Desconhecida's avatar

Sobre julietafalavina

Eu escrevo da minha vida, e agora sobre a minha recuperação da saúde .

Ironias..

Ontem, aconteceu uma coisa muito engraçada. Sai de casa com minha prima para encontrar uma amiga la na beira do Tamisa. Depois de um certo desencontro, certo stress e de nos perdermos um pouco, resolvemos caminhar ao inves de ir ao ta bar. Começamos a caminhar, em direção a ponte de “vauxhall” ( não sei se esse e o nome da ponte), e quando estávamos quase chegando perto dela para cruzar para o lado norte de Londres, fomos abordadas por um senhor.

O senhor estava vestido de terno muito alinhado, xadrez, em vários tons de verdes, lenço no bolso, e falava com alguem pelo telefone. Achamos que queria uma informação e paramos. Ele para la de galanteador, quis saber de onde eramos. Contei que eramos brasileiras, e ele me pediu para ” educa-lo” sobre o brasil. Naturalmente, ele nao esperava que eu fosse responder seriamente, pois assim que comecei a contar um pouco sobre a historia e colonização do brasil ele mudou o assunto para a beleza das brasileiras. Minha prima, queria fugir na primeira rua, mas eu como sempre, achei que o coitado devia ser solitário e resolvi ficar conversando com ele, ou melhor deixando ele falar.

E ele foi falando, teatralmente, tirou um lenco do paleto, fingiu umas lagrimas de emocao.. e eu tentando nao rir, e ao meu lado a minha prima estava absolutamente muda. De repente ele me perguntou por que eu falava ingles bem, e quando eu respondi que tinha estudado no eua, ele quis saber o que. Contei que era antropologia, e ele mais uma vez me pediu para”educa-lo”. O que significava a palavra? Eu nesse momento ja me sentindo na pegadinha do faustao expliquei que antropologia, queria dizer estudo do homem. Uma ma escolha de palavras pois o velho, respirou fundo, com enorme prazer tirou um lenco branco, deu uma girada nele e disse ” perfeito porque eu sou homem!”. Tentei explicar que eu queria dizer humanidade mas a essa altura o homem que de comeco nao era dos mais contidos se liberou de vez. E ele ia falando, e ia abordando a minha prima que timida por natureza permanecia muda, e eu ia tentando guinar a conversa para uma coisa seria. naturalmente sem exito.

Quando chegamos quase no meio da ponte ele interrompeu o que eu dizia para dizer que tinha conhecido muitas pessoas que ja tinham pulado daquela ponte naquele lugar. “Pronto”, disse minha prima, “ou ele pula, ou ele nos joga”. Eu estava mais confiante, afinal ele era velho, como ele mesmo nao deixava de lembrar, tinha 73 anos, bem vividos, uma curiosidade de vida, uma vontade de viver. As pessoas, que passavam por nos iam nos olhando intensamente, o que faz com que eu pense que ele talvez seja uma lenda viva daquela regiao. Quando perguntei seu nome, ele me disse ” no underground eu sou conhecido como o wizzard” e fora dele perguntei eu? ” freddie”. E porque Wizzard? ” Por que eles querem saber como eu faco dinheiro”. Eu naturalmente nao fiz questao de saber, mesmo porque a esta altura estavamos chegando do outro lado da ponte. E ele de repente tentou nos beijar. Um beijo no dedo dele, meio melado, vindo em minha direcao e eu disse que nao. Ele tentou tocar o dedo na minha prima que desesperadamente resistiu. Ele foi ficando tao insistente, que quando passaram 3 garotos do meu lado, agarrei- me a eles e pedi que por favor nos salvassem. O wizzard ficou parado no sinal. do outro lado da rua, como uma pintura, um dom juan meio decrepito.. E ele dizia insistentemente, “it is fate, we were meant to meet!!! It is god who put us together!!!!

Virei para agradecer o meus salvadores e vi que eles carregavam no peito um placa escrita jesus cristo. Nao quis perguntar nada, mas logo eles se identificaram como missionarios. Pergunta vai, pergunta vem, e eles vinham de Utah, e eu nao pude conter minha curiosidade ” Mormons?” Sim! Tirou um cartao e me entregou. Eram gentis, mas a Ironia era tamanha que eu tive que me controlar para nao rir. Se o Wizzard tinha razao e foi deus que o colocou no nosso caminho, quem sera que mandou os mormons para nos salvar?

A vida

Eu sei que faz muito tempo que eu não escrevo mas são tantas as coisas que tem acontecido, que quando eu penso em escrever fico sem saber no que focar. Mal de quem passa muito tempo sem falar nada 🙂 No entanto, esse período de digestão dos meus sentimentos talvez tenha sido importante. Minha avó, tias, e prima estão aqui em Londres, eu estive na Grécia por 10 dias com elas na semana passada, estou indo para Romenia na próxima semana, e desisti de ir a India e ao Nepal em setembro. Não por falta de vontade, mas por não poder fazer tudo já que eu escolhi ir para a Romênia passar o mês num acampamento de Yoga. E tem Yoga na Romênia?? Tem. E eh sobre isso que eu quero escrever hoje. Sobre o acampamento de Yoga na Inglaterra onde fui passar uma semana faz mais ou menos um mês.

Eu decidi ir a este tal acampamento no ultimo minuto. Tinha tido uma semana difícil, ou melhor, um ano cheio de reviravoltas, e quando eu angustiadíssima liguei para o meu professor de Yoga ele me perguntou porque eu não me juntava a eles no acampamento de Yoga. Eu nem sabia do acampamento, fazia tempos que nem estava indo a Yoga, mas eu estava tao desesperada que aceitei na hora, aceitei embarcar numa viagem no dia seguinte. Depois de horas de mudança de opinião, as 11:30 da noite do Domingo ficou decidido que eu iria para o Ashram no dia seguinte as 7 da manha.

Eu acordei nervosa, ansiosa, perdida, e sem vontade de ir. Tinha medo de me sentir totalmente fora de lugar, presa sem acreditar em nada, num lugar cheio de pessoas diferentes de mim. Coloquei minha mochila nas costas, e decidi que iria, assim como se fosse fazer trabalho de campo, como se fosse para uma experiencia antropológica.

Eu me juntei ao acampamento de yoga e meditação não inteiramente aberta a ele, mas tambem nao totalmente fechada. Eu fui meio assim por acaso e logo no primeiro dia algo aconteceu. Eu que sempre analiso rituais, simbolismos, comportamento social, talvez na tentativa de me afastar do evento, eventualmente me abandonei. Isso aconteceu num momento que dançamos juntos de olhos fechados. Eu dancei e enquanto eu dançava, e sentia as pessoas a minha volta, eu transbordei em lagrimas, em “energia” que eu não conseguia entender. Pela primeira vez nem tentei. E de repente, eu senti como se estivesse reencontrando com partes minhas que eu tinha perdido em algum lugar.

Aos poucos eu fui sendo reapresentada a criança, a mulher, a artista, a musicista etc.. Elas estavam la, mesmo eu tendo lutado tao fortemente contra elas, elas continuavam la, pedindo para sair, para respirar, para vir a tona. E eu percebi que eu nem sabia quando, ou como, ou por que eu tinha resolvido ser um dia apenas a cientista social. Eu tinha por alguma razao rejeitado a tudo que eu sou sem nem saber direito o porque. E de repente, me pareceu tao claro o porque eu tinha ficado doente. O porque eu tinha lutado organicamente contra meu cerebro. E eu senti a musica em mim, em cada celula, assim como eu nao havia sentido em muito tempo. Eu senti a perfeicao daquilo tudo, o ritmo, a harmonia, um total sentido.

Os dias que se seguiram foram importantes, as meditacoes, as sessoes de Yoga, a vida comunal, mas eu guardo o primeiro dia como o mais importante. Durante a semana, eu tive todos os tipos de pensamentos, experiencias, sentimentos, e no final eu me senti como se tivesse completado um circulo. Eu tinha comecado a constuir uma pontezinha entre as partes tao segregadas de mim.

Eu eu mudei em muitos aspectos e mudanca nao e sempre tao facil. Eu continuo me sentindo espantada com todas essas coisas novas dentro de mim que eu nao entendo direito. Eu sinto um amor enorme pelas pessoas a volta. Eh claro que eu ainda analiso muito, ainda tenho muitas duvidas. No entanto, eu sinto que o acampamento de yoga, foi o apice de um processo que comecou um ano atras com a minha doenca, e de ser apresentada ao Yoga como caminho e nao apenas posturas. O acampamento foi parte desse acordar, desse “wake up call” para me trazer de volta a viver a vida, porque enquanto eu ficava so assistindo e analisando eu estava aos poucos matando tudo o que eu sou.

Fora de Casa

Conheci uma pintora esses dias. Uma pintora Iraniana. “Pintora mesmo!” meu amigo me disse ao apresentá-la. Irã que para mim é tão querido, por seus filmes, historia, e pelas pessoas que eu conheci de la. Uma delas, em particular, que me faz muita falta é a minha amiga Sara.

Conheci a Sara, anos atrás quando eu ainda morava e estudava em NY. Se eu nao me engano, foi dentro de um trem, eu conversava em francês com minha roomate, e ela nos abordou pois adorava francês. Por coincidência, estudávamos na mesma faculdade, ela jornalismo e francês, e eu cinema e musica. Hoje ela volta a Columbia para estudar cinema, e eu que me formei em antropologia e politica Internacional, vou me meter na área de antropologia do aprendizado e da cognição, aqui em Londres na LSE.

Não demorou nada para eu me apaixonar por aqueles olhos azuis cor de piscina e toda aquela intensidade Iraniana. E em pouco tempo ficamos muito amigas. Junto de uma americana de igual sensibilidade, e uma chinesa de total leveza formamos um grupo de encontros. Fazíamos diversos jantares, que terminavam em infidáveis conversas que se passavam em todos os continentes.

Me lembro perfeitamente, de quando a Sara nos contou de sua saída e volta ao Iran. A revolução já tinha acontecido, a Sara ainda criança, lembrava de homens com armas fora do portão de casa. Ela ja não podia brincar na rua, e a família ia sobrevivendo como podia. Um dia, se nenhum aviso, a mãe a acordou e disse que eles estavam indo embora.Ela não sabia para onde, e provavelmente nem porque. Saíram, assim como muitos outros, fugidos, carregando o que podiam e se tornaram umas das muitas famílias Iranianas espalhadas pelo mundo.

Depois de muitos anos, voltou. E a casa ainda estava la. Igualzinha. Tudo no mesmo lugar, a cama desarrumada, os objetos no chão, o dinheiro já sem valor na parede. O mundo ruíra la fora, na casa tudo continuava o mesmo, com um pouco de poeira, mas tudo no mesmo lugar. Ela não, ela já não podia viver mais lá.

Eu nunca vou me esquecer da intensidade daquele momento, de entrar assim na memoria de uma outra pessoa, de enxergar as rugas no lençol. De por um segundo dividir um mundo a parte, num momento tao forte como o de ser expulso da sua própria casa.

E nesses 60 anos de Israel, eu tenho que pensar nisso. Na violência que é arrancar alguem do seu lugar. Não só do seu lugar físico que para um materialista representa a base da cultura, mas de arrancar alguem do seu lugar social. Lugar onde a pessoa se define por suas relações. Mais difícil ainda é para os que nascem nesse “limbo” ( fora do lugar de onde se julgam de origem), presos entre a idéia de uma passado perfeito e inexistente, e um presente inaceitável.

Eu e a pintora, trocamos e-mails, eu vi seus quadros e me encantei. E ela me escreveu naquela intensidade da Sara de quem aprecia os pequenos momentos do dia. No meio do e-mail me perguntou, quanto tempo eu ficaria em Londres. Se eu estava de passagem. E eu entendi, pois tendo morado em muitos países também sinto o mesmo medo. Medo de ser arrancada da minha casa, não da casa física, mas da social. Dessa que me define como pessoa. Ser arrancada e levada para um outro lugar onde de repente sou menos. Sem relação com o outro acabamos não sendo ninguém.

Onde Andaras?

Estava colocando fotografias on-line, quando de repente me deparo com uma foto de um amigo, desses de viagem, com quem subi o Wayna Pichu. Como eu já escrevi aqui antes, fui a Bolívia por causa da Vesna, fui junto do meu amigo Sho, mas como ele tinha menos tempo do que eu para viajar nos separamos no terceiro dia já em La Paz ( depois da saga Santa Cruz- La Paz by bus). Sho desceu rumo ao Salar do Uyuni no Sul da Bolívia, e eu decidi cruzar a fronteira para o Peru.

Fui sozinha, e mais uma vez fui enganada pela companhia do ônibus que me prometera um ônibus que não existia. Aquela velha estoria, eu queria um ônibus com banheiro, a mulher me garantiu que tinha, e naturalmente não existia. A esta altura eu já tava acostumada. Viajei do lado de um Sueco que tinha estado nos lugares mais inóspitos do mundo. Dentre eles Afeganistão ( onde ele inclusive havia sido preso aos 18), Ruanda e Burundi (onde ele pagou o exercito para poder viajar e ter mais “segurança”),e mais alguns outros lugares de que já nem me lembro mais. O cara era muito simpático, e dentre as pessoas que eu conheci continua sendo ate hoje o viajante que esteve em mais países.

Acabei chegando na rodoviária de Cuzco muito mais tarde do que eu imaginava. A chegada inesquecível, com um monte de vendedores, e agentes de turismo gritando a toda altura para tentar te convencer a ir com eles. Eu, preparada, ja tinha reservado minha pousada, e deveria estar sendo aguardada. E claro que não os encontrei. A essas alturas, depois de um monte de horas em um ônibus desconfortável, resolvi correr um risco, resolvi ir com uma agente dessas gritantes. Escolhi uma mulher que eu achei de cara confiável e fui. A mulher de quem tbm já não me lembro o nome era ótima, e acabou meu ajudando em tudo que eu precisei.

No dia seguinte, resolvi ir conhecer o vale sagrado, peguei uma dessa excursões, e levei comigo dinheiro mais do que necessário para passar o dia fora. Passeamos por lugares lindos, subimos e descemos ruínas, e mais ruínas, e eventualmente paramos num desses mercados peruanos. Eu nao sou nem um pouco consumista ( voltei do marrocos sem trazer nada!), nao gosto de fazer compras, mas fiquei encantada com as coisas do tal mercado. Acabei comprando um tapete ( que alias me salvou do frio na Bolívia mas isto eh uma outra estoria), e umas pinturas. Naturalmente, sem saber ainda muito bem a conversão, sem ter nenhum lugar que aceitasse cartão, acabei voltando para o ônibus sem nem perceber que estava sem nenhum tostão.

Quem me salvou foi uma senhora Peruana, que me deu ( quer dizer emprestou pq eu a encontrei para devolver no dia seguinte) dinheiro para comida, e para pagar a entrada de algum lugar. Mais tarde eu a reencontraria em Aguas Calientes onde ela mais uma vez agiria com um anjo da guarda para mim. Isto também fica para um outro post.

Enfim, o fato eh que eventualmente eu cheguei no Machu Pichu e conheci um bombeiro de brasília que me convenceu a subir com ele o Wayna Pichu ( montanha mais alta que fica ao lado do Machu Pichu). Ao passar pelo portão que nos levaria a montanha tivemos que assinar uma lista. So depois eu ficaria sabendo que era para conferir que ninguém tinha caido. Fomos conversando sobre musica, se nao me engano ele tocava trompete, sobre a viagem dele pela america latina, ele pretendia chegar ate a América Central. Ele bombeiro florestal, tinha chegado ao Macchu Pichu seguindo a linha do trem. Estava com os pés doloridos por causa das pedras, mas cada real economizado, seria um km a mais na sua viagem. Sei que subimos, ate a ultima pedra, e vimos la de cima o Machu Pichu. Vimos la de cima uma das mais belas vistas que eu já vi.

Sentamos, apreciamos a paisagem, mortos de sede, esperando que quem sabe uma Cholita aparecesse milagrosamente de algum lugar 🙂 Depois disto nunca mais nos vimos. Nao me lembro o nome dele, ainda que esteja na ponta da língua, e ao ver essa foto hoje tive que pensar sobre isso. Como as coisas são inusitadas. As vezes dividimos momentos preciosos com perfeitos desconhecidos. E eh impressionante como esses momentos tornam desconhecidos mais próximos do que muitos próximos. Ainda que eu não me lembre o nome, ainda que infelizmente não tenhamos trocado e-mails, ainda que eu não saiba ate que pais ele chegou, eu olho para essa foto e sei que dividimos esse momento. Olho e sei que ele esta la. Sei que na fotografia dele eu estou, como a invisível fotografa, de quem o nome ele talvez também nem se lembre. Olho e fico muito grata por ele ter insistido para que eu subisse ate la.

Pelo sul da Africa

Vesna está no sul da Africa. Falei com ela esses dias e ela já esta em Malawi. Vesna, minha amiga, de quem alias ja falei em muitos posts. Eslovena, que conheci na Ilha Grande no final da sua viagem de um ano pelo mundo. Meses depois, por sua recomendação, fui parar na Bolívia. Bolivia, que alias,continua sendo um dos lugares que mais gostei de conhecer. Quase um ano depois fui cumprir minha promessa feita em tom jocoso na Ilha grande, fui finalmente visita-la la na Eslovênia. Juntas fomos para Croacia, onde conheci sua tia Jelka de quem também tanto já falei.

Vesna, foi picada, pelo o que aqui chamam de travel bug. Depois de voltar para Europa trabalhou um pouco e foi para o Egito. Voltou, e foi para Israel e Jordânia. Ela que viajou sozinha India, China, indonésia, Egito achou a Jordânia difícil. Foi depois dessa viagem que nos encontramos aqui em Londres. Um ano depois de nosso primeiro encontro na Ilha Grande. Logo em seguida, fui visitá-la. Nunca vou me esquecer da estoria que ela contou durante a nossa viagem da Eslovênia a Croácia. Nos viajávamos de trem, e ela contava da rodoviária num vilarejo Jordano há alguns kms da fronteira de Israel. Rodoviária sem funcionários, sem avisos, sem horários e sem ônibus. So com um homem que queria levá-la de taxi ate Petra. Ela ficou. E esperou por 4 horas ate o ônibus, que ela nem sabia se existia, chegar.

Eu que dizia que Vesna já não podia mais me surpreender tive que morder minha língua quando há alguns meses recebo uma mensagem dela dizendo que ela ia a Africa. Para onde você vai?- pergunto. “Estou planejando entrar pelo Quênia e sair pela Africa Sul”. E como você vai do Quênia a Africa do Sul? “Por terra”. Sou tomada por uma grande emoção. Adoro viagens adoro ver o mundo. ” Com quem?” . “Sozinha.” Sou tomada por um misto de admiração e apreensão. Não digo nada, desejo boa sorte, pois eu sei que as estas alturas a decisão já foi tomada. Também sei que ela quase nunca vai estar sozinha, pois viajantes são assim, vão se juntando, se conhecendo pelo caminho, se reencontrando, e não importa quão cansativa, difícil tenha sido a viagem, assim que chegam em casa já começam a planejar a próxima saída.

A Massai Branca

Assisti esses dias o filme a Massai Branca. Na hora eu até gostei um pouco, pois achei a fotografia muito bonita, e afinal de contas não é toda hora que temos a chance de ver um guerreiro Samburu. Durante o filme, no entanto, eu tive uma sensação constante de desconforto. Antes de escrever sobre ela, vou falar um pouco sobre a estória do filme.

O filme é baseado na estória real, de uma suíça, que ao passar ferias no Kenya, se apaixona por um guerreiro Samburu. Ela abandona o namorado ( que está com ela no Kenya), a loja que ela tem na suíça e vai atrás do tal guerreiro. Depois de pegar um monte de ônibus, ela vai parar num vilarejo onde ela encontra um padre italiano, e uma outra mulher européia. A mulher também casada com um Kenyano explica a ela que se o guerreiro quiser, ele a encontra, que no Kenya a mulher espera. E é o que ela faz: espera até o guerreiro ir buscá-la. Então, eventualmente ela muda para tribo do guerreiro, e engravida. No total fica uns dois anos la antes de voltar meio que fugida para Suiça.

Em poucas linhas, essa é a estória do filme. Como eu já disse antes, eu tive sentimentos mesclados ao assisti-lo. A fotografia é bonita, o Kenya é lindo, as cores, as pessoas, e a tribo dos Samburu são fascinantes. O filme é bem manipulador, pois força ao espectador constantemente a visão dessa suíça. Tudo bem, a estória é escrita por ela.

No entanto, alguns aspectos me incomodam, alguns deles são: primeiro que obviamente o que ela sentiu pelo cara que ela viu um segundo não foi amor mas atração sexual que alias termina em pouquíssimo tempo quando ela o conhece mas já está grávida. Ate ai, tudo bem, todo mundo sente. O que me deixa um pouco incomodada é essa noção bem ocidental que temos direito a experimentar tudo. Muitas vezes sem levar em consideração as consequências para os outros.

O filme mostra o lado dela, o que ela sofreu, como foi difícil, e de fato, foi. O que me deixa bem decepcionada é o pouco crédito que é dado a tribo, que a recebe de braços abertos. Uma européia que acha todos os costumes deles meio bárbaros, e que quer mudar a maneira das pessoas se relacionarem como se ela estivesse em Zurich.

Para culminar o descaso total, ela basicamente rouba a filha do pai, mente para ele dizendo que vai passar ferias na Suiça, e vai embora. É claro que eu não estou dizendo que ela tinha que ficar la, nem nada disso. Eu só acho, que o filme é uma grande ´romantização´ ( como deve ser o livro), de uma estória na verdade de uma mulher meio egoísta e impulsiva. Que não mediu as consequências dos seus atos na vida dos outros em nenhum momento. O filme, a retrata como a grande aventureira que foi la, se apaixonou, ficou, e quando não deu mais partiu. Ta certo, é o lado dela. Para mim, pareceu um pouco mais aquela velha estória do ocidental que tem direito de fazer o que quer, e ir embora quando não quer mais. O guerreiro Samburu, a tribo, e todas as pessoas pessoas que se abriram, que a aguentaram, que tiveram de certa forma um membro da familia ( a filha) roubado, são quem pagam o preço. São os que aliás não têm nem seu nome escrito na capa do livro ou filme. Em vez de Samburu, ela escolheu a palavra Massai, um tribo relacionada aos Samburu mais conhecida mas distinta.

Cinema, Aspirinas e Urubus

A minha primeira aula de antropologia, foi sobre as populações indígenas da América do Sul. Peguei meio por acaso, pois tinha conhecido o professor que a ensinava andando pelo jardim da faculdade. Gostei tanto, que no semestre seguinte me inscrevi em mais duas aulas dele. Uma delas era uma aula sobre documentários e filmes etnográficos.

Eu sempre gostei de cinema europeu, de fellini, truffaut, dos iranianos por isso achei que seria natural para mim esta aula. Não foi, logo no primeiro filme,achei difícil me focar. Percebi que me faltava a atenção, talvez maturidade, ou mesmo paciência. E dessas coisas que acontecem por acaso, assim que eu desisti eu comecei a achar cada vez mais interessante.

Os detalhes. A humanidade, não aquele discurso de filme que quer ser cult, mas o olhar perdido num cinema verite, ou detalhe posto numa cena, que no meio da correria do dia a dia nem percebemos. Comecei a gostar cada vez mais destes filmes liricos, humanos. E paralelamente comecei a desgostar daquela formula simples do cinema (primeiro cada um na sua, depois conflito e resolução) onde todo mundo se transporta e sai resolvido.

Meio como a musica que tem formulas cada vez mais repetitivas e simples. Tenho a impressão que sempre gostamos dos momentos de reconhecimento. Estes também acontecem em qualquer sinfonia, ou sonata, demoram mais do que na musica moderna, os temas vem meio modificados ou em outro tom, mas da um prazer enorme quando eles reaparecem. Parece-me no entanto que as pessoas parecem ter cada vez menos paciência. Menos paciência para esperar esses momentos, que de esperados se tornam tao belos e poéticos.

Fui assistir um dia desses o cirque de soleil. Gostei, eh impressionante mas eh muito. Achei demais. O James Thieree com 5 pessoas criou um espetáculo para mim, bem mais bonito. Um espetáculo que ainda conseguimos nos relacionar com quase tudo do que ta acontecendo.

Este meu texto de pura divagação era para falar do filme Cinema, Aspirinas e Urubus, que eh lindo. Com momentos absolutamente plásticos e tocantes. Quando fui aluga-lo perguntei se o filme era bom. O moco me olhou serio e disse, ‘olha eh parado então eh meio chato ne ?’

Bom tempo

Estou bem. A todos que mandaram energias, pensamentos muito obrigada! Estou bem. Me sinto bem assim como me senti todos os dias antes, todos os dias no hospital, e todos os dias depois. Quer dizer, tirando o intervalo de uma reação alérgica que tive a um remédio. irônico, eu que ja odeio remédios halopaticos, tive sintomas muito piores por causa do remédio do que da minha pequena, muito pequena, convulsão parcial.

Me sinto bem e eu já fui para Gonçalves no sul de Minas passar a pascoa. Subi montanha, fiz horas de Yoga, entrei em cachoeira gelada e ate assisti Indiana Jones. Alias como e racista aquele começo de filme. Com os índios todos terríveis, e o americano bom, professor de arqueologia indo ROUBAR artefatos!!! Enfim. Para não falar nos outros estereótipos.. alemães, árabes etc..

Em busca de bons tempos, coloco aqui um vídeo gravado em Marrakech por minha amiga Mounia. Um video de mim, enrolando tragicamente em Bom Tempo do Chico. Mas em busca de bons tempos, e na celebração da minha decisão de voltar a musica, eu celebrarei tbm os meus erros 🙂

A vida

Faz hoje exatamente 1 semana que eu sai do Hospital. Sai bem, e no dia seguinte já fui fazer Yoga. Achei que depois de 10 dias meio que numa cama, ia ficar cansada, mas não, foi tudo tranqüilo. Ainda bem.

Neste post no entanto, não quero falar nem em doença, nem no meu processo de cura, mas da vida. Sexta passada, acordei e vim tomar cafe da manha para descobrir que minha prima que tinha trabalhado um dia antes, e estado comigo na tarde anterior com sua barriga enorme, tinha ido para a maternidade. Fui tomada por uma emoção sem limites. Claro que eu já tinha estado perto de outras gravidas, ja tinha me emocionado antes, mas saber que a minha prima estava na maternidade me arrebatou.

Liguei la, não queria ser um incomodo, mas o marido dela, disse que eu podia ir para la se quisesse. Sai correndo, queria vê-la antes de ir para a cesária. A cesária tava marcada para as 9, cheguei as 8:58. Corri, e cheguei a tempo, mesmo pq ela so foi mesmo para a sala as 10:30.

Minha prima uma rocha, muito diferente de mim que estaria gritando e reclamando. ela não. austera, controlada, com contrações a cada 2 minutos, fazia as vezes umas caretas. não muitas. E de repente ela foi, com minha tia que queria muito assistir ao parto. E eu fiquei do lado do de fora, com o pai, calmo. mais que calmo que eu umas mil vezes. Ficamos aguardando, o que se sabe que vai dar certo, mas ansiosos mesmo assim.

E de repente fomos chamados, na porta e através do vidro, vimos, eu e o pai, aquelas 3 pequeninas deitadas de toquinha. E a vida ela eh arrebatadora, porque ali na sua forma mais frágil e forte sai derrubando tudo e todos pela frente.

Minha prima, que viveu sempre para ser discreta, teve num ano bissexto, no dia 29 de fevereiro três lindas meninas.

10 dias no Hospital

Estou no Hospital faz 10 dias. Estar no hospital nem eh tao ruim assim. Em outubro um dia antes de voltar do Marrocos, senti um choque na mão. senti de novo no avião, em casa e ai acabei indo ao hospital. La chegando achando que eu tinha uma nervo pinçado me fizeram ir fazer uma tomografia. Saindo da tomografia ainda tranqüila, vi o neurologista chegando com cara de pesar e me informando que eu tinha uma assimetria no cérebro. Quis me jogar pela janela. Eu que nunca tomei nem aspirina. Medrosa. Fui mandada para fazer ressonância… usei todos os exercícios de respiração que eu conhecia para me acalmar. Fui internada. Queriam que eu fizesse uma punção (exame onde se tira um liquido da espinha), e eu que morro de medo disse que não. Fugi do hospital e joguei o meu ateísmo pela janela para ir procurar todas as pessoas religiosas e templos que eu conhecia.

Haiko, ateu, e Juliana agnóstica, me acompanharam em tudo. Apesar de terem opiniões distintas eles respeitaram as minha decisões. Por isso serei eternamente grata! . Conheci um Yogi, que falou comigo, e disse que eu precisava mudar minha vida. Ele,um homem moderado, me falou para continuar tomando os anti-convulsivos que me tinham sido dados e mudar a minha vida. Eu que não estava estudando, nem trabalhando meio que definhando e arrumando um milhão de viagens para fugir da minha vida tinha que mudar. Mudei radicalmente no começo, e me lembro do Yogi me dizer que moderação e longevidade seria mais importante do que radicalismo a curto prazo. Foi categórico: senão isso desaparece nesse lugar e aparece em outro.

Então, eu que não gosto nem de tomar aspirina fui procurar um medico que me mandasse parar de tomar o remédio. O encontrei.Parei. Passou outubro, novembro, dezembro, janeiro, e no dia 15 de fevereiro enquanto eu falava com minha mãe no telefone perdi a fala. Não o pensamento, não a voz, mas a articulação. Eu que estava ansiosa há 4 meses, soube na hora que nao havia mais desculpa eu precisava entra ir ao medico.

Sem articular muito bem consegui contatar o Haiko que em 20 minutos estava em casa. Fomos ao GP (clinico geral), que a 1 da tarde me mandou voltar as 3:50. Esperei ate as 3:50 e ao ver meu histórico a GP achou melhor marcar uma consulta com o neurologista. Quanto tempo?? perguntei. Dentro de 3 semanas. E se eu tiver outros ataques??? Ao que ela respondeu 1 por dia tudo bem, mas se tiver mais que isso vá ao Hospital.

Quando relatei isso aos meus pais, eles me mandaram pegar o avião imediatamente. Encontro meu pai comprava uma passagem para 4 horas depois, eu jogava umas coisas na mala. saímos direto para o aeroporto. E mais uma vez a Juliana e o Haiko foram me apoiar la.

Cheguei em são paulo no sábado de manha e vim direto para o hospital. Como minha mãe já havia falado com o medico, já me esperavam aqui. O primeiro achou meus sintomas meio difusos parecia mais uma coisa psicológica . De qualquer jeito imediatamente me mandou para ressonância. 2 horas depois estava la meu resultado e de fato com uma anomalia. Não tinha mais jeito, eu ia ter que fazer a punção. Todo o meu medo tinha sido injustificado. O medico um artista, tirou licor da minha espinha sem eu sentir NADA!

Ai veio o time de neurologistas. Eu tenho 4. E me contaram que eu tinha 2 lesões do lado esquerdo. Fiquei em estado de choque.. Como esquerdo, em Londres era no direito?? Os médicos acharam que eu estava enganada, mas eh claro que não me disseram isso. Haiko no entanto, conseguiu mandar os exames…. e um por um ficou perplexo. Fui mandada ate ao Sao Jose, novo hospital da Beneficiencia Portuguesa para que um outro medico avaliasse. La passei 1 hora e 50 minutos dentro da melhor maquina de ressonância de sao paulo.

Quando sai de la. Os médicos tinham um diagnostico. Nao totalmente claro, pois eu tenho algumas contradições. O que eu tenho são lesões causadas por desmielinação ( em termos simples a perda das capas dos fios do cérebro). Bom, isso pode ser causado por Adem (ACUTE DISSEMINATED ENCEPHALOMYELITIS), uma doença aguda que acontece uma vez por contato com vírus ou bactéria. Ou Múltipla Esclerose uma doença cronica que não se sabe porque acontece. De qualquer maneira são doenças auto-imunes, ou seja ou meu corpo reagindo contra meu corpo.

Das ironias da vida, meu Yogi deu esse diagnostico sem nem ver nenhum exame. Para ele eh de fundo psicosomatico , mas que eu preciso tratar do orgânico e depois e junto do resto. Do lado positivo eu fui aceita para fazer mestrado na LSE de Antropologia da Aprendizado e da cognição.

A equipe aqui eh um doce. E eu serei eternamente grata a cada enfermeiro, assistente de enfermeiro, faxineiro, medico, nutricionista que não apenas me atenderam mas que me fizeram sentir da melhor forma possível num hospital sem saber o que eu tinha.O choque eh você entrar achando que não tem nada e ter. Depois eh torcer pelo menos pior. Coloca-se as coisas em perspectiva, e faz repensar a vida. Aceitei e sou grata a cada prece e pensamento positivo que tenho recebido de muçulmanos, espiritas, católicos, budistas, yogues, adventistas, agnosticos e ateus. Hoje sou capaz de compreender não só intelectualmente mas emocionalmente por que os dervixes viram, porque os muçulmanos se abaixam 5 vezes, porque tem que vá a missa. Indepentemente de se acreditar em deus ou não, nesse momentos da uma forca enorme pensar no seu poder próprio de mudar as coisas, e da mais conforto ainda saber que os que crêem um pouquinho e ate os que nao creem se manifestam.