Busca

Tenho estado meio deprimida. Quase que todos os dias eu reconsidero meu doutorado, faço planos de ir trabalhar na Tailandia, dar aula na China, voltar para o conforto da minha casa no Brasil. Faz 10 anos que eu moro direto fora do Brasil. Eu na verdade, nem sei direito como seria morar em sao paulo. Fica assim quase que tão vago como morar na Tailandia, ou na China. Minha suposta pesquisa em Israel é muito interessante, mas as vezes confesso, da uma preguica. Começar tudo de novo, num outro pais, numa outra lingua. Quantas vezes eu ja fiz isso mesmo? 6 paises, 7 cidades, e Ja nem sei mais em quantas casas. Quantos ola, quantos adeus.

Esses dias eu estava conversando com minha amiga Sabrina. Que ta la em Boston fazendo pos doutorado em fisica. Ela que tbm mudou tanto. Tambem estava exausta. Cansada de tanta mudanca. Tanta instabilidade. Nao que a vida de todo mundo não seja sempre instável. Mas nos nos especializamos nisso: ficar mudando de país atras sei lá do que. Os encontros vao ficando cada vez mais valiosos, porque a solidão existencial tbm aumenta… ainda mais assim quando nos nao temos a ilusao, nem a realidade de ser parte de um grupo fisico que tenha raiz em algum lugar.

Acho que seria hora de voltar a fazer vipassana. Lembrar me mais uma vez de manter equanimidade diante de tanta mudança. As vezes tenho a impressão que por nos fazermos responsáveis por essas escolhas de ficar cruzando tantas fronteiras nos dá essa enorme angústia. Sempre imaginando onde será o lugar mais adequado. Num lugar a familia, no outro o sol, no outro a comunidade academica e intelectual a qual nos acostumamos. Tudo espalhado. E fazer escolha é ter que escolher que parte sua faz mais sentido. IMpossivel, no reconhecimento de toda nossa incoerencia humana.

Como mostram as pesquisas psicologicas escolha demais aumenta e muito a angustia…. no entanto, given the option, acho que ninguem escolhe ter menos escolhas. Quando eu sento toda segunda-feira com meu grupo de doutorandos fico pensando nisso. Todas essas nossas escolhas. Sentamos a volta de uma mesa, na Selgiman Library, na mesma sala onde Malinowski comecou a tradicao dos seminarios de sexta feira no departamento da LSE.

Segunda-feira nos sentamos para falar das nossas pesquisas. Nunca penso muito nessa conexao dessa sala com a tradicao da antropologia britanica. Nao. Eu olho a minha volta e vejo uma grega que vai para amazonia peruana, uma colobiana que vai para o ecuador, uma holandesa que vai a India, uma alemã, um americano, e um italiano que vão para a China, um americano que vai para Jamaica, um russo que vai para Siberia, 3 ingleses, um que vai para a Siria, outro para as Filipinas, e um para Amazonia, e eu uma brasileira que quer se meter entre Palestinos e Israelenses. Tirando os 3 ingleses, todos nos ja somos estrangeiros aqui, e ainda assim escolhemos ir fazer trabalho de campo num outro lugar distante.

O que será no fundo que buscamos encontrar? Eu sei todas as nossas explicacoes antropologicas, filosoficas, politicas, cognitivas. Essas que nos colocamos nos formularios, nos nossos proposals. O que eu nao sei muito bem, é oque no fundo de cada uma dessas pessoas incriveis que eu encontro toda segudna feira, faz com que elas queiram ir parar no meio de uma tribo na amzonia, ou numa fabrica chinesa. Nem eu sei direito o que me faz ir a Israel.

Sem dúvida acho que vamos buscando sentido. No entanto, se sentido já nos falta agora, me pergunto o que acontecerá na volta. Depois de dois anos vivendo de observar uma sociedade alien. O que acontece quando de repente tudo comeca parecer fazer sentido e esse é o sinal que é hora de voltar. Como se alguem viesse mais uma vez e arrancasse o tapete por debaixo dos nossos pés. Eu sei que eu ja escrevi aqui antes, que acho importante cultivar o estranhamento das coisas. Não sei se é idade, o frio, ou simplesmente um momento passageiro. So sei que chega uma hora que o estranhamento de tudo cansa. E dá uma saudade, uma vontade de voltar ao principio onde tudo era familiar. Mas assim como as escolhas…. sabendo que elas existem, ainda que eu saiba que ter muitas delas me faz infeliz, eu acabo sempre…. cruzando mais uma fronteira.

Opressão e Hipocrisia

Os protestos do Marrocos foram brandos, especialmente se comparado ao que está acontecendo no resto do mundo Arabe. O mundo realmente esta em chamas, volatil! Eu estou resfriada, e meio febril, mas nao desligo a Al Jazeera em Ingles. Que verdadeiro absurdo o que esta acontecendo na Libia enquanto a ONU, a NATO, e todas as outras ligas ficam “drafting resoluções”. Quando eu comecei a ouvir a Al Jazeera ouvi um soldado explicando de Bengazhi, segunda cidade da Libia, que 130 soldados de Benghazi tinham sido mortos pelos soldados de Tripoli por se recusarem a atirar na população . I sso aconteceu se bem me lembro sabado ou domingo.

Meu amigo Shmri, refusenik ( israelense que se recusa a ir ao exercito, e no caso dele passou dois anos preso com ato de resistencia civil, escrevendo da prisao para uma revista) me mandou uma mensagem me perguntando se eu tava ouvindo o que estava acontecendo na Libia. Ele que trabalha no Global Governance da LSE me explicou que o Saif, filho do Gaddafi, tinha tbm estudado na LSE e que o David Held ( supervisor do Saif e do Smhri) dizia que ele seria a nova face da Libia.

Durou bem pouco a ilusão, só até nos ouvirmos pela Al Jazeera o discurso do Saif falando de guerra civil, de governo islamico ou ditadura, de rios de sangue, de lutar até a última bala. Como assim? Todo mundo que eu conheco que conheceu o Saif dizia que ele era um moderado. Continuamos pelos dias seguintes ouvindo a Al Jazeera, vendo as imagens que algumas pessoas conseguiam mandar. O caos na praça verde, Benghazi ser tomada pelo protestantes, noticias de helicopteros atirando na populacao, noticias das milicias que o Gaddafi contratou. E ontem durante o dia eu ouvi uma hora e meia de um discurso insano de um lider completamente fora da realidade. A unidade de um pais mais importante do que as pessoas. Usou a china, usou a russia e mais muitos outros exemplos de dar calafrios.

Hoje assisti numa outra cidade a populacao rasgar o livro verde da libia ( uma tipo constituicao de onde ontem gaddafi leu umas ameaças brutais). Entre essas noticias aperecia tbm o Yemem, a Argelia, Bahrain, e o terremoto na Nova Zelandia. Uma ONU ridicula explicava que era feriado nos eua, e depois marcava um encontro para a tarde de terça. Claro ninguem quer se compremeter. Como é que a China ou a Russia vao apoiar protestos. Cada segundo que se passa no entanto nos assistimos de camarote mais alguem sendo morto na LIbia.

Da ONU saiu um press release bem bunda. “Condenamos a violencia” ou uma coisa ridicula qq como essa. Ouvi uma pessoa dizendo da Libia. Isso nao é suficiente nos precisamos de ajuda! Não dá para nao pensar na hipocrisia da Europa preocupada com o oleo e os imigrantes. Nao da para eu nao lembrar de Bush venting sobre ir la para o Iraque exportar democracia. É a chance agora… As pessoas estao la implorando ajuda. Fechem o ceu pelo menos!

Enquanto tudo que eh gente do governo fala da uma guerra civil, das pessoas que eu ouco da Libia se fala de uniao. Uniao em remover um tirano. Sera que o ocidente vai ter que finalmente confrontar sua hipocrisia? Quando nao é mais possivel usar ladainha de democracia e liberdade ja que o povo esta na rua expressando sua liberdade e sendo massacrado por ditadores tanto tempo mantidos ou pelo menos aceitos pela comunidade internacional por decadas.?

E ao mesmo tempo é claro ameaças do Gaddafi de explodir as pipelines! Recebi uma mensagem no Couch Surfing ontem. Um marroquino pedia para ficar na minha casa. Expliquei que eu nao podia recebe-lo na data, mas perguntei como estavam as coisas por la. Nao disse muito. So expressei meu apoio. A resposta que recebi foi de arrepiar. Um menino. 23 anos que falou com uma clareza. Sabe de uma coisa eu vou colocar as palavras dele

“Oh jules, thank you for carring, I didnt stop listening to al jazeera the whole day, I have both of them now, arabic and english, And right now i am listening to a libyan student speaking from sweeden that the ANIMAL called Kedafi threaten them with bringing them back home and killing all their families if they speak, god, I cant keep on listening, he is crying, are the arab so cheap, no body moves? no one, italia is given its lands to the lybian airforce plan to fly from, No one have said a word; he wants to burn all libya before he leave it, he says I made libya I will destroy it, no body moves? of course thats what Bilderbeg club wants, whatever we call them, the G20, the capitalists, everyone who makes a money from firing a bullet, god Jules, i cant write right now, am really shaking right now, cant write cant focus, things in Morocco are fine, the king is a good person but the thieves around him should be hunged, they been for years on power, they get rich, they seal our blood and brain for nothing, can u imagining that I as a computer engineering can work with nothing but some euros a month for a european company, ‘outsoucring’, it doesnt even cover the cost of the education, things sucks, and sucked since forever for us, if you are online i do have a facebook i rather chat than write, no worries about the cant host thing, I wont come till march, mid march, thats for now, i dont know if things will stay the same, this is a new Era for us, a revolution one”

São pessoas como essas que estão fazendo a revolução. E elas não são muito diferentes de mim ou de voce. Não se deixem enganar que elas sejam. As pessoas são as mesmas. Exaustas de tanta opressao e hipocrisia!

Pensamentos no trem: De Jean Rouch ao Mundo Arabe

Mais uma vez estou em movimento. Mas nao estamos sempre em movimento? Em movimento na minha mente quer dizer cruzando alguma fronteira imaginada, e sabendo disso, esperando que isso de alguma forma mude algo. Essa cruzada nem se quer é muito cruzada. So vou até ali, até Paris, só por uns dias. De certa maneira tão mais perto que muito lugar na Inglaterra. E com o tanto de frances que se ouve nas ruas de Londres…. Nao chega nem sequer a realmente ser uma grande mudança 🙂

Depois de receber pessoas por quase um mes sem parar pelo Couch Surfing, paramos. Paramos depois da doce Severine, francesa, que vive num vilarejo de mil pessoas em Devon. Severine que morou na Eslovaquia, e Croacia, e que tao pouco se imagina vivendo em lugar nenhum.

Chorei de rir ouvindo as estorias da vida no country side britanico. Ela nos contou que participa quase de tudo que acontece, encontros, bingos e até do book club das senhoras da cidade. Contou que sempre se surpreende com os pensamentos dessas senhoras que ficam a maior parte do tempo em casa, e que moram num vilarejo de 1000 pessoas. Como ela colocou… “quando vc para para ouvir todo mundo é interessante :)”

Nem preciso dizer que meu encontro com Severine foi inspirador né? Encontrar pessoas assim que acham beleza nesses pequenos detalhes sempre me encanta. E só de pensar que eu que estava em meio a uma tempestade de Couch Surfing requests quase não a recebi….

A mensagem no Couch Surfing de Severine começava “ Fancy a tea talking about Jean Rouch”. Achei aquilo intrigante,Jean Rouch , é pouco conhecido , um cineasta do cinema verite de quem alias eu ja escrevi antes aqui. Jean Rouch tinha sido seu professor. Segundo ela, uma dessas pessoas que é melhor conhecer pelos filmes que ao vivo. Um pouco arrogante, e desiludido com a nova geração. “A grande geração ja passara”. Nos perguntamos o que ele acharia dos Egipcios que não só demoveram o Mubarak do poder mas depois todo o governo.

Eu que assisti pelo Democracy Now, e Al Jazeera a noticia da queda do Mubarak …e vi as pessoas na praça fiquei tão emocionada. Não sei se vcs viram nos dias que se seguiram… Algumas centenas de pessoas ainda na praça Tahrir… e os militares vindo remove-los. Os egipcios sentaram no chão. Não atacaram ninguem. Sentaram. E ao ouvir a noticia milhares de pessoas sairam de suas casas e foram se juntar aos protestantes nas ruas. E assim o governo inteiro caiu!

Eu não sei o que acontecerá agora. Não sou especialista em questões egipcias. O que parece nao ter sido uma desvantagem em prever o futuro 🙂 Sei que dependendo do jornal que se le NY times, Guardian, Al Jazeera, Haaretz ( e note que eu me mantive nos mais “de esquerda”) a perpectiva muda muito.

Enfim, esse post vai de lugar nenhum, a lugar algum. Vai como meus pensamentos pelo trem. Quanta coisa acontecendo nesse comeco de millenio.

Esse post começou na terca dia 15 quando eu estava no trem vindo a Paris. E agora eu volto a escrever nele da Gare du Nord. Ao rele-lo vi o tanto de coisa que eu ainda tenho para dizer. Coisas que aconteceram em Paris e que se ligam tanto a tudo que eu tinha escrito antes. Para que este post nao fique enorme so vou falar de uma das muitas coisas. Queria falar do meu jantar com meu querido professor Maurice Bloch, que tbm falou do Jean Rouch. Queria falar do Argelino que eu encontrei na rua. Mas eu so vou terminar falando da Leila.

Leila, minha querida amiga marroquina, com quem morei em NY e de quem tambem ja tanto falei estara na noite do dia 20 fazendo parte dos protestos no Marrocos. Esses protestos que se espalham. Toda essa volatilidade do mundo arabe agora. Na sua pagina do Facebook vi que eles marroquinos da classe alta nao sabiam muito bem do que se tratava o protesto, e nem tao pouco onde era. Todos pediam a ela, Leila, que tomasse cuidado.

Leila, minha querida Leila, explicava que eles que podiam fazer alguma coisa de diferente na sociedade marroquina tinham que ir. Tinham que ouvir, que assitir que protestar que pelo menos realmente entender o que estava acontecendo. Eu escrevi a ela que tomasse cuidado. E eu que as vezes vou la naqueles protestos das ruas europeias… naqueles protestos que ja nos causam furia ficar kettled… mas que no fundo sabemos que nao muda nada, e nada realmente nos acontece nao pude deixar de ficar emocionada em pensar na coragem dos egipcios, dos tunisiamos… no povo da libia sendo morto a queima roupa, nos 30 mil soldados na argelia, e na minha amiga que eh de mundo divido… da classe alta francesa marroquina… mas que nao deixa nunca de tentar entender o mundo mais a fundo, mais de perto.

Entao eu termino esse post mais uma vez sem ponto final. Apenas com meu pensamento nessas pessoas que tem a coragem de ir a rua. QUe estao exausta dos abusos. E cansa é claro ver as revolucoes serem roubadas do povo e o poder ser sempre restabelecido para continuar satisfazendo os interesses das elites do ocidente. Ainda assim eu termino pensando que o Jean Rouch estava errado…

Galhos, Vacas e Antropologia

Eu que detesto despedidas acabei de arrumar um jeito de me meter ainda mais nelas…. couchsurfing. Hoje o Chi foi embora. Ontem a noite fizemos uma festa do Oriente Medio para sua despedida. Eu sei, eu sei… não faz sentido nenhum, mas fazer o que a idéia surgiu… e assim passamos, eu e alguns amigos do meu doutorado, dancando até hoje de manhã.

Chi partiu me deixando com algumas coisas na mão: um selo do Taiwan e uma nota do dinheiro da Mongolia… Pois é, bem que ele tinha explicado que os asiaticos prestavam muita atenção no comportamento dos outros. Ele lembrava do meu sonho de ir a Mongólia. E partiu dizendo que se fossemos arvores, e alguem quisesse me encontrar, que teria que ir seguindo os galhos, que vao se dividindo, e se dividindo, e se dividindo ate chegar em mim. “Voce ta la na ponta. Vocé muito especial. Pouca gente vai te entender de verdade. Bem pouca, vc vive voando por ai.” Disse isso de maneira doce, mas eu senti uma enorme solidão. O que será que quer dizer eu estar la na ponta? Enquanto todo mundo ta no chão ?

Ele também me disse que o meu otimismo tinha pegado um pouco nele, isso me animou um pouco mais. Por fim me disse que eu podia sempre contar com ele. Quando eu fiz uma sacolinha de frutas e nozes para ele levar na viagem de onibus até Paris antes de partir para Madagascar ele riu e disse ” Para Jules, eu ja te devo demais, desse jeito eu vou voltar na proxima vida como sua vaca.”

Eu ri, e fui la levar a porta um viajante que ficou aqui em Londres 10 dias. 8 desses dias na minha casa. Fiquei imaginando que logo logo ele cruza para Madagascar, de onde eu sei tanta coisa, por ter como professores Maurice Bloch, e Rita Astuti. Ele planejando a viagem a Africa por estrada que nem sabemos se realmente funciona. Chegara no Sudão do Sul alguma hora. Um Taiwanes por la descobrindo os caminhos que se ligam na minha mente ao Michael Palin indo de polo a polo.

Fiquei pensando nas coisas tolas. Como de certa forma parte minha vai estar por aí andando pela Africa. Alguma parte que eu troquei sem nem se quer ter percebido. Um atomo, um pensamento, um amendoim esquecido no bolso. Ainda mais estranho foi pensar que eu que gosto tanto de viajar senti assim: que viajar ficando na casa dos outros assim.. deve ser dificil demais. Maravilhoso demais e dificil demais.

Eu aprendi tanto conversando com o Chi. Nada da historia da China, do conflito de Taiwan, nem das suas viagens. Ele falou de tudo isso é claro. Tudo isso podia ter sido lido num livro. Eu aprendi um pouco sobre como é outra maneira de pensar. E isso para mim uma hard core cognitivista é impressionante. Observa-lo na festa. Observar seus comentarios. Suas perguntas. Um Taiwanes muito diferente dos outros que eu ja conheci. E eu não to querendo aqui enfatizar nem similaridade cultural, nem diferença individual. Mas levando toda essa diferença meta-representacional a sério diz o que sobre a nossa cognição ? Meu deus…. será que eu to me convertendo para o lado dos antroplogos culturais e sociais ? Não, talvez seja so uma parte do Chi que ficou por aqui.. talvez seja uma parte dos antropologos tipicamente sociais com quem tenho passado tanto tempo ultimamente….

Ano Novo Chines

Hoje começou o ano do coelho. Eu nunca tinha celebrado o ano novo chines, mas como a Iva minha housemate é malay-chinese por parte de mãe, e celebra todos os anos o ano novo chines com a mãe, ela propos que nos celebrassemos aqui. No dia, que ela propos eu nunca imaginei que a celebracao, a nossa celebracao fosse ser tão divertida. Concordamos que iriamos.

Logo em seguida recebemos um couch request ( um pedido para ficar em casa pelo couch surf ) do Chi. Chi um chines de Taiwan explicava na mensagem que estava viajando por um ano, e que viajaria mais dois. Na hora que eu li soube imediatamente que queria conhece-lo. Eu NUNCA conheci um viajante Chines antes. Já conheci turistas. Agora viajantes, desses que ficam anos por aí normalmente são Europeus, Australianos, Americanos…

Chi chegou. Reservado, e ao mesmo tempo muito falante para um Chines. Nos encantamos todos com ele. Ele que saiu de Taiwan, de la foi para Hong Kong cruzou a China por terra, depois a MOngolia, depois a Russia, entrou na EUropa pela estonia e foi descendo até a Grécia. De lá veio para Europa Ocidental e subiu até o Reino Unido. Daqui voa para Madagascar e pretende ir subindo a Africa até o Egito que até lá esperemos que as coisas estejam mais resolvidas. Depois fará o Oriente Médio, o sudeste Asiatico e entao voara para a America Central e descera para América do Sul. Ufa… só escrever isso já cansa 🙂

Claro que eu tenho um milão de coisas para dizer do Chi. Dos milhões de perguntas que eu fiz…As pessoas ele acha se dividem mais entre pessoas do campo e das cidades, do que realmente de paises.As pessoas do campo em qualquer lugar vem falar ocm ele. Sentam para comer, ainda que nao possam realmente conversar, ainda que não se compreendam… “we have a great meal”. As pessoas do campo são parecidas em todos os lugares. A Europa ocidental ele achou um pouco desapontadora as pessoas são mais parecidas aqui que nos outros lugares onde esteve. Ele pensa com uma clareza. Fala de uma maneira tão delicada, ponderada que nos deixa todos encantados. Claro que eu o convidei para celebrar o ano Chines.

Depois enquanto estava contando sobre ele na minha aula de doutorado, resolvi apresenta-lo a Desiree. Desiree é alema e fará sua pesquisa em Taiwan e na China. Saindo da aula encontrei Anting. Anting é uma chinesa que estuda filosofia da ciencia na China e está de passagem nos visitando na LSE. Reservada fala bem pouco ingles, e como eu sei que ela quase nunca fala com ninguem eu a convidei tambem.

Nos encontramos em Leceister Square. E fomos juntos andando pela China Town. Encontramos um restaurante que nos coubesse. Entramos sentamos e pedimos comida para dividir. Chinese style. Na mesa uma Chinesa, um Taiwanes(?), um holandes, um australiano, uma alemã, uma brasileira, e uma chinese-malay/francesa. No final do jantar propus mais uma vez o ritual. Aquele onde cada um fala o que tem para falar.

Foi tão tocante. Iva nos agradeceu por ser sua familia aqui. Chi agradeceu pois nunca imaginou que teria uma celebracao. EU agradeci o encontro. todos falaram de viajar, da impermanencia de tudo. Quase todos nos naquela mesa nao sabemos muito bem onde estaremos daqui a 3 meses.

O que mais me tocou foi Anting. Ela me agradeceu. Explicou -me que nunca tinha passado um ano novo sem a familia e que o teria passado sozinha no quarto dela se não fosse o meu convite. Contou me que eu tinha sido a primeira pessoa a sorrir para ela, a primeira pessoa a abraça-la, a unica pessoa a convida-la para ir no bar da faculdade. Contou me que toda a familia dela sabe sobre mim. E eu fiquei emocionada. Muito emocionada. EU a convidei sabendo que ela era reservada. Sabendo que falar pouco ingles faz a vida dela dificil. NUnca imaginei que esses pequenos gestos pudessem significar tanto.

Esse ano novo chines me lembrou mais uma vez o poder das palavras e dos gestos. Nos nunca sabemos o que acontece com eles depois que os soltamos pelo ar. Eles tem que ser o nosso melhor, o nosso mais verdadeiro porque eles vão encontrando pessoas por aí. Eles vão transformando o mundo por aí. E as vezes a vida nos permite ver um pouquinho como eles transformam o mundo, e quando é para o melhor, quando é trazendo conforto e alegria a outra pessoa, é sem dúvida um grande presente.

Circulos

Quando eu fui para Israel em Setembro fiquei na casa do Netanel em Jerusalem. ELe, que é guia turistico, teve a paciencia de me contar 4000 anos de historia em uma longa caminhada. Passou dias comigo me mostrando todos os detalhes de Jerusalem. Eu, como já deve ter ficado bem claro, presto mais atenção em gente, do que predios. Então enquanto eu ouvia atentamente ao meu guia privado, especialista em todos os segredos historicos e arqeuologicos de Jerusalem, eu secretamente me distraia olhando os ortodoxos com seus chapeus, os Cristãos alugando suas cruzes, as mulheres e suas perucas, as crianças que corriam, os homens arabes tomando seus chá sentados numa mesa qualquer numa daquelas milhares de ruelas.

Eu olhava para o que ele me explicava, eu prestava atencao; no entanto, o que me chocava, e entretia sempre mais era imaginar que por aqueles milhares de anos as pessoas andavam naquelas ruelas, que o chao é marcado dos passos, de milhares de pessoas com milhares de duvidas existenciais, certezas religiosas, preocupações mundanas sempre carregadas nas pernas dessas pessoas…. sempre ficando ali no chao daquela cidade que se pudesse falar faria tão pouco sentido como faz sendo vista.

Netanel me levou aos mercados, aos lugares secretos, a econtros do couch surfing, me contou as lendas, as historias, cozinhou para mim, me explicou os caminhos todas as vezes que eu ligava perdida. Falamos de viajantes, do gato, da mae, de musica da irmã. Um pouco sobre o exerctio… bem pouco porque quando eu fiquei na casa de Netanel eu ja tava meio que emocionalmente exausta. Combinando a personalidade reservada dele, a minha exaustao quanto a questões tao emocionais como a questão Palestina na minha estadia em sua casa nos nunca falamos nada sobre isso.

E agora aqui em Londres, em meio ao turbilhão de mudanças, perguntas sobre que caminho seguir, como é que eu recomeço, faço doutorado, largo doutorado? Mudo de volta para o Brasil, vou para Romenia, para a Tailandia? eu recebi esses dias aqui em casa o Netanel. Fazia 4 meses que não nos viamos. E a chegada dele trouxe um pouco de calma… afinal não dá para ficar deprimida com um visitante. Não to querendo contrariar os gregos 🙂

Netanel foi nosso primeiro Couch Surfer nessa casa. Foi incrivel. Incrivel como sempre é. Eu fui sem dúvida pior anfitriã e pior hóspede do que ele…. que ja chegou trazendo alento, zatar e canela de Jerusalem. Chegou ja cozinhando. Chegou de mansinho, ficou bem quietinho. Eu nao pude contar a historia de nada pq eu nao sei a historia de nada. Eu tava mais para calada considerando as circusntancias.

Ontem a noite no entanto, no nosso ultimo jantar que ele cozinhou para todos nós propus que fizessemos o ritual da minha despedida. Dessa vez o bastião da fala foi um “nao sei como se chama” budista. Como um prayer bell daqueles de girar com a escritura dentro. Quem começou foi a Iva agradecendo a vinda de Netanel. Agradecendo por aprender sobre esse jeito de viajar sem sair de casa. Eu não vou falar do que todo mundo falou pois levaria muito tempo. Como sempre foi bonito.

Agora o que me tocou mesmo foi o que Netanel contou. Netanel que nao é um ativista me contou que ele já tinha estado na Palestina como soldado. Tinha estado carregando fuzil, com as costas na parede e com medo. Que faz 2 semanas organizou um grupo de couchsurfing para ir a Palestina. Foi pela primeira vez como civil. Entrou no campo de refugiados. Conversou em broken arabic. Quando disse que era Judeu foi tratado com total surpresa. Depois que voltou para Jerusalem recebeu um palestino em sua casa. Um couchsurfer. Contou das conversas. E conclui dizendo:

“Antes de eu ir, eu achava que para melhorar a situacao a Palestina precisava ser melhorada materialmente. A situacao la é terrivel. Eu achava que o principal para vivermos em paz era que eles pudessem melhorar economicamente. Agora que eu fui la, sem fuzil, sem estar com as costas na parede eu sei que isso não é o suficiente. É importante mas não é o suficiente. Agora eu sei que a unica coisa que realmente pode nos levar a paz é contato.”

Meus olhos se encheram de lágrimas. Assim como se enchem agora. Esses dias eu vi um TED talk onde uma escritora turca começava contando que foi criada pela mae secular, e a avó muito mistica. A avó, ela explicou, sempre recebia pessoas que vinham benzer suas verrugas e marcas na pele. A avó benzia e fazia um circulo com uma caneta a volta da marca. Os pacientes voltavam com as marcas desaparecidas. A autora explicou que dizia a avó que se intrigava com o poder da fé. A avó então disse a neta ” Sem duvida a fe move montanhas, mas nao se esqueça do poder dos circulos. Tudo que vc fecha em um circulo, rodeia acaba se destruindo,se consumindo… desaparece”

Ouvindo o meu amigo que não é um ativista sair do seu circulo para encontrar o outro de outra cultura me toca. Não é necessario abandonar a sua identidade para encontrar o outro. Agora ficar só no seu grupo, no seu circulo é bem perigoso. Eu concordo com a autora turca que fala do poder das estórias. Estória nos levam a conhecer o outro. E como vcs bem sabe eu acredito no poder dos encontros. Encontro, amor e compaixão são realmente as unicas coisas verdadeiramente subversivas.

Ponto e virgula

Cruzei as mil fronteiras imaginadas, que no céu parecem ainda mais absurdas, dormindo. Acordada as vezes me vinha umas lembrancas soltas. Nossa quanta coisa aconteceu enquanto eu estive no Brasil. Quanta coisa dentro de mim. Cheguei a uma Londres nem tão fria nem tão cinza. Cheguei já com uma mensagem de texto de um amigo yogi me desejando as boas vindas. Sorri, não há nada melhor do que ser acolhida assim de cara por amigos que voce não imaginava que saberiam a duração da sua ausencia.

No meu último post eu estava assim, me sentindo sem ponto final. Estava totalmente fora de lugar. Querendo ficar e tendo que ir. Inventando mil cenarios onde em todos eu parecia estranhamente fora de lugar. Tudo isso tem a ver com o tempo. Em grego, aparentemente, existe a diferença entre Chronos ( o tempo cronologico) e Kairos ( o tempo, o momento supremo). Aliás isso é tão parecido com o BUdismo. A impermanencia de tudo é no Chronos. Estar sempre presente deve ser Kairos. Acontece que nesses momentos Kairos dá um medo de perde-los no tempo. No Chronos 🙂

Eu tava assim perdida em Chronos. Correndo atras daquele Kairos que só podia existir quando existiu. Sempre na frente ou sempre atras. Eu morria diariamente umas 10 mil vezes tentando encontrar. Até o dia da minha despedida. Aquela que no
último post eu esperava me sentindo sem ponto final.

Chegaram as pessoas. Amigos de varias partes. De varias idades. De varias ideias. E ali no encontramos. Primeiro em estorias de viagens, estorias engraçadas. Depois já no final da noite, Malu Barciotte, que eu tinha conhecido na Lapinha, e que ja tinha feito o ritual das lanternas que tanto mexera comigo propos um outro ritual. Eu não me lembro muito bem o nome do Ritual. Ele bascimanete consiste em ouvir o outro. Sentamos em circulo e escolhemos o bastião da fala. Eu escolhi a estátua africana. Uma cabeça de mulher que minha avó trouxe de uma viagem que fez a Africa. Maluh começou por explicar as regras. Quem segura a cabeça fala. Fala quem é o que pensa, o que faz, alias fala o que quiser. E nos todos ouvimos. Ouvimos com tudo. Sem interromper. Ainda que tivessemos mil perguntas, ainda que discordassemos, apenas ouvimos. E como é dificil só ouvir 🙂 Quando concorda-se com uma ideia diz-se “Hou!”. E no final da sua fala que dura o tempo que vc quiser termina-se por dizer ” Eu sou …, falei, Hei!” e nos respondemos “Hou”.

O que sempre me impressiona em rituais é como é fácil para nós humanos nos conectarmos a eles. Vide o poder de religioes, futebol, exercitos. Fazer coisas juntos, sincronizar comportamento tem uma coisa evolutivamente, e cognitivamente muito forte. Então ali sentados em circulo observando as regras em pouco tempo o ritual ficou profundo. Maluh comecou falando de Arete. De acordo com Wikipedia Arete vem “de excelência, ligado à noção de cumprimento do propósito ou da função a que o indivíduo se destina. [1] No sentido grego, a virtude coincide com a realização da própria essência, e portanto a noção se estende a todos os seres vivos. Segundo Sócrates, a virtude é fazer aquilo que a que cada um se destina. Aquilo que no plano objetivo é a realização da própria essência, no plano subjetivo coincide com a própria felicidade.”

Maluh começou ali falando do que fazia, ela que eh geneticista, artista e mais um milhao de coisas, falou de baixar um pouco a bandeira dos direitos e levantar a bandeira da responsabilidade. Em seguida falou Diego, que por ser filosofo, começou de Arete mesmo. Fiquei pensando dentro de mim naquela sincronicidade. E o resto da noite foi assim. EU que conhecia a todos pensava “meu deus, tantas coisas estão sendo ditas aqui que tantas pessoas precisam ouvir”. Como é possivel uma coisa dessa que as vezes aquela coisa exata que precisa ser ouvida se transborda assim da boca do outro?

O nosso ritual foi profundo. Tão profundo que todos que participaram escreveram algo sobre o ritual, ou mensagens para mim. Fiquei pensando como ali, em tão pouco tempo as pessoas se conectaram com suas essencias. Mesmo as pessoas que falaram menos pareciam tão conectadas a tudo que estava sendo dito.

Minha buscas ali foram parcialmente resolvidas. Aquele sentimento de solidão que eu senti tantas vezes no Brasil se preencheu. Se preenche sempre no encontro com o outro. E esse outro tá em todo o lugar. Cheguei desencontrada e saí convencida que em qualquer lugar se encontra gente que tem as mesmas buscas. Ainda que as vivam de maneira muito distintas. Saí com um sentimento inabalavel de otimismo, de amor, de gratidão.

E saí sem precisar de ponto final. Me sentindo assim, num ponto e virgula. Afinal de contas a vida continua.

Sem ponto final

É chegada mais uma vez a hora de eu partir. Já pensei umas mil maneiras de não partir. Mil coisas que poderiam dar errado e me prender aqui. Será que eu sempre faço isso. Confesso que eu já não sei mais se sou tão viajante, ou se por viver tanto essas mudanças o tempo todo acabei acreditando que sou. O que eu sei é que nessa manha faz sol la fora e a idéia de voltar para uma Londres gelada e sem luz é bem pouco charmosa.

Minha estadia no Brasil teve 4 fases. Um calendario lunar 🙂 A primeira fase sempre começa comigo vindo tensa me escondendo no meu cantinho indo visitar a “maquina”, fazendo meu exames, esperando o resultado, recebendo-os celebrando os e aos pouquinhos saindo da toca.

Na segunda fase eu fui me acalmar lá no sul com minha prima recem coincida de fato, mas como ja expliquei aqui, conhecida de muito tempo de dentro. Passei com ela o tempo da paz. Fazendo nada alem de ter conversas inspiradoras, caminhadas em meio ao verde, yoga, comendo comida organica, me encontrando com pessoas muito especiais. Renovando todas as baterias. Lembro de pensar enquanto estava na Lapinha que de fato 2010 tinha sido tranquilo que eu nem se quer precisava descansar tanto. Mas como a vida escreve certo por linhas tortas eu compreenderia depois que eu nao estava me renovando por esgotamento com o passado, eu estava me preparando para encarar o que viria no futuro.

A terceia fase foi o Rio de Janeiro. E o Rio de Janeiro foi tudo que há de intenso para mim. Sol demais, emoções demais, encontros demais, reencontros fortes.. e ainda uma despedida epica numa noite chuvosa onde eu acabei passando uma das piores noites da minha vida tentando fugir de um ataque um amigo meu. Foi epico. Chovia, eu chorava ele gritava. E eu que já tava meio esgotada antes da tal noite parti do Rio assim como quem foge esperando encontrar no deslocamento um cessar para toda o turbilhão e reviravoltas do dentro.

Então chegou a quarta fase: Ubatuba com minha familia. A fase de reavaliar tudo. O que é mesmo que eu to fazendo? Porque mesmo quero ir fazer minha pesquisa de campo em Israel? Porque é que eu moro em Londres? Porque é que eu deixo aqui tantas pessoas que eu amo? Perguntas, muitas perguntas sem resposta. Morria umas dez vezes por dia por não entender muito bem o tempo das coisas. Alguem que tiver lendo aí da uma luz. Como é que a gente sabe se quebra tudo? Ou se espera o furor passar? Não sei. Então eu nadei pedindo a todos os orixas e todo aquele resto de coisa que eu nunca nem sei quem é que tirasse ali no mar tudo. Andei a praia de ponta a ponta umas mil vezes. Fiz Yoga em todos os pedacos do meu jardim, em todas as partes da praia, em todos os pedacos de mim. Meditei na areia, na pedra, sentindo areia, sentindo o mar, sentindo os sons. Conversei com desconhecidos, com familia e até tive a chance de conhecer o grande flautista Toninho Carrasqueira e tocar com ele e seus amigos no Hotel da Dona Antonieta amiga da minha mãe.

Pronto e aí chegou a hora de partir. Voltei para Sao Paulo num choro silencioso de quem realmente nao sabe o que fazer. Será que toda vez eu passo por isso? Eu nem sei mais. Como é que a gente aprende a ficar no tempo nas coisas o tempo todo? Sem querer que ele se estenda ? Mas ao mesmo tempo como sera que a gente sabe que talvez nao esteja mais vivendo o tempo das coisas e por isso fica querendo fazer todo os resto se estender. Nao sei. E toda a meditacao do mundo nao resolveria, porque quando isso bate, bate assim sem vc querer se anestesiar, sem querer deixar passar.

Entao eu sento aqui na sala. Sento mais uma vez esperando meus queridos amigos aparecerem para dizer adeus. Muitas vezes esses adeus sao” Olas” pq na minha estadia eu nunca consigo ver todo mundo que eu queria ver. E sao nessas despedidas que eles vem dizer “Ola e Adeus” junto. E eu fico sempre com um nó na garganta. Sempre tento me convencer que isso é só até eu chegar do outro lado e me refaço nos outros encontros. Eu sei que um post devia ter conclusao… Normalmente eu concluo nisso em saber que do outro lado as coisas se resolvem mas nesse exato momento eu to me sentindo assim sem ponto final.

Encontros

Eu estou acostumada a me sentir só em continentes distantes. Achar alento nos pequenos momentos de reconhecimento, em ver coisas tolas que em terras longinquas me trazem tao perto de me sentir parte de um todo. Quase nunca me importa me sentir só em lugares que eu nao falo a lingua. É sempre no encontro com o viajante, um outro “wanderer” existencial que eu me sinto em casa. E apesar de eu saber de tudo isso muito conscientemente, inconscientemente eu de alguma forma sempre espero que aqui no Brasil eu me sinta mais em casa. Eu não sei direito porque eu espero isso, porque o lugar “parecer” familiar só evidencia na verdade o quão arbitrario tudo é. Assim, que muitas vezes aqui no Brasil eu me sinto mais só do que em outros lugares do mundo. Eu sei que é uma ilusão, a solidao deve ser a mesma, mas é em meio a esperar o familiar e não importa quanto eu me prepare para isso, la dentro eu sempre espero encontrar um sentimento de casa. Nao encontro. Nao encontro em lugar fixo nenhum, e acho que nunca vou encontrar, eu encontro nos encontros…

E quando esses encontros acontecem meu deus como eu me emociono. Eu fico tão grata. Acessar ali com um outro alguem algo de privado, de secreto, de unico de individual. Algo que eu mesma nem lembrava que sentia tanta falta. E eu tento engolir tudo, ficar ali naquele momento o tempo que eu puder ficar, porque é tudo impermanente, e na minha vida de eternas mudanças o impermanente é tão evidente. Lembro do ultimo café da manhã que eu tomei com minha amiga Sabrina Rabello ( alias cd dela esta lançado!!!) em Londres, antes dela se mudar para começar um post doc em Boston. Lembro de querer estar ali tanto, porque tudo aquilo que nos dividiamos, quem eu era com a Sa ia ter que por um tempo indeterminado ficar suspenso. Lembro de no dia seguinte de sua partida ter algo para dizer para ela, que so ela no mundo todo poderia entender. Lembro de sentar no ponto de onibus sentindo uma saudade, uma falta de ar por mais uma vez ter que recriar o mundo sem a minha amiga por perto.

Lembro de sentir isso também quando parti da Asia. Sentada no aeroporto eu tentava imaginar mil maneiras de voltar para o Rio Mekong. Meu mestrado para acabar, minha vida suspensa em Londres, e eu querendo voltar para o norte da Tailandia. Lembro de mal conceber durantes as noites como seria se eu nao pudesse nunca mais voltar para a Asia. Lembro de no Hospital, quando eu ainda nao sabia o que eu tinha, de pensar meu deus eu quero ver o mundo, eu quero subir pedra e arvore, eu quero aprender a rir em outras linguas e se eu nao puder fazer mais nada?

E lembro é claro tambem dos momentos de encontro. E qualquer triagem que eu faça aqui será injusta. Deixará de fora momentos e pessoas importantes. Porque eu quase sempre to 100% por cento nos lugares onde estou. Lembro dos tambores berberes tocando na minha pele no deserto do Sahara, do vendedor de rede no litoral do Brasil, do meu encontro com SS Karmapa na India, sentir todos os musculos enquanto eu tentava descer uma pedra no sul da Asia, o molejo do elefante, o abraço inusitado de Tangmo, minha aluna tailandesa. Lembro de gargalhar com Horm, e Aoh na varanda de um vilarejo minusculo sem entender quase nada. Gargalhar em meio a trovoadas e falta de luz enquanto Aoh massageava Horm. Lembro de me sentir dentro da casa bombardeada no Iran quando minha amiga Sara apavorada veio ao meu quarto no dia que os EUA invadiram o Iraq falar de suas memorias de infancia. Lembro de ouvir a Joss, em Ny, me contar com todos os detalhes do mundo sobre o presente que ela tinha ganhado de uma menina tibetana. Ou entao, de ouvir Elisa me contar shakespeare dentro do Jardim Botanico, sentir o piado dos passarinhos na pele. Em todos esses momentos eu senti uma gratidao enorme por poder ouvir essas estorias, por poder estar la.

Na Lapinha, agora nesse final de ano, eu tive encontros assim. Primeiro o meu encontro com minha prima que mexeu muito comigo. Depois com mulheres que tinham tantas estorias lindas para contar. Mulheres que se encontraram como mulheres. Se encontraram nas minha estotias pouco ortodoxas. E por sentirem se a vontade ouvindo as minhas contavam as suas. Como somos parecidos no mundo era tudo que eu pensava.

Conheci na Lapinha uma mulher excepcional. Claudia Alcantara. Quando ouvi a estoria da sua vida disse imediatamente que escreveria sobre ela. Ela me explicou que ja tinham escrito. Eu expliquei que nao era que eu ia escrever para ninguem publicar. Eu escreveria no meu blog onde eu transbordo assim meio sem sentido e quase ninguem le. FIcamos amigas. Claudia é uma grande empreendedora. A mente dela não para nunca. Paramos juntas para meditar. E eu ouvi ela contar suas estorias. Claudia que criou a Cadiveu uma empresa que faz cosmeticos para cabelereiros, criou tbm um salao, e uma loja de produtos organicos. Cadiveu é um nome de uma tribo. Eu não sabia nada sobre eles. E nem tao pouco sobre cosmeticos.

Ontem fui ao salao da Claudia. Praticamente brincamos de boneca 🙂 Ela me penteou. E eu pude conhecer a loja organica dela. Ela me mostrou um vaso pintado pelos Cadiveu e me contou sobre eles. Me contou sobre como ela criou tudo que criou. Seu sucesso, e sua beleza não estão para mim na estoria comercial de sucesso. Mas numa coisa bonita que ela me disse. “Ju, atraves do meu trabalho eu to podendo dar trabalho, e ajudar muita gente. Eu tento ajudar os Indios o maximo que eu posso. Eu me encantei pelo arte deles.” Fui ouvindo seu planos e fui ficando emocionada. Eu vivo num mundo academico, esse outro mundo é muito alien para mim.

“Eu criei tudo que eu tenho. Comecei do nada. Eu não me importo com o dinheiro em si. Dinheiro é importante para eu poder continuar criando, ajudando as pessoas a minha volta, eu acho que temos que fazer o bem.”

Caminhamos juntas até minha casa. Queria ter dito a ela que ela não começou do nada. Ela começou do tudo. Do que realmente importa. Não disse, as vezes essas coisas ficam no silencio. E eu senti aquela coisa de encontro. Que eu sinto as vezes nos momentos mais distintos. Com pessoas as vezes tão diferentes de mim. Acho que são pessoas que querem um mundo melhor. Que constroem diariamente um mundo melhor. Não precisa ser nada megalomaniaco, mas alguma conviccao que o mundo está sim mudando, e que nós nas interações diaria somos parte do mundo que se forma.

Em um desses encontros muito profundos e intensos que eu tive me disseram. “Voce nao ta 100% aqui. 100% por cento é ficar. é nao ir embora.” Pensei tanto sobre isso. Talvez ter a partida determinada faça com que eu tente estar muito mais pois tenho pouco tempo. As vezes me dá medo eu me abrir tanto assim, e amar tanto assim. As vezes é exaustivo ser eu. Mas o que é que eu posso fazer….. eu não sei ser outra pessoa.

Encontros Inusitados

Estou ficando na casa do meu grande amigo Fellipe Gamarano Barbosa. Fellipe é cineasta, ele ve o mundo assim de uma maneira só dele. As vezes discutimos por causa disso porque eu vejo de uma maneira so minha. As discussões duram pouco pois somos amigos há tempo demais. Da casa dele saí de manhã para encontra uma outra amiga nossa que estudou conosco em NY. Marcamos o encontro no BiBi sucos o unico lugar que eu sei ir aqui no rio. Eu sei porque é logo aqui do lado. Assim que todo mundo que eu tenho que encontrar, eu encontro la. O Bibi é um lugar muito popular então na hora de almoço está sempre cheio.

Esperei do lado de fora minha amiga chegar enquanto eu observava a movimentação lá dentro. Quando ela finalmente chegou, entramos e eu pedi a dois senhores sentados numa mesa se podiamos divivir a mesa com eles. Eles concordaram, e começamos uma breve conversa sobre como era meio triste o fato das pessoas ficarem sentadas sozinhas em mesas de 4 lugares enquanto tinha gente que esperava de pe. Sentamos de uma maneira que minha amiga Elisa ficou na frente do meu vizinho e eu na frente do dela.

Tivemos conversas paralelas e por uma hora eu realmente nao tive a menor ideia sobre o que estava acontecendo com ela. A minha frente estava David. Um senho de 74 anos, muito em forma, muito gentil e que parecia emocionalmente abalado. Perguntei se ele estava bem e ele me explicou que estava muito tenso, sua filha diabetica tinha sofrido uma operação de 8 horas. Ela, ele me explicou era uma pessoa dificilima. Se recusava a ter enfermeiros terapeutas, nao comia e vive entrando em coma. Ele tem que ligar o dia inteiro para ver se ela comeu e quando ela nao atende ele sabe que tem que sair correndo porque ela deve estar em coma. ” Quando ela entra em coma na cama tudo bem, eh facil, mas quando eh no chao e eu tenho que dar agua com açucar com conta gotas ajoelhado no chao me arrebenta! eu tenho 74 anos!”

Eu quando ouço essas coisas sempre quero trazer uma palavra de alivio. Ali eu nao sabia o que dizer. Propunha solucoes todas tentadas. ” MInha filha eh muito revoltada! vc nao entende ela bate o pe e nao faz”. Eu queria dizer ” Entao deixa! O senhor nao pode ficar 24 horas por dia tomando conta da sua filha!”. Impossivel de dizer isso. Como dizer a um pai que ja viu a filha quase morrrer um milhao de vezes para deixa-la e ver o que acontece? Entao eu ouvi em silencio. Ele me contou que tomava conta da filha, a sobrinha tinha tido cancer 5 vezes, o irmao tem 91 anos. Fui ouvindo sem saber o que dizer. Eu so dizia “Davi, o senhor precisa tomar pelo menos 5 minutos por dia para meditar! Pare por um segundo e fique com vc. Esqueca todos os outros!”. “Eu nao posso minha filha, eu tenho que cuidar deles!!!” Eu ouvia, e sempre insistia na minha ideia ” 2 minutos no banho fecha o olho e larga tudo!”. Conversamos muito. E ao final ele que me explicou que era meio medium me contou que tudo que eu fizesse eu faria bem, daria certo. Eu agradeci as palavras.

Ao meu lado, Elisa minha amiga teve uma conversa bem menos inspiradora. Ela que é atriz conversou com outro Davi o ator da escolhinha do professor Raimundo SambariLove. Eu nao o reconheci porque eu sou pessima com essas coisas, alem de nao ter visto a escolhina muitas vezes.

De noite, fui com Fellipe a um bar aqui perto de casa. Sentamos, e ele comecou uma conversa com um senhor que eu tao pouco tinha reconhecido. O senhor estava fazendo um filme sobre musica e compositores. Fellipe falou para o senhor de mim, e me mandou sentar com ele. Das grandes coincidencias. O senho era o Eduardo Coutinho. De quem eu confesso nunca tinha ouvido falar ate assistir o filme sobre o qual escrevi no ultimo post. Sentei me com ele e disse tudo aquilo que escrevi aqui. Conversamos sobre antropologia, filosofia e muitos outros ia. Ele me falou para mandar as musicas. Eu achando aquilo tudo meio estranho. Eu que componho assim por diletantismo fiquei sem saber direito oque dizer. Nao fazia nem 12 horas que eu tinha escrito sobre ele, sobre o filme dele.

Voltei para casa, e o ultimo pensamento que tive antes de deitar nao foi sobre o E. Coutinho. A conversa com o Coutinho foi muito interessante mas oque me tocou foi o outro encontro, o outro que me deixou bem mais feliz. Foi o Davi. Logo antes de sair do Bibi ele me olhou e disse “Me desculpe! Eu joguei toda essa carga em cima de vc! Eu te contei tudo sobre tudo isso.” Eu expliquei que ele nao precisava pedir desculpa, que eu esperava que ele parasse 2 minutos por dia para se recarregar. Que eu tinha ficado tocada ounvindo tudo. E entao ele disse ” Julieta. Voce é uma pessoa muito muito especial. Encontrar voce aqui foi a melhor coisa que aconteceu no meu ano todo. Muito obrigada por vc ter me ouvido!”

Meu olhos se encheram de lagrimas. E eu entendi que as vezes nao temos que dizer nada. As vezes as pessoas sao colocadas no nossa caminho para serem ouvidas, para nos ouvirem. Ouvir mesmo. Ouvir com tudo que ta ali. E eu ouvi, e foi um presente muito grande para mim apenas ouvir. E no final ainda ouvir de um homem tao bom que nosso inusitado encontro tenha trazido um pouco de alento.