Migalhas de Sentido

Chegou aquela época do ano que eu fico ocupadissima fazendo nada 🙂 Nos últimos 4-5 anos eu sempre trabalho durante um mes manha e tarde de vigia de prova na universidade. Quase que todos os outros vigias que estao a todo esse tempo sao estudantes de doutorado. Assim que uma vez por ano nos encontramos para lamentar sobre nossa vida acadêmica.

Esse ano entrei no elevador e logo no primeiro dia dei de cara com o Karim (de quem alias ja escrevi aqui). Karim eh argelino e ta fazendo doutorado de economia desde que eu o conheço.

“Karim, larguei meu doutorado!”

Ele olhou para mim sorrindo, ja com a barba mais para branca do que ruiva, ja com sinais bem mais marcados no rosto, e com um olhar ainda mais cansado do que o olhar dos últimos cinco anos.

“Good for you Jules. Better to finish with it than to let it finish with you.”

Eu ri. Assim com sempre rio quando encontro alguem que ta penando ha mais de 5 anos me dizendo que nada disso vale a pena. Eu discordo. Digo que vale a pena para alguns. Meu amigos doutorandos suspiram e dizem que gostariam de ter tido a coragem de largar tudo bem mais cedo. Ja os meus amigos de mestrado e faculdade agem radicalmente diferente. Eles me olham com pesar. ” Voce tem certeza ?”. Eu explico que tenho certeza hoje. Amanha, amanha eu nao sei 🙂

Karim foi também a primeira pessoa com quem trabalhei de vigia. Na época eu carregava comigo o Lonely Planet do Marrocos. Ele o notou mas nao disse nada. No ano seguinte, eu trazia comigo o guia da India. No terceiro ano, quando encontrei Karim no corredor ele me perguntou rindo de que pais subdesenvolvido eu esta carregando o guia desta vez? Abri a bolsa e mostrei que nao havia nenhum, depois confessei: que meus guias do camboja e do laos estavam em casa. Karim riu.

Quando encontrei Karim no elevador esse ano comecei dizendo. ” Karim I quit my PhD. La da Palestina eu percebi que nao fazia sentido nenhum!”

“So you have finally gotten tired of travelling these places?”

“Of course not, maybe i ll be tired next year when I am back from wherever it is that i go in asia”

Ele olhou para mim sem compreender muito bem. Abri minha bolsa e mostrei o guia da India e da China.

” Are you going back there?” ele perguntou incrédulo.

E eu pude explicar que sim. Dessa vez eu vou como sempre sonhei em ir. Com uma passagem que chega em Delhi em Agosto, e sai de Bangkok em Abril. Sem muito dinheiro, sem voo que me leve da India a Tailandia. Sabendo que eu nao posso cruzar por terra Burma. Que talvez eu possa cruzar do Nepal ao Tibet se a China deixar. Cruzar a China ate chegar ao Vietnam, depois cruzar o Laos ate chegar de volta a casa em Non Khai na Mut Mee. Sabendo que eu posso mudar tudo isso pelo caminho e que na verdade nem se quer preciso voltar em Abril. Eu hei de ficar frustrada, ter diarreia, ficar cansada, nao entender nada, voluntariar pelo caminho, dar aula em algum pais asiatico quando nao tiver dinheiro, couchsruf, sentir enorme solidao…. Mas a antecipacao de encontrar por ai migalhas de sentido, sorrisos em outras linguas, meta-representacoes diferentes da nossa inerente universal humanidade faz com que eu me sinta ja incrivelmente grata por poder passar por todas essas pequenas confusões.

2 thoughts on “Migalhas de Sentido

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