é abstrato. Mas será que estes reports também nao o são? É claro, que ela é meio maluca de se meter nesses lugares sozinha e sem muito preparo. Mas seria a vida dela de pura sorte? 14 anos de pura sorte? Ou será que no que muitos chamam de ingenuidade está a capacidade dela de realmente conhecer o outro? Não o outro que trabalha no hotel, mas o outro na sua casa, comer da sua comida, beber da sua agua. São perguntas. Eu nao tenho as respostas. O que eu sei, é que esses encontros, assim como as minhas viagens sempre me fazem perceber como o mundo que nos é pintado é muito distante do que deve ser o real.

Das Coisas Estranhas na Índia

Passamos uma semana em McLeod Ganj, vilarejo ao norte da Índia onde reside Sua Santidade Dalai Lama. Por total acaso, tivemos a sorte de chegar la para 5 dias de ensinamentos dele. Neste post no entanto, não vou escrever sobre isso, pois esse é uma tema que exige mais tempo. Quero escrever de um evento banal, e engraçado que aconteceu enquanto passeava pelos arredores de Dharamsala.

Enquanto viajei a Índia conheci muitas pessoas interessantes. Ainda quero muito falar delas. Em particular da Natalie, australiana que ha 14 anos viaja a Asia. Isso no entanto, também não e importante para esse post. O importante e que eu conheci em McLeod duas brasileiras logo no primeiro dia em que cheguei, Natasha e Julia, e que acabamos ficando amigas.

Numa certa noite, fui com Julia, ouvir uns dinamarqueses tocar violão. Fomos a um bar, e todos nos pegamos um instrumento de percussão para tocar ( alias esse é o problema dos instrumentos de percussão, qualquer pessoa acha que pode toca-los :). Quando o bar fechou, decidiu-se que iriamos a Bagshu, vilarejo vizinho, pois la os bares ficavam abertos até tarde( entenda-se alem das 10 da noite). Como Julia me garantiu que encontraríamos um Rikshaw mais tarde para voltar seguimos os músicos e fomos para o tal vilarejo vizinho. Chegamos em um bar repleto de Israelenses, alias a India é cheia deles, até fiquei na dúvida se haveria algum sobrando em Israel 🙂 Tocavam, dançavam, cantavam, oque alias impediu os Dinamarqueses de tocarem. Sentamos-nos portanto, numa mesa e ficamos um tempo la ouvindo aquela barulheira. Imaginem : tudo que eh tipo de tambor, misturado com didjeredoo, violoes e instrumento de toda a sorte tocando juntos sem nenhum critério ou regente. Como eu tinha que acordar cedo para ir a Siribadhi, e a música era um terror, quando era mais ou menos 1 da manha resolvemos partir.

Naturalmente a essa hora não havia nenhum rikshaw, como eu já deveria ter desconfiado! Nos tão-pouco tínhamos lanterna, e o breu era total! Por sorte encontramos um grupo de australianos e resolvemos andar com eles de volta a McLeod Ganj. Eles também não tinham lanterna, mas em 7 ficamos mais tranqüilos. Começamos a andar, e de repente começamos a ouvir latidos que vinham de todos os lados. Eu que não me vacinei contra raiva comecei a ficar tensa. E de repente vários cachorros ( uns 30) começaram a aparecer de tudo que era lado, e a vir em nossa direção. Eu meio com medo que nos atacassem, não sabia nem o que fazer, nem o que pensar. Fiquei parada. Para minha surpresa, no entanto, eles não fizeram nada, ou melhor, eles nos rodearam, e começaram as nos acompanhar. No começo nos não entendemos nada. O que aqueles cachorros estavam fazendo ali? Mas eles foram andando conosco o tempo todo. Uns iam para frente, olhavam, latiam, voltavam, sem nunca nos deixar sem um circulo completo a nossa volta. Andaram conosco por uns 20 minutos. Quando estávamos finalmente chegando a McLeod pararam. Então, um único cachorro seguiu conosco mais um pouco, mas assim que os cachorros de McLeod começaram a latir, ele parou. Pronto, já tinham nos escoltado de volta. É acho que os cachorros na India também reconhecem os gringos 🙂

Macaco- parte 1

Eu sempre gostei de macaco. Mais precisamente dos ” Great Apes” Os gorilas, chimpanzes, os bonobos, orangutangos e ate dos gibons. Tive que ler muitos livros na minhas aulas de evolução sobre primatas, e é claro inevitåvelmente sobre a Jane Goodall, Diane Fossey, Franz de Wall, dentre outros que estudam e viveram entre os macacos. Ja assisti varios filmes, sobre os apes, sobre macacos, mandris ( sera que e esse o plural de mandril?), e quase sempre se aprende que nao se deve mostrar os dentes, ou olhar muito nos olhos deles. Eu sabia tudo, mas quando estive cara a cara com um, esqueci de tudo isso.

Pegamos um onibus, de New Delhi para Haridwar. Bom, pegar um onibus ja é em si uma grande saga, pois os motoristas de rikshaw sempre te enrolam. Convencem voce a ir num escritorio para turistas do governo, que obviamente nao é governamental, mudam o preço no caminho, não te levam onde voce quer ir, e ainda inventam um milhão de estórias. Depois de pegarmos 2 Rikshaws para chegar a um lugar do lado de onde estavamos, depois de visitarmos umas agencias, explicar que nao queriamos taxi, que queriamos a rodoviaria, conseguimos depois de horas chegar finalmente a ISBT (rodoviaria) . De fato, os onibus locais eram um lixo . E por isso todos os indianos que passavam por nos queriam nos levar a uma agencia “governamental”. Nao precisa mais de uma visita a uma delas, para resolver nao seguir mais ninguem.

Eventualmente achamos uma pequena agencia, e entramos. O homem nos vendeu passagem para um onibus “deluxe” para ir a Haridwar, nos garantiu que seria facilimo chegar de la a noite a rishikesh, e nos disse que o onibus partia em meia hora. Compramos a passagem, e sentamos para esperar. A tal meia hora virou uma, e depois de sermos levados ao tal onibus ( que nao tinha nada de luxuoso), tivemos que esperar mais uma hora ate o onibus lotar.

Eu era a unica mulher no onibus e eu e o haiko os unicos nao-indianos. O onibus era imundo, o banco ou nao abaixava, ou nao subia 🙂 O motor fazia um barulho ensurdecedor, e eu mesmo de tampao de ouvido nao conseguia acreditar na barulheira. Nas estradas como eu ja disse, todos buzinam o tempo todo, se ultrapassam, vao na contramao, aparece vaca, touro, cachorro e o que mais se puder imaginar. umas 8 horas de viagem para percorer uns 300 km. Eh tudo meio assim. Dentro do onibus cada um com seu celular tocando uma musica indiana diferente, e sem fones de ouvido. Eu morrendo de vontade de fazer xixi, e naturalmente o onibus nao parando.

Parou eventualmente, depois de umas 6 horas no Cheetal Deer Park, e fomos finalmente ao banheiro e comer. Pedi uns chapatis com manteiga, e haiko pediu nan. Nada de muito elaborado para nao passar mal ja no primeiro dia 🙂 Sentamos-nos e enquanto comiamos, um macaco enorme apareceu. Eu vi ele chegando, andando devagar, e de repente subiu na minha mesa. Olhou bem no meu olho e bem devagar puxou o meu prato. EU fiquei enfeiticada, esqueci tudo que eu devia fazer e fiquei so olhando. Ele me olhou, acho que medindo a minha reacao, minha respiracao e coracao pareciam ter parado, ai ele pegou um chapati por vez, com sua maozinha pequena, e eu so olhei. Nunca tinha estado tao perto de um macaco. Ele estava quase me tocando. Depois que ele pegou todos, e me deixou com oque estava na minha mao, partiu. Ficamos ali, os dois perplexos, totalmente sem palavras. Tive um acesso de riso. E percebi que eles nao foram na mesa de nenhum indiano so na nossa. Na India ate os macacos reconhecem os gringos!

A India

Cheguei da Índia ontem. E nem sei por onde começar. A Índia é intensa. Ela desperta todas as suas emoções, da loucura a completa paz. Seus sentidos são estimulados o tempo todo, e quase tudo é diferente. Os cheiros, os costumes, as pessoas, a sujeira, a beleza, as cores, os bichos, e o incrível barulho. Tudo na Índia eh intenso. E os encontros, ah os encontros… eles são profundos.

Ha momentos de completo desespero, com um milhão de carros, bicicletas, ônibus, rikshaws?, caminhões todos buzinando ao mesmo tempo. Buzinas de todos os tipos, todos os tons, todas as melodias… e elas tocam, gritam, esperneiam o tempo todo… e ao poucos , com os dias passando você vai se esquecendo delas, nem se quer presta mais atenção, e elas parecem perder sua função.

Na verdade, eu não posso dizer A Índia, eh quase tao vago como dizer o Brasil. Afinal, existe mil Índias dentro da Índia. E eu só visitei duas delas. Rishikesh e Dharamsala ( Mc Leod Ganj). As duas ao norte perto do país. Rishikesh é considerada a capital da Yoga no mundo, e Dharamsala, mais precisamente McLeod Ganj, é a cidade onde o governo no exílio do Tibete está. A primeira uma cidade Hindu, enquanto a segunta é mais Budista ( graças ao tibetanso que lá estão).

Eu pretendo escrever em detalhes, contar das mil estorias que vivi na Índia. Vou escrever dos macacos, dos cachorros, do astrólogo/médium que eu conheci, da cerimonia Hindu elaboradissima feita para mim num templo a beira do Ganges, da Australiana que viaja ha 14 anos a Asia vivendo 6 meses na Austrália 6 meses fora, da emoção que foi ver SS Dalai Lama de pertinho varias vezes, de ter escutado seus ensinamentos, penado para entender de fato o budismo, das conversas com os lamas, ao encontro privado com SS Karmapa.

Enfim, a viagem foi intensa, foi cansativa, e foi maravilhosa. Conheci pessoas incríveis de quem ainda quero escrever. Se antes eu estava me sentindo meio sem assunto, agora os assuntos sao demais. Pois na India é tudo assim: tudo em abundancia.

O Bolo

Eu sei que faz um tempão que eu não escrevo, e de fato eu tenho um milhão de coisas para contar. No entanto, é facílimo de um milhão de coisas virar nada 🙂 Estive um mês na Romênia, e contrariando o meu ultimo post viajo sim amanha para a India.

Neste post no entanto, quero falar de um momento bonito e singelo, que eu tive estes dias enquanto voluntariava na Amrita, loja que pertence a escola de Yoga. Estava eu la tentando aprender a tocar o tibetano “singing bowl” quando uma senhora muito velha entra na loja. Fui ajudá-la a se acomodar e depois deixei que ela ficasse olhando os livros a vontade.

Depois de quase uma hora ela fez sua escolha e me entregou os 3 livros que queria ler. Livros sobre budismo, e mestres nos Himalaias. Contou -me num sotaque fortíssimo que os livros pareciam ser interessantíssimos. Expliquei que eu ainda não os tinha lido, e curiosa como sempre perguntei de onde ela era.

Ela respirou fundo, me olhou bem dentro dos olhos, e disse “eu me sinto uma cidadã do mundo. Eu nasci na polônia, mas na época da guerra viramos refugiados “. Perguntei se ela era Judia, mas ela me explicou que nao ( oque me fez relembrar que muito mais gente sofreu), que seu pai era médico e como se opunha ao que estava acontecendo tiveram que se exilar. A Senhora era velha, falava com dificuldade e doçura e eu comecei imediatamente, mais uma vez, a me sentir entrando na memoria de alguém, num outro tempo, numa outra possibilidade.

Foram para Rússia, não tinham dinheiro, tudo difícil, guerra para tudo que é lado. Depois para a Palestina, depois para o Ira. E eu que tenho tanto fascínio pelo Irã aproveitei para perguntar a senhora o que ela tinha achado de la.

Os olhos dela respiraram fundo, se distanciaram, olharam para dentro, como se ela resolvesse voltar até lá, naquele tempo, visitar um lugar deixado há muito, muito tempo. E aos poucos ela devagar começou a me contar.

” Eu gosto muito dos Iranianos. Eu me lembro, eu pequena, nos não tínhamos dinheiro e minha mãe resolveu me levar a Tehran para tomar um copo de leite num café. Havia uma variedade de bolos na vitrine, mas nos não tínhamos dinheiro para compra-los. Sentamos numa mesa para tomar o leite, e havia um senhor numa outra mesa. De repente ele desapareceu. E ao mesmo tempo que ele desapareceu, o garçom apareceu com um pedaço de bolo numa bandeja. O Senhor tinha me visto, uma menininha querendo o bolo em segredo, e adivinhando o meu desejo, ele o comprou para mim. Para não nos deixar envergonhadas partiu antes mesmo que o bolo chegasse a nossa mesa.”

Ela sorriu, tocada, visitando aquele momento com cuidado, olhando aquele café, a sua infância, dividindo comigo aquele momento precioso. E eu estava lá também imaginando a cor da mesa, o bolo, a menina de vestidinho, a alegria, e já me antecipando imaginava o doce na boquinha da polonesa, saboreando cada pedaço, dividindo com a mãe,a alegria nos seus olhinhos de criança…quando ela continuou.

” Minha mãe ficou comovida, mas disse não, ela não podia aceitar. E enquanto eu te conto isso me da um nó na garganta. Por que aquele momento foi um dos mais bonitos da minha infância, aquele senhor Iraniano viu que eu era uma menininha e quis me deixar feliz. E é assim que eu penso no Irã e Iranianos com o rosto daquele senhor que quis me trazer felicidade.”

Eu fiquei tão tocada, imaginando a vontade que a pequena polonesa devia estar de provar aquele bolo. No entanto percebi que na sua memoria ficaram duas lembranças muito mais fortes: a dignidade da sua mãe, e a bondade do senhor que quis trazer-lhe felicidade. E ficou claro que o bolo era o de menos. A memória da dignidade da mãe e a bondade, e compaixão do desconhecido são com certeza memórias mais doces, mais profundas e mais duradouras.

Ironias..

Ontem, aconteceu uma coisa muito engraçada. Sai de casa com minha prima para encontrar uma amiga la na beira do Tamisa. Depois de um certo desencontro, certo stress e de nos perdermos um pouco, resolvemos caminhar ao inves de ir ao ta bar. Começamos a caminhar, em direção a ponte de “vauxhall” ( não sei se esse e o nome da ponte), e quando estávamos quase chegando perto dela para cruzar para o lado norte de Londres, fomos abordadas por um senhor.

O senhor estava vestido de terno muito alinhado, xadrez, em vários tons de verdes, lenço no bolso, e falava com alguem pelo telefone. Achamos que queria uma informação e paramos. Ele para la de galanteador, quis saber de onde eramos. Contei que eramos brasileiras, e ele me pediu para ” educa-lo” sobre o brasil. Naturalmente, ele nao esperava que eu fosse responder seriamente, pois assim que comecei a contar um pouco sobre a historia e colonização do brasil ele mudou o assunto para a beleza das brasileiras. Minha prima, queria fugir na primeira rua, mas eu como sempre, achei que o coitado devia ser solitário e resolvi ficar conversando com ele, ou melhor deixando ele falar.

E ele foi falando, teatralmente, tirou um lenco do paleto, fingiu umas lagrimas de emocao.. e eu tentando nao rir, e ao meu lado a minha prima estava absolutamente muda. De repente ele me perguntou por que eu falava ingles bem, e quando eu respondi que tinha estudado no eua, ele quis saber o que. Contei que era antropologia, e ele mais uma vez me pediu para”educa-lo”. O que significava a palavra? Eu nesse momento ja me sentindo na pegadinha do faustao expliquei que antropologia, queria dizer estudo do homem. Uma ma escolha de palavras pois o velho, respirou fundo, com enorme prazer tirou um lenco branco, deu uma girada nele e disse ” perfeito porque eu sou homem!”. Tentei explicar que eu queria dizer humanidade mas a essa altura o homem que de comeco nao era dos mais contidos se liberou de vez. E ele ia falando, e ia abordando a minha prima que timida por natureza permanecia muda, e eu ia tentando guinar a conversa para uma coisa seria. naturalmente sem exito.

Quando chegamos quase no meio da ponte ele interrompeu o que eu dizia para dizer que tinha conhecido muitas pessoas que ja tinham pulado daquela ponte naquele lugar. “Pronto”, disse minha prima, “ou ele pula, ou ele nos joga”. Eu estava mais confiante, afinal ele era velho, como ele mesmo nao deixava de lembrar, tinha 73 anos, bem vividos, uma curiosidade de vida, uma vontade de viver. As pessoas, que passavam por nos iam nos olhando intensamente, o que faz com que eu pense que ele talvez seja uma lenda viva daquela regiao. Quando perguntei seu nome, ele me disse ” no underground eu sou conhecido como o wizzard” e fora dele perguntei eu? ” freddie”. E porque Wizzard? ” Por que eles querem saber como eu faco dinheiro”. Eu naturalmente nao fiz questao de saber, mesmo porque a esta altura estavamos chegando do outro lado da ponte. E ele de repente tentou nos beijar. Um beijo no dedo dele, meio melado, vindo em minha direcao e eu disse que nao. Ele tentou tocar o dedo na minha prima que desesperadamente resistiu. Ele foi ficando tao insistente, que quando passaram 3 garotos do meu lado, agarrei- me a eles e pedi que por favor nos salvassem. O wizzard ficou parado no sinal. do outro lado da rua, como uma pintura, um dom juan meio decrepito.. E ele dizia insistentemente, “it is fate, we were meant to meet!!! It is god who put us together!!!!

Virei para agradecer o meus salvadores e vi que eles carregavam no peito um placa escrita jesus cristo. Nao quis perguntar nada, mas logo eles se identificaram como missionarios. Pergunta vai, pergunta vem, e eles vinham de Utah, e eu nao pude conter minha curiosidade ” Mormons?” Sim! Tirou um cartao e me entregou. Eram gentis, mas a Ironia era tamanha que eu tive que me controlar para nao rir. Se o Wizzard tinha razao e foi deus que o colocou no nosso caminho, quem sera que mandou os mormons para nos salvar?

A vida

Eu sei que faz muito tempo que eu não escrevo mas são tantas as coisas que tem acontecido, que quando eu penso em escrever fico sem saber no que focar. Mal de quem passa muito tempo sem falar nada 🙂 No entanto, esse período de digestão dos meus sentimentos talvez tenha sido importante. Minha avó, tias, e prima estão aqui em Londres, eu estive na Grécia por 10 dias com elas na semana passada, estou indo para Romenia na próxima semana, e desisti de ir a India e ao Nepal em setembro. Não por falta de vontade, mas por não poder fazer tudo já que eu escolhi ir para a Romênia passar o mês num acampamento de Yoga. E tem Yoga na Romênia?? Tem. E eh sobre isso que eu quero escrever hoje. Sobre o acampamento de Yoga na Inglaterra onde fui passar uma semana faz mais ou menos um mês.

Eu decidi ir a este tal acampamento no ultimo minuto. Tinha tido uma semana difícil, ou melhor, um ano cheio de reviravoltas, e quando eu angustiadíssima liguei para o meu professor de Yoga ele me perguntou porque eu não me juntava a eles no acampamento de Yoga. Eu nem sabia do acampamento, fazia tempos que nem estava indo a Yoga, mas eu estava tao desesperada que aceitei na hora, aceitei embarcar numa viagem no dia seguinte. Depois de horas de mudança de opinião, as 11:30 da noite do Domingo ficou decidido que eu iria para o Ashram no dia seguinte as 7 da manha.

Eu acordei nervosa, ansiosa, perdida, e sem vontade de ir. Tinha medo de me sentir totalmente fora de lugar, presa sem acreditar em nada, num lugar cheio de pessoas diferentes de mim. Coloquei minha mochila nas costas, e decidi que iria, assim como se fosse fazer trabalho de campo, como se fosse para uma experiencia antropológica.

Eu me juntei ao acampamento de yoga e meditação não inteiramente aberta a ele, mas tambem nao totalmente fechada. Eu fui meio assim por acaso e logo no primeiro dia algo aconteceu. Eu que sempre analiso rituais, simbolismos, comportamento social, talvez na tentativa de me afastar do evento, eventualmente me abandonei. Isso aconteceu num momento que dançamos juntos de olhos fechados. Eu dancei e enquanto eu dançava, e sentia as pessoas a minha volta, eu transbordei em lagrimas, em “energia” que eu não conseguia entender. Pela primeira vez nem tentei. E de repente, eu senti como se estivesse reencontrando com partes minhas que eu tinha perdido em algum lugar.

Aos poucos eu fui sendo reapresentada a criança, a mulher, a artista, a musicista etc.. Elas estavam la, mesmo eu tendo lutado tao fortemente contra elas, elas continuavam la, pedindo para sair, para respirar, para vir a tona. E eu percebi que eu nem sabia quando, ou como, ou por que eu tinha resolvido ser um dia apenas a cientista social. Eu tinha por alguma razao rejeitado a tudo que eu sou sem nem saber direito o porque. E de repente, me pareceu tao claro o porque eu tinha ficado doente. O porque eu tinha lutado organicamente contra meu cerebro. E eu senti a musica em mim, em cada celula, assim como eu nao havia sentido em muito tempo. Eu senti a perfeicao daquilo tudo, o ritmo, a harmonia, um total sentido.

Os dias que se seguiram foram importantes, as meditacoes, as sessoes de Yoga, a vida comunal, mas eu guardo o primeiro dia como o mais importante. Durante a semana, eu tive todos os tipos de pensamentos, experiencias, sentimentos, e no final eu me senti como se tivesse completado um circulo. Eu tinha comecado a constuir uma pontezinha entre as partes tao segregadas de mim.

Eu eu mudei em muitos aspectos e mudanca nao e sempre tao facil. Eu continuo me sentindo espantada com todas essas coisas novas dentro de mim que eu nao entendo direito. Eu sinto um amor enorme pelas pessoas a volta. Eh claro que eu ainda analiso muito, ainda tenho muitas duvidas. No entanto, eu sinto que o acampamento de yoga, foi o apice de um processo que comecou um ano atras com a minha doenca, e de ser apresentada ao Yoga como caminho e nao apenas posturas. O acampamento foi parte desse acordar, desse “wake up call” para me trazer de volta a viver a vida, porque enquanto eu ficava so assistindo e analisando eu estava aos poucos matando tudo o que eu sou.

Fora de Casa

Conheci uma pintora esses dias. Uma pintora Iraniana. “Pintora mesmo!” meu amigo me disse ao apresentá-la. Irã que para mim é tão querido, por seus filmes, historia, e pelas pessoas que eu conheci de la. Uma delas, em particular, que me faz muita falta é a minha amiga Sara.

Conheci a Sara, anos atrás quando eu ainda morava e estudava em NY. Se eu nao me engano, foi dentro de um trem, eu conversava em francês com minha roomate, e ela nos abordou pois adorava francês. Por coincidência, estudávamos na mesma faculdade, ela jornalismo e francês, e eu cinema e musica. Hoje ela volta a Columbia para estudar cinema, e eu que me formei em antropologia e politica Internacional, vou me meter na área de antropologia do aprendizado e da cognição, aqui em Londres na LSE.

Não demorou nada para eu me apaixonar por aqueles olhos azuis cor de piscina e toda aquela intensidade Iraniana. E em pouco tempo ficamos muito amigas. Junto de uma americana de igual sensibilidade, e uma chinesa de total leveza formamos um grupo de encontros. Fazíamos diversos jantares, que terminavam em infidáveis conversas que se passavam em todos os continentes.

Me lembro perfeitamente, de quando a Sara nos contou de sua saída e volta ao Iran. A revolução já tinha acontecido, a Sara ainda criança, lembrava de homens com armas fora do portão de casa. Ela ja não podia brincar na rua, e a família ia sobrevivendo como podia. Um dia, se nenhum aviso, a mãe a acordou e disse que eles estavam indo embora.Ela não sabia para onde, e provavelmente nem porque. Saíram, assim como muitos outros, fugidos, carregando o que podiam e se tornaram umas das muitas famílias Iranianas espalhadas pelo mundo.

Depois de muitos anos, voltou. E a casa ainda estava la. Igualzinha. Tudo no mesmo lugar, a cama desarrumada, os objetos no chão, o dinheiro já sem valor na parede. O mundo ruíra la fora, na casa tudo continuava o mesmo, com um pouco de poeira, mas tudo no mesmo lugar. Ela não, ela já não podia viver mais lá.

Eu nunca vou me esquecer da intensidade daquele momento, de entrar assim na memoria de uma outra pessoa, de enxergar as rugas no lençol. De por um segundo dividir um mundo a parte, num momento tao forte como o de ser expulso da sua própria casa.

E nesses 60 anos de Israel, eu tenho que pensar nisso. Na violência que é arrancar alguem do seu lugar. Não só do seu lugar físico que para um materialista representa a base da cultura, mas de arrancar alguem do seu lugar social. Lugar onde a pessoa se define por suas relações. Mais difícil ainda é para os que nascem nesse “limbo” ( fora do lugar de onde se julgam de origem), presos entre a idéia de uma passado perfeito e inexistente, e um presente inaceitável.

Eu e a pintora, trocamos e-mails, eu vi seus quadros e me encantei. E ela me escreveu naquela intensidade da Sara de quem aprecia os pequenos momentos do dia. No meio do e-mail me perguntou, quanto tempo eu ficaria em Londres. Se eu estava de passagem. E eu entendi, pois tendo morado em muitos países também sinto o mesmo medo. Medo de ser arrancada da minha casa, não da casa física, mas da social. Dessa que me define como pessoa. Ser arrancada e levada para um outro lugar onde de repente sou menos. Sem relação com o outro acabamos não sendo ninguém.

Onde Andaras?

Estava colocando fotografias on-line, quando de repente me deparo com uma foto de um amigo, desses de viagem, com quem subi o Wayna Pichu. Como eu já escrevi aqui antes, fui a Bolívia por causa da Vesna, fui junto do meu amigo Sho, mas como ele tinha menos tempo do que eu para viajar nos separamos no terceiro dia já em La Paz ( depois da saga Santa Cruz- La Paz by bus). Sho desceu rumo ao Salar do Uyuni no Sul da Bolívia, e eu decidi cruzar a fronteira para o Peru.

Fui sozinha, e mais uma vez fui enganada pela companhia do ônibus que me prometera um ônibus que não existia. Aquela velha estoria, eu queria um ônibus com banheiro, a mulher me garantiu que tinha, e naturalmente não existia. A esta altura eu já tava acostumada. Viajei do lado de um Sueco que tinha estado nos lugares mais inóspitos do mundo. Dentre eles Afeganistão ( onde ele inclusive havia sido preso aos 18), Ruanda e Burundi (onde ele pagou o exercito para poder viajar e ter mais “segurança”),e mais alguns outros lugares de que já nem me lembro mais. O cara era muito simpático, e dentre as pessoas que eu conheci continua sendo ate hoje o viajante que esteve em mais países.

Acabei chegando na rodoviária de Cuzco muito mais tarde do que eu imaginava. A chegada inesquecível, com um monte de vendedores, e agentes de turismo gritando a toda altura para tentar te convencer a ir com eles. Eu, preparada, ja tinha reservado minha pousada, e deveria estar sendo aguardada. E claro que não os encontrei. A essas alturas, depois de um monte de horas em um ônibus desconfortável, resolvi correr um risco, resolvi ir com uma agente dessas gritantes. Escolhi uma mulher que eu achei de cara confiável e fui. A mulher de quem tbm já não me lembro o nome era ótima, e acabou meu ajudando em tudo que eu precisei.

No dia seguinte, resolvi ir conhecer o vale sagrado, peguei uma dessa excursões, e levei comigo dinheiro mais do que necessário para passar o dia fora. Passeamos por lugares lindos, subimos e descemos ruínas, e mais ruínas, e eventualmente paramos num desses mercados peruanos. Eu nao sou nem um pouco consumista ( voltei do marrocos sem trazer nada!), nao gosto de fazer compras, mas fiquei encantada com as coisas do tal mercado. Acabei comprando um tapete ( que alias me salvou do frio na Bolívia mas isto eh uma outra estoria), e umas pinturas. Naturalmente, sem saber ainda muito bem a conversão, sem ter nenhum lugar que aceitasse cartão, acabei voltando para o ônibus sem nem perceber que estava sem nenhum tostão.

Quem me salvou foi uma senhora Peruana, que me deu ( quer dizer emprestou pq eu a encontrei para devolver no dia seguinte) dinheiro para comida, e para pagar a entrada de algum lugar. Mais tarde eu a reencontraria em Aguas Calientes onde ela mais uma vez agiria com um anjo da guarda para mim. Isto também fica para um outro post.

Enfim, o fato eh que eventualmente eu cheguei no Machu Pichu e conheci um bombeiro de brasília que me convenceu a subir com ele o Wayna Pichu ( montanha mais alta que fica ao lado do Machu Pichu). Ao passar pelo portão que nos levaria a montanha tivemos que assinar uma lista. So depois eu ficaria sabendo que era para conferir que ninguém tinha caido. Fomos conversando sobre musica, se nao me engano ele tocava trompete, sobre a viagem dele pela america latina, ele pretendia chegar ate a América Central. Ele bombeiro florestal, tinha chegado ao Macchu Pichu seguindo a linha do trem. Estava com os pés doloridos por causa das pedras, mas cada real economizado, seria um km a mais na sua viagem. Sei que subimos, ate a ultima pedra, e vimos la de cima o Machu Pichu. Vimos la de cima uma das mais belas vistas que eu já vi.

Sentamos, apreciamos a paisagem, mortos de sede, esperando que quem sabe uma Cholita aparecesse milagrosamente de algum lugar 🙂 Depois disto nunca mais nos vimos. Nao me lembro o nome dele, ainda que esteja na ponta da língua, e ao ver essa foto hoje tive que pensar sobre isso. Como as coisas são inusitadas. As vezes dividimos momentos preciosos com perfeitos desconhecidos. E eh impressionante como esses momentos tornam desconhecidos mais próximos do que muitos próximos. Ainda que eu não me lembre o nome, ainda que infelizmente não tenhamos trocado e-mails, ainda que eu não saiba ate que pais ele chegou, eu olho para essa foto e sei que dividimos esse momento. Olho e sei que ele esta la. Sei que na fotografia dele eu estou, como a invisível fotografa, de quem o nome ele talvez também nem se lembre. Olho e fico muito grata por ele ter insistido para que eu subisse ate la.

Pelo sul da Africa

Vesna está no sul da Africa. Falei com ela esses dias e ela já esta em Malawi. Vesna, minha amiga, de quem alias ja falei em muitos posts. Eslovena, que conheci na Ilha Grande no final da sua viagem de um ano pelo mundo. Meses depois, por sua recomendação, fui parar na Bolívia. Bolivia, que alias,continua sendo um dos lugares que mais gostei de conhecer. Quase um ano depois fui cumprir minha promessa feita em tom jocoso na Ilha grande, fui finalmente visita-la la na Eslovênia. Juntas fomos para Croacia, onde conheci sua tia Jelka de quem também tanto já falei.

Vesna, foi picada, pelo o que aqui chamam de travel bug. Depois de voltar para Europa trabalhou um pouco e foi para o Egito. Voltou, e foi para Israel e Jordânia. Ela que viajou sozinha India, China, indonésia, Egito achou a Jordânia difícil. Foi depois dessa viagem que nos encontramos aqui em Londres. Um ano depois de nosso primeiro encontro na Ilha Grande. Logo em seguida, fui visitá-la. Nunca vou me esquecer da estoria que ela contou durante a nossa viagem da Eslovênia a Croácia. Nos viajávamos de trem, e ela contava da rodoviária num vilarejo Jordano há alguns kms da fronteira de Israel. Rodoviária sem funcionários, sem avisos, sem horários e sem ônibus. So com um homem que queria levá-la de taxi ate Petra. Ela ficou. E esperou por 4 horas ate o ônibus, que ela nem sabia se existia, chegar.

Eu que dizia que Vesna já não podia mais me surpreender tive que morder minha língua quando há alguns meses recebo uma mensagem dela dizendo que ela ia a Africa. Para onde você vai?- pergunto. “Estou planejando entrar pelo Quênia e sair pela Africa Sul”. E como você vai do Quênia a Africa do Sul? “Por terra”. Sou tomada por uma grande emoção. Adoro viagens adoro ver o mundo. ” Com quem?” . “Sozinha.” Sou tomada por um misto de admiração e apreensão. Não digo nada, desejo boa sorte, pois eu sei que as estas alturas a decisão já foi tomada. Também sei que ela quase nunca vai estar sozinha, pois viajantes são assim, vão se juntando, se conhecendo pelo caminho, se reencontrando, e não importa quão cansativa, difícil tenha sido a viagem, assim que chegam em casa já começam a planejar a próxima saída.