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Sobre julietafalavina

Eu escrevo da minha vida, e agora sobre a minha recuperação da saúde .

Leila- Hammam em Nablus

Leila

E como eu ia fazer para poder conhecer as palestinas? Eu nao sabia muito bem. Tinha tido encontros breves nas vans de transporte. Sempre me surpreendia com o quao politizadas elas eram. Algumas me convidaram para ir a suas casas mas nunca cheguei a ir. Pensando em retrospectiva, nao sei direito porque. Um dia no entanto, tive uma ideia, eu tinha que ir ao hamman da cidade. Em Nablus, a maior parte da semana o Hamman eh so para os homens. No entanto, uma vez por semana,as tercas homem nenhum pode passar da porta.

A saga comecou logo antes: eu precisava arrumar um mayot! Comprei o mais barato, e o que eu achei que me serviria, e ate para os padroes da minha avo eu diria que o mayot era para la de discreto.

Entrei na sala principal do tal hamman, que eu ja tinha visitado antes em dia normal, e vi que o lugar estava completamente transformado. Musica arabe tocava alto, havia mulheres deitadas nas almofadas, narguiles por todas as parte, danca do verntre, aquele grito meio beduino das mulheres felizes, mascaras nos rostos, toalhas, uma verdadeira festa.

Fiquei encantada. Senti me totalmente transportada para um livro. Lembrei do Marrocos. Lembrei dessa sensacao que senti la dos mundos secretos. Timidamente caminhei ate o balcao e perguntei a mulher como funcionava o Hamman. ela me deu varias opcoes e eu acabei escolhendo a que incluia tudo. eu nao sabia muito bem o que o tudo era, mas sabia que queria ver o que aquelas mulheres faziam toda terca feira.

Sem entender muito bem abandonei a sala principal e entrei no Hamman mesmo. Troquei me, e entrei numa sala onde haviam mulheres deitadas no chao. Assim que comecei a andar meu pe comecou a pegar fogo. Uma linda mulher negra deu risada e me pegou pela mao sabendo que eu obviamente nao era dali. Levou me ate onde ficavam os tamancos de madeira.

Eu ri, coloquei o tamanco e tentei me equilibrar nele. Sem saber muito bem o que fazer fui entrando, entrando ate chegar numa salinha que era uma sauna a vapor. Sentei ali sozinha. Sentei fechei os olhos, e sem nem perceber comecei a me alongar. Fazer alguns asanas de yoga sentada de olhos fechados. Quando abri os olhos dei de cara com 3 meninas me olhando.

Leila que tem toda alegria do mundo transbordando de cada poro olhou para mim e disse ” yoga?”. Eu disse que sim. E ela nonpoquissimo que sabia de ingles disse ” you teach I”

E foi asssim que eu fui de nao conhecer ninguem no hamman a passar um dia fascinante com essas mulheres. como eu gostei de Leila. Ela tentava de tudo que era maneira falar comigo, me contar coisas, me ensinar, me fazer perguntas. Apresentava me as outras mulheres, usava o ingles que elas sabiam e o tempo todo gargalhava.

Para mim uma menina. Depois me contou que tinha 7 filhos. 30 anos. Casada com 15. ” I was a child, dont you think?” . Concordei. My mother did not think so. ” no child, get married”.

Perguntei a ela entao se ela faria com que sua filha se casasse com quinze. ” No, 15 child! First university, first carreer! Then get married minimum 23!” e da mais uma gargalhada daquelas contagiantes.

Tamanha eh a sua efusao de energia que as mulheres ali a volta ficam meio apagadas. Apixonei me por Leila queria sabe mais dela. E a lingua que limitava os detalhes. E ela contagiante como era usava o ingles de todos a volta para explicar que uma vez por semana ela ia la esquecer tudo.

Sentamos juntas perto da mulher que faz massagem. As meninas sao todas recatadas. Elas nao se despem na frente das outras. Tudo eh feito com recato, com cuidado para que nenhuma pele que nao deva ser vista seja.

Eu nao entendo as palavras mas eu entendo que Leila quer saber se ela esta bem para 30! Voce acha que eu estou…. Usa os bracos para desenhar um balao a sua volta ” fat?” eu digo? Ela diz oh yes oh yes Fat!

Gargalhamos eu quero dizer a ela que ela eh bonita para qualquer idade. Ela eh uma dessas pessoas que alem de ter os tracos perfeitos, tem nos tracos um molejo, uma alegria uma vida que nem oucpacao, nem sete filhos, nem intifada consomem. Ela eh para mim ali a imagem da mulher na sua maior forca. Eu queria ter podido saber os pewuenos segredos. As pequenas estorias. Em gestos fica difcil.

gesticulo como posso ” is your husband a nice person?”

E ela pausa, olha para mim ” my husband is a very good man, he loves” e num tom crescente diz com a mao desenhando uma escada que sobe ” loves,LOves, LOVES me”.

E vc?, pergunto

Ela levanta a sobrancelha, levantas os ombros e diz em letras minusculas, com os dedos mostrando um pouquinho . ” I love him”

Em seguida da uma gragalhada e conclui “But this is life not a film” e ri um pouco mais.

Ori-Tel Aviv

Ori tem 20 anos. Quando cheguei a Tel Aviv ela que é namorada do housemate do meu amigo Alex passou quase uma semana sem falar comigo. Não é que ela estivesse me evitando. Nao, ela parecia deprimida, no mundo dela. Todos os dias eu chegava e a via sentada no sofá. Muito bonita, muito jovem, ali sem vida, se fundindo ao sofá.

Numa certa noite resolvi sair com Alex, e quando chegamos ao bar no bairro de Florentine em Tel Aviv vi que Ori estava la com seu namorado numa mesa. O lugar era bonito, trendy, um desses lugares que poderia ser em qualquer lugar do mundo. No fundo do bar estavam os amigos do Alex sentados a volta de uma mesinha. Todos eles programadores e meio gênios do mundo de IT. Judeus todos. Alguns Israelenses, a maioria não. Sentei entre um sul africano de quem Alex já tinha muito me falado e Ori. Lembrei me então que Alex tinha me dito que adoraria me ver encontrar o sul africano ja que nos tínhamos, segundo ele, visões politicas radicalmente distintas.

Eu que não queria ter uma discussão virei para Ori e perguntei como ela estava. Ori tem 20 anos e esta no exercito. Ori odeia o exercito foi criada num kibbutz, com valores humanistas, me explicou. “Como é que eles querem que agora eu pegue uma arma?” Perguntei a ela o que ela fazia no exercito e tudo que ela não me disse na primeira semana ela transbordou em mim em uma noite. Ori com 20 anos foi colocada ali na fronteira, perto de gaza e do Egito. Seu trabalho era dar aulas de Hebraico para o pelotão do IDF ( Israeli Defence Force) de Beduínos.

Como assim? perguntei. Ela me explicou que eles são beduínos árabes mas são soldados. “Por que eles não podem ser árabes, e beduínos e israelenses??”Explicou me que apesar deles falarem hebraico eles não sabem ler hebraico. Ori me contou de um homem que assim que aprendeu a ler veio ate a ela gritando ” para que? para que nos temos que aprender isso?”. Percebendo a minha confusão ela explicou. Vc nunca viu escrito por ai “Morte aos Árabes”? Esta por toda parte. Ela dizia em Hebraico, e depois em Inglês. Repetia, com a voz mareada, os olhos sem voz. Eu fiquei quieta so ouvindo.

“Jules you change. Do you have any idea how many times I saw Egypstians shooting at refugiados sudaneses?”. É tanta violência de todos os lados. Voce muda. Seus amigos mudam na sua frente. Eles nao percebem mas eles mudam. EU tinha que sair de la, Eu imporei para sair de la eu estava enlouquecendo. Eu odeio que eles roubem anos da minha vida!”

Percebendo o quão petrificada eu estava, o sul africano ao meu lado disse” Meninas, no serious talk, lets enjoy the night”. Sem querer contrariar nossos anfitriões eu estendi minha mao, segurei a dela num ato misto de compaixão e de nao saber o que fazer. Olhei para ela em reconhecimento, pegamos o copo do que estávamos bebendo, demos mais um gole, empurramos os pensamento de lado como queriam nossos amigos. E sorrimos. Assim é Tel Aviv.

Israa- Hebron/Khalil

Israa tem 22 anos. Eu a conheci na sua casa. Casa que é também de sua mãe, casa e escritório do seu irmão Ahmed que é uns 30 anos mais velho do que ela. Conheci Ahmed numa van, logo na minha primeira viagem pela Palestina. O conheci quando fui de Ramallah a Nablus. Ele que tinha terminado seu doutorado na LSE nos anos 80, ao saber que eu tbm fazia meu doutorado la me convidou para visita-lo em Hebron/Khalil. Percebi que devia ser um homem muito importante pois ele escreveu seu nome pomposamente num papel e insistiu muito para que eu aprendesse o seu sobrenome.

Hebron/Khalil é provavelmente a cidade mais tensa da Palestina. É la que fica o que os Palestinos chamam de mesquita de Ibrahim, e os Judeus “the tomb of the forefathers” ou “cave dos patriarcas”. Hevron é o nome Hebraico da cidade, Khalil é o nome Arabe. A cidade fica na cisjordânia e é lá onde ficam os assentamentos ilegais mais problemáticos da região. A mesquita de Ibrahim é dividida em dois. De um lado passam os judeus para olhar o túmulo de Abraao e Sara, e do lado da Mesquita ficam os muçulmanos.

Só depois que cheguei a casa de Ahmed que pude entender o quão serio era para um homem importante politicamente, e religioso como ele convidar uma mulher viajando sozinha a sua casa. Em Khalil/Hebron as pessoas são muito religiosas, e o controle social é fortíssimo. Na rua da casa de Ahmed mora toda a sua família.

No prédio onde ele mora cada andar mora uma parte da sua família imediata. Logo no primeiro dia conheci a doce Israa. De cara eu me apaixonei por ela. Doce como uma personagem que saiu de um livro romântico de outra era.

Ela me trouxe suco de laranja. Sentou ao meu lado sorrindo sem dizer quase nada. Ahmed contou que ela iria se casar agora em julho. Perguntei a ela se ela estava feliz e ela respondeu apenas “Al hamdu el allah” ( nao sei como se escreve.. mas quer dizer gracas a deus).

Ela não falava muito, por timidez, por não falar muito bem inglês, por ser reservada. Ela no entanto ficava ali do meu lado o tempo todo. Na hora que saímos para ver a famosa mesquita, me entregou uma “head scarf” emprestada para que eu nao tivesse que usar as que eram emprestadas na mesquita. Eu a coloquei mesmo antes de chegar la. Ela olhou para mim surpresa e disse entusiasmada ” you look so beautiful in a hijab!!”. Tiramos uma foto juntas enquanto andávamos pelas ruas cobertas de alambrados. Ahmed falava comigo o tempo todo. Contava me a historia da cidade, e eu tentava prestar atencao mas estava num misto de fascinada por tudo que via, ouvia, com totalmente intrigada pela doce Israa.

Como Israa foi a primeira mulher Palestina que eu conheci cada palavra dela era preciosa. Ela era a primeira porta a um mundo todo secreto para mim. O mundo dos homens tinha sido até então muito mais fácil de acessar. Mas o que será que pensavam as mulheres as mulheres na Palestina? No entanto, nao era apenas isso que me fascinava na Israa. A Israa é especial pela sua pureza, pela sua doçura. Descobri aos pouquinhos, entre palavras quebradas que ela ia se casar com um homem que tinha visto apenas duas vezes na vida. Um homem que mora na Jordania. Fiquei sabendo que depois do casamento se mudaria para la. Eu ja tinha é claro ouvido falar de casamentos arranjados antes, já tinha lido sobre eles, discutido nas minhas aulas teóricas, mas nunca tinha encontrado cara a cara uma menina doce de tudo que ia ser mandada assim para um outro pais sem saber direito a sua sorte.

Passamos por toda sorte de obstáculo. Check points, barreiras de ferro, detectores de metal, meninos do IDF com fuzis… tudo isso para poder entrar na Mesquita. Tirei meus sapatos ainda impressionada com o futuro de Israa. Coloquei uma saia por cima da minha calca para poder entrar na mesquita. Tudo isso em modo meio automático. Eu olhava a doce Israa sorrindo e pensava nela. Ela encantada com a mesquita ficou comigo o tempo todo. De repente me pediu licença para rezar. Enquanto eles rezavam eu fiquei olhando o tumulo de Abraao/Ibrahim. Do outro lado do tumulo eu via uma janela. Do lado de la da janela eu via um judeu ortodoxo tirando uma foto do tumulo. O mesmo tumulo que eu via pela janela do lado muçulmano. Tantos sentimentos misturados. Gratidão por poder ver tudo isso, tristeza de sentir na pele toda essa separação, mas acima de tudo preocupação pela pequena Israa.

Saimos da mesquita caminhando pelo centro comercial de Hebron. Todas as portas fechadas. Ahmed me explicava que por causa do perigo, dos ataques do IDF o comercio nao funcionava mais ali. Eu caminhava embaixo da rede de arame vendo tudo que foi jogado la de cima. Via crianças brincando. Sentia o clima tenso no ar. Arames farpados por toda parte, soldados Israelenses que sorriam para mim. Jovens e simpáticos comigo. Via trabalhadores de ONGS, tiros nas paredes, amêndoas verdes a venda e de repente a doce Israa ficar para trás.

Depois a vi reaparecer com uma pequena pulseira na mão. Um presente para mim por trazer a ela tanta alegria. Ali bem em frente a rua bloqueada aos palestinos porque virou um assentamento ilegal judeu no meio da cidade eu coloquei o meu presente no broca. Ali vendo tiros nas paredes eu olhei para essa doce menina e desejei a ela em silencio do fundo do meu coração toda a felicidade do mundo.

No meu ultimo dia em Hebron eu perguntei a ela minha primeira pergunta mais uma vez. Israa voce esta feliz de se casar ? Depois de poucos dias de amizade, de poucas palavras e de enorme empatia ela respirou fundo, olhou no meu olho e disse “eu rezo a deus que tudo saia bem. eu estou feliz e ao mesmo tempo aterrorizada.”

E eu me peguei dizendo “Nao se preocupe, vai ficar tudo bem! Insh’allah! Mas se esse teu marido nao perceber a mulher maravilhosa que vc é e nao te tratar como uma princesa vc me liga, me escreve e eu vou la! :)”

Rimos as duas na cozinha sabendo que eu nem ela tinhamos controle nenhum sobre o futuro. “Sim, voce vem!” Ela concordou dando risada. “Thank you Julieta!” E me abracou. Senti no abraco dela um enorme carinho, uma certa gratidao, por nada alem de eu estar ali e colocar em palavras o medo do futuro, do incerto. Um medo que no fundo é de todos nós.

Narrativas alternativas

O meu doutorado, aquele que eu abandonei, era para ter pesquisa em Jerusalem com criancas judias e palestinas numa escola de coexistencia. Nao, eu nao sou Judia, e nem tampouco Arabe. Como foi que eu fui parar nisso? eu já nao tenho a menor ideia. O que eu sei é que hoje em dia eu tenho uma relacao de amor e odio com o oriente medio. Essa alias é uma relacao muito comum. Dificil viver la, mais dificil ainda imaginar que para la nunca mais se volta. Na primeira vez que eu fui a Israel quem le meu blog deve se lembrar que eu fiz couchsurfing o tempo todo. Dessa vez, eu fiquei na casa dos ex -desconhecidos e agora amigos em Israel, e passei um mes ficando na casa de entao desconhecidos e agora tbm amigos na Palestina.

Quem tem amigos em Israel pode imaginar o tipo de reacao que eu recebi quando disse que ficaria na casa de estranhos pelo couch surfing na Palestina. De previsao de “harrassement” a morte. Se vc esta lendo isso faça o seguinte experimento: escreva “brazilians” no google images, depois “palestinians”, depois “israelis”. Assim como brasileiros nao sao so praia e futebol e carnaval, na palestina nao ha so criancas machucadas, “terroristas” e tao pouco em Israel é so soldado do IDF.

Eu cruzei o muro. E como eu falei no ultimo post os muros tem aquele poder de deixar a gente ficar imaginando as imagens do google como representativas. Eu escrevi muito do que me aconteceu aos meus amigos, e como me tem sido pedido muito que eu escreva aqui vou tentar revisitar o que escrevi, o que vivi, para trazer as narrativas alternativas. Eu aviso desde já que essa viagem é meio sem volta… nada é mais branco no preto. Nao ha nada de coerente por aquelas terras…. alias será que existe algo de coerente na humanidade? Eu sofri e sofro por ter amigo dos dois lados. No entanto acho que as estorias tem que ser contadas. As estorias tem poder pois elas nos lembram da humanidade que o muro tenta apagar.

Eu estou para embarcar para India e vou viajar com um Israelense que eu conheci na comunidade da India do Couch Surfing. Meu teste inicial a ele foi contar que tinha passado um mes no west bank. Se o cara fosse um total radical ja se desculparia e discretamente nao falaria mais comigo. No entanto, ele se mostrou interessado. Ele se emocionou ouvindo minhas estorias. Filho de mae iraniana e pai iraquiano tao pouco pode jamais voltar a casa da mae no Iran. Ele tem amigos palestinos de nablus que trabalham ilegalmente em Israel. Fiquei surpresa. Como assim? Um judeu Israelense com amigos Palestinos muculmanos ilegais? No entanto, ele entende, talvez isso de ter uma casa para qual nao possa voltar o faca o compreender. Nao sei. Como as pessoas reagem as coisas é sempre um mistério.

“Podemos ser amigos mas só até um certo ponto porque na verdade é muito dificil para eles serem eles mesmo aqui. vc nao imagina como é dificil. Eu odeio politica. Meus amigos de esquerda, que sao super contra a ocupacao so querem falar do conflito mas quando eu trago meus amigos palestinos eles nao sabem como trata-los como humanos!. O mais basico eles nao sabem! Voce nao pode imaginar!” Eu expliquei que posso, que imagino que senti na pele.

Esses dias um dos amigos dele foi pego sem documentos. “Oque vai acontecer com ele?” perguntei. Ser preso, deportado, mas depois ele volta. Nos ate temos uma brincadeira. Ele sempre me diz que o bom de ele ser preso é que ele pode trazer comida que presta de Nablus para eu comer porque a mae dele cozinha melhor do que niguem. E isso é o que me quebra de vez, ele nem se revolta.”

É isso eu vou tentar escrever aqui sobre esses mundos secretos. O mundo das mulheres que eu conheci no Hamam, o mundo dos religiosos que respeitaram a minha falta de fe, o mundo dos meninos entediados em Nablus, o mundo dos meus amigos israelense que tem medo, que tao pouco querem ser odiados no exterior, ou tao pouco adorado por fascistas, o mundo da depressao dos soldados do IDF que se justificam o tempo todo. O mundo das pessoas que dizem as coisas mais chocantes, mais abusrdas, mas que no fundo como todos nos mudam de pensamento, tem varias narrativas. Um mundo que nao é esse das imagens do goodle. Se vc quer saber um pouco mais da complexidade de ser humano no oriente medio, assim vista por uma nao expert nao judia, nao arabe, nao inglesa, nao americana… uma brasileira a passeio, venha aqui e leia. Eu nunca achei que o que eu ecrevesse tivesse importancia. Sempre escrevo por escrever, mas essas estorias eu acho que tem que ser lidas. As vozes dessas muitas pessoas que as vezes dizem coisas brancas, ou pretas mas na maior parte do tempo vivem no cinza. Essas estorias tem que ser ouvidas. E ja que a historia nao envolveu minha familia nem o meu pais nessa politica eu acabo tendo um acesso a informacao realmente invejavel. Se quiser venha, eu prometo que conto os segredos que eu descobri da nossa incoerente humanidade, mudo os nomes, mas mantenho as vozes.

Muros

Estou em Berlin com meus pais. Vim encontra-los para passar um final de semana. A vida de morar longe tem sido assim. Nos encontramos no Brasil e em finais de semana por cidades espalhadas na Europa. Meus pais sao um milhao de vezes mais atleticos e mais em forma do que eu. Fico exausta. Agora que viraram especialistas em viagem, viajam com malinhas minusculas, 8 kg cada um, calcas com muito bolsos e todo equipamento possivel e imaginavel. Enfim, estamos em Berlin, eles sairam eu fiquei. Tenho que terminar de corrigir os papers dos meus alunos. Minha mae antes de sair vem me mostrar o muro que separava berlin oriental de ocidental no mapa. Acho que ja expliquei antes aqui o quanto minha mae gosta de mapas, e o quanto isso virou parte da minha vida. Olhei o mapa, um muro todo recortado. Como é diferente ver um muro num mapa, e um muro cara a cara.

O muro no mapa parece uma piada. Como assim alguem inventa de colocar um muro? Uma fronteira? quase sempre totalmente arbirtraria num lugar onde as pessoas antes viviam juntas. Eu ja tinha visto o muro de Berlin antes mas nunca com tanto sentimento como quando dei de cara com ele ontem. E é claro que o muro de Berlin agora destruido, agora imaginado por todos como um verdadeiro absurdo me leva direto para o muro construido, e sendo aumentado em Israel e na Palestina. Olhei para o muro aqui e fiquei pensando sera que algum dia o de la cai? Minha mae diz que sim, “eh assim sempre.. desde a pre-historia, nos provavelmente nao vamos ver, mas essas fronteiras aparecem e desaparecem”. É mais uma dessas coisas que se ve em mapas. Basta olhar mapas antigos da Europa para ver o quanto cresceu, diminui, desapareceu , cresceu de novo por exemplo a Polonia.

Agora o muro cara a cara… o muro cara a cara nao permite ver o outro lado. O outro lado fica sempre imaginado. No caso da Palestina e Israel ele possibilita que as pessoas se imaginem como totalmente distintas. Quando eu fui de Nablus a Belem com 3 amigos Palestinos que me ofereceram carona, meu amigo italiano que vive em Beit Sahour quis nos levar para ver o muro. Dois dos meus amigos Palestinos nunca o tinham visto pois sempre ficam em Nablus. Andamos ate o muro e vi as pinturas. Muitas feitas por turistas que cruzam o muro e voltam para dormir em Israel.

Olhei para o muro e comecei a chorar. Nao que eu quisesse. Mas o muro ali concreto na minha frente era a separacao dos meus amigos israelense e palestinos. Meus amigos tao parecidos, com mesmos interesses, que num mundo distante talvez fossem amigos. Ali nao. O muro nao permite. O que me levou tempo para perceber é que o muro nao permite nao apenas o encontro fisico. O que é pior do muro é que ele nao permite o encontro imaginado. O que ele permite é que esses dois grupos de amigos meus nao se imaginem como parecidos. E para eles é importantissimo se imaginar distintos.. afinal como é que vamos fazer tudo que fazemos se aceitarmos que nao o somos. Nao que antes do muro eles nao se imaginassem distintos. No entanto sem muro é mais facil de perceber que nao somos.

Aime Cesaire, poeta, escreveu livro curtinho “Discours sur le colonialism”… aqui

que é sobre a Europa e o colonialismo. Um livro pequeno e poderoso. Começa por dizer

A civilization that proves incapable of solving the problems it creates is a decadent civilization.
A civilization that chooses to close its eyes to its most crucial problems is a stricken civilization.
A civilization that uses its principles for trickery and deceit is a dying civilization.

Uma das coisas que eu achei mais tocantes nesse livrinho é que para cesaire atitudes barbaras so podem ser praticadas quando o opressor comecar por se desumanizar. So assim ele pode desumanizar o outro. Muros tornam esse processo mais facil. Se voce nunca tem que encontrar com o outro. O outro pode ser qualquer coisa que te contem. Provavelmente por razoes evolucionarias de gostarmos mais de membros do nosso grupo do que do grupos de fora isso seja tao facilmente fomentado.

Eu tenho amigos dos dois lados do muro. Amigos que eu amo. Amigos que se sentem ameacadissimos por eu ter amigos dos dois lados.

No dia que eu fui ao muro da separacao eu chorei. Acho que ja fazia tres semanas que eu estava na Palestina. Eu é claro ja tinha visto o muro antes. Eu o tinha cruzado para ir a Palestina. No entanto, quando eu o cruzei pela primeira vez eu estava assustada demais com o possivel perigo que eu encontraria do outro lado tao avisado a mim pela midia, pelo meus amigos Israelenses que eu nao prestei muita atencao ao muro em si.

Semanas depois, centenas de conversas depois, vendo infinitas criancas brincando, e pessoas vivendo o seu dia a dia o melhor que conseguem em frente a uma ocupacao. Dezenas de conversas depois com homens e mulheres por todas a partes, noites e mais noites dormindo na casa de Palestinos que fui encontrando pelo caminho voltar ao muro doeu.

Andando lado a lado aos meus amigos palestinos, entrei dentro do corredor de ferro, o famoso check point. Senti me como um animal numa jaula. Meus amigos palestinos me consolavam. “Um dia vamos viver todos juntos”. Meus amigos Israelense diziam que queriam que nao foisse necessario: mas é. E nao adianta eu dizer que apesar de eu achar que o medo deles é real nao sei se é representativo da realidade.

Ta certo que vindo da America do Sul o tanto de morte que acontece num final de semana em sao paulo, e rio juntas deve “trump” o numero de mortos no conflito palestino israelense dos ultimos 10 anos. Enquanto eu estive no Oriente Medio eu mandei emails aos meus amigos dos encontros que tive. Contei o que foi me acontecendo que nunca é tao branco no preto como os simplistas gostariam de imaginar. As mil divisoes religiosas, politicas e economicas que assola os dois lados.

Pensei no “Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil ” da Hannah Arendt. Nesse report ela analisa como para as grandes tragedias da historia ( em especial o holocausto) acontecerem nao sao necessarios muitos sociopatas ou pessoas crueis.. mas simplesmente pessoas ordinarias que aceitam as premissas do estado e que portanto participam nas suas acoes achando as normais. Eichemannn foi o homem que coordenou os trens que levavam os judeus ( e outros) aos campos de concentracao. No seu julgamento ele disse que estava apenas seguindo ordens.

Quantas vezes eu nao ouvi meus amigos Israelenses me dizerem a mesma coisa. Algumas vezes um amigo meu Israelense que se opoe a ocupacao e quase a toda politica israelense perguntou nos check points sobre o livro de Eichmann, e algumas vezes os jovens soldados responderam que sim, que achavam o livro brilante. Meu amigo algumas vezes apontou para o cehck point,e para o muro. ” No but is differente we need it” respondiam os meninos de 18 anos munidos de armas poderosas, justificativas burocraticas, e o poder de parar qq pessoa pelo tempo que quiserem. Dar tanto poder a um jovem, Poder sobre a vida de um outro que morar do outro lado do muro é violento para os dois lados.

Pensei entao no Stanford prison Experiment . Experiemnto conduzido em Stanford Uni para avaliar os efeitos psicologicos de tornar pessoas guardas e prisoneiros. O experiemnto foi um desastre e teve que ser interrompido. Lembro de ver um depoimento de alguns dos participantes. Lembro de um participante que tinha sido escolhido para ser prisioneiro dizer ” Fico feliz de ter sido escolhido para ser prisioneiro, eu nao sei o que faria se tivesse poder, ia ser bem mais dificil de viver comigo mesmo depois se eu me descobrisse capaz de abusar do poder como eu provavelmente absusaria”.

Muros fazem com que essas decisoes tomadas pela instituicao fiquem mascaradas. A nossa responsabilidade como individuos fique apagada. We follow orders. E se nos nem se quer temos que ver ( e ver nao como eu vi o muro a primeira ver, ver como eu vi na segunda) como vivem os ourtos ali do outro lado do muro. Se nos nem se quer enxergamos mais a surrealidade de um muro, evil com toda sua banalidade fica ainda mais possivel.

Aulas

Alguns meses atras eu me inscrevi para ser seminar leader de um curso da Birkbeck. Havia tres opcoes Pyschological Approaches to Social Conflict, Sociological Approaches to Social COnflict e Political Approaches to Social Conflict. Achei que seria muito dificil me chamarem afinal eu nem terminei ( e agora nem vou terminar ) meu doutorado. No entanto, achei que se me chamassem, seria para uma das duas primeiras aulas…. como a vida sempre surpreende eis que me chamaram para a aula de politca.

No comeco fiquei meio insegura afinal de contas, apesar de eu ter feito um monte de aulas de ciencia politica e politica internacional essa nao eh minha especialidade. Encontrei com o professor que na verdade eh da SOAS e quando vi o syllabus fiquei bem tranquila. Os topicos eram liberalismo, feminismo, Marxismo etc. E como a classe era para undergrad nao havia nada de muito complicado.

Alem disso, a unica coisa que eu tinha que fazer era guiar o seminario depois deles terem visto a aula. Em outras palavras faze-los falar sobre o que eles tinham aprendido. Tanto eu como o Kevin estamos muito mais interessados em saber o que essas pessoas pensam depois de ter ouvido o que pensava Stuart Mill, our Marx do que te-los repetirem o que os famosos e debatidos pensadores pensam ou nao.

Na Birkbeck ha muitos alunos que ja sao mais velhos. Eu nunca na minha vida imaginei que eu fosse ficar tao interessada, e tao fascinada pelas discussoes que eu fomento toda terca-feira, e quarta a noite.

Alem dos alunos serem mais velhos eles tbm vem de tudo que eh lugar no mundo. Ha muitas mulheres africanas no meu grupo e elas tem sido uma verdadeira fonte de aprendizado. Acho que quem ele esse Blog deve ter uma ideia que eu nao sou muito a favor do total relativismo cultural, mas tao pouco assino embaixo do universalismo com apolitico. Essa aula tem sido incrivel por isso.

Semana passada o topico que sempre aparece nas minhas aulas de faculdade nos eua, na holanda, aqui apareceu: circunzicao feminina. Nas minhas aulas eu li muito sobre isso mas nunca tinha tido representantes circuncizadas presentes. E eis que a conversa comeca de cara com uma mulher nos seus 40 dizendo que era circuncizada sim e com muito orgulho.

Eu comeco sempre explicando o que eu acredito mesmo: que quanto mais eu viajo mais parecidos eu acho que somos, e cada vez mais eu me humildeco ( existe?) com a generosidade e sabedorias das pessoas de lugares que eu nao compreendo muito bem. Perguntei entao: Porque ela se sentia orgulhosa

” Por que eu me sinto bonita!”

De todas as respostas do mundo essa era a ultima que eu imaginava escutar. Uma africana do outro lado da sala gritou.

” Mas voce foi forcada a fazer isso, agora tem mesmo que achar bonito!”

” Imagina, eu tinha 17 anos fui porque quis!”

Eu ponderei e contei a elas o caso de uma amiga minha muito bonita que ja fez nao sei quantas plasticas no brasil para se sentir bonita. Varias anestesias desnecessarias, alergias a medicamentos… mas ela sempre me explica que faz por que quer.

Ponderei que sempre que achamos que temos uma escolha temos que parar e pensar ” Se eu nao fizer isso minha vida na sociedade vai ser mais dificil? vai ser mais dificil de casar, ter namorados? arrumar emprego etc etc etc?” e eh claro que ha niveis, mas se a resposta for sim, provavelmente quer dizer que isso nao eh tanto uma escolha, mas mais uma pratica a qual fomos socializados e acreditamos estar escolhendo. Mais ou menos como usar roupa.

A mesma mulher que tinha se oposto a circuncisao gritou ” voce acha que escolhe, mas eh porque todo mundo faz na sua sociedade”

E entao uma mulher muito quieta la do fundo da sala disse ” No meu pais, a circuncisao foi proibida e sabe o que nos meninas fazemos? Nos viajamos para Burkina Faso e fazemos la!”

Os europeus da sala ficaram de queixo caido. Uma outra mulher ainda tentou ” acho que isso tem a ver com o fato que mulher ter prazer eh tabu”

Ao que a primeira respondeu ” Eu tenho muito prazer! Quem sao voces para decidir como eh que eu sinto prazer e experiencio amor?” disse e deu uma gargalhada.

Toda quarta feira agora eh assim. Tudo que eu aprendi de ler de em etnografia eu to podendo verificar first hand 🙂 E como eh fascinante ver que somos tao parecidos and yet tao diferentes.

ps: da proxima vez eu prometo que falo sobre a discussao sobre feminismo e poligamia.

Migalhas de Sentido

Chegou aquela época do ano que eu fico ocupadissima fazendo nada 🙂 Nos últimos 4-5 anos eu sempre trabalho durante um mes manha e tarde de vigia de prova na universidade. Quase que todos os outros vigias que estao a todo esse tempo sao estudantes de doutorado. Assim que uma vez por ano nos encontramos para lamentar sobre nossa vida acadêmica.

Esse ano entrei no elevador e logo no primeiro dia dei de cara com o Karim (de quem alias ja escrevi aqui). Karim eh argelino e ta fazendo doutorado de economia desde que eu o conheço.

“Karim, larguei meu doutorado!”

Ele olhou para mim sorrindo, ja com a barba mais para branca do que ruiva, ja com sinais bem mais marcados no rosto, e com um olhar ainda mais cansado do que o olhar dos últimos cinco anos.

“Good for you Jules. Better to finish with it than to let it finish with you.”

Eu ri. Assim com sempre rio quando encontro alguem que ta penando ha mais de 5 anos me dizendo que nada disso vale a pena. Eu discordo. Digo que vale a pena para alguns. Meu amigos doutorandos suspiram e dizem que gostariam de ter tido a coragem de largar tudo bem mais cedo. Ja os meus amigos de mestrado e faculdade agem radicalmente diferente. Eles me olham com pesar. ” Voce tem certeza ?”. Eu explico que tenho certeza hoje. Amanha, amanha eu nao sei 🙂

Karim foi também a primeira pessoa com quem trabalhei de vigia. Na época eu carregava comigo o Lonely Planet do Marrocos. Ele o notou mas nao disse nada. No ano seguinte, eu trazia comigo o guia da India. No terceiro ano, quando encontrei Karim no corredor ele me perguntou rindo de que pais subdesenvolvido eu esta carregando o guia desta vez? Abri a bolsa e mostrei que nao havia nenhum, depois confessei: que meus guias do camboja e do laos estavam em casa. Karim riu.

Quando encontrei Karim no elevador esse ano comecei dizendo. ” Karim I quit my PhD. La da Palestina eu percebi que nao fazia sentido nenhum!”

“So you have finally gotten tired of travelling these places?”

“Of course not, maybe i ll be tired next year when I am back from wherever it is that i go in asia”

Ele olhou para mim sem compreender muito bem. Abri minha bolsa e mostrei o guia da India e da China.

” Are you going back there?” ele perguntou incrédulo.

E eu pude explicar que sim. Dessa vez eu vou como sempre sonhei em ir. Com uma passagem que chega em Delhi em Agosto, e sai de Bangkok em Abril. Sem muito dinheiro, sem voo que me leve da India a Tailandia. Sabendo que eu nao posso cruzar por terra Burma. Que talvez eu possa cruzar do Nepal ao Tibet se a China deixar. Cruzar a China ate chegar ao Vietnam, depois cruzar o Laos ate chegar de volta a casa em Non Khai na Mut Mee. Sabendo que eu posso mudar tudo isso pelo caminho e que na verdade nem se quer preciso voltar em Abril. Eu hei de ficar frustrada, ter diarreia, ficar cansada, nao entender nada, voluntariar pelo caminho, dar aula em algum pais asiatico quando nao tiver dinheiro, couchsruf, sentir enorme solidao…. Mas a antecipacao de encontrar por ai migalhas de sentido, sorrisos em outras linguas, meta-representacoes diferentes da nossa inerente universal humanidade faz com que eu me sinta ja incrivelmente grata por poder passar por todas essas pequenas confusões.

O Medo

Meu housemate Shane acabou de partir. Celebramos sua partida o final de semana inteiro afinal hoje ele voltava para a Adelaide, Australia onde eu morei quando tinha 15 anos. Nao faz muito tempo que eu escrevi aqui sobre o ano novo chines que celebrei aqui em Londres.

Naquele dia sentados a volta da mesa fizemos o ritual do tolkien of speech que eu aprendi na minha despedida do brasil. Quase que todos ali em volta da mesa falaram da incerteza do futuro. Chi, meu couch surfer Chines, tinha completado um ano de viagem… e seguia rumo a Madagascar. Shane falava da sua volta incerta a Australia, eu da minha possivel mudanca para fazer trabalho de campo em Israel. Naquele dia, tudo aquilo trazia um pouco de ansiedade enquanto ao mesmo tempo parecia tao longe.

Hoje eu acordei depois de passar apenas duas horas dormindo. Acordei porque o futuro tinha chegado no presente. O Shane estava indo embora. O Chi que eu acompanho pelo site do couchsurfing e por trocas de email esta agora na Uganda e eu, que acabo de voltar da Palestina, abandonei meu doutorado.

Lembro que naquele dia sentada em volta da mesa Chi disse que descobriu um dia que precisava sair por ai ate encontrar um lugar. “Nem todo mundo eh assim” ele explicou. Quando eu finalmente mandei meu email final de Beit Sahour na Palestina para minha supervisora explicando que dessa vez nao tinha volta eu estava de fato abandonando meu doutorado senti um misto de desespero com alivio. O que é mesmo que eu faço agora?

Mas se tem uma coisa que eu a medo que meus amigos israelenses sentem nao permite que eles descubram que os meus amigos palestinos ali do lado do muro tem as mesmas duvidas, as mesmas insegurancas, as mesmas ansiedades e alegrias. Ter amigos dos dois lados do mundo é subversivo pois confronta os dois lados com a obvia humanidade.

Antes de eu cruzar o muro para couchsurf na Palestina meus amigos Israelenses ficaram aterrorizados. “Vc ta louca? Vc quer ir ficar na casa de um estranho palestino em NABLUS? Voce realmente nao quer voltar viva!”. Confesso que vez ou outra senti medo antes de ir. Parei e pensei “sera que eu estou me colocando em risco desnecessario?”. Esse simples pensamento me assusta, se eu nao tivesse cruzado o muro, se eu nao tivesse ido a casa de estranhos que conheci pelo caminho eu teria acreditado no que a midia, e os governos e todos esses orgaos manipuladores nos querem fazer acreditar. Que o diferente é perigoso. Que é melhor ficar no nosso proprio grupo. Que aquele povo de la nao está preprado para democracia, ou nao entende nada de direitos etc etc etc. Que eles nao sao como nos.

Medo faz isso. Nos congela no tempo e no espaço. Nos torna menos empiricos, e mais generalizadores das situações. Faz com que ideias como “preeventive strikes” sejam apoiadas. Medo nos faz ficar nas nossas “nao escolhas” por medo que a alternativa possa ser pior.

Mudanças são ao mesmo tempo aterrorizantes e libertadoras. Dizer adeus ao meu amigo Shane foi meio aterrorizante. Nessa vida de cruzar tantas fronteiras nunca se sabe quem se encontra de novo. Abandonar a minha nao escolha de doutorado pela verdadeira escolha de nao faze-lo por nao acreditar na minha pesquisa depois de ir ate a Palestina foi libertador. Muito libertador. Quando o carro que levou o Shane agora ao aeroporto desapareceu no horizonte me deu um certo medinho. Tudo bem a gente respira fundo, e lembra que a vida nao é estatica, que é tudo em movimento, e não adianta ficar se segurando no que está passando. Respira fundo e tenta soltar nas lagrimas e no ar o que no fundo sabemos nao faz sentido nenhum.

Firaz

Firaz tem 22 anos. Quando cheguei a Nablus na Palestina entrei numa casa meio que surreal. Tinha vindo de minivan de Ramallah cidade que serve temporariamente como capital administrativa da Palestina. Quando o taxi me deixou no endereço que Sam meu host tinha explicado por telefone ao senhor Palestino que sentou ao meu lado na viagem (e nao partiu sem antes ter certeza que eu estava dentro de um taxi indo na direcao certa) Firaz veio falar comigo. “Are we looking for you?”. Eu sorri e disse que nao sabia. “ Are you here for Sam, right?” Eu estava, Sam era meu host do couch surfer em Nablus. Cruzei a rua, entrei num prédio e segui Firaz, e outro rapaz, Yahya 25 ate o segundo andar. Entrei , cruzei o corredor entrei num sala com muitas cadeiras e uma mesa cheia de uma variedade de frutas, e então me levaram a um quarto.

Senti me meio que como num filme em algum lugar meio alem da realidade. No quarto, havia umas cortinas amarelas que davam uma luminosidade toda especial. Uma cama enorme onde Sam falando no telefone estava sentado. A volta varias cadeiras, 6 laptops, muitos telefones, varios meninos, e uma menina. Lorna, 23, tbm couchsurfer me ofereceu café. Sentei e de repente apareceu um homem trazendo café árabe para mim. Lorna, riu, “ se acostume, daqui para frente eh assim. Eles vão fazer tudo para voce.”

Fui conhecendo aos poucos os meninos. Por alguma razao Firaz veio e sentou se ao meu lado num momento que eu estava sozinha. Contou me sua estoria “ voce sabia, que antes da Lorna vir aqui eu nunca tinha falado com nenhuma mulher fora da minha familia?” Eu nao sabia eh claro. Ele me explicou que as escolas eram todas separadas. “Entao quando ela chegou e falou comigo meu coração bateu forte, e eu não sabia direito o que dizer.”

Lorna rindo disse “ eu disse, tudo bem Firaz eu sei que vc não gosta de mim por isso nao fala comigo.” Alguns minutos depois ele se aproximou dela e disse “ vc ja andou de burro?”. Sua primeira frase a uma mulher tinha sido essa. Lorna contou chorando de rir. Os outros meninos que sempre tiravam sarro de Firaz continuaram rindo. Firaz como sempre nem ligou. Se aproximou de mim e foi contando sua estoria.

Contou do sangue correndo nas veias de nervoso, contou das vezes que nao passou nos exames da escola, contou de ficar as vezes muito deprimido. Para quem nunca tinha falado com uma mulher antes, ele de repente se abriu completamente.

Horas depois quando Firaz que é um devoto muçulmano, descobriu que eu meditava e fazia yoga ficou animadíssimo. Mil perguntas. E eu completamente intrigada por ele querer saber tanto sobre todo esse mundo tao longe de Nablus na Palestina. Brincando disse que eu sabia ler mão.

Peguei a mão dele e no meio de todos comecei a repetir o que ele tinha me contado. “ Firaz estou vendo aqui na sua mao que vc nunca tinha falado com uma mulher, etc, etc”. Eu estava obviamente brincando, e ele meio que percebendo dizia “ isso tudo eu que te contei”

“Voce esta duvidando da minha habilidade, da minha competência de “palm reader”. Os meninos riam, Lorna ria, quando Firaz do nada diz “ por acaso diz alguma coisa ai sobre eu querer me matar?”

Todos os meninos que sempre tiram sarro dele emudeceram. A mao dele na minha e eu sem hesitar sabendo que ele queria falar disso disse naturalmente:

“ Diz sim, diz que vc quando ta deprimido , quando nao passa nos seus exames, quando sofre as vezes pensar em morrer. Mas tudo bem, todo mundo pensa isso de vez em quando.”

Disse isso e continuei lendo o que ele tinha me contado. No final, ele olhou para mim e disse:

“ Voce nao sabe ler mao, vc repetiu tudo que eu falei!”

“Sinto muito eu sou uma ótima palm reader tá tudo escrito ai : )”

“ E tem mais, isso do suicidio eh mentira!”

“Sinto muito Fayez, o que ta escrito ta escrito” disse brincando pois tudo tava em tom de brincadeira.

“Ta bom, eh verdade, mas foi so uma vez”

Eu nao conseguia acreditar que ele estava abertamente falando de algo tao privado em meio a umas 8 pessoas. Eu percebi que ele queria falar disso entao perguntei o que tinha acontecido.

“Uma vez eu quase me joguei de uma montanha, mas ai varias pessoas vieram me salvar.”

“Firaz, como eles sabiam que voce estava la?”

“ eu tinha ligado para um amigo meu. Voce acha que eu sou louco?”

“Firaz vc nao queria morrer. Voce queria ajuda. Voce precisava de atencao e fez muito bem de pedir. Todos nos precisamos de ajuda.”

Assim, foi logo o meu primeiro encontro com Firaz. Fiquei intrigada com sua sensibilidade. Fiquei impressionada com a sensibilidade dos outros meninos que sempre tiram sarro dele mas ali naquele segundo ficaram em silencio respeitando aquele momento. Logo ali de cara, Firaz e eu ficamos conectados. Firaz por ser tao espontâneo me mostrou muito sobre o mode of thinking palestino muçulmano de um menino que nao fala com meninas. Com toda sua sensibilidade me impressionaria muitas outras vezes. Mas eu vou contando isso aos poucos. Levou apenas um encontro para comprovar para mim o que eu ja sabia, que as estorias e imagens que nos contam sobre o jovens da Palestina como violentos, como incapazes de pensamento critico é longe de real. E levou muitos outros encontros para eu ir percebendo cada vez mais o tamanho da generosidade desses meninos que eu encontrei.

No Oriente Medio

Faz tempo que eu nao escrevo aqui no blog. Dessa vez tenho uma razao legitima. Nao foi definitivamente por falta do que dizer. Foi por estar viajando por 6 semanas no Oriente Medio. De la mandei e-mails a meus amigos, mas mesmo esses nao podiam ser escritos toda a hora.

Fui para ficar 6 semanas em Tel Aviv aprendendo Hebraico para ir me preparando aos poucos para voltar em setembro para meu trabalho de campo. Voltei tendo passado quase 4 semanas na Palestina, nao aprendendo hebraico, e abandonando o meu doutorado.

Fazia tempo que eu queria cruzar para o outro lado. Da ultima vez que estive em Israel eu tambem quis, mas alguma coisa me impediu. Dessa vez eu passei duas semanas enrolando mas uma vez que cruzei nao queria mais voltar.

Visitei Ramallah, Nablus, Belem, Beit Sahour, Beit Jalla, Hebron/ Khalil, e Jericho. Fui e voltei diversas vezes a essas cidades ja que tudo eh muito perto. Fiquei na casa de Palestinos que conheci pelo couchsurfing, e ate mesmo em taxis. Nunca senti medo. Nunca fui maltratada. Nunca me senti fora de lugar.

A hospitalidade é aquela lendaria dos arabes. Impossivel de comecar a explicar o tamanho da generosidade que eu encontrei. Emocionei me diversas vezes por nao compreender a existencia do muro. Entao nos meus proximos posts vou contar um pouco as estorias das pessoas que conheci do lado de la. Pela primeira vez nao vou usar os nomes reais das pessoas por respeito as suas identidades ja que naquele lado do mundo tudo pode ter consequencias.