Onde Andaras?

Estava colocando fotografias on-line, quando de repente me deparo com uma foto de um amigo, desses de viagem, com quem subi o Wayna Pichu. Como eu já escrevi aqui antes, fui a Bolívia por causa da Vesna, fui junto do meu amigo Sho, mas como ele tinha menos tempo do que eu para viajar nos separamos no terceiro dia já em La Paz ( depois da saga Santa Cruz- La Paz by bus). Sho desceu rumo ao Salar do Uyuni no Sul da Bolívia, e eu decidi cruzar a fronteira para o Peru.

Fui sozinha, e mais uma vez fui enganada pela companhia do ônibus que me prometera um ônibus que não existia. Aquela velha estoria, eu queria um ônibus com banheiro, a mulher me garantiu que tinha, e naturalmente não existia. A esta altura eu já tava acostumada. Viajei do lado de um Sueco que tinha estado nos lugares mais inóspitos do mundo. Dentre eles Afeganistão ( onde ele inclusive havia sido preso aos 18), Ruanda e Burundi (onde ele pagou o exercito para poder viajar e ter mais “segurança”),e mais alguns outros lugares de que já nem me lembro mais. O cara era muito simpático, e dentre as pessoas que eu conheci continua sendo ate hoje o viajante que esteve em mais países.

Acabei chegando na rodoviária de Cuzco muito mais tarde do que eu imaginava. A chegada inesquecível, com um monte de vendedores, e agentes de turismo gritando a toda altura para tentar te convencer a ir com eles. Eu, preparada, ja tinha reservado minha pousada, e deveria estar sendo aguardada. E claro que não os encontrei. A essas alturas, depois de um monte de horas em um ônibus desconfortável, resolvi correr um risco, resolvi ir com uma agente dessas gritantes. Escolhi uma mulher que eu achei de cara confiável e fui. A mulher de quem tbm já não me lembro o nome era ótima, e acabou meu ajudando em tudo que eu precisei.

No dia seguinte, resolvi ir conhecer o vale sagrado, peguei uma dessa excursões, e levei comigo dinheiro mais do que necessário para passar o dia fora. Passeamos por lugares lindos, subimos e descemos ruínas, e mais ruínas, e eventualmente paramos num desses mercados peruanos. Eu nao sou nem um pouco consumista ( voltei do marrocos sem trazer nada!), nao gosto de fazer compras, mas fiquei encantada com as coisas do tal mercado. Acabei comprando um tapete ( que alias me salvou do frio na Bolívia mas isto eh uma outra estoria), e umas pinturas. Naturalmente, sem saber ainda muito bem a conversão, sem ter nenhum lugar que aceitasse cartão, acabei voltando para o ônibus sem nem perceber que estava sem nenhum tostão.

Quem me salvou foi uma senhora Peruana, que me deu ( quer dizer emprestou pq eu a encontrei para devolver no dia seguinte) dinheiro para comida, e para pagar a entrada de algum lugar. Mais tarde eu a reencontraria em Aguas Calientes onde ela mais uma vez agiria com um anjo da guarda para mim. Isto também fica para um outro post.

Enfim, o fato eh que eventualmente eu cheguei no Machu Pichu e conheci um bombeiro de brasília que me convenceu a subir com ele o Wayna Pichu ( montanha mais alta que fica ao lado do Machu Pichu). Ao passar pelo portão que nos levaria a montanha tivemos que assinar uma lista. So depois eu ficaria sabendo que era para conferir que ninguém tinha caido. Fomos conversando sobre musica, se nao me engano ele tocava trompete, sobre a viagem dele pela america latina, ele pretendia chegar ate a América Central. Ele bombeiro florestal, tinha chegado ao Macchu Pichu seguindo a linha do trem. Estava com os pés doloridos por causa das pedras, mas cada real economizado, seria um km a mais na sua viagem. Sei que subimos, ate a ultima pedra, e vimos la de cima o Machu Pichu. Vimos la de cima uma das mais belas vistas que eu já vi.

Sentamos, apreciamos a paisagem, mortos de sede, esperando que quem sabe uma Cholita aparecesse milagrosamente de algum lugar 🙂 Depois disto nunca mais nos vimos. Nao me lembro o nome dele, ainda que esteja na ponta da língua, e ao ver essa foto hoje tive que pensar sobre isso. Como as coisas são inusitadas. As vezes dividimos momentos preciosos com perfeitos desconhecidos. E eh impressionante como esses momentos tornam desconhecidos mais próximos do que muitos próximos. Ainda que eu não me lembre o nome, ainda que infelizmente não tenhamos trocado e-mails, ainda que eu não saiba ate que pais ele chegou, eu olho para essa foto e sei que dividimos esse momento. Olho e sei que ele esta la. Sei que na fotografia dele eu estou, como a invisível fotografa, de quem o nome ele talvez também nem se lembre. Olho e fico muito grata por ele ter insistido para que eu subisse ate la.

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