Aulas

Alguns meses atras eu me inscrevi para ser seminar leader de um curso da Birkbeck. Havia tres opcoes Pyschological Approaches to Social Conflict, Sociological Approaches to Social COnflict e Political Approaches to Social Conflict. Achei que seria muito dificil me chamarem afinal eu nem terminei ( e agora nem vou terminar ) meu doutorado. No entanto, achei que se me chamassem, seria para uma das duas primeiras aulas…. como a vida sempre surpreende eis que me chamaram para a aula de politca.

No comeco fiquei meio insegura afinal de contas, apesar de eu ter feito um monte de aulas de ciencia politica e politica internacional essa nao eh minha especialidade. Encontrei com o professor que na verdade eh da SOAS e quando vi o syllabus fiquei bem tranquila. Os topicos eram liberalismo, feminismo, Marxismo etc. E como a classe era para undergrad nao havia nada de muito complicado.

Alem disso, a unica coisa que eu tinha que fazer era guiar o seminario depois deles terem visto a aula. Em outras palavras faze-los falar sobre o que eles tinham aprendido. Tanto eu como o Kevin estamos muito mais interessados em saber o que essas pessoas pensam depois de ter ouvido o que pensava Stuart Mill, our Marx do que te-los repetirem o que os famosos e debatidos pensadores pensam ou nao.

Na Birkbeck ha muitos alunos que ja sao mais velhos. Eu nunca na minha vida imaginei que eu fosse ficar tao interessada, e tao fascinada pelas discussoes que eu fomento toda terca-feira, e quarta a noite.

Alem dos alunos serem mais velhos eles tbm vem de tudo que eh lugar no mundo. Ha muitas mulheres africanas no meu grupo e elas tem sido uma verdadeira fonte de aprendizado. Acho que quem ele esse Blog deve ter uma ideia que eu nao sou muito a favor do total relativismo cultural, mas tao pouco assino embaixo do universalismo com apolitico. Essa aula tem sido incrivel por isso.

Semana passada o topico que sempre aparece nas minhas aulas de faculdade nos eua, na holanda, aqui apareceu: circunzicao feminina. Nas minhas aulas eu li muito sobre isso mas nunca tinha tido representantes circuncizadas presentes. E eis que a conversa comeca de cara com uma mulher nos seus 40 dizendo que era circuncizada sim e com muito orgulho.

Eu comeco sempre explicando o que eu acredito mesmo: que quanto mais eu viajo mais parecidos eu acho que somos, e cada vez mais eu me humildeco ( existe?) com a generosidade e sabedorias das pessoas de lugares que eu nao compreendo muito bem. Perguntei entao: Porque ela se sentia orgulhosa

” Por que eu me sinto bonita!”

De todas as respostas do mundo essa era a ultima que eu imaginava escutar. Uma africana do outro lado da sala gritou.

” Mas voce foi forcada a fazer isso, agora tem mesmo que achar bonito!”

” Imagina, eu tinha 17 anos fui porque quis!”

Eu ponderei e contei a elas o caso de uma amiga minha muito bonita que ja fez nao sei quantas plasticas no brasil para se sentir bonita. Varias anestesias desnecessarias, alergias a medicamentos… mas ela sempre me explica que faz por que quer.

Ponderei que sempre que achamos que temos uma escolha temos que parar e pensar ” Se eu nao fizer isso minha vida na sociedade vai ser mais dificil? vai ser mais dificil de casar, ter namorados? arrumar emprego etc etc etc?” e eh claro que ha niveis, mas se a resposta for sim, provavelmente quer dizer que isso nao eh tanto uma escolha, mas mais uma pratica a qual fomos socializados e acreditamos estar escolhendo. Mais ou menos como usar roupa.

A mesma mulher que tinha se oposto a circuncisao gritou ” voce acha que escolhe, mas eh porque todo mundo faz na sua sociedade”

E entao uma mulher muito quieta la do fundo da sala disse ” No meu pais, a circuncisao foi proibida e sabe o que nos meninas fazemos? Nos viajamos para Burkina Faso e fazemos la!”

Os europeus da sala ficaram de queixo caido. Uma outra mulher ainda tentou ” acho que isso tem a ver com o fato que mulher ter prazer eh tabu”

Ao que a primeira respondeu ” Eu tenho muito prazer! Quem sao voces para decidir como eh que eu sinto prazer e experiencio amor?” disse e deu uma gargalhada.

Toda quarta feira agora eh assim. Tudo que eu aprendi de ler de em etnografia eu to podendo verificar first hand 🙂 E como eh fascinante ver que somos tao parecidos and yet tao diferentes.

ps: da proxima vez eu prometo que falo sobre a discussao sobre feminismo e poligamia.

Migalhas de Sentido

Chegou aquela época do ano que eu fico ocupadissima fazendo nada 🙂 Nos últimos 4-5 anos eu sempre trabalho durante um mes manha e tarde de vigia de prova na universidade. Quase que todos os outros vigias que estao a todo esse tempo sao estudantes de doutorado. Assim que uma vez por ano nos encontramos para lamentar sobre nossa vida acadêmica.

Esse ano entrei no elevador e logo no primeiro dia dei de cara com o Karim (de quem alias ja escrevi aqui). Karim eh argelino e ta fazendo doutorado de economia desde que eu o conheço.

“Karim, larguei meu doutorado!”

Ele olhou para mim sorrindo, ja com a barba mais para branca do que ruiva, ja com sinais bem mais marcados no rosto, e com um olhar ainda mais cansado do que o olhar dos últimos cinco anos.

“Good for you Jules. Better to finish with it than to let it finish with you.”

Eu ri. Assim com sempre rio quando encontro alguem que ta penando ha mais de 5 anos me dizendo que nada disso vale a pena. Eu discordo. Digo que vale a pena para alguns. Meu amigos doutorandos suspiram e dizem que gostariam de ter tido a coragem de largar tudo bem mais cedo. Ja os meus amigos de mestrado e faculdade agem radicalmente diferente. Eles me olham com pesar. ” Voce tem certeza ?”. Eu explico que tenho certeza hoje. Amanha, amanha eu nao sei 🙂

Karim foi também a primeira pessoa com quem trabalhei de vigia. Na época eu carregava comigo o Lonely Planet do Marrocos. Ele o notou mas nao disse nada. No ano seguinte, eu trazia comigo o guia da India. No terceiro ano, quando encontrei Karim no corredor ele me perguntou rindo de que pais subdesenvolvido eu esta carregando o guia desta vez? Abri a bolsa e mostrei que nao havia nenhum, depois confessei: que meus guias do camboja e do laos estavam em casa. Karim riu.

Quando encontrei Karim no elevador esse ano comecei dizendo. ” Karim I quit my PhD. La da Palestina eu percebi que nao fazia sentido nenhum!”

“So you have finally gotten tired of travelling these places?”

“Of course not, maybe i ll be tired next year when I am back from wherever it is that i go in asia”

Ele olhou para mim sem compreender muito bem. Abri minha bolsa e mostrei o guia da India e da China.

” Are you going back there?” ele perguntou incrédulo.

E eu pude explicar que sim. Dessa vez eu vou como sempre sonhei em ir. Com uma passagem que chega em Delhi em Agosto, e sai de Bangkok em Abril. Sem muito dinheiro, sem voo que me leve da India a Tailandia. Sabendo que eu nao posso cruzar por terra Burma. Que talvez eu possa cruzar do Nepal ao Tibet se a China deixar. Cruzar a China ate chegar ao Vietnam, depois cruzar o Laos ate chegar de volta a casa em Non Khai na Mut Mee. Sabendo que eu posso mudar tudo isso pelo caminho e que na verdade nem se quer preciso voltar em Abril. Eu hei de ficar frustrada, ter diarreia, ficar cansada, nao entender nada, voluntariar pelo caminho, dar aula em algum pais asiatico quando nao tiver dinheiro, couchsruf, sentir enorme solidao…. Mas a antecipacao de encontrar por ai migalhas de sentido, sorrisos em outras linguas, meta-representacoes diferentes da nossa inerente universal humanidade faz com que eu me sinta ja incrivelmente grata por poder passar por todas essas pequenas confusões.

O Medo

Meu housemate Shane acabou de partir. Celebramos sua partida o final de semana inteiro afinal hoje ele voltava para a Adelaide, Australia onde eu morei quando tinha 15 anos. Nao faz muito tempo que eu escrevi aqui sobre o ano novo chines que celebrei aqui em Londres.

Naquele dia sentados a volta da mesa fizemos o ritual do tolkien of speech que eu aprendi na minha despedida do brasil. Quase que todos ali em volta da mesa falaram da incerteza do futuro. Chi, meu couch surfer Chines, tinha completado um ano de viagem… e seguia rumo a Madagascar. Shane falava da sua volta incerta a Australia, eu da minha possivel mudanca para fazer trabalho de campo em Israel. Naquele dia, tudo aquilo trazia um pouco de ansiedade enquanto ao mesmo tempo parecia tao longe.

Hoje eu acordei depois de passar apenas duas horas dormindo. Acordei porque o futuro tinha chegado no presente. O Shane estava indo embora. O Chi que eu acompanho pelo site do couchsurfing e por trocas de email esta agora na Uganda e eu, que acabo de voltar da Palestina, abandonei meu doutorado.

Lembro que naquele dia sentada em volta da mesa Chi disse que descobriu um dia que precisava sair por ai ate encontrar um lugar. “Nem todo mundo eh assim” ele explicou. Quando eu finalmente mandei meu email final de Beit Sahour na Palestina para minha supervisora explicando que dessa vez nao tinha volta eu estava de fato abandonando meu doutorado senti um misto de desespero com alivio. O que é mesmo que eu faço agora?

Mas se tem uma coisa que eu a medo que meus amigos israelenses sentem nao permite que eles descubram que os meus amigos palestinos ali do lado do muro tem as mesmas duvidas, as mesmas insegurancas, as mesmas ansiedades e alegrias. Ter amigos dos dois lados do mundo é subversivo pois confronta os dois lados com a obvia humanidade.

Antes de eu cruzar o muro para couchsurf na Palestina meus amigos Israelenses ficaram aterrorizados. “Vc ta louca? Vc quer ir ficar na casa de um estranho palestino em NABLUS? Voce realmente nao quer voltar viva!”. Confesso que vez ou outra senti medo antes de ir. Parei e pensei “sera que eu estou me colocando em risco desnecessario?”. Esse simples pensamento me assusta, se eu nao tivesse cruzado o muro, se eu nao tivesse ido a casa de estranhos que conheci pelo caminho eu teria acreditado no que a midia, e os governos e todos esses orgaos manipuladores nos querem fazer acreditar. Que o diferente é perigoso. Que é melhor ficar no nosso proprio grupo. Que aquele povo de la nao está preprado para democracia, ou nao entende nada de direitos etc etc etc. Que eles nao sao como nos.

Medo faz isso. Nos congela no tempo e no espaço. Nos torna menos empiricos, e mais generalizadores das situações. Faz com que ideias como “preeventive strikes” sejam apoiadas. Medo nos faz ficar nas nossas “nao escolhas” por medo que a alternativa possa ser pior.

Mudanças são ao mesmo tempo aterrorizantes e libertadoras. Dizer adeus ao meu amigo Shane foi meio aterrorizante. Nessa vida de cruzar tantas fronteiras nunca se sabe quem se encontra de novo. Abandonar a minha nao escolha de doutorado pela verdadeira escolha de nao faze-lo por nao acreditar na minha pesquisa depois de ir ate a Palestina foi libertador. Muito libertador. Quando o carro que levou o Shane agora ao aeroporto desapareceu no horizonte me deu um certo medinho. Tudo bem a gente respira fundo, e lembra que a vida nao é estatica, que é tudo em movimento, e não adianta ficar se segurando no que está passando. Respira fundo e tenta soltar nas lagrimas e no ar o que no fundo sabemos nao faz sentido nenhum.

Firaz

Firaz tem 22 anos. Quando cheguei a Nablus na Palestina entrei numa casa meio que surreal. Tinha vindo de minivan de Ramallah cidade que serve temporariamente como capital administrativa da Palestina. Quando o taxi me deixou no endereço que Sam meu host tinha explicado por telefone ao senhor Palestino que sentou ao meu lado na viagem (e nao partiu sem antes ter certeza que eu estava dentro de um taxi indo na direcao certa) Firaz veio falar comigo. “Are we looking for you?”. Eu sorri e disse que nao sabia. “ Are you here for Sam, right?” Eu estava, Sam era meu host do couch surfer em Nablus. Cruzei a rua, entrei num prédio e segui Firaz, e outro rapaz, Yahya 25 ate o segundo andar. Entrei , cruzei o corredor entrei num sala com muitas cadeiras e uma mesa cheia de uma variedade de frutas, e então me levaram a um quarto.

Senti me meio que como num filme em algum lugar meio alem da realidade. No quarto, havia umas cortinas amarelas que davam uma luminosidade toda especial. Uma cama enorme onde Sam falando no telefone estava sentado. A volta varias cadeiras, 6 laptops, muitos telefones, varios meninos, e uma menina. Lorna, 23, tbm couchsurfer me ofereceu café. Sentei e de repente apareceu um homem trazendo café árabe para mim. Lorna, riu, “ se acostume, daqui para frente eh assim. Eles vão fazer tudo para voce.”

Fui conhecendo aos poucos os meninos. Por alguma razao Firaz veio e sentou se ao meu lado num momento que eu estava sozinha. Contou me sua estoria “ voce sabia, que antes da Lorna vir aqui eu nunca tinha falado com nenhuma mulher fora da minha familia?” Eu nao sabia eh claro. Ele me explicou que as escolas eram todas separadas. “Entao quando ela chegou e falou comigo meu coração bateu forte, e eu não sabia direito o que dizer.”

Lorna rindo disse “ eu disse, tudo bem Firaz eu sei que vc não gosta de mim por isso nao fala comigo.” Alguns minutos depois ele se aproximou dela e disse “ vc ja andou de burro?”. Sua primeira frase a uma mulher tinha sido essa. Lorna contou chorando de rir. Os outros meninos que sempre tiravam sarro de Firaz continuaram rindo. Firaz como sempre nem ligou. Se aproximou de mim e foi contando sua estoria.

Contou do sangue correndo nas veias de nervoso, contou das vezes que nao passou nos exames da escola, contou de ficar as vezes muito deprimido. Para quem nunca tinha falado com uma mulher antes, ele de repente se abriu completamente.

Horas depois quando Firaz que é um devoto muçulmano, descobriu que eu meditava e fazia yoga ficou animadíssimo. Mil perguntas. E eu completamente intrigada por ele querer saber tanto sobre todo esse mundo tao longe de Nablus na Palestina. Brincando disse que eu sabia ler mão.

Peguei a mão dele e no meio de todos comecei a repetir o que ele tinha me contado. “ Firaz estou vendo aqui na sua mao que vc nunca tinha falado com uma mulher, etc, etc”. Eu estava obviamente brincando, e ele meio que percebendo dizia “ isso tudo eu que te contei”

“Voce esta duvidando da minha habilidade, da minha competência de “palm reader”. Os meninos riam, Lorna ria, quando Firaz do nada diz “ por acaso diz alguma coisa ai sobre eu querer me matar?”

Todos os meninos que sempre tiram sarro dele emudeceram. A mao dele na minha e eu sem hesitar sabendo que ele queria falar disso disse naturalmente:

“ Diz sim, diz que vc quando ta deprimido , quando nao passa nos seus exames, quando sofre as vezes pensar em morrer. Mas tudo bem, todo mundo pensa isso de vez em quando.”

Disse isso e continuei lendo o que ele tinha me contado. No final, ele olhou para mim e disse:

“ Voce nao sabe ler mao, vc repetiu tudo que eu falei!”

“Sinto muito eu sou uma ótima palm reader tá tudo escrito ai : )”

“ E tem mais, isso do suicidio eh mentira!”

“Sinto muito Fayez, o que ta escrito ta escrito” disse brincando pois tudo tava em tom de brincadeira.

“Ta bom, eh verdade, mas foi so uma vez”

Eu nao conseguia acreditar que ele estava abertamente falando de algo tao privado em meio a umas 8 pessoas. Eu percebi que ele queria falar disso entao perguntei o que tinha acontecido.

“Uma vez eu quase me joguei de uma montanha, mas ai varias pessoas vieram me salvar.”

“Firaz, como eles sabiam que voce estava la?”

“ eu tinha ligado para um amigo meu. Voce acha que eu sou louco?”

“Firaz vc nao queria morrer. Voce queria ajuda. Voce precisava de atencao e fez muito bem de pedir. Todos nos precisamos de ajuda.”

Assim, foi logo o meu primeiro encontro com Firaz. Fiquei intrigada com sua sensibilidade. Fiquei impressionada com a sensibilidade dos outros meninos que sempre tiram sarro dele mas ali naquele segundo ficaram em silencio respeitando aquele momento. Logo ali de cara, Firaz e eu ficamos conectados. Firaz por ser tao espontâneo me mostrou muito sobre o mode of thinking palestino muçulmano de um menino que nao fala com meninas. Com toda sua sensibilidade me impressionaria muitas outras vezes. Mas eu vou contando isso aos poucos. Levou apenas um encontro para comprovar para mim o que eu ja sabia, que as estorias e imagens que nos contam sobre o jovens da Palestina como violentos, como incapazes de pensamento critico é longe de real. E levou muitos outros encontros para eu ir percebendo cada vez mais o tamanho da generosidade desses meninos que eu encontrei.

No Oriente Medio

Faz tempo que eu nao escrevo aqui no blog. Dessa vez tenho uma razao legitima. Nao foi definitivamente por falta do que dizer. Foi por estar viajando por 6 semanas no Oriente Medio. De la mandei e-mails a meus amigos, mas mesmo esses nao podiam ser escritos toda a hora.

Fui para ficar 6 semanas em Tel Aviv aprendendo Hebraico para ir me preparando aos poucos para voltar em setembro para meu trabalho de campo. Voltei tendo passado quase 4 semanas na Palestina, nao aprendendo hebraico, e abandonando o meu doutorado.

Fazia tempo que eu queria cruzar para o outro lado. Da ultima vez que estive em Israel eu tambem quis, mas alguma coisa me impediu. Dessa vez eu passei duas semanas enrolando mas uma vez que cruzei nao queria mais voltar.

Visitei Ramallah, Nablus, Belem, Beit Sahour, Beit Jalla, Hebron/ Khalil, e Jericho. Fui e voltei diversas vezes a essas cidades ja que tudo eh muito perto. Fiquei na casa de Palestinos que conheci pelo couchsurfing, e ate mesmo em taxis. Nunca senti medo. Nunca fui maltratada. Nunca me senti fora de lugar.

A hospitalidade é aquela lendaria dos arabes. Impossivel de comecar a explicar o tamanho da generosidade que eu encontrei. Emocionei me diversas vezes por nao compreender a existencia do muro. Entao nos meus proximos posts vou contar um pouco as estorias das pessoas que conheci do lado de la. Pela primeira vez nao vou usar os nomes reais das pessoas por respeito as suas identidades ja que naquele lado do mundo tudo pode ter consequencias.

Busca

Tenho estado meio deprimida. Quase que todos os dias eu reconsidero meu doutorado, faço planos de ir trabalhar na Tailandia, dar aula na China, voltar para o conforto da minha casa no Brasil. Faz 10 anos que eu moro direto fora do Brasil. Eu na verdade, nem sei direito como seria morar em sao paulo. Fica assim quase que tão vago como morar na Tailandia, ou na China. Minha suposta pesquisa em Israel é muito interessante, mas as vezes confesso, da uma preguica. Começar tudo de novo, num outro pais, numa outra lingua. Quantas vezes eu ja fiz isso mesmo? 6 paises, 7 cidades, e Ja nem sei mais em quantas casas. Quantos ola, quantos adeus.

Esses dias eu estava conversando com minha amiga Sabrina. Que ta la em Boston fazendo pos doutorado em fisica. Ela que tbm mudou tanto. Tambem estava exausta. Cansada de tanta mudanca. Tanta instabilidade. Nao que a vida de todo mundo não seja sempre instável. Mas nos nos especializamos nisso: ficar mudando de país atras sei lá do que. Os encontros vao ficando cada vez mais valiosos, porque a solidão existencial tbm aumenta… ainda mais assim quando nos nao temos a ilusao, nem a realidade de ser parte de um grupo fisico que tenha raiz em algum lugar.

Acho que seria hora de voltar a fazer vipassana. Lembrar me mais uma vez de manter equanimidade diante de tanta mudança. As vezes tenho a impressão que por nos fazermos responsáveis por essas escolhas de ficar cruzando tantas fronteiras nos dá essa enorme angústia. Sempre imaginando onde será o lugar mais adequado. Num lugar a familia, no outro o sol, no outro a comunidade academica e intelectual a qual nos acostumamos. Tudo espalhado. E fazer escolha é ter que escolher que parte sua faz mais sentido. IMpossivel, no reconhecimento de toda nossa incoerencia humana.

Como mostram as pesquisas psicologicas escolha demais aumenta e muito a angustia…. no entanto, given the option, acho que ninguem escolhe ter menos escolhas. Quando eu sento toda segunda-feira com meu grupo de doutorandos fico pensando nisso. Todas essas nossas escolhas. Sentamos a volta de uma mesa, na Selgiman Library, na mesma sala onde Malinowski comecou a tradicao dos seminarios de sexta feira no departamento da LSE.

Segunda-feira nos sentamos para falar das nossas pesquisas. Nunca penso muito nessa conexao dessa sala com a tradicao da antropologia britanica. Nao. Eu olho a minha volta e vejo uma grega que vai para amazonia peruana, uma colobiana que vai para o ecuador, uma holandesa que vai a India, uma alemã, um americano, e um italiano que vão para a China, um americano que vai para Jamaica, um russo que vai para Siberia, 3 ingleses, um que vai para a Siria, outro para as Filipinas, e um para Amazonia, e eu uma brasileira que quer se meter entre Palestinos e Israelenses. Tirando os 3 ingleses, todos nos ja somos estrangeiros aqui, e ainda assim escolhemos ir fazer trabalho de campo num outro lugar distante.

O que será no fundo que buscamos encontrar? Eu sei todas as nossas explicacoes antropologicas, filosoficas, politicas, cognitivas. Essas que nos colocamos nos formularios, nos nossos proposals. O que eu nao sei muito bem, é oque no fundo de cada uma dessas pessoas incriveis que eu encontro toda segudna feira, faz com que elas queiram ir parar no meio de uma tribo na amzonia, ou numa fabrica chinesa. Nem eu sei direito o que me faz ir a Israel.

Sem dúvida acho que vamos buscando sentido. No entanto, se sentido já nos falta agora, me pergunto o que acontecerá na volta. Depois de dois anos vivendo de observar uma sociedade alien. O que acontece quando de repente tudo comeca parecer fazer sentido e esse é o sinal que é hora de voltar. Como se alguem viesse mais uma vez e arrancasse o tapete por debaixo dos nossos pés. Eu sei que eu ja escrevi aqui antes, que acho importante cultivar o estranhamento das coisas. Não sei se é idade, o frio, ou simplesmente um momento passageiro. So sei que chega uma hora que o estranhamento de tudo cansa. E dá uma saudade, uma vontade de voltar ao principio onde tudo era familiar. Mas assim como as escolhas…. sabendo que elas existem, ainda que eu saiba que ter muitas delas me faz infeliz, eu acabo sempre…. cruzando mais uma fronteira.

Opressão e Hipocrisia

Os protestos do Marrocos foram brandos, especialmente se comparado ao que está acontecendo no resto do mundo Arabe. O mundo realmente esta em chamas, volatil! Eu estou resfriada, e meio febril, mas nao desligo a Al Jazeera em Ingles. Que verdadeiro absurdo o que esta acontecendo na Libia enquanto a ONU, a NATO, e todas as outras ligas ficam “drafting resoluções”. Quando eu comecei a ouvir a Al Jazeera ouvi um soldado explicando de Bengazhi, segunda cidade da Libia, que 130 soldados de Benghazi tinham sido mortos pelos soldados de Tripoli por se recusarem a atirar na população . I sso aconteceu se bem me lembro sabado ou domingo.

Meu amigo Shmri, refusenik ( israelense que se recusa a ir ao exercito, e no caso dele passou dois anos preso com ato de resistencia civil, escrevendo da prisao para uma revista) me mandou uma mensagem me perguntando se eu tava ouvindo o que estava acontecendo na Libia. Ele que trabalha no Global Governance da LSE me explicou que o Saif, filho do Gaddafi, tinha tbm estudado na LSE e que o David Held ( supervisor do Saif e do Smhri) dizia que ele seria a nova face da Libia.

Durou bem pouco a ilusão, só até nos ouvirmos pela Al Jazeera o discurso do Saif falando de guerra civil, de governo islamico ou ditadura, de rios de sangue, de lutar até a última bala. Como assim? Todo mundo que eu conheco que conheceu o Saif dizia que ele era um moderado. Continuamos pelos dias seguintes ouvindo a Al Jazeera, vendo as imagens que algumas pessoas conseguiam mandar. O caos na praça verde, Benghazi ser tomada pelo protestantes, noticias de helicopteros atirando na populacao, noticias das milicias que o Gaddafi contratou. E ontem durante o dia eu ouvi uma hora e meia de um discurso insano de um lider completamente fora da realidade. A unidade de um pais mais importante do que as pessoas. Usou a china, usou a russia e mais muitos outros exemplos de dar calafrios.

Hoje assisti numa outra cidade a populacao rasgar o livro verde da libia ( uma tipo constituicao de onde ontem gaddafi leu umas ameaças brutais). Entre essas noticias aperecia tbm o Yemem, a Argelia, Bahrain, e o terremoto na Nova Zelandia. Uma ONU ridicula explicava que era feriado nos eua, e depois marcava um encontro para a tarde de terça. Claro ninguem quer se compremeter. Como é que a China ou a Russia vao apoiar protestos. Cada segundo que se passa no entanto nos assistimos de camarote mais alguem sendo morto na LIbia.

Da ONU saiu um press release bem bunda. “Condenamos a violencia” ou uma coisa ridicula qq como essa. Ouvi uma pessoa dizendo da Libia. Isso nao é suficiente nos precisamos de ajuda! Não dá para nao pensar na hipocrisia da Europa preocupada com o oleo e os imigrantes. Nao da para eu nao lembrar de Bush venting sobre ir la para o Iraque exportar democracia. É a chance agora… As pessoas estao la implorando ajuda. Fechem o ceu pelo menos!

Enquanto tudo que eh gente do governo fala da uma guerra civil, das pessoas que eu ouco da Libia se fala de uniao. Uniao em remover um tirano. Sera que o ocidente vai ter que finalmente confrontar sua hipocrisia? Quando nao é mais possivel usar ladainha de democracia e liberdade ja que o povo esta na rua expressando sua liberdade e sendo massacrado por ditadores tanto tempo mantidos ou pelo menos aceitos pela comunidade internacional por decadas.?

E ao mesmo tempo é claro ameaças do Gaddafi de explodir as pipelines! Recebi uma mensagem no Couch Surfing ontem. Um marroquino pedia para ficar na minha casa. Expliquei que eu nao podia recebe-lo na data, mas perguntei como estavam as coisas por la. Nao disse muito. So expressei meu apoio. A resposta que recebi foi de arrepiar. Um menino. 23 anos que falou com uma clareza. Sabe de uma coisa eu vou colocar as palavras dele

“Oh jules, thank you for carring, I didnt stop listening to al jazeera the whole day, I have both of them now, arabic and english, And right now i am listening to a libyan student speaking from sweeden that the ANIMAL called Kedafi threaten them with bringing them back home and killing all their families if they speak, god, I cant keep on listening, he is crying, are the arab so cheap, no body moves? no one, italia is given its lands to the lybian airforce plan to fly from, No one have said a word; he wants to burn all libya before he leave it, he says I made libya I will destroy it, no body moves? of course thats what Bilderbeg club wants, whatever we call them, the G20, the capitalists, everyone who makes a money from firing a bullet, god Jules, i cant write right now, am really shaking right now, cant write cant focus, things in Morocco are fine, the king is a good person but the thieves around him should be hunged, they been for years on power, they get rich, they seal our blood and brain for nothing, can u imagining that I as a computer engineering can work with nothing but some euros a month for a european company, ‘outsoucring’, it doesnt even cover the cost of the education, things sucks, and sucked since forever for us, if you are online i do have a facebook i rather chat than write, no worries about the cant host thing, I wont come till march, mid march, thats for now, i dont know if things will stay the same, this is a new Era for us, a revolution one”

São pessoas como essas que estão fazendo a revolução. E elas não são muito diferentes de mim ou de voce. Não se deixem enganar que elas sejam. As pessoas são as mesmas. Exaustas de tanta opressao e hipocrisia!

Pensamentos no trem: De Jean Rouch ao Mundo Arabe

Mais uma vez estou em movimento. Mas nao estamos sempre em movimento? Em movimento na minha mente quer dizer cruzando alguma fronteira imaginada, e sabendo disso, esperando que isso de alguma forma mude algo. Essa cruzada nem se quer é muito cruzada. So vou até ali, até Paris, só por uns dias. De certa maneira tão mais perto que muito lugar na Inglaterra. E com o tanto de frances que se ouve nas ruas de Londres…. Nao chega nem sequer a realmente ser uma grande mudança 🙂

Depois de receber pessoas por quase um mes sem parar pelo Couch Surfing, paramos. Paramos depois da doce Severine, francesa, que vive num vilarejo de mil pessoas em Devon. Severine que morou na Eslovaquia, e Croacia, e que tao pouco se imagina vivendo em lugar nenhum.

Chorei de rir ouvindo as estorias da vida no country side britanico. Ela nos contou que participa quase de tudo que acontece, encontros, bingos e até do book club das senhoras da cidade. Contou que sempre se surpreende com os pensamentos dessas senhoras que ficam a maior parte do tempo em casa, e que moram num vilarejo de 1000 pessoas. Como ela colocou… “quando vc para para ouvir todo mundo é interessante :)”

Nem preciso dizer que meu encontro com Severine foi inspirador né? Encontrar pessoas assim que acham beleza nesses pequenos detalhes sempre me encanta. E só de pensar que eu que estava em meio a uma tempestade de Couch Surfing requests quase não a recebi….

A mensagem no Couch Surfing de Severine começava “ Fancy a tea talking about Jean Rouch”. Achei aquilo intrigante,Jean Rouch , é pouco conhecido , um cineasta do cinema verite de quem alias eu ja escrevi antes aqui. Jean Rouch tinha sido seu professor. Segundo ela, uma dessas pessoas que é melhor conhecer pelos filmes que ao vivo. Um pouco arrogante, e desiludido com a nova geração. “A grande geração ja passara”. Nos perguntamos o que ele acharia dos Egipcios que não só demoveram o Mubarak do poder mas depois todo o governo.

Eu que assisti pelo Democracy Now, e Al Jazeera a noticia da queda do Mubarak …e vi as pessoas na praça fiquei tão emocionada. Não sei se vcs viram nos dias que se seguiram… Algumas centenas de pessoas ainda na praça Tahrir… e os militares vindo remove-los. Os egipcios sentaram no chão. Não atacaram ninguem. Sentaram. E ao ouvir a noticia milhares de pessoas sairam de suas casas e foram se juntar aos protestantes nas ruas. E assim o governo inteiro caiu!

Eu não sei o que acontecerá agora. Não sou especialista em questões egipcias. O que parece nao ter sido uma desvantagem em prever o futuro 🙂 Sei que dependendo do jornal que se le NY times, Guardian, Al Jazeera, Haaretz ( e note que eu me mantive nos mais “de esquerda”) a perpectiva muda muito.

Enfim, esse post vai de lugar nenhum, a lugar algum. Vai como meus pensamentos pelo trem. Quanta coisa acontecendo nesse comeco de millenio.

Esse post começou na terca dia 15 quando eu estava no trem vindo a Paris. E agora eu volto a escrever nele da Gare du Nord. Ao rele-lo vi o tanto de coisa que eu ainda tenho para dizer. Coisas que aconteceram em Paris e que se ligam tanto a tudo que eu tinha escrito antes. Para que este post nao fique enorme so vou falar de uma das muitas coisas. Queria falar do meu jantar com meu querido professor Maurice Bloch, que tbm falou do Jean Rouch. Queria falar do Argelino que eu encontrei na rua. Mas eu so vou terminar falando da Leila.

Leila, minha querida amiga marroquina, com quem morei em NY e de quem tambem ja tanto falei estara na noite do dia 20 fazendo parte dos protestos no Marrocos. Esses protestos que se espalham. Toda essa volatilidade do mundo arabe agora. Na sua pagina do Facebook vi que eles marroquinos da classe alta nao sabiam muito bem do que se tratava o protesto, e nem tao pouco onde era. Todos pediam a ela, Leila, que tomasse cuidado.

Leila, minha querida Leila, explicava que eles que podiam fazer alguma coisa de diferente na sociedade marroquina tinham que ir. Tinham que ouvir, que assitir que protestar que pelo menos realmente entender o que estava acontecendo. Eu escrevi a ela que tomasse cuidado. E eu que as vezes vou la naqueles protestos das ruas europeias… naqueles protestos que ja nos causam furia ficar kettled… mas que no fundo sabemos que nao muda nada, e nada realmente nos acontece nao pude deixar de ficar emocionada em pensar na coragem dos egipcios, dos tunisiamos… no povo da libia sendo morto a queima roupa, nos 30 mil soldados na argelia, e na minha amiga que eh de mundo divido… da classe alta francesa marroquina… mas que nao deixa nunca de tentar entender o mundo mais a fundo, mais de perto.

Entao eu termino esse post mais uma vez sem ponto final. Apenas com meu pensamento nessas pessoas que tem a coragem de ir a rua. QUe estao exausta dos abusos. E cansa é claro ver as revolucoes serem roubadas do povo e o poder ser sempre restabelecido para continuar satisfazendo os interesses das elites do ocidente. Ainda assim eu termino pensando que o Jean Rouch estava errado…

Galhos, Vacas e Antropologia

Eu que detesto despedidas acabei de arrumar um jeito de me meter ainda mais nelas…. couchsurfing. Hoje o Chi foi embora. Ontem a noite fizemos uma festa do Oriente Medio para sua despedida. Eu sei, eu sei… não faz sentido nenhum, mas fazer o que a idéia surgiu… e assim passamos, eu e alguns amigos do meu doutorado, dancando até hoje de manhã.

Chi partiu me deixando com algumas coisas na mão: um selo do Taiwan e uma nota do dinheiro da Mongolia… Pois é, bem que ele tinha explicado que os asiaticos prestavam muita atenção no comportamento dos outros. Ele lembrava do meu sonho de ir a Mongólia. E partiu dizendo que se fossemos arvores, e alguem quisesse me encontrar, que teria que ir seguindo os galhos, que vao se dividindo, e se dividindo, e se dividindo ate chegar em mim. “Voce ta la na ponta. Vocé muito especial. Pouca gente vai te entender de verdade. Bem pouca, vc vive voando por ai.” Disse isso de maneira doce, mas eu senti uma enorme solidão. O que será que quer dizer eu estar la na ponta? Enquanto todo mundo ta no chão ?

Ele também me disse que o meu otimismo tinha pegado um pouco nele, isso me animou um pouco mais. Por fim me disse que eu podia sempre contar com ele. Quando eu fiz uma sacolinha de frutas e nozes para ele levar na viagem de onibus até Paris antes de partir para Madagascar ele riu e disse ” Para Jules, eu ja te devo demais, desse jeito eu vou voltar na proxima vida como sua vaca.”

Eu ri, e fui la levar a porta um viajante que ficou aqui em Londres 10 dias. 8 desses dias na minha casa. Fiquei imaginando que logo logo ele cruza para Madagascar, de onde eu sei tanta coisa, por ter como professores Maurice Bloch, e Rita Astuti. Ele planejando a viagem a Africa por estrada que nem sabemos se realmente funciona. Chegara no Sudão do Sul alguma hora. Um Taiwanes por la descobrindo os caminhos que se ligam na minha mente ao Michael Palin indo de polo a polo.

Fiquei pensando nas coisas tolas. Como de certa forma parte minha vai estar por aí andando pela Africa. Alguma parte que eu troquei sem nem se quer ter percebido. Um atomo, um pensamento, um amendoim esquecido no bolso. Ainda mais estranho foi pensar que eu que gosto tanto de viajar senti assim: que viajar ficando na casa dos outros assim.. deve ser dificil demais. Maravilhoso demais e dificil demais.

Eu aprendi tanto conversando com o Chi. Nada da historia da China, do conflito de Taiwan, nem das suas viagens. Ele falou de tudo isso é claro. Tudo isso podia ter sido lido num livro. Eu aprendi um pouco sobre como é outra maneira de pensar. E isso para mim uma hard core cognitivista é impressionante. Observa-lo na festa. Observar seus comentarios. Suas perguntas. Um Taiwanes muito diferente dos outros que eu ja conheci. E eu não to querendo aqui enfatizar nem similaridade cultural, nem diferença individual. Mas levando toda essa diferença meta-representacional a sério diz o que sobre a nossa cognição ? Meu deus…. será que eu to me convertendo para o lado dos antroplogos culturais e sociais ? Não, talvez seja so uma parte do Chi que ficou por aqui.. talvez seja uma parte dos antropologos tipicamente sociais com quem tenho passado tanto tempo ultimamente….

Ano Novo Chines

Hoje começou o ano do coelho. Eu nunca tinha celebrado o ano novo chines, mas como a Iva minha housemate é malay-chinese por parte de mãe, e celebra todos os anos o ano novo chines com a mãe, ela propos que nos celebrassemos aqui. No dia, que ela propos eu nunca imaginei que a celebracao, a nossa celebracao fosse ser tão divertida. Concordamos que iriamos.

Logo em seguida recebemos um couch request ( um pedido para ficar em casa pelo couch surf ) do Chi. Chi um chines de Taiwan explicava na mensagem que estava viajando por um ano, e que viajaria mais dois. Na hora que eu li soube imediatamente que queria conhece-lo. Eu NUNCA conheci um viajante Chines antes. Já conheci turistas. Agora viajantes, desses que ficam anos por aí normalmente são Europeus, Australianos, Americanos…

Chi chegou. Reservado, e ao mesmo tempo muito falante para um Chines. Nos encantamos todos com ele. Ele que saiu de Taiwan, de la foi para Hong Kong cruzou a China por terra, depois a MOngolia, depois a Russia, entrou na EUropa pela estonia e foi descendo até a Grécia. De lá veio para Europa Ocidental e subiu até o Reino Unido. Daqui voa para Madagascar e pretende ir subindo a Africa até o Egito que até lá esperemos que as coisas estejam mais resolvidas. Depois fará o Oriente Médio, o sudeste Asiatico e entao voara para a America Central e descera para América do Sul. Ufa… só escrever isso já cansa 🙂

Claro que eu tenho um milão de coisas para dizer do Chi. Dos milhões de perguntas que eu fiz…As pessoas ele acha se dividem mais entre pessoas do campo e das cidades, do que realmente de paises.As pessoas do campo em qualquer lugar vem falar ocm ele. Sentam para comer, ainda que nao possam realmente conversar, ainda que não se compreendam… “we have a great meal”. As pessoas do campo são parecidas em todos os lugares. A Europa ocidental ele achou um pouco desapontadora as pessoas são mais parecidas aqui que nos outros lugares onde esteve. Ele pensa com uma clareza. Fala de uma maneira tão delicada, ponderada que nos deixa todos encantados. Claro que eu o convidei para celebrar o ano Chines.

Depois enquanto estava contando sobre ele na minha aula de doutorado, resolvi apresenta-lo a Desiree. Desiree é alema e fará sua pesquisa em Taiwan e na China. Saindo da aula encontrei Anting. Anting é uma chinesa que estuda filosofia da ciencia na China e está de passagem nos visitando na LSE. Reservada fala bem pouco ingles, e como eu sei que ela quase nunca fala com ninguem eu a convidei tambem.

Nos encontramos em Leceister Square. E fomos juntos andando pela China Town. Encontramos um restaurante que nos coubesse. Entramos sentamos e pedimos comida para dividir. Chinese style. Na mesa uma Chinesa, um Taiwanes(?), um holandes, um australiano, uma alemã, uma brasileira, e uma chinese-malay/francesa. No final do jantar propus mais uma vez o ritual. Aquele onde cada um fala o que tem para falar.

Foi tão tocante. Iva nos agradeceu por ser sua familia aqui. Chi agradeceu pois nunca imaginou que teria uma celebracao. EU agradeci o encontro. todos falaram de viajar, da impermanencia de tudo. Quase todos nos naquela mesa nao sabemos muito bem onde estaremos daqui a 3 meses.

O que mais me tocou foi Anting. Ela me agradeceu. Explicou -me que nunca tinha passado um ano novo sem a familia e que o teria passado sozinha no quarto dela se não fosse o meu convite. Contou me que eu tinha sido a primeira pessoa a sorrir para ela, a primeira pessoa a abraça-la, a unica pessoa a convida-la para ir no bar da faculdade. Contou me que toda a familia dela sabe sobre mim. E eu fiquei emocionada. Muito emocionada. EU a convidei sabendo que ela era reservada. Sabendo que falar pouco ingles faz a vida dela dificil. NUnca imaginei que esses pequenos gestos pudessem significar tanto.

Esse ano novo chines me lembrou mais uma vez o poder das palavras e dos gestos. Nos nunca sabemos o que acontece com eles depois que os soltamos pelo ar. Eles tem que ser o nosso melhor, o nosso mais verdadeiro porque eles vão encontrando pessoas por aí. Eles vão transformando o mundo por aí. E as vezes a vida nos permite ver um pouquinho como eles transformam o mundo, e quando é para o melhor, quando é trazendo conforto e alegria a outra pessoa, é sem dúvida um grande presente.