Lonely Planet

Toda vez que eu resolvo ir para um lugar novo eu compro o Lonely Planet. Eu sei, eu sei que é onde estao os mesmos turistas, eu sei que é pouco original, sei que tem gente que prefere o Rough Guide, enfim, o fato é que eu me acostumei com o Lonely Planet, e quando pego o rough guide detesto. “Man is a creature of habit’ como diria o Mustapha meu ex professor e amigo. Quase tudo que eu preciso saber eu procuro no Thorn Tree, forum do Lonely Planet online onde viajantes deixam suas perguntas e respostas. Sempre que eu me deparo com o tanto de informacao que pessoas comuns colocam la, respostas detalhadas para totais desconhecidos, conselhos, dicas, eu me surpreendo. Sempre fico alegre pois para mim o Thorn Tree sempre parece como um pequeno exemplo do altruísmo das pessoas..

Outra coisa que sempre acontece é que assim que eu escolho o destino, assim que eu olho para o mapa uma coisa estranha acontece. Nao que eu planeje muito minhas viagens antes de ir, eu olho mais como quem quer começar a se familiarizar, assim como alguem que se diz ” la vou eu para um lugar bem diferente com todas essas possibilidades”. Toda vez me da um medinho, e toda vez que eu abro um novo guia é como se todas as minhas outras viagens acordassem dentro de mim. Aparecem lugares, pessoas, momentos, coisas que eu as vezes não visitei ha tanto tempo. E vem uma cascatas de momentos, de cheiros, e os cheiros são as memorias mais fortes, pois as vezes eu nem sei de onde eles vêm. E eles sao sentidos dentro de mim, distantes e eu me sinto meio que viajando no tempo.

Hoje eu fui transportada para um mercado no Peru, talvez tenha sido porque meu colega e amigo peruano Gabriel tenha vindo jantar aqui, talvez tenha sido porque eu abri a gaveta da cozinha e vi o lindissimo “jogo americano” que eu comprei no Peru. Sei la, eu sei que de repente veio o mercado, suas cores fortes, e assim que vieram as cores vieram os cheiros e as pessoas. Lembrei-me de como eu que nunca compro nada, fiquei encantada naquele mercado, com tudo feito a mao, eu que nunca compro nada comprei o jogo americano, e depois pinturas, e uma escultura, e logo na horinha de ir embora um tapete! Eu que nao tinha nem casa, nem chao, comprei um tapete. Nao, na verdade eu nao comprei o tapete, eu comprei as cores, eu comprei o mercado, era isso que eu queria: aquele momento.

E quando cheguei de volta ao ônibus com todas as minhas compras tive um acesso de riso. Eu viajando o Peru e a Bolivia sozinha, de mochila, ia ter agora um TAPETE(!) para carregar. Que ideia. Paramos para almocar, e para minha total surpresa eu tinha gastado TODO o meu dinheiro. O problema nao era nem ficar sem comer, mas ficar sem beber naquele calorao. Uma senhora do meu grupo se aproximou e me perguntou se eu nao ia almoçar. Eu expliquei a estoria e ela disse” deixe de bobagem eu te pago o almoco!” Era uma senhora Peruana de uns cinquenta e poucos anos viajando com a sobrinha. Eu fiquei sem graça, ela insistiu, e eu concordei com a condição que me deixasse paga-la assim que chegássemos de volta a Cuzco. Almoçamos juntas, visitamos todas as ruinas do vale sagrado juntas e quando eu voltei para Cuzco por acaso nos perdemos. Eu sabia que ela iria estar na rodoviária naquela noite, então fui la desesperada para encontra-la. Encontrei as, devolvi o dinheiro e agradeci. Ela me contou que iria para Aguas Calientes no dia seguinte de manha, e eu contei a ela que eu pegaria o trem da tarde. Nos veríamos la.

Peguei o trem na tarde seguinte, e a viagem inteira eu senti uma sensação estranha na minha barriga. Eu nao estava entendo muito bem oque estava me acontecendo, eu nunca tinha sentido nada daquele tipo. Acabei dormindo, ou desmaiando nao sei. Só sei que cheguei em Aguas Calientes me sentido mal, muito mal. Sai do trem, o pessoal da minha guesthouse devia estar me esperando. Estilo placa na mao e letras garrafais com meu nome, tudo isso (des)organizado pela senhora do meu hotel em Cuzco. Eu estava me sentido péssima, nao conseguia nem entender direito o que estava acontecendo. Eu nao sabia o nome do hotel, só tinha o contato da senhora de Cuzco que tinha me organizado a viagem. Eu estava realmente abalada. Nao estava nem nervosa pois estava me sentindo tao mal que estava até calma. Estilo po da rabiola, fundo do poço 🙂

Sai do trem, olhei todas as placas e nao vi nenhuma com meu nome. Eu tava tao fraca que nao conseguia nem ler direito. Achei que fosse desmaiar. O que podia ser aquilo??? Tambem nao pensei muito nisso, pois para pensar é preciso energia. Eu me lembro de ficar ali parada, prostrada quando de repente no meio das pessoas veio vindo uma mulher de vermelho, sorrindo, demorou um segundo para eu reconhece-la. Dona Carmen assim apareceu como um verdadeiro anjo, ela e a Sandra. Queriam ter certeza que eu chegaria bem. Percebendo minha palidez ela me fez sentar, perguntou onde eu estava hospedada, e em poucos minutos ligou para a mulher de Cuzco, encontrou os atendentes do meu hotel, brigou com elas por nao estarem la, e ainda me comprou uma coca. Tudo isso enquanto eu suava frio, enquanto eu fazia toda forca do mundo para explicar a ela o quao grata e feliz eu estava em ve-la.

Como era de se esperar nessas situações meu hotel era o ultimo de uma ladeira imensa. A mulher do hotel que ate entao nao tinha aparecido, agora nao parava de falar. Cada palavra dela me deixava mais enjoada. Eu nao tinha a menor ideia do que ela estava dizendo, eu tava meio que num mundo paralelo torcendo para o hotel aparecer, e aquela mulher ficar quieta. Ela falava de um guia que ia me mostrar e explicar tudo sobre as ruinas, um guia que eu ja tinha pago, de um papel, de um milhao de coisas. Queria que eu fosse encontrar o tal guia naquele segundo. Eu mal tinha forcas para subir a ladeira, imagina ir discutir uma expedição arqueológica!. Eventualmente chegamos no hotel. A mulher falava, falava, falava, e assim que eu parei de andar sobrou energia para eu pedir a ela ” por favor eu preciso ir deitar eu estou me sentindo muito mal.” Ela insistia que eu precisava organizar com o guia a minha visita. Nesse momento Dona Carmen mais uma vez me salvou, disse a moca que me deixasse em paz, que me levasse ate o quarto antes que eu desmaiasse no saguão. A moca concordou, resolveríamos depois ” mas e o guia”, ” eu nao preciso do guia” “mas voce ja pagou” “otimo, entao deixa eu ir pro quarto”. Entrei no quarto, Dona Carmen e Sandra se ofereceram para procurar um medico. Eu agradeci mas disse que achava que eu so precisava descansar. Despediram-se, mandaram-me descansar, disseram-me que voltariam depois para ver se eu estava melhor.

Eu nunca fiquei tao feliz de ver uma cama. Deitei com uma dor na minha barriga inexplicável. Eu suava frio, sentia calafrios, me contorcia. De repente eu pensei, talvez eu precise ir ao banheiro. Nao eu nao queria, eu sou muito regulada sempre sei quando preciso ir ao banheiro, nao era o caso, e alem do mais nao queria me levantar da cama. Eventualmente acabei resolvendo que talvez ajudasse. Assim que sentei na privada, eu tive uma baita diarreia. Foi uma coisa realmente incrível, porque eu nao tinha percebido que eu precisava ir ao banheiro. Eu nao tinha percebido que eu estava completamente intoxicada por alguma coisa que meu corpo precisava expelir desesperadamente. O que mais me surpreendeu foi eu nao perceber isso. A melhora foi quase que imediata.

O tapete por outro lado acabou nunca estando em nenhum chao de nenhuma casa onde eu morei. Ele foi bem mais util. Ele me cobriu quando fez -10 graus na reserva Eduardo Avaroa perto do salar do Uyuni, foi meu travesseiro quando cruzei a Bolivia de onibus serviu para embrulhar a escultura. E foi por causa do tapete que eu acabei conhecendo a Dona Carmen. É engraçado o cerebro, tudo isso, toda essa estoria e mais todas as outras estorias nao articuladas, nao verbalizadas estao no simples ato de abrir o Lonely Planet.

4 thoughts on “Lonely Planet

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