— Ah, Dr. Miau… Às vezes me dá um desânimo profundo. Mas será que um dia não passa? Afinal, eu já estava tão bem aqui… Quando tudo vira outra coisa, essa angústia me pega.
— Mita, mas será que antes você também não sentia? — disse o Dr. Miau. — Sabe, aquela busca que te fez aprender a paz? Mas bem ali, onde você finalmente se sentia em paz, ver tudo se mover ao redor traz essa angústia.
— Eu entendo, Mita. Lembra daquela vez no barco, quando te contei sobre a Zangmo? Ela andava tanto pela rota, entre tantas árvores e animais… E bem quando sentia que tinha encontrado o caminho, percebia que ele não existia. Ela me ensinou a, em vez de olhar apenas para o barco ou para a terra, olhar além.
— Mas, Dr. Miau, o que ela quis dizer com isso?

— Mita, ela me ensinou que, em vez de ficarmos presos olhando o barco, a terra ou o rio, podemos aprender a enxergar de fora de onde estamos.
— Entendi, Dr. Miau… É como uma observação da vida? Um espaçamento de ser? A capacidade de nós mesmos nos vermos de fora?
— Assim mesmo, Mita. A Zangmo me ensinou que nós não somos os nossos pensamentos. Veja só esta imagem, Mita: no centro, há a serenidade de quem medita no silêncio. Mas ao lado, veja quantos pequenos estados fluem… Há momentos em que surge a voz arrogante, o egoísmo que se fecha, a sensibilidade profunda que chora, a busca faminta por atenção, ou até o drama que tudo amplia.
— E nós somos todos eles, Dr. Miau?
— Não, Mita. Nós somos Aquele que senta no centro, de olhos suavemente fechados, acolhendo a flor de lótus nas mãos. Esses pequenos aspectos aparecem como bolhas de sabão na paisagem da mente. Quando você aprende a apenas observá-los — sem se tornar o drama, sem se identificar com a arrogância ou com a dor —, você descobre a separação. Você percebe que é a essência que observa, enquanto as emoções apenas passam.
— Ah, Dr. Miau… De fato, é a nossa hora de meditar e observar a mente fluir.
Com amor , Dr Miau.


