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Sobre julietafalavina

Eu escrevo da minha vida, e agora sobre a minha recuperação da saúde .

Listas

A Sabrina foi embora de Londres na quinta-feira passada. Foi assim sem ser muito bem definido se volta para ficar, se mudar para outro lugar, que lugar seria esse, enfim, foi assim em meio a uma enorme incerteza. Foi no dia do seu aniversario que celebramos no mesmo lugar onde tomamos muitos brunches e onde passamos muitas horas conversando das coisas mais variadas. Falamos de teses, de fisica, de antropologia, de filosofia, cinema das coisas mais profundas as mais banais tambem. Nessa quinta falamos de tudo menos é claro da despedida.

Anteontem eu fui a despedida da Marisa. Marisa que tambem esta terminando doutorado, que eu conheci num outro churrasco de um outro amigo que tambem ja partiu. Eu fiquei amiga da Marisa por causa da minha enorme distracao. Todas as vezes que eu ia mandar uma mensagem para Marisa Portuguesa que estuda comigo na LSE eu mandava a mensagem para a Marisa Brasileira que eu pouco conhecia. Todas as vezes ela me avisava, e todas as vezes eu ligava de volta para pedir desculpas. O tamanho do pedido de desculpa ia aumentando, tornavam-se no comeco saudacoes, depois conversas, e enfim amizade, logo assim bem pertinho dela ir embora. Bem pouco tempo antes da Marisa se mudar para os Estados Unidos.

Quantas pessoas tem que conscientemente escolher em que continente vao morar? Muitas no mundo eu imagino, mas nao sao tantas assim. A maioria das pessoas muda so de casa, de bairro. Outras mudam de cidade, mas assim de país não são tantas. E sao ainda menos as que mudam de paises varias vezes. Essas pessoas se encontram pelo mundo. Se encontram onde é que estejam. Pois essas conhecem bem a angustia que vem com a “liberdade” de mudar de paises. Essas sabem bem o que é uma vida de olas para muitos desconhecidos e adeus para muitas pessoas queridas.

E nao há momento que sintetize isso melhor do que deletar o nome de alguem querido do seu celular. Eu evito por um longo tempo fazer isso. Deixo o nome la, como varias desculpas “caso a pessoa volte”, ou simplesmente so para me sentir acompanhada. Mas aí voce passa por aquele nome a quem tanto ligava e sabe que agora ja nao pode mais disca-lo. Passa, passa, passa varias vezes até que chega o dia em que voce vai até as funções do seu celular e escolhe “apagar”. E fica ali olhando a ampulhetinha virando enquanto aquela pessoa está sendo apagada da sua vida.

E é claro que nos refugiamos em outras coisas, prometemos usar o skype, o facebook, o e-mail, o orkut, o msn afinal a pessoa nao vai desaparecer “de verdade”. Depois de um certo numero de numeros apagados, no entanto, sabe se bem que apesar daquele pessoa nao estar de fato sendo apagada, do seu dia-a-dia ela está.

E é por isso que olha a ampulhetinha é tão duro. Por isso ela é tão simbólica. Ela mostra o tempo passando. E as amizades quando se mora fora parecem ter data de vencimento. “Quando termina o seu doutorado?” “E o seu mestrado?” “Quando voce deixa de receber a sua “grant” ? ” “Até quando é o seu posto?” “Seu visto?” É mais ou menos assim que parecem ser “medidas” as amizades.

E eu me escancaro todas as vezes. Seja numa amizade de 3 dias no deserto do Sahara, seja com um companheiro de musica num posto diplomatico, seja com uma querida amiga que talvez va fazer post doc num outro continente. Porque eu estou convencida que por mais dificil que seja deletar alguem do seu dia-a-dia, um dia-a-dia vazio é pior. Entao de todas essas MUITAS despedidas que tenho tido fica um enorme sentimento de alegria e gratidao. Nesse eterno ciclo de deletar pessoas da minha lista do celular eu tenho criado uma lista bem mais importante: a lista das pessoas que fazem parte da minha vida.

Solidão na Paraiba

Faz muito tempo que um amigo meu me pede para colocar aqui a estoria do Edivaldo. Eu resisto pois existe alguma coisa da estoria do Edivaldo que não me deixa escreve-la. Não que ela seja uma estória secreta, na verdade eu já contei essa estoria a muitas pessoas. Pessoas de diversos países e continentes, eu a conto toda vez que toco a musica que eu escrevi para ele, e toda vez que eu conto eu volto naquele momento, naquela praia onde eu o conheci.

Durante toda minha adolescência eu viajei para Ubatuba com meus amigos de escola. Iam os meus amigos que convidavam seus amigos, que levavam seu violões, seus tambores, suas sanfonas, suas flautas, enfim levávamos tudo que pudéssemos tocar. Iam os do Jazz, os do Blues, os da MPB, os do rock ate mesmo os do forró! De comum todos nos nunca tínhamos passado dificuldade financeira séria na vida.

Toda vez que encontro com alguem que na minha casa esteve, eu ouço suas lembranças. Todos nós guardamos memórias bem musicais, bem divertidas dessas viagens. Mas tem uma memória que me marcou mais. E essa é claro, a memória do meu encontro com o Edivaldo.

Eu estava na praia tocando violão, rodeada pelos meus amigos. Era um dia lindo, eu estava tocando e cantando quando de repente me dei conta que minha amiga Carol estava falando com um vendedor de redes. Eu estava meio longe, mas ouvi ela dizer meio que brincando:

-” Mas voce já tentou me vender essa rede todos os dias. No comeco da praia, no meio da praia..”

antes que ela terminasse, ele a interrompeu dizendo:

_ “Se lhe encontrar no final da praia tento de novo e pode ser que você comrpre”

Eu achei aquilo muito engraçado e comecei a inventar na hora uma musica falando da tal rede. Ele me olhou chocado e disse:

-“Oxe, que essa mulher é mae de santo!!!!”
– Que isso, nao sou nao.
– Claro que é eu conheço muito bem, só de olhar, e você é!

Quem era eu para discordar de um expert 🙂

– “Qual seu nome?”, perguntei
– “É Edivaldo”

Disse num sotaque forte e melódico do nordeste.

– De onde voce é Edivaldo?
– De Catolé, la na Paraiba!
– Catole do Rocha, terra do Chico Cesar!??!!?

Ele ficou super impressionado de eu conhecer Catolé, e ainda mais de eu conhecer o Chico César. Comecei a fazer mil perguntas sobre como ele tinha vindo parar em são paulo, e aos poucos ele foi me explicando toda a estoria da vida dele. A cada palavra nos íamos ficando mais quietos. Ele foi explicando da vida em Catole, da dificuldade, da chance de vir ganhar dinheiro em sao paulo, das redes que ele pegou para vender, de quantas ele precisava vender por semana, da divida que ia crescendo pois ele nao conseguia vende-las, do dono das redes que cobrava aluguel e a comida de onde ele estava. Enfim, a cada palavra que ele juntava ia se configurando ainda mais um caso de trabalho “semi” escravo.

– Edivaldo, faz quanto tempo que voce esta aqui?
– Oxe ja tem mais de dois anos.
– E voce tem vontade de ir embora?
– Uma vontade doida. Eu achava que a vida era ruim, mas eu sinto uma falta da Paraiba, uma saudade da minha mulher.
– Nossa, faz dois anos que voce nao a ve?
– Faz. E voce quer saber o pior de tudo???
– O que?
– Ela ta grávida!!!!!

Eu nunca vou me esquecer desse momento. Todos nos, todos nos que estávamos prestando a maior atenção paramos ali. Meio que sem saber o que dizer. Suspensos. Eu fiquei olhando para o Edivaldo, e depois de hesitar um pouco disse

– Edivaldo, mas voce entende que se voce nao ve a sua mulher ha dois anos, e ela ta gravida, esse filho nao é seu??
Ele me olhou na maior naturalidade e disse:
– Oxe, e pai nao é o que cria???

Um pouco chocada e arrebatada eu perguntei

– E voce vai criar essa crianca?
– Oxe minha filha, voce nao sabe como é duro ficar sozinho no meio do nada.

De fato nenhum de nos entendia. Nos todos fomos avassalados por essas palavras. Nos todos tao cheios de convcicoes fomos arrebatados pela singeleza das palavras do Edivaldo. Eu lembro do silencio. Dentro de mim, até o mar parecia ter parado de fazer barulho. Como se tudo ali tivesse ficado suspenso. E eu fiz a única coisa que eu sabia fazer: eu toquei. Toquei uma musica do Chico Cesar, e enquanto eu tocava eu vi o Edivaldo viajar para Catole, vi seus olhos distantes visitando seus lugares queridos. Vi seus olhos se encherem de lágrimas, senti as lagrimas no meu. Assisti Edivaldo engolir as lágrimas com os olhos.

_ Edivaldo, chora.
_ Que isso, é pecado chorar sem razão.
_ Mas uma lágrima seca dói mais…
_ É pecado chorar sem razao, ele repetiu.

E assim eu tive que engolir as minhas também.

– Sabe o que voce faz. Procura todos os dias uma coisa bonita. Se voce ficar mais 10 dias voce tera 10 coisas para contar. Se ficar 20 vai ter mais 🙂
– Que bonito isso. Voce pode escrever essa ideia num papel?

Sem papel eu sugeri que ele guardasse na cabeça, que não precisava ser escrito.

-“É verdade, eu num sei nem ler.” E deu uma gargalhada.

Eu é claro comprei a rede. A que ele escolheu para mim, a mais bonita segundo ele, a mais colorida.

-” Eu nem precisei lhe encontrar no final da praia :)” disse sorrindo.

Antes de ir embora mandou os meninos tomarem conta de mim, ” se nao eu venho com a peixeira! vocês tem que tratar essa menina muito bem!” E assim ele partiu. Eu sem dizer nada levantei, andei em direção ao mar, entrei no mar sem chorar em respeito a ele. Eu que choro até em propaganda engoli toda a emoção que eu senti ali no mar, ali naquele total silencio. Eu transbordei mais tarde na musica que eu fiz para ele: “Solidao na Paraiba”.

Faz mais de 10 anos que isso aconteceu. E todas as vezes que eu vou para Ubatuba eu olho os vendedores de rede pensando no Edivaldo. Eu olho na ansia de NAO encontra-lo. Eu gosto de imaginar que ele voltou para ser pai, eu gosto de imaginar que ele voltou sem ter muitas coisas bonitas para contar para a mulher. Então eu o procuro mas confesso que não muito atentamente, eu olho assim de longe e espero nunca ter que contar a ele que hoje eu entendo bem melhor a solidão.

Lonely Planet

Toda vez que eu resolvo ir para um lugar novo eu compro o Lonely Planet. Eu sei, eu sei que é onde estao os mesmos turistas, eu sei que é pouco original, sei que tem gente que prefere o Rough Guide, enfim, o fato é que eu me acostumei com o Lonely Planet, e quando pego o rough guide detesto. “Man is a creature of habit’ como diria o Mustapha meu ex professor e amigo. Quase tudo que eu preciso saber eu procuro no Thorn Tree, forum do Lonely Planet online onde viajantes deixam suas perguntas e respostas. Sempre que eu me deparo com o tanto de informacao que pessoas comuns colocam la, respostas detalhadas para totais desconhecidos, conselhos, dicas, eu me surpreendo. Sempre fico alegre pois para mim o Thorn Tree sempre parece como um pequeno exemplo do altruísmo das pessoas..

Outra coisa que sempre acontece é que assim que eu escolho o destino, assim que eu olho para o mapa uma coisa estranha acontece. Nao que eu planeje muito minhas viagens antes de ir, eu olho mais como quem quer começar a se familiarizar, assim como alguem que se diz ” la vou eu para um lugar bem diferente com todas essas possibilidades”. Toda vez me da um medinho, e toda vez que eu abro um novo guia é como se todas as minhas outras viagens acordassem dentro de mim. Aparecem lugares, pessoas, momentos, coisas que eu as vezes não visitei ha tanto tempo. E vem uma cascatas de momentos, de cheiros, e os cheiros são as memorias mais fortes, pois as vezes eu nem sei de onde eles vêm. E eles sao sentidos dentro de mim, distantes e eu me sinto meio que viajando no tempo.

Hoje eu fui transportada para um mercado no Peru, talvez tenha sido porque meu colega e amigo peruano Gabriel tenha vindo jantar aqui, talvez tenha sido porque eu abri a gaveta da cozinha e vi o lindissimo “jogo americano” que eu comprei no Peru. Sei la, eu sei que de repente veio o mercado, suas cores fortes, e assim que vieram as cores vieram os cheiros e as pessoas. Lembrei-me de como eu que nunca compro nada, fiquei encantada naquele mercado, com tudo feito a mao, eu que nunca compro nada comprei o jogo americano, e depois pinturas, e uma escultura, e logo na horinha de ir embora um tapete! Eu que nao tinha nem casa, nem chao, comprei um tapete. Nao, na verdade eu nao comprei o tapete, eu comprei as cores, eu comprei o mercado, era isso que eu queria: aquele momento.

E quando cheguei de volta ao ônibus com todas as minhas compras tive um acesso de riso. Eu viajando o Peru e a Bolivia sozinha, de mochila, ia ter agora um TAPETE(!) para carregar. Que ideia. Paramos para almocar, e para minha total surpresa eu tinha gastado TODO o meu dinheiro. O problema nao era nem ficar sem comer, mas ficar sem beber naquele calorao. Uma senhora do meu grupo se aproximou e me perguntou se eu nao ia almoçar. Eu expliquei a estoria e ela disse” deixe de bobagem eu te pago o almoco!” Era uma senhora Peruana de uns cinquenta e poucos anos viajando com a sobrinha. Eu fiquei sem graça, ela insistiu, e eu concordei com a condição que me deixasse paga-la assim que chegássemos de volta a Cuzco. Almoçamos juntas, visitamos todas as ruinas do vale sagrado juntas e quando eu voltei para Cuzco por acaso nos perdemos. Eu sabia que ela iria estar na rodoviária naquela noite, então fui la desesperada para encontra-la. Encontrei as, devolvi o dinheiro e agradeci. Ela me contou que iria para Aguas Calientes no dia seguinte de manha, e eu contei a ela que eu pegaria o trem da tarde. Nos veríamos la.

Peguei o trem na tarde seguinte, e a viagem inteira eu senti uma sensação estranha na minha barriga. Eu nao estava entendo muito bem oque estava me acontecendo, eu nunca tinha sentido nada daquele tipo. Acabei dormindo, ou desmaiando nao sei. Só sei que cheguei em Aguas Calientes me sentido mal, muito mal. Sai do trem, o pessoal da minha guesthouse devia estar me esperando. Estilo placa na mao e letras garrafais com meu nome, tudo isso (des)organizado pela senhora do meu hotel em Cuzco. Eu estava me sentido péssima, nao conseguia nem entender direito o que estava acontecendo. Eu nao sabia o nome do hotel, só tinha o contato da senhora de Cuzco que tinha me organizado a viagem. Eu estava realmente abalada. Nao estava nem nervosa pois estava me sentindo tao mal que estava até calma. Estilo po da rabiola, fundo do poço 🙂

Sai do trem, olhei todas as placas e nao vi nenhuma com meu nome. Eu tava tao fraca que nao conseguia nem ler direito. Achei que fosse desmaiar. O que podia ser aquilo??? Tambem nao pensei muito nisso, pois para pensar é preciso energia. Eu me lembro de ficar ali parada, prostrada quando de repente no meio das pessoas veio vindo uma mulher de vermelho, sorrindo, demorou um segundo para eu reconhece-la. Dona Carmen assim apareceu como um verdadeiro anjo, ela e a Sandra. Queriam ter certeza que eu chegaria bem. Percebendo minha palidez ela me fez sentar, perguntou onde eu estava hospedada, e em poucos minutos ligou para a mulher de Cuzco, encontrou os atendentes do meu hotel, brigou com elas por nao estarem la, e ainda me comprou uma coca. Tudo isso enquanto eu suava frio, enquanto eu fazia toda forca do mundo para explicar a ela o quao grata e feliz eu estava em ve-la.

Como era de se esperar nessas situações meu hotel era o ultimo de uma ladeira imensa. A mulher do hotel que ate entao nao tinha aparecido, agora nao parava de falar. Cada palavra dela me deixava mais enjoada. Eu nao tinha a menor ideia do que ela estava dizendo, eu tava meio que num mundo paralelo torcendo para o hotel aparecer, e aquela mulher ficar quieta. Ela falava de um guia que ia me mostrar e explicar tudo sobre as ruinas, um guia que eu ja tinha pago, de um papel, de um milhao de coisas. Queria que eu fosse encontrar o tal guia naquele segundo. Eu mal tinha forcas para subir a ladeira, imagina ir discutir uma expedição arqueológica!. Eventualmente chegamos no hotel. A mulher falava, falava, falava, e assim que eu parei de andar sobrou energia para eu pedir a ela ” por favor eu preciso ir deitar eu estou me sentindo muito mal.” Ela insistia que eu precisava organizar com o guia a minha visita. Nesse momento Dona Carmen mais uma vez me salvou, disse a moca que me deixasse em paz, que me levasse ate o quarto antes que eu desmaiasse no saguão. A moca concordou, resolveríamos depois ” mas e o guia”, ” eu nao preciso do guia” “mas voce ja pagou” “otimo, entao deixa eu ir pro quarto”. Entrei no quarto, Dona Carmen e Sandra se ofereceram para procurar um medico. Eu agradeci mas disse que achava que eu so precisava descansar. Despediram-se, mandaram-me descansar, disseram-me que voltariam depois para ver se eu estava melhor.

Eu nunca fiquei tao feliz de ver uma cama. Deitei com uma dor na minha barriga inexplicável. Eu suava frio, sentia calafrios, me contorcia. De repente eu pensei, talvez eu precise ir ao banheiro. Nao eu nao queria, eu sou muito regulada sempre sei quando preciso ir ao banheiro, nao era o caso, e alem do mais nao queria me levantar da cama. Eventualmente acabei resolvendo que talvez ajudasse. Assim que sentei na privada, eu tive uma baita diarreia. Foi uma coisa realmente incrível, porque eu nao tinha percebido que eu precisava ir ao banheiro. Eu nao tinha percebido que eu estava completamente intoxicada por alguma coisa que meu corpo precisava expelir desesperadamente. O que mais me surpreendeu foi eu nao perceber isso. A melhora foi quase que imediata.

O tapete por outro lado acabou nunca estando em nenhum chao de nenhuma casa onde eu morei. Ele foi bem mais util. Ele me cobriu quando fez -10 graus na reserva Eduardo Avaroa perto do salar do Uyuni, foi meu travesseiro quando cruzei a Bolivia de onibus serviu para embrulhar a escultura. E foi por causa do tapete que eu acabei conhecendo a Dona Carmen. É engraçado o cerebro, tudo isso, toda essa estoria e mais todas as outras estorias nao articuladas, nao verbalizadas estao no simples ato de abrir o Lonely Planet.

Os Vermes

Quem me conhece sabe que eu fui de ateia militante a interessada em questoes metafisicas e ontologicas. Buscando pelo caminho a meditacao, yoga, budismo, filosofia e até mesmo perguntas ou respostas nos meus amigos fisicos. Engracado, que hoje eu raramente entro em qualquer discussao desse tipo. Estou super acostumada com os argumentos do Dawkins ( afinal eu era uma “fiel leitora”), o Dennet, os neurocientistas, enfim, todas as visoes materialistas da consciencia. Com quase tudo isso eu sei lidar. Com o povo do outro lado tambem, eu escuto quase tudo, e enfim, para ser sincera ja nem tenho muita necessidade de estar certa 🙂 Como colocaria um amigo meu “The TRUTH is overated 🙂

Nao é que hoje no entanto, eu estava voluntariando quando uma coisa engracada aconteceu. Estava eu la brincando com o Severum, quando de repente um grupo de alunos da minha classe comecou a ter uma disussao. Uma discussao daquele tipo de discussao de crianca, cada um repetindo a mesma coisa varias vezes. Eu nao estava escutando do que se tratava, na verdade so me dei conta do evento, quando ouvi meu nome.

Alguem la tinha decidido ” Let s go ask Juliet! She will know!!!!” Nisso concordaram e veio um grupo de umas 6 criancas correndo em minha direção. No comeco eu nem conseguia entender o que estava acontecendo, nem o que eles estavam me perguntando. “Guys, I cant understand anything.” De repente a Nadja, uma pequena menininha muculmana da Somalia me pergunta: ” Julieta nao é verdade que vermes NAO vao para o céu.?”

Parecia cena de filme, eu fiquei muda, eles todos em silencio e esperando a minha resposta, a resposta “Correta”. Que foi é claro ” Nao sei, o que voces acham?”. Bom, uns comecaram a explicar que sim é logico porque um verme é um animal e todos os animais vao para o ceu, outros diziam que nao que nao tem animal no ceu, um outro menininho disse que ceu nem existia!. E eu repeti que nao sabia. Foi tao engracado estar ali rodeada de criancas de crenças completamente distintas, e escuta-las ponderando sobre a questao.

Quando eu cheguei em casa contei ao Haiko sobre a estoria. E ele me perguntou imediatamente: “e voce o que acha?” Ele que nem acredita em ceu, com sua visao “neuro-cientifica” disse que ainda que existisse um ceu, ele achava que os vermes nao qualificavam pois nem tem “consciencia”. Eu resolvi entao usar o perspectivismo do Viveiro de Castro, assim como exercicio mental. Alondra, minha roomate, foi categorica “Claro que sim. Claro que eles vao.!!”. Eu expliquei a ela que essa visao nao condizia com o catolicismo dela. “Claro que vao, é vida e é isso o que importa!”. Paralelamente na minha mente eu podia ate exergar meu amigo Emanuel dizendo” Is that a serious question???? É obvio que nao ! E voce deiva ter dito a essas criancas, e nao ficar colaborando com crencas sem sentido!”.

Engraçado, nessas questoes metafisicas, e ontologicas, nos podemos ate usar palavras mais elaboradas, podemos ate desconsiderar linhas de pensamentos, “customize” as nossas ideologias, podemos buscar fatos e mais mitos. No entanto, observando o nosso comportamento eu senti que ele nao se diferenciara muito das minhas criancas de 6 anos. Alguns tem ideias fortes, outros tem perguntas, alguns nao sem importam, muitos buscam alguem que seja mais validado pela sociedade para ter a respota “correta”, mas “ultimately” nos sabemos muito pouco. E afinal os vermes vao para o ceu???

Na Teoria

Semana passada fui a Oxford visitar dois amigos meus. Andrew, que estudou comigo em Amsterdam, e Francois que eu conheci aqui na Inglaterra. Engraçado, eu sempre soube que o Andrew tinha estudado estudos religiosos mas so na semana passada que eu fiquei sabendo o nome exato do mestrado dele. O Andrew fez um mestrado sobre Misticismo e Esoterismo Ocidental. E eu só descobri isso porque tinha resolvido apresentar o Francois que esta fazendo post doc em matematica e fisica (ainda nao conhece ninguem) ao Andrew.

Foi divertidissimo. Fomos juntos jantar no restaurante do Jamie Oliver, e o François que se interessa por questoes metafisicas ficou impressionadissimo de um mestrado desses existir. Todos nos comecamos a fazer mil perguntas. Alguns com perguntas mais pragmaticas do tipo “o que fazer com isso depois?” e outros com perguntas mais teoricas. Relembramos do primeiro dia em que conheci o Andrew na Universidade de Amsterdam, dele me contar que estudava “religious studies”, e de eu perguntar incredula ” But are you a believer?. No nosso primeiro dialogo Andrew me disse ser um “believer trapped in the de body of an atheist” e eu disse a ele que eu era “an atheist trapped in the body of a believer”. É claro ficamos amigos. Depois disso tanta coisa se passou. Lembramos nos de como ele tinha me levado a uma yoga para la de estranha. E de como ele ultra ingles, filho de lorde, tinha acabado sendo meu “dupla” num exercicio de massagear a bunda do parceiro com o pé. Tudo isso narrado por uma romena que estava substituindo a professora original de yoga que tinha, prestem atencao ao detalhe: tido um “nervous breakdown”.

De la para ca o Andrew ja me levou a outra yoga, a casa dos lordes, ao templo hindu, a lugares incriveis em Amsterdam. Estivemos juntos em acampamentos, em restaurantes, enfim, o que comecou com um super desconcertante encontro virou uma grande amizade. Por isso eu queria apresenta-lo ao Francois que chegou ha pouco tempo em Oxford e quase nao conhece ninguem. E foi tao engracado coloca-los os dois ali frente a frente, tao diferentes mas com tantas das mesmas buscas e perguntas. Estranho, mas só até eu me lembrar de uma estoria muito engraçada que o Francois tinha me contado. Ele contou de quando ele foi explicar para uma amiga da mae dele o que ele estudava. Contou que estudava alguma coisa do tipo “analise das equacoes matematicas na fisica teorica”. Segundo ele, a mulher ficou muda, mas depois de um certo desconcerto ela perguntou “mas afinal o que eh essa fisica teorica?? por acaso é aquela fisica que nao funciona?” Ele falou que ate perdeu o folego de tanto rir. Eu tambem, mas relembrando o encontro dos meus amigos tao improvaveis, eu pensei nessa mulher, de fato na teoria as coisas nem sempre vao tao bem é melhor ver na pratica.

Meu Irmao

As vezes quando o tempo passa rapido demais, e eu vou fazendo coisa atras de coisa me da uma sensação de não estar tendo tempo de interiorizar quase nada. Ou melhor, parece me que quando eu nao tenho tempo ou vontade de pensar sobre os eventos analitcamente é como se elas nem tivessem acontecido. Aconteceram, eles me mudaram e só quando eu entro no meu blog buscando um tema para escrever é que eu eventualmente percebo o que é que eu quero colocar para fora para poder de uma certa forma revisitar. Assim, como quase tudo na minha vida, pouco planejado, e parecendo mais uma consequencia inevitável, de alguma coisa que antes eu também não planejei:)

Entao, hoje eu queria escrever sobre minha viagem a Paris na semana passada, que na verdade, nao foi bem visitar Paris. Nao que eu nao ache Paris bonita e etc e tal, mas dessa vez eu nem estava com muita vontade de sair de Londres. Essa vez eu fui para acompanhar meu irmão que depois de terminar com a namorada veio me visitar. Fomos para Paris assim, como poderiamos ter ido para qualquer outro lugar. Ele para fugir de dentro da cabeça, eu para tentar tira-lo de la. Bem tolo é claro, como se nao fossemos juntos para todos os lugares onde vamos 🙂 Mas eu resolvi leva-lo a Paris. La tenho amigos. Dentre eles um muito especial de quem tanto ja falei: Marcelo Fortaleza Flores.

Fui tambem para assistir seu filme Claude Lévi-Strauss: Auprès de l’Amazonie do qual tanto ja tinha ouvido falar. Assisti-lo foi sem duvida um momento muito tocante. Foi reconhecer ali tantas das coisas que eu ja tinha ouvido o Marcelo falar, ver as imagens das cancoes que eu compus para ele.

Entao fizemos coisas turisticas é claro. O dia estava lindo. E meu irmao e eu caminhamos, e caminhamos, e falamos obsessivamente, e calamos com a mesma obsessao. Numa certa hora na margem do Sena, nos demos conta que talvez nunca tivessemos passado tanto tempo juntos. Faz pelo menos uns oito anos que nem se quer moramos no mesmo continente. Primeiro eu na Australia ele no Brasil, depois ele na Nova Zelandia eu no Brasil, entao eu em NY, quando eu fui para Amsterdam ele chegou nos EUA para fazer universidade, depois eu vim para Inglaterra e ele voltou para o Brasil. Lembramos das tragicas vaigens em familia, onde todos nos brigavamos, onde todo mundo tinha um ideal diferente construido do que devia ser uma viagem em familia. Cada um de nos sempre frustrado. Rimos de tudo isso ali andando na beira do Sena.

Conheci alguns dos seus amigos, ele conheceu os meus. Tao diferentes, de mundos tao distintos somos. Eu que nao como carne, e ele que nao come vegetal. Eu que gosto de arte e ele do mercado financeiro. Ouvimos juntos o marcelo contar sobre os Nambiquara. Tribo indigena onde os nomes das pessoas sao secretos. Ouvimos ele falar da importancia do segredo de proteger na verdade o que ha de mais importante. Ouvimos ele contar da mulher que dizia que existimos no olho do outro, quando o outro fecha o olho, voce nao esta mais la. Foram tantas as conversas, foram tantas as estorias.

Meu irmao foi embora e de todos esses anos essa é a vez que eu sinto mais falta dele. Eu acho que na verdade eu nem o conhecia direito. Nunca tinha dado tempo. Durante todos os anos que moramos juntos estavamos ocupados demais com as nossas diferencas. De todos os anos que moramos separados sobrava tempo demais para pensar no que era que nos fazia semelhantes, com tempo demais tudo é adiado. Dessa vez nao, ali na beira do Sena, aqui na beira da minha cama, nos metros, nos onibus, nos avioes, nos encontramos. As vezes em encruzilhadas, as vezes nos acostamentos, as vezes no meio do caminho. E tanto faz a circunstancia o importante é que nos encontramos.

O telefone

Eu estava ontem no metro quando o homem ao me lado ao sair derrubou o celular. Engraçado da aquela sensação de “ai meu deus”, querer chamar o cara e ele ja estar longe. De perceber, que na verdade, eu nem me lembrava quem é que estava ali ao meu lado. Nesses muitos trens que dividimos sem nem sorrir para o vizinho. Nessas cidades onde somos todos estranhos e encontrar um conhecido é um evento festivo.

Bom ele saiu, não vi quem ele era, mas o telefone dele estava ali do meu lado. Quase no meu colo. Eu peguei e decidi que iria descobrir de quem era o telefone e devolver para a tal pessoa. Nada mais chato que perder seu telefone, hoje em dia não só pelo telefone, não só pelos contatos, mas por todo resto que tem ali dentro. Quase que uma mini-biografia da pessoa. Suas fotos, suas musicas, o que voce escreveu, o que te escreveram, enfim um pequeno aparelho que deixa de ser só uma maquina para virar algo pessoal.

Parei na proxima estação. Obviamente eu nao podia ligar para o cara. Entao, eu tive que olhar o telefone dele. Ver para quem ele mais tinha ligado, e para quem tinha mandado mais mensagens. O telefone era cheio de fotos de mulheres semi-nuas. Nao, eu nao fiquei vasculhando o telefone do homem. As fotos eram na tela principal. quando abria, quando apertava, quando ligava.

Eventualmente eu achei uma pessoa chamada Mami com quem ele estava indo se encontrar logo em seguida. Era para essa pessoa que eu iria ligar. Liguei, e tentei explicar “Olha, eu estava sentada no metro, quando o moço ao meu lado derrubou o telefone. Eu estou em Bond street, e vou ficar com o telefone se voce quiser vir busca-lo.” Bom, levou uns segundos para menina entender do que se tratava. Quem é que estava ligando do telefone do amigo dela. Quando ela entendeu, ficou radiante, me agradeceu mil vezes e disse que chegaria ali em 20 minutos e me perguntou se eu podia esperar. Eu disse que podia.

Entrei num cafe, e enquanto tomava meu cha, contei a estoria para o atendente brasileiro. Ele se impressionou com a minha gentileza. A maioria das pessoas, segundo ele, ficaria com o telefone. Eu prefiro acreditar que não. Imagino que muita gente nao saisse do seu caminho, mas propositalmente roubar o telefone de uma outra pessoa, ainda acho que seria uma minoria. Esperei tomando meu cha e inventando mil estorias para a tal Mami, para o tal desconhecido. Imaginando quem eles seriam. Que tipo de relação teriam, enfim um filme inteiro 🙂

De repente, recebo, no telefone dele, uma mesagem dela. Tem alguma coisa estranha de ficar lendo mensagens no telefone de outra pessoa. Eu leio. Ela explica que esta chegando, pede mil desculpas. Eu tenho que escrever desse telefone uma mensagem. Nao sei opera-lo, fico entre envergonhada e me divertindo com as fotos semi pornograficas. Torco para nao ser a Mami a mulher que eu vejo enquanto eu teclo.

Alguns minutos mais passam, e ela me liga. Corro ate a esquina da Oxford Street com a James Street. Explico que eu estou ali de preto e cachecol verde. Que estou ali na frente do Body Shop. O homem ao meu lado, que entrega jornais meio olha divertido, talvez imaginando que eu estou ali esperando uma bind date. Eu espero ansiosa. Nem sei porque.

E ela chega. Linda, preta, bem arrumada, sorrindo, se desculpando. Eu entrego o telefone, ao lado dela percebo um homem indiano. Ela me pergunta como ele tinha perdido o telefone. Eu explico, assim que saiu do metro, eu acho, nao sei direito. Foi rapido. Ele abre a carteira e tira 20 libras. Eu fico meio chocada. Explico que nao, que eu nao vou aceitar dinheiro para devolver um telefone que é dele. Eles ficam desconcertados. Insitem. Eu insisto que não. Ele me pede para comprar algo para mim entao na Bodyshop. Eu digo que nao, eu entendo so agora que o telefone era dele. Ele me explica que teria sido muito mais caro para ele se ele tivesse perdido o telefone. Eu insisto que nao vou aceitar dinheiro so por ajuda-lo. Ele insiste que nao pode ir embora assim sem me dar nada. Eu peço a ele que faça o mesmo por outra pessoa qualquer que precise. Eles ainda desconcertados, me agradecem, e quando eu estou virando para ir embora, ele me pergunta: “Me diz pelo menos o seu nome?”. “Julieta”.

E assim nos separamos e eu fiquei pensando na ironia. Ele que sentou ao meu lado, sabe se la por quantos minutos. Ele que largou o telefone praticamente no meu colo. Eu que pude ver um pouco dele pelo que eu olhei do telefone para achar a tal Mami. Eu que esperei para encontra-los ali numa esquina de Londres. Precisei nao aceitar dinheiro, para que ele se interessasse um pouquinho no humano por tras da ação. Eu precisei nao aceitar o dinheiro para tornar uma ação totalmente comum e banal em uma simbolica. Será que foi meu egocentrismo de querer ser correta? Será que foi o sentimento dele de querer retribuir, ou de nao ficar devendo e que eu impedi? Sera que era a maneira, a unica maneira que ele podia expressar gratidao? Sera que era o meu jeito de me sentir bem comigo mesmo? Deve ter de tudo isso um pouco. Eu gosto de pensar, no entanto, que ali naquela esquina, nessa grande cidade ainda é possivel com completos estranhos momentos singelos e humanos.

Dos Pintores

Eu não sei o que está acontecendo mas eu fui de não conhecer nenhum pintor para de repente estar rodeada por eles. Tudo começou com a Mounia, minha amiga marroquina de quem eu tanto ja falei, me mandando um e-mail dizendo que tinha virado pintora. Eu que não sabia que ela pintava, fiquei morrendo de medo, porque nao tem nada pior que ver um quadro horroroso e ter que dar sua opinião. Eu entrei no site dela, meio relutante, mas para minha surpresa os quadros eram incriveis. Ela comecou a pintar quando foi morar no Canada e ficou deprimida. De la seus quadros foram parar em NY, Paris, Londres, Marrocos, Oriente Medio, e quando eu cheguei no Marrocos no ano retrasado nao so a Mounia tinha sido escolhida para fazer o poster do festival de filme Africano mas tambem tinha sido convidada para expor no Guggenheim de NY.

Um pouco mais para frente eu conheci a Maryam. De quem eu tambem ja falei, pintora Iraniana talentosissima, mas num tipo de arte diferente do da Mounia. Pinta quadros que sao fotografias, e assim, por causa disso nos ultimos anos tem sempre tido seus quadros expostos na National Portrait Gallery. Eu fiquei encantada ao conhecer a Maryam, não porque ela fosse pintora, e na verdade foi muito antes de ver os quadros dela. Eu a conheci no lugar mais improvavel, um bar bem trash no centro de Londres, um lugar que nem eu e nem ela tinhamos estado antes, e nem ela e nem eu estivemos depois. Ficamos amigas assim meio que imediatamente.

Depois eu fui passar um mes na Romenia no famoso acampamento de Yoga e quando la cheguei no aeroporto de Bucareste pela segunda vez no mesmo mes conheci um pintor. Eu estava negociando com os taxistas ( ja que eu ja sabia os precos), quando fui puxada pelo italiano que tinha sentado ao meu lado no voo, e levada para conhecer o amigo dele de infancia, um pintor Romeno. Disseram-me que era bobagem eu gastar dinheiro que me levariam com prazer até a estação de trem. Usando um metodo cientifico para avaliar a proposta 🙂 eu fui. O pintor era uma figura. Um bon vivant, daqueles que vivem meio na cabeça. Queria me pintar a qualquer custo. E eu que tinha que continuar minha viagem para a costa do mar Negro, expliquei que nao podia ser pintada. Eles entao me levaram para almocar, ele me rabiscou num guardanapo, e meio a contragosto acabou por me deixar na estacao de trem.

Ai, foi o pintor Russo, para quem fui apresentada virtualmente pelo meu amigo yogi polones. E porque nao? Porque nao ser pintada? Era um part time job e como a Maryam e o Romeno ja tinham pedido para me pintar antes, isso acordou em mim uma certa curiosidade. Como seria ser pintada? Então num dia tenebroso, frio e chuvoso, eu fui parar no estudio do tal pintor Russo. Foi uma tarde divertidissima, conversamos, toquei violao, tomei cha, e fui pintada. Uma experiencia dessas incriveis que te faz mais consciente de todos os musculos, do olhar do outro, da sua respiracao, da sua feminilidade. Da relacao arquetipa, da dinamica de poder, da construcao da imagem. Um sentimento meio estranho de ter o que o outro julga a sua essencia ser ali grafado num papel. E com isso eu podia de certa forma me identificar, pois eu ja grafei muitas pessoas na minha musica.

Ai na Turquia conheci um pintor Curdo que nao falava nenhuma palavra de ingles. Toda a nossa interacao portanto em silencio. Ele timido ate na lingua dele. Observava-me introspecto, e de repente do outro lado da mesa, uma mesa com poquiissimas pessoas, estendeu a mao e tocou o meu rosto. Nao assim do nada, na verdade eu tinha olhado para ele achando que ele fosse dizer alguma coisa. E o instante para eu me lembrar que ele nao falava nenhuma lingua que eu falava foi longo demais para eu simplesmente virar como se nada tivesse acontecido. Entao eu parei, porque ele ficou me olhando. Fiquei um pouco desconcertada, numa conversa normal eu teria comentado sobre o tempo, sobre a comida, mas ali sem ter lingua eu fiquei em silencio. Olhando e entrando num certo acordo silencioso, de compreensao que nao podiamos falar. E nesse momento, quando eu estava quase confortavel com o silencio ele esticou o braco e tocou o meu rosto. Eu fiquei completamente derrubada, desconcertada. E ele olhava com os dedos o meu rosto com uma delicadeza indescritivel. O olhar de um artista. E eu a pessoa mais verbal do mundo sem poder dizer nada… Ele olhou por um longo tempo, e eu olhei o artista que me olhava, e assim como ele tocou meu rosto, assim com a mesma delicadeza ele o largou. E eu sem ter acesso a lingua dele…nunca vou saber o que ele viu.

Entao hoje, estou eu voltando para casa. Um dia lindo. O sol transbordado dentro do onibus, entrando pela janela e amarelando suavemente tudo que estava dentro. Eu olhando essa luz meio fascinada, luz que muda tudo, que aquece, que transforma, que impressiona… comecei a pensar nos pintores,… no impressionismo, em monet e debussy quando de repente um senhor bem velho ao meu lado diz ” You are a painter arent you?”. Assim do nada. Percebendo o meu silencioso, meditativo espanto ele continuo num sotaque forte “It is the way you look at the light. At everything around. It is an artist’s look.” Eu nao disse nada. Pensei em explicar que eu sou um fracasso com um lapis na mao. Mas alguma coisa ali tinha sido mais profunda do que isso. Eu sorri “in agreement”. De fato eu sou uma artista dentro de mim. Lutando sempre para ver o mundo cientificamente, mas uma artista dentro de mim. E sera que é tao distante a arte da ciencia? A contemplacao do mundo? Nao sei. Tanto faz, naquele momento aquele sentimento de “encontro” me aqueceu. Eu nao disse nada. Nao era necessario. Nem ele me perguntou esperando uma resposta. Ele so me reconheceu. E ali juntos continuamos o nosso caminho em silencio contemplando a luz.

Os Sonhos

Continuo voluntariando na escola primaria aqui em Londres. E cada vez que vou la gosto menos das professoras, e mais da criancas. O professor da minha classe é um cara legal, Sultao Khan, que diferentemente das professoras estericas nunca grita e se diverte dando aula. Eu vou la todas as sextas, nunca me disseram nada muito explicito, nunca me deram uma lista com os nomes das criancas, entao eu vou aprendendo meio assim… por osmose 🙂

Os nomes eu vou ounvindo. Nomes diferentes de criancas que vem de tudo que é lugar do mundo (há muitos filhos de imigrantes e refugiados). Um desses dias, quando eu chamei o Tamin para ler comigo, ele me olhou com os seus lindos olhos negros, e cilios enormes e disse. “Tudo bem que vc diga todos os nossos nomes errados, porque voce é estrangeira.” Eu comecei a rir, confesso que eu nem tinha percebido que minha pronuncia era tao pessima. Pedi a ele que que me ensinasse a pronunciar corretamente o nome dele. “That is not so important, Juliet.”. De fato, talvez nao seja. Eu tao pouco me importo que eles me chamem de Juliet.

A Martine, veio até a mim na primeira semana para perguntar se podia ir ao banheiro. A classe é aquela bagunca com professores que entram e pegam coisas, alunos de outras classes que vem buscar material, Mr.Khan ensinando sobre o Sherpas e a Martine, uma menininha minuscula, de pe na minha frente. Ela veio ate a mim, porque eu era a responsavel nao ocupada naquele momento. Eu so tinha que deicidir se ela podia ou nao ir ao banheiro. Por mim, claro que ela podia mas nao sabia como era a dinamica da classe, entao fiquei tentando olhar para o mr. Khan e descobrir se eu podia ou nao deixa-la ir. Ela esperou uns segundos, e percebendo a minha aflicao colocou a mao no meu ombro e disse ” Juliet, it is ok, voce tem o direito de me deixar ir ao banheiro!.” Eu fiquei desconcertada, aquele pinguinho de gente, estava nao so percebendo a minha duvida mas me amparando ali no meu primeiro dia. “Voce tem certeza disso????” eu perguntei seria meio brincando” “Tenho.” “Entao va “. Ela foi, e quando voltou veio ate a mim e disse “See I am already back”.

E eu fui entrando assim nessa classe, pelas maos das criancas, que com toda delicadeza e percepcao iam me explicando a dinamica da escola. Eu aprendo muito mais do que ensino, e essa estoria de voluntariar fica ate parecendo meio injusto, como se eu ganhasse muito mais do que dou. Eu leio, eu ajudo, eu explico, me reviro… mas oque eu masi faco é ouvir. E estar ali para aquelas criancas que tem um milhao de coisas para contar e ninguem muito que preste atencao é simplesmente incrivel! Entao, quando o Mr.Khan contou que eu ia passar ferias no Brasil, o Severum veio me abracar e me me dizer para voltar logo. Depois que ele veio, vieram todos. Com varios conselhos importantes do que eu devia fazer e evitar enquanto estivesse longe.

Voltei, semanas depois achando que eles talvez eles nao lembrassem de mim. O sorriso no rosto eh daqueles que desmonta. Mr. Khan perguntou se eles queriam golden time ( brincar) ou conversar comigo. Quiseram conversar comigo para saber do brasil. Um milhao de perguntas. Tem borboleta? E arco-iris? E que tipo de bicho? “Micos, Tucanos, Araras, “Leopards”, eu disse” . ” Eu acho que o que vc quer dizer é “Jaguar”, pq os “Leopards” vivem na Africa me explicou o Cecai. ”

Faz umas semanas eu tive que ir embora mais cedo porque eu tinha uma aula. Expliquei que eu tinha que ir a aula e de repente as criancas me olharam em total espanto. “Do you go to school???” Eu confirmei. Eles ficaram perplexos. Incredulos. “Juliet, are you an ADOLESCENT????”. Percebi que tinha usado a palavra errada e expliquei que nao. Eu ia a faculdade. Achei que com isso eu fosse acalma-los. O olhar se tornou ainda mais de fascinio. “do you go to the UNIVERSITY?????”. Sim eu disse. “Wow. I dont know anyone who goes to the University!!!” Todos iam repetindo isso.

Essa sexta, semanas depois dessa conversa, quando eu tava indo embora o Tamim veio me perguntar se eu tava indo para minha aula. Eu disse que sim. Eu que to meio cansada do meu mestrado, disse que sim. “you know what …my neighbour goes to the University too!”. Ele me disse com todo orgulho. “Does he?”. Eu perguntei. “Yes! and I told him about you! Now I know 2 people in University!!!” Quem me conhece sabe que eu tenho os meus criticismos sobre escolas em geral. Inevitavel sintoma de quem ja fez muita aula de antropolgia e de post-colonialism. Mas o Tamim, me desmontou. “Juliet, I am going to go to University too! You know why? . No why? ” Cause I want to meet people like you, and learn all those things that you know.”

Eu queria ter explicado para ele, que ele nao precisava ir a universidade. Que aquela percepcao, que aquela docura e gentileza tao valiosas nao eram ensinadas. Que tudo isso a gente as vezes vai perdendo nas escolas, nas universidades da vida. Que la nos mandam sentar bem quietos. Ficar calados. Reproduzir ideias dos outros. Atacar pensamentos. Eu queria dizer para ele que eu aprendo muito mais ali numa classe de criancas de seis anos. Mas eu nao disse, porque com todos os seus problemas as escolas sao lugares de encontro. De aprender a lidar com o social. Com o abstrato. Com os livros.Aprender sobre outros mundos. E talvez essa troca seja isso. Eu vejo nele o meu ideal de pureza, de bondade, e ele ve em mim alguem que ele acha que eh admiravel, alguem que vem de um mundo de misterio, alguem da universidade. Talvez estejamos os dois errados, talvez nao. O mais provavel é que estejamos na metade. Mas ali eu abandonei o meu criticisimo a toa.. para permitir so o sonho. Afinal de contas, oque seria do mundo sem os nossos sonhos?

Drury Lane

Ontem eu fui assistir ao show da minha grande amiga e talentosa cantora/compositora Sabrina Rabello. Eu conheco as musicas tao bem, que um desconhecido ao meu lado, ate me perguntou como eh que eu sabia todas as letras. Eu pude contar a ele com um certo orgulho que a Sabrina aquela talentosa belissima mulher, doutora em fisica, compositora,e cantora era uma das minhas melhores amigas.

Para mim cada show da da Sabrina eh tocante. Talvez porque ela tenha vindo de outro mundo, talvez porque ela tenha se rendido a musica tarde. Ela estava fazendo seu doutorado em matematica aplicada e fisica quando resolveu comprar um piano ha dois anos atras e comecar a compor. Assim, como ela mesmo explicou, terapia para doutorandos que nao podem se permitir terapia.

E dessa compra veio o mundo de musica e letra que existe dentro dela. Eu entendo esse sentimento bem. O que eh ter um mundo dentro e ter que que encontrar algum veiculo para coloca-lo para fora. Simplesmente para nao explodir, simplesmente para tansbordar um pouquinho. E em apenas dois anos, ela coloca de maneira tao irreverente, tao profunda, tao verdadeira que arrebata.

Eu tenho as minhas musicas favoritas eh claro. Na verdade, sao quase todas favoritas. Mas eu escolhi colocar Drury Lane aqui porque eh a musica que fala do escritorio onde a Sabrina fez o seu doutorado. Onde ela teve suas duvidas existenciais, onde ela vivia rodeada por muitos que mesmo tendo suas proprias questoes particulares imagino que nao devem chegar nem perco de entender a intensidade daquela mulher. E que mulher…

Eu coloco Drury Lane aqui para lembrar a todos nos que mesmo de um doutorado de fisica pode se passar a musica. Drury Lane eh para mim a musica que nos lembra que assim como na Turquia muitos mundos coexistem. Eles estao ai, em equacoes, em notas, em palavras, ligados por portas invisiveis. E eh necessario as vezes ter coragem de procurar essa porta pouco “credivel” para entrar num outro mundo que ja eh seu. Um mundo pelo qual sua alma ja suplica. Procuremos a tal porta, tenhamos a coragem de fazer a travessia..mas lembremos tambem que nao eh necessario fechar a porta, deixemos a aberta pois afinal de contas todo o resto ainda existe.