Aulas de Hebraico

Comecei a fazer meu doutorado. E já que minha pesquisa será em Israel comecei portanto a aprender Hebraico. Aliás, eu deveria dizer que eu me matriculei na aula de Hebraico, e assisti duas aulas. Começar a aprender é sem dúvida bem distante da realidade. Cheguei a minha aula que é no King’s College, logo ali ao lado da LSE e ao entrar na aula me surpreendi logo de cara. Eu imaginei que seria como quando eu fiz Holandes, onde 90% das pessoas que estavam lá, estavam porque tinham um namorado/a ou marido/mulher holandes(a). Hebraico eu imaginei seria uma mistura disso, com alguns judeus que ainda nao falam a lingua querendo aprende-la. Eu estava totalmente enganada. Não que algumas pessoas não se encaixassem nesse perfil. Poucas, havia apenas uma menina judia, e apenas uma outra menina que tinha um namorado Israelense. O resto, o resto estava ali pelas razoes mais variadas possiveis.

Como por exemplo a Nigeriana que é de um Igreja cristã na Nigéria onde tudo é falado em Hebraico. Quando eu expressei minha surpresa, ela explicou que em londres, eles tbm falam em hebraico, e os ritos sao ministrados em hebraico, mas que eles são menos acurados pois tudo é escrito foneticamente usando “as nossas letras”. Na Nigeria, ela explicou, leva-se mais a serio, etnao, é tudo escrito em Hebraico

Tem também o rapaz que começou a estudar Hebraico porque precisava de um desafio. O trabalho, ele explicou, é muito chato. Quando a professora perguntou porque Hebraico e nao alemao. Ele respondeu “porque alemao eu ja sei”. Ela ainda insistiu “mas porque Hebraico?”. Ao que ele respondeu ” Por que nao?”

Depois tem um Arabe que quer aprender Hebraico porque é parecido com Arabe. E a chinesa que mal fala ingles e resolveu aprender Hebraico ( atraves de ingles) porque quando viajou por Israel fez amigos que tiraram sarro dela e ela não conseguiu entende-los. A professora parecia tão supresa quanto eu com esse apanhado de gente e com essas estórias tão insólitas. Tinha é claro, também os que queriam aprender pois trabalham com “war zones” e precisam fazer pesquisa. Overall, não havia muito critério.

A falta de critério pareceu reinar na minha primeira e hoje na minha segunda aula. Depois de nos apresentarmos. A professora resolveu nos ensinar o alfabeto. Eu que não sei NADA achei que eu iria morrer. Nada fazia sentido. Ainda mais quando minha professora dizia coisas do tipo ” Alef na bíblia é escrito assim, em letra “cursiva” é assim, mas eu gosto de desenhar assim :)” Ninguem, parecia se preocupar muito com a falta de estrutura. E quando eu perguntava ” mas porque isso é assim” ela dizia ” bom, a razão mesmo vc so vai entender no terceiro ano”. Sem contar o fato, de que as vogais sao omitidas, portanto vc precisa adivinha-las a partir do contexto da frase. Só imagina como isso não é simples quando voce NAO CONHECE A LINGUA!!!

Hoje minha aula começou meia hora atrasada. A professora estava vindo direto do aeroporto. Para compensar por esse pequeno lapso nos trouxe chocolate Israelense. Um chocolate que explode aos poucos na boca. O chocolate uma delicia, ja o meu progresso….

Adam

“Incrivel, não é?”

Volto a terra e vejo ao meu lado Adam. Eu estava tão concentrada no outro planeta onde eu visitava os monges Etíopes que nem o tinha percebido ali.

“Incrivel!”- concordo.

Seu rosto é muito familiar, e então eu o reconheço. Havíamos nos conhecido na noite anterior. Adam também estava no Couchsurfing meeting onde Netanel meu anfitrião tinha me levado. Ele me pegunta o que eu fazia em Israel. Explico, que tinha vindo para descobrir se queria vir fazer minha pesquisa de doutorado ali em Israel.

Pergunto a ele a mesma coisa. Ele suspira e me pergunta se eu quero mesmo ouvir a estoria. Digo que sim e então ele começa.

“Meu pai era ortodoxo. Depois de servir o exercito foi visitar pela Europa. La conheceu minha mãe, Alemã e Cristã. Já desiludido com a religião, e apaixonado por minha mãe resolveu ficar na Alemanha, casar-se.”

Casaram e tiveram Adam. E quando o menino completou 2 anos o pai começou a sentir falta de Israel, e de Deus. Resolveu que queria voltar a terra santa. Explicou o que se passava a mulher e então pediu a ela que se convertesse e que viesse com ele para Israel. Ela rejeitou.

Nesse momento Adam pausa., me olha longamente e diz: ” Nessa parte eu nunca sei direito se continuo ou nao”. Peço que continue.

“Entao, meu pai, decide falar com minha tia, irma da minha irma e pergunta a ela se ela se casaria com ele, e se se converteria ao judaismo Ortodoxo.. Ela concorda, e então eles se mudam para Israel.”

Eu perplexa, sem palavras, pergunto se sua mãe tinha se sentindo traída.

“Não. Ela ama a minha tia. E assim foi melhor para todo mundo. Minha mãe tem outro namorado. Minha tia teve 6 filhos e é feliz como Ortodoxa, e meu pai está feliz.”

“E voce?”

“Eu vim para encontra-lo depois de 20 anos sem ve-lo. Conhecer meus meio-irmaos que são também meus primos. Senti enorme amor da minha fmailia. Voce quer ver uma foto?”

Claro que eu quero, e entao esse doce menino tira do bolso uma camera. Mexe no botão até encontrar a foto de um homem alegre, com baraba comprida, meio gordo claramente satisfeito de ter seu filho ali (invisivel naquela foto) a sua frente. Apesar de Adam ser o fotografo e não o fotografado a foto mostra de certa maneira a alegria daquele pai que escolheu a religiao aa familia. E Adam, Adam está feliz.

No Telhado da Igreja do Santo Sepuclro

Como eu fico na duvida por onde comecar resolvi comecar assim do meio. Mesmo porque as estorias se confundam na minha cabeça como se fosse um sonho ondes os rostos se misturam e eu já não me lembro mais a ordem dos eventos. E isso tão pouco faz muita diferenca. Entao, eu vou comecar de um momento especial para mim: o telhado da Igreja do Santo Sepulcro.

Já era o meio da minha viagem, e eu estava pela segunda vez em Jerusalem. Voltara para visitar a escola Hand in Hand. Meu novo anfitriao Netanel é um guia turistico que me contou 4000 anos de historia assim numa longa, longa caminhada. No dia anterior, tinhamos ido a um encontro de Couch surfers. La conheci muita gente. Sentamos a volta de uma mesa longa, numa das ruas de Jerusalem. O tempo perfeito. Fresco, com uma brisa leve. Conversei com alguns estrangeiros, alguns Israelenses e depois voltamos para casa.

No dia seguinte, andamos ate o centro historico e la comecamos o nosso tour. Eu ja tinha estado no centro historico mas andando meio sem critério. Mesmo porque confesso, que pessoas me interessam mais do que lugares, entao eu fiquei na minha primeira vez apenas fascinada com aquela mistura de turistas, religiosos de todos os tipos, criancas, gatos…

Com Netanel, prestei atencão no que significavam os prédios, as lendas, as evidencias arqueologicas etc. E ele resolveu me levar não na Igreja do Santo Sepulcro, mas no seu telhado. Subimos e la no telhado era um total silencio. Antes mesmo de saber o que estavamos fazendo eu ja fiquei encantada com a ideia de que debaixo dos meus pes corriam, rodavam, se emocionavam muitos cristaos, muitos turistas, enquanto ali em cima do telhado o silencio era total.

Netanel entao me explicou, que ali em cima do telhado havia um vilarejo Etiope. Eu fiquei boquiaberta. Nao conseguia acreditar. Como assim ? De acordo com Netanel, a presenca do Etiopes dates back ao encontro da rainha e Sheba e o rei Salomao (mais info aqui) O que me surependeu nao foi tanto a razão historica, mas que existisse um vilarejo ali em cima. Andei pelo telhado fascinada, e de repente cheguei a uma porta. Nao era uma porta fechada. Era mais como uma portal, que no meio era dividido por uma cruz verde.

Eu parei e olhei la dentro, que era la fora, porque nao havia telhado. E la no fundo eu via monges negros, etiopes, vestidos de petro, e cores bem fortes. Sentados, em silencio. Eu me senti transportada a outro mundo, outro continente, outro tempo. Fiquei parada la. Nao me escondi. Nao tirei foto. SO fiquei la uns cinco minutos olhando. Um desses presentes inesperados, impossiveis de reproduzir em fala. Senti que enquanto eu olhava tudo meio que deixava de existir. Seria aquilo minha imaginacao?

Um couchsurfer, que eu tinha conhecido na noite anterior, apareceu e ao dizer uma palavra fez com que tudo voltasse ao real. Como no segundo que Fernando Pessoa (Alvaro de Campos) ve um homem entrar na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima dele. O couchsurfer era Adam. Alemao. Que estava na verdade tao encantado como eu. E Adam, aumentaria ainda mais a minha sensacao de que em Jerusalem tudo pode acontecer. Mas eu conto do Adam uma proxima vez para que meu post nao fique tao overwhelming como foi minha viagem.

Couchsurfing em Israel

Nossa, dessa vez eu realmente nao sei por onde comecar. Eu ainda nao voltei para casa. E por casa eu quero dizer Londres. Ainda que cada vez mais o sentido casa se perca de mim. Estou em Amsterda onde vim encontrar a minha avo que aos 86 anos terminava uma viagem pela Polonia, Lituania, Letonia, Estonia, Finlandia e Russia. Eu vim direto do aeroporto de Londres onde passei a noite toda depois de ter voltado de Israel. Sao tantas, mas tantas as emocoes misturadas, que as estorias, os cheiros os os gostos, os rostos se mesclam sem eu sabera onde, ao que e a quem pertencem.

Começou ja no avião. Em Londres, quando as enormes familias de Judeus Ortodoxos por se moverem tanto fizeram nosso voo atrasar mais de uma hora. Ouvi “amused” o piloto avisar take off depois de take off que se todos nao tivessem sentados nao poderiamos decolar. Ja no ar, levantaram. Os religiosos para rezar, as criancas para brincar, e outras pessoas para beber, conversar etc. Eu assisti a tudo isso encantada. Que lugar eh esse pensei?

Eu acho que eu vou precisar de muito tempo e muitos posts para digerir tudo que senti. Talvez seja sabio comecar por explicar duas coisas. A primeira eh que fui para Israel para descobrir se eu gostaria de la viver para fazer a minha pesquisa de doutorado. A segunda, foi que decidi, que a melhor maneira de descobrir isso seria couchsurfing.

Couch Surfing literalmente significa “surfar o sofa”. É uma comunidade, assim como facebook, mas de viajantes. Voce faz o seu perfil e coloca la alem de seus intereses e etc, se vc tem um sofa, ou uma cama, disponível para receber viajantes. Quem não tem cama, ou sofa, pode oferecer apenas um cafe, seu tempo. Assim, que vc entra no site, e procura por continente, pais, cidade pessoas para se encontrar ou para ficar na casa delas durante sua estadia.

Eu ja tinha participado um pouco do CS, mas nunca assim, o tempo todo. Eu resolvi que Couchsurfing seria o melhor jeito de eu descobri como eh morar em Israel pois entrar assim na vida de desconhecidos diz muito. E é claro, que eu escolhi meus anfitriões a dedo. Com alguns eu troco mensagens a meses. Outros foi meio que por acaso.

É o sonho de um antropologo, porque vc entra na casa de uma pessoa desconhecida e tem a chance de viver um pouco da vida dessa pessoa, de ver o lugar onde vc esta através dos olhos dessa pessoa. Tem é claro quem usa o CS so para não pagar hotel, e que quase não passa tempo com seus anfitriões. Não era o meu caso, eu estava menos interessada nos lugares do que nas pessoas. Então pode se dizer que eu passei muito ou quase todo o tempo com as pessoas que eu conheci, ou com seus amigos.

Isso tudo, não é sem preço é claro. Enquanto a humanidade que nos conecta se torna tão evidente, a arbitrariedade dos costumes, do valores não parece menos evidente. Então, assim na casa de pessoas que vivem num pais tão dividido por conflitos étnicos e religiosos eu senti muito. Senti demais. As vezes perdi o fôlego de tanto que eu senti.

Parti me sentindo enormemente grata a todos que me acolheram e que dividiram comigo um pouco das suas estórias, das suas experiências no exercito, na sociedade, nas suas viagens pelo mundo. E como sempre dizer olá para estranhos é fácil, adeus para pessoas que vc começa a amar é bem mais duro. Acima de tudo o mais difícil, é que me parece que para viver por lá eu vou precisar endurecer umas mil vezes. Enquanto que ao mesmo tempo eu fui tratada com uma afectuosidade, e calor raramente encontrado na Inglaterra.

Enfim, nos próximos posts eu vou tentar falar das pessoas que conheci. Das pessoas que me receberam. E das estórias que ouvi. Apaixonei-me pela escola Hand in Hand. E voltei convencida mais do que nunca que pluralidade é importante, e que tolerância é fundamental.

Do Grupismo as Cotas

Acabei minha dissertação. Graças a um atraso no meu voo a Budapeste. Sim, em meio ao meu ultimo mes meus pais vieram para Europa e me convidaram para ir a Budapeste. Não consigo dizer não para uma viagem nunca. Fiquei um pouco preocupada afinal eu já tinha mudado o meu tema de ultima hora, e ainda sair 5 dias para viajar??? Então, levei o computador comigo, e no aeroporto com um atraso de apenas 7 horas sentei e pela primeira vez li tudo que eu já tinha escrito na ordem certa. E fui conectando, reformulando, assim que quando cheguei a Budapeste minha dissertação estava praticamente pronta. Nao sei se ela esta boa. Sei que ela diz tudo que eu quero dizer, e que não quero dizer mais nada sobre isso. Pelo menos nao por agora.

Foi bom, pois meu santuário português deixou de ser santuário. Dna Cecilia toda vez que eu partia passou a desejar me “sonhos cor de rosa” num sotaque lindo português. Depois fregueses passaram a me perguntar o que era que eu estava fazendo. Quando eu respondia “antropologia cognitiva” invariavelmente, partiam, voltavam e perguntavam o que era. Eu, que começo sempre de “Adão e Eva” 🙂 perguntava: ” você quer mesmo saber? se quiser eu explico, mas então senta”. Queriam. E assim sentaram na minha mesa vários senhores, e ouviram a história da antropologia.

O dia mais engraçado foi o dia, que eu já me sentindo em casa, com todos os meus artigos marcados com caneta daquelas fluorescentes esparramados sobre a mesa… ouvi um homem me chamar.

“Desculpe, mas eu estou muito perturbado com esse seu artigo”

Eu estava tão concentrada que tive que voltar de outro planeta, olhar para ele, para a mesa para ver do que ele falava. Um artigo cognitivo de Gil-White chamado “Are ethnic groups biological ‘species’ to the human brain?”. Eu que achava que cognição era bem menos polemico que religião comecei a explicar.

“Esses artigos estão falando da nossa tendência cognitiva de classificar, identificar, essencializar. A ter uma tendência por grupismo. Por grupismo, expliquei, eu quero dizer, a tendência que humanos tem de criar grupos, e de percebe-los como entidades substanciais no mundo. Fazemos isso o tempo todo. Desde bebe até adultos. Categorizamos. Formamos categorias de copos, xicaras, leoes, e aparentemente de pessoas. Categorias tem muita informação implícita e são indutivas. Ou seja, nos fazem prever o que esperar e como agir quando encontramos algo. É um mecanismo cognitivo para poupar esforço. Imagine se tivéssemos que realmente a cada encontro com uma nova coisa aprender tudo sobre ela. Nosso cérebro portanto cria categorias.

Categorias sociais ( etnia, raca, nacionalidade) não são coisas concretas no mundo. O que esses artigos estão fazendo é tentar entender a nossa tendência a perceber esses grupos como concretos. Dizer que eles não existam concretamente não é dizer que eles não tenham poder. Claro que tem! Vemos isso todos os dias. Como diria o Brubaker um approach cognitivo a grupismo permite que pensemos em grupos ( racas, etnias, nacionalidades) não como coisas NO mundo, mas sim perspectivas SOBRE o mundo. E se compreendemos grupismo como parte da nossa cognição natural percebe-se o porque é tão presente e o porque é tão difícil passar por cima desses mecanismo. Isso é claro, expliquei, não é para dizer que eu ache que por temos essa tendência a classificar, essencializar e a gostar mais do nosso grupo do que o dos outros ( ainda que esse grupo seja completamente arbitrário) que por isso devemos achar que racismo, xenofobia etc e tal são aceitáveis. Exatamente o contrário, compreender melhor esses mecanismos nos ajuda a desenvolver melhores métodos para combater grupismo quando usado nocivamente.

Expliquei tudo isso e mais um pouco. Ele me olhou, olhou, fez perguntas e partiu. Depois voltou e me disse:

“Eu sou meio louco, sou bipolar, já tenho 47 anos, por isso não estou te convidando para sair sair, mas vc quer ser minha amiga?”

Comecei a rir, nunca tinha visto ninguém se apresentar assim. Disse que sim, claro, perguntei seu nome, e nao resistindo perguntei. “Por que vc ficou tão interessado no meu artigo”

“You know, when I visited Tajikistan I thought they were different people, like they were from another species, I am glad to know is not that it was not me, just my brain.”

Eu não disse nada. O dualismo é incrível. O que esse cara quis no fundo dizer era ” fiquei feliz que eu não sou uma ma pessoa porque achei eles tão diferentes…. meu cérebro classifica”.

Categorias são indutivas. Algumas categorias são mais indutivas que outras. E é claro que cognição não flutua no vácuo. Ela informa e é informada pelo nosso meio socio-cultural. Não é de se surpreender que em Israel, as pesquisas com crianças mostrem que a categoria social mais indutiva é etnia. “Arabe” e “Judeu”. Mesmo em Israel no entanto, há diferença entre grupos, Judeus religiosos generalizam mais com essas categorias do que judeus seculares ou árabes. Em outros lugares pode ser gênero, ou status… sei la.

Quanto mais eu tenho lido sobre isso, mas eu acho que tornar categorias explicitas em discurso é pior. Porque essas categorias retificam a idéia que esses grupos existem como entidades substantivas. Eles não existem. Nos somos todos humanos. No entanto, as percepção desses grupos é real, e portanto tem conseqüências políticas.

Como sempre meus posts são assim começam num lugar para parar noutro. Eu já estou pensando no sistema de cotas no Brasil. Eu não sei se discriminação positiva é uma boa coisa. Tenho impressão que são medidas paliativas que não lidam com os problemas reais. O problema real é melhorar o ensino público para TODOS. Eu realmente não sei. Sei que lendo cada vez mais sobre o efeito de tornar uma categoria social parte de discurso ( Utus e Tutsis por exemplo) é uma idéia com seus riscos. Tenho medo que o que seja gerado no fim seja uma redução de empatia. Se nos já temos uma tendência a gostar do nosso grupo em detrimento do outro, será que criar mais grupos é uma boa idéia? Não sei direito…

No "Meu" Café

Estou no meu café Português. Acho que ainda nao falei dele. O café português. O “meu “ café português é um lugar perto da minha casa. Quando eu estava estudando para minha última prova um dia esqueci meu Oyster card (cartão do metro e onibus aqui em Londres) e com preguiça de voltar em casa entrei nesse café. Ele é feio por fora, como é sem graça por dentro. Ele nao tem internet nem nada de aparentemente especial. Aparentemente é claro porque para mim ele é magico. Eu entrei, sentei, pedi um um café e meio sem graca tirei uns artigos da bolsa para ler. Nao tive coragem de tirar meu computador. Porque meu café é assim um lugar meio austero. Pedi um café, e eu que nunca bebo café senti meu coracao disparar. E entao comecei a ler. E assim que comecei a ler, comecei a me emocionar com tudo que eu nao tinha lido durante o semestre. Tudo foi se juntando na minha cabeca de maneira pouco ortodoxa e eu voltei para casa e escrevi um paper. Mandei ao meu supervisor num estado de euforia porque as minhas conexoes e “claims” eram completamente minhas. Um pouco insegura mas querendo saber o que ele pensava mandei. Ele me escreveu dizendo que o paper era brilhante em letras capitais. Se vc reproduzir esse tipo de trabalho na prova, disse ele, vc não terá problemas. E então, nesse dia, o café português virou o “meu” café.

Aos poucos fui ficando cada vez mais a vontade. Tirando mais artigos, livros, este computador. Lendo em meio a barulheira, as conversas que pouco me interessam, aos barulhos de pratos, xícaras, maquina de café. Ao bonito som da língua portuguesa na boca de angolanos, portugueses, cabo-verdianos. Aos sons de outras línguas misturadas no ar fosco e pouco interessante do meu café. Para poder fazer doutorado, apesar de ja aceita eu ainda tenho que ter mérito no meu mestrado. Fiz minha prova, meio preocupada. E confesso que sai direto de la para uma palestra onde encontrei minha ex-supervisora ( e futura de doutorado) sem saber muito bem como tinha ido na prova.” Jules, I am sure you did well” Disse ela. Eu , no entanto, nao estava tao sure. Eu misturei neurociencia, com antropologia e filosofia, e mais uma variedade de pensamentos que as vezes so fazem sentido na minha cabeca. Como se eles viessem de areas totalmente distintas e se sintetizassem no processo da escrita. Como aqui alias. Então, a minha professora podia odiar, ou amar, ou mais ou menos. Sei la. No fim, foi uma estória de final feliz, porque eu tive distinção. Para a minha total supresa.

E eis que agora eu preciso terminar minha dissertacao ate dia 1 de setembro. E eu que tinha tudo claramente decidido em minha mente ha meses resolvo assim de ultima hora, faltando menos de um mês mudar de tópico, de artigos, de estória. Andando assim, na biblioteca. Meio ao léu peguei um livro na prateleira e ao abri-lo, meus olhos encheram de lágrimas. Um livro escrito por uma Palestina e um Israelense. “Coffin on our shoulders: The experience of Palestinian Citizens of Israel.”

O livro é escrito pelo Dan Rabinowitz, antropólogo formado em Cambridge, e professor em Tel Aviv, e pela Khwala Abu Baker, Palestina professora no Emek Yezreel College. O livro mistura a conseqüência do sionismo para a família dela e dele, com a Historia de Israel. Como sionismo salvou a sua família, causou “excruciating” dor para a dela.

Ali, naquele principio eu soube que eu queria escrever sobre isso. Não só já é muito relacionado ao meu doutorado, mas eu queria ler mais. E eu li. E comecei a ler sobre os nossos processos de categorização. A nossa tendência cognitiva de classificar o mundo a nossa volta. A tendência que temos de “essencializar” ( buscar essências em coisas). Resolvi que eu queria falar sobre “ethnicity” de um ponto de vista cognitivo. Ou seja, em vez de tartar raças como fixas, substanciais, como experiências subjetivas informadas pela nossa “natural” tendencia a essencializar, categorizar, identificar grupos no mundo.

Entao voltei ao meu pequeno café portugues. Onde tudo faz sentido sem fazer sentido nenhum. Como é que eu posso conseguir me concentrar aqui e nao na minha casa, e nao na biblioteca ? Aqui as idéias fluem,se misturam mas acima de tudo me emocionam. E fica muito facil eu aceitar tudo que eu sou… antropologa, cognitive, apaixonada por musica, yogi, gostando de de meditação, tomando café, etc etc etc.

Recebi um email muito muito tocante de uma professora de NY. Um email em resposta ao meu de agradecimento a ela por me acordar, e me inspirar na luta por justica. No email, ela diz

“ Tem gente que acha que a situacao ( Palestina-Israel) eh complexa. Eu nao sou uma dessas pessoas. Eu acredito em justiça. Por isso acho que nos temos que confrontar racismo todas vezes e onde o encontramos”

As palavras são fortes. Como sempre foram. E enquanto eu aqui no meu pequeno café leio sobre a nossa natural tendência de classificar, de gostar de grupos eu nao posso deixar de pensar que se vamos construir um mundo mais justo, e onde vivemos TODOS melhor, precisamos comecar em nos mesmos com as nossas proprias tendências. Eu ja disse mil vezes que nao sou nacionalista. Hoje eu sou ainda menos . Pois fica cada vez mais claro para mim nesse café cheio de gente de lugares distintos, falando línguas difererentes que precisamos tornar estranho o que nos é familiar. Só assim, nesse diário esforço contínuo de lutar contra nossa tendencia cognitiva de classifcar o mundo em grupos vamos conseguir um mundo mais justo, de mais empatia com o outro. Um mundo onde não tenhamos a necessidade de nos sentirmos parte de um grupo e portanto distinto de um outro. Um mundo, onde orgulho nao seja ligado a ser parte de algo que esta inteiramente fora do nosso controle.

Sempre que eu digo isso, alguns amigos me dizem “ Juleita, você é brasileira!” ( quase que ofendidos por eu me considerar humana).” Olha a sua música”. É verdade, eu toco , e sinto a música brasileira onde eu nao sinto outras. Eu sou mais fluente em português do que em todas a outras línguas que eu falo juntas. Eu acho um milhão de manifestações culturais que acontecem no territorio “imaginado” Brasil lindas. Mas eu tambem sou tocada por muito que vem de outros territórios imaginados. Acima, de tudo, ter passado tempo voluntariando num vilarejo onde eu era a unica “farang” ( em Tailandes “goiaba” termo que eles usam para brancos de fora:), nao sabendo a língua me iluminou muito para isso. A nossa fundamental humanidade. O comunicar nos gestos, nos olhos, no riso. Claro, que eu não nego as diferenças de cultura. Eu só acho, no entanto, que somos humanos. Temos essa tendencia a classificar o mundo em categorias porque isso torna mais facil cognitivamente viver. Numa categoria há muita coisa inferida. E apesar de reconhecer que categorizar é parte da nossa cognição natural,que por isso mesmo precisamos em vez de tornar categorias sociais mais fortes no nosso discurso ( nos sentirmos brasileiros, ou budistas, ou torcedores do flamengo) precisamos praticar nos “estranharmos” dessas categorias. Assim como filósofos, ou viajantes. Nesse saudavel estranhamento fica mais fácil de lembrarmos que no fundo nos e o Tuareg, o Nambikwara, o Piracicabano, o Russo, o muçulmano, o ateu, o evangélico, o !Kung que nunca sequer encontramos somos no fundo muito, muito, muito parecidos.

Videos No Youtube

Ontem coloquei vários vídeos de músicas minhas no Youtube. Fazia muito, muito tempo que alguns amigos meus me pediam para fazer isso. Eu sempre meio insegura, mas ontem passei o dia tocando violao, um violao que nao é meu, aqui na casa da minha amiga Dri e gravamos vários videos no jardim!!! Esse primeiro é de uma música que acabei de fazer. O resto ta AQUI
Espero que vocês gostem!

Promises

Minha querida amiga Gabi que faz quase um ano foi trabalhar em Bangalore na India me deixou uma mensagem no ultimo post falando do filme Promises. Na hora que eu li eu me lembrei na hora do tempo em que eu morava em NY, e da minha housemate marroquina Leila. Lembro dela voltando desse filme completamente emocionada. Leila, fotografa e sociologa, não é manteiga derretida como eu que choro até em propaganda de margarina. Leila tem um coração tamanho do mundo, mas por fora ela é durona.

Quando meu Landlord Iraniano Mr.Tala entrava na casa sem bater, eu servia cha, Joss, minha housemate americana, se escondia debaixo da cama. Leila, na unica vez que estava em casa quando isso aconteceu andou sem hesitar em direcao ao Mr. Tala e disse: ” Mr. Tala you have not been invited to come to this place so you must leave!.” Mr. Tala é um senhor Iraniano e um verdadeiro misterio para mim. Ja tinha feito, ou pelo menos dizia ter feito de tudo na vida. Normalmente, tudo variava de acordo com o interlocutor. Comigo me contava de suas experiências no Brasil, para Leila falava do Marrocos, com meu amigo tenista falava de quando tinha sido campeao de tennis. ENfim, a lista era tao extensa que eu comecei a anota-la. Esse dia, Leila severamente disse ao Mr Tala:

” Mr. Tala if you want to come here you call first! If no one picks up you do not come! If one of us picks up you wait to be invited, if you are not invited you do not come! If you are invited you drive all the way here then you ring the bell, if no one answers you turn around and you go home! If one of us comes downstairs, opens the door, you wait to be invited inside, if you are not invited you do not come! You turn around and you leave! Only once you are invited you are allowed to come in! Do You understand?!”

Eu e Joss, estavamos tão quietas quanto as criancas de 6 anos na escola onde eu voluntariava ao ouvir a gritaria da professora. Mr. Tala diante da explicacao passo a passo da Leila disse apenas: ” Leila, what is your father’s email?” Leila, ficou meio que perdida. E perguntou ao Mr. Tala o porque da pergunta. Ele deu uns tapinhas carinhosos e fracos no rosto dela e disse no seu tom empolgado ” Because I must tell him what a very inteligent daughter he has!”

Esse era Mr. Tala, e essa era Leila. A mesma Leila que o defenderia com unhas e dentes quando Joss resolveu que deviamos press charges de harressment contra o Mr. Tala. Leila, perplexa disse ” But you can’t go from offering him tea to suing him without ever telling him you dont want him here!!!!”

Assim que quando a Leila voltou emocionada do filme eu soube que tinha que ve-lo. E de fato, quase tudo que eu tenho lido e vivido ultimamente vai me lembrando de promises.

Ontem, eu fiquei sabendo que ganhei dinheiro do departamento da LSE para fazer meu doutorado. Quando contei ao filho do Adam que estava pensando em ir a Israel agora em Setembro ele me disse:

“Jules, where are you going?

Contei a ele o nome das cidades que eu pretendia visitar (que sao as cidades onde ficam as escolas). E ele ontem, veio me dizer que eu tinha que ir para Nazareth na escola dele.

_ Mas vc se lembra que a escola que eu vou tem Arabes e Judeus.

Eu ja estava esperando que ele dissesse de novo que isso era uma pessima ideia.

_ Na minha escola tambem tem arabes. Tem um arabe na minha classe!

Fiquei surpresa!

_ Really, but I hear you don’t like him.

_ He is ok. He is nice. It is only sometimes that he get angry very fast. I get angry very fast too.

Eu fiquei em choque.

_ Really? How come?

_ I guess after all we are not that different!

Se tudo isso é vontade dele de me convencer a ir a escola dele eu nao sei. No entanto, eu fiquei feliz.

Hand In Hand

Acho que nao contei aqui que me inscrevi para fazer doutorado na LSE. Como quase tudo na minha vida foi meio por acaso. Eu escrevi um paper e meu supervisor disse que seria um bom projeto, esse projeto virou um outro projeto, eu fui meditar para descobrir se queria mesmo fazer doutorado, nao descobri e uns dias antes de me inscrever para receber dinheiro do departamento minha supervisora Rita Astuti, me disse que achava que eu nao estava motivada para esse projeto. Era verdade. Ela sentou comigo e disse “let’s think together”. Sugeriu que eu voltasse para casa e lesse mais que talvez mudasse meu projeto de trabalhar com ortodoxos judeus, para budistas. Voltei, li, li, li e por acaso cai no site de um grupo de escolas em Israel chamado Hand in Hand De acrodo com o site “each school is co-directed by Arab and Jewish co-Principals; and each classroom is co-taught by Jewish and Arab teachers. Students at each grade level are balanced between Arab and Jewish children. Students at all grade levels are taught in both Hebrew and Arabic, learning to treasure their own culture and language while understanding the difference of others around them.”

Adorei a idéia de trabalhar com essas pessoas. Afinal de contas sao pessoas que estão fazendo uma escolha difícil no estado de Israel de mandar seus filhos sejam eles árabes ou judeus para uma escola de ideologia tao alternativa porque acreditam que so no encontro e respeito desses dois grupos pode haver paz. Antropólogos sao muito críticos sobre escolas. Escolas sao veículos pelos quais estados constroem cidadãos, onde ha o desvalorizamento de cultura local ( como no caso de populações tribais que sao forcadas a irem a escola), ha um milhão de estudo de como educação reinforça divisões de classe, poder etc. Essa escola, portanto, ja é interessante por isso, já que ela eh “anti-establishment”. Ela busca uma compreensão entre esses dois grupos que durante tanto tempo estiveram em conflito. Eu nao pretendo aqui entrar nas mil outra complicadas nuances ( por exemplo a difícil distinção Árabe X Judeu, os diferentes Judeus etc). Para o meu post basta dizer que essa escola tenta trazer esses grupos que se consideram distintos numa mesma escola, sendo ensinado em Arabe e Hebraico por duas professoras ao mesmo tempo.

O meu interesse é vasto tanto antropológico, como cognitivo. Interessa-me muito como as crianças “essentialize” essas categorias sociais. E como joint action ( acao conjunta) influencia no processo de “othering”. Mas eu nao vou chatea-los com esses detalhes. Tudo isso é para dizer que provavelmente eu devo comecar meu doutorado no semestre que vem, e em um ano ir fazer trabalho de campo em Israel.

Por isso, quando o Adam meu flatmate anunciou que seu filho de 9 anos que é Israelense viria para Londres, fiquei curiosa em saber como ele concebia dessas categorias. Ele é timido e no comeco mal falou comigo. Depois de jogarmos dias de futebol, eu aprender a tocar uma musica que ele gosta no violao, fazermos yoga, acrobacias, jogos da copa do mundo ele virou meu amigo. Assim que ontem, nao queria ir comer fora a nao ser que eu fosse junto. Fui, e no meio do jantar o Adam, contou a ele que talvez eu fosse a Israel trabalhar numa escola.

Seu filho me olhou, e disse ” como que vc vai fazer se vc nao fala hebraico?!?!” Eu respondi que eu iria aprender. QUe eu queria aprender Arabe tbm porque a escola onde eu ia trabalhar era metade Judia metade Arabe. Ele ficou mudo. Parou um segundo e disse ” Jules, change the school. that is not a good idea! Os Arabes sao todos maus!”. Perguntei a ele como ele sabia disso. Ele explicou que todo mundo sabe. Eu perguntei se ele conhecia todos os arabes do mundo, ele concordou que nao, e eu disse entao que era impossivel para ele saber se eles eram todos maus! Lembrem-se essa conversa era com uma criança por isso eu estava tentando faze-lo pensar, tentando descobrir como ele pensa, nao tentando ataca-lo.

“I jsut know.”

Adam comecou a explicar que ha pessoas boas e más na inglaterra, no brasil, no africa do sul, na franca, na Italia, em Israel… enfim no mundo todo. ( eu queria ate questionar o maniqueismo mas diante de uma crianca de 9 achei melhor follow through com a divisao bom e mau). Seu filho nao convencido disse ” Isso é verdade para o mundo todo menos para os Arabes e os Alemães!”

Expliquei para ele que a guerra tinha sido ha muito tempo. Que os alemaes sao boas pessoas. Ele deixou isso passar mas disse ” But no the Arabs! Eles sao todos maus!!!” Ele olhava para mim perplexo como se eu e o Adam tivessemos fazendo uma piada. Como se estivessemos dizendo algo do tipo ” se vc soltar o prato no ar ele nao cai no chao!”

Perguntei a ele entao se ele nao gostava de NENHUM arabe! Ele concordou que nao gostava! Entao eu disse: ” E seu eu te contasse que eu sou Arabe?”

_Jules, I know you are not! You are Brazilian!

_Well, I am Arab Brazilian, porque minha mae eh do LIbano”. disse séria apesar de nao ser verdade.

Ele pensou, pensou, pensou e disse ” Nao voce entao nao eh Arabe”

_ Claro que eu sou! Voce nao eh Judeu porque sua mae é Judia? EU sou Arabe pq minha mae eh Arabe.

Ele ficou em silencio um tempao pensando ai virou para mim e disse:

” Well, As mulheres Arabes sao boas pessoas, sao so os homens que sao maus.”

Eu comecei a rir..porque o reasoning foi mais ou menos assim: ” 1. Os arabes sao maus, 2. Eu gosto dela!…… entao ou ela nao pode ser arabe ou eu preciso adequar o meu pensamento! E ele o fez.

De um lado me fez perceber o quao fora de discussao esta a ideologia. O quao forte ela eh numa crianca de 9 anos que tem um pai Ingles. Do outro, me deu um certo otimismo de imaginar que sem duvida nenhuma se vamos conseguir jamais alguma diferença em processos de minizar os efeitos de ver o oturo como inimigo isso tem que ser feito nao na ideologia mas no encontro dessas pessoas. Na acao conjunta. No brincar. It is a long shot e eu sei que há muitas pessoas que nao querem que isso aconteça. Isso coupled com a tendencia do nosso cerebro de classificar em grupos dos quais pertencmeos ou nao. Mas eu sou otimista, e tbm acredito na nossa natureza social, e altruista. Por isso espero que sim, que essa escola consiga fazer essas criancas que se concebem tao distintamente a andarem hand in hand.

Da Impermanencia

Estou em Paris com meus pais. Uma viagem de ultima hora depois de terminar minhas provas, decidir mudar de projeto de doutorado no ultimo minuto, e de ter finalmente um certo sossego na minha “impermanente” casa. Quando eu voltei do meu retiro de meditação, a palavra “anitya” (que significa impermanência em Pali ou Sanscrito) nao me saia nunca da cabeça. Até hoje quando ela soa em minha mente, soa na voz do Goenka. E ela vem tambem com o cheiro de calma e da sensações da meditação.

A impermanência é o ápice da questão. Como tudo é impermanente nos apegarmos leva ao sofrimento. Como quase tudo, quando dito assim em termos vagos, em alguns momentos parece fazer todo o sentido, e noutros sentido nenhum. De um lado, logicamente faz todo o sentido que apegar-se leve ao sofrimento, por outro, acho que pouca gente deve conseguir conceber de uma vida totalmente “desapegada”.

Nos momentos de “certa revolta” quanto a inevitabilidade do sofrimento, confesso, que penso bem “pequenamente”. Um pensamento tipo assim. “E dai que tudo eh impermanente! Prefiro viver e me apegar e sofrer do que não ter sentimentos!!!!” E ai eu invoco tudo que eu sei de filosofia, antropologia, biologia, para me justificar intelectualmente, que essas ideologias budistas não fazem sentido. No ápice do meu dialogo interno eu concluo sempre “Nao fomos selecionados para isso!” Se o homo sapiens, ou qualquer um de seus ancestrais fosse consciente de tudo o tempo todo, e equânime nao teria sobrevivido. Nos somos inconscientes de muito que nos acontece porque é mais facil assim. Afinal ja pensou se tivéssemos que manter controle da nossa respiração, circulação, temperatura corporal, digestão etc… ? E assim eu me satisfaço, lembrando me que eu não sou budista, que eu compreendo “racionalmente” porque neurologicamente meditação funciona, e concluo que quebrar o padrão mental la no fundo na verdade eu nao quero. Mas essas explicações não são mais permanentes do que as opostas, do que as que compreende meditação em seus termos mais filosóficos e experienciais.

Enquanto eu estava no retiro, muitas vezes eu ouvi Goenka falar de Anitya, (impermanência). E todas as vezes eu pensei na impermanência abstrata. Talvez seja porque eu ainda não tenha perdido ninguém muito próximo de mim. Ninguem da minha família, nem dos meus amigos. As minhas impermanências são dessas que se projetam como possibilidades de mudança. A Sabrina minha querida amiga esta em Boston mas nos nos falamos frequentemente, a Mounia teve bebe no Marrocos mas eu posso acompanhar suas noticias pelo skype e no e-mail. A minha família esta no Brasil mas eu sempre volto para la, ainda que “o la” não seja nunca o mesmo, e o tempo que vai passando fica cada vez mais assustador.

Pela primeira vez no entanto, a impermanência se fez solida há algumas semanas. Quando a crise na Tailândia começou, eu que aprendi um pouquinho sobre a politica local, soube imediatamente que a crise nao se resolveria tao facilmente, pq nao eh possível antever uma solução que satisfaça os dois grupos a longo prazo. Comecei a escrever a todas as pessoas que la conheci. Quem acompanha meu blog, e meus emails da Asia sabe que eu considero a minha segunda casa da Asia Nong Khai, uma pequena cidade na fronteira da Tailandia com o Laos. La na Mut Mee guesthouse passei incontáveis dias e noites. Nos meus 3,5 meses na Asia voltei para a pequena cidade 4 vezes. Sempre ansiosa para tomar cafe da manha nas mesas comunais, e passar as noites no Gaia, o barco no rio Mekong.

Fiquei muito amiga do dono da Mut Mee e do Gaia, o Julian, um inglês casado com uma Tailandesa e pai de dois filhos adolescentes. Julian que é físico, filho de mãe Inglesa com pai Palestino é daquelas pessoas que é adorada por todos. Um pai afetuoso e exemplar que leu todos os livros do H.Potter em voz alta!!! Com Julian, seus filhos, mulher, seus empregados, amigos, seus hospedes passei momentos preciosos no Gaia e na Mut Mee. Como ja disse aqui antes, muitas noites acordei ansiosa imaginando que nunca mais estaria sentada nas almofadas do Gaia olhando o Mekong passar. Esse meu desespero de meio de noite era sempre desespero relacionado a mim. O medo era de eu não poder voltar lá.

Quando os incidentes aconteceram eu escrevi ao Julian para saber como eles estavam. As noticias eram sóbrias. O turismo é claro tinha caído, e o Gaia tava fechando, nao estava se mantendo. Julian, num email que não parecia ser escrito pelo homem radiante que eu conheci cogitava ter que voltar depois de uns 20 anos na Asia para a Inglaterra!!! Eu li a mensagem varias, varias, e varias vezes. E aquela impermanência foi arrebatadora. Aquele desespero que eu senti tantas noites era mais real do que nunca. E o mais assustador é que ele não me pertencia. Nao era eu quem nao poderia voltar la. Não seria eu que nao seria capaz de chegar a beira do Mekong. Era o Gaia que nao mais existiria. E é claro que eu percebi que eu queria voltar no tempo, nao no Gaia. Eu queria voltar no tempo: nas noites de chuva torrencial com jacas caindo do lado de fora do meu quarto, voltar ao calor escaldante e me sentir exausta sem saber o que fazer, voltar ao funeral budista onde eu quase desmaiando tentei subir as escadas para colocar a ultima flor antes do corpo ser queimado, queria voltar a jogar banco imobiliário com as regras todas inventadas pelas crianças, queria voltar a fazer massagem na Aoh.. E nessa impermanência tao solida, na possivel desaparição do Gaia da beira do Mekong a impermanencia ficou mais experiencial. Pela primeira vez eu compreendi um pouco mais o que deve ser ser refugiado. O que é partir de um lugar que não existe mais, o que é ser a ultima pessoa de uma tribo a carregar os segredos de uma cultura. E realmente não há como não ficar desorientado com toda essa impermanência.

Eu nao tenho uma solução… são só ponderações de alguém que vive no impermanente “declarado” o tempo todo (fator comum entre imigrantes e viajantes). Talvez o segredo seja combinar a noção de que tudo que existe hoje faz parte dessa linha ininterrupta do primeiro homo sapiens a tudo que temos hoje, com uma tentativa de ser mais consciente do presente. Mesmo porque o presente é consequência direta desse passado. E no fim, nesse misturado o tempo parece não existir.