Dos Pintores

Eu não sei o que está acontecendo mas eu fui de não conhecer nenhum pintor para de repente estar rodeada por eles. Tudo começou com a Mounia, minha amiga marroquina de quem eu tanto ja falei, me mandando um e-mail dizendo que tinha virado pintora. Eu que não sabia que ela pintava, fiquei morrendo de medo, porque nao tem nada pior que ver um quadro horroroso e ter que dar sua opinião. Eu entrei no site dela, meio relutante, mas para minha surpresa os quadros eram incriveis. Ela comecou a pintar quando foi morar no Canada e ficou deprimida. De la seus quadros foram parar em NY, Paris, Londres, Marrocos, Oriente Medio, e quando eu cheguei no Marrocos no ano retrasado nao so a Mounia tinha sido escolhida para fazer o poster do festival de filme Africano mas tambem tinha sido convidada para expor no Guggenheim de NY.

Um pouco mais para frente eu conheci a Maryam. De quem eu tambem ja falei, pintora Iraniana talentosissima, mas num tipo de arte diferente do da Mounia. Pinta quadros que sao fotografias, e assim, por causa disso nos ultimos anos tem sempre tido seus quadros expostos na National Portrait Gallery. Eu fiquei encantada ao conhecer a Maryam, não porque ela fosse pintora, e na verdade foi muito antes de ver os quadros dela. Eu a conheci no lugar mais improvavel, um bar bem trash no centro de Londres, um lugar que nem eu e nem ela tinhamos estado antes, e nem ela e nem eu estivemos depois. Ficamos amigas assim meio que imediatamente.

Depois eu fui passar um mes na Romenia no famoso acampamento de Yoga e quando la cheguei no aeroporto de Bucareste pela segunda vez no mesmo mes conheci um pintor. Eu estava negociando com os taxistas ( ja que eu ja sabia os precos), quando fui puxada pelo italiano que tinha sentado ao meu lado no voo, e levada para conhecer o amigo dele de infancia, um pintor Romeno. Disseram-me que era bobagem eu gastar dinheiro que me levariam com prazer até a estação de trem. Usando um metodo cientifico para avaliar a proposta 🙂 eu fui. O pintor era uma figura. Um bon vivant, daqueles que vivem meio na cabeça. Queria me pintar a qualquer custo. E eu que tinha que continuar minha viagem para a costa do mar Negro, expliquei que nao podia ser pintada. Eles entao me levaram para almocar, ele me rabiscou num guardanapo, e meio a contragosto acabou por me deixar na estacao de trem.

Ai, foi o pintor Russo, para quem fui apresentada virtualmente pelo meu amigo yogi polones. E porque nao? Porque nao ser pintada? Era um part time job e como a Maryam e o Romeno ja tinham pedido para me pintar antes, isso acordou em mim uma certa curiosidade. Como seria ser pintada? Então num dia tenebroso, frio e chuvoso, eu fui parar no estudio do tal pintor Russo. Foi uma tarde divertidissima, conversamos, toquei violao, tomei cha, e fui pintada. Uma experiencia dessas incriveis que te faz mais consciente de todos os musculos, do olhar do outro, da sua respiracao, da sua feminilidade. Da relacao arquetipa, da dinamica de poder, da construcao da imagem. Um sentimento meio estranho de ter o que o outro julga a sua essencia ser ali grafado num papel. E com isso eu podia de certa forma me identificar, pois eu ja grafei muitas pessoas na minha musica.

Ai na Turquia conheci um pintor Curdo que nao falava nenhuma palavra de ingles. Toda a nossa interacao portanto em silencio. Ele timido ate na lingua dele. Observava-me introspecto, e de repente do outro lado da mesa, uma mesa com poquiissimas pessoas, estendeu a mao e tocou o meu rosto. Nao assim do nada, na verdade eu tinha olhado para ele achando que ele fosse dizer alguma coisa. E o instante para eu me lembrar que ele nao falava nenhuma lingua que eu falava foi longo demais para eu simplesmente virar como se nada tivesse acontecido. Entao eu parei, porque ele ficou me olhando. Fiquei um pouco desconcertada, numa conversa normal eu teria comentado sobre o tempo, sobre a comida, mas ali sem ter lingua eu fiquei em silencio. Olhando e entrando num certo acordo silencioso, de compreensao que nao podiamos falar. E nesse momento, quando eu estava quase confortavel com o silencio ele esticou o braco e tocou o meu rosto. Eu fiquei completamente derrubada, desconcertada. E ele olhava com os dedos o meu rosto com uma delicadeza indescritivel. O olhar de um artista. E eu a pessoa mais verbal do mundo sem poder dizer nada… Ele olhou por um longo tempo, e eu olhei o artista que me olhava, e assim como ele tocou meu rosto, assim com a mesma delicadeza ele o largou. E eu sem ter acesso a lingua dele…nunca vou saber o que ele viu.

Entao hoje, estou eu voltando para casa. Um dia lindo. O sol transbordado dentro do onibus, entrando pela janela e amarelando suavemente tudo que estava dentro. Eu olhando essa luz meio fascinada, luz que muda tudo, que aquece, que transforma, que impressiona… comecei a pensar nos pintores,… no impressionismo, em monet e debussy quando de repente um senhor bem velho ao meu lado diz ” You are a painter arent you?”. Assim do nada. Percebendo o meu silencioso, meditativo espanto ele continuo num sotaque forte “It is the way you look at the light. At everything around. It is an artist’s look.” Eu nao disse nada. Pensei em explicar que eu sou um fracasso com um lapis na mao. Mas alguma coisa ali tinha sido mais profunda do que isso. Eu sorri “in agreement”. De fato eu sou uma artista dentro de mim. Lutando sempre para ver o mundo cientificamente, mas uma artista dentro de mim. E sera que é tao distante a arte da ciencia? A contemplacao do mundo? Nao sei. Tanto faz, naquele momento aquele sentimento de “encontro” me aqueceu. Eu nao disse nada. Nao era necessario. Nem ele me perguntou esperando uma resposta. Ele so me reconheceu. E ali juntos continuamos o nosso caminho em silencio contemplando a luz.

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