Solidão na Paraiba

Faz muito tempo que um amigo meu me pede para colocar aqui a estoria do Edivaldo. Eu resisto pois existe alguma coisa da estoria do Edivaldo que não me deixa escreve-la. Não que ela seja uma estória secreta, na verdade eu já contei essa estoria a muitas pessoas. Pessoas de diversos países e continentes, eu a conto toda vez que toco a musica que eu escrevi para ele, e toda vez que eu conto eu volto naquele momento, naquela praia onde eu o conheci.

Durante toda minha adolescência eu viajei para Ubatuba com meus amigos de escola. Iam os meus amigos que convidavam seus amigos, que levavam seu violões, seus tambores, suas sanfonas, suas flautas, enfim levávamos tudo que pudéssemos tocar. Iam os do Jazz, os do Blues, os da MPB, os do rock ate mesmo os do forró! De comum todos nos nunca tínhamos passado dificuldade financeira séria na vida.

Toda vez que encontro com alguem que na minha casa esteve, eu ouço suas lembranças. Todos nós guardamos memórias bem musicais, bem divertidas dessas viagens. Mas tem uma memória que me marcou mais. E essa é claro, a memória do meu encontro com o Edivaldo.

Eu estava na praia tocando violão, rodeada pelos meus amigos. Era um dia lindo, eu estava tocando e cantando quando de repente me dei conta que minha amiga Carol estava falando com um vendedor de redes. Eu estava meio longe, mas ouvi ela dizer meio que brincando:

-” Mas voce já tentou me vender essa rede todos os dias. No comeco da praia, no meio da praia..”

antes que ela terminasse, ele a interrompeu dizendo:

_ “Se lhe encontrar no final da praia tento de novo e pode ser que você comrpre”

Eu achei aquilo muito engraçado e comecei a inventar na hora uma musica falando da tal rede. Ele me olhou chocado e disse:

-“Oxe, que essa mulher é mae de santo!!!!”
– Que isso, nao sou nao.
– Claro que é eu conheço muito bem, só de olhar, e você é!

Quem era eu para discordar de um expert 🙂

– “Qual seu nome?”, perguntei
– “É Edivaldo”

Disse num sotaque forte e melódico do nordeste.

– De onde voce é Edivaldo?
– De Catolé, la na Paraiba!
– Catole do Rocha, terra do Chico Cesar!??!!?

Ele ficou super impressionado de eu conhecer Catolé, e ainda mais de eu conhecer o Chico César. Comecei a fazer mil perguntas sobre como ele tinha vindo parar em são paulo, e aos poucos ele foi me explicando toda a estoria da vida dele. A cada palavra nos íamos ficando mais quietos. Ele foi explicando da vida em Catole, da dificuldade, da chance de vir ganhar dinheiro em sao paulo, das redes que ele pegou para vender, de quantas ele precisava vender por semana, da divida que ia crescendo pois ele nao conseguia vende-las, do dono das redes que cobrava aluguel e a comida de onde ele estava. Enfim, a cada palavra que ele juntava ia se configurando ainda mais um caso de trabalho “semi” escravo.

– Edivaldo, faz quanto tempo que voce esta aqui?
– Oxe ja tem mais de dois anos.
– E voce tem vontade de ir embora?
– Uma vontade doida. Eu achava que a vida era ruim, mas eu sinto uma falta da Paraiba, uma saudade da minha mulher.
– Nossa, faz dois anos que voce nao a ve?
– Faz. E voce quer saber o pior de tudo???
– O que?
– Ela ta grávida!!!!!

Eu nunca vou me esquecer desse momento. Todos nos, todos nos que estávamos prestando a maior atenção paramos ali. Meio que sem saber o que dizer. Suspensos. Eu fiquei olhando para o Edivaldo, e depois de hesitar um pouco disse

– Edivaldo, mas voce entende que se voce nao ve a sua mulher ha dois anos, e ela ta gravida, esse filho nao é seu??
Ele me olhou na maior naturalidade e disse:
– Oxe, e pai nao é o que cria???

Um pouco chocada e arrebatada eu perguntei

– E voce vai criar essa crianca?
– Oxe minha filha, voce nao sabe como é duro ficar sozinho no meio do nada.

De fato nenhum de nos entendia. Nos todos fomos avassalados por essas palavras. Nos todos tao cheios de convcicoes fomos arrebatados pela singeleza das palavras do Edivaldo. Eu lembro do silencio. Dentro de mim, até o mar parecia ter parado de fazer barulho. Como se tudo ali tivesse ficado suspenso. E eu fiz a única coisa que eu sabia fazer: eu toquei. Toquei uma musica do Chico Cesar, e enquanto eu tocava eu vi o Edivaldo viajar para Catole, vi seus olhos distantes visitando seus lugares queridos. Vi seus olhos se encherem de lágrimas, senti as lagrimas no meu. Assisti Edivaldo engolir as lágrimas com os olhos.

_ Edivaldo, chora.
_ Que isso, é pecado chorar sem razão.
_ Mas uma lágrima seca dói mais…
_ É pecado chorar sem razao, ele repetiu.

E assim eu tive que engolir as minhas também.

– Sabe o que voce faz. Procura todos os dias uma coisa bonita. Se voce ficar mais 10 dias voce tera 10 coisas para contar. Se ficar 20 vai ter mais 🙂
– Que bonito isso. Voce pode escrever essa ideia num papel?

Sem papel eu sugeri que ele guardasse na cabeça, que não precisava ser escrito.

-“É verdade, eu num sei nem ler.” E deu uma gargalhada.

Eu é claro comprei a rede. A que ele escolheu para mim, a mais bonita segundo ele, a mais colorida.

-” Eu nem precisei lhe encontrar no final da praia :)” disse sorrindo.

Antes de ir embora mandou os meninos tomarem conta de mim, ” se nao eu venho com a peixeira! vocês tem que tratar essa menina muito bem!” E assim ele partiu. Eu sem dizer nada levantei, andei em direção ao mar, entrei no mar sem chorar em respeito a ele. Eu que choro até em propaganda engoli toda a emoção que eu senti ali no mar, ali naquele total silencio. Eu transbordei mais tarde na musica que eu fiz para ele: “Solidao na Paraiba”.

Faz mais de 10 anos que isso aconteceu. E todas as vezes que eu vou para Ubatuba eu olho os vendedores de rede pensando no Edivaldo. Eu olho na ansia de NAO encontra-lo. Eu gosto de imaginar que ele voltou para ser pai, eu gosto de imaginar que ele voltou sem ter muitas coisas bonitas para contar para a mulher. Então eu o procuro mas confesso que não muito atentamente, eu olho assim de longe e espero nunca ter que contar a ele que hoje eu entendo bem melhor a solidão.

2 thoughts on “Solidão na Paraiba

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